Mostrando postagens com marcador Henry James. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Henry James. Mostrar todas as postagens

10/02/2026

Da Nuance e Da Minúcia





Em certas épocas da literatura, um determinado escritor parece encarnar a dignidade e a solidão de todo o ofício. Henry James foi “o Mestre” não só, nem principalmente, por causa de seus talentos, mas porque seus modos, seu estilo de vida, mesmo em ocasiões triviais, expressavam o ministério obrigatório da grande arte. Hoje há razão para se supor que Samuel Beckett é o escritor por excelência, que outros romancistas e teatrólogos encontram nele a sombra concentrada de suas lutas e dificuldades. Monsieur Beckett é — até a última fibra de seu ser denso e arredio — o ofício. Não há nenhum gesto supérfluo que se perceba, nenhum floreio público, nenhuma concessão — pelo menos que seja visível — aos ruídos e imprecisões da vida. Os primeiros anos de Beckett parecem ter sido um aprendizado deliberado (aos 21 anos trabalhava como secretário de Joyce). Suas primeiras publicações, o ensaio “Dante… Bruno… Vico… Joyce”, de 1929, a monografia de 1931 sobre Proust, uma coletânea de poemas lançada em 1935 pela Europa Press — nome sintomático —, são preliminares certeiras. Beckett mapeia, em função de suas próprias necessidades, as atrações próximas de Joyce e Proust; o que descarta é o que mais o influencia. Em More Pricks Than Kicks (Londres, 1934), ele já vibra sua nota específica. A guerra vem como uma interrupção banal. Ela cercou Beckett de um silêncio, uma rotina de insânia e dor tão tangível quanto a que se adivinhava em sua arte. Com Molloy em 1951 e Esperando Godot no ano seguinte, Beckett preencheu a menos interessante e mais necessária de todas as condições: a atemporalidade. Superara o tempo; o grande artista é, justamente, quem “sonha à frente”.
Henry James foi representativo pelo volume colossal de sua produção, pela convicção, patente em tudo o que escreveu, de que a linguagem, se trabalhada com suficiente energia e meticulosidade, pode vir a materializar e transmitir a soma das experiências de valor. A rarefação de Beckett, seu talento em dizer menos, é a antítese disso. Beckett usa as palavras como se cada uma delas tivesse de ser retirada de um cofre e vir à luz de contrabando, extraída de um estoque perigosamente baixo. Se a mesma palavra servir, use-a muitas vezes sem parar, até ficar bem gasta e anônima. O fôlego é um legado que não pode ser desperdiçado; os monossílabos bastam para os dias da semana. Louvados sejam os santos pelo ponto final; eles nos mantêm pródigos palradores a salvo da penúria. A ideia de que podemos falar a nossos ouvidos moucos e transmitir a outros seres humanos, cegos, surdos, insensíveis como são, alguma verdade, algum fato ou sensação completa — um quinto, um décimo, um milionésimo de tal verdade, fato ou sensação — é loucura e arrogância. James acreditava visivelmente que a coisa era possível; Proust também, e ainda Joyce, quando, numa última tentativa desvairada, lançou uma rede de palavras sonoras e cintilantes por sobre toda a criação. Agora os portões do parque se fecharam, as cartolas e a retórica se emboloram nos bancos vazios. Santos dos céus, senhor, para um homem já é difícil subir as escadas, quem dirá dizer assim:

Não eram muitos degraus. Contei mil vezes, subindo e descendo, mas o número sumiu da minha cabeça. Eu nunca soube se devia contar um com o pé na calçada, dois com o outro pé no primeiro degrau, e assim por diante, ou se a calçada não contava. No alto dos degraus eu me batia com o mesmo dilema. Na outra direção, quero dizer de cima para baixo, era o mesmo, a palavra não é forte demais. Eu não sabia por onde começar nem onde terminar, esta é a verdade. Portanto, cheguei a três números totalmente diferentes, sem nunca saber qual deles estava certo. E quando digo que o número sumiu da minha cabeça, quero dizer que nenhum dos três números está mais comigo, na minha cabeça.

A reductio da linguagem em Beckett — Echos’s Bones [Ossos do eco], título de seu livro inicial de poemas, é uma designação perfeita — está relacionada com muitos elementos característicos da sensibilidade moderna. “Era o mesmo, a palavra não é forte demais” mostra a tensa jocosidade e o jogo dos tempos verbais da filosofia linguística. Há passagens em Beckett que quase se confundiriam com os “exercícios de linguagem” das Investigações filosóficas, de Wittgenstein; ambos ficam à espreita das inflações e imprecisões insípidas de nossa linguagem comum. Act without Words [Ato sem palavras] (1957) está para o teatro assim como “Preto sobre preto” está para a pintura, uma demonstração de lógica definitiva. Os silêncios de Beckett, sua estranha suposição de que uma rosa pode ser de fato uma rosa, mas que apenas um tolo tomaria uma proposição tão escandalosa como algo garantido ou se sentiria confiante em traduzi-la em arte, guardam afinidade com a tela monocromática, a estática warholiana e a música silenciosa.
Mas com uma diferença. Há em Beckett uma tremenda eloquência às avessas. As palavras, ajuntadas e batidas como são, dançam para ele como dançam para todos os bardos irlandeses. Em parte é a repetição que cria musicalidade; em parte ela brota de uma habilidosa delicadeza no ir e vir, um ritmo no diálogo que segue os moldes de uma comédia de pastelão. Beckett tem ligações com Gertrude Stein e Kafka. Mas foi com os Irmãos Marx que Vladimir e Estragon ou Hamm e Clov mais aprenderam. Em Esperando Godot há diálogos — mas “diálogo”, com sua conotação de uma troca efetiva, é um termo muito impróprio — com fugas musicais que são as que mais se aproximam, na literatura atual, da pura retórica:

vladimir: Temos nossas razões.
estragon: Todas as vozes mortas.
vladimir: Soam como asas.
estragon: Como folhas.
vladimir: Como areia.
estragon: Como folhas.
Silêncio.
vladimir: Falam todas ao mesmo tempo.
estragon: Cada qual para si.
Silêncio.
vladimir: Mais sussurram.
estragon: Farfalham.
vladimir: Murmuram.
estragon: Farfalham.
Silêncio.
vladimir: O que dizem?
estragon: Falam de suas vidas.
vladimir: Ter vivido não lhes basta.
estragon: Têm de falar a respeito.
vladimir: Ter morrido não lhes basta.
estragon: Não é suficiente.
Silêncio.
vladimir: Soam como plumas.
estragon: Como folhas.
vladimir: Como cinzas.
estragon: Como folhas.
Longo silêncio.

Tema para futuras teses: Usos do silêncio em Webern e Beckett. Em Textes pour Rien [Textos para nada] (1955), aprendemos que não podemos continuar falando de corpos e almas, de nascimentos, vidas e mortes; temos de dispensar tudo isso e seguir em frente, da melhor maneira possível. “Tudo isso é a morte das palavras, tudo isso é superfluidade das palavras, não sabem como dizer outra coisa, mas isso não dirão mais.” Eu procuro, diz Beckett, “a voz de meu silêncio”. Os silêncios que pontuam seu discurso, com comprimentos e intensidades que parecem modulados com o mesmo cuidado que há na música, não são vazios. Trazem em si, quase audível, o eco de coisas não ditas. E de palavras ditas em outra língua.
Samuel Beckett é mestre em duas línguas. Esse é um fenômeno novo e profundamente sugestivo. Até muito pouco tempo atrás, um escritor era, quase por definição, um ser enraizado em seu idioma materno, uma sensibilidade que habitava a concha de uma língua com mais intimidade, com mais inevitabilidade do que as pessoas comuns. Ser um bom escritor significava uma intimidade especial com aqueles ritmos da fala que estão num nível mais profundo do que a sintaxe normal; significava ter um ouvido para a infinidade de conotações e ecos recônditos de um idioma que nenhum dicionário é capaz de descrever. Um poeta ou romancista afastado de sua língua materna pelo exílio político ou alguma desgraça pessoal era uma criatura mutilada.
Oscar Wilde foi um dos primeiros “dualistas” modernos (essa especificação é necessária porque o bilinguismo em latim e no próprio vernáculo era, evidentemente, uma condição geral da alta cultura na Europa medieval e renascentista). Wilde escrevia maravilhosamente em francês, mas de maneira excêntrica, para mostrar a elegância desenraizada e a ironia em relação a um padrão fixo que lhe marcaram a obra e a carreira como um todo. Kafka conheceu as pressões simultâneas e as tentações poéticas de três línguas: o tcheco, o alemão e o iídiche. Várias parábolas e contos seus podem ser lidos como confissões simbólicas de um homem que não estava inteiramente à vontade na língua em que escolheu escrever ou que se viu obrigado a adotar. Kafka anota em seu diário em 24 de outubro de 1911:

Ontem me ocorreu que nem sempre amei minha mãe como ela merecia e como eu poderia, apenas porque o alemão impedia. A mãe judia não é uma Mutter; chamá-la Mutter torna-a um pouco cômica. […] Para os judeus, Mutter é especificamente alemão. […] Assim, a mulher judia que é chamada de Mutter fica não só cômica, mas também estranha.

Mas o escritor como polímata linguístico, plenamente à vontade em vários idiomas, é algo muito recente. É um fato de enorme interesse que os três prováveis gênios da literatura contemporânea — Nabokov, Borges e Beckett — tivessem uma fluência magistral em diversas línguas, e que Nabokov e Beckett tivessem produzido grandes obras em duas ou mais línguas extremamente diferentes. As implicações deste fato no novo internacionalismo cultural ainda não foram plenamente captadas. O desempenho desses autores e, em menor grau, de Ezra Pound — com sua mistura deliberada de línguas e alfabetos — sugere que o movimento modernista pode ser entendido como uma estratégia de exílio permanente. O artista e o escritor são turistas constantes olhando as vitrines em toda a gama de formas disponíveis. As condições de estabilidade linguística, de identidade local e nacional em que floresceu a literatura entre o Renascimento e, digamos, os anos 1950, agora estão sob extrema tensão. Faulkner e Dylan Thomas talvez possam algum dia ser considerados entre os últimos grandes “donos de sua morada” na literatura. O emprego de Joyce na escola de idiomas Berlitz e a residência de Nabokov num hotel podem vir a se tornar símbolos da época. Cada vez mais, todo ato de comunicação entre os seres humanos parece um ato de tradução.
Para entender a maestria simultânea e mutuamente formadora do bilinguismo de Beckett, é necessário recorrer a dois auxílios: a bibliografia crítica reunida por Raymond Federman e John Fletcher (Samuel Beckett: His Works and His Critics, que sairá ainda este ano pela University of California Press) e a edição trilíngue das peças de Beckett lançada pela Suhrkamp Verlag em Frankfurt, em 1963-4. Mais ou menos até 1945, Beckett escreveu em inglês; depois, escreveu principalmente em francês. Mas a situação se complica porque, até o momento, Watt (1953) só saiu em inglês e também porque há a possibilidade constante de que obras publicadas em francês tivessem sido escritas inicialmente em inglês, e vice-versa. Esperando Godot, Fim de partida, Molloy, Malone morre, O inominável e o recente Têtes-mortes [Cabeças mortas] apareceram primeiramente em francês. A maioria desses escritos, mas nem todos, Beckett traduziu para o inglês (alguns terão sido concebidos em inglês?), geralmente com cortes e alterações. A bibliografia de Beckett é tão labiríntica quanto a de Nabokov ou algumas das oeuvres multilíngues que Borges relaciona em suas Ficções. O mesmo livro ou fragmento pode ter várias vidas; peças somem e reaparecem muito mais tarde, com leves modificações. Para estudar a sério o gênio de Beckett, é necessário acompanhar lado a lado a versão francesa e a versão inglesa de Esperando Godot ou de Malone morre, casos em que a versão francesa muito provavelmente é anterior à inglesa, e fazer o mesmo com All that Fall [Tudo o que cai] ou Dias felizes, casos inversos em que Beckett refunde seu texto inglês em francês. Depois disso, bem ao estilo de uma fábula de Borges, devem-se pôr os oito textos a girar em torno de um mesmo eixo para acompanhar as permutações do espírito e da sensibilidade de Beckett dentro da matriz de duas grandes línguas. Apenas assim conseguimos perceber a que ponto o idioma de Beckett — as inflexões lacônicas, engenhosas, delicadamente ritmadas de seu estilo — é um pas de deux do francês e do inglês, acrescido de uma forte dose de humor irlandês e misteriosa tristeza.
É tão grande o duplo controle de Beckett que, ao traduzir, ele modifica suas piadas, encontra em sua outra língua um correspondente exato das conotações, das associações idiomáticas ou do contexto social do original. Nenhum tradutor externo teria escolhido as equivalências que Beckett encontrou para o famoso crescendo de mútuos impropérios no Ato II de Esperando Godot: “Andouille! Tordu! Crétin! Curé! Dégueulasse! Micheton! Ordure! Archi… tecte!” não se traduz, em nenhum senso comum, por “Moron! Vermin! Abortion! Morpion! Sewerrat! Curate! Cretin! Crritic!”. “Morpion” é um empréstimo sutil do francês, que significa uma espécie de piolho e também um jogo análogo ao desfiar de insultos de Vladimir e Estragon, mas é um empréstimo não do texto francês inicialmente dado pelo próprio Beckett! A escalada crescente da raiva transmitida pelos sons de cr no inglês deriva do francês não por tradução, mas por uma recriação interna; Beckett parece capaz de reavivar seja em francês ou em inglês os processos poéticos, associativos, que produziram o texto inicial. Assim, a comparação do monólogo alucinado de Lucky na versão francesa e n inglesa é uma aula memorável sobre a índole singular de cada idioma e sua interação europeia. Há uma riquíssima precisão dissimulada em “traduzir” Seine-et-Oise, Seine-et-Marne como Feckham Peckham Fulham Clapham. A morte de Voltaire se converte apropriadamente, mas com uma clara mudança da ênfase, na do dr. [Samuel] Johnson. Nem mesmo Connemara permanece; sofre uma grande transformação, tornando-se “Normandie on ne sait pourquoi”.
Stories and Texts for Nothing [Histórias e textos para nada], publicado recentemente pela Grove Press, é um caso assim. Essa coletânea de três fábulas curtas e treze monólogos é uma cama de gato. As histórias, ao que parece, foram escritas em francês em 1945 e estão relacionadas com Molloy e Malone morre. Os monólogos e histórias apareceram em Paris em 1955, mas pelo menos um deles já tinha saído numa revista. A edição inglesa do livro, com o título de No’s Knife, Collected Shorter Prose, traz quatro textos que não foram incluídos na edição americana da Grove Press, entre eles “Ping”, uma estranha miniatura que foi objeto de uma dissecação interessante no número de fevereiro da Encounter. A edição da Grove, como já se observou em outro lugar, não faz jus à rigorosa meticulosidade de Beckett em termos de datação e bibliografia. As poucas indicações dadas estão erradas ou incompletas. É uma obra fascinante, mas secundária. É menor quando menos porque Beckett permite que várias influências ou corpos estranhos se intrometam. Jonathan Swift, antecessor sempre fantasmagoricamente presente, avulta com muito peso na obscenidade e nas alucinações de “The End”. De Kafka, ou melhor, de um indisfarçado Kafka, há mais do que Beckett normalmente dá a mostrar: “É onde se reúne o tribunal neste serão, nas profundezas daquela noite abobadada, é onde sou escrivão e escrevente, sem entender o que ouço, sem saber o que escrevo”. Joyce está muito presente, com baladas irlandesas, o final de um dia de inverno, o bonde a cavalo e tudo o mais, em “The Expelled” [O expulso]. Lemos em “The Calmative” [O calmante] que “nunca houve nenhuma cidade afora a única” e pretende-se que captemos uma dupla unidade, Dublin-Paris, a jurisdição do grande artífice e agora do próprio Beckett.
Mas, ainda que sejam fragmentos, exercícios simples, os temas essenciais aparecem. O espírito se arrasta feito um catador de lixo vasculhando atrás de palavras que não estejam mascadas até o tutano, que tenham conservado um pouco de sua vida secreta, a despeito da falsidade vigente. O dândi como asceta, o mendigo exigente — tais são as persona e naturais de Beckett. O tom é de surpresa genuína, mas levemente insolente: “É suficiente para fazer a gente se indagar se estamos no planeta certo. Até as palavras nos abandonam, é ruim a esse ponto”. O apocalipse é uma morte da fala (que ecoa a desolação retórica, mas não menos definitiva, de Rei Lear):

Nem todas as pessoas do mundo iriam bastar, ao final dos bilhões você ia precisar de um deus, intestemunhada testemunha das testemunhas, que bênção que tudo foi pelo ralo, nunca nada como começou, nunca nada a não ser nada e nunca, nada nunca a não ser palavras sem vida.

E no entanto, neste reino de latas de lixo e chuva, às vezes “as palavras me estavam voltando e a maneira de fazê-las soar”.
Quando se acende essa iluminação pentecostal, Beckett literalmente canta, em voz baixa, penetrante, numa cadência de um assombro hábil. Comparada ao estilo de Beckett, a prosa de outros autores contemporâneos parece flatulenta:

Sei o que tenciono, ou um braço só melhor ainda, sem braços, sem mãos, muito melhor, velho como o mundo e não menos medonho, amputado por todos os lados, de pé em meus cotos fiéis, estourando de… orações velhas, lições velhas, alma, mente e carcaça se acabando juntas, para não mencionar as cusparadas de catarro, penosas demais de mencionar, soluços virados em muco, expectorados do coração, agora tenho um coração, agora sou completo. […] Noites, noites, que noites eram então, feitas de quê, e quando foi isso, não sei, feitas de sombras amigas, céus amigos, de tempo saciado, descansando de devorar, até sua meia-noite chegar, não sei, não mais do que então, quando costumava dizer, de dentro, ou de fora, da noite se acercando ou de sob o solo.

A lacônica finura de “alma, mente e carcaça se acabando juntas” mostra por si só a mão de um grande poeta. Mas a totalidade desse undécimo monólogo ou meditação murmurante é alta poesia e evoca Shakespeare num eco distante e inquietante (“onde estou, entre dois sonhos separados, desconhecendo ambos, desconhecido de ambos”).
A paisagem de Beckett é desoladamente monocromática. O tema de sua cantilena é a imundície, a solidão, a espectral autonomia que vem após um longo jejum. Apesar disso, ele é um de nossos cronistas indispensáveis, e sabe disso também: “Buu, aqui estou eu de novo, justo quando mais necessário, como a raiz quadrada de menos um, tendo terminado minhas humanidades”. Frase densa, de argúcia brilhante. A raiz quadrada de menos um é imaginária, espectral, mas a matemática não pode passar sem ela. “Terminado” (“terminated”) é um galicismo deliberado: significa que Beckett já domina o saber humano (esses textos se adensam repletos de alusões enigmáticas), que ele fez um inventário acadêmico da civilização antes de fechar os olhos e se desbastar até o osso. Mas “terminado” também significa finis, Fim de partida, Krapp’s Last Tape [A última gravação de Krapp]. É arte em estado terminal, convertendo a maior parte da crítica ou do comentário em vulgaridade supérflua.
A visão que se ergue do conjunto dos escritos de Beckett é estreita e repetitiva. É também austeramente alegre. Talvez não seja muito, mas, com tanta honestidade, bem pode demonstrar ser a melhor, a mais duradoura que temos. A rarefação de Beckett, a recusa em ver na linguagem e na forma literária realizações adequadas da sociedade ou do sentimento humano, faz dele a antítese de Henry James. Mas Beckett é representativo de nosso reduzido alcance atual, assim como James era representativo de uma espaçosidade perdida. Assim aplica-se a ambos a saudação de W. H. Auden no cemitério de Mount Auburn: “Mestre da nuance e da minúcia”.
27 de abril de 1968

George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

12/03/2022

Fios de seda

Quase não li Henry James, que parece que é maravilhoso, segundo um amigo meu. Ele, Henry James, é hermético e claro. Citando James estarei me tornando hermética para os meus leitores? Lamento muito. Eu tenho que dizer as coisas, e as coisas não são fáceis. Leiam e releiam a citação. Aí está ela, traduzida por mim do inglês:

Que espécie de experiência é necessária, e onde ela começa e acaba? A experiência nunca é limitada e nunca é completa; é uma imensa sensibilidade, uma espécie de enorme teia de aranha, feita dos fios mais delicados de seda suspensos na câmara do consciente, e que apanha no seu tecido cada partícula trazida pelo ar. É a própria atmosfera da mente; e quando a mente é imaginativa – muito mais quando se trata da de um homem de gênio – ela apanha para si as mais leves sugestões, abriga os próprios pulsos do ar em revelações.”

Sem nem de longe ser de gênio, quantas revelações. Quantos pulsos apanhados no fino ar. Os delicados fios suspensos na câmara do consciente. E no inconsciente a própria enorme aranha. Ah, a vida é maravilhosa com suas teias captantes.
Avisem-me se eu começar a me tornar eu mesma demais. É minha tendência. Mas sou objetiva também. Tanto que consigo tornar o subjetivo dos fios de aranha em palavras objetivas. Qualquer palavra, aliás, é objeto, é objetiva. Além do mais, fiquem certos, não é preciso ser inteligente: a aranha não é, e as palavras, as palavras não se podem evitar. Vocês estão entendendo? Nem precisam. Recebam apenas, como eu estou dando. Recebam-me com fios de seda.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

23/04/2021

Henry James, Daisy Miller

 


Daisy Miller saiu em revista em 1878 e, como livro, em 1879. Foi uma das raras narrativas (talvez a única) de Henry James da qual se pode dizer que teve logo um sucesso popular. Certamente na sua obra, toda ela sob o signo da evasiva, do não dito, de um esquivar-se contínuo, ele se apresenta como um dos textos mais claros, com uma personagem de moça cheia de vida, que explicitamente aspira a simbolizar a falta de preconceitos e a inocência da jovem América. Contudo, é um conto não menos misterioso que outros desse autor introvertido, inteiramente tecido como é pelos temas que se apresentam, sempre entre sombra e luz, ao longo de toda a obra.
Como muitos dos contos e romances de James, Daisy Miller se passa na Europa, e a Europa é também aqui pedra de toque com que a América se confronta. Uma América reduzida a um specimen sintético: a colônia dos felizes turistas norte-americanos na Suíça e em Roma, aquele mundo ao qual Henry James pertenceu nos anos da juventude, de costas para a terra nativa e antes de se enraizar na ancestral pátria britânica.
Distanciados da própria sociedade e das razões práticas que ditam as normas do comportamento, imersos numa Europa que representa tanto uma sugestão de cultura e nobreza quanto um mundo promíscuo e meio infecto do qual convém manter distância, esses americanos de James são prisioneiros de uma insegurança que os faz redobrar a severidade puritana, a salvaguarda das conveniências. Winterbourne, o jovem americano que estuda na Suíça, está destinado — palavras de sua tia — a cometer erros porque vive na Europa há muito tempo e não sabe mais distinguir os patriotas “de bem” dos de baixa extração. Mas essa incerteza sobre a própria identidade social é de todos eles — esses exilados voluntários em que James se espelha —, sejam rigoristas (stiff ) ou emancipados. O rigorismo — americano ou europeu — é representado pela tia de Winterbourne, que não por acaso decidiu morar na Genebra calvinista, e por mrs. Walker, que é um pouco a contrapartida da tia, imersa na mais indolente atmosfera romana. Os emancipados são a família Miller, expeditamente à deriva numa peregrinação europeia imposta a eles como dever cultural inerente ao seu status: uma América provinciana, talvez de novos milionários de origem plebeia, exemplificada em três personagens, mãe meio acabada, rapazote petulante e bela moça que, forte somente com sua barbárie e espontaneidade vital, é a única que consegue realizar-se como personalidade moral autônoma, construindo-se alguma liberdade embora precária.
Winterbourne percebe tudo isso, mas boa parte dele (e de James) é subserviente aos tabus sociais e ao espírito de casta, e sobretudo boa parte dele (e James por inteiro) tem medo da vida (leia-se: das mulheres). Não obstante, no princípio e no fim, seja feita referência a uma relação do jovem com uma dama estrangeira de Genebra, bem no meio da novela o medo de Winterbourne perante a perspectiva de um verdadeiro confronto com o outro sexo é claramente explicitado; e na personagem podemos reconhecer um autorretrato juvenil de Henry James e da sua nunca desmentida sexofobia.
Aquela indefinida presença que era para James o “mal” — vagamente relacionada com a sexualidade pecaminosa ou mais visivelmente representada pela ruptura de uma barreira de classe — exerce sobre ele um horror misturado com atração. O ânimo de Winterbourne — isto é, aquela construção sintática feita de hesitações, adiamentos e autoironia, característica das paisagens introspectivas de James — acha-se dividido: uma parte dele confia ardentemente na “inocência” de Daisy para decidir-se a admitir estar enamorado (e será a prova post-mortem dessa inocência que o reconciliará com ela, hipócrita que é), ao passo que a outra parte de si mesmo espera reconhecer nela uma criatura degradada e inferior, com a qual é lícito “faltar ao respeito”. (E isso não parece de fato ser motivado pelo impulso dele em “faltar-lhe com o respeito”, mas talvez só pela satisfação em pensá-la como tal.)
O mundo do “mal” que disputa a alma de Daisy é representado primeiro pelo mordomo Eugenio, depois pelo valente senhor Giovanelli, romano, caçador de dotes, ou melhor, por toda a cidade de Roma, com seus mármores, musgos e miasmas portadores de malária. O pior veneno das intrigas com que os americanos da Europa castigam a família Miller é uma alusão contínua e obscura ao mordomo que viaja com eles e que — na ausência de mr. Miller — exerce uma autoridade não bem definida sobre mãe e filha. Os leitores de A outra volta do parafuso sabem quanto o mundo dos empregados domésticos pode encarnar para James a presença informe do “mal”. Mas esse mordomo (o termo inglês é mais preciso e não tem um correspondente italiano: courier, isto é, o serviçal que acompanha os patrões nas grandes viagens e a quem cabe a organização de seus deslocamentos e estadas) poderia ser também exatamente o oposto (pelo pouco que se vê), ou seja, o único na família que representa a autoridade moral paterna e o respeito pelas conveniências. O sacrilégio talvez consista justamente só nisso: em ter substituído a imagem do pai pela de um homem de classe inferior. Já o fato de ter um nome italiano prepara para o pior: veremos que a permanência na Itália da família Miller não passa de uma descida aos infernos (igualmente letal embora menos fatal que a do professor Aschenbach em Veneza, no conto que Thomas Mann escreverá 35 anos depois).
À diferença da Suíça, Roma não pode inspirar autocontrole às jovens americanas só com a força da paisagem, das tradições protestantes e da sociedade austera. O passeio das carruagens pelo Pincio é um turbilhão de intrigas em meio ao qual não se sabe se a honra das moças americanas deve ser salvaguardada para não se fazer má figura com marqueses e condes romanos (as herdeiras do Middle West começam a ambicionar os brasões) ou para não se atolar no pântano da promiscuidade com uma raça inferior. Essa presença de um perigo, mais ainda que no cerimonioso senhor Giovanelli (que também ele, como Eugenio, poderia ser uma garantia da virtude de Daisy, se não fosse pelas origens obscuras), se identifica numa personagem muda, mas nem por isso menos determinante no mecanismo da narrativa: a malária.
Sobre a Roma do século XIX caem à noite as exalações mortíferas dos pântanos circundantes: eis o “perigo”, alegoria de qualquer outro perigo possível, a febre perniciosa pronta a ceifar as moças que saem à noite sozinhas ou mal acompanhadas. (Ao passo que andar de barco nas assépticas águas do Lemano não teria apresentado tais riscos.) À malária, obscura divindade mediterrânea, é sacrificada Daisy Miller, a quem nem o puritanismo dos compatriotas nem o paganismo dos nativos haviam conseguido dobrar, e que justamente por isso é condenada, por todos, ao holocausto bem no meio do Coliseu, onde os miasmas noturnos se adensam envolventes e impalpáveis como as frases nas quais James parece sempre prestes a dizer algo que não diz.

Italo Calvino, in Por que ler os clássicos

13/06/2017

Fios de seda

Quase não li Henry James, que parece que é maravilhoso, segundo um amigo meu. Ele, Henry James, é hermético e claro. Citando James estarei me tornando hermética para os meus leitores? Lamento muito. Eu tenho que dizer as coisas, e as coisas não são fáceis. Leiam e releiam a citação.
Aí está ela, traduzida por mim do inglês:
Que espécie de experiência é necessária, e onde ela começa e acaba? A experiência nunca é limitada e nunca é completa; é uma imensa sensibilidade, uma enorme teia de aranha, feita dos fios mais delicados de seda suspensos na câmara do consciente, e que apanha no seu tecido cada partícula trazida pelo ar. É a própria atmosfera da mente; e quando a mente é imaginativa – muito mais quando se trata da de um homem de gênio – ela apanha para si as mais leves sugestões, abriga os próprios pulsos do ar em revelações.”
Sem nem de longe ser de gênio, quantas revelações. Quantos pulsos apanhados no fino ar.
Os delicados fios suspensos na câmara do consciente. E no inconsciente a própria enorme aranha.
Ah, a vida é maravilhosa com suas teias captantes.
Avisem-me se eu começar a me tornar eu mesma demais. É minha tendência. Mas sou objetiva também. Tanto que consigo tornar o subjetivo dos fios de aranha em palavras objetivas.
Qualquer palavra, aliás, é objeto, é objetiva. Além do mais, fiquem certos, não é preciso ser inteligente: a aranha não é, e as palavras, as palavras não se podem evitar. Vocês estão entendendo? Nem precisam. Recebam apenas, como eu estou dando. Recebam-me com fios de seda.
Clarice Lispector, in A descoberta do mundo

04/08/2014

Excessos

"Não lamento um único excesso dos que cometi na juventude. Só lamento, na minha avançada idade, as ocasiões e possibilidades que não aproveitei."
Henry James

27/02/2014