Mostrando postagens com marcador filme. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador filme. Mostrar todas as postagens

27/08/2026

A Contadora de Filmes


[4]

Quando papai teve a ideia do concurso, eu tinha dez anos e estava no terceiro ano do primário. Sua ideia consistiu em mandar a gente, um por um, para o cinema, e depois nos fazer contar o filme. Quem contasse melhor iria toda vez que passasse um dos bons. Ou um mexicano. O mexicano podia ser bom ou ruim, para meu pai isso não importava. Desde, é claro, que houvesse dinheiro para a entrada.
Os outros iam ter de se conformar em ouvir, depois, o filme ser contado em casa. Nós todos gostamos da ideia; todos nós nos sentíamos capazes de ganhar. Não era em vão que, como todas as outras crianças do povoado, cada vez que íamos ao cinema saíamos imitando os mocinhos do filme em suas melhores cenas.
Meus irmãos sabiam imitar perfeitamente o caminhar cambaio e o olhar oblíquo de John Wayne, o gesto de desprezo de Humphrey Bogart e as incríveis caretas de Jerry Lewis.
Eu os matava de rir ao tratar de piscar as pestanas feito Marilyn Monroe, ou de imitar as boquinhas de menina inocente – voluptuosamente inocente – de Brigitte Bardot.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

24/06/2026

A eleição diferente

O trrrim da campainha penetrou no sono, e acordei tendo à minha frente um motorista uniformizado, que dizia: “O dr. João está lá embaixo, à sua espera”. “Oh, o João é extraordinário, mas praque ele foi se incomodar”, e logo me senti vestido e diante de João, que tinha o seu melhor sorriso. “Vim buscá-lo porque o senhor é um preguiçoso, e está perdendo um belo espetáculo cívico.” O auto rodou, e passamos pela 1a seção da 5a zona eleitoral, que funcionava na praia. As moças votavam de biquíni, os rapazes de short, e cada um ganhava um sorvetinho italiano, ao assinar o livro de presença, que não era um livro, era uma grande barraca de cores festivas. De quando em quando, a mesa interrompia os trabalhos, para jogar peteca ou dar um mergulho.
Passamos depois por um cinema, onde funcionava outra seção. “Aqui votam os mais discretos, aqueles que levam ao extremo o sigilo do voto”, explicou-me João; e pressenti, no escuro, um movimento de mãos que recebiam e passavam cédulas, e vozes murmuradas, que eram as de chamada de eleitores, enquanto Gina Lollobrigida, na tela, colhia morangos do bosque e namorava o carabineiro.(1)
Saímos, e continuamos a apreciar o povo soberano. Havia uma seção no alto do Pão de Açúcar, e para inspecioná-la passamos a um helicóptero pousado no local do antigo Pavilhão Mourisco. Outra, nas matas da Tijuca. Passarinhos traziam no bico delicado o material da eleição, e, pelos caminhos perfumados de resinas e corolas silvestres, pares enlaçados os perseguiam aos gritinhos e risadinhas, como no canto IX dos Lusíadas. Quando um colibri se deixava pegar, as cédulas que ele transportava eram todas do candidato preferido pelo casal, e o casal preferia sempre os melhores nomes; mas era dificílimo escolher, porque todos os nomes eram ótimos. João explicou-me que os canalhas se haviam regenerado ou mudado para países distantes. Quanto aos mentirosos, pensavam mentir ainda, não reparando que uma transformação interior só lhes permitia falar verdade.
“E aquela aglomeração maior, ali embaixo?” “É a seção do Banco do Brasil, não tinha reparado?”, respondeu-me João. Os eleitores brandiam cédulas do Tesouro, e iam depositá-las num guichê com a tabuleta “Recebedor”. O sempre bem informado João esclareceu que peculatários e estelionatários, aproveitando a ocasião, exerciam o direito de voto e restituíam o roubado; em seguida, recolhiam-se espontaneamente à cadeia, e, embora perdoados, teimavam em permanecer lá dentro, para purgação de suas faltas.
“Vou lhe proporcionar um prazer especial”, continuou João; “voemos sobre a Academia de Letras.” O poeta Adelmar Tavares votava em verso alexandrino, que era logo declamado em coro pelos amigos: “Hamilton, senador, como a experiência manda, e, para vereador, Floresta de Miranda”. Manuel Bandeira observou que, lidos como hexassílabos, os versos ganhavam em ritmo e vivacidade. Alguns acadêmicos pediam cédulas de dom Pedro ii, mas um mesário lhes explicava que esse de há muito já era um eleito. Olegário Mariano chorava de emoção. E, aproveitando o ensejo, a Academia deliberava criar poltronas extranumerárias, que eram preenchidas ali no sufragante, com a participação de acadêmicos e adventícios, e foram eleitas quarenta mulheres e ninguém mais se entendeu daí por diante, e a eleição terminou no bar Vilarino, entre uísques.
Faltava-nos ver umas quinhentas seções, e João, sempre amável e eficiente, proporcionava-nos uma lancha, para espiar as eleições marítimas e submarinas; depois, andávamos a esmo pelas ruas, curiosos de ver onde votavam Cacilda Becker, Villa-Lobos, Zizinho, o general Rondon, Heitor dos Prazeres, Jayme Ovalle, Adalgisa Nery. Víamos, sorríamos, cumprimentávamos, e tudo era melhor; e tomávamos um teco-teco e íamos sobre o Brasil afora, e todo o Brasil votava como lhe parecia, dançando, cantando, confraternizando; e voávamos e voávamos sobre a paz e o amor universais. Há sonhos felizes.
-------------------------------
(1) Referência ao filme Pão, amor e fantasia (1953), do diretor italiano Luigi Comencini (1916-2007), com Gina Lollobrigida e Vittorio De Sica nos papéis principais.

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira 

08/06/2026

Oito e meio



I
Sei de pessoas que julgaram artificial o 8 1/2, de Fellini, essa obra-prima do barroquismo. Elas é que devem ser artificiais, porque nossa alma é assim como ali está, com suas idades sucessivas convivendo, o acontecido e o imaginado tendo ambos o mesmo poder traumático e o mesmo pé de realidade. Parece-te que estou falando de poesia?

II
Todas as artes são manifestações diversas da poesia — inclusive, às vezes, a própria poesia.

III
Repara: todo esse atafulhamento das nossas igrejas barrocas apenas poderá significar as complicações ingênuas da fé popular... Fiquem os racionalistas com as paredes nuas e as colunas hirtas. O classicismo pode ser muito lógico, mas é antinatural.

IV
E depois, por que motivo há de a arte clássica significar perfeição? Essa Perfeição, com P maiúsculo, não seria apenas um nome que os bárbaros davam, supersticiosamente, aos padrões de beleza dos civilizados?

V
Em Picasso, em certos Picassos, a boca, a face, o perfil, as orelhas reajuntam-se, não arbitrariamente e sim para formar uma harmonia nova, de maneira que o seu arreglo final não nos amedronta como um monstro, mas tranquiliza-nos como uma obra clássica. Na poesia há muito já acontecia assim, como na montagem de imagens aparentemente heteróclitas e anacrônicas da “Salomé” de Apollinaire e que, no entanto, serviam para formar a atmosfera dançante, luxuosa, versátil e aérea daquele poema. E foi preciso quase cem anos para que o cinema, como no 8 1/2 de Fellini, se integrasse também na poesia. Em resumo: não o desprezo da lógica, mas a aceitação da lógica imagista — o que, como todo verdadeiro modernismo, é tão velho como o mundo, porque usa apenas a velha linguagem dos sonhos e das histórias de fadas.

Mário Quintana, em Caderno H