I
Sei de pessoas que julgaram artificial
o 8 1/2, de Fellini, essa obra-prima do barroquismo. Elas é
que devem ser artificiais, porque nossa alma é assim como ali está,
com suas idades sucessivas convivendo, o acontecido e o imaginado
tendo ambos o mesmo poder traumático e o mesmo pé de realidade.
Parece-te que estou falando de poesia?
II
Todas as artes são manifestações
diversas da poesia — inclusive, às vezes, a própria poesia.
III
Repara: todo esse atafulhamento das
nossas igrejas barrocas apenas poderá significar as complicações
ingênuas da fé popular... Fiquem os racionalistas com as paredes
nuas e as colunas hirtas. O classicismo pode ser muito lógico, mas é
antinatural.
IV
E depois, por que motivo há de a arte
clássica significar perfeição? Essa Perfeição, com P maiúsculo,
não seria apenas um nome que os bárbaros davam, supersticiosamente,
aos padrões de beleza dos civilizados?
V
Em Picasso, em certos Picassos, a
boca, a face, o perfil, as orelhas reajuntam-se, não arbitrariamente
e sim para formar uma harmonia nova, de maneira que o seu arreglo
final não nos amedronta como um monstro, mas tranquiliza-nos como
uma obra clássica. Na poesia há muito já acontecia assim, como na
montagem de imagens aparentemente heteróclitas e anacrônicas da
“Salomé” de Apollinaire e que, no entanto, serviam para formar a
atmosfera dançante, luxuosa, versátil e aérea daquele poema. E foi
preciso quase cem anos para que o cinema, como no 8 1/2 de
Fellini, se integrasse também na poesia. Em resumo: não o desprezo
da lógica, mas a aceitação da lógica imagista — o que, como
todo verdadeiro modernismo, é tão velho como o mundo, porque usa
apenas a velha linguagem dos sonhos e das histórias de fadas.
Mário Quintana, em Caderno H

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