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03/11/2023

Cartas para minha avó

Querida vó Antônia, ainda tenho tanto pra contar… Mas nossa conversa não termina aqui.
Recentemente, publiquei um livro escrito por dezoito mulheres quilombolas e me emocionei quando uma delas me mandou uma foto que a mostrava lendo o livro para a matriarca de seu quilombo. Vi você ali, feliz pela neta que conseguiu estudar. Venho de uma dinastia de empregadas domésticas, lavadeiras, quituteiras, mestras nas sabedorias de multiplicar, que sempre lutaram para que a gente também pudesse ser “doutora”.
Eu lhe perguntei como você lidava com o racismo, mas a verdade é que, independentemente de como foi, saiba que hoje sou referência no enfrentamento a essa violência. Sou porque você foi. Minha mãe saiu de casa com dezoito anos rumo a uma vida incerta, eu tive coragem de escolher estudar em outra cidade mesmo quando tudo era incerto também. Tive a quem puxar. Você era a benzedeira das multidões, centenas de pessoas faziam fila para receber seu atendimento. Você fazia a comida render para alimentar uma família grande. Quando benzia, quando enterrava feitiços no quintal, você fazia cultura negra — mesmo sem saber. Quanto disso ainda está em mim e se potencializa de outras formas?
Não ter vivido mais tempo com você e minha mãe me fez aceitar a tristeza. Há dias tristes em que tento preencher o vazio com belas canções e poemas de amor. Suprir minha carência com sonhos antigos e lembranças. Há dias tristes em que preciso chorar a mágoa da vida, a oportunidade perdida e a falta dos dias de sol. Há dias tristes em que devo ao menos me dar migalhas de esperança e aceitar a dor. O peito aperta, a tv não pega e a chuva encharca as roupas no varal. Histórias de amor acabam, algumas dublagens são ruins, pessoas se afastam, caminhos são separados. Bifurcações existem e a hora do adeus também, e impedir as lágrimas é arrogância. Porque há dias tristes, aceno para a vida. Há dias tristes para que eu me lembre que a felicidade vem de mim, há dias tristes para que eu aprenda a valorizar minha alegria. Não há de se brigar com os dias tristes e nem fugir deles. Há de se aceitar que a vida também é feita de dias tristes.
Eu não me afundo na amargura, pois tive uma avó que ensinou que chá de boldo também cura.

Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó

19/10/2023

Cartas para minha avó

Quando eu tinha vinte e um anos e trabalhava na Casa de Cultura da Mulher Negra, fui apresentada a uma série de autoras negras. Na biblioteca, que levava o nome de Carolina Maria de Jesus, eu soube da existência dessa grande escritora brasileira. E foi lá também que fui apresentada à obra de Toni Morrison, Maya Angelou e Alice Walker. Sinto que fui abraçada por essas mulheres em meus períodos de incertezas e nos momentos em que me sentia perdida. Fui abraçada por essa literatura que me salvou muitas vezes da tristeza e da incompreensão.
Alice Walker lançou uma editora ativista, a Wild Tree Press, para poder publicar seus livros e de outras mulheres negras nos Estados Unidos, num momento em que o catálogo das editoras era predominantemente branco. Seu livro De amor e desespero: histórias de mulheres negras marcou o início da minha vida adulta, assim como os poemas de Angelou como “Ainda assim eu me levanto” e “Mulher fenomenal”. Essas mulheres negras tão distantes geograficamente me afagaram em muitas noites de solidão. Quando não estava trabalhando, passava horas lendo. Comecei a escrever na revista da organização, Eparrei, e tive a oportunidade de entrevistar diversas lideranças do movimento de mulheres negras, com as quais aprendi muito. Participei da organização de eventos importantes como o Seminário Pós-Durban, em 2002, sobre a grande conferência internacional que acontecera no ano anterior; e o Seminário Nacional de Educação e Cultura Afro-Brasileira, em 2004. Essas experiências foram fundamentais para me botar no prumo. Para que eu pudesse entender quais seriam meus objetivos de vida, entender que a vida poderia ser mais.
Mas, de fato, a literatura escrita por mulheres negras foi um bálsamo e uma dádiva. Morrison é uma das minhas favoritas, sou capaz de ficar horas assistindo a suas entrevistas, aprendendo com sua postura e elegância, sobretudo com suas palavras. Essas mulheres negras mais velhas me deram colo quando eu deixei de ter as minhas mais velhas aqui. Ao mesmo tempo que me desafiaram a olhar o mundo, vó, trouxeram incômodos necessários para se refletir. Elas foram tão marcantes que eu ainda não consigo acreditar que escrevi o prefácio da edição brasileira de Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, de Angelou (Oprah Winfrey escreveu o prefácio da edição original). Assim como ainda me é inacreditável ter escrito o prefácio de uma edição de O olho mais azul, meses antes do falecimento de Toni Morrison, com a autorização de seu agente. Indiquei o livro quando fui curadora de um clube de livros e ele foi reeditado no Brasil. Ter assinado aquele texto e vê-lo publicado em um livro da minha autora favorita me tocou profundamente. E me senti mais conectada ainda. Senti como um presente da ancestralidade, como se as mais velhas mostrassem que seguem cuidando de mim.
Recentemente tive um sonho muito gratificante com algumas anciãs. Elas estavam numa floresta, sentadas, todas de branco. Uma delas trazia uma longa trança em seus cabelos grisalhos. Quando eu chegava, elas começavam a me aplaudir. Acordei e senti uma paz de espírito como há muito não sentia.
De alguma forma, escrever para você me conectou ainda mais com minha ancestralidade. Hoje já não choro de dor. Sinto saudade, como não? E lembro com alegria dos momentos que tivemos. Se estou triste, procuro ver o mar. Se não posso, imagino que estou no mar e Iemanjá surge com seus seios fartos, passa água na minha cabeça e me aninha em seu colo. Ela conversa comigo, diz para eu não ter medo, e eu vou me acalmando, deixando a tristeza sair.
Se antes eu amava tomar sorvete em dia quente, hoje tento amar com a paz de um viajante sem rumo. Se antes falava com a inexpressão de meias palavras, com a ânsia de quem extravasa, hoje consigo falar em silêncio. Se antes desejava como quem quer enxugar um pranto doloroso, com a euforia das compras de fim de ano, hoje desejo com a serenidade da noite por um dia de sol. Se antes eu queria as coisas como tempestade de granizo em telhado de vidro, hoje as quero com a força do parto gerando vida, com a alegria de quem come maçã do amor em festa junina. Se antes amava com a sede do deserto, hoje amo saciada com a paciência de quem tira água de um poço. O que quero dizer, vó, é que hoje eu não tenho pressa.
Recebo cartas e mensagens de mulheres mais velhas que rezam por mim. Uma delas disse que acende velas por mim todos os dias. A verdade é que você nunca deixou de cuidar de mim ou enviar quem cuidasse. As mulheres negras salvaram a minha vida.

Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó

07/10/2023

Cartas para minha avó

Vó, poucas pessoas sabem que gosto de escrever contos e poesias. Passei a escrever após a sua morte, quando tinha treze anos. Tenho vários cadernos com poemas, que nunca mostrei a ninguém — um hábito que herdei do meu pai. Sempre me pareceu que este não era um lugar pra mim e eu sentia muita vergonha de mostrar meus escritos, medo de me sentir invadida, não sei. No início da fase adulta, me inscrevi em alguns concursos, recebi menção honrosa em alguns, e em 2007 um poema meu foi finalista do concurso Mapa Cultural Paulista. Fui a Bertioga, pertinho de Santos, ver meu poema exposto num centro de artes. Fiquei feliz e orgulhosa, mas lembro de ir sozinha, ainda me sentia constrangida.
Em 2008, dez poemas meus foram selecionados para o concurso Momento do Autor, da Secretaria de Cultura de Santos. Eu e mais três poetas da cidade tivemos nossos poemas publicados em uma antologia. O lançamento foi todo pomposo, no lindo prédio da Pinacoteca de Santos, e dessa vez parte da minha família esteve presente — Dara, Donald e a mãe dele. Foi um momento lindo para mim. Eu me arrumei toda com a ajuda da minha irmã, escolhi uma caneta bonita para autografar o livro. Foi como sair de um casulo.
Por mais que se tratasse de um livro simples, fiquei feliz. A foto ao lado da minha breve biografia era a mesma do crachá da empresa portuária em que trabalhei. Não sei por quê, mas depois que saiu essa antologia não voltei a comentar mais com ninguém sobre o assunto. De algum modo, sinto que não ter nem você nem minha mãe para partilhar isso comigo me fez não querer partilhar com mais ninguém. Talvez ainda estivesse vivendo meu luto. Ou talvez tivesse vergonha de me expor. Em 2009, outro poema recebeu menção honrosa e foi publicado em uma antologia organizada pela Secretaria de Cultura de Colatina, no Espírito Santos. Em 2010 venci o i Concurso Literário da Unifesp com o poema “Velhas canções”:

Como se criam novas memórias para velhas canções?
Queria reorganizar a linha do tempo
alinhar a ordem das canções
sintonizar outras estações
ler diversas partituras
afinar outros violões
compor novos acordes
baixar diferentes melodias.
Ou,
talvez devesse aceitar essa sina em desafino.
Ele sempre estará preso às velhas canções.
Na sutil inquietação de cada nota musical
que faz emergir o breve passado das lembranças (des) gostosas.

Esse mesmo poema, no ano seguinte, também foi publicado em uma antologia da Universidade Federal de São João del-Rei, em Minas Gerais. Fui até lá para o lançamento e foi um momento feliz na minha vida. Não tinha pretensões de ser reconhecida como poeta, simplesmente amava escrever e participar desses encontros em que ficávamos extremamente felizes em reunir trinta, quarenta pessoas para conversar e brindar àqueles e àquelas que se emocionavam em ver seus poemas publicados. Era tudo muito simples, vó, mas era tudo muito lindo.
Escolhia a melhor roupa, meu coração disparava, realmente curtia o momento. Posso apostar que você e minha mãe fariam dessas premiações, por mais modestas que fossem, uma verdadeira entrega do Oscar só por eu estar lá. A vizinhança toda saberia que sua neta de Santos ganhara um concurso de poesia, cada um que fosse se benzer ficaria a par da notícia. Minha mãe faria questão de se gabar para todos que encontrasse na feira, os vizinhos que nos chamavam de “os neguinhos lá da frente”. Tudo acabaria numa grande festa com churrasco e samba.

Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó

20/09/2023

Cartas para minha avó

Poder contar com amigas leais é um dos pontos mais importantes da minha vida. Passei a infância e adolescência sem ter muitas amigas e na fase adulta me deparei com pessoas que só queriam receber, sem dar nada em troca. Hoje posso dizer com alegria que tenho em quem confiar. Já te falei da Flávia e da Marília, mas também gostaria de te contar sobre a Débora.
Eu a conheci em 2015, em um evento na Universidade Federal de Santa Catarina, onde ela cursava psicologia. E a identificação foi imediata. Em 2016, quando Donald e eu estávamos prestes a nos separar, ela acolheu a mim e a Thulane por uns dias em sua casa, em Florianópolis. E nos levou para passear, e sua bisneta, vó, realizou o sonho que tinha de conhecer a Praia do Rosa.
Tanto Flávia quanto Marília e Débora são apaixonadas por Thulane, cuidam dela, a amam e a protegem. E aconteceu uma coisa linda. Eu sempre falava de uma para as outras, que não se conheciam entre si. Um dia Flávia me pediu para criar um grupo em um aplicativo de conversa, assim todas se conheceriam. E assim fiz. Antes, o que as unia era o amor por mim e por Thulane, hoje todas estão unidas pelo amor e a amizade de umas pelas outras. Nosso grupo é um espaço de trocas, curas, risadas. Flávia já era iniciada no candomblé, como eu disse; levei Marília e Débora para conhecerem o terreiro que frequento. Também apresentei a elas algumas terapias energéticas, e hoje nós quatro as seguimos. Flávia e Débora são muito parecidas e até brincam que são gêmeas — urbanas, taurinas, metódicas. Já Marília e eu somos mais sonhadoras, místicas. É muito bonito acompanhar as potências que se criam com nossas diferenças e o quanto aprendemos com elas. Estar nesse grupo, nesse espaço seguro de afeto, foi e é fundamental para mim. Nunca mais me senti só.

Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó

15/09/2023

Cartas para minha avó

Mãe, me leva ao dermatologista, estou com umas manchas esquisitas.”
Claro, filha.”
Obrigada.”
Jamais agradeci a meus pais por me levarem ao médico ou coisa parecida. Na minha inocência, eu entendia que essas eram coisas que mães e pais faziam, como parte de sua “obrigação”. Thulane não vê assim. E acho lindo, talvez ela me enxergue para além do papel de mãe, talvez conheça a Djamila. Faço questão de lhe dizer quando estou triste, de falar quem eu sou. Claro que sou filha de dona Erani e não tolero desrespeito — exerço autoridade, não autoritarismo. Eu não queria educá-la para ter medo de mim, mas para me respeitar. Estou aprendendo a ser mais generosa comigo mesma quando erro, procuro não me cobrar tanto. Faço isso por nós, para romper mais um ciclo imposto pelas mãos invisíveis.
E nossa relação é baseada na confiança. Ela me fala dos problemas na escola, dos meninos que acha interessantes. Um ciclo de silêncio sobre sexualidade foi quebrado e ela me expõe suas dúvidas naturalmente (às vezes me assusto em perceber como ela cresceu). Assim como você, vó, ela adora plantas, embora ainda estejamos aprendendo como cuidar de todas que temos aqui em casa. Outro dia, ela ficou aos prantos porque o abacateiro havia morrido.
Thulane é muito sensível. Eu a confortei, disse que veríamos o que havia acontecido de errado com o abacateiro e foi preciso fazer um minuto de silêncio. Pensei em você, vó, que saberia responder o que deu errado e como nos ensinaria como cuidar melhor dele. Mas tudo bem: a vida também é feita da falta. Muitas vezes Thulane é dramática, você sabe, puxou à avó…
Continuo cuidando das ervas como você me ensinou, dou banho de arruda e guiné em Thulane depois de esfregar as ervas em seu corpo. Houve um tempo em que ela se disse ateia. Fingi que aceitei, mas em toda oportunidade eu a alfinetava: “Aff, se sua bisavó benzedeira ouvisse isso, você é bisneta de bruxa, minha filha, não adianta negar”.

Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó

26/08/2023

Cartas para minha avó

Aos trinta e seis anos, vó, depois de treze anos de casamento, eu me separei. Me mudei para São Paulo com Thulane, onde vivo desde então. Donald e eu queríamos fazer o casamento dar certo, mas era o que significava dar certo que não nos entendíamos. E foi importante libertar a nós dois. Penso que amar é ser suave com as diferenças do outro. Eu não precisava de um juiz, para esse papel já tinha o mundo. Recomeçar a vida não foi fácil, a gente se acostuma tanto a estar com alguém, a depender por anos, que praticamente esquece o que é viver só.
Enquanto eu procurava um apartamento em São Paulo, Thulane ficou com o pai. Foram meses decidindo onde ela estudaria, quais atividades eu teria condições de pagar fora da escola. Quando finalmente encontrei uma casa no final de 2016, meu trabalho como secretária-adjunta de Direitos Humanos de São Paulo estava terminando. Foi um período importante da minha vida, sabe. Trabalhei durante a gestão do prefeito Fernando Haddad. No ano seguinte, esse empenho me valeu o prêmio Cidadã São Paulo na categoria Direitos Humanos.
Como não tinha mais trabalho fixo, preferi não me endividar e comprei o necessário: fogão, geladeira, duas camas. Da minha vida pregressa, trouxe somente meus livros e minhas roupas. Sentia necessidade de começar de novo. Não tinha condições de mobiliar a casa toda, e disse a Thulane que, se quisesse, poderia ficar com o pai, cuja casa já estava estruturada, até que conseguisse me organizar. Para minha alegria, ela decidiu recomeçar junto comigo.
No início de 2017, apresentei uma temporada do programa Entrevista, no Canal Futura. As gravações aconteciam no Rio de Janeiro e foi importante contar com uma rede de apoio para me ajudar a cuidar de Thulane: algumas amigas se revezaram para que eu pudesse trabalhar. Foi uma experiência muito marcante, entrevistar pessoas cujos trabalhos eram significativos para a sociedade. Minha primeira entrevistada foi Marielle Franco, que no ano anterior havia sido uma das vereadoras mais votadas no Rio. Uma mulher combativa, admirável, que teve a vida interrompida de forma drástica, assassinada com quatros tiros poucos meses depois. Espero que esteja bem aí no Orun.
Com parte do pagamento como apresentadora, comprei uma máquina de lavar e um sofá. Thulane nunca reclamou de precisar sentar no chão por um tempo, de não ter mesa para fazer lição. Não sei se sentia falta ou não, mas ela me dizia “Mãe, está tudo bem recomeçar a vida”. Quando eu fazia algum trabalho — “agora a mamãe tem dinheiro pra gente comprar um micro-ondas!” —, ela se alegrava e ia escolher a nova aquisição comigo. Compramos nossa mesa no final de 2017 e foi uma festa. Foi bom redescobrir meus gostos, descartar coisas das quais fui condicionada a gostar.
Thulane e eu montamos um lar. É importante que você saiba que sua bisneta é incrível. Foi fundamental contar com a parceria dela naquele momento, impressionante como ela me apoiou, me compreendeu. Quando eu contei a ela sobre a separação, estava com medo de sua reação, de fazê-la sofrer. Eu a levei para caminhar na praia, na beira do mar, algo que sempre fazíamos juntas. Aos onze anos, a resposta dela foi: “Mãe, divórcio faz parte da vida. Você tem o direito de ser feliz”. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu fiquei tocada e surpresa.
Por mais que entendamos que o fim é o único caminho possível para certas relações, quando esse momento chega não deixa de existir o luto. Quando era jovem e pensava que nunca casaria, eu dizia que o fim de um casamento significava ter de fazer outros álbuns de fotografia. Aos trinta e seis anos, entendi que a separação pode ser sentida como uma espécie de morte. Uma amiga chegou a questionar minha decisão utilizando o argumento “mas pelo menos ele não te bate”. Dói ouvir isso: as mulheres estão submetidas a relacionamentos tão violentos que se não apanham já se dão por satisfeitas, como se fosse uma benesse e não um direito fundamental. Há casamentos terríveis e muitas mulheres pagam com a morte quando se negam a aceitar imposições machistas, isso é diário no Brasil, infelizmente.
E há aquelas que são incompreendidas quando ousam se separar de homens bons. “Pelo menos ele é um homem bom”, “pelo menos é um bom pai”, “pelo menos ele não bebe até cair”, como se essas qualidades não fossem obrigações de uma pessoa minimamente decente. O parâmetro é tão baixo que quase me senti culpada por exercer meu direito de seguir minha vida. É triste observar que, para mulheres como eu, muitas vezes o casamento é visto como um prêmio, e abdicar dele pode ser encarado como desfaçatez. Foi triste observar que para as mulheres, sobretudo negras, o amor pode ser nivelado sempre por menos. Eu não podia aceitar o “pelo menos”, eu tinha o direito de querer mais, mesmo que nem soubesse o que isso significava.
Respeito o pai da minha filha e desejo que ele seja feliz, nós compartilhamos o amor por um ser lindo, mas eu precisava ser fiel a mim mesma. Você ficou viúva em 1983, vó, minha mãe se divorciou em 1999. Nossas vidas tomaram rumos diferentes, mas posso afirmar, feliz, que hoje não sonho mais com o amor. Hoje, num novo relacionamento, vivencio o amor em todas as suas possibilidades, como porto e liberdade.

Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó

16/08/2023

Cartas para minha avó

Foi no início do mestrado que eu retornei ao candomblé. Sabe, vó, depois de sucessivas decepções com sacerdotes, minha mãe acabou abandonando a religião e num ato de fúria se desfez de tudo. Por conta disso passei muitos anos afastada do terreiro. Aceitava como cultura, participava de palestras na Casa de Cultura da Mulher Negra, mas me recusava a seguir nessa direção espiritualmente. Tudo começou a mudar quando minha amiga Flávia, aquela que mimava Thulane, decidiu se iniciar e me convidou para assistir a sua saída, o momento em que seria apresentada como Iaô. Ela morava em Santos, mas o terreiro que frequentava ficava em Taboão da Serra. Fui de carona com os pais dela.
Quando cheguei lá, a Ialorixá da casa, a grande Mãe Ana de Ogum, sem me conhecer, me olhou e disse: “Olá, Oxóssi, seja bem-vinda”. No momento em que Flávia, filha de Iansã, saiu aos toques do atabaque, tive uma intensa crise de choro. A mãe dela tentava me acalmar, mas em vão. Mãe Ana me observava do outro lado do barracão, assentindo com a cabeça. Terminada a cerimônia, ela veio conversar comigo: “Minha filha, você viu o estado em que você ficou? Isso é Orixá te chamando de volta, você é iniciada, precisa cuidar das suas coisas. Não precisa ser aqui comigo, mas você precisa cuidar”.
Aquelas palavras soaram como um abraço. Eu voltei algumas vezes ao terreiro de Mãe Ana, que tão generosamente me acolheu. Ela me disse que eu precisava fazer o axexê de minha mãe, ritual fúnebre no candomblé, pois na época não havíamos feito, já que minha mãe não pertencia mais à religião.
Pouco depois, um colega de faculdade me apresentou ao terreiro Ilê Obá Ketu Axé Om’Nila, perto de São Paulo. A primeira vez que estive lá foi numa linda festa de Oxóssi, orixá da casa e também o meu. A festa foi linda e me senti acolhida. Semanas depois marquei um jogo de búzios, e enquanto esperava o babalorixá Rodney William me chamar, fui acometida por uma paz. E ali o caçador voltou pra casa.
Babalorixá Rodney disse a mesma coisa que Mãe Ana: “Sua mãe te iniciou no candomblé, agora é você quem vai ser responsável por fazer o ritual pra ela voltar pra casa”. Doze anos já haviam se passado desde sua morte quando fizemos o axexê. Como parte do ritual, escrevi mensagens pra ela, e foi como se um ciclo se concluísse. Assim como faço com você agora, falei da minha vida, agradeci. A partir daquele momento, me senti reconectada com minha ancestralidade.
Orixá sempre esteve com você, minha filha, era você que não estava com Orixá”, pai Rodney me disse. E minha vida realmente ganhou mais sentido e passei a sentir mais sua presença, vó, de um modo que não me traz mais dor. Sinto que você está orgulhosa, e agora vai ficar mais ainda: Margareth Menezes, uma cantora baiana conhecida internacionalmente, fez uma música pra mim! Acho até que você sabe disso, pois Margareth me disse que, ao criar a letra, ela sentiu necessidade de falar de Nanã. E não sabia que você era de Nanã… O nome da canção é “Djamila, Ribeirão de Luz” e conta minha história, fala dos livros, da relação com meus pais e com os orixás. Quando ela cantou a música pra mim, eu fui pega de surpresa. Nós estávamos conversando numa rede social e ela simplesmente começou a cantar. Quando eu entendi que se tratava de uma música em minha homenagem, as lágrimas rolaram. Senti um carinho na alma, os ancestrais felizes, me comunicando essa felicidade. Uma música que fala de você, vó, da minha mãe, de como fui feita no candomblé, Iemanjá sendo a minha mãe do coração. Coisas que eu não havia dividido publicamente. Ogum é o orixá de minha mãe; Nanã, a sua. É interessante como esses orixás foram descritos na música, e isso só reforçou minha fé. Demorou, mas agora consigo entender. E me vejo como uma parte que se integra ao todo.
Quando Denis me mandou aquela sua foto vestida com roupa de candomblé, fiquei um bom tempo olhando para ela, com lágrimas nos olhos. Eu sabia que você frequentava o terreiro, mas eu nunca havia visto você usando os trajes. E ali tudo fez mais sentido, a linhagem feminina da nossa família foi a responsável por ser a guardiã e protetora da nossa ancestralidade. Você foi iniciada, filha de Nanã, minha mãe, filha de Ogum, eu, filha de Oxóssi, Thulane, filha de Iemanjá.
Ao escrever essas cartas, muita coisa mudou. Thulane decidiu conhecer o terreiro, jogou búzios com o babalorixá Rodney e se encantou com a religião. Até já chama Iemanjá de mãe. Aquela foto me impactou de uma forma muito forte, era como se você estivesse me contando mais sobre você para que eu pudesse descobrir mais sobre mim. Como meu babalorixá sempre diz, a dança dos orixás, o xirê, você sabe, acontece em círculo e em sentido anti-horário. Em um dado momento, a mais velha encontrará a mais nova. A mais nova precisa da mais velha porque a última pavimentou os caminhos que permitiram a existência da mais nova. E a mais velha também precisa da mais nova para continuar existindo. Não há mais fragmentos soltos, há continuidade e permanência.

O pássaro da liberdade chegou,
Planou por toda cidade, planou
Nasceu nos braços dos Santos
Voou por todos os cantos
Cruzou a fronteira é libertador

Seguindo seu pai
Tem os livros no altar
Uma luz de potente força no olhar
Ascendente de inteligência
Negritude profunda potência
Filha de Oxóssi
Coração de Iemanjá

Seu despertar
É de quem tem o dom
Mulher de fé
Capitã da Geração
Sua espada é sua Caneta
Claridade é sua competência
Ensinando ao povo
Pegar a visão

Djamila Ribeiro (hão) de Luz
Pra navegar nos mares do amor
Oxalá é quem te conduz
Tem guarnição de Ogum e Nanã Borocô

Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó

10/08/2023

Cartas para minha avó

Vó, essa talvez seja uma lembrança prosaica, mas vou te contar mesmo assim. Um dia em casa, em Santos, preparei um prato simples, rápido, porque, como disse, não suportava ter que cozinhar — ainda mais ter que perder muito tempo fazendo isso. Fiz arroz, peito de frango e completei com batata palha. Como éramos só Thulane e eu, se aquilo não fosse suficiente, eu fritaria um ovo ou comeria um lanche. Porém, de repente, Donald chegou para almoçar, e eu vi que não havia arroz o bastante. Eu disse, então, que iria ao mercado — na verdade era uma padaria que vendia alguns produtos — buscar mais alguma coisa. O dia estava agradável, o sol havia aparecido após dois longos dias chuvosos. Enquanto andava, sentia aquele sol de outono aquecendo meu rosto. Sóis de outono são na medida certa, nem verão, nem inverno.
Passei pela praça em que costumava levar minha filha, os bancos vazios me convidavam para sentar e apreciar mais o sol. Na padaria havia três marcas de arroz, mas somente em duas havia etiquetas com o preço. Hesitei e acabei pegando o pacote sem preço, na esperança de que fosse o mais barato. No caixa, vi que aquele arroz era dez centavos mais caro que os outros dois. Boa estratégia, pensei. Lembrei de minha mãe, que não aceitava receber troco em bala nem que o caixa deixasse de dar dez centavos de troco. “Por isso que eles estão ricos, de dez em dez”, ela dizia.
Atravessei a rua e passei novamente pela praça, aproveitei mais um pouco do sol e quase aceitei o convite do banco. As folhas das árvores balançavam, as crianças brincavam no parque, mas eu tinha de fazer o arroz. Fui ao supermercado da esquina comprar mais filé de frango. Pedi ao rapaz do balcão da carne que cortasse o peito em cubos, para estrogonofe, e peguei mais um pacote de batata palha.
Eu me sentia tão leve que até a moça do caixa, que geralmente era indiferente a mim, me tratou bem. Enquanto ela passava as compras do senhor que estava à minha frente, de vez em quando me olhava. Na minha vez, perguntou gentilmente se eu desejava nota fiscal paulista. Até aquela moça, uma pessoa que só me via vez por outra, conseguiu perceber minha invejável distância do mundo, minha sincera apatia por obrigações sem sentido. Afinal, havia um sol lindo de outono.

Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó

03/08/2023

Cartas para minha avó


No ano seguinte, em 2014, participei de mais uma edição da Simone de Beauvoir Society Conference, que aconteceu em Saint Louis, no Missouri, a cidade natal de Margaret A. Simons. Eu havia conseguido bolsa da Fapesp durante o mestrado e as coisas ficaram mais fáceis, pois havia subsídios para viagens acadêmicas como essa. Foi a terceira vez que saí do Brasil.
Percebe, vó, as primeiras experiências internacionais vieram por causa da universidade, ou seja, até aquele momento eu ainda não havia viajado para fora pra descansar ou simplesmente por lazer. Então decidi que dessa vez eu teria a diversão antes. Como as passagens para Saint Louis estavam muito caras e ultrapassavam o valor que a Fapesp disponibilizava, resolvi pesquisar se havia trens para lá saindo de Chicago, uma cidade que eu sempre quis conhecer por seus tradicionais bares de blues, sobretudo o Blues Chicago.
Eu amo blues e jazz e já cheguei a ficar horas pesquisando sobre o Blues Chicago, um dos primeiros bares a contratar mulheres para cantar. Para minha alegria, não só havia trem, como cabia no orçamento. Como precisava economizar, escolhi o quarto mais barato de um hostel perto do bar. Por uma noite, dividi o quarto com outras nove pessoas, todas desconhecidas. Mas tudo bem, eu realizaria um sonho.
Assim que cheguei em Chicago, saí para explorar a cidade. Fui até a Willis Tower, um dos prédios mais altos da cidade e um dos principais pontos turísticos. Andei bastante, fiz fotos, pedia informações na rua quando não entendia os mapas, e voltei para me arrumar para o grande momento. Ao chegar no quarto, encontrei uma moça sentada, mexendo em seu computador. Tentando fazer o mínimo de barulho possível para não incomodá-la, abri o meu armário e peguei minha mala. Foi quando vi que meu telefone estava ficando sem bateria e eu não tinha um adaptador de tomada para poder recarregá-lo. Precisei quebrar o silêncio e falar com ela, pois não havia a mínima possibilidade de eu ir ao Blues Chicago sem registrar aquele momento único.
Ao perceber meu sotaque, ela me perguntou de onde eu era e passamos a conversar. Ela se chamava Rosario, era peruana e fazia doutorado numa universidade americana. Para minha surpresa, ela também estudava teoria feminista e engatamos na conversa. Rosario estava de férias e havia decidido viajar pelos Estados Unidos de trem. Eu contei a ela o que estava fazendo lá, que participaria de uma conferência em Saint Louis, mas que havia aproveitado a oportunidade para conhecer o Blues Chicago. Ela desconhecia esse ritmo musical, mas aceitou meu convite para ir comigo. Fiquei muito feliz, pois além de Rosario ser agradável, não ficava corrigindo meu inglês como os norte-americanos faziam. E, sobretudo, porque seria bom ter uma companhia numa cidade grande e desconhecida.
Para economizar, fomos a pé. Seria uma caminhada de vinte e cinco minutos, mas quando estávamos na metade do trajeto fomos abordadas por um policial que nos questionou o que fazíamos ali àquela hora da noite. Ele nos aconselhou a não andar sozinhas ali, pois segundo ele seria muito perigoso. Não houve outro jeito, vó, tivemos que rachar um táxi.
Quando chegamos, minha alegria era contagiante. Lembro que, quando assistia aos vídeos sobre o Blues Chicago na internet, em um deles, aparecia um homem negro, com um vozeirão, e dizia algo como: “Bem-vindo ao Blues Chicago” e, em seguida, aparecia uma mulher cantando e dançando. Esse mesmo homem estava na porta cobrando a entrada. Fiquei fascinada quando o vi.
Quando o show começou, eu parecia estar em um sonho. Ao contrário de muitos bares de jazz no Brasil, em que as pessoas ficam sentadas bebendo, lá todos dançavam animados, embalados pela voz maravilhosa de Laretha Weathersby e banda. Eu dancei, cantei, gritei. Rosario foi totalmente tomada pela música e entrou no mesmo clima. Foi catártico. Ainda mais quando, em um momento do show, Laretha perguntou quem havia vindo de outros países. Rosario, eu e mais algumas pessoas levantaram as mãos, e fomos convidados a dançar com Laretha em frente ao palco. No final do show, tiramos foto com a banda, eu comprei o cd de Laretha e quando fomos ao banheiro vimos que havia uma parede na qual as pessoas escreviam seus nomes. Claro que decidimos registrar os nossos na história daquele lugar: “Djamila, do Brasil, e Rosario, do Peru, estiveram aqui”.
No dia seguinte, ambas seguiram suas viagens e seus destinos. Rosario me explicou como ir à estação de trem andando e, apesar de estar com uma mala grande, assim fui para economizar. Ansiava viajar de trem fazia muito tempo. Minha única experiência fora quando criança, quando fomos de Santos a Mongaguá. Havia sido uma viagem incrível, minha mãe estava leve e feliz, praticamente não brigou com a gente e essas é uma das memórias mais doces da minha infância. Depois, o governo encerrou as viagens de trem daquele tipo. Hoje, em Santos, no local onde ficava a estação de trem, há um hipermercado.
Tudo parecia mágico pra mim. Ver o trem, andar até meu vagão, esperar ansiosa pela partida. Fiquei tirando fotos, enviando mensagens para as minhas amigas, relembrando os momentos no Blues Chicago. Durante a viagem, passamos por lugares muito pobres, muitos deles bairros negros. Quando cheguei em Saint Louis, resolvi pegar um táxi. O taxista era um senhor negro extremamente gentil e, ao perguntar de onde eu vinha, começou a fazer perguntas sobre o Brasil.
Lembro de ele ter ficado impressionado quando eu contei que o Brasil havia sido o último país das Américas a abolir a escravidão. Ele, como negro, contou sobre como foi difícil sua infância naquela cidade, que, apesar de ter avançado em algumas questões, ainda era muito racista. “Esse país foi fundado no racismo e isso infelizmente nunca mudará”, disse. Ele me falou dos lugares que eu deveria conhecer, como o Observatório, e me contou mais da história da cidade e do arco enorme que foi construído ali para celebrar a reconquista. Quando estávamos perto do hotel onde eu ficaria, ele disse que as pessoas implicariam com o meu sotaque, mas que eu não deveria dar importância. Declarou também que discordava da política internacional americana, que foi contra a invasão no Iraque e finalizou:
É duro dizer isso, mas nós somos burros. Nosso governo está matando as pessoas e a gente não liga. Enquanto estivermos comprando nossos aparelhos eletrônicos, nos entupindo de coisas que não precisamos, nós não nos revoltaremos. E isso me envergonha. Eu sou um americano antiamericano.”
Nós nos despedimos, ele me deu seu cartão caso eu precisasse novamente de um táxi e lembro de ter entrado no hotel com aquele sorriso que a gente abre apenas quando pode conversar de igual para igual com alguém que tem uma visão crítica do mundo.
A conferência foi sensacional, eu apresentei parte da minha pesquisa de mestrado e fui, mais uma vez, recebida com muito carinho. Rever Margaret A. Simons foi uma experiência linda, e mais uma vez dividi o quarto com Deniz Durmuz, uma amiga turca que havia conhecido na conferência do Oregon. Dessa vez, a Beauvoir Society havia organizado o evento muito plural, em parceria com outros grupos, como o de Filosofia Africana da Universidade de Rhoden Island, da Sartre Society, de grupos relacionados a pesquisas sobre feminismo negro.
Pude conhecer pessoas de várias parte do mundo, algumas que são minhas amigas até hoje. Formamos um grupo muito acolhedor e saímos pra conhecer os pontos turísticos que o gentil taxista havia me indicado. Um dia, as pessoas da organização do evento nos levaram para um bar sensacional, o BB’S Jazz Blues & Soups. Eu me lembro como se fosse hoje do quanto dancei aquela noite. Como estava me sentindo em um ambiente seguro, aproveitei cada segundo, vibrei com as músicas, vivi aquele momento da melhor maneira. Parecia a moça de vinte e um anos no Bar do 3, vó, suada, sem se importar com a maquiagem escorrendo, simplesmente sendo. Todas as pessoas do nosso grande grupo vibravam na mesma energia.
Na ida a Saint Louis, enquanto aguardava o trem, tirei uma foto minha olhando pela janela e postei numa rede social com a seguinte legenda: “A caminho de Saint Louis, no trem, entre a expectativa e a espera”. Mas ali, naquele momento, aplaudindo efusivamente ao final de cada música, não existia mais expectativa, havia entrega. Eu não precisava fingir autenticidade, eu simplesmente podia sentir, deixar sair pelos meus poros todas as situações de angústia por não saber qual caminho seguir, deixar escorrer toda mágoa das coisas que não haviam sido, cada ressentimento pelas situações de solidão. Por um breve momento, olhei para o passado sem nostalgia, somente como contingências que me traziam ao agora. Quando ouvi a banda tocar uma canção de amor, me emocionei, mas não de tristeza por amores do passado ou por situações mal resolvidas no meu casamento. Foi um choro de alívio por eu, apesar de todas as pedras no caminho ou as pedras que me atiraram, não ter desistido de mim para poder estar ali, naquele lugar, naquele exato momento, no BB’S Jazz Blues & Soups, chorando por ouvir uma música despretensiosa de amor.
Aquela mulher de trinta e quatro anos se sentiu plena, como se as asas agora não precisassem mais ser coladas; elas sempre estiveram ali aguardando o momento do voo.
Após dias fantásticos, passei um susto na volta. Havia planejado a minha volta para Chicago no mesmo dia do voo para São Paulo. Eu me programei para sair com bastante antecedência e daria tempo de sobra para chegar em Chicago com calma e ir para o aeroporto. Porém, não contava com os atrasos dos trens nos Estados Unidos — que, descobri, eram muito comuns. Houve um atraso de quase quatro horas e eu, sem dinheiro, já imaginava o terror que seria caso perdesse o voo. Não tinha cartão de crédito, o que eu ganhava da Fapesp servia para pagar parte do aluguel em casa e para me manter estudando. Meu marido ficaria irritado, e eu precisaria passar alguns dias no aeroporto até que tudo pudesse se resolver.
Devo ter perguntado algumas dezenas de vezes para os funcionários do trem o que estava acontecendo, mas todas as respostas eram evasivas. Eu não tinha um plano telefônico internacional, o wi-fi do trem só funcionava em movimento, não tinha como avisar ou ligar na companhia aérea. Foram momentos muito tensos. Quando finalmente o trem partiu, a tensão não diminuiu. Eu não tinha dinheiro para pegar um táxi quando chegasse em Chicago, e eu havia planejado tudo sem contar com imprevistos. O que eu podia fazer era rezar e foi o que fiz.
Quando finalmente desci do trem, corri desesperada para a saída da estação. Eu não fazia a mínima ideia de qual transporte pegar para chegar no aeroporto, pois na ida para Chicago eu tinha ficado no hostel antes e tive tempo de me organizar. Assim que saí da estação, dei de cara com um ponto de ônibus. Assim que o primeiro apareceu, eu dei sinal para pedir informações para o motorista. Ele apontou para a direita dele e disse: “Ali fica a estação de metrô e tem um que vai direto para o aeroporto”. Agradeci e voltei a correr, agora em direção ao metrô. Assim que cheguei lá, me peguei perdida com aquelas máquinas gigantes para comprar o bilhete. Estava tão nervosa que minhas mãos tremiam e não conseguia entender o que estava fazendo. De repente, uma funcionária se aproximou perguntando se eu precisava de ajuda. Contei a situação toda pra ela e perguntei como faria para chegar ao aeroporto. Ela falou para eu ter calma e, gentilmente, perguntou:
De que lugar da África é esse sotaque lindo?”
Não é da África, é do Brasil.”
Brasil! Então também é África, todos nós viemos de lá!”
No momento em que disse isso, uma das moedas que eu segurava caiu no chão:
Está vendo, estamos saudando a nossa terra!”
Com muita calma e paciência, ela me explicou tudo: em qual plataforma eu deveria pegar o metrô, onde deveria descer e como fazer para chegar ao aeroporto. Agradeci emocionada e disse: “Espero que eu não perca o meu voo”. “Não vai”, ela me respondeu.
Fui rezando o caminho todo. Cheguei no aeroporto depois de o despacho de malas já ter sido encerrado — mas pelo menos o avião ainda não tinha partido. Por causa do atraso, minha bagagem precisou ser aberta por uma segurança grosseira, que tirou todos os cremes que eu havia comprado para minhas amigas com mais de 50 ml e tudo o que saía do padrão de uma mala de mão. Senti pelos cremes, mas fiquei feliz da vida por ter conseguido embarcar.
Passado o susto, já sentada no meu assento no avião, agradecendo a todos os orixás, fui entender o que havia acontecido. Antes da minha viagem, um amigo meu havia sonhado comigo. No sonho, ele e eu estávamos numa casa, vestidos com roupas brancas e segurando velas acesas na mão. Num dado momento, nós nos aproximávamos para colocar as velas em um altar. Depois eu saía e ficava esperando esse meu amigo do lado de fora da casa. Assim que ele me encontrava na calçada, ele dizia: “Um homem veio falar comigo e disse que você é a ‘menina dos olhos de Ogum’”. No momento em que ele me contou, eu achei lindo o sonho, mas não dei muita importância. Mas ali, após passar um susto tremendo, o sonho me veio à memória. O motorista do ônibus que me falou onde ficava a estação de metrô era um homem negro retinto que usava uma camisa azul-escura, a cor de Ogum. A senhora que me ajudou na estação de metrô e saudou a África havia dito confiante que eu não perderia o voo. Senti que não estive sozinha, que fui amparada o tempo todo. Você sempre me amparou, vó, tenho certeza de que minhas rezas foram atendidas e que minha linhagem feminina nunca me desamparou.
Sempre fico emocionada quando me lembro dessa história, do quanto vocês me ensinaram que Orixá é vivo. O babalorixá Sidnei Nogueira, um importante sacerdote brasileiro, diz que nós viemos da magia, que somos incomensuráveis como a África, que somos seres espirituais experimentando a matéria. Ao ouvir essas palavras dele, me lembrei de você, vó, das vezes que me livrou de perigos e com rezas me curou de doenças. Você foi o primeiro ser mágico do qual tenho memória. E foi sua magia que me trouxe até aqui.

Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó

27/07/2023

Cartas para minha avó

Quando passei no mestrado, aos trinta e três anos, senti uma diferença em mim, como se tivesse passado de fase. As coisas que me incomodavam muito deixaram de incomodar, e passei a entender o que de fato era importante na minha vida.
Decidi que participaria de mais eventos acadêmicos e, em 2013, um trabalho meu foi aceito para ser apresentado em um seminário na Universidade Nacional de La Plata, na Argentina. Foi minha segunda experiência internacional. Senti que seria necessário dialogar mais com outras epistemologias do Sul, de conhecer mais profundamente o pensamento das intelectuais feministas da América do Sul, uma vez que em minha formação isso me foi negado.
Fui de avião até Buenos Aires e, de lá, peguei um ônibus até La Plata. Foi uma experiência muito ruim, pois sofri muito assédio de homens na rua. “Brasileira”, “mulata”, “bonita”, fui obrigada a escutar quando ainda estava em Buenos Aires. Ao chegar na cidade, foi infernal ter que lidar com pessoas na rua me parando para tocar nos meus cabelos, como se nunca tivessem visto uma pessoa negra, me senti num zoológico. Até me entender com o mapa e encontrar o hostel onde eu ficaria hospedada, vivi momentos horríveis, vó.
Quando finalmente cheguei no hostel, a recepcionista me abordou tocando nas minhas tranças. Estava tão irritada com o que havia passado na rua, que respondi: “Olha, precisa tomar um vinho antes pra achar que tem intimidade pra me tocar”. Ela ficou sem graça e até o dia da minha saída me tratou com formalidade. Já na universidade, entre as colegas que participavam do evento, a recepção foi acolhedora. Apesar de ter dificuldades de falar o espanhol, compreendo bem e pude assistir a algumas das apresentações sem grandes problemas. O que aprendi ali ampliou o meu olhar em relação ao debate feminista.
No dia da minha apresentação, dividi mesa com acadêmicas da Argentina, Bolívia, Venezuela. Meu trabalho foi bem recebido e gerou discussões interessantes. Não participei das festas pós-apresentações porque, infelizmente, não me sentia segura naquela cidade. Evitava andar nas ruas ou fazer qualquer coisa fora do hostel que não tivesse ligação com o evento. Como eu ainda teria alguns dias até o meu voo de volta, quando o seminário acabou, eu decidi pegar um ônibus e ir até Mar del Plata.
Sempre quis conhecer outros países e cidades e me pareceu uma ótima oportunidade para explorar. Lembro da minha alegria em pegar um daqueles ônibus de dois andares e de ir olhando a estrada enquanto seguíamos viagem. Foi uma sensação de liberdade inexplicável. Queria poder aproveitar, nem que por dois dias, o máximo daquela viagem e daquele tempo sozinha. Assim que cheguei, deixei a mala no hotel e fui andar pela cidade. Caminhei pelas praias até escurecer, sentindo a brisa do mar. No dia seguinte, saí cedo para andar sem rumo e sem pressa. Foram apenas dois dias naquela cidade, mas senti que ali colei minhas asas, do mesmo modo como minha mãe deve ter sentido quando Dara e eu compreendemos os motivos pelos quais ela fora tão bruta durante nossa infância. Precisei lidar com o assédio novamente quando retornei a Buenos Aires para pegar o voo de volta para o Brasil, mas nada me tirou aquele sentimento de liberdade.

Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó

16/07/2023

Cartas para minha avó

Quando a gente passa parte da vida se torturando, se colocando pra baixo, se culpando, é difícil parar. A gente faz isso pelo hábito. Mas as palavras da minha irmã, naquele momento, me acordaram de um sono profundo. Depois de um tempo, quando Thulane dizia orgulhosa para suas amiguinhas “Quando crescer, vou estudar em São Paulo como a minha mãe”, entendi a importância de mostrar a ela outras formas de maternidade. E, sim, vó, era mesmo capaz de dona Erani me dar dois tapas na cara se estivesse viva. Já você teria feito um bolo de chocolate ou um doce de abóbora e teria adoçado minha vida.
Foram anos complexos na faculdade, precisei ter ginga para estudar as autoras que me interessavam. Eu me deparei com um curso branco, masculino e eurocêntrico. Ouvi coisas como “não sei por que você está aqui queimando seus neurônios, poderia ser modelo”, “você é passista de qual escola?”, “deveria arrumar um gringo para casar, eles adoram mulheres como você”, “vamos deixar a parte mais fácil do trabalho para as meninas do grupo”, “o professor só te deu nota alta porque está a fim de você”.
No primeiro ano de faculdade, eu conheci uma das minhas melhores amigas, Marília. Éramos das poucas mulheres da sala e nos apaixonamos uma pela outra no momento em que nos vimos pela primeira vez. Fomos obrigadas a compartilhar o desrespeito dos colegas homens, mas nós nos protegíamos e apoiávamos. Ter sua amizade me ajudou a enfrentar as dificuldades. Marília não achou nada de mais quando eu disse que era mãe e minha filha vivia em outra cidade. Nela encontrei a mesma força dos olhares cúmplices.
Na Unifesp, alguns colegas e eu fundamos o Mapô — Núcleo de Estudos de Gênero, Raça e Sexualidade — e organizamos muitos eventos acadêmicos sobre o tema. Essa iniciativa foi fundamental para que eu tivesse acesso a textos, para me fortalecer dentro daquele espaço. Não me identificava com um movimento estudantil majoritariamente branco e burguês, vinha de um lugar em que meus irmãos eram parados pela polícia pelo simples fato de existirem. Assim, ficava indignada por alguns integrantes do grupo se vangloriarem dos conflitos com a polícia quando estudantes em greve ocuparam a diretoria da faculdade. Estar com pessoas com os mesmos propósitos foi fundamental. Participei de muitos congressos, inscrevi trabalhos para apresentar tanto no Brasil quanto no exterior. Em 2011, descobri a Simone de Beauvoir Society, grupo formado por pesquisadoras de várias partes do mundo que estudavam o pensamento da filósofa francesa. A cada ano elas organizam uma conferência no país de uma das integrantes e senti que era uma oportunidade de diálogo, uma vez que não encontrava muitas interlocutoras no Brasil. Eu mesma traduzi parte da minha pesquisa de iniciação científica e a submeti para avaliação. Para minha surpresa, meu paper foi aceito, o que significaria apresentá-lo numa conferência na Universidade do Oregon, nos Estados Unidos.
Eu nunca havia saído do Brasil. Estava com trinta anos, no terceiro ano da faculdade e com todos os sonhos do mundo. Passaporte eu tinha, pois anos antes quase viajara para Angola a convite de um ex-chefe, quando fiz alguns freelas para a Liga dos Amigos e Estudantes de Angola. O problema era o visto americano. Como estava muito em cima da hora, não havia mais horários disponíveis para entrevista no consulado de São Paulo e do Rio, e o único possível seria o de Recife. Eu não tinha muito dinheiro para a passagem, mas após muita insistência, Donald concordou em me ajudar. Juntei todos os documentos necessários para a tal entrevista e fui.
Àquela altura fazia muito tempo que eu não andava de avião. Minha primeira vez fora aos vinte e dois anos, quando eu trabalhava na Casa de Cultura da Mulher Negra e fui ao Fórum Social Mundial que aconteceu em Porto Alegre. Não lembrava muito bem como afivelar o cinto de segurança e fiquei esperando o rapaz do lado fazer para eu imitar. Com medo e com o dinheiro contado, fui.
Ao chegar em Recife, fui direto para o consulado. Fiquei horas na fila sob um sol muito quente, e com um frio na barriga que quase me fez desmaiar. Por sorte a entrevista foi extremamente tranquila e consegui o visto. Meu voo de volta seria à noite, então fui para a praia de Boa Viagem ver o mar. Fiquei sentada por horas contemplando o horizonte enquanto sentia uma sensação única de felicidade. Eu iria para os Estados Unidos apresentar minha pesquisa, encontraria interlocutoras.
Na verdade, era um misto de felicidade e ansiedade. Eu não fazia ideia de como era uma viagem internacional, e estava ansiosa para descobrir. Peguei o último voo para São Paulo e cheguei a Guarulhos de madrugada. Como não tinha dinheiro para táxi e os ônibus só recomeçariam a rodar às quatro e meia da manhã, cochilei no aeroporto mesmo. Essa sensação de solidão foi triste. Mesmo casada, raramente havia alguém para me esperar. Eu sentia muito a sua falta, vó, da minha mãe também. Eu tinha certeza de que vocês, se vivas, jamais teriam deixado eu dormir no saguão de um aeroporto. Mas sobretudo eu não me sentiria sozinha nem culpada por querer estudar e ir além da vida que haviam desenhado pra mim. Chorei quieta enquanto buscava uma posição confortável no banco, prometendo a mim mesma que faria tudo valer a pena.
No dia da viagem para os Estados Unidos, fui sozinha até o aeroporto. Estava insegura, com medo, teria de me virar com o inglês que aprendi em alguns anos de curso. Observava o que as pessoas faziam para fazer igual, tentava passar a ideia de que estava acostumada com tudo aquilo, mas por dentro sentia um pavor enorme. Mesmo assim, ergui a cabeça e fui.
Ao chegar à primeira de duas conexões, em Portland, uma senhora norte-americana se aproximou. Disse que tinha me visto no aeroporto de Guarulhos e comentado com o marido o quanto eu era bonita. Começamos a conversar, ela me perguntou o que eu faria no país, e ao saber disse com orgulho que a Universidade do Oregon era incrível e me desejou tudo de bom.
Ao desembarcar em Eugene, descobri que minha mala havia sido extraviada. Eis que a simpática senhora prontamente se ofereceu para me ajudar, uma verdadeira salvação, pois eu não tinha inglês bom o bastante para me comunicar com o funcionário da companhia aérea. Ela me passou o telefone dela, dizendo para procurá-la se não entregassem minha mala no hotel ainda naquele dia: se necessário, ela compraria roupas pra mim (eu já havia lhe dito que estava com meus dólares contados). Mas não foi preciso, horas mais tarde minha mala chegou no hotel, e deixei um recado de gratidão na secretária eletrônica dela, que foi um anjo em meu caminho — nem sequer lembro seu nome, mas jamais esquecerei o que fez por mim.
Apesar da minha insegurança, o encontro na universidade foi muito rico e produtivo, me senti acolhida pelas pesquisadoras, sobretudo por Margaret A. Simons, a Peg, uma das maiores estudiosas do pensamento de Beauvoir. Ela me deu vários livros e orientou minha pesquisa para uma outra direção. Estava acostumada com a hostilidade da academia, com professores dizendo que eu era “a menina que estudava gênero” ou “que não estudava filosofia pura”, até hoje me emociono só de lembrar daqueles dias em que fui tratada com carinho e respeito.
Essa experiência foi outro divisor de águas na minha vida, vó. Eu me senti forte para seguir e ir além: estudar as pesquisadoras negras. Quando concluí a graduação em 2012, com trinta e dois anos, já sabia o que faria no mestrado. Eu não pretendia mais olhar o mundo pelas frestas.

Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó

10/07/2023

Cartas para minha avó

Thulane tinha acabado de completar três anos e eu trabalhava numa empresa do porto. A geração do meu pai foi a última de estivadores antes da privatização, coisa contra a qual meu pai lutou de forma contundente. Lembro de acompanhá-lo nas manifestações quando criança, para repetir o que os sindicalistas gritavam: “O porto é do povo, o porto é do povo!”. Não fazia a mínima ideia do que aquilo significava, mas meu pai sempre fez questão de nos envolver politicamente.
Adorava ir às manifestações principalmente porque, ao final, meu pai nos levava ao Pastel Carioca, uma pastelaria tradicional no centro de Santos. Também guardo memórias carinhosas das idas ao Sindicato dos Estivadores para ajudar a envelopar informes sobre a Chapa da qual meu pai era diretor, ou das idas ao Partido Comunista. Apesar de algumas tarefas serem chatas para uma criança, tudo acabaria em pastel depois.
Adorava quando as pessoas me abordavam na rua e perguntavam: “Você é a filha do Joaquinzinho, diretor do sindicato?”, e eu sempre respondia orgulhosamente que sim. Trabalhar ali no porto me trazia muitas lembranças.
Entre uma busca e outra aqui na internet, descobri que haviam construído um campus de humanas da Universidade Federal de São Paulo. Ficava em Guarulhos, mas achei que podia ser interessante tentar, sobretudo quando vi que havia curso de Filosofia. Descobrir aquele curso foi como despertar. Lembrei das vezes em que meu pai leu livros de filosofia pra mim, da estante velha de mogno que ficava em seu quarto, das muitas obras que fui obrigada a ler. Lembrei que eu gostava de estudar, dos anos em que trabalhei na Casa de Cultura da Mulher Negra, uma organização feminista negra, um divisor de águas na minha vida. Também me veio à memória a biblioteca Carolina Maria de Jesus, com os livros de Bell Hooks e os artigos de Sueli Carneiro. Fui invadida por aquele mesmo sentimento que tive quando ganhei As novas vestes do rei do meu pai. Olhar aquele aviso de inscrição para o vestibular foi como ver uma faísca de algo que eu já havia sido.
Lembro exatamente que o prazo final de inscrição seria na sexta-feira daquela semana. Nos meus horários de almoço, namorava aquela informação. A sexta-feira chegou e, apesar de ter ensaiado ir ao banco no meu horário de almoço para pagar a inscrição, tive medo. Terminei o expediente, bati o ponto e fui pra casa. Passei o fim de semana sonhando com aquela informação enquanto cozinhava e ensinava minha filha a usar o banheiro.
Na segunda-feira seguinte, resignada, voltei ao trabalho. Evitei navegar na internet, não queria ter que me confrontar com a minha fraqueza, mas em um momento livre voltei ao site da universidade. Qual foi minha surpresa quando vi que as inscrições haviam sido prorrogadas mais uma semana. Só podia ser um sinal, pensei. Mesmo assim, passei a semana apreensiva, questionando se deveria ou não me inscrever.
Quando a sexta-feira chegou, eu precisava novamente tomar uma decisão. Imprimi o boleto sem que os outros funcionários vissem — não era permitido imprimir coisas pessoais — e saí para almoçar. Na volta, tomei coragem e passei no banco. O valor que eu tinha na conta era exatamente o valor da inscrição. Paguei, não disse nada a ninguém, e aguardei o dia da prova. Era uma época pré-Enem, seriam três dias de provas e eu precisaria me ausentar do trabalho. Conversei com o meu chefe e ele me liberou no período da tarde durante os três dias seguintes. Em casa, eu disse que havia ganhado a inscrição do pessoal da Educafro, cursinho pré-vestibular para jovens de comunidades periféricas do qual fui coordenadora de núcleo por anos. Minha justificativa era que eu iria fazer a prova para incentivar os alunos. Eu sabia que não poderia dizer que tinha intenção real de cursar Filosofia em Guarulhos, e não queria adiantar problemas — eu poderia não passar e essa conversa nunca precisaria ocorrer. Fazia mais de dez anos que havia terminado o ensino médio e se zerasse alguma questão, seria automaticamente desclassificada.
Até aquele momento, eu tinha contado sobre meus planos para três pessoas: Vivi, Cleide e Jaque, minhas companheiras de trabalho. Eu era secretária do diretor da empresa e de dois gerentes. Vivi trabalhava no almoxarifado e Cleide e Jaque na limpeza. Nós nos tornamos inseparáveis, saíamos juntas, sempre sentávamos na mesma mesa nos eventos da empresa. Elas foram meu porto seguro naquele momento, me incentivando, dizendo que eu deveria fazer o curso caso passasse. No dia em que o resultado seria divulgado, elas apareciam na minha sala de vez em quando para me perguntar se já havia saído. Com o coração disparado, acessei o site da universidade. Ao ver meu nome na lista de aprovados, tive uma sensação ambígua: fiquei feliz por ter conseguido, mas ao mesmo tempo nervosa, temia não poder fazer o curso. Enquanto Vivi, Cleide e Jaque comemoravam, eu pensava: “Passei, e agora?”.
Eu tinha alguns dias para me decidir, até a data da matrícula. Nesses dias, quando eu saía do trabalho, eu ia caminhar pela orla da praia, perto do mar. Ficava pensando que se vocês fossem vivas, não me deixariam sequer cogitar não estudar, brigariam pra ver quem cuidaria da Thulane. Você foi empregada doméstica, minha mãe foi empregada doméstica. Minha entrada na faculdade de Filosofia romperia com um ciclo de exclusão.
Chorei muitas vezes enquanto passeava olhando o mar, querendo que minhas lágrimas se confundissem com o infinito.
Um dia, fui levar minha filha ao Aquário. Enquanto ela corria encantada vendo os peixes e algas marinhas, eu pensava em qual decisão tomar. Em dado momento, avistei as arraias em um aquário muito grande. Enormes e belas, nadando lindamente. Fiquei hipnotizada por alguns minutos assistindo àquela cena, encantada com as grandes barbatanas que pareciam asas. Enquanto nadavam, pareciam voar. Após um tempo, concluí que, apesar da beleza do ato, por mais que o nado simulasse um lindo voo, nas condições em que se encontravam elas somente poderiam voar dentro das dimensões do aquário. Havia quem as alimentasse, quem cuidasse delas, e isso poderia fazê-las acreditar que estavam seguras, no melhor lugar possível. Mas o lugar delas era o mar.
No dia que tomei a decisão, lembro de ter dito em casa: “Minha avó não teve oportunidade de estudar, minha mãe não teve oportunidade de estudar. Eu estou quebrando esse ciclo agora!”. De alguma maneira, sei que vocês estavam ali comigo, me encorajando a tomar uma das melhores decisões na minha vida, para espanto daqueles que julgavam que era incompatível ser mãe e estudar numa outra cidade — cheguei a ouvir de uma pessoa da família do Donald que eu já tinha provado que era inteligente ao passar, e não precisava ir estudar.
O próximo passo seria contar no trabalho. Fiquei ensaiando idas e vindas ao escritório do gerente. Até que um dia, Vivi me olhou e disse: “Chega, Djamila, você vai contar agora”. Nervosa, fui até ele. Contei dos meus planos, perguntei se ele poderia me mandar embora para que eu recebesse seguro-desemprego, porque era fundamental eu conseguir me sustentar, ao menos nos primeiros meses. O gerente disse que se eu fosse estudar Logística, ele certamente poderia me ajudar, pois eu estaria no ramo da empresa. Mas por que Filosofia? Eu iria passar fome e teria que vender brincos na praia para sobreviver, ele vaticinou. “É um sonho sem sentido. Veja, meu sonho era ser médico, mas não consegui realizar, então cursei Administração de Empresas e hoje trabalho aqui. Nem sempre é possível fazer o que se quer.”
Essa última frase soou como uma afronta. Como se eu não soubesse, como se as mulheres da minha família não soubessem, como o fato de vir de uma linhagem de empregadas domésticas não tivesse me ensinado que não podemos fazer o que a gente quer. Minha mãe gostaria de ter sido jogadora de basquete, você, eu não sei, vó, não tive a oportunidade de perguntar, mas eu tenho certeza de que você não gostaria de ter tido sua infância roubada para trabalhar fora. Como se as pessoas negras, historicamente, não soubessem que não é possível fazer o que se quer por conta do racismo, que mata não apenas sonhos, mas vidas. Ele, um homem branco privilegiado, cujo rosto continha os traços do poder, estava me dizendo que não era possível fazer o que eu queria. Minha vontade foi responder: “Ora, se você, mesmo privilegiado, não conseguiu fazer o que queria, o problema é seu, não acha? Por que quer democratizar frustações?”.
Engoli o meu ímpeto típico de dona Erani e, com um sorriso falso, disse que não me importaria de vender brincos na praia. Ele não quis me mandar embora, disse que eu precisava treinar uma nova pessoa para o meu lugar e que, por ora, eu poderia sair do trabalho mais cedo, às 17h, para ir à faculdade. O que ele não havia entendido é que a faculdade ficava a três horas e meia de Santos.
Fiz isso nos primeiros meses, e você pode imaginar o meu cansaço. Chegava em Santos de madrugada, acordava às 6h, levava minha filha para a escola, ia trabalhar, saía às 17h, chegava na faculdade às 20h30, 21h, para começar tudo outra vez. Até que um dia, ao chegar na faculdade mais uma vez na hora do intervalo e perceber que não estava entendendo nada, pegando somente a parte final das aulas, desabei.
Estava me sentindo burra, não compreendia o que meus professores diziam, não conseguia acompanhar as aulas e entendi que precisava me dedicar inteiramente; era preciso sair do trabalho. Como o gerente se recusou a me mandar embora, pedi demissão. Eu só receberia o mês trabalhado e teria que me virar. Em casa, não foi fácil. Apesar de contrariado, Donald me ajudou. Passei a morar com Dara em São Paulo durante a semana e voltava às sextas-feiras para Santos, pois sempre tínhamos uma janela de aulas. Geralmente, eu ia às terças e voltava às sextas.
Fui obrigada a ouvir muitos absurdos de familiares e colegas de faculdade. Ninguém hesitava em dizer que eu havia “abandonado” minha filha com o pai — como se ele não fosse também responsável por ela. Também havia a pressão de ser a única aluna negra da turma, e intimidada por estar em um lugar feito para expulsar pessoas como eu.
Quando Thulane chorava de saudade de mim, faziam questão de me avisar em alto e bom som, e meu coração se apertava ainda mais. Como ler Prolegômenos de Kant consumida pela culpa? Até que um dia, no apartamento da minha irmã, comecei a chorar, pensando que eu era uma mãe ruim, que estava sendo egoísta. Dara olhou fundo nos meus olhos e falou com a voz firme, quase me dando uma bronca: “Para de chorar! Você está estudando, você não abandonou sua filha. Se a mãe fosse viva daria dois tapas na sua cara pra você acordar!”.

Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó

05/07/2023

Cartas para minha avó

Thulane e eu desenvolvemos uma relação muito próxima e intensa. Quando eu precisava ir ao mercado, por exemplo, e a deixava alguns minutos com a avó, ela chorava ininterruptamente até eu voltar. Mesmo quando o pai chegava do trabalho e eu pedia pra ele cuidar dela enquanto eu tomava um banho, ela chorava. Muitas vezes precisei colocá-la no carrinho e levá-la para o banheiro comigo. Não conseguia ler um livro, assistir a um programa que não fosse infantil, exceto quando Thulane dormia. Mas aí eu já estava tão exausta da rotina que aproveitava para descansar.
Minha vida era toda voltada para a maternidade, vó. Thulane estava ótima, saudável, crescia em um ambiente seguro, amada e eu me sentia feliz por isso, pelo fato de uma criança negra poder ter conforto, pais presentes, uma família afetuosa. Mas, ao mesmo tempo, eu me sentia sozinha, culpada por não estar plenamente feliz, por não poder ligar chorando pra minha mãe e desabafar, por não poder abraçar meu pai e confessar que ele tinha razão, que, de fato, eu havia sido criada para ser uma alma independente.
Eu queria mais do que a vida me dava naquele momento, vó. Não me identificava com quem sonhava apenas com um carro novo. Detestava ter que conversar somente sobre maternidade. Eu não queria falar só sobre desenhos animados e pediatras, aulas de musicalização infantil e quando teria um outro filho. Eu não lia revistas que vendiam manchetes como “lute pelo seu amor, não abra mão do seu homem”. Eu não queria ficar apenas no quarto ou na cozinha. Era desesperador me ver presa em muitos tentáculos que fingiam não ver que eu era diferente. Eu não julgava quem se identificasse, mas era julgada por não me identificar.
Sonhava em ter você e minha mãe disputando quem ficaria com Thulane para que eu pudesse andar na praia sossegada. Eram raros os momentos em que eu podia contar com alguém para isso — a avó paterna trabalhava fora e foram poucas as vezes em que pôde me ajudar nesse sentido. Eu amava ser mãe, mas odiava o papel que a maternidade me impunha. Admirava uma vizinha, mãe solo, que vivia sem se importar com os outros. Deixava a filha com a mãe e saía com as amigas, voltava de madrugada. Entre uma mamadeira e uma canção de ninar, eu a admirava. Ela enfrentava tudo, vizinhos intrometidos, conselhos não requisitados, nem que fosse para sentir um resquício da vida pós-maternidade. E fazia daquele resquício um oceano. Não aceitava o clima de velório permanente, uma espécie de “morte viva”.
Algumas mulheres me achavam louca por não me sentir preenchida com a maternidade e a vida de casada. Amava ser mãe, como já disse, mas detestava o que se entendia por maternidade: a abdicação da nossa existência como sujeito. Tinha trancado faculdade quando engravidei, agora estava desempregada e dependia exclusivamente do meu marido. De alguma forma, sentia que traía o que meu pai me ensinou.
Não me sentia plena naquela situação, estava deslocada no mundo. Parecia que aquele seria o fim da linha pra mim, jamais saberia o que é realização profissional ou o prazer de ter um diploma. O que eu mais ouvia, quando levava Thulane ao médico ou às reuniões de família, era: “Quando vai ter o segundo?”, “Tem que ter outro logo, assim já cria os dois juntos”. E tudo soava como uma penitência, e não o prazer de conceber. Ter outro filho não estava nos meus planos. O que eu queria era estudar, fazer algo que pudesse dar orgulho a mim e à minha filha.
Estava me sentindo sem rumo, sem colo, e um dia, em total desespero, me ajoelhei e pedi para as forças maiores que me dessem uma luz. Estava ficando deprimida e queria entender que caminho seguir. Quando se está perdida, qualquer saída pode soar sedutora, e eu não queria qualquer coisa. Acendi uma vela, como você me ensinou, vó, e rezei.
Dias depois sonhei com meus pais. Eles diziam estar felizes por ver que eu havia me tornado uma pessoa ética e com valores. Minha mãe me chamava de “meu bebê”, como costumava fazer, e, acima de tudo, me aconselhava a cuidar do espírito. Meu pai me pedia para perdoar a namorada dele, uma vez que foi difícil nossa convivência no momento da doença dele. Acordei aos prantos.
A partir daquele dia, 5 de dezembro de 2006, as coisas começaram a mudar e eu parei de me acovardar diante da vida. Dois meses depois, estava empregada.

Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó

26/06/2023

Cartas para minha avó

Thulane nasceu em 8 de março de 2005, de parto normal. Foram nove meses tranquilos, mas você e minha mãe fizeram muita falta. Eu estava morando na casa dos meus sogros e a bebê parecia ter tanta pressa que quase nasceu em casa. Comecei a sentir as contrações, ligamos para meu médico e fomos para a Santa Casa. Logo que chegamos, minha bolsa estourou. Fui levada às pressas para a sala de parto e, após meia hora, ela nasceu.
Assim como você e minha mãe, não tive dificuldades para parir e amamentar. Tudo me pareceu muito tranquilo, vó. Tinha muito leite — igual minha mãe que, por conta da fartura, amamentou duas gêmeas, filhas de um casal vizinho, na ocasião do nascimento do Denis. Algumas vezes chorei por pensar que vocês não conheceriam a bisneta e neta e que Thulane tampouco conheceria o colo de Antônia e de Erani. Por sorte ela teve, e ainda tem, o colo da avó paterna.
Foi triste pensar que minha filha não se reconheceria nos olhos de vocês, que não seria benzida pela bisavó. Eu tinha medo de esquecer o que deveria ensiná-la, de ser sugada para uma vida sem rezas pra cobreiro nem álcool com arnica. Não me identificava com as mães do parquinho, e muitas me achavam louca quando eu perguntava se elas conheciam alguma benzedeira.
Fui tragada para a vida do Donald e da família dele, pois me sentia sem referências. Não que fosse ruim, mas me senti sem identidade, tratada como se minha família não existisse. E eu lutava para não esquecer de contar para Thulane tudo sobre a nossa família.
Quando ela completou dez meses, nós alugamos um apartamento pequeno no mesmo bairro dos meus sogros. Por mais que fosse bom ter apoio por perto, eu queria educar a minha filha com o pai, sem interferências diretas. E precisávamos de privacidade. Era um apartamento de um quarto, que coube à Thulane. Nós dormíamos na sala, em um sofá-cama. Achava importante que ela tivesse uma rotina, com hora pra dormir, comer e brincar. Ter um quarto só pra ela significava que isso podia ser feito.

Sabe, vó, eu sentia vergonha por não ter uma profissão. Quando levava Thulane ao pediatra, eu era a mãe, mãezinha. Pra família do Donald, eu era a mulher dele. Isso deveria bastar, eu pensava, mas não bastava, nem de longe. E eu me sentia ingrata por não me sentir completa, por desejar horas de sono sem interrupção, por querer sair para tomar cerveja com as minhas amigas. O primeiro ano de Thulane foi muito difícil pra mim. Eu fazia tudo o que era necessário, cuidava dela com todo o meu amor, mas não tinha ninguém pra me render enquanto eu desse um longo passeio sozinha.
Amava aquele ser humano pequeno, mas não me sentia inteira sendo alguém que precisava dormir pensando no que ia cozinhar no dia seguinte. Donald participava o máximo que podia, mas trabalhava fora dez horas por dia e eu precisava me ocupar dos afazeres domésticos. Passava o dia sozinha entre trocas de fraldas e a próxima amamentação. Mesmo infeliz, amamentei integralmente até os seis meses, preparei papinhas com legumes frescos, li sobre educação de filhos, mantive uma rotina bem organizada. Fiz o que pude.
Após muito procurar, encontrei uma benzedeira que atendia no Canal 5, no bairro da Aparecida, em Santos. Você ficará feliz em saber que levei Thulane algumas vezes lá e, em todas as vezes, eu sentia como se você estivesse ao meu lado. Eu sentia falta da minha mãe quando levava Thulane para tomar vacinas e me perguntava se saberia utilizar a técnica dela. Eu queria que ela estivesse se intrometendo na criação da minha filha do mesmo jeito que você se intrometeu na minha.
Eu gosto de mostrar fotos suas e da minha mãe pra ela e de contar histórias engraçadas sobre vocês, para que sempre estejam próximas de alguma maneira. Eu repudiava fortemente quando as pessoas diziam “Djamila não tem mãe, não tem avó”, porque eu tenho, sim, elas só não estão mais nesse plano. Dizer que eu não tenho avó é negar a sua influência na minha vida, o amor que me protegeu e curou, é negar parte de mim.
Há uma enorme diferença entre acostumar-se e aceitar. Passei a aceitar sua ausência física e carregar sua força, e falo de você com lágrimas de alegria e gratidão pela oportunidade do encontro, mas nunca me acostumei com sua ausência.
Quando Thulane tinha seis meses, ela teve uma infecção urinária. Eu a levei ao pediatra e ele receitou antibióticos. Ela teve uma reação forte, com vômitos e diarreias e eu não tive dúvidas: levei-a a uma homeopata, negra. Eu queria que minha filha tivesse contato com mulheres negras. Ela tinha na família do pai, claro, e na minha, mas eu sentia que era preciso mais. E foi ótimo, a médica era incrível e Thulane ficou sob os cuidados dela até os três anos, quando passei a trabalhar numa empresa portuária e o plano de saúde não cobria o consultório dela.
Frequentemente eu ia à casa das minhas amigas negras, em especial, à da minha grande amiga Flávia, que junto da mãe mimava muito a Thulane. Eu queria que minha filha fosse amada por mulheres como eu, que ela se sentisse preenchida de amor. Conviver com pessoas negras, num círculo de amor, era uma maneira de cuidar da saúde dela.

Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó