sábado, 7 de outubro de 2023

Cartas para minha avó

Vó, poucas pessoas sabem que gosto de escrever contos e poesias. Passei a escrever após a sua morte, quando tinha treze anos. Tenho vários cadernos com poemas, que nunca mostrei a ninguém — um hábito que herdei do meu pai. Sempre me pareceu que este não era um lugar pra mim e eu sentia muita vergonha de mostrar meus escritos, medo de me sentir invadida, não sei. No início da fase adulta, me inscrevi em alguns concursos, recebi menção honrosa em alguns, e em 2007 um poema meu foi finalista do concurso Mapa Cultural Paulista. Fui a Bertioga, pertinho de Santos, ver meu poema exposto num centro de artes. Fiquei feliz e orgulhosa, mas lembro de ir sozinha, ainda me sentia constrangida.
Em 2008, dez poemas meus foram selecionados para o concurso Momento do Autor, da Secretaria de Cultura de Santos. Eu e mais três poetas da cidade tivemos nossos poemas publicados em uma antologia. O lançamento foi todo pomposo, no lindo prédio da Pinacoteca de Santos, e dessa vez parte da minha família esteve presente — Dara, Donald e a mãe dele. Foi um momento lindo para mim. Eu me arrumei toda com a ajuda da minha irmã, escolhi uma caneta bonita para autografar o livro. Foi como sair de um casulo.
Por mais que se tratasse de um livro simples, fiquei feliz. A foto ao lado da minha breve biografia era a mesma do crachá da empresa portuária em que trabalhei. Não sei por quê, mas depois que saiu essa antologia não voltei a comentar mais com ninguém sobre o assunto. De algum modo, sinto que não ter nem você nem minha mãe para partilhar isso comigo me fez não querer partilhar com mais ninguém. Talvez ainda estivesse vivendo meu luto. Ou talvez tivesse vergonha de me expor. Em 2009, outro poema recebeu menção honrosa e foi publicado em uma antologia organizada pela Secretaria de Cultura de Colatina, no Espírito Santos. Em 2010 venci o i Concurso Literário da Unifesp com o poema “Velhas canções”:

Como se criam novas memórias para velhas canções?
Queria reorganizar a linha do tempo
alinhar a ordem das canções
sintonizar outras estações
ler diversas partituras
afinar outros violões
compor novos acordes
baixar diferentes melodias.
Ou,
talvez devesse aceitar essa sina em desafino.
Ele sempre estará preso às velhas canções.
Na sutil inquietação de cada nota musical
que faz emergir o breve passado das lembranças (des) gostosas.

Esse mesmo poema, no ano seguinte, também foi publicado em uma antologia da Universidade Federal de São João del-Rei, em Minas Gerais. Fui até lá para o lançamento e foi um momento feliz na minha vida. Não tinha pretensões de ser reconhecida como poeta, simplesmente amava escrever e participar desses encontros em que ficávamos extremamente felizes em reunir trinta, quarenta pessoas para conversar e brindar àqueles e àquelas que se emocionavam em ver seus poemas publicados. Era tudo muito simples, vó, mas era tudo muito lindo.
Escolhia a melhor roupa, meu coração disparava, realmente curtia o momento. Posso apostar que você e minha mãe fariam dessas premiações, por mais modestas que fossem, uma verdadeira entrega do Oscar só por eu estar lá. A vizinhança toda saberia que sua neta de Santos ganhara um concurso de poesia, cada um que fosse se benzer ficaria a par da notícia. Minha mãe faria questão de se gabar para todos que encontrasse na feira, os vizinhos que nos chamavam de “os neguinhos lá da frente”. Tudo acabaria numa grande festa com churrasco e samba.

Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó

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