Vó,
poucas pessoas sabem que gosto de escrever contos e poesias. Passei a
escrever após a sua morte, quando tinha treze anos. Tenho vários
cadernos com poemas, que nunca mostrei a ninguém — um hábito que
herdei do meu pai. Sempre me pareceu que este não era um lugar pra
mim e eu sentia muita vergonha de mostrar meus escritos, medo de me
sentir invadida, não sei. No início da fase adulta, me inscrevi em
alguns concursos, recebi menção honrosa em alguns, e em 2007 um
poema meu foi finalista do concurso Mapa Cultural Paulista. Fui a
Bertioga, pertinho de Santos, ver meu poema exposto num centro de
artes. Fiquei feliz e orgulhosa, mas lembro de ir sozinha, ainda me
sentia constrangida.
Em
2008, dez poemas meus foram selecionados para o concurso Momento do
Autor, da Secretaria de Cultura de Santos. Eu e mais três poetas da
cidade tivemos nossos poemas publicados em uma antologia. O
lançamento foi todo pomposo, no lindo prédio da Pinacoteca de
Santos, e dessa vez parte da minha família esteve presente — Dara,
Donald e a mãe dele. Foi um momento lindo para mim. Eu me arrumei
toda com a ajuda da minha irmã, escolhi uma caneta bonita para
autografar o livro. Foi como sair de um casulo.
Por
mais que se tratasse de um livro simples, fiquei feliz. A foto ao
lado da minha breve biografia era a mesma do crachá da empresa
portuária em que trabalhei. Não sei por quê, mas depois que saiu
essa antologia não voltei a comentar mais com ninguém sobre o
assunto. De algum modo, sinto que não ter nem você nem minha mãe
para partilhar isso comigo me fez não querer partilhar com mais
ninguém. Talvez ainda estivesse vivendo meu luto. Ou talvez tivesse
vergonha de me expor. Em 2009, outro poema recebeu menção honrosa e
foi publicado em uma antologia organizada pela Secretaria de Cultura
de Colatina, no Espírito Santos. Em 2010 venci o i Concurso
Literário da Unifesp com o poema “Velhas canções”:
Como
se criam novas memórias para velhas canções?
Queria
reorganizar a linha do tempo
alinhar
a ordem das canções
sintonizar
outras estações
ler
diversas partituras
afinar
outros violões
compor
novos acordes
baixar
diferentes melodias.
Ou,
talvez
devesse aceitar essa sina em desafino.
Ele
sempre estará preso às velhas canções.
Na
sutil inquietação de cada nota musical
que
faz emergir o breve passado das lembranças (des) gostosas.
Esse
mesmo poema, no ano seguinte, também foi publicado em uma antologia
da Universidade Federal de São João del-Rei, em Minas Gerais. Fui
até lá para o lançamento e foi um momento feliz na minha vida. Não
tinha pretensões de ser reconhecida como poeta, simplesmente amava
escrever e participar desses encontros em que ficávamos extremamente
felizes em reunir trinta, quarenta pessoas para conversar e brindar
àqueles e àquelas que se emocionavam em ver seus poemas publicados.
Era tudo muito simples, vó, mas era tudo muito lindo.
Escolhia
a melhor roupa, meu coração disparava, realmente curtia o momento.
Posso apostar que você e minha mãe fariam dessas premiações, por
mais modestas que fossem, uma verdadeira entrega do Oscar só por eu
estar lá. A vizinhança toda saberia que sua neta de Santos ganhara
um concurso de poesia, cada um que fosse se benzer ficaria a par da
notícia. Minha mãe faria questão de se gabar para todos que
encontrasse na feira, os vizinhos que nos chamavam de “os neguinhos
lá da frente”. Tudo acabaria numa grande festa com churrasco e
samba.
Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó
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