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22/08/2025

Até Morrer



Meu primeiro contato com a bola foi no saco. Dito assim, parece um fato biologicamente normal. E é mesmo, desde que o atingido pela bolada consiga recuperar a respiração e, claro, o saco para a prática do nobre esporte bretão.
A dor dessa primeira experiência futebolística despertou um traço ibero-masô, geneticamente explicável, em meu excelente caráter: como um espermatozóide tresloucado, fui impelido em direção cruzmaltina. Pois é, sou Vasco desde garotinho. Meu velho diz que um vascaíno sincero tem miolo mole ou é opaco feito uma calçada, sem nenhum trocadilho. Não me deterei no meu amor perverso pelo antigo Expresso da Vitória. O Japiassu, em memorável artigo pra revista Placar, escreveu uma frase definitiva sobre o Vasco: o time foi dirigido por um delegado quando deveriam chamar um padre. Gol!
Futebol é loucura. Em 1958, minha família estava empilhada em volta do rádio, um daqueles antigões. Todos, menos meu avô Alfredo. Ia começar a final Brasil X Suécia. Neguinho roía a unha, fumava, fazia promessa. Meu avô Alfredo balançava a cabeça, pensativo. Homem cordialíssimo, extremamente equilibrado, não conseguia entender aquela fissura. Fazia piadas pra descontrair a torcida pinei:
Dona Nadyr com aquilo tudo dando sopa e esses caras fanatizados por marmanjos de calção...
A Suécia meteu o primeiro gol.
Meu pacato avô empalideceu, rasgou o Jornal do Commércio ao meio, atirou a fruteira bico-de-jaca no quadrinho “Deus abençoe este lar” e berrou:
Perder pra corno, jamais! Todo mundo sabe que sueco é manso e deixa beliscar a mulher dele, enquanto toma umazinha no cômodo ao lado.
Se Vavá, o Leão da Copa, não tivesse empatado, eu, com onze anos, teria aprendido tudo sobre a vida sexual dos suecos. Quando o jogo terminou, 5X2 pra nós, tentei ampliar minha cultura sobre deixar beliscar e outros temas fascinantes, mas vovô Alfredo foi categórico:
Eles perderam de 5, Aldir. Logo, devemos concluir que são excelentes anfitriões, gente culta e civilizada. Não se fala mais no assunto. Brasil!!!
Essa capacidade de transtornar cucas certinhas – acho que diríamos, hoje, esse dom de levar caretas a transgredir – é que me faz permanecer um apaixonado por futebol, apesar de toda corrupção, resultados decepcionantes, decadência da técnica, desaparecimento do virtuose (a ascensão do açougueiro), violência, violência, violência e a dor, suavizada pela recordação dos dribles imortais, de não ver outro Garrincha. Mas hei de torcer!
Hei de torcer porque conheci um bebum que apelidou a própria amásia de Paulo Isidoro: “Ela dormia na ponta, mas embolava pelo meio”. Hei de torcer porque o ponta-esquerda do “Artistas da Rua Futebol e Regatas” era bicha e a escalação do ataque ficou: Iapetec, Sorvete, Lindauro, Gogó-de-Ouro e Viveca Lindfors. Hei de torcer porque também são vascaínos: Ceceu Rico, Paulo Amarelo, Guinga, Martinho da Vila, Nei Lopes, Paulinho da Viola, Edu Lobo e Sérgio Cabral. Hei de torcer porque quando o Amarildo enfiou aquele gol na Espanha, em 66, tia Nicinha jogou o rosário pro alto, foi pro piano e tocou o Hino à Bandeira. Hei de torcer porque no gol de empate do Clodoaldo, contra o Uruguai, em 70, meu tio Placidino, um cientista de renome internacional em aerofotogrametria, atirou uma gaiola de periquito no teto de um aero-willys aos gritos de “conheceu, Obdúlio?”. Hei de torcer porque minha filha Mariana, por causa do cretino do Paulo Rossi, chorou muito ao ver os garotos apagando os desenhos dos nossos craques em muros e paredes, num ato impressionante de vingança coletiva. Hei de torcer porque não resta outra alternativa. Torcer dá samba.
A paixão. Era época do rádio Spica. Todo mundo tinha um. Cada transeunte zumbia como um besouro. De madrugada, tocaram a campainha da velha casa da Rua dos Artistas. 0 Lindolfo havia morrido. Vó Noêmia fez uns trinta sanduíches de carne assada, os homens encheram vidros vazios de eparema com traçado e partimos pro velório. Na saída, alguém lembrou:
Cadê o rádio? Hoje tem Vasco x Botafogo.
Mas, aparentemente, ninguém se atreveu a levar. A mulher do Lindolfo, Dona Marcelina, era tão séria que já estava de luto muitos dias antes da morte do marido. Amanheceu um domingo de comemorar com batida de maracujá.
Naquele tempo, o jogo começava às três e quinze da tarde. Os enterros saíam por volta das cinco.
No Caju, a viúva parecia de granito. Luto fechado, um buço que deve ter influenciado o Samey, cabelos cinzentos cobertos por um lenço negro, leque também negro fechado nas mãos em garra, uma viúva de Lorca.
Waldir Iapetec, com seu faro inigualável, descobriu um buteco nas imediações com rabada e cervejotas superlampoticamente geladas. Mandaram arrebite. Mais ou menos na hora da peleja começar, Ceceu Rico, cheio de goró, lavando a cabeça com azeite Galo e botando aristolino na maionese, sacou um radinho do bolso das acumuladas. O Iapetec riu:
Sabia que tu não ia aguentar.
Tenho minha reputação. Não quero que digam: Ceceu Rico deu balda com medo de viúva.
O pessoal ficou ouvindo o jogo no tal do buteco. De vez em quando, um batedor partia pro front do velório. E tome chá-de-macaco. O clima de jogo aumentava a vontade de biritar. Um zero a zero cheio de lances dramáticos. Faltando uns quinze minutos pro fim do segundo tempo, pressão do Vasco, meu avô Aguiar apareceu, deu um tapa de bagaceira nos beiços, e avisou, com toda cortesia de seus quase dois metros de cutucro nascido em Póvoa do Varzim.
Vamo pagar a conta que o palhaço de saias chegou pra encomendar o corpo. Ceceu, enfia o rádio na ombreira do paletó e finge que tá com torcicolo, meningite, um troço desses.
Provavelmente sentindo a exuberância dos bafos, a viúva lançou a todos um olhar assassino. O padre, com a batina salpicada de proverbial caspa, começou a arenga:
Nosso irmão Lindolfo já não está no estádio, digo, no mundo. Encontra-se na Glória!
O Iapetec sussurrou:
Provavelmente na taberna. Ele adorava.
Olhar rambo-rocky da viúva em nossa direção. Vários gulps e pigarros.
Bem-aventurados aqueles...
Nesse instante, Ceceu captou no radinho uma investida vascaína:
Lá vai o Vasco! Bola pra Walter Marciano na entrada da área! Driblou o primeiro, driblou o segundo, vai marcar...
O desgraçado do radinho ficou mudo. Desesperado, Ceceu catucou os botões pra baixo e pra cima. Nada. Teria sido a pilha? Ceceu sentou a porrada no spika, método quase infalível para engenhocas enguiçadas, e uma palavra, altíssima, como que irradiada pela sublime voz do Todo-Poderoso, elevou-se na capela:
PÊNALTI!
Ceceu abaixou de um golpe todo o volume. Um silêncio aterrador. Possessa, a viúva urrou:
Contra quem? Pênalti contra quem? Aumenta, babaca!
À beira de uma de suas famosas crises de asma, Ceceu estertorou:
Pênalti contra o Botafogo.
A viúva tava comandando o tradicional corinho de “casaca, casaca, casaca – saca-saca...”, quando o padre abandonou o recinto.
Meu avô gritou:
Hei, seu padre! Volta aqui! Futebol enlouquece qualquer um! Não foi desrespeito, não.
Sintam a resposta do padreco:
Aqui, ó! Eu sei que não foi desrespeito. Foi roubo no duro! Tô farto de ver o Vasco vencer com gol de pênalti no último minuto. Vão todos pros quintos dos infernos. Ladrões!
Mas seus protestos foram abafados pelos gritos de gol e pelo espetacular choro da viúva. De alegria.
Eu falei no começo que não ia mais entrar em águas vascaínas, não foi? Pois não resisti. Futebol é isso – incoerência, farsa, delírio. Por essas e outras é que hei de torcer, hei de torcer até morrer. A torcida brasileira é toda assim, a começar por mim.

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo 

24/05/2023

Não é fácil ser uma mulher que gosta de futebol

Não tem jeito: se você for mulher e disser que gosta de futebol, provavelmente pensarão: “Bonitinha. Deve saber quem é o Neymar, o Ronaldo e o Rogério Ceni. Talvez já tenha ouvido falar no Valdívia. Deve saber a diferença entre pênalti e falta. Talvez saiba que o Boca Juniors é argentino. E pode até ter ido uma ou duas vezes ao estádio, acompanhando o pai ou namorado, claro.”
Pronto. Isso é o máximo de credibilidade que vão te dar.
Mas a gente não se deixa intimidar. Finge que não sabe que vai chocar a audiência e comenta na boa: “Até que o Criciúma segurou bem aquele 1 a 0 no primeiro tempo, mas não tem jeito, o time é fraco mesmo, tava na cara que o Cruzeiro ia virar até o final. E 3 a 1 acabou até saindo barato.”
É nessas horas que as pessoas olham para a gente completamente pasmas. Como se tivéssemos discorrido de forma aleatória sobre física quântica ou epistemologia. Qualquer coisa que a gente diga que não seja do tipo “Ai, mas o Pato é mesmo uma gracinha” vai chocar quem ouve.
Experimente dizer que não quer ir ao cinema na sessão de domingo às 17h porque tem jogo.
Experimente falar, numa quinta-feira, que vai ao estádio só com uma amiga, como eu fiz diversas vezes.
Experimente deixar a TV no VT de Flamengo x Chapecoense enquanto pinta a unha do pé, e alguém entrar no seu quarto.
Experimente deixar alguém entrar no seu carro no fim da tarde e te flagrar ouvindo a segunda edição de Papo de Craque.
Experimente, ao ver um gol bonito, brincar que esse aí devia ser lance Lukscolor.
Experimente mencionar, com alguma naturalidade, nomes como Dínamo de Kiev, Borussia Dortmund ou Gamba Osaka.
Experimente mencionar um jogo qualquer da Champions que aconteceu há uns três anos.
Experimente dizer que você ainda não se conforma que o Barcelona tenha comprado o Douglas por 4 milhões de euros.
Enfim. Experimente dizer o que qualquer Zé Mané pode dizer numa roda de amigos, mas, se você for moça, só pode ser armação, decoreba ou golpe de sorte. Ninguém vai se conformar que você saiba quem está na final da Copa do Brasil, nas semifinais da Sul-Americana e nas pontas da tabela do Brasileirão.
Ninguém está pronto para te ouvir falar de técnicos que superem o circuito Felipão-Dunga-Muricy-Mano Menezes. E nem precisa ousar muito. É só mencionar Ney Franco, Oswaldo de Oliveira, Cuca, Vagner Mancini, Abel Braga. Pronto, já é o caos, você é um alienígena.
E, para o senso comum, você tem direito a saber um – APENAS UM, e olhe lá – time por país estrangeiro. Basicamente: Barcelona, Benfica, PSG, Milan, Manchester (escolha um dos dois), Bayern de Munique e, como já mencionei, Boca Juniors.
Getafe? Rio Ave? Monaco? Fiorentina? Newcastle? Schalke 04? Estudiantes? Nananinanão. (E nem pense em ir além desse rol de países. Cerro Porteño, Colo-Colo, Ajax, Olympiakos, Once Caldas, Pachuca. Neeeeeem pensar.)
E não esqueça que todos esperam que você só conheça jogadores de futebol que foram da seleção brasileira ou que tenham namorado alguma famosa. Basicamente, você deve evitar nomes como: Fernando Prass, Léo Moura, Réver, Guiñazú, Nei Paraíba, Keirrison, Edson Silva, Edu Dracena, Auro, Cléber Santana, Leandro Amaro, Negueba, Barcos, Aranha, Lincoln, Durval, Ferrugem.
Mas quando você já tiver comprovado saber o elenco do seu time de trás para a frente, os campeões das últimas três Libertadores, o nome do estádio do Guarani (esse é fofo e toda mulher teeeem que saber) e o currículo básico do Guardiola, SEMPRE vai ter um infeliz para dizer “Ah, mas então explica o que é um impedimento!”.
Cara.
Isso é mais agressivo do que nos perguntar se sabemos se rímel é para passar nos cílios ou na sola do pé.
Sugiro a todas as mulheres que ouçam essa pergunta que demonstrem fisicamente como acontece um impedimento para esse senhor, de preferência na beira da varanda ou da plataforma do metrô, sendo você um zagueiro e ele o jogador impedido. Pode ser?
E, claaaaaaro, essas mesmas pessoas dirão “Essa mulher deve ter pesquisado horrores para escrever esse texto”. Não vou negar: abri o Google duas vezes. Uma para saber se Oswaldo de Oliveira era com W ou com V, outra para saber se o Bayern de Munique era Bayer ou Bayern.
Enfim. A mulher que gosta – e entende – de futebol sofre. Provavelmente a que entende de carros também. Assim como o homem que cozinha ou entende de moda. Tá na hora de tudo isso mudar, né?

Ruth Manus, in Um dia ainda vamos rir de tudo isso

30/12/2022

A Realeza de Pelé


Depois do jogo América x Santos, seria um crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana. Grande figura, que o meu confrade [Albert] Laurence chama de “o Domingos da Guia do ataque”. Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: — dezessete anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que alguém possa ter dezessete anos, jamais. Pois bem: — verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racialmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: — ponham-no em qualquer rancho e a sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor.
O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: — a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias. Já lhe perguntaram: — “Quem é o maior meia do mundo?” Ele respondeu, com a ênfase das certezas eternas: — “Eu.” Insistiram: — ”Qual é o maior ponta do mundo?” E Pelé: — “Eu.” Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção que ninguém reage, e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições. Nas pontas, nas meias e no centro, há de ser o mesmo, isto é, o incomparável Pelé.
Vejam o que ele fez, outro dia, no já referido América x Santos. Enfiou, e quase sempre pelo esforço pessoal, quatro gols em Pompeia. Sozinho, liquidou a partida, liquidou o América, monopolizou o placar. Ao meu lado, um americano doente estrebuchava: — “Vá jogar bem assim no diabo que o carregue!” De certa feita, foi até desmoralizante. Ainda no primeiro tempo, ele recebe o couro no meio do campo. Outro qualquer teria despachado. Pelé, não. Olha para a frente, e o caminho até o gol está entupido de adversários. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho. Dribla o primeiro e o segundo. Vem-lhe, ao encalço ferozmente, o terceiro, que Pelé corta sensacionalmente. Numa palavra: — sem passar a ninguém e sem ajuda de ninguém, ele promoveu a destruição minuciosa e sádica da defesa rubra. Até que chegou um momento em que não havia mais ninguém para driblar. Não existia uma defesa. Ou por outra: — a defesa estava indefesa. E, então, livre na área inimiga, Pelé achou que era demais driblar Pompeia e encaçapou de maneira genial e inapelável.
Ora, para fazer um gol assim não basta apenas o simples e puro futebol. É preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confiança, de certeza, de otimismo que faz de Pelé o craque imbatível. Quero crer que a sua maior virtude é, justamente, a imodéstia absoluta. Põe-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha. Hoje, até uma cambaxirra sabe que Pelé é imprescindível na formação de qualquer escrete. Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e, mesmo, insolente, que precisamos. Sim, amigos: — aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas de pau.
Por que perdemos, na Suíça, para a Hungria? Examinem a fotografia de um e outro time entrando em campo. Enquanto os húngaros erguem o rosto, olham duro, empinam o peito, nós baixamos a cabeça e quase babamos de humildade. Esse flagrante, por si só, antecipa e elucida a derrota. Com Pelé no time, e outros como ele, ninguém irá para a Suécia com a alma dos vira-latas. Os outros é que tremerão diante de nós.

Nelson Rodrigues, in Manchete Esportiva, 8 de março de 1958

05/12/2022

Deus e a Copa

Julho de 2014

Caros atletas da seleção brasileira, aqui quem fala é Deus. Em primeiro lugar, gostaria de pedir que parassem de me mencionar nas entrevistas. Não tive nada a ver com a derrota de vocês. Não sei se vocês repararam, mas a seleção alemã fez sete gols — e não dedicou nenhum deles a mim. Era de se esperar. Nunca frequentei um treino. Eu não tive nada a ver com aquilo. Os caras estão treinando há dez anos. Não mereço crédito — e nem estou interessado nisso.
Esse negócio de agradecer a mim pega supermal pro meu lado. As pessoas veem as cagadas que estão acontecendo pelo mundo e acham que eu estava num jogo de futebol em vez de estar resolvendo as cagadas. No jogo contra a Croácia, soube que o juiz marcou um pênalti inexistente e vocês agradeceram a mim. Pessoal, eu tenho mais o que fazer do que ficar subornando juiz. Nunca uma seleção brasileira foi tão temente a mim. E nunca uma seleção tomou um sacode tão grande. Perceberam quão pouco eu me importo com a Copa do Mundo?
Pra vocês terem uma ideia, no momento estou num planeta paradisíaco, torrando royalties. Não adianta me chamar que eu não volto. Mesmo que eu me importasse com futebol: vocês acham que eu ia ajudar um time só porque os jogadores acreditam mais em mim? Vocês acham que eu ia prejudicar outro time só porque o pessoal não acredita tanto em mim? Vocês acham mesmo que eu sou carente nesse nível? Fiz mil anos de análise, pessoal. Vocês não vão me comprar com um pouco de afeto e dez por cento do salário. A propósito: esse povo pra quem vocês doam o dízimo não está me repassando o valor. Ninguém até hoje sequer me pediu minha conta pessoal.
Se eu fosse vocês, não me preocuparia tanto com essa goleada. Me preocuparia com outros sacodes: no prêmio Nobel, a Alemanha está ganhando de vocês de 102 a zero (tampouco tive nada a ver com isso). Também não me preocuparia tanto em não transar antes do casamento, David Luiz. Não quer transar, não transa. Mas não diga que sou eu que não quero que você transe. Eu quero mais é que todo o mundo transe, com quem quiser, da maneira que quiser, na posição que bem entender. Transa pra mim.
Despeço-me com uma dica: eu não valho nada, mas o diabo vale muito menos. Não adianta apelar pra Deus enquanto o demônio for presidente da CBF.

Gregório Duvivier, in Put some farofa

06/09/2022

Até Morrer

Meu primeiro contato com a bola foi no saco. Dito assim, parece um fato biologicamente normal. E é mesmo, desde que o atingido pela bolada consiga recuperar a respiração e, claro, o saco para a prática do nobre esporte bretão.
A dor dessa primeira experiência futebolística despertou um traço ibero-masô, geneticamente explicável, em meu excelente caráter: como um espermatozoide tresloucado, fui impelido em direção cruzmaltina. Pois é, sou Vasco desde garotinho. Meu velho diz que um vascaíno sincero tem miolo mole ou é opaco feito uma calçada, sem nenhum trocadilho. Não me deterei no meu amor perverso pelo antigo Expresso da Vitória. O Japiassu, em memorável artigo pra revista Placar, escreveu uma frase definitiva sobre o Vasco: o time foi dirigido por um delegado quando deveriam chamar um padre. Gol!
Futebol é loucura. Em 1958, minha família estava empilhada em volta do rádio, um daqueles antigões. Todos, menos meu avô Alfredo. Ia começar a final Brasil X Suécia. Neguinho roía a unha, fumava, fazia promessa. Meu avô Alfredo balançava a cabeça, pensativo. Homem cordialíssimo, extremamente equilibrado, não conseguia entender aquela fissura. Fazia piadas pra descontrair a torcida pinel:
Dona Nadyr com aquilo tudo dando sopa e esses caras fanatizados por marmanjos de calção...
A Suécia meteu o primeiro gol.
Meu pacato avô empalideceu, rasgou o Jornal do Commércio ao meio, atirou a fruteira bico-de-jaca no quadrinho “Deus abençoe este lar” e berrou:
Perder pra corno, jamais! Todo mundo sabe que sueco é manso e deixa beliscar a mulher dele, enquanto toma umazinha no cômodo ao lado.
Se Vavá, o Leão da Copa, não tivesse empatado, eu, com onze anos, teria aprendido tudo sobre a vida sexual dos suecos. Quando o jogo terminou, 5X2 pra nós, tentei ampliar minha cultura sobre deixar beliscar e outros temas fascinantes, mas vovô Alfredo foi categórico:
Eles perderam de 5, Aldir. Logo, devemos concluir que são excelentes anfitriões, gente culta e civilizada. Não se fala mais no assunto. Brasil!!!
Essa capacidade de transtornar cucas certinhas – acho que diríamos, hoje, esse dom de levar caretas a transgredir – é que me faz permanecer um apaixonado por futebol, apesar de toda corrupção, resultados decepcionantes, decadência da técnica, desaparecimento do virtuose (a ascensão do açougueiro), violência, violência, violência e a dor, suavizada pela recordação dos dribles imortais, de não ver outro Garrincha. Mas hei de torcer!
Hei de torcer porque conheci um bebum que apelidou a própria amásia de Paulo Isidoro: “Ela dormia na ponta, mas embolava pelo meio”. Hei de torcer porque o ponta-esquerda do “Artistas da Rua Futebol e Regatas” era bicha e a escalação do ataque ficou: Iapetec, Sorvete, Lindauro, Gogó-de-Ouro e Viveca Lindfors. Hei de torcer porque também são vascaínos: Ceceu Rico, Paulo Amarelo, Guinga, Martinho da Vila, Nei Lopes, Paulinho da Viola, Edu Lobo e Sérgio Cabral. Hei de torcer porque quando o Amarildo enfiou aquele gol na Espanha, em 66, tia Nicinha jogou o rosário pro alto, foi pro piano e tocou o Hino à Bandeira. Hei de torcer porque no gol de empate do Clodoaldo, contra o Uruguai, em 70, meu tio Placidino, um cientista de renome internacional em aerofotogrametria, atirou uma gaiola de periquito no teto de um aero-willys aos gritos de “conheceu, Obdúlio?”. Hei de torcer porque minha filha Mariana, por causa do cretino do Paulo Rossi, chorou muito ao ver os garotos apagando os desenhos dos nossos craques em muros e paredes, num ato impressionante de vingança coletiva. Hei de torcer porque não resta outra alternativa. Torcer dá samba.
A paixão. Era época do rádio Spica. Todo mundo tinha um. Cada transeunte zumbia como um besouro. De madrugada, tocaram a campainha da velha casa da Rua dos Artistas. 0 Lindolfo havia morrido. Vó Noêmia fez uns trinta sanduíches de carne assada, os homens encheram vidros vazios de Eparema com traçado e partimos pro velório. Na saída, alguém lembrou:
Cadê o rádio? Hoje tem Vasco x Botafogo.
Mas, aparentemente, ninguém se atreveu a levar. A mulher do Lindolfo, Dona Marcelina, era tão séria que já estava de luto muitos dias antes da morte do marido. Amanheceu um domingo de comemorar com batida de maracujá.
Naquele tempo, o jogo começava às três e quinze da tarde. Os enterros saíam por volta das cinco.
No Caju, a viúva parecia de granito. Luto fechado, um buço que deve ter influenciado o Sarney, cabelos cinzentos cobertos por um lenço negro, leque também negro fechado nas mãos em garra, uma viúva de Lorca.
Waldir Iapetec, com seu faro inigualável, descobriu um buteco nas imediações com rabada e cervejotas superlampoticamente geladas. Mandaram arrebite. Mais ou menos na hora da peleja começar, Ceceu Rico, cheio de goró, lavando a cabeça com azeite Galo e botando aristolino na maionese, sacou um radinho do bolso das acumuladas. O Iapetec riu:
Sabia que tu não ia aguentar.
Tenho minha reputação. Não quero que digam: Ceceu Rico deu balda com medo de viúva.
O pessoal ficou ouvindo o jogo no tal do buteco. De vez em quando, um batedor partia pro front do velório. E tome chá-de-macaco. O clima de jogo aumentava a vontade de biritar. Um zero a zero cheio de lances dramáticos. Faltando uns quinze minutos pro fim do segundo tempo, pressão do Vasco, meu avô Aguiar apareceu, deu um tapa de bagaceira nos beiços, e avisou, com toda cortesia de seus quase dois metros de cutucro nascido em Póvoa do Varzim.
Vamo pagar a conta que o palhaço de saias chegou pra encomendar o corpo. Ceceu enfia o rádio na ombreira do paletó e finge que tá com torcicolo, meningite, um troço desses.
Provavelmente sentindo a exuberância dos bafos, a viúva lançou a todos um olhar assassino. O padre, com a batina salpicada de proverbial caspa, começou a arenga:
Nosso irmão Lindolfo já não está no estádio, digo, no mundo. Encontra-se na Glória!
O Iapetec sussurrou:
Provavelmente na taberna. Ele adorava.
Olhar rambo-rocky da viúva em nossa direção. Vários gulps e pigarros.
Bem-aventurados aqueles...
Nesse instante, Ceceu captou no radinho uma investida vascaína:
Lá vai o Vasco! Bola pra Walter Marciano na entrada da área! Driblou o primeiro, driblou o segundo, vai marcar...
O desgraçado do radinho ficou mudo. Desesperado, Ceceu catucou os botões pra baixo e pra cima. Nada. Teria sido a pilha? Ceceu sentou a porrada no Spika, método quase infalível para engenhocas enguiçadas, e uma palavra, altíssima, como que irradiada pela sublime voz do Todo-Poderoso, elevou-se na capela:
PÊNALTI!
Ceceu abaixou de um golpe todo o volume. Um silêncio aterrador. Possessa, a viúva urrou:
Contra quem? Pênalti contra quem? Aumenta, babaca!
À beira de uma de suas famosas crises de asma, Ceceu estertorou:
Pênalti contra o Botafogo.
A viúva tava comandando o tradicional corinho de “casaca, casaca, casaca – saca – saca...”, quando o padre abandonou o recinto.
Meu avô gritou:
Hei, seu padre! Volta aqui! Futebol enlouquece qualquer um! Não foi desrespeito, não.
Sintam a resposta do padreco:
Aqui, ó! Eu sei que não foi desrespeito. Foi roubo no duro! Tô farto de ver o Vasco vencer com gol de pênalti no último minuto. Vão todos pros quintos dos infernos. Ladrões!
Mas seus protestos foram abafados pelos gritos de gol e pelo espetacular choro da viúva. De alegria.
Eu falei no começo que não ia mais entrar em águas vascaínas, não foi? Pois não resisti. Futebol é isso – incoerência, farsa, delírio. Por essas e outras é que hei de torcer, hei de torcer até morrer. A torcida brasileira é toda assim, a começar por mim.

Aldir Blanc, in Brasil passado a sujo

11/08/2022

Sexo e futebol

A dissertação nada-a-ver de hoje é: no que o sexo e o futebol se parecem?
No futebol, como no sexo, as pessoas suam ao mesmo tempo, avançam e recuam, quase sempre vão pelo meio mas também caem para um lado ou para o outro e às vezes há um deslocamento. Nos dois é importantíssimo ter jogo de cintura.
No sexo, como no futebol, muitas vezes acontece um cotovelaço no olho sem querer, ou um desentendimento que acaba em expulsão. Aí um vai para o chuveiro mais cedo.
Dizem que a única diferença entre uma festa de amasso e a cobrança de um escanteio é que na grande área não tem música, porque o agarramento é o mesmo, e no escanteio também tem gente que fica quase sem roupa. Também dizem que uma das diferenças entre o futebol e o sexo é a diferença entre camiseta e camisinha. Mas a camisinha, como a camiseta, também não distingue, ela tanto pode vestir um craque como um medíocre. No sexo, como no futebol, você amacia no peito, bota no chão, cadência, e tem que ter uma explicação pronta na saída para o caso de não dar certo. No futebol, como no sexo, tem gente que se benze antes de entrar e sempre sai ofegante.
No sexo, como no futebol, tem o feijão com arroz, mas também tem o requintado, a firula e o lance de efeito. E, claro, o lençol. No sexo também tem gente que vai direto no calcanhar.
E tanto no sexo quanto no futebol o som que mais se ouve é aquele “uuu”.
No fim, sexo e futebol só são diferentes, mesmo, em duas coisas. No futebol, não pode usar as mãos. E o sexo, graças a Deus, não é organizado pela CBF.

Luís Fernando Veríssimo, in Sexo na cabeça

22/06/2022

As Teixeiras e o futebol

Com os Andradas tínhamos feito uma espécie de pacto; a gente não jogava bola na rua defronte da casa deles, mas um pouco para cima, onde havia um muro que dava para o quintal da casa; em compensação, eles deixavam a gente pular o muro e apanhar a bola quando ela caía lá. Mas o muro não era bastante comprido, e assim o nosso campo abrangia, como eu ia dizendo, algumas janelas das Teixeiras. As quais, eu também já disse, não apreciavam o futebol.
Quando a gritaria na rua era maior, uma das Teixeiras costumava nos passar um pito da janela, mandando a gente embora. O jogo parava um instante, ficávamos quietos, de cara no chão — e logo que ela saía da janela a peleja continuava. Às vezes aquela ou outra Teixeira voltava a gritar conosco — começavam por nos chamar de “meninos desobedientes” e acabavam nos chamando de “moleques”, o que nos ofendia muito (“Moleque é a senhora!” — gritou Chico uma vez), mas de modo algum nos impedia de finalizar a pugna.
Uma das Teixeiras era mais cordial, chamava um de nós pelo nome, dizia que éramos uns meninos inteligentes, filhos de gente boa, portanto poderíamos compreender que a bola poderia quebrar uma vidraça. “Não quebra não senhora! Não quebra não senhora!” — gritávamos com absoluta convicção, e tratávamos de tocar o jogo para a frente para não ouvir novas observações.
Um dia ela nos propôs jogar mais para baixo, então o Juquinha foi genial: “Não, senhora, lá nós não podemos porque tem a Dona Constança doente”, desculpa notável e prova de bom coração de nosso time.
Então por que vocês não jogam mais para cima?” — propôs ela com certa astúcia, e falando um pouco baixo, como se temesse que os vizinhos de cima ouvissem. “Ah, não, lá o campo não presta!”, argumento, aliás, sincero, de ordem técnica, e portanto irrespondível.
Eu vou falar com papai! Quando ele chegar vocês vão ver” — gritou certa vez uma das Teixeiras mais antipáticas. Pois naquele momento o coronel de bigodes brancos ia chegando, o jogo parou, ele perguntou à filha o que era, ela disse “esses meninos fazendo algazarra aí, é um inferno, qualquer hora quebram uma vidraça” — mas o velho ouviu calado e entrou calado, sem sequer nos olhar, nem dar qualquer importância ao fato. Sentimos que o velho, sim, era uma pessoa realmente importante e um homem direito, e superior, e continuamos nossa partida.
As queixas que algumas Teixeiras faziam em nossa casa eram muito bem recebidas por mamãe, que lhes dava toda razão — “esses meninos estão mesmo impossíveis” —, e uma ou duas vezes nos transmitiu essas queixas sem convicção. De outra feita, como a conversa lá em casa versasse sobre as Teixeiras, ouvimo-la dizer que fulana e sicrana (duas das irmãs) eram muito boazinhas, muito simpáticas, mas beltrana, coitada, era tão enjoada, tão antipática, “ainda ontem esteve aqui fazendo queixas de meus filhos”.
Mamãe era a favor de nosso time; mamãe, no fundo, e papai também (hoje, que o time e eles dois morreram, esta súbita certeza, ao meditar no distante passado, tem um poder absurdo, inesperado de me comover, até sentir um ardor de lágrimas nos olhos) — eles sempre foram a favor de nosso time!
E nosso caso com as Teixeiras foi se agravando, como se verá.

Rubem Braga, in A traição das elegantes

13/01/2021

Infantilidades

          Só o futebol permite que você sinta aos 60 anos exatamente o que sentia aos 6. Todas as outras paixões infantis ou ficam sérias ou desaparecem, mas não há uma maneira adulta de ser apaixonado por futebol. Adulto seria largar a paixão e deixar para trás essas criancices: a devoção a um clube e às suas cores como se fosse a nossa outra nação, o desconsolo ou a fúria assassina quando o time perde, a exultação guerreira com a vitória. Você pode racionalizar a paixão, e fazer teses sobre a bola, e observações sociológicas sobre a massa ou poesia sobre o passe, mas é sempre fingimento. É só camuflagem. Dentro do mais teórico e distante analista e do mais engravatado cartola aproveitador existe um guri pulando na arquibancada. E esta nossa infantilidade compartilhada, de certa forma, redime tudo. Até o Eurico Miranda.
E também é a culpada pelo futebol profissional no Brasil ter vivido, até hoje, nesta doce irresponsabilidade sem cobrança e sem castigo. Nenhum clube de futebol precisa ser regido de uma forma legal e contábil porque nenhum existe no mundo real, adulto e fiscalizável. Todos contam com a tolerância carinhosa dedicada a crianças brincando de gente grande, ou de gente grande sendo criança. E a brincadeira fica cada vez maior e mais longe do controle. Nos últimos anos o comércio de jogadores de futebol, incluindo a repartição da propriedade do passe entre clubes e empresários e investidores, transformou-se num dos mais rentáveis negócios clandestinos do mundo, envolvendo trampas e tramoias que só podem ser imaginadas, já que muito pouco se torna público.
É muito saudável, portanto, que finalmente se investigue seriamente os negócios do futebol e se exija comportamento adulto dos seus responsáveis e correção fiscal e transparência dos clubes.
Desde, claro, que seja dos outros e não do Internacional ou do Botafogo.

Luís Fernando Veríssimo, in Time dos sonhos

08/10/2020

Do baú

O futebol é, basicamente, o mesmo desde que foi inventado. Não há muito o que fazer para mudá-lo, fora detalhes. Com a lâmina de barbear acontece a mesma coisa. O modo de jogar futebol pode ser completamente diferente hoje do que era há anos, como a aparência dos aparelhos de barbear de hoje pouco tem a ver com a da época em que Mr. Gillette inventou sua prática lâmina, mas a ideia fundamental permanece inalterada, e inalterável. E, no entanto, todos os anos os fabricantes de aparelho de barbear precisam apresentar um produto novo. Todos os anos os departamentos de marquetchim pedem aos departamentos de pesquisa que reinventem o aparelho de barbear, para terem o que anunciar. Duas lâminas, três lâminas, cinco lâminas, lâminas flutuantes, lâminas convergentes, lâminas divergentes, lâminas musicais — qualquer coisa para que o aparelho do ano passado fique obsoleto e a novidade seja irresistível. Da mesma forma, todo técnico, quando assume um novo time, deve trazer a sugestão implícita de que vai reinventar o futebol.

As razões dadas para trocar de técnico são muitas. O técnico que sai perdeu o ambiente, perdeu a confiança, perdeu a razão — e é sempre mais fácil trocar um técnico perdedor do que um time inteiro. Mas a razão verdadeira é o desejo secreto de que o novo técnico reúna os jogadores no meio do campo, abra sua sacola e tire lá de dentro — tará! — um outro jogo. Um futebol inédito. Um futebol que ninguém mais tem, e, portanto, invencível. O milagre ainda não aconteceu, mas todo técnico de futebol é uma promessa do futebol reinventado. Por isso eles levam vidas de homens santos, perambulando pelo país entre guaridas temporárias, sabendo que é pouco o tempo entre a adoração e o desmascaramento, a adulação e o apedrejamento. Ou ele é um salvador ou é um charlatão. Não tem o recurso do meio-termo.

Nem o recurso do bom-senso. O novo técnico não pode dizer para o time e a torcida que o futebol é um aborrecido jogo de repetição e paciência, decidido, muitas vezes, por um ponta-esquerda que nem foi escalado, o Fortuito. Não pode enfatizar que o futebol precisa ser jogado com o pé, sabidamente um órgão tão dispersivo e difícil de controlar que poderia ser do governo. Nem lembrar o fato de que o adversário colocará em campo, perversamente, um time com o mesmo número de jogadores que também querem a bola, só para os atrapalhar. Seria a mesma coisa que um fabricante de aparelhos de barbear fazer uma cara campanha publicitária para anunciar nada de novo. Dizer que não há mais o que fazer, que o aparelho de barbear chegou ao limite das suas possibilidades de mudança, que o deste ano será sensacionalmente igual ao do ano passado.

Impensável.

Luís Fernando Veríssimo, in Time dos sonhos

28/09/2020

Para que serve o futebol

Não sei por que o MH — Marciano Hipotético — insiste em voltar ao Brasil e ao meu texto, pois aqui ele só encontra perplexidades. Por mais que tente, o MH não consegue nos entender. Ele, que é verde, ficou azul de espanto quando lhe contei que, no país do futebol, o futebol era um mau negócio. Mas como, perguntou, agitando as antenas. Uma população deste tamanho, todo o mundo louco por ele, nenhum outro esporte profissional de massa disputando mercado com ele, um clima que permite a sua prática o ano inteiro — e ele só dá lucro para a CBF? Não consegue sustentar nem uma indústria de revistas especializadas como tem na Espanha e na Itália (ou, para não ir tão longe, na Argentina)? Os seus clubes estão falidos, os seus melhores jogadores são exportados?

Em Marte, contou o MH, apesar da ausência de grama e da fraca gravidade, que desaconselha tiros de meta para a bola não entrar em órbita, o futebol dá dinheiro. Mesmo se houvesse mercado para jogadores com três pernas na Europa, nenhum marciano sonharia em ir jogar lá. Nem no Real Madrid. Por que no Brasil não acontecia o mesmo? Achei melhor mudar de assunto e contar que outro problema do Brasil era a falta de terra para assentar agricultores. Aí o MH ficou roxo de indignação, me acusou de estar gozando com ele, entrou na nave que estacionara no telhado e foi embora.

Agora voltou, não com uma solução, mas com uma tese. Para ele, o problema básico do Brasil é o mesmo da agricultura quando uma safra excede a capacidade de escoamento. No nosso caso, uma superabundância de talento não encontra uma estrutura para absorvê-la. Num país enorme, o talento produzido não tem colocação e, literalmente, transborda. Mesmo os nossos maiores talentos teatrais não sobrevivem naturalmente, de bilheterias, sem subsídio ou patrocínio. Cinema, a mesma coisa. De literatura ninguém vive. E como não se pode diminuir a produção de talento como se diminui a de soja, por mais que tentem emburrecer o país, o problema só cresce. Portanto, me disse o MH, está claro para o que serve o futebol profissional no Brasil, e por que persiste mesmo sendo um fracasso permanente. Ele existe para representar o grande desperdício nacional, o grande paradoxo de um país que não se aproveita. A função do futebol, no Brasil, é ser metáfora.

Dito o quê, o MH partiu outra vez, pois não é doido de ficar aqui.

Luís Fernando Veríssimo, in Time dos sonhos 

31/01/2020

O locutor esportivo


O locutor esportivo mais festejado em 1929 foi Anselmo Fioravanti, que não entendia de futebol e por isso inventava.
Sua estreia ao microfone gerou uma tempestade de protestos. Os ouvintes exigiam sua dispensa, mas o diretor da estação considerou que muitos outros se pronunciaram encantados com Anselmo, classificado como humorista de primeira água. Foi mantido, e sua atuação despertou sempre o maior sucesso. Jogo narrado por ele era muito mais fascinante do que a verdadeira partida.
Anselmo creditava o gol ao time cujo arco fora vazado. Trocava os nomes dos jogadores, invertia posições e fazia com que o clube derrotado empatasse ou ganhasse, conforme a inspiração do momento. Na verdade, ele não mentia. Apenas, ignorava as regras mais comezinhas do esporte e contava o que lhe parecia estar certo.
Torcedores e agremiações o tinham em alta conta, porque ele mantinha aceso o interesse pelo futebol. Os vencedores de fato não se magoavam com a informação contrária, pois a vitória era inquestionável. E os derrotados consolavam-se com o triunfo imaginário que ele generosamente lhes concedia.
De tanto assistir a jogos, um dia ele narrou corretamente um lance. Houve pênalti e Anselmo anunciou pênalti. Foi a sua desgraça. Nunca mais ninguém lhe prestou ouvidos, e Anselmo terminou os dias como gari em Vila Isabel.
Carlos Drummond de Andrade, in Contos plausíveis

12/12/2018

Os implacáveis


Um dos uruguaios campeões do mundo, Perucho Petrone, foi para a Itália. Estreou em 1931, no Fiorentina: nessa tarde, Petrone fez onze gols.
Na Itália, durou pouco. Foi o goleador do campeonato italiano, e o Fiorentina lhe ofereceu o que quisesse; mas Petrone se cansou muito depressa das fanfarras do fascismo em ascensão. O tédio e a saudade o devolveram a Montevidéu, onde continuou fazendo seus gols de terra arrasada durante um tempinho. Ainda não tinha feito trinta anos quando teve que deixar o futebol. A FIFA obrigou-o, porque não tinha cumprido seu contrato com o Fiorentina.
Dizem que Petrone era capaz de derrubar uma parede com uma bolada. Quem sabe? Está comprovado, isso sim, que desmaiava os arqueiros e perfurava as redes.
Enquanto isso, na outra margem do rio da Prata, o argentino Bernabé Ferreyra também disparava canhonaços com fúrias de possuído. Torcedores de todos os clubes vinham ver a Fera, que chutava de longe, atravessava as defesas e metia a bola com goleiro e tudo.
Antes e depois das partidas, e também no intervalo, os alto-falantes transmitiam um tango composto em homenagem à sua artilharia. Em 1932, o jornal Crítica ofereceu um prêmio de muito dinheiro ao goleiro que fosse capaz de impedir que Bernabé cravasse um gol nele. E numa tarde daquele ano, Bernabé teve que se descalçar perante os jornalistas, para mostrar que não tinha nenhuma barra de ferro na ponta das chuteiras.
Eduardo Galeano, in Futebol ao sol e à sombra

03/12/2018

O melhor de tudo

Era uma época cheia de perigos. Sarampo, caxumba, catapora, bicho do pé. Engolir chiclete era perigoso porque colava nas tripas. Fazer careta era perigoso porque se batesse um vento você ficaria com o rosto deformado pelo resto da vida. Pé descalço em ladrilho: pneumonia. Melancia com leite: morte certa. Banho depois de comer: congestão.
Um dia fizeram uma cabana num terreno baldio. Ainda havia terrenos baldios. A cabana era o mundo secreto deles, da turma. Ganhou um nome: Clube da Sacanagem. Ninguém precisava saber o que acontecia lá dentro. Os cigarros roubados de casa. As revistinhas. Mas a primeira coisa que o menino fez dentro da cabana foi comer melancia com leite e não morrer.
Com o tempo, os perigos mudavam. Desatenção na escola, falta de estudo, notas baixas: fracasso, nenhum futuro, ruína. Sexo sem camisinha: doença, gravidez indesejada, ruína. Amizades perigosas: drogas, dependência, nenhum futuro, ruína, morte.
E banho depois da comida?
A ironia não era entendida.
Pode.
O grande amor deixava olhar, mas estabelecera um ponto nas suas coxas do qual era proibido passar. Como o Paralelo 38, que dividia as duas Coreias. E ela era rigorosa. No caso de transgressão, soavam os alarmes e havia o perigo até de intervenção americana.
Mas bom, bom mesmo, era o orgulho de um pião bem lançado, o prazer de abrir um envelope e dar com a figurinha rara que faltava no álbum, o volume voluptuoso de uma bola de gude daquelas boas entre os dedos, o cheiro de terra úmida, o cheiro de caderno novo, o cheiro inesquecível de Vick-Vaporub. Mas melhor do que tudo, melhor do que acordar com febre e não precisar ir à aula, melhor até do que fazer xixi em piscina, era passe de calcanhar que dava certo.
É ou não é?
Luís Fernando Veríssimo, in Amor Veríssimo

14/11/2018

Camus


Em 1930, Albert Camus era o São Pedro que tomava conta da porta da equipe de futebol da Universidade de Argel. Tinha se acostumado a jogar como goleiro desde menino, porque essa era a posição onde o sapato gastava menos sola. Filho de família pobre, Camus não podia se dar ao luxo de correr pelo campo: toda noite, a avó revisava as solas e dava uma surra nele, se estivessem gastas.
Durante seus anos de goleiro, Camus aprendeu muitas coisas:
Aprendi que a bola nunca vem para a gente por onde se espera que venha. Isso me ajudou muito na vida, principalmente nas grandes cidades, onde as pessoas não costumam ser aquilo que a gente acha que são as pessoas direitas.
Também aprendeu a ganhar sem se sentir Deus e a perder sem se sentir um lixo, sabedorias difíceis, e aprendeu alguns mistérios da alma humana, em cujos labirintos soube se meter depois, em viagem perigosa, ao longo de seus livros.
Eduardo Galeano, in Futebol ao sol e à sombra

19/08/2018

Chilena

"Chilena" de Pelé, no Maracanã: Brasil x Bélgica (1965). Foto: Alberto Ferreira

Ramón Unzaga inventou a jogada, no campo do porto chileno de Talcahuano: com o corpo no ar, de costas para o chão, as pernas disparavam a bola para trás, num repentino vaivém de tesouradas.
Mas esta acrobacia só foi chamada de chilena alguns anos mais tarde, em 1927, quando o Colo-Colo viajou para a Europa e o atacante David Arellano exibiu-a nos estádios da Espanha. Os jornalistas espanhóis celebraram o esplendor da cambalhota desconhecida e batizaram-na assim porque tinha vindo do Chile, como os morangos e uma dança chamada cuêca.
Depois de vários gols voadores, Arellano morreu naquele ano, no estádio Valladolid, num choque fatal com um zagueiro.
Eduardo Galeano, in Futebol ao sol e à sombra

01/08/2018

O gol olímpico

O gol do argentino Cesáreo Onzari no amistoso com o Uruguai, no estádio Sportivo Barradas

Quando a seleção uruguaia voltou da Olimpíada de 1924, os argentinos lhe ofereceram uma partida de comemoração. A partida foi jogada em Buenos Aires. O Uruguai perdeu por um gol.
O ponta-esquerda Cesáreo Onzari foi o autor do gol da vitória. Lançou um tiro de córner e a bola entrou no arco sem que ninguém a tocasse. Era a primeira vez na história do futebol que se fazia um gol assim. Os uruguaios ficaram mudos. Quando conseguiram falar, protestaram. Segundo eles, o goleiro Mazali tinha sido empurrado enquanto a bola vinha no ar. O árbitro não deu confiança. E então resmungaram que Onzari não tinha tido a intenção de acertar a meta e que o gol tinha sido coisa do vento.
Por homenagem ou ironia, aquela raridade foi chamada de gol olímpico. E até hoje é chamado assim, nas poucas vezes em que acontece. Onzari passou o resto de sua vida jurando que não tinha sido casualidade. E embora tenham transcorrido muitos anos, a desconfiança continua: cada vez que um chute de escanteio sacode a rede sem intermediários, o público celebra o gol com uma ovação, mas não acredita nele.
Eduardo Galeano, in Futebol ao sol e à sombra

23/07/2018

As moñas

As fintas dos jogadores uruguaios, que desenhavam sucessivos oitos no campo, eram chamadas de moñas – laços de fita. Os jornalistas franceses quiseram conhecer o segredo daquelas bruxarias que petrificavam os adversários. José Leandro Andrade, usando intérprete, revelou a fórmula: os jogadores treinavam correndo atrás de galinhas, que fugiam fazendo esses. Os jornalistas acreditaram e publicaram.
Trinta anos depois, as boas fintas eram ainda aplaudidas como gols no futebol sul-americano. Minha memória de criança está cheia delas. Fecho os olhos e vejo, por exemplo, Walter Gómez, aquela vertigem abre-alas, que se metia no emaranhado das pernas inimigas e de finta em finta ia deixando uma esteira de caídos. Os torcedores confessavam:
A gente já não come,
só para ver Walter Gómez.
Gostava de amassar a bola; quando a tomavam dele, se ofendia. Nenhum técnico seria capaz de dizer a ele o que se diz hoje em dia:
Se quiserem amassar, busquem emprego numa padaria.
A finta não era só uma travessura permitida: era uma alegria exigida.
Hoje em dia, estas ourivesarias estão proibidas, ou pelo menos vigiadas sob grave suspeita: agora, são consideradas exibicionismos egoístas, que traem o espírito de equipe e são perfeitamente inúteis diante dos férreos sistemas defensivos do futebol moderno.
Eduardo Galeano, in Futebol ao sol e à sombra

16/07/2018

Andrade

Andrade 

A Europa nunca tinha visto um negro jogando futebol. Na Olimpíada de 24, o uruguaio José Leandro Andrade deslumbrou com suas jogadas de luxo. No meio de campo, este homenzarrão de corpo de borracha carregava a bola sem tocar o adversário, e quando se lançava ao ataque, contorcendo o corpo esparramava um mundo de gente. Numa das partidas, atravessou meio campo com a bola dominada na cabeça. O público o aclamava, a imprensa francesa chamava-o de A Maravilha Negra.
Quando o torneio terminou, Andrade ficou um tempo ancorado em Paris. Ali foi boêmio errante e rei de cabaré. As botas de verniz substituíram as alpargatas que tinha trazido de Montevidéu e um chapéu com aba ocupou o lugar do gorro velho. As crônicas da época saudavam a estampa daquele monarca das noites de Pigalle: o passo elástico e dançarino, o esgar gozador, os olhos entrecerrados que sempre olhavam de longe, e uma pinta de matar: lenço de seda, paletó listado, luvas amarelo-claras e bengala com empunhadura de prata.
Andrade morreu em Montevidéu, muitos anos depois. Os amigos tinham programado muitas festas em seu benefício, mas nenhuma chegou a ser realizada. Morreu tuberculoso, na mais completa miséria.
Foi negro, sul-americano e pobre, o primeiro ídolo internacional do futebol.
Eduardo Galeano, in Futebol ao sol e à sombra