Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo
22/08/2025
Até Morrer
20/10/2023
04/10/2023
24/05/2023
Não é fácil ser uma mulher que gosta de futebol
Ruth Manus, in Um dia ainda vamos rir de tudo isso
30/12/2022
A Realeza de Pelé
Nelson Rodrigues, in Manchete Esportiva, 8 de março de 1958
05/12/2022
Deus e a Copa
Gregório Duvivier, in Put some farofa
06/09/2022
Até Morrer
Aldir Blanc, in Brasil passado a sujo
11/08/2022
Sexo e futebol
Luís Fernando Veríssimo, in Sexo na cabeça
22/06/2022
As Teixeiras e o futebol
Rubem Braga, in A traição das elegantes
13/01/2021
Infantilidades
Luís Fernando Veríssimo, in Time dos sonhos
08/10/2020
Do baú
O futebol é, basicamente, o mesmo desde que foi inventado. Não há muito o que fazer para mudá-lo, fora detalhes. Com a lâmina de barbear acontece a mesma coisa. O modo de jogar futebol pode ser completamente diferente hoje do que era há anos, como a aparência dos aparelhos de barbear de hoje pouco tem a ver com a da época em que Mr. Gillette inventou sua prática lâmina, mas a ideia fundamental permanece inalterada, e inalterável. E, no entanto, todos os anos os fabricantes de aparelho de barbear precisam apresentar um produto novo. Todos os anos os departamentos de marquetchim pedem aos departamentos de pesquisa que reinventem o aparelho de barbear, para terem o que anunciar. Duas lâminas, três lâminas, cinco lâminas, lâminas flutuantes, lâminas convergentes, lâminas divergentes, lâminas musicais — qualquer coisa para que o aparelho do ano passado fique obsoleto e a novidade seja irresistível. Da mesma forma, todo técnico, quando assume um novo time, deve trazer a sugestão implícita de que vai reinventar o futebol.
As razões dadas para trocar de técnico são muitas. O técnico que sai perdeu o ambiente, perdeu a confiança, perdeu a razão — e é sempre mais fácil trocar um técnico perdedor do que um time inteiro. Mas a razão verdadeira é o desejo secreto de que o novo técnico reúna os jogadores no meio do campo, abra sua sacola e tire lá de dentro — tará! — um outro jogo. Um futebol inédito. Um futebol que ninguém mais tem, e, portanto, invencível. O milagre ainda não aconteceu, mas todo técnico de futebol é uma promessa do futebol reinventado. Por isso eles levam vidas de homens santos, perambulando pelo país entre guaridas temporárias, sabendo que é pouco o tempo entre a adoração e o desmascaramento, a adulação e o apedrejamento. Ou ele é um salvador ou é um charlatão. Não tem o recurso do meio-termo.
Nem o recurso do bom-senso. O novo técnico não pode dizer para o time e a torcida que o futebol é um aborrecido jogo de repetição e paciência, decidido, muitas vezes, por um ponta-esquerda que nem foi escalado, o Fortuito. Não pode enfatizar que o futebol precisa ser jogado com o pé, sabidamente um órgão tão dispersivo e difícil de controlar que poderia ser do governo. Nem lembrar o fato de que o adversário colocará em campo, perversamente, um time com o mesmo número de jogadores que também querem a bola, só para os atrapalhar. Seria a mesma coisa que um fabricante de aparelhos de barbear fazer uma cara campanha publicitária para anunciar nada de novo. Dizer que não há mais o que fazer, que o aparelho de barbear chegou ao limite das suas possibilidades de mudança, que o deste ano será sensacionalmente igual ao do ano passado.
Impensável.
Luís Fernando Veríssimo, in Time dos sonhos
28/09/2020
Para que serve o futebol
Não sei por que o MH — Marciano Hipotético — insiste em voltar ao Brasil e ao meu texto, pois aqui ele só encontra perplexidades. Por mais que tente, o MH não consegue nos entender. Ele, que é verde, ficou azul de espanto quando lhe contei que, no país do futebol, o futebol era um mau negócio. Mas como, perguntou, agitando as antenas. Uma população deste tamanho, todo o mundo louco por ele, nenhum outro esporte profissional de massa disputando mercado com ele, um clima que permite a sua prática o ano inteiro — e ele só dá lucro para a CBF? Não consegue sustentar nem uma indústria de revistas especializadas como tem na Espanha e na Itália (ou, para não ir tão longe, na Argentina)? Os seus clubes estão falidos, os seus melhores jogadores são exportados?
Em Marte, contou o MH, apesar da ausência de grama e da fraca gravidade, que desaconselha tiros de meta para a bola não entrar em órbita, o futebol dá dinheiro. Mesmo se houvesse mercado para jogadores com três pernas na Europa, nenhum marciano sonharia em ir jogar lá. Nem no Real Madrid. Por que no Brasil não acontecia o mesmo? Achei melhor mudar de assunto e contar que outro problema do Brasil era a falta de terra para assentar agricultores. Aí o MH ficou roxo de indignação, me acusou de estar gozando com ele, entrou na nave que estacionara no telhado e foi embora.
Agora voltou, não com uma solução, mas com uma tese. Para ele, o problema básico do Brasil é o mesmo da agricultura quando uma safra excede a capacidade de escoamento. No nosso caso, uma superabundância de talento não encontra uma estrutura para absorvê-la. Num país enorme, o talento produzido não tem colocação e, literalmente, transborda. Mesmo os nossos maiores talentos teatrais não sobrevivem naturalmente, de bilheterias, sem subsídio ou patrocínio. Cinema, a mesma coisa. De literatura ninguém vive. E como não se pode diminuir a produção de talento como se diminui a de soja, por mais que tentem emburrecer o país, o problema só cresce. Portanto, me disse o MH, está claro para o que serve o futebol profissional no Brasil, e por que persiste mesmo sendo um fracasso permanente. Ele existe para representar o grande desperdício nacional, o grande paradoxo de um país que não se aproveita. A função do futebol, no Brasil, é ser metáfora.
Dito o quê, o MH partiu outra vez, pois não é doido de ficar aqui.
Luís Fernando Veríssimo, in Time dos sonhos



