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24/08/2026

Gorjeios

Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo

09/08/2026

Pelada de barranco – XVII

Nada havia de mais prestante em nós senão a infância.
O mundo começava ali. Nosso campo encostava na beira
do rio. Um menino Guató chegava de canoa e embicava
no barranco. Teria remado desde cedo para vir ocupar
a posição de golquíper no Porto de Dona Emília Futebol
Clube. Nosso valoroso time. As cercas laterais do campo
eram de cansanção. Espinheiro fechado pra ninguém botar
defeito. Guató já trazia do barranco duas pedras para servir
de balizas. Os craques desciam da cidade como formigas.
José de Camos, nosso beque de espera também tinha a
incumbência de soprar as bexigas. Porque a nossa bola
era de bexiga, que às vezes caiam no rio e as piranhas
devoravam. E se caísse no cansanção os espinhos furavam.
Nosso campinho por miúdo só permitia times de sete:
O goleiro, um beque de espera, um beque de avanço e
três na linha. Chambalé nosso técnico impunha regras:
só pode mijar no rio e não pode jogar de botina.
Sabastião era centroavante. Chutava no rumo certo. Sabia
as variações da bexiga no vento e botava no grau certo.
Quando alguém enfiava as unhas na pedra abria uma vaga.
Metade de nossos craques eram filhos de lavandeiras e
outra metade de pescadores. Na aba do campo a namorada
do Sabastião torcia: quebra esse saba, destina eles pras
piranhas. Mas Chambalé não deixava destinar. Quem destina
é Deusi – falava. No fim do jogo alguns iam bater bronha,
outros iam no mato jogar o mantimento e outros iam
pelotear passarinho. Guató pegava a canoa e remava até
a aldeia a mil metros dali. A cidade onde a gente morava
foi feita em cima de uma pedra branca enorme. E o rio
paraguaio, lá embaixo, corria com suas piranhas
e os seus camalotes.

Manoel de Barros, em Memórias Inventadas – A segunda infância

05/08/2026

Gorjeios

Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo

27/07/2026

O fotógrafo

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre
as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakovski — seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo 

11/07/2026

Retrato do artista quando coisa

Uso um deformante para a voz.
Em mim funciona um forte encanto a tontos.
Sou capaz de inventar uma tarde a partir de
uma garça.
Sou capaz de inventar um lagarto a partir de
uma pedra.
Tenho um senso apurado de irresponsabilidades.
Não sei de tudo quase sempre quanto nunca.
Experimento o gozo de criar.
Experimento o gozo de Deus.
Faço vaginação com palavras até meu retrato
aparecer.
Apareço de costas.
Preciso de atingir a escuridão com clareza.
Tenho de laspear verbo por verbo até alcançar
o meu aspro.
Palavras têm que adoecer de mim para que se
tornem mais saudáveis.
Vou sendo incorporado pelas formas pelos
cheiros pelo som pelas cores.
Deambulo aos esgarços.
Vou deixando pedaços de mim no cisco.
O cisco tem agora para mim uma importância
de Catedral.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo

15/06/2026

Retrato do artista quando coisa

Retrato do artista quando coisa: borboletas
Já trocam as árvores por mim.
Insetos me desempenham.
Já posso amar as moscas como a mim mesmo.
Os silêncios me praticam.
De tarde um dom de latas velhas se atraca em meu olho
Mas eu tenho predomínio por lírios.
Plantas desejam a minha boca para crescer por de cima.
Sou livre para o desfrute das aves.
Dou meiguice aos urubus.
Sapos desejam ser-me.
Quero cristianizar as águas.
Já enxergo o cheiro do sol.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo

17/05/2026

Desejosa

Uma palavra abriu o roupão para mim. Ela deseja que eu a seja.

Manoel de Barros, em Livro sobre nada

09/04/2026

Livro Sobre Nada

À mesa o doutor perorou: Vocês é que são felizes
porque moram neste Empíreo.
Meu pai cuspiu o empíreo de lado.
O doutor falava bobagens conspícuas.
Mano Preto aproveitou: Grilo é um ser imprestável
para o silêncio.
Mano Preto não tinha entidade pessoal, só coisal.
(Seria um defeito de Deus?)
A gente falava bobagens de à brinca, mas o doutor
falava de à vera.
O pai desbrincou de nós:
Só o obscuro nos cintila.
Bugrinha boquiabriu-se.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo

07/03/2026

O guardador de águas – IX

Bernardo escreve escorreito, com as unhas, na água,
O Dialeto-Rã.*
Nele o chão exubera.
O Dialeto-Rã exara lanhos.
Bernardo conversa em rã como quem conversa em
Aramaico.
Pelos insetos que usa ele sabe o nome das chuvas.
Bernardo montou no quintal Oficina de Transfazer
Natureza.
(Objetos fabricados na Oficina, por exemplo:
Duas aranhas com olho de estame
Um beija-flor de rodas vermelhas
Um imitador de auroras — usado pelos tordos.
Três peneiras para desenvolver moscas
E uma flauta para solos de garça.)
Bernardo é inclinado a quelônio.
A córnea azul de uma gota de orvalho o embevece.

*Falado por pessoas de águas, remanescentes do Mar de Xaraiés, o Dialeto-Rã, na sua escrita, se assemelha ao Aramaico — idioma falado pelos povos que antigamente habitavam a região pantanosa entre o Tigre e o Eufrates. Sabe-se que o Aramaico e o Dialeto-Rã são línguas escorregadias e carregadas de consoantes líquidas. É a razão desta nota.

Manoel de Barros, em O guardador de águas

23/02/2026

O guardador de águas — VII

Roupa-Grande aparece no trecho.
(Crianças não o diferenciam do ave joão-grande.)
Com seu enorme casaco ele encarde o crepúsculo.
Sabe os atalhos do chão.
Caminha espaceado, de metro em metro, como quem planta mandioca na roça.
(Quem anda curto é carancho — ele diz; mas também excreta curto.
Pato que guspe longínquo…)
Roupa-Grande alcandora mosca.
Com as mãos endireita Deus para ele.
O rio conta com os seus cuidados para descer as grotas — conta
Com as suas bênçãos, com os seus escapulários…
Ele mexe com planta e com épocas.
Usa o Livro de São Cipriano contra lascívia, mal de grotas, ferroadas de arraia etc.
(Ferroada de arraia é só encostar o lugar ofendido em vaso de moça que o ferrão escurece…)
Um menino escaleno o acompanha.
Dorme no ombro dele um tordo arino.
Roupa-Grande fala de manso — como quem vai passando por dentro de uma nuvem…
Sangue de anta bebe por mês: serve na guampa o cor-de-rosa espumoso —
a língua tomando espécie…
Conta que sangue de anta desempena traste de velho.
Tresconta. Ri sobre as gengivas.
É homem proposto ao escárnio.
Arremeda que vai esperar o crepúsculo mais adiante
E se equipa.
Uma árvore espera filhos dele.
Espessura de estrela o transparenta.

Manoel de Barros, em O guardador de águas

17/02/2026

O guardador de águas

V

Eles enverdam jia nas auroras.
São viventes de ermo. Sujeitos
Que magnificam moscas — e que oram
Devante uma procissão de formigas…
São vezeiros de brenhas e gravanhas.
São donos de nadifúndios.
(Nadifúndio é lugar em que nadas
Lugar em que osso de ovo
E em que latas com vermes emprenhados na boca.
Porém.
O nada destes nadifúndios não alude ao infinito menor de ninguém.
Nem ao Néant de Sartre.
E nem mesmo ao que dizem os dicionários: coisa que não existe.
O nada destes nadifúndios existe e se escreve com letra minúscula.)
Se trata de um trastal.
Aqui pardais descascam larvas.
Vê-se um relógio com o tempo enferrujado dentro.
E uma concha com olho de osso que chora.
Aqui, o luar desova…Insetos umedecem couros
E sapos batem palmas compridas…
Aqui, as palavras se esgarçam de lodo.

Manoel de Barros, em O guardador de águas

11/02/2026

O guardador de águas

IV

O que ele era, esse cara
Tinha vindo de coisas que ele ajuntava nos bolsos —
por forma que pentes, formigas de barranco, vidrinhos
de guardar moscas, selos, freios enferrujados etc.
Coisas Que ele apanhava nas ruínas e nos montes de borra de mate
(nos montes de borra de mate crescem abobreiras debaixo das abobreiras
sapatos e pregos engordam…)
De forma que recolhia coisas de nada, nadeiras, falas de tontos, libélulas —
Coisas que o ensinavam a ser interior, como silêncio nos retratos.
Até que de noite pôs uma pedra na cabeça e foi embora.
Estrelas passavam leite nas pedras que carregava.
Vagou transpedregoso anos.
Se soube que atravessou Paris de urina presa.
Estudou anacoreto.
Afez-se com as estradas e o cheiro de ouro dos escaravelhos.
Um dia chegou em casa árvore.
Deitou-se na raiz do muro, do mesmo jeito que um rio fizesse
para estar encostado em alguma pedra.
Boca não abriu mais?
Arbora em paredes podres.

Manoel de Barros, em O guardador de águas

06/02/2026

O guardador de águas

I

O aparelho de ser inútil estava jogado no chão,
quase coberto de limos —
Entram coaxos por ele dentro.
Crescem jacintos sobre palavras.
(O rio funciona atrás de um jacinto.)
Correm águas agradecidas sobre latas…
O som do novilúnio sobre as latas será plano.
E o cheiro azul do escaravelho, tátil.
De pulo em pulo um ente abeira as pedras.
Tem um cago de ave no chapéu.
Seria um idiota de estrada?
Urubus se ajoelham pra ele.
Luar tem gula de seus trapos.

Manoel de Barros, em O guardador de águas

04/02/2026

Um encontro (para se guardar) com Manoel

Eu disse: vim aqui só para falar de coisas miúdas, as grandezas do ínfimo, não se inquiete. Manoel sorriu: tenho doutorado em formigas, sente-se. Sentei. Duas cadeiras na varanda de sua fazenda no Pantanal. A distância infinita entre dois homens — e, para anulá-la, inesperadamente, uma ema cruzou, distraída, os nossos olhos. As garças e os tuiuiús só andariam pela sua obra, em bando, um pouco mais à frente. Difícil conversar sobre algo tão natural como a água e as suas criaturas com um poeta que fixou sua vida em terras alagadas. Como começar? Pela seca sinceridade: digo logo que apreciei o livro, estarei sendo fiel à verdade. Então, falei: bonito, bonito esse seu O guardador de águas, Manoel. E acrescentei: é um livro-riacho, e você aqui nesse aguaçal... Manoel concordou, desimpor­tante: é que só choveu na palavra onde eu estava. Nas páginas iniciais, você apresenta o Bernardo da Mata; gostei de ele encurtar as águas, eu disse. Manoel: e de encolher o horizonte em olho de inseto? Também, respondi, e de quando ele prende o silêncio com fivela! Manoel atento ao azul arriscado a pássaro. E aqueles vidrinhos de guardar moscas?, perguntei. O poeta respondeu: trecos do Bernardo, nadifúndios dele. E seus, Manoel, eu pensei, mas não disse nada. Os passarinhos vinham pousar, sanfranciscamente, nos ombros de Bernardo: ele enriquecia a natureza com a sua incompletude. Ainda não possuía, em seus instrumentos de trabalho, um abridor de amanhecer. Mas era só o tempo de o mundo pegar lodo — e aí o ontem choveria no futuro. Retomei a conversa, curioso: e esse Dialeto-Rã, do Bernardo? Manoel respondeu: é só linguagem escorregadia. Insisti: eu também me interesso pelas consoantes líquidas. Ele, quieto, só me mirava. Será que ele me árvore? Lembrei-me de um verso do livro, marcador nítido de sua poética: “O que desabre o ser é ver e ver-se”. Guardei para mim. Falei, apenas: Manoel, a primeira parte me lembrou O guardador de rebanhos, do Caeiro. Não só no título, mas na metafísica que ele não tem, como fechar o rio com trinco. Manoel aquiesceu: “O nada o aperfeiçoa”! E eu: não vale usar verso seu para escapar. Ele riu. A segunda parte, “Passos para a transfiguração”, você inseriu desenhos entre os poemas, foi a primeira vez, não é, Manoel? Ele não confirmou, nem desmentiu. Pensei em citar um dos versos das páginas seguintes: “Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser”. Pensei em mudar o rumo da conversa, per­guntar sobre as borboletas, por que afinal adotam os lugares vazios? Mas resolvi saltar para as teorias de árvore. Quem te ensinou sobre elas, Manoel? Aprendi sozinho, ele respondeu, na prática das águas. Comentei: a quarta teoria é a minha preferida — “há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes”. O poeta fez um gesto de galho. Manoel, perguntei, a chuva é íntima só mesmo se o escuro umedece nosso corpo? Ele permaneceu num silêncio de águas paradas, fazendo jus a seus versos da penúltima parte: “Ao poeta faz bem/ Desexplicar —/ Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes”. Manoel, continuei, o dialeto coisal, larval, pedral, você descobriu quando leu Ovídio, não é? O poeta contemplava o céu, onde ocorria um incêndio de garças nas nuvens. Eu também desejava fugir daquela conversa, queria conhecer ali, no seu trastal, a matéria líquida da vida — e de sua escrita. A poesia, ele diria mais tarde, é um inutensílio. Um beija-flor de rodas vermelhas voejou perto de nós e fechou o assunto, livrando-me de prosseguir ali, monumentando a sua obra. Educado, Manoel se levantou e propôs: vamos dar um giro, enfiar idioma nos mosquitos? Aceitei o convite e estendo-o a você, leitor: venha! Guarde-se nessa poesia, de águas e barros, ela engrandece as miudezas da vida.

João Anzanello Carrascoza, em O guardador de águas, de Manoel de Barros

29/01/2026

Um doutor formado

O pai morava no fim de um lugar.
Aqui é lacuna de gente — ele falou:
Só quase que tem bicho andorinha e árvore.
Quem aperta o botão do amanhecer é o arãquã.
Um dia apareceu por lá um doutor formado: cheio
de suspensórios e ademanes.
Na beira dos brejos gaviões-caranguejeiros comiam ­
caranguejos.
E era mesma a distância entre as rãs e a relva.
A gente brincava com terra.
O doutor apareceu. Disse: Precisam de tomar ­
anquilostomina.
Perto de nós sempre havia uma espera de rolinhas.
O doutor espantou as rolinhas.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo

18/12/2025

Autorretrato falado

Venho de um Cuiabá garimpo e de ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda de bananas no Beco da
Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá, entre bichos do
chão, pessoas humildes, aves, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de
estar entre pedras e lagartos.
Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz.
Já publiquei 10 livros de poesia; ao publicá-los me
sinto como que desonrado e fujo para o
Pantanal onde sou abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo
que fui salvo.
Descobri que todos os caminhos levam à ignorância.
Não fui para a sarjeta porque herdei uma fazenda de
gado. Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer do moral, porque só
faço coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo

29/11/2025

Incompletude

Bernardo é quase árvore.
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem
de longe.
E vêm pousar em seu ombro.
Seu olho renova as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho:
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios — e
1 esticador de horizontes.
Bernardo consegue esticar o horizonte usando três
fios de teias de aranha. A coisa fica bem
esticada.)
Bernardo desregula a natureza:
Seu olho aumenta o poente.
(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua
incompletude?)

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo

19/11/2025

Enseada

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a
imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás
de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta que o
rio faz por trás de sua casa se chama enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que
fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo

26/10/2025

O verbo

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo