quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O guardador de águas

IV

O que ele era, esse cara
Tinha vindo de coisas que ele ajuntava nos bolsos —
por forma que pentes, formigas de barranco, vidrinhos
de guardar moscas, selos, freios enferrujados etc.
Coisas Que ele apanhava nas ruínas e nos montes de borra de mate
(nos montes de borra de mate crescem abobreiras debaixo das abobreiras
sapatos e pregos engordam…)
De forma que recolhia coisas de nada, nadeiras, falas de tontos, libélulas —
Coisas que o ensinavam a ser interior, como silêncio nos retratos.
Até que de noite pôs uma pedra na cabeça e foi embora.
Estrelas passavam leite nas pedras que carregava.
Vagou transpedregoso anos.
Se soube que atravessou Paris de urina presa.
Estudou anacoreto.
Afez-se com as estradas e o cheiro de ouro dos escaravelhos.
Um dia chegou em casa árvore.
Deitou-se na raiz do muro, do mesmo jeito que um rio fizesse
para estar encostado em alguma pedra.
Boca não abriu mais?
Arbora em paredes podres.

Manoel de Barros, em O guardador de águas

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