IV
O que ele era, esse cara
Tinha vindo de coisas que ele ajuntava
nos bolsos —
por forma que pentes, formigas de
barranco, vidrinhos
de guardar moscas, selos, freios
enferrujados etc.
Coisas Que ele apanhava nas ruínas e
nos montes de borra de mate
(nos montes de borra de mate crescem
abobreiras debaixo das abobreiras
sapatos e pregos engordam…)
De forma que recolhia coisas de nada,
nadeiras, falas de tontos, libélulas —
Coisas que o ensinavam a ser interior,
como silêncio nos retratos.
Até que de noite pôs uma pedra na
cabeça e foi embora.
Estrelas passavam leite nas pedras que
carregava.
Vagou transpedregoso anos.
Se soube que atravessou Paris de urina
presa.
Estudou anacoreto.
Afez-se com as estradas e o cheiro de
ouro dos escaravelhos.
Um dia chegou em casa árvore.
Deitou-se na raiz do muro, do mesmo
jeito que um rio fizesse
para estar encostado em alguma pedra.
Boca não abriu mais?
Arbora em paredes podres.
Manoel de Barros, em O guardador de águas
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