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19/08/2025

CAPÍTULO XIX. Das discretas razões que Sancho passava com o amo e da aventura que lhes sucedeu com um defunto, e outros acontecimentos famosos



O que me está parecendo, senhor meu, é que as desventuras, que estes dias me têm sucedido, têm sido, sem nenhuma dúvida, todas castigo do pecado cometido por Vossa Mercê contra a ordem da sua cavalaria, por não ter desempenhado o juramento que fez de:

não comer pão em toalha
nem coa Rainha folgar,

com o mais que a trova reza, e que Vossa Mercê jurou de cumprir, até que não tirasse para si o elmete de Malandrino, ou como se chama o tal mouro (que o nome não me lembra muito bem).
Tens muita razão, Sancho — disse D. Quixote — mas, para te dizer a verdade, tinha-me esquecido; e podes também ter por certo que, pela culpa de tu mo não teres lembrado a tempo, é que te sucedeu a ti aquilo da manta; porém eu farei a emenda, que para tudo há modos de composição na ordem da cavalaria.
Pois eu jurei porventura alguma coisa? — respondeu Sancho.
Embora não jurasses — tornou D. Quixote — entendo que de participante não estás livre; e, pelo sim pelo não bom será provermo-nos de remédio.
Se assim é — disse Sancho — olhe, Vossa Mercê não se esqueça também disto como do juramento, que talvez aos fantasmas lhes tornasse a gana de se divertirem comigo, e até com Vossa Mercê, se o virem tão sem emenda.
Nestas e noutras práticas os tomou a noite no meio do caminho, sem terem, nem descobrirem, onde pernoitar; o que nisso nada tinha de bom é que iam mortos à fome, pois com o sumiço dos alforjes se lhes tinha ido embora despensa e matalotagem; e, para complemento de tamanha desgraça, sucedeu-lhes uma coisa, que, sem ser de propósito, bem o parecia; e foi que a noite se fechou assaz de escura. Iam não obstante caminhando, que, visto ser aquela a estrada real, por boa razão a uma ou duas léguas se encontraria nela alguma venda.
Indo pois desta maneira, a noite escura, o escudeiro esfaimado, e o amo com boa vontade de comer, viram que, pelo caminho mesmo que levavam, se dirigia para eles grande multidão de luzes, que não pareciam senão estrelas errantes.
Pasmou Sancho quando as avistou, e D. Quixote não deixou de as estranhar.
Sofreou um pelo cabresto ao asno, e o outro pelas rédeas ao rocim, e ficaram parados à espera do que surdiria. Viram que as luzes se lhes iam aproximando, e, quanto mais se aproximavam, maiores pareciam. Àquela vista Sancho pôs-se a tremer como um azougado, e ao próprio D. Quixote se arrepiaram os cabelos. Este, porém, animando-se um tanto, disse:
Esta é, que sem dúvida, Sancho, deve ser grandíssima e perigosíssima aventura, e será necessário mostrar eu nela todo o meu valor e esforço.
Malfadado de mim! — respondeu Sancho — se acaso esta aventura for de fantasmas, segundo me vai parecendo, onde haverá costelas que lhes bastem?
Por mais fantasmas que venham — respondeu D. Quixote — não consentirei que te ponham mão nem num pelinho do fato. Se da outra vez zombaram contigo, foi porque não pude saltar as paredes do pátio; mas agora estamos em terreno raso, onde posso à vontade esgrimir a espada.
E se o encantam e o tolhem, como da outra vez fizeram — disse Sancho — que valerá estar ou não em terreno raso?
Apesar disso tudo — replicou D. Quixote — peço-te, Sancho, que tenhas ânimo; verás o meu.
Hei-de ter, se Deus quiser — respondeu Sancho.
E, apartando-se ambos para a orla do caminho, tornaram a olhar atentamente no que poderia ser aquilo, e as luzes que lá vinham. Dentro em pouco descobriram muitos encamisados. Aquela fantasmagoria pavorosa de todo o ponto deu mate ao ânimo de Sancho, que entrou a bater os dentes como em frio de quartã; mais ainda cresceu nele o bater dos dentes, quando distintamente se viu o que era, porque descobriram uns vinte encamisados, todos a cavalo, com suas tochas acesas nas mãos, após eles uma liteira coberta de luto, seguida de outros seis a cavalo, enlutados até os pés das mulas, que bem se via que o eram, e não cavalos, pelo sossego com que andavam.
Iam os encamisados sussurrando em voz baixa e lastimosa.
Tão estranha vista, e tão a desoras, e num despovoado, era bastante para pôr medo no coração de Sancho, e até no de seu amo. Assim sucedeu a D. Quixote, o qual, a despeito de todas as suas valentias, já tinha virado de avesso todo o esforço de Sancho; mas ao amo, pelo contrário, naquele ponto se representou ao vivo na imaginação ser aquela uma das aventuras dos seus livros.
Figurou-se-lhe que a liteira era umas andas, em que devia vir algum malferido ou morto cavaleiro, cuja vingança lhe estava só a ele reservada; e, sem fazer mais discurso, enristou a sua chuça, firmou-se bem na sela, e com gentil brio e garbo se atravessou no meio do caminho, por onde os encamisados forçosamente haviam de passar; e quando os viu ao pé, levantou a voz e disse:
Parai, cavaleiros, quem quer que sejais, e dai-me conta de quem sois, de donde vindes, onde ides, e que levais nas andas, que, segundo as mostras, ou vós outros haveis feito, ou vos hão feito a vós, algum desaguisado, e convém, e é mister, que eu o saiba, ou para vos castigar do mal que perpetrastes, ou para vos vingar da sem-razão que vos fizeram a vós.
Vamos com pressa — respondeu um dos encamisados — que fica ainda longe a venda, e não nos podemos dilatar a dar tantas respostas como nos pedis; — e, picando a mula, passou para diante.
Sentiu-se grandemente D. Quixote desta resposta, e, travando-lhe do freio, disse-lhe:
Detende-vos, e sede mais bem criado, e dai-me conta do que vos eu perguntei, quando não, tendes de vos haver todos comigo em batalha.
Era a mula espantadiça; e, ao tomarem-lhe o freio, de tal maneira se sobressaltou, que, levantando-se nos dois pés traseiros, despejou pelas ancas o dono para o chão.
Um moço, que ia a pé, vendo caído o encamisado, começou a injuriar D. Quixote, o qual já encolerizado, e sem mais esperas, enristando a sua chuça, arremeteu a um dos enlutados, e deu com ele em terra malferido; voltando-se para os demais, era para ver como os acometia, e desbaratava, que não parecia senão que naquele momento haviam nascido asas a Rocinante, segundo campeava ligeiro e orgulhoso.
Eram todos os encamisados gente timorata e sem armas; e assim, com facilidade, num instante deixaram a refrega, e começaram a correr por aquele campo com as tochas acesas, que não pareciam senão mascarados a revolver em noite de festa e regozijo.
Os enlutados, revoltos e envoltos nas suas lobas e opas compridas, mal se podiam mover; pelo que, muito a seu salvo, D. Quixote os foi a todos apaleando, e os fez deixar o sítio a seu mau grado, por se lhes representar não ser aquilo homem, senão o próprio diabo do inferno, que lhes saía a tirar-lhes o defunto que ia na liteira.
Estava Sancho a ver tudo maravilhado do desembaraço e atrevimento do fidalgo; e dizia entre si:
Sem dúvida que este meu amo é tão valente e esforçado como ele diz.
Estava por terra uma tocha a arder junto ao primeiro que a mula derrubara. D. Quixote, que o pôde ver àquela claridade, chegou-se a ele, e, apontando-lhe ao rosto a chuça, lhe intimou que se rendesse, quando não o mataria; ao que o derrubado respondeu:
Rendido demais estou eu, pois não me posso mover; tenho uma perna quebrada. Suplico a Vossa Mercê, se é cavaleiro cristão, me não mate, pois grande sacrilégio seria isso, sendo eu, como sou, licenciado, e tendo as primeiras ordens, como tenho.
Pois quem diabo o trouxe aqui — instou D. Quixote — sendo homem da Igreja?
Quem, senhor? — replicou o caído — a minha desdita.
Pois outra maior vos ameaça — disse D. Quixote — se me não satisfazeis a tudo que ao princípio vos perguntei.
Com facilidade será Vossa Mercê satisfeito — respondeu o licenciado — e portanto saberá Vossa Mercê que, ainda que primeiro lhe disse, que era licenciado, não sou senão bacharel, e chamo-me Afonso Lopes; sou natural de Alcobendas; venho da cidade de Baeça com outros onze sacerdotes, que são os que fugiram com as tochas; vamos à cidade de Segóvia acompanhando um morto, que vai naquela liteira, que é um cavaleiro que faleceu em Baeça, onde foi depositado; e agora, como lhe digo, levamos os seus ossos ao seu sepulcro, que está em Segóvia, que é a sua naturalidade.
E quem o matou? — perguntou D. Quixote.
Matou-o Deus por meio dumas febres pestilenciais que lhe deram — respondeu o bacharel.
Dessa maneira — disse D. Quixote — livrou-me Nosso Senhor do trabalho que eu tomaria de vingar-lhe a morte, se outrem qualquer o tivera morto; mas, sendo quem foi o matador, não há senão calar, e encolher os ombros, que é o mesmo que eu havia de fazer se ele me matara a mim; e quero que saiba Vossa Reverência, que eu sou um cavaleiro da Mancha chamado D. Quixote; e é o meu ofício e exercício andar pelo mundo endireitando tortos, e desfazendo agravos.
Não sei como pode ser isso de endireitar tortos — disse o bacharel — pois bem direito era eu, e vós agora é que me entortastes, deixando-me uma perna quebrada, que nunca mais em dias de vida me tornará a ser direita; e o agravo que a mim me desfizestes foi deixardes-me agravado de maneira que hei-de ficar agravado para sempre; e desventura grande há sido para mim encontrar-me convosco nesse buscar de aventuras.
Nem todas as coisas — respondeu D. Quixote — sucedem do mesmo modo; a desgraça foi, senhor bacharel Afonso Lopes, o virdes, como viestes, de noite, vestidos com aquelas sobrepelizes, com as tochas acesas, rezando, cobertos de luto, que parecíeis tal qual coisas más e do outro mundo; por isso é que não pude deixar de cumprir a minha obrigação acometendo-vos, e à fé que vos acometeria, ainda que soubera serdes os próprios Satanases do inferno, que por tais vos julguei e tive sempre.
Já que assim o quis a minha desgraça — disse o bacharel — suplico a Vossa Mercê, senhor cavaleiro andante, que tão má andança me há dado, me ajude a sair debaixo desta mula, que me tem presa esta perna entre o estribo e a sela.
Até amanhã ficaria eu a palestrar — redarguiu D. Quixote — mas para quando deixáveis o queixar-vos?
Nisto entrou logo a bradar por Sancho que viesse; mas Sancho é que não fez caso de acudir, porque andava ocupado em aliviar uma azêmola carregada de vitualhas, que os bons dos padres traziam. Engenhou Sancho do seu gabão uma espécie de saco; e, recolhendo nele tudo o que pôde e lhe coube dentro, o cargou para cima do seu jumento, e para logo acudiu aos brados do amo, e ajudou a livrar o senhor bacharel da opressão da mula; pô-lo para cima dela, e lhe deu a sua tocha, e D. Quixote lhe disse que seguisse na direção dos companheiros, e que da parte dele lhes pedisse perdão do agravo, que não tinha estado em sua mão deixar de lhes fazer.
A isto ajuntou ainda Sancho:
Se por acaso quiserem saber esses senhores quem há sido o valoroso que tais os pôs, Vossa Mercê lhes dirá que foi o senhor D. Quixote de la Mancha, que por outro nome se chama “O Cavaleiro da Triste Figura”.
Com isto se foi o bacharel; e D. Quixote perguntou a Sancho por que motivo lhe ocorrera chamar-lhe “Cavaleiro da Triste Figura”, naquela ocasião precisamente.
Eu lhe digo — respondeu Sancho — é porque o estive considerando um pouco à luz da tocha que vai na mão do mal andante cavaleiro, e deveras reconheci em Vossa Mercê, de pouco para cá, a mais má figura que nunca vi; do que deve ter sido causa ou o cansaço deste combate, ou talvez a falta dos dentes queixais.
Não é isso — respondeu D. Quixote — é que ao sábio, a cujo cargo deve estar o escrever a história das minhas façanhas, haverá parecido bem que eu tome algum nome apelativo, como o tomavam os cavaleiros passados, que um se chamava da ardente espada, outro do unicórnio, aquele o das donzelas este o da ave Fênix, outro o cavaleiro do grifo, estoutro o da morte; e por estes nomes e insígnias eram conhecidos por toda a redondeza da terra; e assim, considera que o sobredito sábio te haverá posto na língua e na ideia, que me chamasses agora “Cavaleiro da Triste Figura”, como tenciono ficar-me nomeando de hoje avante; e, para que melhor me acerte o nome, determino mandar pintar no meu escudo, quando para isso houver oportunidade, uma figura muito triste.
Não é preciso gastar tempo nem dinheiro para se fazer essa figura — disse Pança; — o mais acertado é que Vossa Mercê descubra a sua própria cara aos que o olharem, que, sem mais nem mais, e sem outro retrato nem escudo, todos o chamarão logo “o da Triste Figura”; e olhe que lhe digo a pura verdade, porque lhe certifico a Vossa Mercê, senhor meu (embora tome por gracejo), que tão má cara está sendo a sua com a fome, e a falta dos queixais, que muito bem se poderá dispensar, como já lhe disse, a tal pintura triste.
Riu-se D. Quixote com o chiste do seu escudeiro; contudo assentou em chamar-se com aquele nome, logo que pudesse conseguir que pintassem o seu escudo ou rodela, como fantasiava. Disse-lhe depois:
Entendo eu, Sancho, que fiquei excomungado por haver posto as mãos em coisa sagrada, juxta illud; si quis suadente diabolo, etc., ainda que estou bem certo de que não foram as mãos que lhe eu pus, mas sim esta lancita; quanto mais que não pensei que ofendia a sacerdote nem a coisas da Igreja, a quem respeito e adoro, como católico e fiel cristão que sou, senão a fantasmas e coisas do outro mundo; e, quando isso assim fosse, em memória tenho o que sucedeu ao Cid Rui Dias, quando quebrou diante do Papa a cadeira do embaixador daquele reino; pelo que o mesmo Papa o excomungou, e naquele dia andou o bom Rodrigo de Bivar como muito honrado e valente cavaleiro.
Tendo partido o bacharel, como dito fica, sem responder mais palavra, deu na vontade a D. Quixote ir ver se o corpo que vinha na liteira era ossada ou não, mas não lho consentiu Sancho, dizendo-lhe:
Senhor, saiu-se Vossa Mercê desta aventura o mais a seu salvo de todas quantas eu tenho visto; esta gente, ainda que vencida e desbaratada, bem poderia ser que, afinal, reparasse em que a tinha derrotado uma só pessoa, e, corridos e envergonhados disto, voltassem a refazer-se e buscar-nos, e nos dessem que fazer. O jumento prestes está, a montanha à mão; e a fome aperta; não há mais que fazer senão retirarmo-nos muito airosos, e, como dizem, o morto à cova, e o vivo à fogaça.
E, tocando o jumento, pediu ao amo que o acompanhasse. Este, achando razão a Sancho, sem mais resposta lhe foi no encalço.
A poucos passos por entre dois oiteiros, deram num espaçoso e encoberto vale, em que se apearam. Sancho aliviou o jumento, e, estendidos no ervaçal viçoso, com o tempero da fome que traziam, almoçaram, jantaram, merendaram e cearam, tudo junto, satisfazendo os estômagos com várias carnes frias, que os senhores clérigos do defunto (que poucas vezes se deixam passar mal) traziam de prevenção às costas da azêmola.
Mas aqui lhes sucedeu outra desgraça, que a Sancho pareceu a pior de todas; e foi não terem vinho que beber, e até nem água para chegar à boca; e, perseguidos da sede, vendo Sancho que o prado estava coberto de erva miúda e viçosa, disse o que se ouvirá no seguinte capítulo.

Miguel de Cervantes, em Dom Quixote de La Mancha

21/06/2025

CAPÍTULO XVIII. Onde se contam as razões que passou Sancho Pança com seu senhor D. Quixote com outras aventuras dignas de ser contadas




Chegou Sancho murcho e desmaiado ao pé do amo; tanto, que nem podia fazer andar o burro. Quando D. Quixote assim o viu, disse-lhe:
Agora, bom Sancho, é que eu acabo de crer que aquele castelo ou venda é encantado sem dúvida, porque aqueles que tão atrozmente se divertiram contigo, que poderiam ser senão fantasmas, e gente do outro mundo? E nisto me certifico, por ver que, estando pelo espigão do muro do quintal a presenciar os atos da tua triste tragédia, não pude, por mais que fiz, subir-me acima, nem sequer apear-me do Rocinante; decerto porque me tinham encantado; porque te juro, à fé de quem sou, que, se pudera subir ou apear-me, eu te houvera vingado de maneira que aqueles foles de vento, aqueles malandrinos, se ficassem lembrando da brincadeira para sempre, ainda que nisso soubera descumprir as leis da cavalaria, que, segundo já muitas vezes me ouviste, não consentem a cavaleiro pôr mão em quem o não seja, salvo sendo em defensa da sua própria vida e pessoa, em caso de urgente e grande necessidade.
Também eu me vingava se pudesse — disse o outro — quer fosse armado cavaleiro, quer não; mas não pude, ainda que tenho para mim, que os que se divertiram à minha custa não eram fantasmas, nem homens encantados, como Vossa Mercê diz: eram homens de carne e osso como nós; e todos (segundo lhes ouvi enquanto me estavam volteando) tinham os seus nomes; um chamava-se Pedro Martins, outro Tenório Fernandes; e o vendeiro ouvi que se chamava João Palomeque, o surdo; e por isso, senhor meu, o Vossa Mercê não ter podido saltar o muro, nem apear-se do cavalo, por outra causa foi, que não por encantamentos. O que eu tiro a limpo de tudo isto é que estas aventuras, que andamos buscando, afinal de contas nos hão-de meter em tantas desaventuras, que não saibamos qual é a nossa mão direita. O que seria melhor e mais acertado, segundo o meu fraco entender, seria tornarmo-nos para o nosso lugar, agora que é tempo das aceifas, e de cuidar da fazenda, deixando-nos de andar de seca em meca, e de Herodes para Pilatos, como dizem.
Que pouco sabes, Sancho — respondeu D. Quixote — dos achaques da cavalaria! Cala e tem paciência, que lá virá dia em que vejas por teus olhos que honrosa coisa é andar neste exercício!
Se não, dize-me: que maior contentamento pode haver neste mundo, ou que satisfação pode comparar-se à de vencer uma batalha, e triunfar do inimigo? Sem dúvida que nada chega a isso.
Assim deve ser — respondeu Sancho — posto que eu por mim não sei; só sei que, depois que somos cavaleiros andantes, ou (por melhor dizer) depois que Vossa Mercê o é (que eu, à minha parte, não há por que me entre em tão honroso rol), nunca jamais temos vencido batalha alguma, salvo a do biscainho, e ainda dessa saiu Vossa Mercê com meia orelha, e meia celada de menos; de então para cá tudo tem sido bordoada e mais bordoada, murros e mais murros; e eu, ainda por cima de tudo, manteado, e por pessoas encantadas, de quem me não posso vingar para saber até onde chega o gosto de vencer inimigos, como Vossa Mercê diz.
Essa é que é a minha pena, e a que tu deves também sentir, Sancho — respondeu D. Quixote; — porém daqui em diante eu procurarei haver às mãos alguma espada feita com tal mestria, que ao que a tiver consigo se não possa fazer nenhum gênero de encantamento. Até não era impossível que a ventura me deparasse a de Amadis, quando se chamava “O Cavaleiro da ardente espada”; foi a melhor que teve cavaleiro algum do mundo, porque, além de ter a virtude referida, cortava como uma navalha, e não havia armadura, por forte e encantada que fosse, que lhe resistisse.
Eu sou tão venturoso — disse Sancho — que, ainda que isso fosse, e Vossa Mercê viesse a achar espada semelhante, só viria a servir e aproveitar aos armados cavaleiros, assim como o bálsamo; e aos escudeiros, que os papem os lobos.
Não tenhas medo, Sancho — disse D. Quixote — melhor se haverá Deus contigo.
Nestes colóquios se estavam D. Quixote e o escudeiro, quando o fidalgo reparou que pelo caminho se adiantava para ali uma grande poeirada. Voltou-se então para Sancho, e disse-lhe:
É este o dia, Sancho, em que se há-de ver o bem que a minha sorte me tinha reservado; é o dia, repito, em que se há-de mostrar mais que nunca o valor do meu braço, e em que hei-de fazer obras que fiquem registradas no livro da fama por todos os vindouros séculos. Vês aquela poeirada que ali se ergue, Sancho? pois é levantada por um copiosíssimo exército de diversos e inumeráveis povos que por ali vêm marchando.
Por essas contas — disse Sancho — dois devem eles ser, porque desta parte contrária também sobe outra poeirada semelhante.
Voltou-se para ali D. Quixote e viu que era verdade; e, alegrando-se sobremodo, assentou que eram, sem dúvida alguma, dois exércitos que vinham a travar-se e combater no meio daquela espaçosa planície, porque não se passava hora que não tivesse a fantasia cheia daquelas batalhas, encantamentos, sucessos, desatinos, amores e desafios, que nos livros de cavalaria se relatam. Quanto dizia, pensava, ou fazia, ia sempre bater em coisas dessas.
A poeirada, que havia visto, levantavam-na dois grandes rebanhos de ovelhas e carneiros que por aquele mesmo caminho vinham de diferentes partes; os quais, em razão do pó, se não deixaram perceber enquanto se não avizinharam. Com tamanho afinco afirmava D. Quixote que eram exércitos, que Sancho chegou a acreditar e a dizer:
Pois senhor, que havemos então de fazer?
Que havemos de fazer! — disse D. Quixote — havemos de favorecer e ajudar aos necessitados e desvalidos. Hás-de saber, Sancho, que este, que vem pela nossa frente, o capitaneia o grande Imperador Alifanfarrão, senhor da grande Taprobana; e estoutro, que marcha por trás das minhas costas, é o do seu inimigo El-Rei dos garamantes Pentapolim de arremangado braço, porque sempre entra nas batalhas com o braço direito nu.
E por que se querem tão mal esses dois senhores? — perguntou Sancho.
Querem-se mal — respondeu D. Quixote — porque este Alifanfarrão é um pagão furibundo, e está namorado da filha de Pentapolim, que é uma formosíssima, e ainda por cima muito engraçada senhora, e cristã. Seu pai não quer dá-la ao Rei pagão, sem ele primeiro renegar a lei do seu falso profeta Mafoma, e se converter à sua.
Voto por estas barbas — disse Sancho — que faz muito bem o Pentapolim, e hei-de ajudá-lo em quanto puder.
Nisso farás o que deves, Sancho — disse o fidalgo — porque para entrar em batalhas semelhantes não se requer ter sido armado cavaleiro.
Até aí bem percebo eu — respondeu Sancho; — mas onde poremos nós este asno, para termos a certeza de o acharmos depois da refrega? porque o entrar nela com semelhante cavalgadura, creio que ainda até agora se não viu.
É certo — disse D. Quixote; — o que melhormente podes fazer dele é deixá-lo às suas aventuras, quer se perca, quer não; porque tantos hão-de ser os cavalos com que havemos de ficar depois da vitória,que até o Rocinante corre seu risco de eu o trocar por outro. Mas está atento e repara, que te quero dar conta dos cavaleiros mais principais que vêm nestes dois exércitos; e para que melhor os notes, retiremo-nos para aquela alturinha que ali se levanta, donde se devem descobrir os exércitos ambos.
Fizeram-no assim, colocando-se numa lomba, donde se avistavam bem os dois rebanhos, que a D. Quixote se representavam exércitos. As nuvens de pó que levantavam lhe tinham turvada e cega a vista. Apesar de tudo, porém, vendo na imaginação o que lhe não mostravam os olhos, nem havia, em voz alta começou a dizer:
Aquele cavaleiro que ali vês, de armas amarelas, que traz no escudo um leão coroado rendido aos pés de uma donzela, é o valoroso Laurcalco, senhor da ponte de prata. O outro das armas com flores de ouro, que traz no escudo três coroas de prata em campo azul, é o temido Micocolembo, Grã-Duque da Quirócia. O outro, de membros agigantados, que à sua mão direita vem, é o nunca amedrontado Brandabarbarrão de Boliche, senhor das três Arábias, que vem armado com aquela pele de serpente, e tem por escudo uma porta, que (segundo é fama) é uma das do templo derribado por Sansão, quando se vingou dos seus inimigos, matando-se. Mas vira agora os olhos para a outra parte, e verás diante, e na frente destoutro exército, ao sempre vencedor, e nunca jamais vencido Timonel de Carcajona, Príncipe de Nova Biscaia, que vem armado com armas esquarteladas de azul, verde, branco e amarelo, e traz no escudo um gato de ouro em campo aleonado, com uma letra que diz “Miau”, que é o princípio do nome da sua dama, que (segundo se diz) é a sem par Miaulina, filha do Duque Alfenhique do Algarve. O outro, que oprime e assoberba os lombos daquela possante égua, e traz as armas brancas de neve, é um cavaleiro novel, de nação francês, chamado Pierre Papin, senhor das baronias de Utrique. O outro, que bate com os ferrados talões os ilhais daquela pintada e ligeira zebra e traz o escudo veirado de azul, é o poderoso Duque de Nerbia, Espartafilardo do Bosque. Traz por empresa no escudo um espargal, com uma letra em castelhano, que diz assim: Rastrea mi suerte.
E assim foi D. Quixote por diante, nomeando muitos cavaleiros de um e de outro campo, como a ele se antolhavam, dando a todos as suas armas, cores, empresas e letras, que improvisava levado das imaginativas da sua loucura nunca vista; e sem se deter prosseguiu, dizendo:
Este esquadrão formam-no gentes de diversas nações. Aqui estão os que bebem as doces águas do famoso Xanto; os montanheses que pisam os campos Massílicos; os que joeiram o finíssimo e miúdo ouro da feliz Arábia; os que gozam das famosas e frescas ribeiras do claro Termodonte; os que sangram por muitas e diversas vias o rico Pactolo; os númidas incertos no cumprir a palavra; os persas afamados em arcos e frechas; os partos e medas, que pelejam fugindo; os árabes de vivendas mudáveis; os citas tão cruéis como alvos; os etíopes de lábios furados; e outras infinitas nações, cujos rostos estou vendo e conhecendo, ainda que os nomes não me lembram. Nestoutro esquadrão vêm os que bebem as correntes cristalinas do olivífero Bétis; os que lavam o rosto nas águas do sempre rico e dourado Tejo; os que desfrutam as proveitosas águas do divino Xenil; os que pisam os Tartésios campos de pastos abundantes; os que folgam nos elísios prados do Xeres; os manchegos, ricos e coroados de louras espigas; os de ferro vestidos, restos antigos do sangue godo; os que se banham no Pisuerga, famoso pela mansidão da corrente; os que apascentam os seus gados nas extensas devesas do tortuoso Guadiana, celebrado pelo seu escondido curso; os que tremem com o frio dos selváticos Pireneus, e com as brancas neves do alteroso Apenino; finalmente, quantos se contêm na Europa toda.
Valha-me Deus! e quantas mais províncias não disse! quantas nações não nomeou, dando a cada uma, e com maravilhosa presteza, os atributos que lhe pertenciam, todo absorto e repassado do que tinha lido nos seus livros mentirosos!
Embasbacado estava Sancho Pança com tanto palavrório sem dizer nem pio; de quando em quando voltava a cabeça para ver se avistava os cavaleiros e gigantes que o amo nomeava; e como não descobria nem meio, lhe disse:
Senhor meu, leve o diabo tudo isso, que não vejo por todo este descampado homem, nem gigante, nem cavaleiro nenhum dos que menciona. Eu ao menos não percebo tal. Talvez seja tudo encantamento como os avejões desta noite.
Como! pois não ouves o rinchar dos cavalos? o toque dos clarins, e o trovejar dos tambores?
O que eu ouço — respondeu Sancho — são muitos balidos de carneiros e ovelhas; mais nada.
E era verdade, porque os dois rebanhos já vinham muito perto.
O medo que tens — disse D. Quixote — é que faz, Sancho, que nem vejas, nem ouças às direitas, porque um dos efeitos do medo é turvar os sentidos, e fazer que pareçam as coisas outras do que são. Se tão medroso és, retira-te para onde quiseres, e deixa-me só, que basto eu para dar a vitória à parcialidade a quem ajude.
E, falando assim, cravou as esporas em Rocinante; e, posta a lança em riste, baixou da lomba como um raio. Dava-lhe vozes Sancho, dizendo:
Volte para trás, senhor D. Quixote, que voto a Deus que isso que vai investir são carneiros e ovelhas. Volte para trás. Mal haja o pai que me gerou. Forte loucura! Repare bem, que não há gigante, nem cavaleiro, nem gatos, nem escudos partidos nem inteiros, nem veiros azuis, nem endiabrados. Que faz? pecados meus!
Nem com tudo aquilo se refreava D. Quixote, antes em altas vozes ia clamando:
Eia, cavaleiros, que seguis e militais debaixo das bandeiras do valoroso Imperador Pentapolim de arremangado braço, segui-me todos, vereis quão facilmente lhe dou vingança do seu inimigo Alifanfarrão de Taprobana.
Com estas palavras se entranhou pelo tropel das ovelhas, e começou a alancear nelas, tão denodado como se desse em verdadeiros inimigos mortais. Bradavam-lhe os pastores que tivesse mão; porém vendo que era tempo perdido, levaram de suas fundas, e começaram a cumprimentar-lhe as orelhas com pedradas como punhos. D. Quixote, sem fazer caso das pedras, campeava para todas as partes, dizendo:
Onde estás, soberbo Alifanfarrão? vem para mim, que sou um só cavaleiro, e desejo a sós por sós provar as tuas forças, e tirar-te a vida em castigo das penas que dás ao valoroso Pentapolim Garamante.
Nisto acertou-lhe um seixo dos do rio, que lhe meteu duas costelas dentro.
Vendo-se tão maltratado, deu por sem dúvida que estava morto, ou muito gravemente ferido, e, lembrando-se do seu específico, puxou da almotolia, pô-la à boca, e principiou a engolir; mas, antes de ter esvaziado quanto lhe pareceu suficiente, veio outra amêndoa tão certeira contra a mão e a almotolia, que a amolgou toda, levando juntamente a D. Quixote três ou quatro dentes queixais, e pisando-lhe fortemente dois dedos.
Tal foi o primeiro golpe e o segundo, que ao pobre cavaleiro forçado foi deixar-se cair do cavalo.
Chegaram-se a ele os pastores, e, supondo terem-no morto, recolheram o gado a toda a pressa, levaram as reses mortas, que passavam de sete, e sem mais averiguações se lançaram a fugir.
Todo aquele tempo o levou Sancho na lomba, a observar as loucuras que seu amo fazia, e a arrancar as barbas, e a amaldiçoar a hora e o instante em que a desgraça lho tinha feito conhecer. Vendo-o caído, e os pastores já desaparecidos, desceu da lomba, chegou-se a ele, e achou-o naquela lástima, mas ainda em si; e disse-lhe:
Não lhe pregava eu, senhor D. Quixote, que se tornasse atrás, e que os que ia acometer não eram exércitos, senão carneiradas?
Aí tens tu como aquele ladrão do sábio meu inimigo faz aparecer e desaparecer as coisas — disse D. Quixote; — podes crer, Sancho, que aos tais é fácil figurarem-nos tudo que lhes lembra; e este maligno que me persegue, invejoso da glória que viu me adviria desta batalha, transformou os esquadrões dos inimigos em fatos de ovelhas; quando não, por vida minha! faze uma coisa, Sancho, para tedesenganares da verdade: monta no teu asno, segue-os de longe, e verás como, em se afastando um pouco daqui, tornam ao seu primeiro ser, deixam de ser carneiros e se fazem homens, tão feitos e perfeitos como eu tos pintei. Mas não vás por ora, que tenho precisão de que me ajudes; primeiro chega-te cá, e vê bem quantos queixais me faltam; parece-me que são todos.
Chegou-se-lhe tão perto o Sancho, que lhe metia quase os olhos pela boca, e foi a tempo que já o bálsamo tinha produzido o seu efeito no estômago de D. Quixote. Neste momento, pois, desfechou sobre as barbas do compassivo escudeiro, que nem tiro de escopeta, tudo que havia dentro.
Nossa Senhora! — exclamou Sancho — que é isto? sem dúvida este pecante está ferido mortalmente: vomita sangue.
Reparando porém um pouco mais, conheceu pela cor, sabor e cheiro, que tal sangue não era, mas sim o bálsamo da almotolia, que ele lhe vira engolir. Tamanho foi o seu nojo, que, revolvendo-se-lhe o interior, vomitou as tripas mesmo por cima do amo; ficaram ambos como umas pérolas.
Correu Sancho ao seu burro, para tirar dos alforjes com que se limpar a si, e curar ao patrão; não os achou. Esteve a pique de perder o juízo; disse outra vez mal à sua vida, e resolveu de si para si deixar tal cargo, e tornar-se para a terra, ainda que perdesse a soldada já merecida e as esperanças da prometida ilha.
Levantou-se neste comenos D. Quixote, e com a mão esquerda na boca, para lhe não acabarem de sair os dentes, colheu com a direita as rédeas de Rocinaiite, o qual não tinha ainda arredado pé (tanta era a sua lealdade e boa condição), e foi-se para onde o escudeiro estava de peito sobre o asno, com a mão na face, como excessivamente pensativo.
Vendo-o assim, e tão triste, disse-lhe:
Sabe, Sancho, que só quem faz mais que outrem é que é mais que outrem. Todas estas inclemências que nos acontecem sinais são de que breve se nos há-de o tempo abonançar, e as coisas correr-nos melhormente, porque não é possível que nem o mal nem o bem, sejam perduráveis; por isso, tendo o mal aturado já tanto, já o bem nos deve estar chegando; pelo tanto, não tens por que anojar-te pelas desgraças que a mim me sucedem, porque não tens nelas quinhão.
Não tenho quinhão? — soltou Sancho — então o que ontem mantearam não era o filho de meu pai? e os alforjes, que me faltam agora, com tudo o que eu tinha dentro deles, eram do vizinho; não?
Perdeste os alforjes, Sancho? — disse D. Quixote.
Não sei; não os acho — respondeu ele.
Desse modo, não há que se coma hoje! — replicou D. Quixote.
Não haveria decerto — tornou Sancho — se faltassem por estes prados as ervas que Vossa Mercê conhece, segundo diz, das quais se costumam valer para remédio em semelhantes faltas os tão mal-aventurados cavaleiros andantes como Vossa Mercê.
Mesmo assim — respondeu D. Quixote — mais quisera eu agora um quarto de pão, e até uma bola de suborralho, com duas cabeças de sardinhas de espicha, que todas quantas ervas descreve Dioscórides, nem que fosse o ilustrado pelo doutor Laguna. Seja como for, monta, bom Sancho, no teu jumento, e vem atrás de mim, que Deus, que por tudo olha, não nos há-de faltar, e mais andando nós tanto em serviço dele como andamos, ele, que nem falta aos mosquitos do ar, nem aos bichinhos da terra, nem aos filhos das rãs nos charcos, e é tão piedoso que faz nascer o sol sobre os bons e os maus, e chove sobre os injustos e os justos.
Mais talhado estava Vossa Mercê — disse Sancho — para pregador, que para cavaleiro andante.
De tudo sabiam e devem saber os cavaleiros andantes — disse D. Quixote — pois cavaleiro andante houve nos passados séculos, que se detinha a fazer um sermão ou prática no meio duma estrada real, como se fora graduado pela Universidade de Paris; donde se infere que nem a lança dana à pena, nem a pena à lança.
Ora bem; seja assim como Vossa Mercê diz — respondeu Sancho — mas vamo-nos já daqui, e procuremos onde se há-de ficar esta noite. Permita Deus que seja em parte onde não haja mantas, nem manteadores, nem mouros encantados, que, se os houver, dou ao diabo a cartada.
Pede-o tu a Deus, filho — disse D. Quixote — e vamos para onde tu quiseres, que desta vez quero deixar à tua escolha o albergar-nos. Mas chega cá a mão, e apalpa-me com o dedo; vê bem quantos queixais me faltam deste lado direito no queixo de cima; ali é que me dói.
Meteu Sancho os dedos, e, estando a apalpar, lhe disse:
Quantos queixais costumava Vossa Mercê ter deste lado?
Quatro — respondeu D. Quixote — afora a presa; todos inteiros e muito sãos.
Olhe Vossa Mercê bem o que diz, senhor — respondeu Sancho.
Digo quatro, se não eram cinco — respondeu D. Quixote — porque em toda a minha vida nunca me tiraram dente da boca, nem me caiu nenhum, nem me apodreceu.
Pois nesta parte de baixo — tornou Sancho — não tem Vossa Mercê senão dois queixais e meio; e da parte de cima nem meio, nem nenhum; está tudo raso como a palma da mão.
Desventurado de mim! — disse D. Quixote, ouvindo as tristes novas que o seu escudeiro lhe dava — antes quisera que me tivessem deitado abaixo um braço (uma vez que não fosse o da espada); porque te digo, Sancho, que boca sem queixais é como moinho sem mós; e muito mais se há-de estimar um dente, que um diamante. Mas a tudo isto andamos sujeitos os que professamos a apertada ordem da cavalaria. Monta, amigo, e vai guiando, que eu te sigo na andadura que te parecer.
Assim o fez Sancho, e se encaminhou para onde entendeu poderia achar acolhida sem sair da estrada real, que por ali ia muito trilhada; e, caminhando devagarinho porque as dores dos queixos de D. Quixote não o deixavam sossegar nem apressar-se, quis Sancho i-lo entretendo e divertindo com dizer-lhe alguma coisa; e, entre as que lhe disse, foi o que se agora referirá no seguinte capítulo.

Miguel de Cervantes, em Dom Quixote de La Mancha

19/05/2025

CAPÍTULO XVII. Em que se prosseguem os inumeráveis trabalhos, que o bravo D. Quixote e seu escudeiro Sancho Pança passaram na venda, que o fidalgo por seu mal cuidara ser castelo


A este tempo já tinha D. Quixote tornado em si do letargo, e com o mesmo tom de voz com que na véspera chamara pelo escudeiro quando estava estendido no vale de bordões, começou a chamar por ele dizendo:
Sancho amigo, dormes? dormes, amigo Sancho?
Qual dormir, pobre de mim! — respondeu Sancho farto de quizília e desgosto — parece que todos os diabos andaram comigo esta noite.
E bem o podes crer — respondeu D. Quixote — porque ou eu leio de cor, ou este castelo é encantado; porque saberás... mas isto que te quero agora dizer hás-de me jurar não o repetir a ninguém, enquanto eu for vivo.
Juro — respondeu Sancho.
Exigi-o, porque sou mui contrário a que se tire a honra a ninguém.— Pois digo-lhe que sim; juro — replicou Sancho — que o não direi enquanto Vossa Mercê viver; e praza a Deus que o possa descobrir já amanhã.
Tanto mal te faço eu, Sancho, que me desejes tão depressa acabado?
Não é por isso — respondeu Sancho — é porque sou pouco amigo de guardar as coisas muito tempo; tenho medo de que me apodreçam.
Seja pelo que for — volveu D. Quixote — fio na tua amizade e cortesia; e assim hás-de saber que me aconteceu esta noite uma das mais estranhas aventuras que te posso encarecer; e para ta contar em breve, saberás que há pouco veio ter comigo a filha do senhor deste castelo, que é a mais airosa e linda donzela de quantas em quase todo o mundo se podem achar. Que te poderei dizer do adorno de sua pessoa! do seu galhardo entendimento! e de outras excelências secretas que deixarei em silêncio, para não quebrar a fé que devo inteira à minha senhora Dulcinéia del Toboso! Só te quero dizer que foi invejoso o céu de tamanho bem como o que a ventura me tinha posto nas mãos; ou talvez (e isto é o mais certo) este castelo é encantado, como te digo: ao tempo que eu estava com ela em dulcíssimos e amorosíssimos colóquios, veio (sem eu ver nem saber de onde) a mão de algum descomunal gigante, e presentou-me nas queixadas um tal murro, que mas deixou todas em sangue, e depois me moeu de tal sorte, que estou pior que ontem, quando os arrieiros (por excessos de Rocinante) nos fizeram o agravo que tu sabes; pelo que eu conjecturo que o tesouro da formosura desta donzela deve estar sob a guarda de algum encantado mouro, e não há-de ser para mim.
Nem para mim tão pouco — respondeu Sancho — porque mais de quatrocentos mouros caíram sobre mim, e de tal modo me moeram, que a tosa dos bordões em comparação foi pão com mel. Mas diga-me, senhor: como chama boa e rara esta aventura, tendo ficado dela como nós ficamos? Ainda para Vossa Mercê foi meio mal, pois teve consigo a incomparável formosura que diz; porém eu, que apanhei os maiores cachações que espero receber em toda a minha vida!... Mal haja eu, e a mãe que me engendrou, que nem sou cavaleiro andante, nem o hei-de ser nunca, e sempre a pior parte destas andanças é para mim.
Visto isso, também tu estás sovado? — respondeu D. Quixote.
Não lhe disse já que sim? pesar da minha raça! — disse Sancho.
Não tenhas pena, amigo — disse D. Quixote — que eu vou fazer o bálsamo precioso, com que sararemos num abrir e fechar de olhos.
Acabou neste meio tempo de acender a luz o quadrilheiro, e entrou para ver o seu suposto defunto. Sancho, vendo-o entrar em camisa, lenço amarrado na cabeça, candeia na mão, e de muito má catadura, disse para o amo:
Senhor, será este porventura o mouro encantado que venha outra vez desancar-nos, por lhe ter ainda ficado alguma coisa no tinteiro?
Não pode ser o mouro — respondeu D. Quixote — porque os encantados não se deixam ver de ninguém.
Se não se deixam ver, deixam-se sentir — disse Sancho — senão, que o diga o meu costado.
Também o meu o poderia fazer — respondeu D. Quixote — mas não é indício suficiente isto para se crer que o que se está vendo seja o encantado mouro.
Chegou o quadrilheiro; e achando-os a palestrar tão mão por mão, ficou suspenso. Verdade é que ainda D. Quixote estava de costas, sem se poder mover de moído e de emplastrado.
Acercou-se o quadrilheiro, e disse-lhe:
Então como vai isso, bom homem?
Se eu fosse vós — respondeu D. Quixote — havia de falar mais bem criado. É moda cá na terra tratarem-se assim os cavaleiros andantes, pedaço de madraço?
O quadrilheiro, que se viu tratar tão mal por uma figura que tão pouco inculcava, não o pôde levar à paciência; e levantando a candeia com todo o seu azeite, pregou com ela na cabeça a D. Quixote; de sorte que lha deixou muito bem escalavrada; e, como tudo ficou outra vez às escuras, saiu imediatamente.
Disse o escudeiro então:
Sem dúvida, senhor meu, é este o mouro encantado; o tesouro tem-no ele guardado para outrem; para nós são só as murraças e as candiladas.
Assim é — respondeu D. Quixote — e não há que fazer caso destas coisas de encantamentos, nem há por que tomar raivas nem enfados com elas, que, por serem invisíveis e fantásticas, não nos deixam ver de quem vingar-nos, por mais que o procuremos. Levanta-te, Sancho, se podes; chama o alcaide desta fortaleza, e faz que me tragam um pouco de azeite, vinho, sal e rosmaninho, para o salutífero bálsamo, que em verdade me está parecendo que bem necessário me é agora, porque me corre muito sangue da ferida que me fez o fantasma.
Levantou-se Sancho com grande dor dos ossos, e foi às escuras para onde o vendeiro era; e encontrando-se com o quadrilheiro, que estava de orelha alerta, a ver se pescava que demônio viria a ser o seu inimigo, lhe disse:
Senhor, quem quer que sejais, fazei-nos favor de nos dar um pouco de rosmaninho, azeite, sal e vinho, que é preciso para curar um dos melhores cavaleiros andantes que há no mundo, e que jaz naquela cama mal ferido por mão do mouro encantado que se acha aqui.
Quando o quadrilheiro tal ouviu, teve-o por homem falto de siso; e, porque já começava a amanhecer, abriu a porta da taberna e, chamando pelo dono da pousada, lhe disse o que aquele bom homem queria.
Arranjou-lhe tudo o vendeiro, e Sancho o levou a D. Quixote, que estava de mãos na cabeça queixando-se da dor da candilada, que todavia lhe não tinha feito senão dois galos algum tanto crescidos; e o que ele cuidava ser sangue era unicamente suor, que lhe escorria, pela aflição da passada tormenta. Em suma, D. Quixote recebeu os ingredientes, e deles misturados fez uma composição cozendo-os por um espaço bom, até que entendeu acharem-se na conta.
Pediu algum vidro para deitar a mistela; e, não o havendo na venda, lançou-a numa almotolia de folha, que servia para azeite, e de que o hospedeiro lhe fez presente. Sobre a almotolia rosnou o fidalgo mais de oitenta Padre-nossos, e outras tantas Ave-Marias, Salve-Rainhas e Credos; e a cada palavra ia uma cruz a modo de bênção. A tudo aquilo assistiam Sancho, o vendeiro e o quadrilheiro; o arrieiro, esse já andava trastejando no serviço dos seus machos.
Feito isto, quis D. Quixote experimentar a virtude que ele imaginava no seu bálsamo precioso; e pôs-se a beber o sobejo que tinha ficado da almotolia; daquilo ainda havia na panela, em que se fizera o cozimento, quase meia canada. Tanto como a acabou de beber, começou a vomitar, de maneira que nada do que tinha no estômago lhe ficou dentro; e, com as ânsias e aflições do lançar, veio-lhe um suor copiosíssimo, que o obrigou a pedir que o embrulhassem e o deixassem só.
Assim lho fizeram, e adormeceu para mais de três horas, ao cabo das quais despertou, e se sentiu aliviadíssimo do corpo, e a tal ponto melhor do seu quebrantamento, que se julgou são; pelo que ficou inteiramente convencido de que havia atinado com o bálsamo de Ferrabrás, e podia dali em diante meter-se em quaisquer rixas, pendências e batalhas, sem medo nenhum, por mais perigosas que fossem.
Sancho Pança, que também teve por milagrosa a melhoria do amo, pediu-lhe que lhe desse a ele o que sobrava da panela, que não era pequena quantidade. Concedeu-lha D. Quixote; e ele, pegando-lhe com as mãos ambas, com toda a fé e boa vontade, arrumou-a ao peito, e emborcou tanto quase como o fidalgo.
O caso é que o estômago do pobre Sancho não seria tão melindroso como o do cavaleiro; e assim, primeiro que vomitasse, tantas ânsias e vascas lhe deram, tantos suores e desmaios, que pensou deveras ter-lhe chegado a última hora. Vendo-se tão aflito, amaldiçoou o bálsamo e o ladrão que lho tinha dado. Vendo-o assim D. Quixote, disse-lhe:
Eu creio, Sancho, que todo esse mal te vem de não teres sido armado cavaleiro, porque tenho para mim que este remédio não há-de aproveitar aos que o não são.
Se Vossa Mercê sabia isso — replicou Sancho — mal haja eu e toda a minha parentela! para que consentiu que eu o provasse?
A este tempo entrou a bebida a fazer o seu efeito, e começou o escudeiro a desaguar-se por ambos os canais com tanta pressa, que a esteira de junco, em que de novo se tinha deitado, e a manta, nunca mais serviram. Suava e tressuava com tais paroxismos e acidentes, que não só ele mas todos pensaram ser aquela a última da sua vida.
Durou-lhe a tormenta quase duas horas, acabadas as quais não ficou como seu amo, mas tão moído e quebrantado, que mal se podia ter; D. Quixote, que, segundo se disse, se sentia aliviado e são, quis imediatamente partir-se a buscar aventuras, por lhe parecer que todo o tempo que ali se demorava era roubado ao mundo e aos necessitados do seu amparo; e mais, com a confiança que lhe dava agora o seu bálsamo.
Forçado deste desejo, aparelhou ele mesmo ao Rocinante, albardou o jumento do escudeiro e ajudou-o a vestir-se e montar. Pôs-se a cavalo, e, chegando a um canto da venda, apoderou-se duma chuçazita que ali estava para lhe servir de lança.
Olhavam para ele todos quantos se achavam na venda, que passavam de vinte pessoas; considerava-o não menos a filha do vendeiro, e ele também não tirava dela os olhos; de quando em quando arrojava um suspiro, que parecia ser arrancado do fundo das entranhas, supondo todos que seria da dor que sentia nas costelas; pelo menos assim o cuidavam aqueles que o tinham visto emplastrar a noite dantes.
Logo que estiveram a cavalo, posto D. Quixote à porta da venda, chamou pelo dono da casa, e com voz mui repousada e grave lhe disse:
Muitas e mui grandes, senhor alcaide, são as mercês que neste vosso castelo hei recebido; e declaro-me em grande obrigação de agradecido para todos os dias de minha vida. Se vos posso pagar vingando-vos de algum soberbo que vos tenha feito agravo, sabei que o meu ofício outro não é senão valer aos que pouco podem, vingar os que recebem tortos, e castigar aleivosias. Fazei exame de consciência: e se achais alguma coisa deste jaez que me encomendar, não tendes mais que dizê-la, que eu vos prometo, pela ordem de cavaleiro que recebi, satisfazer-vos e pagar-vos a vosso contento.
A isto respondeu com igual sossego o vendeiro:
Senhor cavaleiro, eu não tenho necessidade de que Vossa Mercê me vingue de nenhum agravo, porque eu bem sei tomar por mim mesmo a desforra que me parece, quando alguém mos faz; o que me é preciso só é que Vossa Mercê me pague o gasto que esta noite fez na venda, tanto da palha e cevada das duas bestas, como da ceia e camas.
Então isto é venda? — replicou D. Quixote.
E muito honrada — respondeu o vendeiro.
Pois senhor, tinha vivido enganado até aqui — respondeu D. Quixote — julgando isto castelo, e não dos piores; mas sendo que não é castelo, mas venda, o que por agora se poderá fazer é dispensardes a paga, pois eu por mim não posso descumprir a ordem dos cavaleiros andantes, dos quais sei ao certo (sem que até ao dia de hoje tenha havido exemplo em contrário) que jamais pagaram pousada nem coisa alguma em venda onde estivessem, porque todo o bom acolhimento que se lhes faz, ou possa fazer, de direito e foro se lhes deve, a troco do incomportável trabalho que padecem buscando as aventuras de noite e de dia, de inverno e verão, a pé e a cavalo, com sede e fome, com frio e calma, sujeitos a todas as inclemências do céu e a todos os descômodos da terra.
Lá nessas coisas não me intrometo eu — respondeu o vendeiro; — pague-se o que se me deve, e deixemo-nos de contos, mais de cavalarias; o que só me importa é receber o que me pertence.
O que vós sois — respondeu D. Quixote — é um sandeu e desastrado hospedeiro. E, metendo pernas ao Rocinante, terçando a chucita, saiu da venda sem lho estorvar ninguém; e, sem reparar se o escudeiro o seguia ou não, adiantou-se um bom espaço.
O vendeiro, que o viu ir-se embora sem lhe pagar, tornou-se pelo pagamento a Sancho Pança, que lhe respondeu que, visto o seu senhor não querer pagar, também ele não pagaria, porque, sendo ele, como era, escudeiro de cavaleiro andante, a mesma regra e razão lhe assistia a ele que a seu amo, que era não pagar coisa alguma em pousadas e tabernas.
Com aquilo é que se agastou muito o vendeiro, e o ameaçou que se lhe não pagasse logo para ali à boamente, ele o faria pagar de modo que lhe pesasse. Ao que Sancho respondeu que, pela lei da cavalaria recebida por seu amo, não pagaria nem um cornado, ainda que o matassem, porque não estava para perder por tão pouco a boa e antiga usança dos cavaleiros andantes, nem queria que dele se queixassem os escudeiros dos tais que para o diante viessem ao mundo, increpando-lhe a quebra de tão justo foral.
Quis a má sorte do pobre Sancho que entre a gente que era na venda se achassem quatro tosadores de Segóvia, três fabricantes de agulhas de Potro de Córdova, e dois vizinhos da feira de Sevilha; gente alegre, bem intencionada, maliciosa e brincalhona, os quais, como senhoreados do mesmo espírito, se chegaram a Sancho, e, apeando-o do jumento, um deles entrou a buscar a manta da cama do hóspede, e, estatelando-o sobre ela, levantaram os olhos, e viram que o teto era algum tanto baixo mais do que lhes era preciso para o que tencionavam; pelo que determinaram sair para o pátio, que tinha por teto o céu; e ali, posto Sancho no meio da manta, começaram a atirá-lo ao alto, e a divertir-se com ele como um cão por festa de entrudo.
As vozes que dava o mísero manteado foram tantas, que chegaram aos ouvidos do amo, o qual, detendo-se a escutá-las, supôs que alguma grande aventura lhe vinha, até que reconheceu claramente ser o seu escudeiro quem gritava; e voltando as rédeas, arrancando a custo um galope, tornou para a venda. Achando-a fechada, rodeou-a à procura de alguma entrada.
Mal era chegado às paredes do pátio, que pouco altas eram, quando viu o desalmado divertimento que ao seu escudeiro se estava fazendo. Viu-o subir e descer pelos ares com tanta graça e presteza, que para mim tenho desataria a rir, se a raiva lho consentira. Fez quanto pôde para subir do cavalo ao espigão do muro; mas tão moído e quebrado estava, que nem apear-se pôde; e assim, de cima do cavalo começou a vomitar tantos doestos e impropérios aos que lhe manteavam o Sancho, que não é possível acertar a escrevê-los; mas nem por isso eles interrompiam as risadas e a obra, nem o voador Sancho cessava das suas queixas, mescladas ora com ameaças, ora com súplicas; mas tudo era por demais; nem lhe aproveitou enquanto de puro cansados o não deixaram.
Trouxeram-lhe o burro; e, subindo-o para cima dele, o embrulharam com o gabão. A compassiva de Maritornes, vendo-o tão estafado, pareceu-lhe ser bem socorrê-lo com uma caneca de água, e trouxe-lha do poço por ser mais fresca. Recebeu-lha Sancho, e, levando-a à boca, deteve-se aos gritos que o amo lhe dava, dizendo:
Filho Sancho, não bebas água, filho, não bebas, olha que morres; aqui está o santíssimo bálsamo; vês — (e mostrava-lhe a almotolia) — com duas gotas que bebas disto, pões-te bom sem falta nenhuma.
A estes brados volveu Sancho a vista de revés, e disse com outros ainda maiores:
Já porventura se esqueceu Vossa Mercê de que não sou cavaleiro? ou quer que me acabem de sair as entranhas que me ficaram desta noite? guarde o seu remédio com todos os diabos, e deixe-me cá.
O acabar de dizer isto, e o começar a beber foi tudo um; mas como ao primeiro trago conheceu que era água, não quis passar adiante, e rogou a Maritornes que lhe trouxesse antes vinho, o que ela lhe fez de muito boa vontade, e pagou-o da sua algibeira, porque bem se dizia a seu respeito que, ainda que andava naquele trato, tinha umas sombras e longes de cristã.
Assim que Sancho bebeu, bateu calcanhares ao seu asno, e pela porta da venda, aberta de par em par, saiu dela muito contente de não ter pago nada, e ter levado a sua avante, ainda que foi à custa dos seus costumados fiadores, que eram os lombos.
Verdade é que o vendeiro lhe ficou com os alforjes em desconto do que se lhe devia; mas Sancho, pela perturbação que levava, não deu pela falta.
Quis o vendeiro trancar bem a porta assim que o viu fora, mas não lho consentiram os manteadores, que eram tal gente, que, ainda que D. Quixote fosse realmente dos cavaleiros andantes da Távola Redonda, tanto caso fariam dele, como de dois cominhos.

Miguel de Cervantes, em Dom Quixote de La Mancha

29/04/2025

Capítulo XVI. Do que sucedeu ao engenhoso fidalgo na venda que ele imaginava ser castelo


O vendeiro, que viu D. Quixote atravessado no asno, perguntou a Sancho que mal trazia. Respondeu-lhe este que nada era, que tinha dado uma queda dum penedo abaixo, e que trazia algum tanto amolgadas as costelas.
Tinha o vendeiro por mulher uma, não da condição costumada nas de semelhante trato, porque naturalmente era caritativa, e se condoia das calamidades do próximo. Acudiu esta logo a curar a D. Quixote, e fez com que uma sua filha donzela, rapariga, e de bem bom parecer, a ajudasse a tratar do hóspede.
Servia também na venda uma moça asturiana, larga de cara, cabeça chata por detrás, nariz rombo, torta de um olho, e do outro pouco sã. Verdade é que a galhardia do corpo lhe descontava as outras faltas; não tinha sete palmos dos pés à cabeça; e os ombros, que algum tanto lhe cargavam, a faziam olhar para o chão mais do que ela quisera.
Esta gentil moça pois ajudou a donzela, e entre ambas engenharam uma cama suficientemente má para D. Quixote, num sótão, que dava visíveis mostras de ter noutro tempo servido de palheiro muitos anos, no qual se alojava também um arrieiro, que tinha a sua cama feita um pouco adiante da do nosso D. Quixote, e ainda que era das enxergas e mantas dos machos, levava ainda assim muita vantagem à do cavaleiro, que só se compunha de quatro tábuas mal acepilhadas, sobre dois bancos desiguais, e dum colchão que em delgado mais parecia colcha, recheado de godelhões, que, se não mostrassem por alguns buracos serem de lã, ao toque e pela dureza pareciam calhaus, dois lençóis como de couro de adarga, e um cobertor cujos fios se podiam contar sem escapar um único.
Nesta amaldiçoada cama se deitou D. Quixote, e logo a vendeira e sua filha o emplastraram de alto a baixo, alumiando-lhes Maritornes (que assim se chamava a asturiana); e vendo a vendeira o corpo de D. Quixote tão pisado em muitas partes, disse que mais pareciam aquilo pancadas, que só queda.
Não foram pancadas — acudiu Sancho — é que o penedo tinha muitos bicos, e cada um deles lhe fez sua pisadura.
E ajuntou logo:
Olhe, senhora, se faz isso de modo que sobejam algumas estopas, que não faltará quem delas precise, que também a mim me doem um pouco os lombos.
Pelo que vejo — disse a vendeira — também vós caístes?
Não caí — respondeu Sancho — mas do susto que tive de ver cair a meu amo de tal modo me dói o corpo, que é como se me tivessem dado mil bordoadas.
Podia muito bem ser isso — disse a donzela — que a mim muitas vezes me tem acontecido sonhar que caía duma torre abaixo, e não acabava nunca de chegar ao chão; e quando despertava do sonho, achava-me tão moída e quebrantada, como se tivera caído deveras.
Assim mesmo é que é, senhora — respondeu Sancho Pança; — também eu, sem sonhar nada, e estando mais acordado do que estou agora, acho-me com pouco menos pisaduras que meu amo o senhor D. Quixote.
Como se chama este cavaleiro? — perguntou a asturiana Maritornes.
D. Quixote de la Mancha — respondeu Sancho — é cavaleiro de aventuras, e dos melhores e mais fortes que de longo tempo para cá se tem visto neste mundo.
Que vem a ser cavaleiro de aventuras? — replicou a serva.
Tão novata sois no mundo, que o ignorais?— respondeu Sancho — pois sabei, irmã, que cavaleiro de aventuras vem a ser um sujeito que em duas palhetadas se vê desancado, e Imperador. Hoje está a mais desditada criatura do mundo, e a mais necessitada, e amanhã terá duas ou três coroas reais para as dar ao seu escudeiro.
Então como é que vós, pertencendo a tão bom senhor — perguntou a vendeira — não tendes, ao que parece, pelo menos algum condado?
Ainda é cedo — respondeu Sancho — porque não há senão um mês que andamos buscando as aventuras, e por enquanto ainda não topamos com alguma que o fosse em bem; muitas vezes se busca uma coisa, e se acha outra. Verdade é que se o meu amo o senhor D. Quixote sara desta queda ou destas feridas, e eu não ficar estropiado, não troco as minhas esperanças pelo melhor título de Espanha.
Todas estas práticas estava D. Quixote escutando muito atento; e, sentando-se na cama conforme pôde, pegando na mão da vendeira, lhe disse:
Crede, formosa senhora, que vos podeis chamar feliz por terdes albergado neste vosso castelo a minha pessoa, que é tal, que, se eu a não louvo, é pelo que se costuma dizer que o louvor em boca própria é vitupério; porém o meu escudeiro vos dirá quem sou. Só vos digo que hei-de conservar eternamente na memória o serviço que me haveis feito para o agradecer enquanto a vida me durar; e prouvera aos céus que o amor me não tivesse tão rendido e sujeito às suas leis, e aos olhos daquela formosa ingrata, que digo pela boca pequena que os desta formosa senhora se tornariam senhores do meu alvedrio.
Confusas estavam a bodegueira, a filha e a boa de Maritornes, ouvindo os ditos do cavaleiro andante, que elas entendiam como se fossem em grego, ainda que bem percebiam endereçarem-se todos a oferecimentos e requebros; e, por não acostumadas com semelhante linguagem, olhavam para ele, e admiravam-se, parecendo-lhes não ser homem como os outros; e, agradecendo-lhe em estilo tabernático, o deixaram. A asturiana Maritornes curou a Sancho, que o não precisava menos que o amo.
Tinha o arrieiro conchavado com ela que naquela noite se haviam de refocilar juntos, dando-lhe ela a sua palavra de que, em estando sossegados os hóspedes, e os amos adormecidos, iria ter com ele, e satisfazer-lhe o gosto enquanto mandasse.
Conta-se desta moça que nunca jamais promessas daquela casta as deixava por cumprir, ainda que as desse num monte e sem testemunhas, pois timbrava muito de fidalga, e não tinha por afronta estar naquele serviço de moça de locanda, porque dizia ela que desgraças e maus sucessos a haviam reduzido a tal estado.O duro, estreito, apoucado, e fingido leito de D. Quixote ficava logo à entrada daquele estrelado sótão; e ao pé tinha Sancho arranjado a sua jazida, que só constava duma esteira de junco e duma manta, que mais parecia de estopa tosada, que de lã.
A estes dois leitos seguia-se o do arrieiro, engenhado, como dito fica, das enxergas e mais composturas dos dois melhores machos que trazia, os quais ao todo eram doze, luzidios, anafados e famosos, porque era um dos arrieiros ricos de Arevalo, segundo diz o autor desta história, que dele faz particular menção, pelo ter mui bem conhecido; e até querem dizer que era algum tanto seu parente; além do que Cid Hamete Benengeli foi historiador muito curioso e muito pontual em todas as coisas; e bem se vê que sim, pois nas que ficam referidas (com serem mínimas e rasteiras) não as quis deixar no escuro; de que poderão tomar exemplo os historiadores graves, que nos contam as ações tão acanhadas e sucintamente, que mal se lhes toma o gosto, deixando no tinteiro por descuido, malícia, ou ignorância, o mais substancial.
Bem haja mil vezes o autor de Tablante de Ricamonte e o do outro livro, onde se contam os feitos do Conde de Tomilhas; e com que pontualidade se descreve tudo!
Digo pois, que, tanto como o arrieiro visitou a sua récova, e lhe deu a segunda ração, se estendeu nas enxergas, e ficou à espera da sua pontualíssima Maritornes.
Já estava Sancho emplastrado e deitado; e, ainda que procurava dormir, não lho consentia a dor das costelas; e D. Quixote, com o dolorido das suas, tinha os olhos abertos, que nem lebre.
Toda a venda era em silêncio, não havendo em toda ela outra luz senão a de uma lanterna pendurada ao meio do portal.
Esta maravilhosa quietação, e os pensamentos que o nosso cavaleiro sempre trazia dos sucessos que a cada passo se contam nos livros ocasionadores de sua desgraça, trouxe-lhe à imaginação uma das estranhas loucuras que bem se podem figurar, e foi julgar-se ele chegado a um famoso castelo (que, segundo já dissemos, castelos eram em seu entender todas as vendas em que pernoitava), e que a filha do vendeiro era a filha do castelão, a qual, vencida da sua gentileza, se havia dele enamorado, prometendo-lhe que naquela noite, às escondidas dos pais, havia de vir passar com ele um bom pedaço; e tendo por firme e verdadeira toda esta quimera por ele próprio fabricada, entrou a afligir-se e a pensar no perigoso transe em que a sua honestidade se ia ver; propondo porém em seu coração não cometer falsidade à sua senhora Dulcinéia del Toboso, ainda que diante se lhe pusesse a Rainha Ginevra com a sua camareira Quintanhona.
Pensando pois nestes disparates, chegou o tempo e a hora (que para ele foi minguada) de vir a asturiana, a qual em camisa e descalça, com os cabelos metidos numa coifa de algodão, a passo atento e sutil entrou à procura do arrieiro no aposento onde os três jaziam.
Mal era chegada à porta, quando D. Quixote a sentiu; e sentando-se na cama, apesar dos emplastros, e com dores das costelas, estendeu os braços para receber a sua formosa donzela, a asturiana, que toda encolhida e calada ia com as mãos adiante procurando o seu querido. Topou ela com os braços de D. Quixote, o qual lhe travou rijamente da mão, e puxando-a para si, sem que ela ousasse proferir palavra, a fez sentar-se sobre a cama.
Apalpou-lhe logo a camisa; e ainda que ela era de serapilheira, a ele lhe pareceu de delgado e finíssimo bragal. Trazia a moça nos pulsos umas contas de vidro, que a ele se representavam preciosas pérolas orientais. Os cabelos, que algum tanto atiravam para crinas, pareciam-lhe fios de luzentíssimo ouro da Arábia, cujo esplendor ao do próprio sol escurecia; e o bafo, que sem dúvida alguma cheirava a alguns restos de carne da véspera, representou-se-lhe um hálito suave e aromático. Finalmente, na fantasia a ideou tal qual como tinha lido em seus livros acerca da outra Princesa, que veio ver o mal ferido cavaleiro, vencido dos seus amores, com todos os adornos que se aqui declaram.
Tamanha era a cegueira do pobre fidalgo, que nem o tato, nem o cheiro, nem outras coisas, que em si trazia a boa donzela, o desenganavam, com serem tais, que fariam vomitar a quem quer que não fosse arrieiro; antes lhe parecia que tinha nos braços a deusa da formosura. Estreitando-a neles, com voz amorosa e baixa lhe disse:
Quisera achar-me em termos, formosa e alta senhora, de poder pagar tamanha mercê como esta que me haveis feito com a vista da vossa grande formosura. Porém a fortuna, que se não cansa de perseguir aos bons, quis prostrar-me neste leito, onde me acho tão moído e quebrantado, que, por maior vontade que eu tivesse de vos satisfazer, de modo nenhum o poderia. A esta impossibilidade acresce outra maior; e é a fé que tenho prometido guardar à sem igual Dulcinéia del Toboso, única senhora dos meus mais ocultos pensamentos. A não se me pôr isto diante, não seria eu cavaleiro tão sandeu, que deixasse fugir a venturosa ocasião que a vossa grande bondade me faculta.
Maritornes estava aflitíssima, e tressuando de ver-se tão apertada por D. Quixote, e sem perceber nem atender ao que ele dizia, procurava, sem dizer chus nem bus, desenlear-se da prisão. O bom do arrieiro, que estava bem desperto com os seus danados desejos, desde o instante em que a moça entrou a porta a sentiu, e esteve atentamente escutando quanto D. Quixote dizia; e cioso de que a asturiana o tivesse com outro falseado, foi-se achegando mais à cama de D. Quixote, e esteve muito quedo à espera de ver em que parariam aqueles palavreados que ele não podia entender; porém como viu que a moça forcejava para se ver solta, e D. Quixote trabalhava para a reter, pareceu-lhe mal a história, levantou o braço ao alto, e desfechou tão terrível murro nos estreitos queixos do enamorado cavaleiro, que lhe deixou a boca toda a escorrer em sangue; e não contente com isto, saltou-lhe sobre as costelas, e com os pés lhas palmilhou à sua vontade, e mais que a trote. O leito, que era um pouco fraco, e de fundamentos mal seguros, não podendo sofrer o contrapeso do arrieiro, deu consigo em terra.
Àquele ruído despertou o vendeiro, e logo imaginou que haviam de ser pendências de Maritornes, porque, tendo bradado por ela, não lhe respondia. Com esta suspeita ergueu-se, e acendendo uma candeia, se foi para onde tinha sentido a balbúrdia.
A moça, vendo que o amo vinha, e que não era homem para graças, toda medrosa e alvorotada, fugiu para a cama de Sancho Pança, que estava afinal adormecido, e ali se encolheu novelando-se toda.
O vendeiro entrou dizendo:
Onde estás, traste? isto são por força coisas tuas.
Despertou Sancho; e sentindo aquele vulto quase em cima de si, pensou estar com um pesadelo, e começou a atirar punhadas para uma e outra banda, apanhando não sei quantas a Maritornes. Ela, com a dor, embaraçando-se pouco de decências, retribuiu a Sancho com tantas, que sem vontade lhe espantaram de todo o sono. Vendo-se tratado daquele feitio, e sem saber por quem, levantou-se como pôde, abraçou-se com a rapariga, e entre os dois se travou a mais renhida e engraçada escaramuça do mundo.
O arrieiro, reconhecendo à luz da candeia do bodegão como a sua dama andava, largou a D. Quixote para acudir por ela. Outro tanto fez o dono da casa, mas com propósito diferente, porque o seu foi de castigar a moça, por crer sem dúvida que ela só era a ocasionadora de todo aquele concerto; e assim como se costuma dizer: o gato ao rato, o rato à corda, a corda ao pau, o arrieiro dava em Sancho, Sancho na moça, a moça em Sancho, o vendeiro na moça; e todos com tamanha azáfama, que nem fôlego tomavam.
O bonito foi quando a candeia se apagou. Na escuridão batiam tão sem dó todos para o monte, que onde quer que acertavam a mão não deixavam coisa sã.
Jazia acaso na venda aquela noite um quadrilheiro, dos que chamam da Santa Irmandade velha de Toledo, o qual, ouvindo o desconforme barulho da peleja, agarrou da sua varinha, e da caixa de lata dos seus títulos, e entrou às escuras no aposento, bradando:
Parem da parte da Justiça! parem da parte da Santa Irmandade!
O primeiro com quem topou foi o esmurrado de D. Quixote que estava no seu leito derribado, de boca para o ar e sem sentidos; e, lançando-lhe às apalpadelas a mão às barbas, não cessava de clamar:
Acudam à Justiça!
Vendo porém que o vulto se não bolia, supôs que estava morto, e que os mais que na casa eram deviam ser os matadores. Com esta suspeita reforçou a voz, dizendo:
Feche-se a porta da venda. Sentido que não saia viva alma, que mataram aqui um homem.
Este brado sobressaltou a todos, e cada um deixou a desavença instantaneamente. Retirou-se o vendeiro para o seu quarto, o arrieiro para as suas enxergas, e a moça para o seu rancho. Só os mal-aventurados D. Quixote e Sancho é que se não puderam mover donde jaziam.
Largou então o quadrilheiro a barba de D. Quixote, e saiu a buscar luz, para ver e prender os delinquentes; mas não a achou, porque o vendeiro de propósito havia apagado a lâmpada, quando se retirou para o seu cubículo, e foi-lhe forçoso recorrer à chaminé, onde, com muito trabalho e tempo, o quadrilheiro acendeu outra luz.

Miguel de Cervantes, Dom Quixote de La Mancha