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19/02/2025

A causa do seu sofrimento

A causa do seu sofrimento não está em algo externo, mas em seu próprio julgamento. E está em seu poder cessá-lo agora. Se a causa estiver na sua própria convicção, quem o impede de corrigi-la? Se sofre por não estar fazendo o que acredita ser correto, por que não age em vez de se lamentar?
Mas há uma barreira intransponível no trajeto!”
Então não lamente, pois isso independe de você.
Mas não vale a pena viver se não ela não puder ser transposta.”
Então parta tão satisfeito quanto quem está em plena atividade apesar das barreiras.

Marco Aurélio, em Meditações

24/08/2023

Viver

Ele teve a sensação de ser. Não poderia explicar, tão profundo, nítido e largo que era. A sensação de ser era uma visão aguda, calma e instantânea de se ser o próprio representante da vida e da morte. Então, ele não quis dormir, para não perder a sensação da vida.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

21/12/2022

Viva agora

A vida que anseia ter depois de partir… você pode vivê-la agora. Caso um homem não lhe permita vivê-la, parta como quem não sofre nenhum prejuízo. “Se a casa está enfumaçada, eu saio.” Por que partir seria um problema?
Contudo, enquanto nada me expulsa, eu permaneço, sou livre e nenhum homem bloqueia a minha capacidade de escolher. E eu escolho viver de acordo com a natureza do animal racional e social.

Marco Aurélio, in Meditações

20/07/2022

Uma pergunta

Gastar a vida é usá-la ou não usá-la? Que é que estou exatamente querendo saber?

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

09/05/2022

Aprender a viver

Pudesse eu um dia escrever uma espécie de tratado sobre a culpa. Como descrevê-la, aquela que é irremissível, a que não se pode corrigir? Quando a sinto, ela é até fisicamente constrangedora: um punho fechando o peito, abaixo do pescoço: e aí está ela, a culpa. A culpa? O erro, o pecado. Então o mundo passa a não ter refúgio possível. Aonde se vá e carrega-se a cruz pesada, de que não se pode falar.
Se se falar – ela não será compreendida. Alguns dirão – “mas todo o mundo...” como forma de consolo. Outros negarão simplesmente que houve culpa. E os que entenderem abaixarão a cabeça também culpada. Ah, quisera eu ser dos que entram numa igreja, aceitam a penitência e saem mais livres. Mas não sou dos que se libertam. A culpa em mim é algo tão vasto e tão enraizado que o melhor ainda é aprender a viver com ela, mesmo que tire o sabor do menor alimento: tudo sabe mesmo de longe a cinzas.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

04/05/2022

Trecho

Agora eu conheço esse grande susto de estar viva, tendo como único amparo exatamente o desamparo de estar viva. De estar viva – senti – terei que fazer o meu motivo e tema. Com delicada curiosidade, atenta à fome e à própria atenção, passei então a comer delicadamente viva os pedaços de pão.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

22/01/2022

Viver

Vovô ganhou mais um dia. Sentado na copa, de pijama e chinelas, enrola o primeiro cigarro e espera o gostoso café com leite.
Lili, matinal como um passarinho, também espera o café com leite.
Tal e qual vovô.
Pois só as crianças e os velhos conhecem a volúpia de viver dia a dia, hora a hora, e suas esperas e desejos nunca se estendem além de cinco minutos…

Mário Quintana, in Sapato florido

31/12/2021

Aprendendo a viver

Thoreau era um filósofo americano que, entre coisas mais difíceis de se assimilar assim de repente, numa leitura de jornal, escreveu muitas coisas que talvez possam nos ajudar a viver de um modo mais inteligente, mais eficaz, mais bonito, menos angustiado.
Thoreau, por exemplo, desolava-se vendo seus vizinhos só pouparem e economizarem para um futuro longínquo. Que se pensasse um pouco no futuro, estava certo. Mas “melhore o momento presente”, exclamava. E acrescentava: “Estamos vivos agora.” E comentava com desgosto: “Eles ficam juntando tesouros que as traças e a ferrugem irão roer e os ladrões roubar.”
A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome alguma providência agora, pois só na sequência dos agoras é que você existe.
Cada um de nós, aliás, fazendo um exame de consciência, lembra-se pelo menos de vários agoras que foram perdidos e que não voltarão mais. Há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda.
Ele queria que fizéssemos agora o que queremos fazer. A vida inteira Thoreau pregou e praticou a necessidade de fazer agora o que é mais importante para cada um de nós.
Por exemplo: para os jovens que queriam tornar-se escritores, mas que contemporizavam – ou esperando uma inspiração ou se dizendo que não tinham tempo por causa de estudos ou trabalhos – ele mandava ir agora para o quarto e começar a escrever.
Impacientava-se também com os que gastam tanto tempo estudando a vida que nunca chegam a viver. “É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos que começamos a saber.”
E dizia esta coisa forte que nos enche de coragem: “Por que não deixamos penetrar a torrente, abrimos os portões e pomos em movimento toda a nossa engrenagem?” Só em pensar em seguir o seu conselho, sinto uma corrente de vitalidade percorrer-me o sangue. Agora, meus amigos, está sendo neste próprio instante.
Thoreau achava que o medo era a causa da ruína dos nossos momentos presentes. E também as assustadoras opiniões que nós temos de nós mesmos. Dizia ele: “A opinião pública é uma tirana débil, se comparada à opinião que temos de nós mesmos.” É verdade: mesmo as pessoas cheias de segurança aparente julgam-se tão mal que no fundo estão alarmadas. E isso, na opinião de Thoreau, é grave, pois “o que um homem pensa a respeito de si mesmo determina, ou melhor, revela seu destino”.
E, por mais inesperado que isso seja, ele dizia: tenha pena de si mesmo. Isso quando se levava uma vida de desespero passivo. Ele então aconselhava um pouco menos de dureza para com eles próprios. O medo faz, segundo ele, ter-se uma covardia desnecessária. Nesse caso devia-se abrandar o julgamento de si próprio. “Creio”, escreveu, “que podemos confiar em nós mesmos muito mais do que confiamos. A natureza adapta-se tão bem à nossa fraqueza quanto à nossa força.” E repetia mil vezes aos que complicavam inutilmente as coisas – e quem de nós não faz isso? –, como eu ia dizendo, ele quase gritava com quem complicava as coisas: simplifique! simplifique!
E um dia desses, abrindo um jornal e lendo um artigo de um nome de homem que infelizmente esqueci, deparei com citações de Bernanos que na verdade vêm complementar Thoreau, mesmo que aquele jamais tenha lido este.
Em determinado ponto do artigo (só recortei esse trecho), o autor fala que a marca de Bernanos estava na veemência com que nunca cessou de denunciar a impostura do “mundo livre”. Além disso, procurava a salvação pelo risco – sem o qual a vida para ele não valia a pena – “e não pelo encolhimento senil, que não é só dos velhos, é de todos os que defendem as suas posições, inclusive ideológicas, inclusive religiosas” (o grifo é meu).
Para Bernanos, dizia o artigo, o maior pecado sobre a terra era a avareza, sob todas as formas. “A avareza e o tédio danam o mundo.” “Dois ramos, enfim, do egoísmo”, acrescenta o autor do artigo.
Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!
Feliz Ano-Novo.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

04/10/2021

Viver com dignidade

Ser velho é só ter mais anos, ter vivido mais, ter mais coisas a dizer porque se tem mais coisas para lembrar. Creio que se alguém chega à idade em que se pode dizer que é velho, o mínimo que se pode esperar das pessoas é que respeitem o trabalho, a consciência e o direito de viver com dignidade nessa velhice […] não quero dizer com isso que há que respeitar e ouvir com muita atenção os mais velhos pelo fato de serem mais velhos, não. Há velhos que não são nada respeitáveis. Portanto, se eu penso que é um erro fazer da juventude um valor, também não gostaria que se pensasse que estou querendo dizer que a velhice é um valor, porque não é. Valores são, quando são, os seres humanos, independentemente da idade que tenham.

José Saramago, in As palavras de Saramago

08/03/2021

O que a ciência nos ensina sobre a arte de viver

          Tentativa e erro, experimentar o novo, entender que algumas questões têm respostas complexas ou podem mesmo não ter uma resposta, cultivar a noção de que o fracasso é essencial para o progresso, aceitar que erros são o que nos fazem eventualmente acertar, saber persistir quando as dificuldades parecem não acabar nunca: essas são algumas componentes da pesquisa científica, uma espécie de sabedoria acumulada através dos tempos que, acredito, é também muito útil em vários aspectos da vida, desde como enfrentar desafios individuais até como reger empresas. Se contarmos de Galileu em diante, são mais de quatrocentos anos de ciência, de desenvolvimento de uma metodologia que transformou e continua transformando o mundo. Se a ciência teve tanto sucesso, não foi porque o caminho em frente era óbvio; pelo contrário, foi por ele ser imprevisível e cheio de obstáculos.
A Natureza não nos diz o que fazer, como achar padrões de comportamento, como descobrir leis matemáticas que regem os fenômenos naturais. O que conseguimos descobrir até agora é fruto de nossa diligência, perseverança e criatividade. Quem poderia imaginar que a mesma força que é responsável pela queda de uma maçã é, também, responsável pela órbita da Lua em torno da Terra e da Terra em torno do Sol? Quem poderia adivinhar que a eletricidade e o magnetismo são manifestações de um campo eletromagnético que se propaga através do espaço na velocidade da luz? Quem poderia adivinhar que as espécies animais evolvem devido a mutações genéticas aliadas ao processo de seleção natural? Esse conhecimento não veio do nada; exigiu muita coragem intelectual, disciplina de trabalho e tolerância ao erro.
Para fazer ciência de qualidade, é necessário entender a tensão entre a experimentação e a aceitação do erro. Assim funciona o processo de tentativa e erro, quando tentamos estratégias diferentes para chegar ao resultado desejado. Para tal, é preciso tanto criatividade (para propor estratégias diferentes) quanto tolerância (para aceitar o erro e ir em frente). Se temos pouca experiência escalando montanhas, não devemos nos aventurar a subir um pico difícil. A estratégia adequada é expandir nossa habilidade gradativamente, até obter uma boa base técnica, para só então tentar a escalada mais ambiciosa.
Aprendemos com nossos erros, usando o fracasso como guia. Tomamos riscos, sempre com a intenção de nos preservar no processo. Alpinistas não querem cair. Pesquisadores não querem (ou, ao menos, não devem) investir recursos excessivos num projeto que, mesmo após longo tempo, dá poucos frutos. Não queremos que persistência vire cegueira. Em um determinado momento, temos que ter coragem de deixar uma ideia para trás, ainda que seja difícil fazê-lo. Para que um projeto tenha sucesso, precisamos nos dedicar a ele de corpo e alma. Porém, se após várias tentativas, as coisas não avançam, temos que ir em frente.
Dar uma parada para avaliar em que estágio estamos, discutir ideias com colegas, ouvir críticas e aprender com elas são procedimentos essenciais na pesquisa científica, e podem ser muito úteis em outras atividades. Se as coisas não funcionam, precisamos deixar o orgulho e a vaidade de lado e aceitar que falhamos. Todo cientista sabe muito bem que a maioria das suas ideias não vai funcionar. Resolutos, vamos em frente, estando abertos a críticas e, mais importante ainda, sabendo respeitar evidências contra o que estamos propondo. (Ou celebrar aquelas a favor.) Aprendemos porque sabemos aceitar nossa ignorância.
Meu avô costumava dizer que quem usa um chapéu muito grande não enxerga o que tem pela frente. A arrogância é uma forma de cegueira. Na ciência, e em qualquer outra área de trabalho, é bom lembrar as sábias palavras de Isaac Newton – mesmo que o próprio, ao longo da vida, não tenha sido o que chamaria de um modelo de humildade profissional: Não sei o que possa parecer aos olhos do mundo, mas aos meus pareço apenas ter sido como um menino brincando à beira-mar, divertindo-me com o fato de encontrar de vez em quando um seixo mais liso ou uma concha mais bonita que o normal, enquanto o grande oceano da verdade permanece completamente por descobrir à minha frente.

Marcelo Gleiser, in O caldeirão azul

27/07/2020

O processo

Que é que eu faço? Não estou aguentando viver. A vida é tão curta, e eu não estou aguentando viver.
Não sei. Eu sinto o mesmo. Mas há coisas, há muitas coisas. Há um ponto em que o desespero é uma luz, e um amor.
E depois?
Depois vem a Natureza.
Você está chamando a morte de natureza?
Não. Estou chamando a natureza de Natureza.
Será que todas as vidas foram isso?
Acho que sim.
Clarice Lispector, in Todas as crônicas

24/06/2019

O animal indireto

Todos os homens têm o mesmo defeito: esperar pela vida, devido à falta de coragem para viver cada segundo. Por que não implementar a todo instante paixão e ardor bastantes para criar uma eternidade? Todos nós aprendemos a viver apenas no momento em que não temos nada mais a esperar; enquanto esperamos, não podemos aprender nada, pois não habitamos um presente concreto e vivo, mas um porvir longínquo e insípido. Não deveríamos esperar por nada, à exceção das sugestões imediatas do instante; esperar por nada sem a consciência do tempo. Fora do imediato não há salvação. Pois o homem é uma criatura que perdeu o imediato. Assim sendo, ele é um animal indireto.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

22/06/2019

Viver

Vovô ganhou mais um dia. Sentado na copa, de pijama e chinelas, enrola o primeiro cigarro e espera o gostoso café com leite.
Lili, matinal como um passarinho, também espera o café com leite. Tal e qual vovó.
Pois só as crianças e os velhos conhecem a volúpia de viver dia a dia, hora a hora, e suas esperas e desejos nunca se estendem além de cinco minutos...
Mário Quintana, in Sapato florido

13/03/2019

Realidade

Podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano.

Eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano.
Paulo Leminski

29/12/2018

Direito de viver

Albert Schweitzer conta que foi numa noite – ele e remadores navegavam pelo rio para chegar a uma outra aldeia –, seu pensamento não parava, e ele se perguntava: “Qual é o princípio ético fundamental?”. De repente, como um relâmpago, apareceu na sua cabeça a expressão: reverência pela vida. Tudo o que é vivo deseja viver. Tudo o que é vivo tem o direito de viver. Nenhum sofrimento pode ser imposto sobre as coisas vivas, para satisfazer o desejo dos homens.
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

18/04/2018

Acerca de viver

Viver é uma peripécia. Um dever, um afazer, um prazer, um susto, uma cambalhota. Entre o ânimo e o desânimo, um entusiasmo ora doce, ora dinâmico e agressivo.
Viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado ou rasteirado pela sorte. Ou pelo azar. Ou por Deus, que também tem a sua vida. Viver é ter fome. Fome de tudo. De aventura e de amor, de sucesso e de comemoração de cada um dos dias que se podem partilhar com os outros. Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar ansiosamente à espera.
Viver é romper, rasgar, repetir com criatividade. A vida não é fácil, nem justa, e não dá para a comparar a nossa com a de ninguém. De um dia para o outro ela muda, muda-nos, faz-nos ver e sentir o que não víamos nem sentíamos antes e, possivelmente, o que não veremos nem sentiremos mais tarde.
Viver é observar, fixar, transformar. Experimentar mudanças. E ensinar, acompanhar, aprendendo sempre. A vida é uma sala de aula onde todos somos professores, onde todos somos alunos. Viver é sempre uma ocasião especial. Uma dádiva de nós para nós mesmos. Os milagres que nos acontecem têm sempre uma impressão digital. A vida é um espaço e um tempo maravilhosos mas não se contenta com a contemplação. Ela exige reflexão. E exige soluções.
A vida é exigente porque é generosa. É dura porque é terna. É amarga porque é doce. É ela que nos coloca as perguntas, cabendo-nos a nós encontrar as respostas. Mas nada disso é um jogo. A vida é a mais séria das coisas divertidas.
Joaquim Pessoa, in Ano comum

31/10/2017

Nossos atos, nossas vidas

Diariamente criticamos o destino: “Porque foi este homem arrebatado a meio da carreira? E aquele, porque não morre, em vez de prolongar uma velhice tão penosa para ele como para os outros?” Diz-me cá, por favor: o que achas tu mais justo, seres tu a obedecer à natureza ou a natureza a ti? Que diferença faz sair mais ou menos depressa de um sítio de onde temos mesmo de sair? Não nos devemos preocupar em viver muito, mas sim em viver plenamente; viver muito depende do destino, viver plenamente, da nossa própria alma. Uma vida plena é longa quanto basta; e será plena se a alma se apropria do bem que lhe é próprio e se apenas a si reconhece poder sobre si mesma. Que interessa os oitenta anos daquele homem passados na inação? Ele não viveu, demorou-se nesta vida; não morreu tarde, levou foi muito tempo a morrer! “Viveu oitenta anos!”. O que importa é ver a partir de que data ele começou a morrer. “Mas aquele outro morreu na força da vida”. É certo, mas cumpriu os deveres de um bom cidadão, de um bom amigo, de um bom filho, sem descurar o mínimo pormenor; embora o seu tempo de vida ficasse incompleto, a sua vida atingiu a plenitude.
Viveu oitenta anos”. Não, existiu durante oitenta anos, a menos que digas que ele viveu no mesmo sentido em que falas na vida das árvores. Peço-te insistentemente, Lucílio: façamos com que a nossa vida, à semelhança dos materiais preciosos, valha pouco pelo espaço que ocupa, e muito pelo peso que tem. Avaliemo-la pelos nossos atos, não pelo tempo que dura. Queres saber qual a diferença entre um homem enérgico, que despreza a fortuna, cumpre todos os deveres inerentes à vida humana e assim se alça ao seu supremo bem, e um outro por quem simplesmente passam numerosos anos? O primeiro continua a existir depois da morte, o outro já estava morto antes de morrer! Louvemos, portanto, e incluamos entre os afortunados o homem que soube usar com proveito o tempo, mesmo exíguo, que viveu. Contemplou a verdadeira luz; não foi um como tantos outros; não só viveu, como o fez com vigor.
Sêneca, in Cartas a Lucílio

15/07/2017

Viver é um verbo sem passado

Onde vai?
Suacelência barra o caminho do médico à saída da pensão. Sidónio Rosa pousa a pasta no chão como se se libertasse de alguma prova de um flagrante delito. Suacelência questiona com tom inquisitorial:
Outra vez para a casa desse mecânico?
Para o Administrador, as contas eram claras: o estrangeiro perdia tempo demais em visitas aos Sozinhos. O português era o único médico para toda a Vila, estava o povo em plena epidemia e ele, político de carreira, em plena campanha eleitoral.
Veja em que situação me deixa a mim, aos meus simpatizantes políticos…
Depois, afinou o discurso: o português não podia deixar desamparados tantos doentes, favorecendo apenas um velho, ainda por cima sem cura.
Esse Bartolomeu já está com os pés para além da cova.
Quando, mais tarde, o médico relata este episódio a Bartolomeu Sozinho, foi como que o destapar da cratera. O vulcão jorrou incontíveis raivas:
Com os pés para a cova está esse cabrão desse Administrador.
Calma, veja o seu coração.
Sabe uma coisa? Eu quero que esse Suacelência se foda. O senhor vai ver o que vou fazer.
Vai à gaveta do armário, desenrola a bandeira da Companhia Colonial e leva-a para a janela. Hasteia o pano verde e branco na antena da televisão e, depois, recua uns passos a usufruir da visão da bandeira drapejando.
Ele tem o seu reino, eu tenho o meu.
Aquela casa era a sua nação. As dimensões dessa nação não cabiam em mapa métrico. Todos sabem: a casa só é nossa quando é maior que o mundo. Mas, agora, à sombra daquela bandeira, a soberania de Bartolomeu cobria a casa e o mundo.
E o cabrão que tente desapear esta bandeira!
Agita os braços no calor da fala. Ele próprio semelha um trapo dependurado de um mastro, balançando ao sabor das brisas. De súbito, o velho vê-se acometido por uma tontura, segura o peito como se os órgãos quisessem escapar do corpo.
Antes que sucumba, o médico ampara-o e ajuda-o a que se estenda no sofá. Sidónio Rosa pede-lhe que sossegue e respire fundo, depois pinça-lhe o pulso entre o polegar e o indicador a registar os batimentos do revolto coração.
Em que preciso momento a pessoa adormece? Quando perde o mundo, tombada no fundo da alma? Quando apenas lhe sobra uma derradeira fresta de luz, ecos de vozes sopradas de tão longe que parecem rumores de anjos?
Bartolomeu não carece de anjos para adormecer. Bastam-lhe as mãos de Sidónio Rosa. O velho escorrega no sono enquanto o médico lhe mede a pulsação. A cabeça balança como se fosse tombar, desamparada, da haste do pescoço.
Segundos depois, porém, ele desperta assaltado por um brusco encontrão interior. Alguém, dentro de si, o empurra para fora do sono. Olhos assarapantados, usa a palma da mão como se fosse uma toalha e limpa demoradamente o rosto. A seguir, todo o corpo se arrepanha num fundo arrepio.
Que frio!
Olha em redor à cata de um aconchego. Volta a estremecer dos pés à cabeça.
Quero cobrir-me e essa puta levou-me todos os cobertores para tapar as janelas.
Ainda se ergue em busca de uma improvável manta. Cambaleia-lhe o corpo, cambaleiam-lhe as palavras. O quarto já perdeu o desenho, ele simplesmente adivinha as sombras e, às cegas, desvia-se dos familiares objetos.
Agora, eu pergunto-lhe: quem tem mais frio, eu ou a casa?
E volta a derramar-se no leito. O dorso arredonda-se num oco ovo e todo o seu peso se resume a um suspiro.
O sono que eu tenho, Doutor! Este sono me intriga muito.
E porquê?
Porque não é sono de gente. É de bicho. E me dá medo dormir.
O mecânico teme viajar por essas profundezas onde moram os seus monstros interiores. É por isso que desperta sempre num solavanco. Estremunhado, fita o médico arrumando o estetoscópio e percebe que a demora nos gestos do outro se destina a adiar o relatório clínico. O Doutor, coitado, é tão mentiroso que não sabe mentir.
Eu queria fazer um pedido. Não me vai dizer que não.
Depende.
Mate-me, Doutor.
Desculpe?
Estou a pedir que me mate, que acabe com isto…
Tenha juízo, meu amigo.
Peço-lhe, por tudo o que o senhor respeita. Dê-me um desses remédios venenosos…
Nem respondo.
Então, se não é capaz, deixe Munda fazer isso. Ajude Munda a cumprir esse desejo, meu e dela.
Você não entende, Bartolomeu.
Por favor…
Na pressa de negar o pedido, o médico não se apercebe de que o velho está chorando. Bartolomeu soluça tão baixo e tão sem lágrima que nem ele mesmo dá conta que está pranteando.
Você não entende, Bartolomeu, que a sua esposa… Sabe o que ela me disse?
Não quero nem ouvir.
A sua mulher pediu que, no dia em que você morresse, eu a fizesse morrer também.
Subitamente, o velho ergue o rosto, suspendendo o lagrimejar. Acredita não ter escutado certo. Pede que o português repita, sacode a cabeça, perplexo.
Mentira!
Juro, foi o que ela me pediu.
O mecânico ajusta palavra e entendimento. Mundinha, sempre torta e azeda, queria agora coincidir os pontos e as reticências?
Essa conversa é para distrair os meus intentos?
Esta conversa é para você saber a verdade.
Por que não faz o que lhe peço? Um dia destes pedi-lhe que me desse banho, o senhor negou. Agora, mais uma vez, recusa satisfazer um pedido meu?
Eu até posso dar-lhe banho, mas só faço se deixar de lado esse estúpido desejo de morrer. Eu dou-lhe banho para ficar bonito e sair mais uma vez no engate…
Daquela vez que eu saí, você me humilhou.
Eu?
Andou por aí a procurar por mim, parecia que eu era um inválido…
Só queria ajudar…
Pois só atrapalhou — disse Bartolomeu com firmeza.
Não volto a atrapalhar.
O senhor não entendeu nada. Daquela vez, eu não fui à procura de namoros ou de miúdas.
Então?
Fui à procura de alguém que me fizesse a merda desse serviço.
Qual serviço?
O de me matar.
Num gesto seco, transversou a mão pelo pescoço a imitar uma faca. E deixou a mão erguida, horizontal, pressionando o pomo-de-adão.
Pelos vistos — ironizou o médico — esqueceram-se de cumprir a encomenda.
Não, eu é que não contratei ninguém. Quando saí à rua eu percebi tudo, voltei atrás…
Percebera que não poderia ser executado ao desbarato. Ele tinha que valorizar a única riqueza que lhe restava: a sua morte.
Tenho que ser morto por um branco!
Ao português lhe apeteceu contestar, reclamar do pensamento racista do outro, mas permaneceu calado. É tempo de regressar, ainda tem que passar pela enfermaria dos afetados.
Não quero que faça disparates, nem que diga disparates.
Eu queria morrer sabe porquê? Para saber o que a minha mulher fez em vida, se me traiu. Os mortos sabem tudo.
O velho fala com solenidade, mas Sidónio Rosa ainda está sorrindo quando sai para a rua, de regresso à pensão. No balcão de madeira escura, o ensonado recepcionista, num gesto mecânico, estende-lhe a chave. Mesmo sem olhar, o médico corrige:
É a outra chave.
O recepcionista hesita, balançando o chaveiro na mão. Está medindo a argúcia do visitante, ao mesmo tempo que avalia o seu próprio estado de vigília.
Que chave é essa, afinal? — pergunta ele, com voz ensonada.
Antes que o funcionário corrija, o médico lhe arranca todo o chaveiro da mão e, bruscamente, vira costas e se afasta pelo corredor.
Onde vai, Doutor? Dê-me essas chaves.
Tarde demais, o português já se afundou nas interditas entranhas do decadente edifício. O recepcionista, coxeando, se lança na peugada do inquilino. O português escuta os passos desiguais e quase lhe adivinha o pensamento: “Grande cabrão, tuga de merda, escolhi um serviço que me deixa ficar escondido, atrás de um balcão, e agora me obrigas a arrastar as avariadas pernas como um caranguejo caminhando sobre vidro…”.
Desta feita, a voz do funcionário, bem real, impõe-se, em sentida súplica:
Não faça isso, patrão Doutor, não faça isso!
O médico detém-se apenas em frente da porta do misterioso quarto, esse recanto que ninguém ousa visitar. O coxo gesticula fervorosamente, rodando em redor do estrangeiro como um corvo de asa quebrada.
O português ainda hesita ao sentir a maçaneta da porta ceder. E suspende o gesto a meio. Que surpresa lhe reservaria o amaldiçoado aposento? Sangue espalhado nas paredes, o cheiro nauseabundo de cadáver, um despedaço de corpo?
Olhos semicerrados, Sidónio vence o medo e empurra com violência a porta. O quarto está limpo, sem cheiro, sem sinais de violência. Pelo contrário, respira-se ali a tranquila ordem de um mosteiro, as roupas lavadas e passadas a ferro, impecavelmente pousadas em cima da cama. Um par de óculos, uma pulseira e um bloco de apontamentos estão alinhados sobre a mesinha-de-cabeceira.
Quem está aqui?
Ninguém.
Como ninguém?
Esteve. Já não está.
Foi-se embora? Saiu da pensão?
Não saiu da pensão. Saiu da vida.
Morreu? Como foi que morreu?
Isso não sei. Quem pode dizer é o patrão. Quer dizer, o outro patrão.
Ninguém veio buscar as coisas dele?
Feche a porta, Doutor, e dê-me a chave, eu vou ser castigado por isto…
O resto da conversa resvala na metafísica. Quem tinha vivido ali? O recepcionista, subterfugitivo, vagueia: não existe o ter vivido. Viver é um verbo sem passado.
Mia Couto, in Venenos de Deus, remédios do Diabo