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08/03/2026

A Metamorfose



[…]

Visto isso, tentou extrair primeiro a parte superior, deslizando cuidadosamente a cabeça para a borda da cama. Descobriu ser fácil e, apesar da sua largura e volume, o corpo acabou por acompanhar lentamente o movimento da cabeça. Ao conseguir, por fim, mover a cabeça até à borda da cama, sentiu-se demasiado assustado para prosseguir o avanço, dado que, no fim de contas caso se deixasse cair naquela posição, só um milagre o salvaria de magoar a cabeça. E, custasse o que custasse, não podia perder os sentidos nesta altura, precisamente nesta altura; era preferível ficar na cama.
Quando, após repetir os mesmos esforços, ficou novamente deitado na posição primitiva, suspirando, e viu as pequenas pernas a entrechocarem-se mais violentamente que nunca, se possível, não divisando processo de introduzir qualquer ordem naquela arbitrária confusão, repetiu a si próprio que era impossível ficar na cama e que o mais sensato era arriscar tudo pela menor esperança de libertar-se dela. Ao mesmo tempo, não se esquecia de ir recordando a si mesmo que era muito melhor a reflexão fria, o mais fria possível, do que qualquer resolução desesperada. Nessas alturas, tentava focar a vista tão distintamente quanto podia na janela, mas, infelizmente, a perspectiva da neblina matinal, que ocultava mesmo o outro lado da rua estreita, pouco alívio e coragem lhe trazia. Sete horas, disse, de si para si, quando o despertador voltou a bater, sete horas, e um nevoeiro tão denso, por momentos, deixou-se ficar quieto, respirando suavemente, como se porventura esperasse que um repouso tão completo devolvesse todas as coisas à sua situação real e vulgar.
A seguir, disse a si mesmo: Antes de baterem as sete e um quarto, tenho que estar fora desta cama. De qualquer maneira, a essa hora já terá vindo alguém do escritório perguntar por mim, visto que abre antes das sete horas. E pôs-se a balouçar todo o corpo ao mesmo tempo, num ritmo regular, no intuito de rebocá-lo para fora da cama. Caso se desequilibrasse naquela posição, podia proteger a cabeça de qualquer pancada erguendo-a num ângulo agudo ao cair. O dorso parecia ser duro e não era provável que se ressentisse de uma queda no tapete. A sua preocupação era o barulho da queda, que não poderia evitar, o qual, provavelmente, causaria ansiedade, ou mesmo terror, do outro lado e em todas as portas. Mesmo assim, devia correr o risco.
Quando estava quase fora da cama — o novo processo era mais um jogo que um esforço, dado que apenas precisava rebolar, balouçando-se para um lado e para outro —, veio-lhe à ideia como seria fácil se conseguisse ajuda. Duas pessoas fortes — pensou no pai e na criada — seriam largamente suficientes; não teriam mais que meter-lhe os braços por baixo do dorso convexo, levantá-lo para fora da cama, curvarem-se com o fardo e em seguida ter a paciência de o colocar direito no chão, onde era de esperar que as pernas encontrassem então a função própria. Bem, à parte o fato de todas as portas estarem fechadas à chave, deveria mesmo pedir auxílio? A despeito da sua infelicidade não podia deixar de sorrir ante a simples ideia de tentar.
Tinha chegado tão longe que mal podia manter o equilíbrio quando se balouçava com força e em breve teria de encher-se de coragem para a decisão final, visto que daí a cinco minutos seriam sete e um quarto... quando soou a campainha da porta. É alguém do escritório, disse, com os seus botões, e ficou quase rígido, ao mesmo tempo que as pequenas pernas sé limitavam a agitar-se ainda mais depressa. Por instantes, tudo ficou silencioso. Não vão abrir a porta, disse Gregório, de si para si, agarrando-se a qualquer esperança irracional. A seguir, a criada foi à porta, como de costume, com o seu andar pesado e abriu-a. Gregório apenas precisou ouvir o primeiro bom dia do visitante para imediatamente saber quemera: o chefe de escritório em pessoa. Que sina, estar condenado a trabalhar numa firma em que a menor omissão dava imediatamente asa à maior das suspeitas! Seria que todos os empregados em bloco não passavam de malandros, que não havia entre eles um único homem devotado e leal que, tendo uma manhã perdido uma hora de trabalho na firma ou coisa parecida, fosse tão atormentado pela consciência que perdesse a cabeça e ficasse realmente incapaz de levantar-se da cama? Não teria bastado mandar um aprendiz perguntar-se era realmente necessária qualquer pergunta — , teria que vir o próprio chefe de escritório, dando assim a conhecer a toda a família, uma família inocente, que esta circunstância suspeita não podia ser investigada por ninguém menos versado nos negócios que ele próprio? E, mais pela agitação provocada por tais reflexões do que por qualquer desejo, Gregório rebolou com toda a força para fora da cama. Houve um baque sonoro, mas não propriamente um estrondo. A queda foi, até certo ponto, amortecida pelo tapete; também o dorso era menos duro do que ele pensava, de modo que foi apenas um baque surdo, nem por isso muito alarmante. Simplesmente, não tinha erguido a cabeça com cuidado suficiente e batera com ela; virou-a e esfregou-a no tapete, de dor e irritação.
Alguma coisa caiu ali dentro — disse o chefe de escritório na sala contígua do lado esquerdo. Gregório tentou supor no seu íntimo que um dia poderia acontecer ao chefe de escritório qualquer coisa como a que hoje lhe acontecera a ele; ninguém podia negar que era possível. Como em brusca resposta a esta suposição, o chefe de escritório deu alguns passos firmes na sala ao lado, fazendo ranger as botas de couro envernizado. Do quarto da direita, a irmã segredava para informá-lo da situação:
Gregório, está aqui o chefe de escritório.
Eu sei, murmurou Gregório, de si para si; mas não ousou erguer a voz o suficiente para a irmã o ouvir.
Gregório — disse então o pai, do quarto à esquerda —, está aqui o chefe de escritório e quer saber porque é que não apanhou o primeiro trem. Não sabemos o que dizer pra ele. Além disso, ele quer falar contigo pessoalmente. Abre essa porta, faz-me o favor. Com certeza não vai reparar na desarrumação do quarto.
Bom dia, Senhor Samsa, saudava agora amistosamente o chefe de escritório.
Ele não está bem — disse a mãe ao visitante, ao mesmo tempo que o pai falava ainda através da porta, ele não está bem, senhor, pode acreditar. Se assim não fosse, ele alguma vez ia perder um trem! O rapaz não pensa senão no emprego. Quase me zango com a mania que ele tem de nunca sair à noite; há oito dias que está em casa e não houve uma única noite que não ficasse em casa. Senta-se ali à mesa, muito sossegado, a ler o jornal ou a consultar horários de trens. O único divertimento dele é talhar madeira. Passou duas ou três noites a cortar uma moldurazinha de madeira; o senhor ficaria admirado se visse como ela é bonita. Está pendurada no quarto dele. Num instante vai vê-la, assim que o Gregório abrir a porta. Devo dizer que estou muito satisfeita por o senhor ter vindo. Sozinhos, nunca conseguiríamos que ele abrisse a porta; é tão teimoso... E tenho a certeza de que ele não está bem, embora ele não o reconhecesse esta manhã.
Já vou — disse Gregório, lenta e cuidadosamente, não se mexendo um centímetro, com receio de perder uma só palavra da conversa.
Não imagino qualquer outra explicação, minha senhora — disse o chefe de escritório. — Espero que não seja nada de grave. Embora, por outro lado, devadizer que nós, homens de negócios, feliz ou infelizmente, temos muitas vezes de ignorar, pura e simplesmente, qualquer ligeira indisposição, visto que é preciso olhar pelo negócio.
Bem, o chefe de escritório pode entrar? — perguntou impacientemente o pai de Gregório, tornando a bater à porta.
Não — disse Gregório. Na sala da esquerda seguiu-se um doloroso silêncio a esta recusa, enquanto no compartimento da direita a irmã começava a soluçar.
Porque não se juntava a irmã aos outros? Provavelmente tinha-se levantado da cama há pouco tempo e ainda nem começara a vestir-se. Bem, porque chorava ela? Por ele não se levantar e não abrir a porta ao chefe de escritório, por ele estar em perigo de perder o emprego e porque o patrão havia de começar outra vez atrás dos pais para eles pagarem as velhas dívidas? Eram, evidentemente, coisas com as quais, nesse instante, ninguém tinha de preocupar-se. Gregório estava ainda em casa e nem por sombras pensava abandonar a família. É certo que, de momento, estava deitado no tapete e ninguém conhecedor da sua situação poderia seriamente esperar que abrisse a porta ao chefe de escritório. Mas, por tão pequena falta de cortesia, que poderia ser plausivelmente explicada mais tarde, Gregório não iria por certo ser despedido sem mais nem quê. E parecia-lhe que seria muito mais sensato deixarem-no em paz por agora do que atormentá-lo com lágrimas e súplicas. É claro que a incerteza e a desorientação deles desculpava aquele comportamento.
Senhor Samsa — clamou então o chefe de escritório, em voz mais alta -, que se passa consigo? Para aí barricado no quarto, a responder só por sins) e nãos, a dar uma série de preocupações desnecessárias aos seus pais e — diga-se de passagem- a negligenciar as suas obrigações profissionais de uma maneira incrível! Estou a falar em nome dos seus pais e do seu patrão e peco-lhe muito a sério uma explicação precisa e imediata. O senhor espanta-me, espanta-me. Julgava que o senhor era uma pessoa sossegada, em quem se podia ter confiança, e de repente parece apostado em fazer uma cena vergonhosa. Realmente, o patrão sugeriu-me esta manhã uma explicação possível para o seu desaparecimento — relacionada com o dinheiro dos pagamentos que recentemente lhe foi confiado — mas eu quase dei a minha solene palavra de honra de que não podia ser isso.
Agora, que vejo como o senhor é terrivelmente obstinado, não tenho o menor desejo de tomar a sua defesa. E a sua posição na firma não é assim tão inexpugnável. Vim com a intenção de dizer-lhe isto em particular, mas, visto que o senhor está a tomar tão desnecessariamente o meu tempo, não vejo razão para que os seus pais não ouçam igualmente. Desde há algum tempo que o seu trabalho deixa muito a desejar; esta época do ano não é ideal para uma subida do negócio, claro, admitamos isso, mas, uma época do ano para não fazer negócio absolutamente nenhum, essa não existe, Senhor Samsa, não pode existir.
Mas, senhor — gritou Gregório, fora de si e, na sua agitação, esquecendo todo o resto, vou abrir a porta agora mesmo. Tive uma ligeira indisposição, um ataque de tonturas, que não me permitiu levantar-me. Ainda estou na cama. Mas me sinto bem outra vez. Estou a levantar-me agora. Dê-me só mais um minuto ou dois! Não estou, realmente, tão bem como pensava. Mas estou bem, palavra. Como uma coisa destas pode repentinamente deitar uma pessoa abaixo. Ainda ontem à noite estava perfeitamente, os meus pais que o digam; ou, antes, de fato, tive um leve pressentimento. Deve ter mostrado indícios disso. Porque não o comuniquei eu ao escritório! Mas uma pessoa pensa sempre que uma indisposição há de passar sem ficar em casa. Olha, senhor, poupe os meus pais! Tudo aquilo por que me repreende não tem qualquer fundamento; nunca ninguém me disse uma palavra sobre isso. Talvez o senhor não tenha visto as últimas encomendas que mandei. De qualquer maneira, ainda posso apanhar o trem das oito; estou muito melhor depois deste descanso de algumas horas. Não se prenda por mim, senhor; daqui a pouco vou para o escritório e hei de estar suficientemente bom para o dizer ao patrão e apresentar-lhe desculpas!
[…]

Franz Kafka, em A Metamorfose

26/02/2026

A Metamorfose [excerto inicial]


Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos.
Que me aconteceu ? — pensou. Não era nenhum sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhada e em completa desordem, uma série de amostras de roupas: Samsa era caixeiro-viajante, estava pendurada a fotografia que recentemente recortara de uma revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada. Mostrava uma senhora, de chapéu e estola de peles, rigidamente sentada, a estender ao espectador um enorme regalo de peles, onde o antebraço sumia! Gregório desviou então a vista para a janela e deu com o céu nublado — ouviam-se os pingos de chuva a baterem na calha da janela e isso o fez sentir-se bastante melancólico. Não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este delírio? — cogitou. Mas era impossível, estava habituado a dormir para o lado direito e, na presente situação, não podia virar-se. Por mais que se esforçasse por inclinar o corpo para a direita, tornava sempre a rebolar, ficando de costas. Tentou, pelo menos, cem vezes, fechando os olhos, para evitar ver as pernas a debaterem-se, e só desistiu quando começou a sentir no flanco uma ligeira dor entorpecida que nunca antes experimentara. Oh, meu Deus, pensou, que trabalho tão cansativo escolhi! Viajar, dia sim, dia não. É um trabalho muito mais irritante do que o trabalho do escritório propriamente dito, e ainda por cima há ainda o desconforto de andar sempre a viajar, preocupado com as ligações dos trens, com a cama e com as refeições irregulares, com conhecimentos casuais, que são sempre novos e nunca se tornam amigos íntimos. Diabos levem tudo isto! Sentiu uma leve comichão na barriga; arrastou-se lentamente sobre as costas, — mais para cima na cama, de modo a conseguir mexer mais facilmente a cabeça, identificou o local da comichão, que estava rodeado de uma série de pequenas manchas brancas cuja natureza não compreendeu no momento, e fez menção de tocar lá com uma perna, mas imediatamente a retirou, pois, ao seu contato, sentiu-se percorrido por um arrepio gela- do. Voltou a deixar-se escorregar para a posição inicial. Isto de levantar cedo, pensou, deixa a pessoa estúpida. Um homem necessita de sono. Há outros comerciantes que vivem como mulheres de harém. Por exemplo, quando volto para o hotel, de manhã, para tomar nota das encomendas que tenho, esses se limitam a sentar-se à mesa para o pequeno almoço. Eu que tentasse sequer fazer isso com o meu patrão: era logo despedido. De qualquer maneira, era, capaz de ser bom para mim — quem sabe? Se não tivesse de me aguentar, por causa dos meus pais, há muito tempo que me teria despedido; iria ter com o patrão e lhe falar exatamente o que penso dele. Havia de cair ao comprido em cima da secretária! Também é um hábito esquisito, esse de se sentar a uma secretária em plano elevado e falar para baixo para os empregados, tanto mais que eles têm de aproximar-se bastante, porque o patrão é ruim de ouvido. Bem, ainda há uma esperança; depois de ter economizado o suficiente para pagar o que os meus pais lhe devem — o que deve levar outros cinco ou seis anos —, faço-o, com certeza. Nessa altura, vou me libertar completamente. Mas, para agora, o melhor é me levantar, porque o meu trem parte às cinco.
Olhou para o despertador, que fazia tique-taque na cômoda. Pai do Céu! — pensou. Eram seis e meia e os ponteiros moviam-se em silêncio, até passava da meia hora, era quase um quarto para as sete. O despertador não teria tocado? Da cama, via-se que estava corretamente regulado para as quatro; claro que devia ter tocado. Sim, mas seria possível dormir sossegadamente no meio daquele barulho que trespassava os ouvidos? Bem, ele não tinha dormido sossegadamente; no entanto, aparentemente, se assim era, ainda devia ter sentido mais o barulho. Mas que faria agora? o próximo trem saía às sete; para o apanhar tinha de correr como um doido, as amostras ainda não estavam embrulhadas e ele próprio não se sentia particularmente fresco e ativo. E, mesmo que apanhasse o trem, não conseguiria evitar uma reprimenda do chefe, visto que o porteiro da firma havia de ter esperado o trem das cinco e há muito teria comunicado a sua ausência. O porteiro era um instrumento do patrão, invertebrado e idiota. Bem, suponhamos que dizia que estava doente? Mas isso seria muito desagradável e pareceria suspeito, porque, durante cinco anos de emprego, nunca tinha estado doente. O próprio patrão certamente iria lá a casa com o médico da Previdência, repreenderia os pais pela preguiça do filho e poria de parte todas as desculpas, recorrendo ao médico da Previdência, que, evidentemente, considerava toda a humanidade um bando de falsos doentes perfeitamente saudáveis. E enganaria assim tanto desta vez? Efetivamente, Gregório sentia-se bastante bem, à parte uma sonolência que era perfeitamente supérflua depois de um tão longo sono, e sentia-se mesmo esfomeado.
À medida que tudo isto lhe passava pela mente a toda a velocidade, sem ser capaz de resolver a deixar a cama — o despertador acabava de indicar um quarto para as sete, ouviram-se pancadas cautelosas na porta que ficava por detrás da cabeceira da cama.
Gregório — disse uma voz, que era a da mãe, é um quarto para as sete. Não tem de apanhar o trem?
Aquela voz suave! Gregório teve um choque ao ouvir a sua própria voz responder-lhe, inequivocamente a sua voz, é certo, mas com um horrível e persistente guincho chilreante como fundo sonoro, que apenas conservava a forma distinta das palavras no primeiro momento, após o que subia de tom, ecoando em torno delas, até destruir-lhes o sentido, de tal modo que não podia ter-se a certeza de tê-las ouvido corretamente. Gregório queria dar uma resposta longa, explicando tudo, mas, em tais circunstâncias, limitou-se a dizer:
Sim, sim, obrigado, mãe, já vou levantar.
A porta de madeira que os separava devia ter evitado que a sua mudança de voz fosse perceptível do lado de fora, pois a mãe contentou-se com esta afirmação, afastando-se rapidamente. Esta breve troca de palavras tinha feito os outros membros da família notarem que Gregório estava ainda em casa, ao contrário do que esperavam, e agora o pai batia a uma das portas laterais, suavemente, embora com o punho.
Gregório, Gregório — chamou —, o que você tem?
E, passando pouco tempo depois, tornou a chamar, com voz mais firme:
Gregório! Gregório!
Junto da outra porta lateral, a irmã chamava, em tom baixo e quase lamentoso:
Gregório? Não se sente bem? Precisa de alguma coisa?
Respondeu a ambos ao mesmo tempo:
Estou quase pronto — e esforçou-se o máximo por que a voz soasse tão normal quanto possível, pronunciando as palavras muito claramente e deixando grandes pausas entre elas. Assim, o pai voltou ao breve almoço, mas a irmã segredou:
Gregório, abre esta porta, anda.
Ele não tencionava abrir a porta e sentia-se grato ao prudente hábito que adquirira em viagem de fechar todas as portas à chave durante a noite, mesmo em casa.
A sua intenção imediata era levantar-se silenciosamente sem ser incomodado, vestir-se e, sobretudo, tomar o breve almoço, e só depois estudar que mais havia a fazer, dado que na cama, bem o sabia, as suas meditações não levariam a qualquer conclusão sensata. Lembrava-se de muitas vezes ter sentido pequenas dores enquanto deitado, provavelmente causadas por posições incômodas, que se tinham revelado puramente imaginárias ao levantar-se, e ansiava fortemente por ver as ilusões desta manhã desfazerem-se gradualmente. Não tinha a menor dúvida de que a alteração da sua voz outra coisa não era que o prenúncio de um forte resfriado, doença permanente dos caixeiros-viajantes.
Libertar-se da colcha era tarefa bastante fácil: bastava-lhe inchar um pouco o corpo e deixá-la cair por si. Mas o movimento seguinte era complicado, especialmente devido à sua invulgar largura. Precisaria de braços e mãos para erguer-se; em seu lugar, tinha apenas as inúmeras perninhas, que não cessavam de agitar-se em todas as direções e que de modo nenhum conseguia controlar. Quando tentou dobrar uma delas, foi a primeira a esticar-se, e, ao conseguir finalmente que fizesse o que ele queria, todas as outras pernas abanavam selvaticamente, numa incômoda e intensa agitação. Mas de que serve ficar na cama assim sem fazer nada, perguntou Gregório a si próprio.
Pensou que talvez conseguisse sair da cama deslocando em primeiro lugar a parte inferior do corpo, mas esta, que não tinha visto ainda e da qual não podia ter uma ideia nítida, revelou-se difícil de mover, tão lentamente se deslocava; quando, finalmente, quase enfurecido de contrariedade, reuniu todas as forças e deu um temerário impulso, tinha calculado mal a direção e embateu pesadamente na extremidade inferior da cama, revelando-lhe a dor aguda que sentiu ser provavelmente aquela, de momento, a parte mais sensível do corpo.
[...]

Franz Kafka, em A Metamorfose

13/07/2025

Convém distinguir

Por que comparas teu mandado interior com um sonho? Ele te parece, por acaso, absurdo, incoerente, inevitável, irrepetível, origem de alegrias ou terrores infundados, incomunicável em sua totalidade, porém ansioso de ser comunicado, como são precisamente os sonhos?

Franz Kafka, em Quarto caderno in oitavo

30/12/2024

A metamorfose | I



Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.
O que aconteceu comigo? — pensou.
Não era um sonho. Seu quarto, um autêntico quarto humano, só que um pouco pequeno demais, permanecia calmo entre as quatro paredes bem conhecidas. Sobre a mesa, na qual se espalhava, desempacotado, um mostruário de tecidos — Samsa era caixeiro-viajante —, pendia a imagem que ele havia recortado fazia pouco tempo de uma revista ilustrada e colocado numa bela moldura dourada. Representava uma dama de chapéu de pele e boá de pele que, sentada em posição ereta, erguia ao encontro do espectador um pesado regalo também de pele, no qual desaparecia todo o seu antebraço.
O olhar de Gregor dirigiu-se então para a janela e o tempo turvo — ouviam-se gotas de chuva batendo no zinco do parapeito — deixou-o inteiramente melancólico.
Que tal se eu continuasse dormindo mais um pouco e esquecesse todas essas tolices? — pensou, mas isso era completamente irrealizável, pois estava habituado a dormir do lado direito e no seu estado atual não conseguia se colocar nessa posição. Qualquer que fosse a força com que se jogava para o lado direito, balançava sempre de volta à postura de costas. Tentou isso umas cem vezes, fechando os olhos para não ter de enxergar as pernas desordenadamente agitadas, e só desistiu quando começou a sentir do lado uma dor ainda nunca experimentada, leve e surda.
Ah, meu Deus! — pensou. — Que profissão cansativa eu escolhi. Entra dia, sai dia — viajando. A excitação comercial é muito maior que na própria sede da firma e além disso me é imposta essa canseira de viajar, a preocupação com a troca de trens, as refeições irregulares e ruins, um convívio humano que muda sempre, jamais perdura, nunca se torna caloroso. O diabo carregue tudo isso!
Sentiu uma leve coceira na parte de cima do ventre; deslocou-se devagar sobre as costas até mais perto da guarda da cama para poder levantar melhor a cabeça; encontrou o lugar onde estava coçando, ocupado por uma porção de pontinhos brancos que não soube avaliar; quis apalpá-lo com uma perna, mas imediatamente a retirou, pois ao contato acometeram-no calafrios.
Deslizou de volta à antiga posição.
Acordar cedo assim deixa a pessoa completamente embotada — pensou. — O ser humano precisa ter o seu sono. Outros caixeiros-viajantes vivem como mulheres de harém. Por exemplo, quando volto no meio da tarde ao hotel para transcrever as encomendas obtidas, esses senhores ainda estão sentados para o café da manhã. Tentasse eu fazer isso com o chefe que tenho: voaria no ato para a rua. Aliás, quem sabe não seria muito bom para mim? Se não me contivesse, por causa dos meus pais, teria pedido demissão há muito tempo; teria me postado diante do chefe e dito o que penso do fundo do coração. Ele iria cair da sua banca! Também, é estranho o modo como toma assento nela e fala de cima para baixo com o funcionário — que além do mais precisa se aproximar bastante por causa da surdez do chefe. Bem, ainda não renunciei por completo à esperança: assim que juntar o dinheiro para lhe pagar a dívida dos meus pais — deve demorar ainda de cinco a seis anos — vou fazer isso sem falta. Chegará então a vez da grande ruptura. Por enquanto, porém, tenho de me levantar, pois meu trem parte às cinco.
E olhou para o despertador que fazia tique-taque sobre o armário.
Pai do céu! — pensou. Eram seis e meia e os ponteiros avançavam calmamente, passava até da meia hora, já se aproximava de um quarto. Será que o despertador não havia tocado? Via-se da cama que ele estava ajustado certo para quatro horas: seguramente o alarme tinha soado. Sim — mas era possível continuar dormindo tranquilo com esse toque de abalar a mobília? Bem, com tranquilidade ele não havia dormido, mas é provável que por causa disso o sono tenha sido mais profundo. E agora, o que deveria fazer? O próximo trem partia às sete horas; para alcançá-lo precisaria se apressar como louco, o mostruário ainda não estava na mala e ele próprio não se sentia de modo algum particularmente disposto e ágil. E mesmo que pegasse o trem não podia evitar uma explosão do chefe, pois o contínuo da firma tinha aguardado junto ao trem das cinco e fazia muito tempo que havia comunicado sua falta. Era uma criatura do chefe, sem espinha dorsal nem discernimento. E se anunciasse que estava doente? Mas isso seria extremamente penoso e suspeito, pois durante os cinco anos de serviço Gregor ainda não tinha ficado doente uma única vez. Certamente o chefe viria com o médico do seguro de saúde, censuraria os pais por causa do filho preguiçoso e cercearia todas as objeções apoiado no médico, para quem só existem pessoas inteiramente sadias mas refratárias ao trabalho. E neste caso estaria tão errado assim? Com efeito, abstraindo-se uma sonolência realmente supérflua depois do longo sono, Gregor sentia-se muito bem e estava até mesmo com uma fome especialmente forte.
Enquanto refletia sobre tudo isso na maior pressa, sem poder se decidir a deixar a cama — o despertador acabava de dar um quarto para as sete —, bateram cautelosamente na porta junto à cabeceira da sua cama.
Gregor — chamaram; era a mãe. — É um quarto para as sete. Você não queria partir?
Que voz suave! Gregor se assustou quando ouviu sua própria voz responder, era inconfundivelmente a voz antiga, mas nela se imiscuía, como se viesse de baixo, um pipilar irreprimível e doloroso, que só no primeiro momento mantinha literal a clareza das palavras, para destruí-las de tal forma quando acabavam de soar que a pessoa não sabia se havia escutado direito. Gregor quisera responder em minúcia e explicar tudo, mas nestas circunstâncias se limitou a dizer:
Sim, sim, obrigado, mãe, já vou me levantar.
Com certeza por causa da porta de madeira não se podia notar lá fora a alteração na voz de Gregor, pois a mãe se tranquilizou com essa explicação e se afastou arrastando os chinelos. Mas a breve conversa chamou a atenção dos outros membros da família para o fato de que Gregor, contrariando as expectativas, ainda estava em casa — e já o pai batia, fraco mas com o punho, numa porta lateral.
Gregor, Gregor — chamou. — O que está acontecendo?
E depois de um intervalo curto advertiu outra vez, com voz mais profunda:
Gregor, Gregor!
Na outra porta lateral, entretanto, a irmã lamuriava baixinho:
Gregor? Você não está bem? Precisa de alguma coisa?
Gregor respondeu para os dois lados:
Já estou pronto — e através da pronúncia mais cuidadosa e da introdução de longas pausas entre as palavras se esforçou para retirar à sua voz tudo que chamasse a atenção.
O pai também voltou ao seu café da manhã, mas a irmã sussurrou:
Gregor, abra, eu suplico.
Gregor entretanto não pensava absolutamente em abrir, louvando a precaução, adotada nas viagens, de conservar as portas trancadas durante a noite, mesmo em casa.
Queria primeiro levantar-se, calmo e sem perturbação, vestir-se e sobretudo tomar o café da manhã, e só depois pensar no resto, pois percebia muito bem que, na cama, não chegaria, com as suas reflexões, a uma conclusão sensata. Lembrou-se de já ter sentido, várias vezes, alguma dor ligeira na cama, provocada talvez pela posição desajeitada de deitar, mas que depois, ao ficar em pé, mostrava ser pura imaginação, e estava ansioso para ver como iriam gradativamente se dissipar as imagens do dia de hoje. Não duvidava nem um pouco de que a alteração da voz não era outra coisa senão o prenúncio de um severo resfriado, moléstia profissional do caixeiro-viajante.
Afastar a coberta foi muito simples: precisou apenas se inflar um pouco e ela caiu sozinha. Mas daí em diante as coisas ficaram difíceis, em particular porque ele era incomumente largo. Teria necessitado de braços e mãos para se erguer; em vez disso, porém, só tinha as numerosas perninhas que faziam sem cessar os movimentos mais diversos e que, além disso, ele não podia dominar. Se queria dobrar uma, ela era a primeira a se estender; se finalmente conseguia realizar o que queria com essa perna, então todas as outras, nesse ínterim, trabalhavam na mais intensa e dolorosa agitação, como se estivessem soltas.
Não fique inutilmente aí na cama — disse Gregor a si mesmo.
A princípio quis sair da cama com a parte inferior do corpo; mas essa parte de baixo, que ele aliás ainda não tinha visto e da qual não podia fazer uma ideia exata, provou ser difícil demais de mover; ela ia tão devagar; e quando afinal, quase frenético, reunindo todas as suas forças e sem respeitar nada, se atirou para a frente, bateu com violência nos pés da cama, pois tinha escolhido a direção errada; a dor ardida que sentiu ensinou-lhe que justamente a parte inferior do seu corpo era no momento, talvez, a mais sensível de todas.
Tentou por isso tirar em primeiro lugar a parte superior do corpo, voltando com cautela a cabeça para a beira do leito. Conseguiu-o com facilidade: a despeito da sua largura e do seu peso, a massa do corpo acompanhou devagar, finalmente, a virada da cabeça. Mas quando por fim ele a susteve fora da cama, em pleno ar, ficou com medo de avançar mais dessa maneira, pois se enfim se deixasse cair, seria preciso acontecer um milagre para que a cabeça não se ferisse. E precisamente agora não podia, por preço algum, perder a consciência; preferia permanecer na cama.
Entretanto, quando mais uma vez, depois de esforço igual, ficou deitado na mesma posição, suspirando, e viu de novo suas perninhas lutarem umas contra as outras, possivelmente mais que antes, e não encontrou nenhuma possibilidade de imprimir calma e ordem àquele descontrole, disse novamente a si mesmo que era impossível continuar na cama e que o mais razoável seria sacrificar tudo, caso existisse a mínima esperança de com isso se livrar dela. Ao mesmo tempo, porém, não esqueceu de se lembrar, nos intervalos, de que decisões calmas, inclusive as mais calmas, são melhores que as desesperadas. Nesses instantes dirigia o olhar com a maior agudez possível à janela, mas infelizmente só era possível receber pouca confiança e estímulo da visão da névoa matutina que encobria até o outro lado da rua estreita.
Sete horas já — disse a si mesmo quando o despertador bateu outra vez —, sete horas já e ainda essa neblina.
E por um momento permaneceu tranquilamente deitado, com a respiração fraca, como se esperasse talvez do silêncio pleno o retorno das coisas ao seu estado real e natural.
Mas depois disse consigo mesmo:
Antes de soar sete e um quarto preciso de qualquer modo ter deixado completamente a cama. Mesmo porque até então virá alguém da firma perguntar por mim, pois ela abre antes de sete horas.
E pôs-se a balançar o corpo em toda a sua extensão, num ritmo perfeitamente uniforme, para tirá-lo da cama. Deixando-se cair desse modo, a cabeça — que ele queria conservar bem erguida durante a queda — presumivelmente ficaria ilesa. As costas pareciam ser duras; decerto não aconteceria nada a elas caindo no tapete. A maior dúvida vinha da preocupação com o estrondo que iria provocar e que provavelmente causaria, se não susto, pelo menos apreensão atrás de todas as portas. Mas isso era preciso arriscar.
[...]

Franz Kafka, em A metamorfose

16/09/2024

Estamos mudos e isolados

 “Olhe pela janela, você verá como vai o mundo. Para onde correm as pessoas? O que querem? Não diferençamos mais o encadeamento das coisas que lhes daria um sentido supra- pessoal. A despeito do rumor geral, cada um está mudo e isolado em si mesmo. O encaixe dos valores do mundo e dos valores do eu já não funcionam convenientemente. Não vivemos num mundo destruído, vivemos num mundo transtornado.”

Franz Kafka, em Conversas com Kafka, de Gustav Janouch

12/09/2024

Acerca da riqueza

 “O que é a riqueza? Para um, uma velha camisa já é a riqueza. Outro é pobre com dez milhões. A riqueza é uma coisa relativa e pouca satisfatória. No fundo não passa de uma situação particular. Ser rico significa depender de coisas que se possui e que se é obrigado a proteger da destruição, acumulando as posses e as novas dependências. A riqueza não passa de uma materialização da insegurança.”

Franz Kafka, em Conversas com Kafka, de Gustav Janouch

25/12/2023

O Comerciante

É possível que algumas pessoas tenham compaixão cie mim, mas eu não percebo nada. Minha pequena loja me enche de preocupações que me doem dentro da fronte e das têmporas, mas sem me oferecer a perspectiva da satisfação, pois a loja é pequena.
Com antecipação de horas preciso tomar providências, manter alerta a memória do empregado, advertir contra erros que eu temo e levar em conta, numa temporada, as modas da seguinte, não como elas irão dominar entre as pessoas do meu círculo, mas entre as populações inacessíveis do campo.
Meu dinheiro está nas mãos de pessoas estranhas; a situação delas não pode ser clara para mim; o infortúnio que poderia atingi-las eu não sou capaz de pressentir, como é que poderia evitá-lo? Talvez elas tenham se tornado pródigas e deem uma festa no jardim -de um restaurante e outras ainda permaneçam um pouco na festa, na sua rota de fuga para a América.
Quando pois ao anoitecer de um dia útil a loja é fechada e de repente vejo diante de mim horas nas quais não poderei trabalhar cm nome das necessidades ininterruptas da minha loja, minha excitação — despachada de manhã, previamente, para bem longe — irrompe em mim como a maré que retorna, mas não se detém e me arrasta consigo sem objetivo.
No entanto não tenho de modo algum a capacidade de usar esse humor e só posso ir para casa, pois tenho o rosto e as mãos sujos e suados, a roupa coberta de nódoas e pó, o boné de serviço na cabeça e as botas arranhadas pelos pregos dos caixotes. Caminho então como sobre ondas, estalo os dedos das duas mãos e acaricio o cabelo das crianças que vêm em minha direção.
Mas o caminho é curto demais. Logo estou cm minha casa, abro a porta do elevador e entro.
Vejo agora que de repente estou só. Outros, que têm de subir pelas escadas, cansam-se um pouco ao fazê-lo, precisam esperar com os pulmões respirando às pressas, até que venham abrir a porta do apartamento, nesse momento eles têm um motivo para irritação e impaciência, entram então na antessala, onde penduram o chapéu e só quando atravessam o corredor, ao longo de algumas portas de vidro, e penetram no próprio quarto, é que estão sozinhos.
Mas estou só logo no elevador e apoiado nos joelhos olho para o estreito espelho. Quando o elevador começa a subir eu digo:
Fiquem quietos, recuem, querem entrar na sombra das árvores, atrás dos cortinados das janelas, dentro do caramanchão?
Falo com os dentes e os corrimões da escada escorregam pelas placas de vidro leitoso Como água que se precipita.
Partam voando daqui; que as asas que eu nunca enxerguei os transportem para o vale da aldeia ou a Paris, se o impulso é para lá. Mas desfrutem a vista da janela quando das três ruas chegam as procissões que não se desviam umas das outras, se embaralham e deixam o espaço livre outra vez entre as últimas filas. Acenem com os lenços, fiquem horrorizados, comovidos e elogiem a bela senhora que passa. Atravessem o riacho pela ponte de madeira, acenem com a cabeça aos meninos que se banham e espantem-se com o hurra! dos mil marinheiros no navio de guerra distante. Persigam o homem insignificante e quando o tiverem atirado num vão de entrada, assaltem-no e vejam, cada qual com as mãos nos bolsos, como ele segue triste pela rua da esquerda. Galopando dispersa nos seus cavalos, a polícia refreia os animais e os força a recuar. Deixem-na, as ruas vazias a farão infeliz, eu sei. O que foi que eu disse?
Já estão cavalgando aos pares, lentos nas esquinas e a toda nas praças.
Aí tenho de descer do elevador e mandá-lo de volta para baixo, tocar a campainha e a empregada abre a porta enquanto eu cumprimento.

Franz Kafka, in Contemplação

17/12/2023

Diário | 16/12/10

Die Straße der Verlassenheit [A rua do abandono], de W. Fred. Como são escritos livros como esse? Um homem que, em formato menor, produz obras valorosas expande aí seu talento em direção à amplitude de um romance, mas de forma tão deplorável que chega a nos fazer mal, ainda que não se possa deixar de admirar a energia com que ele maltrata seu próprio talento.

Franz Kafka, in Diários: 1909-1923

06/12/2023

Personagens secundárias

16/12/10
Esse meu interesse em acompanhar personagens secundárias sobre as quais leio em romances, peças de teatro, e assim por diante. O sentimento de afinidade que tenho! Em Die Jungfern vom Bischofsberg (é esse o título?), fala-se de duas costureiras a confeccionar o enxoval da noiva na peça. Como vão essas duas moças? Onde moram? O que fizeram para que não lhes fosse permitido participar da peça, mas apenas permanecer literalmente do lado de fora da arca de Noé, afogando-se no aguaceiro e podendo tão somente apertar seus rostos uma última vez contra a escotilha, a fim de que o espectador na plateia possa, por um momento, ver ali um vulto escuro?

Franz Kafka, in Diários: 1909-1923

17/08/2023

Diários: 1909-1923 | 15/12/10

Simplesmente não acredito nas conclusões que tirei sobre minha situação atual, que já dura quase um ano; ela é séria demais para tanto. Não sei nem se posso dizer que não se trata de uma situação nova. Em todo caso, minha opinião é a de que se trata de uma situação nova; já passei por coisa parecida, mas nunca estive numa situação como essa. Sou como se fosse feito de pedra, como minha própria lápide, sem espaço para dúvida ou crença, amor ou repulsa, coragem ou medo, no particular ou no geral; em mim, vive apenas uma vaga esperança, em nada melhor que as inscrições que se veem nas lápides. Quase nenhuma palavra que escrevo combina com a seguinte, ouço as consoantes raspando metalicamente uma na outra, e as vogais que as acompanham cantando feito negros em exposição. Minhas dúvidas circundam cada palavra, vejo-as antes da palavra em si. Qual nada! Não vejo palavra nenhuma, eu a invento. O que, afinal, nem seria a maior das infelicidades; bastaria que eu conseguisse inventar palavras capazes de soprar o odor cadavérico numa direção tal que ele não nos atingisse, a mim e ao leitor, bem no meio da cara. Quando me sento à escrivaninha, não me sinto melhor que alguém que, em meio ao tráfego da Place de l'Ópera, leva um tombo e quebra as duas pernas. A despeito do barulho que fazem, os carros vêm e vão em silêncio, provenientes de todas as direções e rumando para todas as partes, mas ordem melhor que a dos guardas estabelece a dor desse homem, uma dor que lhe fecha os olhos e esvazia a praça e as ruas sem que os carros precisem dar a volta. A abundância de vida lhe dói, porque, afinal, ele constitui um obstáculo ao trânsito, mas o vazio não é menos maléfico, porque libera sua verdadeira dor.

Franz Kafka, in Diários: 1909-1923

02/04/2023

Alguns comentários pessoais sobre a tradução literária

O desafio de traduzir kafka

O desafio da tradução criativa começa no momento em que constatamos que a única língua inteiramente ao nosso alcance é aquela em que de fato pensamos e vivemos. É esse limite imposto à elaboração da experiência profunda que a tradução criativa tende a ignorar, pois o que ela na realidade quer é se apropriar da intimidade objetivada em outras línguas.
Acontece que as chamadas verdades da imaginação poética são intratáveis e quase nunca (ou pelo menos nem sempre) se deixam surpreender de uma vez pelo salto de criação de quem traduz, na medida em que costumam se entrincheirar justamente no que é intraduzível.
Só de passagem, é fácil imaginar as agruras de um hipotético tradutor nórdico dos “Poemas (s) da Cabra”, de João Cabral de Melo Neto, diante de um verso como “se a serra é a terra a cabra é pedra”, onde o acúmulo de consoantes duplas, por si só, parece encher de pedregulho a boca do leitor, remetendo a mente e a sensibilidade, no lance de uma única linha, para as asperezas do Nordeste brasileiro e a tenacidade do ser que nele habita.
Foi certamente em função de dificuldades desse tipo que Robert Frost disse, com a maior seriedade, que poesia é aquilo que se perde nas traduções. Todos nós estamos conscientes de que a matéria que a poesia organiza, nos seus momentos de maior felicidade, atinge um grau de condensação e complexidade na língua de partida que mesmo a tradução mais laboriosa e competente não consegue igualar na língua de chegada. Desse modo não parece pessimismo ou exagero afirmar, como faz o comparatista Henry Gifford — cujas formulações teóricas sucintas sustentam esse trabalho —, que a obra traduzida nunca pode ser mais que uma pintura a óleo reproduzida em branco e preto.

Constelação de significados

Evidentemente o exemplo extremo e mais radical das dificuldades de passagem criativa da obra literária de um idioma para outro é dado pela poesia, onde os riscos de empobrecimento involuntário do original são muito maiores do que na prosa. Mas no fundo o que vale para a poesia vale também para a ficção exigente — e com isso descartamos a prosa orientada para o consumo fácil e sem compromisso estético das histórias mastigadas dos best-sellers e afins.
A experiência tanto dos críticos como dos leitores alertas mostra que uma tradução razoavelmente correta de uma narrativa é capaz de acompanhar de perto o texto-base, uma vez que nessa transposição se perde pouco da sua estrutura e portanto pouco do seu sentido mais geral — desde, é claro, que sejam mantidos no texto traduzido os movimentos e as proporções básicas do original.
Mas nem por isso deixa de ser um dado de realidade que a narrativa traduzida fica isolada do seu contexto histórico mais amplo, dissipando sem querer todo um repertório de alusões imanentes ao seu sentido global de obra de arte, aqui entendida simultaneamente como fenômeno estético e fato social.
Para citar um exemplo à mão, basta lembrar a frase de abertura das Memórias de um sargento de milícias — “Era no tempo do rei” —, que já no primeiro compasso do romance cria uma constelação de significados muito diferentes para um leitor brasileiro e um leitor francês, visto que a sensibilidade histórica do habitante da nação que foi colônia discrepa categoricamente da do cidadão que se formou num país colonizador. Naturalmente os exemplos dessa natureza podem ser multiplicados à vontade, seja na direção que for.
Mas também o tom ou a posição do narrador é determinante, na prosa de ficção, não só do modo de compor a narrativa como dos efeitos que ela intencionalmente produz, uma vez que é esse timbre de voz que estabelece o ângulo através do qual o leitor entra numa história para participar das suas peripécias.

Metamorfosear kafka

Nessa linha de raciocínio, banal em teoria literária, uma tradução de Kafka que desconsidere o teor da sua linguagem de protocolo, incumbida no original de registrar, com a maior sem-cerimônia, os acontecimentos mais insólitos, pode transformar (ou metamorfosear) Kafka num escritor que ele não é nem nunca pretendeu ser, como por exemplo um autor fantástico tout court. Pois o fascínio e a novidade da escrita kafkiana derivam exatamente da colisão entre o pormenor realista, beneficiado pela posição recuada do narrador, e a fantasmagoria narrada, momento em que esta adquire, em termos ficcionais, a credibilidade do real.
Mas até uma tradução sensível a essas peculiaridades pode quebrar a cara em obstáculos quase intransponíveis. Para mencionar somente uma experiência pessoal, que talvez ilustre o que aqui se quer dizer, ao traduzir A metamorfose tive de enfrentar algumas armadilhas logo na primeira frase. Como muitos talvez se lembrem (pois A metamorfose é um dos livros mais lidos do mundo), essa frase afirma o seguinte: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”.
A primeira precaução tomada no trabalho foi incorporar ao texto a tradução de todas as palavras da frase alemã, sem deixar nada de fora por questão de economia ou limpeza, uma vez que em Kafka as chamadas partículas de preenchimento representam uma espécie de supérfluo indispensável. Procurou-se também estabelecer em português uma ordem de palavras que não desse margem a equívocos gratuitos, como por exemplo a sequência “encontrou-se em sua cama metamorfoseado” em vez de “encontrou-se metamorfoseado em sua cama”, visto não ser impossível em Kafka — embora aqui não seja o caso — que alguém se metamorfoseasse numa cama.

Começa mal e termina pior

Além disso, traduzi verwandelt, do verbo verwandeln (metamorfosear), por “metamorfoseado” e não por “transformado”, como fizeram antes de mim outros tradutores, e isso pela razão óbvia de que o título da novela é “Verwandlung” (metamorfose), já consagrado em vários idiomas, e deliberadamente fortalecido na oração que põe a narrativa em movimento. Sabe-se por outro lado que essa frase de abertura é uma das mais drásticas da prosa moderna, e que já está balizado o curso posterior da novela, que é a progressiva liquidação do inseto Gregor pela família Samsa.
Com efeito, aparecem no original, em rápida sucessão, três negações representadas pelo prefixo alemão “un”: “unruhig” (intranquilo), “ungeheuer” (enorme, gigantesco, monstruoso) e “Ungeziefer” (inseto daninho que ataca pessoas, animais, plantas e provisões). Muito bem: dessas três partículas de negação só foi possível resgatar uma, a de “unruhig”, aqui traduzido por “intranquilo” e não, como também já se fez entre nós, por “agitado” ou coisa parecida. Mas certamente isso foi muito pouco, já que A metamorfose, como se disse antes, é uma história que começa mal e termina pior ainda, fato que os três ingredientes verbais de negação se incumbem não só de antecipar, como também de deixar literalmente marcado.
Entretanto, as baixas sofridas pela tradução não pararam aí: de acordo com pelo menos um intérprete importante de A metamorfose, tendo sido Kafka um entomologista amador, não poderia ser casual o emprego, já no pórtico da sua narrativa, do adjetivo “ungeheuer”, que significa etimologicamente “não familiar”, infamiliaris (portanto, “fora da família”), e do substantivo Ungeziefer, cujo étimo remete à noção de “animal inadequado ou que não se presta ao sacrifício”.

Direito à sobrevivência

Ora, para quem conhece o entrecho da novela, o acoplamento incisivo dessas duas palavras já forneceria, num nível por assim dizer arqueológico da linguagem, uma das mais perfeitas interpretações dessa tragédia familiar kafkiana. Pois é justamente por causa da sua metamorfose em inseto que Gregor deixa de se “sacrificar” pela família e é “posto para fora dela até a morte”, como se fosse um parasita que não pode ser parasitado. A única justificativa para essa carência do texto traduzido é o fato de que nem o leitor alemão médio seria capaz de perceber tais nuances eruditas.
Estendi-me um pouco na apresentação desse exemplo pessoal para reforçar a opinião, que evidentemente não é só minha, de que, mesmo sendo escrupulosa, a tradução tende para algum tipo de perda ou dispersão, na maior parte das vezes difícil de compensar; pois por mais que o tradutor sinta e avalie “por dentro” o original, ele está fadado a ceder ora a pressões da sua língua, ora ao caráter muitas vezes inexpugnável da obra construída no idioma alheio.
Em resumo, a tradução criativa (a única que se justifica em literatura) é sem dúvida alguma uma das maneiras mais fecundas de cultivar e socializar a Weltliteratur, combatendo na prática o isolamento cultural que já se tornou uma forma objetiva de anacronismo. Mas ela é necessariamente falível. Sendo assim, uma vez reconhecido o limiar em que uma língua ainda é capaz de absorver a experiência estético-social sedimentada em outra, o que o tradutor imaginativo pode e deve tentar conseguir é implantar o seu texto em algum lugar situado entre as duas literaturas, de tal modo que ele não seja nem estranho nem familiar para o leitor a que se destina.
De resto, a única coisa que garante ao texto traduzido o direito à sobrevivência é o senso de descoberta que ele mais ou menos compartilha com o original — e, mesmo assim, enquanto perduram as exigências específicas que, na época, a literatura faz da tradução em nome das suas próprias necessidades. Talvez seja esse, na realidade, o maior de todos os desafios que a tradução tem de enfrentar.

Exercícios de tradução

O que aqui se apresenta de maneira meio sumária são três exemplos diferentes de tradução, que refletem ou procuram refletir a composição de três tipos diferentes de texto com um denominador comum, que é o que se pode chamar de poesia das ideias.
O primeiro exemplo é um poema epigramático de Brecht, e os outros dois são peças curtas e monolíticas da primeira fase de Kafka.
O poema de Brecht é um epitáfio que ele escreveu ao partir de Nova York. Esse epitáfio deriva de outro, que é o famoso “Epitáfio para M.”. O “Epitáfio para M.” diz o seguinte:

Aos tubarões eu escapei
Os tigres eu liquidei
Devorado mesmo eu fui
Pelos percevejos.

Os exageros, intencionais nessa versão literal, servem apenas para mostrar os torneios sintáticos usados por Brecht para formular o enunciado, que se sustenta sobretudo na mudança da voz do verbo que acompanha o argumento. Os dois primeiros verbos (escapei, liquidei) chocam-se com o terceiro (fui devorado), que apareceu de surpresa. A valentia para dar conta dos grandes adversários (tubarões e tigres) não é suficiente para impedir a derrota diante dos insetos (percevejos).
Quando Brecht resolveu ir embora dos Estados Unidos, depois de perseguido pela Comissão de Atividades Antinorte-americanas do senador McCarthy, ele usou o mesmo padrão formal para escrever o “Epitáfio ao partir de Nova York”, que é possível traduzir assim:

Fugi aos tigres
Nutri os percevejos
Fui devorado
Pelas mediocridades

Os recursos de verso e linguagem são os mesmos, mas o sentido mudou. Evidentemente isso acontece porque aquilo que no primeiro epitáfio era um inimigo concreto, embora minúsculo (percevejos), aqui se torna uma derivação abstrata: “fui devorado/ pelas mediocridades”. Pelo cotejo entre os poemas, fica claro o que Brecht quis dizer: as “mediocridades” (da comissão McCarthy) devoraram o sujeito lírico tanto quanto antes os percevejos. (Percevejos e mediocridades inquisitoriais à la McCarthy são a mesma coisa.) Noutras palavras, os termos desses dois poemas cortantes de Brecht são quase os mesmos, os recursos de métrica e a disposição dos verbos também, mas a ideia é diferente. Ou seja: a poesia, neles, está contida mais na ideia veiculada pelas palavras do que (por assim dizer) nas próprias palavras, que se tornam transparentes. (Aliás, Brecht é sobretudo um poeta de ideias — que domina soberbamente a linguagem.)
Vamos a Kafka.
No primeiro livro publicado por Kafka, intitulado Contemplação, consta um texto breve chamado “As árvores”. Ele diz o seguinte:

Pois somos como troncos de árvores na neve. Aparentemente eles jazem soltos na superfície e com um pequeno empurrão deveria ser possível afastá-los do caminho. Não, não é possível, pois estão firmemente ligados ao solo. Mas veja, até isso é só aparente.

A síntese poética se dá aqui na fluência da linguagem, que na sua simplicidade aparente, que reflete o tema, remete a um núcleo de significados complexos. Kafka parece perguntar — Afinal, o que nós somos? Nós somos, diz ele, como troncos de árvore que ficam visíveis num campo de neve. A visão que se tem desses troncos é a de que eles estão soltos na superfície e podem ser deslocados com um tranco. Mas não, não é assim — diz o sujeito lírico. Isso não é possível porque os troncos estão com as raízes fincadas na terra, ou seja, por baixo da neve. Essa visão, no entanto, também parece falsa; na verdade ela é apenas uma aparência. Ou seja: nós não sabemos o que somos. O que parece, nunca é.
Essa paráfrase sumária tem um objetivo meramente explicativo; ela não reproduz a múltipla integridade do texto. Olhado de perto, este é ao mesmo tempo claro e evasivo. Contém duas visões sucessivas do que nós somos, e a segunda nega a primeira. É certamente por isso que as palavras-chave desse poema em prosa são o advérbio aparentemente, no início, e o aparente (em alemão, scheinbar) na última frase. A minha impressão é a de que é difícil ser mais leve e menos superficial do que nesse texto do jovem Kafka. A tradução tem de levar isso em consideração para se constituir também como texto. Caso contrário, está tudo errado.
Uma outra peça de Contemplação que tem afinidade com essa, mas cuja poesia pesa menos na dialética das ideias do que no da linguagem, é “Desejo de se tornar índio”. O título “Wunsch, Indianer zu werden” tem dois r que já prefiguram a fluidez e a velocidade do poema em prosa, que consta de apenas uma frase. Na tradução eu encontrei um equivalente possível, embora insuficiente, na repetição dos d: “Desejo de se tornar índio”. O texto diz o seguinte:

Se realmente se fosse um índio, desde logo alerta e, em cima do cavalo na corrida, enviesado no ar, se estremecesse sempre por um átimo sobre o chão trepidante, até que se largou a espora, pois não havia espora, até que se jogou fora a rédea, pois não havia rédea, e diante de si mal se viu o campo como pradaria ceifada rente, já sem pescoço de cavalo nem cabeça de cavalo.

O texto está construído a partir de uma hipótese (se alguém realmente fosse um índio), hipótese que no curso da frase se torna uma realidade (em cima do cavalo, na corrida, estremecendo sobre o chão trepidante), para depois recuar para a hipótese do início, só que desta vez mais inconsistente (largou a espora, pois não havia espora, jogou fora a rédea, pois não havia rédea), até se autoanular completamente: o cavalo do início da frase fica, no fim, “sem pescoço de cavalo nem cabeça de cavalo”.
Isto é: o índio já não tem cavalo, na verdade ele já não é nem um índio que cavalga na pradaria, é apenas um desejo que se desvanece. O fato, no entanto, é que, de todo esse processo de hipótese, afirmação e negação, restou o poema em prosa, que é um corpo feito de palavras. A velocidade com que se dá esse processo é diagramada pela corrida exemplar da frase única. E se não for possível captá-la na tradução, então não sobra nada do poema.

Modesto Carone, in Lição de Kafka

10/03/2023

A celebridade de Kafka

A expressão exemplar da celebridade de Kafka é o adjetivo kafkiano, que encontrou acolhida em várias línguas e vários dicionários, inclusive o Aurélio.
Mas o uso dessa palavra cria problemas diante da hipertrofia que ela tem sofrido. É comum dizer que “kafkiano” é tudo aquilo que parece estranho, inusual, impenetrável e absurdo — o que descaracterizaria o realismo de base da prosa desse autor. Pois a rigor é kafkiana a situação de impotência do indivíduo moderno que se vê às voltas com um superpoder (Übermacht) que controla sua vida sem que ele ache uma saída para essa versão planetária da alienação — a impossibilidade de moldar seu destino segundo uma vontade livre de constrangimentos, o que transforma todos os esforços que faz num padrão de iniciativas inúteis.
Num mundo de alto a baixo regulado por forças que parecem seguir o curso de uma história cega, cujo traçado ele desconhece, embora pressinta que existe, mas não é capaz de discernir, o que impera é a distância entre o superpoder e o ponto de vista particular do personagem kafkiano. Trocando em miúdos, se for possível, é o ângulo pessoal de inclinação do herói ou anti-herói inventado por Kafka que o impede de ter clareza sobre o que o rodeia ou o que o invade por dentro.
Essa visão, ou falta de visão das coisas, não só é tema da obra, mas também está introjetada nela através de um narrador literariamente qualificado, mas antionisciente (ou insciente) que se torna, assim, a formalização estética do que ocorre no plano da matéria narrada.
De volta à celebridade do escritor tcheco, é útil lembrar que ela está historicamente assentada num ato de rejeição da obra. Pois tendo dedicado a vida à ficção, Kafka, antes de morrer, deu-lhes as costas, exigindo (felizmente sem êxito) que quase tudo o que escrevera fosse destruído. O conjunto do que consentiu em legar à posteridade representa apenas uma sexta parte do que produziu e nós conhecemos. Foi o escrúpulo de consciência de Max Brod, o amigo e testamenteiro que se recusou a executar o ímpeto de destruição do poeta de Praga, que abriu as portas para muitos enigmas cuja solução a bibliografia e o público tentam desvendar. Isso explica, pelo menos em parte, por que cada conto, novela, romance, parábola ou objeto inventado por Kafka é a matriz de uma proliferação de comentários, análises, hipóteses, teses e interpretações que circulam pelo mundo. Para dar um exemplo, escreve-se hoje mais sobre a obra de Kafka do que sobre o Fausto de Goethe. Compreende-se, nesse aspecto, que ele seja um dos autores mais lidos, analisados e discutidos da literatura mundial do após-guerra. Seria possível perguntar ingenuamente por quê. A resposta também pode ser ingênua e direta: por muitos motivos — porque ele escreve bem, porque é inteligente, original etc. Mas igualmente porque várias gerações já reconheceram em seus escritos a imagem mais poderosa e penetrante de nosso mundo vincado pela falsa consciência.
Acontece que quando morreu, em 1924, aos quarenta anos e onze meses, num sanatório em Kierling, perto de Viena, Franz Kafka era conhecido como autor de algumas narrativas muito estranhas, publicadas em sete magros volumes entre 1913 e o ano de sua morte. São eles: O foguista (1913), O veredicto (1913), Na colônia penal (1915), A metamorfose (1915), Um médico rural (1919) e Um artista da fome (1924).
Todas essas novelas foram publicadas também em revistas literárias importantes da época expressionista (tipicamente alemã), editadas na Alemanha e na Boêmia. Para os seus contemporâneos, porém — com honrosas exceções, como Brod, Werfel, Rilke, Musil, Sternheim etc. —, ele era apenas um jovem doutor em direito, judeu de língua alemã, que vivia em Praga.
O curioso é que o escritor sempre esteve preocupado com o destino de seus escritos, que ele chamava de “garranchos”. Esse fato pode ser comprovado pelas cartas que escreveu ao seu editor, Kurt Wolff (que esteve no Brasil como funcionário de um banco), a respeito de Contemplação, A metamorfose, O veredicto e Um médico rural — sem mencionar os lances dramáticos da revisão do último livro, Um artista da fome, já no leito de morte.
Além disso — e a despeito de ser um intelectual tímido e esquivo —, dispôs-se também a fazer leituras de suas narrativas. É o caso de O veredicto, no Palace Hotel, um hotel art nouveau de Praga, e de Na colônia penal, na galeria Goltz de Munique, que causou tumulto entre as senhoras presentes, duas das quais desmaiaram ao ouvir o relato sinistro e sangrento.
Quanto à decisão de Max Brod de não destruir a totalidade dos manuscritos kafkianos — que hoje se encontram em sua maioria na Bodleian Library, de Oxford, nos arquivos de Marbach, na Alemanha, e também nos de Israel e de Nova York —, vale a pena lembrar que não fosse essa desobediência o mundo letrado não conheceria hoje O processo, O castelo, O desaparecido ou América, A construção, Durante a construção da muralha da China etc., nem os Diários e as Cartas. Como disse um crítico francês, imaginem um Kafka sem seu O processo... Para os intérpretes e o público, por sua vez, não existiriam os problemas das edições de um dos maiores romances do século xx, nem o nó górdio de seu sentido ou as dificuldades para traduzi-lo. Isso nos leva à história das publicações da obra de Kafka.

A história das publicações

Os manuscritos não publicados até 1924 eram em geral fragmentos, mas a maior parte deles estava bem estruturada. Max Brod, que os editou em primeiro lugar, foi obrigado a realizar verdadeiras montagens a partir dos cadernos de notas deixados pelo escritor. Até o ano de 1927, Brod publicou O processo, O castelo e O desaparecido, cujo primeiro capítulo, bem-acabado, foi objeto de uma edição isolada em vida do autor: O foguista, ao qual Kafka dedicava estima especial, ao contrário do resto do livro, que ele não conseguiu terminar. Os volumes de contos e novelas — embora essas designações sejam problemáticas em relação a Kafka — apareceram em 1931, seguindo-se os Diários e as Cartas, em 1937.
A publicação da obra completa foi iniciada em 1935, logo interrompida pelo interregno nazista; em 1946 ela apareceu em Nova York (daí certamente a falsa informação de que a primeira tradução brasileira de A metamorfose foi feita a partir do original “norte-americano”) e de 1951 a 1957 na Alemanha pela editora S. Fischer, de Frankfurt. O último volume foi Cartas a Felice, de 1967. É importante salientar que, desde 1982, uma equipe internacional de especialistas tem se dedicado a uma edição crítica da obra.
A difusão da ficção e de outros escritos de Kafka pelo mundo começou cedo. Na França, algumas narrativas isoladas saíram em 1928 (A metamorfose) e em 1930 (O veredicto); O processo foi traduzido em 1933 e O castelo em 1938. Nos países de língua inglesa as traduções começaram a surgir no início dos anos 30, em versões que se tornaram clássicas. Na América do Sul, o primeiro tradutor de Kafka foi Jorge Luis Borges, que verteu A metamorfose para o espanhol em 1938. A partir do fim da Segunda Guerra Mundial Kafka ficou conhecido no mundo todo, e pelo menos A metamorfose e O processo passaram a ser leituras obrigatórias do cidadão civilizado do nosso tempo. A publicação da obra do autor em tcheco está atualmente em vias de terminar.
A interpretação dos textos kafkianos é de toda espécie — teológica, existencialista, psicanalítica, sociológica, socioestética, estilística, linguística, estrutural e histórica. A bibliografia mais avançada continua sendo o livro de Günther Anders (Kafka: pró e contra) e os ensaios desbravadores de Walter Benjamin e Theodor Adorno. No Brasil é importante destacar a de Otto Maria Carpeaux, a de Sérgio Buarque de Holanda e a de Anatol Rosenfeld. O ensaio de Carpeaux introduziu Kafka no país em 1942, e nele se manifesta a exegese teológico-metafísica reinante na Europa da época. O livro de Sérgio Buarque de Holanda, O espírito e a letra, organizado por Antonio Arnoni Prado, contém ensaios de uma surpreendente atualidade: escritos em 1952, passam em revista as tendências da crítica sobre o autor publicadas no ano anterior na Alemanha, como o livro de Anders, além de comentar as Conversas com Kafka, de Gustav Janouch — sem esquecer que o historiador e literato brasileiro encaixa a ficção “onírica” e “religiosa” de Kafka na sociedade técnica, avaliando criticamente sua congruência com o novo estado do mundo. O belo ensaio de Anatol Rosenfeld, do início dos anos 60, é uma leitura sagaz que chama a atenção para as questões de estilo e técnica narrativa, e talvez seja a melhor visão de conjunto elaborada no Brasil sobre a obra de Kafka. Mesmo sem entrar em detalhes sobre as linhas de interpretação dos escritos kafkianos, nenhuma delas se legitima a não ser quando amarrada aos textos. Adorno adverte que o pressuposto para ler Kafka é a lealdade ao texto, embora no autor tcheco cada palavra pareça dizer: interprete-me, e se recuse a admiti-lo.
O fato, no entanto, é que Kafka não é fantástico, mágico, surrealista ou mestre do absurdo. Basta, para chegar a essa conclusão, consultar o livro de Anders e lembrar que, para um crítico da envergadura de Walter Benjamin, as “deformações” de Kafka são sempre muito precisas.
Seja como for, não é leviandade considerar o escritor um artista difícil, seja no plano literal, estético ou histórico-literário. Até hoje ele não figura na história da literatura tcheca porque escreveu em alemão, e é muito trabalhoso situá-lo sem maiores problemas nas vertentes modernas da literatura de língua alemã. Pois, apesar de ser legítimo contemporâneo do expressionismo — cuja manifestação mais eloquente é o “grito primevo” (na linha do quadro de E. Munch) —, sua linguagem é sóbria e seca e adota o corte sintático da escrita clássica, alheia à afetação, ao lirismo e ao colorido da fala cotidiana. Visto por esse aspecto, Kafka é um escritor de vanguarda que se inspira em Kleist, elege Flaubert como modelo, vai na contracorrente do impressionismo art nouveau vienense e se apropria literariamente do jargão jurídico do império dos Habsburgo. É compreensível, nesse sentido, a existência de um quase consenso de que, para entender Kafka, é necessário renunciar às exegeses totalizantes para estabelecer, primeiro, alguns parâmetros capazes de descrever o seu estilo e, por meio dele, seu modo de compor ficção, tarefa que muitas vezes coincide com os limites da análise filológica e a questão da língua alemã burocrática de Praga e da Boêmia, para entender a partilha artística que fez dela com o famoso “protocolo kafkiano”.
De qualquer forma, não se deve perder de vista que o escritor é considerado um “outsider” plantado no centro da arte moderna.

Modesto Carone, in Lição de Kafka