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02/03/2023

A verdade acerca do Zito | 3


A verdade acerca do Zito | 3
Quando foi então, como começou? Como é esse menino estava na cabeça, não saía das mãos? Sukuama! Uma tarde inteira, calor já, assim de janela fechada, porta fechada, ouvindo os pássaros, sentindo o sol para entrar e o barulho vagaroso dos passos de vavó, na casa, no quintal, as falas sozinhas, o riso das pessoas na rua. E sempre a virar na cama, levantando, sentando, vestindo, despindo. E como passou os casos dos frascos de remédio? Porquê estavam só assim os cacos no canto do quarto, a mancha gorda no chão?...
Eu gosto de ti...
No antigamente também era um menino forte, um menino bom, que ela estava esperar sempre, que ela deitava sempre e que foi embora. E como então? Quando então? Antes de sô Amaral, muito longe já, custa lembrar. Só a tosse do homem quase velho, aquele cheiro a remédio do corpo amarelo, os gritos parecia era mulher velha e a respiração de pacaça que lhe assustava, julgando ele ia morrer... Toneta vê o nojo da boca dele a rir os dentes estragados do tabaco:
Tonetinha, então? Estou a pedir, não gosto pedir...
Tanto tempo já que não dormia com um homem!
Mas os vestidos que você queria, Toneta, os sapatos na loja do mestre, o dinheiro para a cubata, o dinheiro para comida, vavó Xica sempre a lamentar que sô Antunes estava pedir caro? E por tudo isso, vem Toneta, senta Toneta, fica de pé Toneta, abaixa Toneta. Podre! Tudo assim? E o resto, Toneta, o mais podre mesmo daquela conversa no emprego, o chefe, o chefe das telefonistas gozando:
Hem, Toneta! Qualquer dia matas o velhote... E eu lá estou... No cemitério, claro.
E o Zito?
Aquele menino bom que apareceu com a chuva, menino forte que não deixa tirar os calções, ainda cheio de vergonha e atrevido para lhe espreitar todas as tardes, chorar com coragem:
Eu gosto de ti...
Zito, como ele disse o nome dele. Ia ser bom lhe deitar, esconder a cabeça dele, deixar ele chorar tudo, lhe fazer festas nas costas, nos braços fortes, na barriga do menino. Como um filho grande, mais velho...
O corpo mexe, a cama faz barulho.Tapa as orelhas, não aceita ouvir esse barulho lhe estragar a lembrança na cabeça. Menino bom, menino forte, seus olhos muito quietos, gulosos da combinação quase nua, cor-de-rosa, desbotada…
Toneta se levanta descalça e abre a janela. O cheiro fresco da terra molhada entrou no sol das seis, mergulhava atrás do Balão; na mandioqueira do quintal as folhas riam, os pássaros cantavam o fim da tarde, nos paus. Espreitou, procurou atrás das aduelas, queria ver aqueles olhos de onça a rondar galinhas; mas nada, ninguém, nada que se ouvia. Só debaixo da mandioqueira vavó Xica cochilava na esteira, o velho cachimbo tinha-lhe caído dentro da quinda do macunde que a mais-velha começou escolher nessa tarde.
Porquê então o menino hoje não aparecia? Mas porquê tinha então aparecer, Toneta? Você, Zito, não percebe, não sabe a vida, o podre da vida, você cai no rio sujo e mesmo que pode nadar, vem o jacaré não deixa você chegar na terra. E não lhe mata logo, não. Mergulha contigo, te amarra no lodo para morreres devagar. Por isso quer embora o menino forte, o menino dos calções molhados.
Zito, não é como ele disse nome dele? Aposto estava lá no dia do Santo António!...
Toneta chega na janela mas se cala, vavó pode acordar e se o menino vai vir...
O sol brincava ainda nas folhas da mandioqueira e, depois, ia pintar na cara enrugada de vavó Xica, enxotar as moscas da tarde, deixando-lhe sonhar, o macunde espalhado na esteira, na quinda...
Pensa só, Toneta! Você é mais velha, gostava o Zito, você lhe apalpam na repartição, cambulam, Toneta, os homens para você, Toneta, são o lixo e você é o lixo para os homens; você sabe, Toneta, não pode esquecer as palavras podres dos dentes de tabaco desse branco velho que só sabe tossir. Pensa ainda, Toneta! Como é seu coração está bater assim, se vê de fora da combinação, só porque pelo capim abaixo, devagarinho, desconfiado e medroso, vem um menino descalço esquivando os últimos bocados do sol das seis e meia? Você é mulher mais velha, Toneta, não é mais miúda de cabaço para tremer assim, Toneta!
A janela está aberta, vavó Xica dorme e sonha. Zito, está esperar o quê então? Toneta é um riso muito branco no desenho escuro do quarto, a janela mostra. E seus olhos estão a ver aquela mão a lhe chamar, seus pés descalços viram pés de onça para passar pertinho de vavó Xica, deixar-lhe sonhar na sombra da mandioqueira. E o riso da Toneta, na hora de abrir a porta, é aquele riso da manhã, o calor das mãos macias empurrando o sangue dentro de todo o corpo dele, a voz sussurrando:
Menino bom, menino forte…
Vai enxotar o vermelho e azul do céu que ainda espreita na janela, e no andar dela, descalço, dança o mataco rijo debaixo da combinação. As mamas afastam as alças, quando a Toneta volta, Zito fecha os olhos.
Não passa choro como o menino de manhã, nem ri como se limpasse a chuva. Se agarram só, e o sangue quente, as palavras do primo Chefe, as macias falas da Toneta se juntam, se misturam, despem sua camisa, os calções e depois os lençóis são o sol no buraco da janela mal fechada, vermelho e azul do céu em seus corpos transpirados e brilhantes, quieto e rijo menino bom, menino forte, malandro menino, malcriado menino do musseque e Toneta, a sem-vergonha, quitata de sô Amaral, raiva de todas as mulheres e doce de todos os homens do nosso musseque.
Diz ainda, Toneta, você gostas de mim?
Muito, Zito. Tu és um homem!
Zito ri, duvida:
Verdade mesmo?
Toneta não responde. Passa o silêncio, o ar, o tempo.
Sabe uma coisa, Zito? Tanto tempo já que não deitava com um homem!
E sô Amaral, então?
Sô Amaral?...
A pergunta é mesmo só um eco ou lembra sô Amaral, ele foi no Caxito, serviço dele?
Sô Amaral não é homem...
Porquê? Só porque está assim velho?...
Não é isso, Zito. Você ainda não pode saber...
E as mãos de Toneta no cabelo suado, nos músculos descansando, parece é mamã Sessá quando era monandengue. Só que agora é ramo de mulemba, é pau de guico, Zito, você não é mais aquele menino da mamã Sessá...
Toneta, você acha a gente tem culpa se fala as palavras podres?...
Como então?
A voz é outra, vem de longe, do outro Zito, ela não lhe conhecia.
Não sei, Zito. Mas se os mais-velhos dizem…
Pois é...
A mão brinca na orelha dele, sente a cabeça do menino nas suas mamas e se deixa ficar estendida no corpo quieto.
Toneta, você me gosta mesmo?
Porquê?
Zito não sabe responder, quer explicar não pode, o melhor mesmo é dar a prenda. Mas a boca teimosa fala ainda:
Toneta! Se você gosta de mim, é capaz de me bater?
Nunca, Zito. Haka!... Não podia!
Porquê esta conversa deste menino?
Vai ’mbora, Zito?
Ih! Não! Nunca vou ir embora!
Toneta ri. Menino bom...
Zito, mamã Sessá te bate muito?
Não fala só estas coisas, Toneta! Favor!...
Toneta vê-lhe procurar o bolso da camisa, o menino está segurar pequeno embrulho, quase amachucado.
Toneta, lembra o Santo António? Então fecha ainda teus olhos!...
Um riso grande, muitos beijos e obedece: fecha os olhos, sente umas mãos atrapalhadas e o barulho do papel de seda desembrulhando. A voz do menino outra vez:
Já pode abrir, Toneta!
Ela vê a palma da mão clara do menino em cima de suas mamas quietas, e nessa palma duas pequeninas flores amarelas, dois brincos. As florzinhas cor de sol fazem o coração bater depressa, a garganta ficar tapada, não pode falar. Não é mais uma miúda, Toneta, é uma mais-velha. Vai deixar mesmo correr essa água parece é da chuva da manhã, tanto tempo já que você não chora?...
Menino bom, menino forte...
As mãos quentes e macias, o calor da noite, o cheiro de seus corpos suados, fazem esquecer aquela alegria das florzinhas amarelas de capim, os brincos para Toneta. Deixa o sono adormecer seu sangue quieto, devagar, o coração batuca debaixo da mão de Toneta, o peito...
Zito, menino malandro de musseque, adormece nos braços de sua mãe Sessá e Toneta deixa correr a água limpa que guardava muito tempo na cacimba funda de sua vida e fica mirando as florzinhas de capim, amarelas, sobre o peito:
Meu filho, menino bom, menino forte…

José Luantino Vieira, in Nosso Musseque

06/12/2022

A verdade acerca do Zito | 2




Xoxombo, você lembra aquele dia do Santo António?
Ená, Zito! Não posso lhe esquecer!
Foi num Carnaval. Todos os meninos do musseque fabricaram suas máscaras de papelão e arrumavam a fuba uns nos outros. Satisfeitos, fugindo, gritando ou pelejando, quando um sacrista punha mesmo nos olhos, que não valia. Toneta estava na porta da cubata, nesse tempo ainda não estava amigada no sô Amaral, e os meninos pararam suas brincadeiras para lhe olharem, vestida de Carmen Miranda, como ela gostava sair nas farras.
Pópilas, Zito! Você lembra a cara do Zeca Bunéu, quando lhe viu? Até parecia maluco, a rir!
Nunca mais esqueci, palavra!
A Toneta tinha chamado os meninos que andavam brincar. O Zeca Bunéu e o Xoxombo foram logo mas o Biquinho correu na zuna, procurar o Zito, a Carmindinha e Tunica falando a neta de vavó Xica estava chamar para mostrar um feitiço. Sá Domingas ainda resmungou qualquer coisa dessa sem-vergonha, mas os meninos correram para olhar o feitiço da rapariga. Era um Santo António de madeira, vestido com um pano castanho amarrado com barbante na cintura. Tinha os olhos roxos, pintados com lápis de tinta e cuspo. Toneta pegou o boneco, muito séria, todos sentaram na esteira, quando ela falou:
Toda a gente fecha os olhos e pensa uma coisa, para pedir no Santo António. Mas não fala alto!
Obedecendo, cada qual pediu, dentro da cabeça, seu desejo para Santo António.
Pronto! Podem olhar já...
Ajoelhada na frente de todos, Toneta segurava o Santo António pela corda pequena na cintura e punha uma cara muito séria mas, sem querer, Zito olhou-lhe nos olhos e viu a malandrice lá no fundo deles. O boneco tinha um fio pendurado debaixo dos pés e Toneta olhando as caras curiosas e sérias, os olhos parados no Santo António, escolheu:
Você! Já pensou sua prenda?... Então puxa neste fio, vai sair!...
Era o Zito. Os outros meninos olharam o amigo cheio de sorte, era mesmo o primeiro a levar a prenda e começaram falar uns nos outros.
Xê!... — calou a Toneta. — Com barulho não vai sair!
Um bocado atrapalhado, Zito estendeu a mão para o fio, agarrou-lhe e parou. Olhou os outros meninos, viu a malandrice no fundo dos olhos grandes da Toneta e começou a rir:
Pópilas! Pedi mesmo uma bicicleta! — e puxou com depressa.
O que sucedeu custa contar. Se as gargalhadas do malandro do Zeca Bunéu se juntaram logo nas de Toneta, o ar sério e zangado de Carmindinha era irmão da cara banzada do Zito, aldrabado. E só as lágrimas e o choro de Tunica é que faziam pena. Solto, o Santo António caiu na esteira, mostrando ainda o grosso pau com cabeça encarnada que tinha saído debaixo do pano castanho, quando Zito puxou o fio.
Sukuama! Essa Toneta tinha cada partida!...
Não posso esquecer esse dia, Xoxombo!
Dessa conversa do Santo António é que saiu tudo. Zito precisava alguém para falar e, mesmo miúdo como era Xoxombo, foi-lhe contando a confusão daquela manhã e o medo, agora de tarde, o coração pequenininho no peito, vergonha de ir espreitar Toneta. Se ela lhe chamasse no quarto, como ia fazer então?
Xoxombo era miúdo ainda mas tinha irmãs e lhe aconselhou:
Não sei, Zito. Mas se fosse você, arranjava mesmo uma prenda e ia lhe levar nessa hora...
Era um meio de tarde abafado. Nos dias de grande chuva a areia molhada respira a água toda com o sol amarelo que aparece, depois, no céu azul sem nuvens. E mesmo com o fresco da água da chuva, toda a gente começava sentir um calor sem vento, de fazer noite quente, noite de sunguilar até tarde e dormir a janela aberta. No ar limpo voavam as andorinhas e os ferrões, os pardais cantavam nos zincos. Capins verdes lavados, muxixes e imbondeiros riam para o sol, as raízes cheias de água. Caminhando para baixo, esquivando para sá Domingas não dar conta, descendo nas corridas a Rua da Pedreira, é que Xoxombo viu mesmo o Zito era aquele menino mais-velho que todos falavam. As horas estavam a passar, cinco e meia quase, e o menino ia depressa com Xoxombo cheio de medo ao lado dele, olhando para todos os lados da Ingombota, podia ser as amigas da mãe iam-lhe contar. Pópilas, para quê falar as coisas no Zito? Quer fazer tudo logo-logo. E como é que ele arranjou assim aquela nota de vinte angolares?
Com esses pensamentos a saltar na cabeça e o coração cheio de medo, Xoxombo nem deu conta estavam chegar na Baixa. As ruas, as casas, eram bonitas, não eram cubatas de zinco, não, e as estradas, cheias de carros e pessoas, estavam tapadas pelo alcatrão, a areia dos musseques não tinha ali. Zito andava nessas ruas sem medo, não esquivava os carros, parecia era mesmo o dono desses sítios, nada que lhe admirava. Mas o medo no coração de Xoxombo era grande e não podia esquecer sá Domingas, nessa hora, cadavez na porta da cubata, chamando como toda a gente já conhecia no musseque:
Xoxombo, Xoxomboééé!
O menino não aparecia, sá Domingas ia para dentro arranjar o pau de funji para a hora de ele voltar, se calhar já tinha adiantado na mamã Sessá, já falavam com suas vizinhas a fuga dos meninos. E os vinte angolares, como é Zito arranjou então? Essas conversas sempre na cabeça não deixavam-lhe olhar bem a alegria do amigo, desembrulhando e embrulhando os pequenos brincos de lata, de flores amarelas. Só os pés é que andavam depressa agora, a subir a Ingombota, no meio da gente já estava voltar no serviço. Cadavez nessa hora, andavam-lhe procurar por todo o musseque, toda a tarde sem lhe verem. Zito assobiava feliz, punha o embrulho no bolso, tirava o pacotinho, desembrulhava, mirava as florzinhas amarelas, falava no Xoxombo:
Pópilas, Xoxombo! P’ra quê você é assim miúdo ainda?...
Xoxombo não respondia. Ele gostava ser mesmo é monandengue, miudinho, para entrar na casa sem lhe verem, deitar na esteira e quando mamã começava gritar, sete horas ou oito horas, aparecer, sair no quarto, fingindo, falar toda a tarde estava lá dentro a dormir, cansado da brincadeira da manhã de chuva. Mas como ia entrar assim, sem lhe verem?
Mas nosso musseque estava quieto e calado. Só o barulho das galinhas, com seus pintos, os pássaros voando ou pousando nos zincos e nos paus, vozes tapadas das pessoas dentro das cubatas, enquanto o sol, vermelho como a areia, borrava o céu cheio de azul da manhã, descendo para o mar, é que lhes recebeu.
Xoxombo, obrigado. Você é um amigo. Agora vou embora!...
Já? E se me perguntarem?
Tu é que sabes! Mas não fala esta conversa, a prenda. Toma! No sábado, se a gente pode fugir, te levo-te na matiné do Nacional...
Xoxombo ficou com a moeda na mão a ver o Zito avançar com seu passo de onça para o tambarineiro lá em cima. Ia se esconder até na hora que costumava, já com as sombras, ir espreitar a Toneta, esquivado atrás do quintal de vavó Xica. Guardando a moeda no calção, Xoxombo saltou as aduelas, atravessou devagar, subiu na mulemba e depois, sem vergonha e sem medo já, começou assobiar. Sá Domingas não estava, tinha saído na casa de nga Xica e Carmindinha apareceu debaixo do pau, para perguntar:
Xoxombo, viu a Tunica?...
O menino continuou assobiar como se fosse mais velho, sem ligar na irmã lá em baixo e, depois, descarado e satisfeito, respondeu-lhe:
Escondi-lhe no mataco!
Carmindinha insultou-lhe e foi embora.

José Luandino Vieira, in Nosso Mussuque

01/12/2022

A verdade acerca do Zito | V

Naquela manhã de cacimbo do mês de Junho dum ano que já não lembro, em que cheguei naquele musseque pela mão de meu pai, a primeira pessoa que vi foi um menino alto e forte, encostado na parede da casa da minha madrasta. Estava olhar para mim, desconfiado e curioso, coçando o pé descalço na esquina. Escondia qualquer coisa na palma da mão mas cumprimentou, olhando na minha cara. Os olhos eram pequenos e não miravam a gente direito.
Olá, Santo António da Toneta! — respondeu-lhe meu pai, com um sorriso.
O rapaz deitou fora o bocado de cigarro e, sem medo e sem vergonha, como se fosse mesmo mais-velho, insultou alto, me deixando de boca aberta:
Santo António é a puta que o pariu!
O meu pai só disse-me que aquele menino era o Zito.

1.

Quando Carmindinha entrou com as corridas, sacudindo a água em cima dos meninos na esteira, todos viram as cordas grossas e brancas que caíam dos beirais de zinco, balouçadas pelo vento. Na porta aberta, o ar fresco, o cheiro bom a terra molhada invadiu a cubata no meio das risadas de Carmindinha e os ralhos de Sá Domingas.
Ih, menina! Juízo! Vir assim então com a chuva...
Desde as dez horas aquela chuva estava cair. A cantiga das mãos da água de muitos dedos grossos batucava nos zincos e Zeca Bunéu e Xoxombo, nus, no quintal, abriam a boca para as nuvens encherem. Zeca tinha vindo na casa do capitão logo que começou pingar, dona Branca não ia aceitar aquela brincadeira de tomar banho na chuva e só mesmo no quintal do Xoxombo podiam fazer essa coisa costumada: encher a boca de água, fingir que bebiam e depois, parados debaixo dos pingos quentes e grossos, gritarem para os outros meninos:
Ená! Vejam só! Feitiço! Bebemos agora, já estamos a mijar!
E as cordas de água corriam pelo peito, juntavam-se em baixo da barriga para sair depois, unidas num grande repuxo que só esses miúdos malandros, habituados à brincadeira, conseguem com o mexer dos ombros, do peito e da barriga.
Dos três meninos na esteira só Zito não brincava. Calado e quieto desde aquela hora da manhã, mirando os dedos espertos da Tunica ganharem no Biquinho, no jogo das pedrinhas, nem mesmo quando começou chover aceitou ir com Zeca e Xoxombo. Murmurou olhando Tunica:
Já sou mais velho, não vou mais no quintal!...
Andava mesmo refilão e a sua mania antiga das palavras podres agora ainda era maior.
Debaixo da chuva, Xoxombo falou no Zeca:
Pópilas, Zeca! O Zito hoje parece é viu cazumbi!...
Zeca Bunéu riu mas a água quente caía pesada e não respondeu.
Não, o Zito já não era aquele menino que lhe conheciam, mais velho sim, mas para lhes ensinar na fisga, na hora de tirar o visgo na mulemba, na batota do jogo da bilha. Agora andava calado, gostava só ficar perto da Carmindinha a olhar, a rondar parecia galo, e quando falava era só para lhes disparatar. Ou então, seis horas, quando a Antonieta, neta da vavó Xica, chegava do serviço, saía para trepar na mulem-ba do Xoxombo sem ninguém dar conta.
Xoxombo, lembra aquele primo do Zito?
Lembro. O Chefe, da Imprensa da Cidade Alta?!
É! Esse é que veio mesmo lhe estragar.
Porquê então?
Esse primo tinha chegado num domingo para ajudar Sebastião Mateus arranjar o zinco da cubata, estava deixar passar água da chuva. Toda a manhã trabalharam; de tarde ficou na conversa e o Zito, depois, contou o primo tinha-lhe falado umas conversas mas ele não ia dizer porque eles ainda eram monandengues. Nesse dia mostrou também o cigarro que o Chefe tinha-lhe deixado para fumar. Com o tempo, nesses dias que ficavam quietos, esperando o fim das águas, Zito adiantou a história do primo: tinha dormido com uma rapariga do Sete; e mais: prometeu um dia ia levar lá o Zito, porque já não estava mais um miúdo.
Sukua’! Te levar p’ra quê então, Zito?
Zito fez manias de mais-velho e depois, fingindo que era conversa de todos os dias, disse:
P’ra dormir com ela!
Biquinho desatou a rir.
Não pode, Zito. Você ainda é um miúdo, não pode fazer filho!
Ai! Só quando pode se fazer filho é que dorme com as mulheres? Poça, Biquinho, você é burro mesmo!
É verdade, Zito! Os homens dormem nas mulheres p’ra fazer os filhos...
Mas o menino calou o Zeca Bunéu, miúdo de nove anos não tinha nada que meter assim na conversa dos mais-velhos...
O meu primo disse mesmo já sou homem!
Para Zeca, miúdo de mais, a história não fez muita impressão; mas desde essa hora Zito mudou. Ficava calado ou então, seis horas, afastava e ninguém mais que lhe via. O Xoxombo corria na mulemba mas o menino não estava lá. Um dia o Biquinho contou que tinha-lhe perseguido e que o Zito ia lá em cima, no tambarineiro, espreitar as mulheres que estavam mijar.
Juro mesmo! Morra aqui...
Mas espreitar p’ra quê? Como ele vai ver com os panos?
Que o Zito depois abaixava para ficar mirar o buraco molhado no chão e, um dia mesmo, já escuro, tinha-lhe visto a cheirar.
Esta conversa de Biquinho era sempre lembrada nestes tempos de agora que o menino só queria rondar Carmindinha. Olhava com olhos gulosos, ela passava com o vestido molhado das latas de água, as mamas pequenininhas a furar. Ou então, seis horas já, o Zito desaparecia, desculpando que ia na mãe para lhe ajudar.
Mas ninguém, nem mesmo Biquinho, seu mais velho, podia sentir o que passava no coração de Zito. O menino sofria desde aquela hora que o primo falou as conversas da rapariga do Sete. Ficou uns dias não pensava mais nada, na sua cabeça as falas apareciam desenhadas, parecia eram figuras do livro de leitura. E Carmindinha, com o vestido molhado e curto por cima dos joelhos, passando na frente dele, lembrava sempre aquelas palavras do Chefe lhe convidando a ser um homem, como ele falava.
Já tinha contado mesmo no Biquinho: ia acabar as brincadeiras com esses miúdos do Xoxombo e do Zeca, só queriam quigozas e fisgas, depois um dia ia lá em cima no Bairro Operário procurar o Chefe para lhe levar na tal rapariga do Sete.
E o dinheiro, Zito?
Pois é, Biquinho! Mas vou-lhe arranjar. Nem que vou roubar, não interessa.
E assim semanas e semanas não andava pensar outra coisa, não podia esquivar. Sempre que vestia, tomava banho, sempre que via Carmindinha, quando deitava para dormir, lá estavam no escuro, a falar, as palavras do primo Chefe.
O azar foi mesmo naquela noite de muito calor. Cadavez que pensa — e todos os dias agora, quando mira Carmindinha, ou sete horas, detrás das aduelas do quintal de vavó Xica, espreitando Toneta — dói-lhe no coração, quer chorar e não pode, quer fugir embora para longe, longe, para não ouvir mais as palavras do primo, não ouvir mais os barulhos daquela noite quente, depois da chuva, quando as palavras do Chefe mostraram que o barulho que estava sair no outro lado da cubata não era as baratas, não era os ratos, como mamã Sessá tinha-lhe falado, já muito tempo, num dia que adiantou perguntar.
Sempre que pensa essa noite, Zito tem vontade de fugir, correr para muito longe; ou ficar e derrubar Carmindinha ou Toneta, que ele nunca viu mas que adivinha todas as tardes, escondido parecia era ladrão de galinhas. E nessas horas, jura que vai mesmo arranjar o dinheiro, nem que roubava, vai no primo Chefe do Bairro Operário, para ser um homem.
Nesses dias de chuva, quando a batucada das águas no zinco punha tudo igual dentro da cabeça e tinha que ficar quieto, as palavras do primo, os barulhos da cubata, as mulheres paradas de pernas abertas debaixo do tambarineiro, tudo corria como essa chuva na cabeça do Zito, e o menino só olhava Carmindinha, espiando se levantava o braço, mirando se abaixava, espreitando quando trepava na cadeira para arrumar as coisas. Como nesse dia mesmo...
Zito, me dá-me ainda aquele pano!
Na porta do quarto, sá Domingas apontava o pano dobrado em cima da mesa. Lá dentro, no chão, a roupa molhada de Carmindinha falou as palavras do primo, o sangue do Zito começou correr, suas mãos tremiam na hora de entregar o pano para sá Domingas. Lá fora, os gritos alegres de Zeca e do Xoxombo davam-lhe vontade de ir mesmo dar-lhes uma surra.
Ená, menino! Parece ’tá doente! Que cara!
Sentado na esteira, enquanto as mãos espertas de Tunica derrotavam o Biquinho distraído, Zito espreitou a porta mal fechada, a roupa molhada no chão e os bocados do corpo da menina, sá Domingas estava-lhe a limpar: o mataco estreito e rijo de miúda ainda, os bicos pequenininhos no peito, a pele bem clara, brilhando, e por cima do barulho da chuva no zinco podia sentir mesmo o vestido seco a descer em cima do corpo.
Lá fora a chuva continuava a cair, grossa, branca, quente, sem vento para lhe enxotar. Nuvens negras nas corridas pelo céu destapavam bocados de azul que já queriam espreitar, novos trovões e relâmpagos tremiam as árvores e as cubatas espalhadas pelo areal, lavadas e roídas das grossas cordas de água descendo das folhas e dos zincos, juntando-se no chão, escorrendo e formando grandes rios avermelhados, levando areia e lixo dos musseques caminho da Baixa.
Nga Sessá, mãe do Zito, insultava a água que começou entrar na cubata. Se ouvia a voz rouca e ainda bêbada da Albertina, cantava uma cantiga de asneiras e estava pôr as imbambas em cima da mesa, para deixar o rio de água suja passar da sala para o quintal. Descalça e quase nua, Albertina passeava o corpo pesado, deixando a água da chuva correr, só lhe ajudando com os pés para sair. As paredes molhadas começaram ficar escuras, a deixar cair bocados de barro e muita gente já tinha vindo na porta, com a catana ou arco de barril, para desviar a água que ameaçava entrar. Então na frente da porta de vavó Xica a água entrava sem respeito, enchendo os quartos, molhando as esteiras, fazendo aquele barro vermelho nenhuma vassoura ia-lhe enxotar bem depois de seco. Brincando lá mais em baixo, onde os pequenos rios juntam numa grande cacimba, e daí vão em enxurrada, Rua da Pedreira abaixo, Zeca e Xoxombo ouviam os gritos da mais-velha:
Aiuê, minha casa! Acudam! Socorroé!
Velha já mais de setenta anos, como afirmava capitão Bento, vavó, na porta, levantava os braços magros, batia as palmas, gritava com a pouca força que guardava no corpo antigo.
Zeca Bunéu e Xoxombo chegaram nas corridas e viram logo porquê vavó estava gritar assim. Xoxombo correu no quintal dele, agarrou o arco do barril dobrado e gritou no amigo, dando ordem:
Zeca! Você adianta fazer um muro de barro, na porta! Com depressa!...
Calada, mas sempre batendo as mãos, vavó olhava os meninos nus, a chuva a bater nas costas, as mãos pequenas a levantar o muro de barro tirado do fundo das águas. Para Zeca e Xoxombo, era uma alegria não vir mais ninguém para ajudar, brincarem sozinhos sem os mais-velhos para lhes xingarem, salvando vavó Xica e as coisas da cubata de irem na chuva. O pequeno muro de barro estava aguentar, parava aquela água raivosa de espuma vermelha, saía na picada que o Xoxombo, com golpes rápidos, abria, junto à parede, guiando tudo no caminho da padaria, mais para baixo, para o rio grande descendo na Ingombota.
Na hora que sá Domingas apareceu ainda debaixo da chuva com o Zito todo molhado, já a água não entrava mais na cubata da mais-velha. Corria, zangada com os meninos, pela picada do Xoxombo. Vaidosos, olhavam as mulheres e o Zito e se gabavam:
Pópilas, Zeca! Você vê só a minha técnica!
Sukua’! Se eu não tinha feito o muro, a cubata ia embora na chuva!...
Ená! Mas eu é que mando na água. Mira só!
Sá Domingas ajudava a levantar as coisas do chão, tudo molhado e sujo. A farinha, nas quindas, parecia era pirão de azeite-palma muito encarnado, a esteira não queria sair, presa com a lama, e vavó lamentava:
Aiuê, minha vida! Coitada de mim! P’ra quê eu tenho uma neta então?
Deixa ainda, vavó, eu ajudo. Mas então a Toneta não foi no serviço?
Elá! No serviço? — muxoxou. — Sukuama! Nem que levantou ainda, fechada na cama!
Ih? Então o homem dela?
Vavó Xica abanou a cabeça, estalando a língua:
Foi no Caxito, minha filha. Pronto, aproveitou logo faltar no serviço.
Sá Domingas conseguiu levantar a esteira e depois de enrolar, chamou:
Zito! Pega ainda a esteira, leva no quintal para a chuva lhe lavar.
O menino, coitado, estava mesmo todo molhado. A camisa branca parecia tinha remendos, colada no corpo, os calções pingavam nas pernas grossas mas nem assim tinha aceitado brincar na chuva, chamado no Zeca e Xoxombo. As orelhas dele só queriam ouvir as conversas de vavó Xica falando a neta Antonieta. E quando soube ela ainda estava na cama, Zito sentiu outra vez o sangue nas corridas, aquela vontade de ir embora e de ficar, pensando nessa hora mesmo a Toneta ia-lhe chamar. A esteira foi lavada com depressa, o coração a bater, os olhos na janela aberta no quintal, aquela janela que ele costumava espreitar pensando ia ver Toneta se despir. Encostou a esteira lavada no tronco da mandioqueira e veio outra vez na cubata: Toneta estava de pé, no meio da casa, olhando vavó e sua vizinha sá Domingas, enxotando a água do chão com a vassoura de mateba.
Vestia só combinação em cima da pele negra e brilhante, inveja de todas as mulheres, desejo dos homens no musseque. As pernas abertas se desenhavam no mexer quase quieto do pano e Zito, parado na porta, mirava aquele mataco rijo ele costumava espreitar quando, de manhã, Toneta descia para o serviço, bungulando.
Sukuama! Ganho o meu dinheiro, não posso dormir? Quem compra a comida? — falava a Toneta. — Euh? Quem está pagar a cubata?...
Vavó Xica não queria lhe responder e sá Domingas sacudia a vassoura de mateba, com mais raiva. Toneta andou devagarinho em cima da lama vermelha, os pés faziam um barulho que acordou o Zito e o menino subiu esse barulho pelas pernas fortes, até onde adivinhava. E as palavras do primo Chefe gritavam na cabeça, parecia eram desenhos. Mas não era a rapariga do Sete, ele nem lhe conhecia, era Toneta, neta de vavó Xica, mulher-perdida na boca de nosso musseque, amigada com sô Amaral, esse amanuense da Pecuária, magrinho, recurvado, sempre a tossir.
Aiuê! Quantas vezes, nessas horas compridas das noites de calor, não sentiu a raiva dele a crescer dentro do peito e a vontade de fugir embora, derrubar a porta e dar uma surra nesse branco Amaral, deitado com a sua tosse na cama da Toneta, de mataco grande e rijo que ele ficava espiar, tempo parado, debaixo da mulemba de manhã ou queria ver, nu, à tardinha, quando lhe espreitava? A chuva dos beirais batucava no zinco, continuava cair em cima dele mas nada que sentia, não ouvia sá Domingas, arrumando a vassoura, chamando-lhe, zangada:
Xê, Zito! Vai embora, menino. Vai na sua mãe, pode ser ela precisa de você!...
Zito não podia lhe ouvir, só mirava o corpo da Toneta, desenhado na luz que estava entrar na porta da frente, vinha com o barulho da chuva e da brincadeira do Zeca e do Xoxombo, às fimbas na cacimba de água barrenta. Via as mamas bonitas e pesadas, batucando para baixo e para cima, quando Toneta virava, raivosa, nas duas mulheres, insultando e ameaçando. Sá Domingas foi depressa pegar o menino para sair embora na cubata, não ouvir mais as palavras podres, mas Toneta adiantou:
Deixa só o miúdo! Ninguém que vai-lhe comer!
A mão dela, quente, mão cheia do sono da cama, lhe apalpou nas costas todas molhadas, com jeito puxou-lhe para dentro da cubata. Sá Domingas saiu, batendo a porta.
Sem-vergonha! A pensar coisas podres com o menino!
Vavó Xica saiu embora, resmungando, no quintal.
A chuva tinha passado, nuvens negras no céu só poucas, o azul espreitava bonito por todo o lado e um sol amarelo fazia força para romper. Na frente de Toneta, Zito tremia.
Ai, coitado! Vejam só como ficou o pobre, assim molhado!
Nessa hora, que ele tinha esperado tanto tempo, Zito queria falar, queria dizer aquelas conversas o primo Chefe tinha-lhe ensinado para ser homem, estava-lhe doer a Toneta falar assim parecia ele era Zeca ou Xoxombo, mas a garganta não podia, não aceitava.
Vem então! Vou-te limpar. Xê, vem! Não me olha assim!...
Toneta viu os olhos do menino mirando o peito. Na combinação caída as mamas vivas queriam sair.
Ih?! Nunca viste uma mulher? — Toneta riu. — Vem então!
Os pés não obedeceram, mas as mãos quentes lhe empurravam e quando a rapariga entrou no quarto, Zito sentiu uma vontade grande de lhe agarrar, mas não tinha coragem. Quieto, parecia era estátua, deixou as mãos quentes da Toneta tirar a camisa, o coração batia com força.
Aiuê, coitadinho! Olhem só! Todo molhado, pode ficar mesmo doente!
Mas Zito não estava ouvir as palavras de Toneta. Sentia só o macio da voz, seus dentes brancos, o riso dela no escuro da casa. A cama grande, os lençóis mostravam o fundo no meio onde que cheirava ainda o quente do corpo da Toneta, desenhando o mataco quieto e grande, as ancas largas e as compridas pernas rijas. Mas também sô Amaral estava ali: caneca na mesinha, dois frascos, remédio da sua tosse, tinha a calça pendurada na cama.
Uma raiva grande desse velho se mistura no sangue, uma dor forte que fez-lhe encostar na Toneta, abaixada, a limpar-lhe as pernas. Os dedos fortes do menino se enterraram na pele macia, nos ombros redondos de Toneta.
Elá, menino! Cuidado, não estraga...
Levantando os olhos, uns olhos grandes e quietos, Toneta riu os seus dentes brancos do carvão e as mãos esfregaram no peito do menino, suas costas, braços, acariciando e rindo, falando no ouvido dele:
Menino forte, menino bom! Qual é o teu nome?
Zito. José Domingos, quer dizer...
Rindo sempre, levantou devagar mostrando bem nos olhos do menino suas quietas mamas negras e fundas, luzindo no meio do cor-de-rosa sem cor da combinação, perdendo-se no negro fundo da barriga em cima das coxas.
Despe ainda teu calção, para te limpar!
Zito olhou nos olhos da Toneta, admirado. A voz dela era macia e boa e quente e tinha gostado quando estava falar menino forte, menino bom. Mas agora assim de repente, mesmo sorrindo o mesmo sorriso, nua diante dele, tinha falado parecia era voz de mamã Sessá, quando estava voltar sujo na brincadeira. Vendo os olhos quietos do menino envergonhados, Toneta virou séria e, segurando-lhe nos braços, chegou a cara diante dele:
Já sei! Você já é homem, não é, Zito? Não tira só assim os calções!...
Zito deu um puxão e Toneta se amachucou no peito dele. Sentiu bem as mamas macias no seu corpo e o sangue correu zunindo nas orelhas.
Ih! Que é isso? Não zanga comigo, Zito! Se eu quero sou boa, se eu quero sou má!...
As palavras dela, o riso dela e as palavras do primo Chefe não fugiam, desenhavam mesmo figuras na cabeça. Zito encostou então os dedos na cara da Toneta, fez uma força muito grande para falar todas as palavras o primo lhe tinha ensinado, mas a confusão era muita na cabeça. Sentia seu sangue quente, via as mamas assim a baloiçar devagarinho dentro dos seus olhos, a cama lá atrás, a caneca e os frascos de sô Amaral. Deixou as lágrimas que tinha muito tempo dentro dele correr pelo peito, pelas mãos até na cara da Toneta, e só conseguiu dizer:
Eu gosto de ti...
E nem os gritos do Zeca e do Xoxombo, os chamamentos de mamã Sessá na porta da cubata ouvindo de sá Domingas o descaramento daquela sem-vergonha da neta da vavó Xica fizeram parar o Zito. A correr pelos rios de água vermelha, sem camisa, pintando o corpo negro de pequenas manchas encarnadas, desapareceu lá para cima, para os lados do tambarineiro, e só duas horas quase, mamã Sessá e Sebastião Domingos lhe agarraram para a maior surra de ramo de mulemba que o menino tinha apanhado até naquela hora.
Mas todos que espreitavam a pancada, para lhe consolar depois, ficaram admirados na hora que o Zito apareceu e, com seu ar de mais velho mesmo, sorriu para eles ainda com as lágrimas e só disse:
Pópilas! Andava a precisar esta porrada!

José Luandino Vieira, in Nosso Mussuque

21/11/2022

Os casos


Uma paz que vinha de tempos antigos, que nem eu nem os outros miúdos do musseque lembrávamos, mas as mães e os homens, nas portas, à noite, conversavam agora, manteve amigas e vizinhas aquelas famílias, mesmo com as conversas e confusões e as zangas e as pazes que, às vezes, pareciam estragar a vida, mas que eram afinal essa paz de longa vizinhança e amizade...
Assim falavam o mestre de barco de cabotagem, don’Ana, Sebastião Domingos Mateus, pai do Zito, até mesmo o pai do Zeca, antigo já ali no musseque. E essa paz que não sabíamos e que vinha, no cacimbo, com as manhãs orvalhadas e no calor com o sumo dos cajus em Dezembro, que voava em bandos de gungos e januários e nos rodeava no capim das primeiras chuvas, começou a ser falada com saudade e com medo na hora que, pela Ingombota acima, telhados vermelhos de casas começaram espreitar o nosso musseque com seus olhos invejosos.
Muitos papéis da Câmara tinham sido entregues nas pessoas lá para os lados do Braga e a gente soube, meses mais tarde, que o tractor veio com os serventes e deitou abaixo as casas, alisando o terreno. E as pessoas que não tinham acreditado no papel tiravam suas coisas nas cubatas, nas corridas, na hora dos serventes despregarem as chapas de zinco e, ainda quentes dos moradores, as paredes resistiam na faca do tractor, para depois, duma vez só, a máquina entrar por cima de tudo, no meio da poeirada vermelha do barro desfeito. Homens de sombrinha e óculo para espreitar punham sinais com os braços e monangambas andavam com umas tábuas riscadas. Camionetas começavam a carregar burgau e areia do Bungo. E a paz do nosso musseque, mesmo com o capim verdinho e os cajus ao sol de Janeiro, cheirava às vezes ao fumo do tractor e cobria-se de fina nuvem de poeira que o vento do Mussulo empurrava, à tarde, para cima de nós.
Nosso azar também chegou.
Foi numa manhã. De todas as famílias de nosso musseque, só o pai do Biquinho recebeu papel, estavam morar longe, para lá do imbondeiro, perto já do Braga. Sô Augusto disparatou o branco que lhe entregou o aviso, ameaçou destruir a Câmara, foi buscar o livro, mas nga Xica apareceu, pediu desculpa e meteu o homem na cubata, antes que passasse mais confusão. E quando passavam os que estavam fugir lá mais para cima, Burity, Terra Nova, com as imbambas e os monas pelo areal fora, sô Augusto vinha com o livro aberto, ameaçava:
Não saio de minha casa! Pago a renda, ninguém me tira nem com a porrada!
Ouve ainda, mano Augusto, você sabe com a Câmara é assim…
Sô Augusto crescia os olhos parecia onça e arreganhava:
E o que eu inventei? Só carrego no botão...
Nga Xica ainda andou procurar casa noutro sítio mas, cada dia que saía, ninguém que ficava para fazer o trabalho e a comida depois faltava. A gente via o tractor correr pelo capim, com os dentes amarelos a destruir tudo e avisava nga Xica: um dia ia de chegar ali e, depois, sucedia como a senhora Fefa que escapou morrer dentro da cubata.
Branco não tem coração! Chegam aí, nem que você se põe lá dentro, mana, derrubam!
Nga Xica não aceitava. Ela mesma queria se convencer, pensava ia pedir no homem do tractor, lhe deixava ficar. Estava morar muito longe das casas novas, não iam precisar a cubata dela para nada. Sá Domingas vinha, aconselhava; capitão foi ainda falar no sô Augusto para fazer um pedido no sô Laureano da Câmara, mas era difícil não lhe encontrar bêbado e ameaçador.
E o tempo correu, os cajus maduros caíram no chão e o capim começou a ficar seco. Biquinho saiu na escola, foi na oficina. Zito, com uma confusão do dinheiro do doceiro, lhe levaram na esquadra. Com as férias e muito sol, sem esses dois companheiros, nesse dia em que o tractor apareceu outra vez, amarelo e novo, correndo pelo areal, fumando o fumo preto e ameaçando com a faca bem afiada, eu, o Zeca Bunéu e o Xoxombo estávamos brincar às quigozas. Era um jogo que cansava. De tarde, sem vontade, ficámos debaixo da gajajeira falando nossas conversas.
O dia estava bonito, os bigodes do Zito cantavam na gaiola de alçapão do menino. De noite tinha caído uma chuva muito boa que molhou bem a terra vermelha, refrescou o ar e lavou os ramos dos paus que cresciam pelo capim. As flores brancas, as buganvílias, as mandioqueiras cheiravam até dentro das cubatas.
Quatro horas já passava. O sol não magoava mais e essa tarde ia ser uma calma tarde de férias mas o tractor veio logo de manhã. Com sua voz rouca, vomitando fumo estragava o vento até debaixo do pau onde estávamos. Nga Xica sentiu o barulho, veio na porta mas depois, vendo-lhe lá muito longe, voltou para dentro fazer o matete do Biquinho. E só quando o filho saiu embora foi acordar sô Augusto que estava dormir na esteira.
O tractor veio...
E depois? Tenho nada com isso?
Ai homê, não fala assim só. Você não percebe vem para nos correr?
Sô Augusto bocejou e virou no outro lado. Nga Xica, com aquele pressentimento no coração, saiu e foi aconselhar com suas vizinhas. Sá Domingas achou o melhor era ir mesmo falar com o homem do tractor para saber a verdade.
P’ra quê você tem um homem, mana? P’ra quê então? Ala chiça! Ele é que vai falar no branco!
E quando nga Xica saiu mais confortada, caminho de casa, Xoxombo, que espreitou a conversa, veio nos avisar; mas nessa manhã nada que sucedeu. O tractor estava ainda trabalhar longe, lá em cima, nos cajueiros grandes e só o barulho e o fumo dele é que chegavam dentro da cubata.
Onze horas já sô Augusto saiu sem falar na mulher e nga Xica, o coração apertado, ficou na porta ora olhando o homem afastar pelo capim ora espreitando a máquina amarela a rugir lá em cima contra os troncos dos cajueiros velhos. Mas só mesmo depois das quatro horas é que sucedeu. O tractor virou para baixo, caminho do Makulusu, e veio com depressa, correndo por cima da areia e do capim, engolindo os quinjongos, espantando os catetes. A faca, na frente, afiada, brilhava no sol. Nga Xica estava na porta, pequeno descanso depois da selha, e o barulho do motor adiantou nas suas orelhas. A mãe de Biquinho levantou e o vento encostou no seu corpo de miúda magrinha o barulho da máquina.
Aiuê Ngana Zambi’ê! Chegou a hora!...
Nem que fechou a porta, apanhou o papel que o branco tinha trazido muito tempo e começou a correr, chorando e gritando:
Nakuetu’ê! Vizinhos, acudam! Minha desgraça!
Xoxombo e Zeca foram os primeiros a ouvir. O Antoninho desceu da gajajeira e nos avisou:
Mãe do Biquinho vem aí com as corridas!
Quando nga Xica chegou na cubata do capitão já don’Ana, a mãe do Zito, dona Branca e os meninos estavam a lhe esperar.
Aiuê, lamba diami! O tractor está a vir mesmo.
Deixa ainda, Xica! Calma!
Não posso, não posso, mana! Como vou fazer então? Ninguém p’ra me ajudar.
A mãe do Biquinho abanava a cabeça para todos os lados e dos olhos usados as lágrimas corriam. Sá Domingas entrou em casa dela, calçou suas sandálias, e com Carmindinha e Tunica disse nas vizinhas:
Quem quiser vem nos ajudar. Se Bento estava, ele ia falar no branco, talvez o homem aceita esperar...
É melhor mesmo!
Com os miúdos atrás gabando o tractor e nga Xica no meio já com as lágrimas caladas, o grupo partiu pelo carreiro no meio do capim, debaixo dos olhares de dona Branca, na porta com seu marido, mestre sapateiro, dizendo:
Deixa lá! Não temos nada com isso!
Ó homem, mas a desgraçada vai ser posta na rua. Podias ir lá falar...
Já foram avisados há muito tempo!
Quando chegaram, o tractorista já tinha descido do tractor. A máquina, calada agora, olhava de frente a cubata, a faca no chão, e um monangamba despejava gasóleo no depósito. Os meninos adiantaram correr e nga Xica avançou para a cubata. O tractorista andava dentro da casa, ouvia-se a voz dele a chamar:
Não há ninguém em casa? Raça de negros!…
Sá Domingas adiantou com a vizinha e chocaram com um homem baixo e gordo, na saída da porta. Nga Xica insultou:
Xê, ngueta! Então o senhor entra assim na casa do outro, sem pedir licença nem nada?!
Não há direito, abusar assim as pessoas! — don’Ana levantou o punho na direcção dele.
Agarrado assim, o homem olhou o grupo de mulheres paradas, outras com os monas pela mão e, depois, mudando de conversa, falou bem:
Não tenho culpa. Bati, não estava ninguém...
E entrou logo assim, não é? Na casa leia?
Está bem, já acabou. Quem é o dono?
Nga Xica adiantou.
O teu homem?
Não está.
Não receberam um papel a avisar para ir embora até ao fim do mês?
Recebemos. Mas a gente não encontrámos cubata para mudar.
O tractorista sorriu.
Chiça! Em três meses não encontraram cubata? Queriam um palácio?
Verdade, senhor! — meteu don’Ana. — A gente lhe ajudámos a procurar.
Cala a boca! É tudo uma cambada de aldrabões.
Sá Domingas, don’Ana e a mãe de Zito ainda insistiram, o homem não aceitou. Refilou que tinha ordens, a Câmara tinha avisado e agora mesmo ia deitar a cubata abaixo. Um murmúrio de protesto se levantou do grupo da gente reunida, ganhou força, aumentou e algumas vozes insultaram:
Ngueta da tuji!
Cangundo ordinário!
Saindo no meio das amigas, nga Xica correu para casa e pôs o seu corpo magro a tapar a porta. Batido pelo vento, o vestido parecia uma bandeira.
Você, seu cangundo, estás a fazer pouco porque são as mulheres, não é? Senão te rebentávamos as fuças!
Pena o homem dela não estar! Escolheu mesmo a hora!...
O tractorista surpreso olhava as mulheres zangadas, a mãe do Biquinho na porta com a vassoura e os serventes, escondidos atrás do tractor, riam os casos em quimbundo.
Mandou:
Dou meia hora, se quiserem tirar as imbambas. Depois disso, faço o que me mandaram. A cubata já devia estar vazia!
Então vem cá, vem cá, cangundo! Te rebento-te as fuças!
Nga Xica nem parecia a senhora que a gente conhecia. Todas as veias do pescoço e dos braços se viam debaixo da pele e a vassoura fazia voltas de ameaça. As mulheres murmuravam, umas insultando, outras pedindo o favor de deixar ficar uns dias até arranjar outra casa. O tractorista, todo suado, olhava ora umas ora outras, mas não queria aceitar. Só quando a mãe do Biquinho, sem pensar mais nada, a gritar parecia era maluca, lhe pôs vassourada é que ele fez qualquer coisa. Agarrou-lhe na cintura e começou lutar para tirar a vassoura. Don’Ana e as outras amigas correram, os miúdos começaram a uatobar, os serventes rindo a bater as palmas e o tractorista, num minuto, estava cercado por um grupo ameaçador de mãos fechadas e bocas gritando. Berrou por cima do barulho todo, empurrou as mulheres uma a uma e depois falou, tentando convencer:
Não tenho a culpa do que se passa! Porra! Fui mandado! Tenho que deitar abaixo a cubata hoje, amanhã vem o Presidente para ver o terreno. Merda!... Tirem as imbambas da cubata senão eu deito abaixo assim mesmo!
Nga Xica se atirou no chão a chorar de raiva, batendo mãos e pés na areia, insultando sô Augusto.
P’ra quê uma mulher tem homem? P’ra quê? Só para dormir na cama e fazer filhos? Bêbado, vadio!
As vizinhas lhe ajudaram a levantar e sacudiram a poeira da infeliz, lhe empurravam para a cubata. Os soluços e as lamentações chegavam cá fora e nem os serventes mesmo estavam rir mais. A gente viu o tractorista falar zangado as asneiras e andar para cima da máquina nos dando berrida, gritando parecia a gente ia-lhe comer no tractor. Pôs o motor a trabalhar, enchendo o ar com o cheiro podre do fumo preto, e as vizinhas e as meninas adiantaram trazer para fora as mobílias da família do Biquinho. A gente corremos também para lhes ajudar e todo o mundo, parecia era formigas, começou a trabalhar.
Fazia pena ver assim tudo atirado no chão de areia, aquelas coisas a gente conhecia, cada qual no seu sítio dentro da casa, bem arrumadas. Agora ali, no sol da tarde, tudo parecia era porcaria, lixo. Na sombra da casa, na arrumação de nga Xica, esses objectos falavam na gente. O moringue dizia água fresquinha, a caneca falava quicuerra, as quindas farinha fina, farinha musseque... Posto tudo assim no chão, à toa, com depressa, para salvar, parecia mas é uma dixita.
As esteiras onde que estava nga Xica e sô Augusto, a cama de ferro do Biquinho, velha e enferrujada, onde a gente tantas vezes pelejava, parecia era sucata. No lençol branco, os percevejos começavam passear assustados no sol e no barulho. As cadeiras sem o verniz muito tempo, a mesa com suas nódoas da comida saíam, e nga Xica e as vizinhas carregaram a sanga e a pedra, o fogareiro, os luandos, as panelas, os balaios...
Ficámos muito tristes a ver as coisas assim, a mala de madeira do Biquinho onde depois don’Ana veio meter a saca da escola, a pedra e o livro da segunda. O tractorista com mais respeito agora parecia, o motor estava calado e os serventes adiantaram ajudar a retirar tudo da cubata. Nga Xica veio com aquele velho quadro do Sagrado Coração de Jesus e outro, aquele que o Biquinho fez com o retrato do Presidente Carmona, e atirou-lhes também no monte.
Eram mais de cinco horas, o sol já não queimava nada e algumas lavadeiras e outras pessoas que adiantaram sair nos serviços começavam já passar, parando para perguntar, saindo depois a lamentar a sorte da vida.
Quando tudo estava já cá fora estendido no areal, os serventes adiantaram então tirar as portas e janelas. Nga Xica desatou a chorar. A cubata olhava as pessoas parecia tinha pena também. Ali tinha nascido Biquinho, ali tinha vivido tanto tempo, não acreditava ia sair naquela hora. As paredes vazias mostravam o sítio dos quadros, o sujo das moscas, os pregos espetados, as manchas de água da chuva. E depois, quando os serventes tiraram as chapas de zinco, ficaram de repente feias, todas nuas e velhas no sol sem telhado.
Ficámos todos calados. Podia se ouvir o vento nos paus, pássaros voando baixo, vozes de outra gente longe, o respirar suado dos monangambas a arrancar os zincos e o barulho das chapas a cair na areia. As amigas de nga Xica e as meninas mais velhas tinham sentado nas coisas espalhadas no chão, pensativas e tristes, e a mãe do Biquinho chorava um choro silencioso, só lágrimas.
Pronto! Agora é que vai! Fujam, que podem apanhar com algum bocado!
O tractorista estragou assim aquele silêncio e a voz grossa dele ficou parecia corvo a ameaçar desgraça. O tractor gritou alto, cuspindo fumo e rapidamente, com a faca bem afiada onde o sol batia, a máquina correu para a cubata e encostou-lhe, gemendo e bufando. Sentiam-se as paredes a resistir, o barro vermelho e as canas de mãos dadas a aguentar, gemendo baixinho, mas, depois, tudo era só um grande barulho e bocados de barro e canas e poeira vermelha subindo no ar, com o vento do mar a enxotar para longe e a máquina amarela a correr maluca com o tractorista a tossir. A casa onde que tinha nascido Biquinho, o nosso silencioso companheiro, era só restos de paredes meio caídas que, com pequenos golpes da faca do tractor, caíam sem força já para ficar ainda de pé a falar uma vitória que não podiam ter.
As mães e as meninas, que tinham fugido, vieram a correr outra vez, para sacudir o pó das imbambas e afastar para o tractor acabar o trabalho. Os meninos, admirados, miravam com os olhos bem abertos a máquina feiticeira, alisando o chão, fazendo desaparecer tudo na frente dela, nada que podia resistir, era dona.
Nga Xica, sá Domingas, a mãe do Zito e as outras vizinhas começaram arrumar tudo para levar no Bairro Operário. A mãe do Biquinho ia lá para cima onde que estava viver a irmã, na cubata dela ainda tinha lugar e nga Xica ia pedir, naquela hora de pouca sorte, para deixar viver os três num quarto. O melhor era mesmo para o Biquinho, o trabalho ia ficar mais perto, era só descer as barrocas e já estava na oficina da Boavista.
E agora, mana, para levar as mobílias, como vai fazer?
Não sei nada! Espero Augusto. Poça! Esse homem tem que resolver!
Sukuama! Se você fica esperar aquele bêbado, vai dormir com as coisas mesmo aqui. O melhor é a gente adiantar pedir no branco do tractor...
Ih!? Não aceita!
Com jeito a gente pede. A carrinha dele está lá, debaixo do cajueiro. Lhe vejo daqui.
Pede você, mana! Eu não posso mais. Minha raiva é muito grande. Se lhe apanho naquele bêbado…
Sá Domingas puxou seu pano no ombro e andou para o pau onde o tractorista estava já com o tractor parado, limpando as mãos.
O que é, mais reclamações?!
Não é! O senhor ouve ainda. Esta minha amiga, marido dela é doente. O senhor sabe as coisas estão pesadas para a pobre levar, é sozinha...
E depois?
Se o senhor fazia o favor podia-lhe levar nas coisas pesadas na carrinha, era um grande favor...
O tractorista olhou espantado sá Domingas.
Homessa! Você é maluca ou quê? A carrinha é da Câmara!
Ficou um tempo a pensar, olhando a mãe do Xoxombo, as outras mulheres, as imbambas espalhadas pelo areal. Os olhos de toda a gente estavam postos na boca dele. Percebeu a espera e, sem falar uma palavra, afastou-se muito devagar para o cajueiro e veio depois com a carrinha.
Eh! João e Toko! Carreguem as imbambas na carrinha, depressa!
As mulheres agradeceram com muitas palavras e nga Xica veio ainda desculpar a vassoura, mas sabe o marido é doente, o filho está embora a trabalhar na oficina e como é que uma pobre ia fazer então?
Tá bem, ’tá bem, já conheço essa conversa...
Com a carrinha carregada, toda a gente despediu de nga Xica desejando felicidades, prometendo avisar Biquinho e sô Augusto e também dona Guilhermina por causa dos doces. A mãe do nosso amigo estava para subir na carroçaria mas o homem do tractor aí mandou-lhe mesmo na frente. A carrinha arrancou, no meio dos gritos e adeus e a gente aproveitávamos para quigozar um bocado.
Ai, mana! — dizia sá Domingas para don’Ana, areal abaixo, caminho das cubatas. — Alguns brancos ainda são bons. Se não fosse ele, a pobre ia dormir ali!
Don’Ana não aceitava, falava se fossem bons não mandavam mesmo partir as cubatas sem dar outras, mas as amigas desviavam e atacavam sô Augusto:
Culpa é do homem dela! Lhe avisaram com tempo.
A coitada não tem a culpa, é verdade.
E o sol caía no fim da tarde, muita gente regressando em suas casas, cruzando os caminhos de todos os dias, admirados de não encontrarem mais aquela cubata ali, perguntando saber o que passava. Com muitos gestos, imitando o tractor, Zeca Bunéu contava a confusão. O Xoxombo ajudava e as pessoas seguiam pelos carreiros acima, falando ou pensando sozinhas nesta vida. Ainda naquela hora da manhã, quando iam para baixo, bem que viram a mulher na porta, raspando a língua, e agora? Nem o sítio da casa estava lá. Só uma mancha mais vermelha que o resto do caminho, canas partidas e torrões de barro seco.
Ali ficámos sentados, conversando o assunto, brincando no tractor que um servente estava tomar conta. Sá Domingas nos tinha pedido para avisar no Biquinho quando ele voltasse no serviço ou falar no sô Augusto. Era noite quase quando o nosso silencioso companheiro apareceu. Não foi preciso a gente lhe contar nada: ele nos afastou, andou em cima dos torrões e do sítio do quarto dele, ficou ali parado muito tempo. Depois, bem de frente, cuspiu no tractor, insultou-lhe com todas as asneiras que a gente sabia e começou chorar baixinho sem falar para ninguém. Só o Xoxombo é que adiantou, mais tarde:
Vai ainda, Biquinho! Tua mãe foi na casa da mamã Lolota, no Bairro Operário.
Mas o Biquinho não aceitou. Se sentou no chão, deixou de chorar e começou falar na gente, a cubata, o tractor, o aviso.
Bem que disse no meu pai para adiantar procurar casa...
Mais satisfeitos com esta conversa, sentíamos a noite sair e só as palavras se ouviam porque a lua ainda não tinha nascido e Biquinho contou para nós o patrão lhe dera aumento, estava gostar muito ser electricista e ia pedir no pai o livro dele para estudar mais.
Mas como então, Biquinho?! Se você sabe ler pouco ainda.
Pois é, Zeca! Mas assim aprendo a ler e a electricidade!
Mais tarde, pelo caminho do imbondeiro que sai na quitanda do Rascão, a gente adiantou ouvir uma voz conhecida falando as máquinas de destruir casas e cantigas de ameaças, soubemos porquê o Biquinho não tinha aceitado ir embora. O nosso companheiro estava à espera do pai e pediu para irmos nas nossas casas.
Xoxombo despediu, prometendo ir com o Zeca Bunéu brincar no domingo, mas Biquinho não aceitou:
Deixa, Xoxombo! Agora eu vou morar muito longe... e no domingo quero estudar.
De mão dada com Xoxombo, e Zeca Bunéu a assobiar para assustar o medo, viemos para nossas casas, pelo alto capim fora. Quando passámos no imbondeiro, a lua já estava nascer atrás do Tanque d’Água. Olhámos no sítio da cubata do Biquinho. De lá, o tractor amarelo estava nos mirar, debaixo da sua lona. O servente que tomava conta já tinha acendido uma fogueira para cozinhar o jantar. E na luz branca da lua que nascia e do fogo da fogueira, a gente viu o Biquinho ainda sentado no chão e sô Augusto de pé, em cima dos bocados de barro duro espetado de canas, o livro numa mão e a outra apontando ameaçadora pelo areal abaixo.
Pópilas, Zeca! Mira só! — disse o Xoxombo. — Parece mesmo aqueles homens que andam falar a chegada do castigo do Céu, que estão lá na Bíblia!
Senti o Zeca Bunéu encostar-se mais a mim e, a assobiar, os três viemos para casa muito calados.

José Luandino Vieira, in Nosso Mussuque