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26/02/2026

Dr. H. A. Moynihan



Eu odiava a escola St. Joseph’s. Aterrorizada pelas freiras, eu bati na irmã Cecilia num dia de calor texano e fui expulsa da escola. Como punição, tive que trabalhar todos os dias das férias de verão no consultório do meu avô dentista. Eu sabia que o verdadeiro motivo do castigo era que eles não queriam que eu brincasse com as crianças da vizinhança, que eram mexicanas e sírias. Não havia negros, mas isso era só uma questão de tempo, segundo minha mãe.
Tenho certeza de que eles também queriam me poupar de ver Mamie morrendo, dos gemidos dela, das suas amigas rezando, do fedor e das moscas. À noite, com a ajuda da morfina, ela cochilava, e então minha mãe e meu avô iam beber sozinhos em seus respectivos quartos. Eu ouvia o gorgolejo de seus respectivos uísques da varanda onde eu dormia.
Meu avô mal falou comigo o verão inteiro. Eu esterilizava e enfileirava os instrumentos dele, prendia babadores em volta do pescoço dos pacientes, entregava o copinho com antisséptico bucal e falava para eles cuspirem. Quando não havia nenhum paciente, vovô ia para sua oficina para fazer dentes ou para seu escritório para colar recortes. Eu não estava autorizada a entrar em nenhum dos dois cômodos. Ele colava artigos de Ernie Pyle e sobre Franklin Delano Roosevelt; tinha álbuns de recortes separados para as guerras japonesa e alemã. Também tinha álbuns sobre Crimes, Texas e Acidentes Insólitos: Homem se enfurece e joga uma melancia pela janela de um apartamento de segundo andar. A fruta atinge a cabeça da mulher dele e a mata, depois atinge o bebê dentro do carrinho e o mata também, e nem sequer chega a rachar.
Todo mundo odiava o meu avô, menos Mamie, e eu, acho. Toda noite ele ficava bêbado e mau. Era cruel, intolerante e orgulhoso. Tinha dado um tiro no olho do meu tio John durante uma briga e envergonhado e humilhado a minha mãe a vida dela inteira. Ela nunca falava com ele, nunca sequer chegava perto dele por ele ser tão sujo e porco, sempre esparramando comida e cuspindo, deixando cigarros molhados em toda parte. Vivia coberto de pintas brancas, do gesso dos moldes de dentes, como se fosse um pintor ou uma estátua.
Ele era o melhor dentista do oeste do Texas, talvez até do Texas inteiro. Muita gente dizia isso, e eu acreditava. Não era verdade que os pacientes dele eram todos velhos beberrões ou então amigos de Mamie, como a minha mãe dizia. Homens respeitáveis vinham até mesmo de Dallas ou de Houston para se tratar com o meu avô porque ele fazia dentaduras maravilhosas. As dentaduras que ele fazia não saíam do lugar nem assobiavam, e eram iguaizinhas a dentes de verdade. Ele tinha inventado uma fórmula secreta para deixá-las da cor certa e às vezes fazia até dentes lascados ou amarelados e com obturações e coroas.
Não deixava ninguém entrar na oficina dele, a não ser os bombeiros, naquela única vez. A oficina não via uma faxina fazia uns quarenta anos. Eu entrava lá quando ele ia ao banheiro. As janelas estavam pretas de sujeira, gesso e cera. A única luz vinha das chamas azuladas e tremeluzentes de dois bicos de Bunsen. Havia enormes sacos de gesso empilhados junto às paredes, vertendo pó num chão coberto de cacos de moldes de dentes, e potes cheios de dentes soltos, cada pote com um tipo diferente de dente. Bolotas de cera rosa e branca grudavam-se às paredes, com teias de aranha penduradas. As prateleiras estavam abarrotadas de ferramentas enferrujadas e de fileiras de dentaduras sorrindo ou fazendo carranca, de cabeça para baixo, como máscaras de teatro. Ele cantarolava enquanto trabalhava, suas guimbas de cigarro volta e meia ateando fogo em bolotas de cera ou em embalagens de bombom. Então, ele jogava café no fogo, manchando o chão coberto de gesso de um tom escuro e cavernoso de marrom.
A oficina dava passagem para um pequeno escritório, onde havia uma escrivaninha de tampo corrediço, sobre a qual vovô colava recortes nos seus álbuns e preenchia cheques. Depois de assinar, ele sempre sacudia a caneta, fazendo pingar tinta preta sobre a assinatura e, às vezes, borrando o valor, de modo que o banco tinha que telefonar para conferir de quanto era o cheque.
Não havia porta entre a sala onde ele atendia os pacientes e a sala de espera. Enquanto trabalhava, ele virava para trás para conversar com quem estava na sala de espera, gesticulando com a broca na mão. Os pacientes que haviam extraído dentes se recuperavam numa espreguiçadeira; o resto se sentava nos peitoris das janelas ou nos radiadores. Às vezes, alguém se sentava na cabine telefônica, um cubículo de madeira com um telefone público, um ventilador e uma placa que dizia: “Eu nunca conheci um homem de quem não gostasse”.
Não havia nenhuma revista na sala de espera. Se alguém trouxesse uma e a deixasse por lá, vovô a jogava fora. Minha mãe dizia que ele só fazia isso para ser do contra. Ele dizia que era porque ver pessoas sentadas lá folheando revistas o deixava maluco.
Quando não estavam sentados, os pacientes ficavam zanzando pela sala, mexendo nos objetos pousados em cima dos dois cofres. Budas, caveiras com dentaduras presas com arame para abrir e fechar, cobras que mordiam quando você puxava o rabo, globos de vidro que nevavam quando virados de cabeça para baixo. No teto havia uma placa: POR QUE RAIOS VOCÊ ESTÁ OLHANDO AQUI PARA CIMA? Os cofres continham ouro e prata para as obturações, maços de dinheiro e garrafas de Jack Daniel’s.
Em todas as janelas, que davam para a rua principal de El Paso, havia grandes letras douradas que diziam: “Dr. H. A. Moynihan. Eu não trabalho para negros”. As placas se refletiam nos espelhos pendurados nas três paredes restantes. O mesmo aviso estava escrito na porta que dava para o hall. Eu nunca me sentava de frente para aquela porta, por medo de que negros passassem ali e olhassem para dentro da sala por cima do aviso. Mas nunca vi um único negro no edifício Caples, a não ser Jim, o ascensorista.
Quando alguém telefonava para marcar consulta, vovô me mandava dizer que ele não estava mais aceitando pacientes. Então, à medida que o verão passava, havia cada vez menos coisa para fazer. Por fim, pouco antes de Mamie morrer, já não havia mais paciente algum. Vovô simplesmente ficava trancado dentro da oficina ou do escritório. Eu ia para o terraço às vezes. Dava para ver a cidade de Juárez e todo o centro de El Paso lá de cima. Eu escolhia uma pessoa na multidão e a acompanhava com os olhos até que ela desaparecesse. Mas a maior parte do tempo eu ficava no consultório mesmo, sentada no radiador e olhando para a Yandel Drive lá embaixo. Passava horas decodificando cartas da seção de correspondência do Capitão Marvel, embora isso não tivesse a menor graça; o código era sempre A no lugar de Z, B no lugar de Y e assim por diante.
As noites eram longas e quentes. Mesmo quando Mamie dormia, as amigas dela ficavam lá, lendo passagens da Bíblia, às vezes cantando. Vovô saía, ia para o clube ou para Juárez. O motorista do táxi da companhia 8-5 o ajudava a subir a escada. Minha mãe saía, segundo ela, para jogar bridge, mas também voltava para casa bêbada. As crianças mexicanas brincavam na rua até bem tarde. Eu ficava observando as meninas da varanda. Elas jogavam o jogo das pedrinhas, agachadas no chão de concreto, à luz do poste de iluminação. Eu morria de vontade de brincar com elas. O som das pedrinhas parecia mágico, o arremesso delas era como uma vassourinha arrastando num tambor ou como a chuva quando uma lufada de vento a empurra de encontro ao vidro da janela.
Uma manhã, quando ainda estava escuro, vovô me acordou. Era domingo. Eu me vesti enquanto ele chamava um táxi. Para chamar um táxi, ele pediu à telefonista que o ligasse com a 8-5 e, quando atenderam, ele perguntou: “Dá pra fazer uma viagenzinha hoje?”. Ele não respondeu quando o motorista do táxi perguntou por que estávamos indo para o consultório num domingo. A portaria estava escura e assustadora. Baratas corriam pelos ladrilhos e revistas mostravam os dentes para nós de trás de grades. Vovô conduziu o elevador, dando um solavanco para cima e para baixo e depois para cima de novo feito um maníaco, até que finalmente paramos um pouco acima do quinto andar e pulamos. Tudo ficou muito silencioso depois que paramos. Só o que se ouvia eram sinos de igreja e o bonde de Juárez.
No início eu fiquei com medo de entrar na oficina atrás dele, mas depois ele me puxou lá para dentro. Estava escuro, como uma sala de cinema. Ele acendeu os bicos de Bunsen resfolegantes. Eu continuei sem entender, sem conseguir ver o que ele queria que eu visse. Ele pegou uma dentadura de cima de uma prateleira, pousou-a no bloco de mármore e a empurrou para perto da chama. Eu sacudi a cabeça.
Continua olhando.” Vovô abriu bem a boca e eu olhei para os dentes dele, depois para a dentadura e para os dentes dele de novo.
São iguais!”, eu disse.
A dentadura era uma réplica perfeita dos dentes na boca do meu avô; até as gengivas tinham o mesmo tom feio, pálido e doentio de rosa. Alguns dentes estavam obturados e rachados, outros lascados ou gastos. Ele só tinha modificado um dente, um dos da frente, no qual tinha posto uma coroa de ouro. Era isso que a tornava uma obra de arte, ele disse.
Como foi que você conseguiu fazer todas essas cores?”
Ficou bom à beça, né? Então… é a minha obra-prima ou não é?”
É.” Eu apertei a mão dele. Estava muito feliz por estar ali.
Como é que você vai encaixar a dentadura?”, eu perguntei. “Ela vai encaixar?”
Normalmente, ele arrancava todos os dentes, deixava as gengivas cicatrizarem, depois fazia uma impressão da gengiva desdentada.
Tem uns caras novos fazendo desse jeito. Você tira a impressão antes de arrancar os dentes, faz a dentadura e a encaixa antes que as gengivas tenham chance de encolher.”
Quando você vai arrancar os dentes?”
Agora mesmo. Somos nós que vamos arrancar. Vai lá preparar as coisas.”
Eu liguei o esterilizador enferrujado na tomada. O fio estava puído e soltou faíscas. Vovô correu em direção ao fio. “Deixa para lá esse…”, mas eu protestei. “Não. Eles têm que ser esterilizados”, e ele riu. Depois, botou sua garrafa de uísque e seus cigarros em cima da bandeja, acendeu um cigarro, encheu um copo de papel de Jack Daniel’s e se sentou na cadeira. Eu ajeitei o refletor, botei um babador no meu avô e apertei o pedal para fazer a cadeira subir e se inclinar.
Aposto que vários pacientes seus gostariam de estar no meu lugar.”
Aquele troço já está fervendo?”
Ainda não.” Enchi alguns copos de papel com antisséptico bucal e peguei um pote de sais aromáticos.
E se você desmaiar?”, perguntei.
Ótimo. Aí você pode arrancar todos. Você tem que segurar o dente o mais perto da gengiva que você puder e depois torcer e puxar ao mesmo tempo. Me dá uma bebida.” Eu entreguei um copo com antisséptico pra ele. “Engraçadinha.” Servi um copo com uísque.
Nenhum dos seus pacientes ganha bebida.”
Eles são meus pacientes, não seus.”
Pronto, está fervendo.” Esvaziei o esterilizador dentro da cuspideira e estendi uma toalha. Usando outra toalha, arrumei os instrumentos em arco em cima da bandeja sobre o peito dele.
Segura o espelhinho pra mim”, ele disse e pegou o alicate.
Subi no apoio para os pés, entre os joelhos do meu avô, para segurar o espelho perto do rosto dele. Os primeiros três dentes saíram fácil. Ele os entregou para mim e eu os joguei dentro do barril perto da parede. Os incisivos foram mais difíceis, um deles em particular. Vovô engasgou e parou, a raiz do dente ainda presa na gengiva. Ele fez um barulho estranho e pôs o alicate na minha mão. “Pega!” Eu puxei o dente. “Usa a tesoura, sua idiota!” Eu me sentei na placa de metal entre os pés dele. “Só um instante, vô.”
Ele esticou o braço por cima de mim para pegar a garrafa de uísque, bebeu, depois pegou outra ferramenta da bandeja. Começou a extrair o resto dos dentes de baixo mesmo sem o espelho. O som era como o de raízes de árvores sendo arrancadas do solo congelado no inverno. Gotas de sangue caíam na bandeja, ploc, ploc, e na placa de metal onde eu estava sentada.
Ele começou a rir tão alto que eu achei que ele tinha enlouquecido. Depois, desabou em cima de mim. Assustada, eu dei um pulo tão grande que o empurrei de volta para a cadeira inclinada. “Arranca o resto!”, ele disse, arfando. Eu estava com muito medo e, por um instante, fiquei me perguntando se seria assassinato se eu arrancasse os dentes restantes e ele morresse.
Arranca!” Ele cuspiu uma pequena cascata vermelha queixo abaixo.
Fiz a cadeira se inclinar totalmente. Ele estava mole, não parecia sentir nada enquanto eu puxava os dentes superiores de trás para o lado e para fora. Ele desmaiou, seus lábios se fechando feito conchas cinzentas de marisco. Eu abri a sua boca e enfiei uma toalha de papel lá no fundo, de um dos lados, para poder arrancar os três dentes de trás que faltavam.
Não restava mais dente nenhum. Tentei abaixar a cadeira com o pedal, mas bati na alavanca errada e acabei fazendo meu avô girar, espalhando pingos de sangue pelo chão. Eu o deixei lá, a cadeira rangendo lentamente até parar. Eu queria pegar uns saquinhos de chá; meu avô costumava fazer os pacientes morderem saquinhos de chá para estancar o sangramento. Revirei as gavetas de Mamie: talco, santinhos, obrigado pelas flores. Os saquinhos de chá estavam numa lata, atrás do fogão portátil.
A toalha de papel que eu tinha posto na boca do meu avô estava encharcada de sangue agora. Joguei-a no chão, enfiei um punhado de saquinhos de chá na boca dele e apertei os maxilares um contra o outro. Gritei. Sem dente nenhum, o rosto dele parecia uma caveira, ossos brancos em cima do pescoço ensanguentado. Um monstro medonho, um bule de chá que ganhou vida, com etiquetas amarelas e pretas de chá Lipton penduradas como enfeites de Carnaval. Corri para telefonar para a minha mãe, mas não tinha moeda para fazer a ligação. Não consegui virar o meu avô para alcançar os bolsos dele. Ele tinha mijado na calça; gotas de urina pingavam no chão. Volta e meia uma bolha de sangue aparecia na narina dele e estourava em seguida.
O telefone tocou. Era minha mãe. Ela estava chorando. A carne assada, um bom almoço de domingo. Com pepino, cebola e tudo, exatamente como Mamie fazia. “Socorro! O vovô!”, eu disse e desliguei.
Ele tinha vomitado. Ah, que bom, pensei, e depois ri, porque era uma coisa idiota pra se pensar “ah, que bom”. Joguei os saquinhos de chá no meio da porcaria amontoada no chão, molhei algumas toalhas e limpei o rosto dele. Abri o pote de sais aromáticos debaixo do nariz do meu avô, depois cheirei os sais eu mesmo e estremeci.
Meus dentes!”, ele berrou.
Não tem mais dente”, eu disse, como se estivesse falando com uma criança. “Nenhum!”
Os novos, palerma!”
Fui buscar a dentadura. Já a conhecia àquela altura; era exatamente como a boca do meu avô costumava ser por dentro.
Ele estendeu a mão para pegá-la como um mendigo de Juárez, mas estava tremendo demais.
Eu boto pra você. Enxague a boca primeiro.” Entreguei pra ele o antisséptico bucal. Ele bochechou e cuspiu sem levantar a cabeça. Eu lavei a dentadura com água oxigenada e a pus na boca dele. “Ei, olha!” Levantei o espelho de marfim de Mamie.
Olha xó exa gengiva!” Ele estava rindo.
Uma obra-prima, vovô!” Eu ri também e dei um beijo na sua cabeça suada.
Ai meu Deus!”, minha mãe exclamou com uma voz estridente e veio andando na minha direção com os braços estendidos. Escorregou no sangue e trombou com os barris de dentes. Apoiando-se neles, recuperou o equilíbrio.
Olha os dentes dele, mãe.”
Ela não tinha nem reparado. Disse que não dava para notar diferença nenhuma. Ele ofereceu um copo com Jack Daniel’s para ela. Ela aceitou, fez um brinde distraído a ele e bebeu.
Você é maluco, pai. Ele é maluco. De onde veio esse monte de saquinhos de chá?”
A camisa dele fez um ruído de rasgo quando desgrudou da pele. Eu o ajudei a lavar o peito e a barriga enrugada. Depois me lavei também e vesti um suéter cor de coral da Mamie. Os dois ficaram bebendo, em silêncio, enquanto esperávamos o táxi da 8-5. Eu conduzi o elevador até lá embaixo e aterrissei bem perto do piso. Quando nós chegamos em casa, o motorista ajudou o vovô a subir as escadas. Ele parou em frente ao quarto de Mamie, mas ela estava dormindo.
Na cama, o vovô dormiu também, seus dentes à mostra num esgar de Bela Lugosi. A boca dele devia estar doendo.
Ele fez um bom trabalho”, minha mãe disse.
Você não odeia mais o vovô, odeia, mãe?”
Ah, odeio”, disse ela. “Odeio sim.”

Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

22/10/2025

Dr. H. A. Moynihan



Eu odiava a escola St. Joseph’s. Aterrorizada pelas freiras, eu bati na irmã Cecilia num dia de calor texano e fui expulsa da escola. Como punição, tive que trabalhar todos os dias das férias de verão no consultório do meu avô dentista. Eu sabia que o verdadeiro motivo do castigo era que eles não queriam que eu brincasse com as crianças da vizinhança, que eram mexicanas e sírias. Não havia negros, mas isso era só uma questão de tempo, segundo minha mãe.
Tenho certeza de que eles também queriam me poupar de ver Mamie morrendo, dos gemidos dela, das suas amigas rezando, do fedor e das moscas. À noite, com a ajuda da morfina, ela cochilava, e então minha mãe e meu avô iam beber sozinhos em seus respectivos quartos. Eu ouvia o gorgolejo de seus respectivos uísques da varanda onde eu dormia.
Meu avô mal falou comigo o verão inteiro. Eu esterilizava e enfileirava os instrumentos dele, prendia babadores em volta do pescoço dos pacientes, entregava o copinho com antisséptico bucal e falava para eles cuspirem. Quando não havia nenhum paciente, vovô ia para sua oficina para fazer dentes ou para seu escritório para colar recortes. Eu não estava autorizada a entrar em nenhum dos dois cômodos. Ele colava artigos de Ernie Pyle e sobre Franklin Delano Roosevelt; tinha álbuns de recortes separados para as guerras japonesa e alemã. Também tinha álbuns sobre Crimes, Texas e Acidentes Insólitos: Homem se enfurece e joga uma melancia pela janela de um apartamento de segundo andar. A fruta atinge a cabeça da mulher dele e a mata, depois atinge o bebê dentro do carrinho e o mata também, e nem sequer chega a rachar.
Todo mundo odiava o meu avô, menos Mamie, e eu, acho. Toda noite ele ficava bêbado e mau. Era cruel, intolerante e orgulhoso. Tinha dado um tiro no olho do meu tio John durante uma briga e envergonhado e humilhado a minha mãe a vida dela inteira. Ela nunca falava com ele, nunca sequer chegava perto dele por ele ser tão sujo e porco, sempre esparramando comida e cuspindo, deixando cigarros molhados em toda parte. Vivia coberto de pintas brancas, do gesso dos moldes de dentes, como se fosse um pintor ou uma estátua.
Ele era o melhor dentista do oeste do Texas, talvez até do Texas inteiro. Muita gente dizia isso, e eu acreditava. Não era verdade que os pacientes dele eram todos velhos beberrões ou então amigos de Mamie, como a minha mãe dizia. Homens respeitáveis vinham até mesmo de Dallas ou de Houston para se tratar com o meu avô porque ele fazia dentaduras maravilhosas. As dentaduras que ele fazia não saíam do lugar nem assobiavam, e eram iguaizinhas a dentes de verdade. Ele tinha inventado uma fórmula secreta para deixá-las da cor certa e às vezes fazia até dentes lascados ou amarelados e com obturações e coroas.
Não deixava ninguém entrar na oficina dele, a não ser os bombeiros, naquela única vez. A oficina não via uma faxina fazia uns quarenta anos. Eu entrava lá quando ele ia ao banheiro. As janelas estavam pretas de sujeira, gesso e cera. A única luz vinha das chamas azuladas e tremeluzentes de dois bicos de Bunsen. Havia enormes sacos de gesso empilhados junto às paredes, vertendo pó num chão coberto de cacos de moldes de dentes, e potes cheios de dentes soltos, cada pote com um tipo diferente de dente. Bolotas de cera rosa e branca grudavam-se às paredes, com teias de aranha penduradas. As prateleiras estavam abarrotadas de ferramentas enferrujadas e de fileiras de dentaduras sorrindo ou fazendo carranca, de cabeça para baixo, como máscaras de teatro. Ele cantarolava enquanto trabalhava, suas guimbas de cigarro volta e meia ateando fogo em bolotas de cera ou em embalagens de bombom. Então, ele jogava café no fogo, manchando o chão coberto de gesso de um tom escuro e cavernoso de marrom.
A oficina dava passagem para um pequeno escritório, onde havia uma escrivaninha de tampo corrediço, sobre a qual vovô colava recortes nos seus álbuns e preenchia cheques. Depois de assinar, ele sempre sacudia a caneta, fazendo pingar tinta preta sobre a assinatura e, às vezes, borrando o valor, de modo que o banco tinha que telefonar para conferir de quanto era o cheque.
Não havia porta entre a sala onde ele atendia os pacientes e a sala de espera. Enquanto trabalhava, ele virava para trás para conversar com quem estava na sala de espera, gesticulando com a broca na mão. Os pacientes que haviam extraído dentes se recuperavam numa espreguiçadeira; o resto se sentava nos peitoris das janelas ou nos radiadores. Às vezes, alguém se sentava na cabine telefônica, um cubículo de madeira com um telefone público, um ventilador e uma placa que dizia: “Eu nunca conheci um homem de quem não gostasse”.
Não havia nenhuma revista na sala de espera. Se alguém trouxesse uma e a deixasse por lá, vovô a jogava fora. Minha mãe dizia que ele só fazia isso para ser do contra. Ele dizia que era porque ver pessoas sentadas lá folheando revistas o deixava maluco.
Quando não estavam sentados, os pacientes ficavam zanzando pela sala, mexendo nos objetos pousados em cima dos dois cofres. Budas, caveiras com dentaduras presas com arame para abrir e fechar, cobras que mordiam quando você puxava o rabo, globos de vidro que nevavam quando virados de cabeça para baixo. No teto havia uma placa: POR QUE RAIOS VOCÊ ESTÁ OLHANDO AQUI PARA CIMA? Os cofres continham ouro e prata para as obturações, maços de dinheiro e garrafas de Jack Daniel’s.
Em todas as janelas, que davam para a rua principal de El Paso, havia grandes letras douradas que diziam: “Dr. H. A. Moynihan. Eu não trabalho para negros”. As placas se refletiam nos espelhos pendurados nas três paredes restantes. O mesmo aviso estava escrito na porta que dava para o hall. Eu nunca me sentava de frente para aquela porta, por medo de que negros passassem ali e olhassem para dentro da sala por cima do aviso. Mas nunca vi um único negro no edifício Caples, a não ser Jim, o ascensorista.
Quando alguém telefonava para marcar consulta, vovô me mandava dizer que ele não estava mais aceitando pacientes. Então, à medida que o verão passava, havia cada vez menos coisa para fazer. Por fim, pouco antes de Mamie morrer, já não havia mais paciente algum. Vovô simplesmente ficava trancado dentro da oficina ou do escritório. Eu ia para o terraço às vezes. Dava para ver a cidade de Juárez e todo o centro de El Paso lá de cima. Eu escolhia uma pessoa na multidão e a acompanhava com os olhos até que ela desaparecesse. Mas a maior parte do tempo eu ficava no consultório mesmo, sentada no radiador e olhando para a Yandel Drive lá embaixo. Passava horas decodificando cartas da seção de correspondência do Capitão Marvel, embora isso não tivesse a menor graça; o código era sempre A no lugar de Z, B no lugar de Y e assim por diante.
As noites eram longas e quentes. Mesmo quando Mamie dormia, as amigas dela ficavam lá, lendo passagens da Bíblia, às vezes cantando. Vovô saía, ia para o clube ou para Juárez. O motorista do táxi da companhia 8-5 o ajudava a subir a escada. Minha mãe saía, segundo ela, para jogar bridge, mas também voltava para casa bêbada. As crianças mexicanas brincavam na rua até bem tarde. Eu ficava observando as meninas da varanda. Elas jogavam o jogo das pedrinhas, agachadas no chão de concreto, à luz do poste de iluminação. Eu morria de vontade de brincar com elas. O som das pedrinhas parecia mágico, o arremesso delas era como uma vassourinha arrastando num tambor ou como a chuva quando uma lufada de vento a empurra de encontro ao vidro da janela.
Uma manhã, quando ainda estava escuro, vovô me acordou. Era domingo. Eu me vesti enquanto ele chamava um táxi. Para chamar um táxi, ele pediu à telefonista que o ligasse com a 8-5 e, quando atenderam, ele perguntou: “Dá pra fazer uma viagenzinha hoje?”. Ele não respondeu quando o motorista do táxi perguntou por que estávamos indo para o consultório num domingo. A portaria estava escura e assustadora. Baratas corriam pelos ladrilhos e revistas mostravam os dentes para nós de trás de grades. Vovô conduziu o elevador, dando um solavanco para cima e para baixo e depois para cima de novo feito um maníaco, até que finalmente paramos um pouco acima do quinto andar e pulamos. Tudo ficou muito silencioso depois que paramos. Só o que se ouvia eram sinos de igreja e o bonde de Juárez.
No início eu fiquei com medo de entrar na oficina atrás dele, mas depois ele me puxou lá para dentro. Estava escuro, como uma sala de cinema. Ele acendeu os bicos de Bunsen resfolegantes. Eu continuei sem entender, sem conseguir ver o que ele queria que eu visse. Ele pegou uma dentadura de cima de uma prateleira, pousou-a no bloco de mármore e a empurrou para perto da chama. Eu sacudi a cabeça.
Continua olhando.” Vovô abriu bem a boca e eu olhei para os dentes dele, depois para a dentadura e para os dentes dele de novo.
São iguais!”, eu disse.
A dentadura era uma réplica perfeita dos dentes na boca do meu avô; até as gengivas tinham o mesmo tom feio, pálido e doentio de rosa. Alguns dentes estavam obturados e rachados, outros lascados ou gastos. Ele só tinha modificado um dente, um dos da frente, no qual tinha posto uma coroa de ouro. Era isso que a tornava uma obra de arte, ele disse.
Como foi que você conseguiu fazer todas essas cores?”
Ficou bom à beça, né? Então… é a minha obra-prima ou não é?”
É.” Eu apertei a mão dele. Estava muito feliz por estar ali.
Como é que você vai encaixar a dentadura?”, eu perguntei. “Ela vai encaixar?”
Normalmente, ele arrancava todos os dentes, deixava as gengivas cicatrizarem, depois fazia uma impressão da gengiva desdentada.
Tem uns caras novos fazendo desse jeito. Você tira a impressão antes de arrancar os dentes, faz a dentadura e a encaixa antes que as gengivas tenham chance de encolher.”
Quando você vai arrancar os dentes?”
Agora mesmo. Somos nós que vamos arrancar. Vai lá preparar as coisas.”
Eu liguei o esterilizador enferrujado na tomada. O fio estava puído e soltou faíscas. Vovô correu em direção ao fio. “Deixa para lá esse…”, mas eu protestei. “Não. Eles têm que ser esterilizados”, e ele riu. Depois, botou sua garrafa de uísque e seus cigarros em cima da bandeja, acendeu um cigarro, encheu um copo de papel de Jack Daniel’s e se sentou na cadeira. Eu ajeitei o refletor, botei um babador no meu avô e apertei o pedal para fazer a cadeira subir e se inclinar.
Aposto que vários pacientes seus gostariam de estar no meu lugar.”
Aquele troço já está fervendo?”
Ainda não.” Enchi alguns copos de papel com antisséptico bucal e peguei um pote de sais aromáticos.
E se você desmaiar?”, perguntei.
Ótimo. Aí você pode arrancar todos. Você tem que segurar o dente o mais perto da gengiva que você puder e depois torcer e puxar ao mesmo tempo. Me dá uma bebida.” Eu entreguei um copo com antisséptico pra ele. “Engraçadinha.” Servi um copo com uísque.
Nenhum dos seus pacientes ganha bebida.”
Eles são meus pacientes, não seus.”
Pronto, está fervendo.” Esvaziei o esterilizador dentro da cuspideira e estendi uma toalha. Usando outra toalha, arrumei os instrumentos em arco em cima da bandeja sobre o peito dele.
Segura o espelhinho pra mim”, ele disse e pegou o alicate.
Subi no apoio para os pés, entre os joelhos do meu avô, para segurar o espelho perto do rosto dele. Os primeiros três dentes saíram fácil. Ele os entregou para mim e eu os joguei dentro do barril perto da parede. Os incisivos foram mais difíceis, um deles em particular. Vovô engasgou e parou, a raiz do dente ainda presa na gengiva. Ele fez um barulho estranho e pôs o alicate na minha mão. “Pega!” Eu puxei o dente. “Usa a tesoura, sua idiota!” Eu me sentei na placa de metal entre os pés dele. “Só um instante, vô.”
Ele esticou o braço por cima de mim para pegar a garrafa de uísque, bebeu, depois pegou outra ferramenta da bandeja. Começou a extrair o resto dos dentes de baixo mesmo sem o espelho. O som era como o de raízes de árvores sendo arrancadas do solo congelado no inverno. Gotas de sangue caíam na bandeja, ploc, ploc, e na placa de metal onde eu estava sentada.
Ele começou a rir tão alto que eu achei que ele tinha enlouquecido. Depois, desabou em cima de mim. Assustada, eu dei um pulo tão grande que o empurrei de volta para a cadeira inclinada. “Arranca o resto!”, ele disse, arfando. Eu estava com muito medo e, por um instante, fiquei me perguntando se seria assassinato se eu arrancasse os dentes restantes e ele morresse.
Arranca!” Ele cuspiu uma pequena cascata vermelha queixo abaixo.
Fiz a cadeira se inclinar totalmente. Ele estava mole, não parecia sentir nada enquanto eu puxava os dentes superiores de trás para o lado e para fora. Ele desmaiou, seus lábios se fechando feito conchas cinzentas de marisco. Eu abri a sua boca e enfiei uma toalha de papel lá no fundo, de um dos lados, para poder arrancar os três dentes de trás que faltavam.
Não restava mais dente nenhum. Tentei abaixar a cadeira com o pedal, mas bati na alavanca errada e acabei fazendo meu avô girar, espalhando pingos de sangue pelo chão. Eu o deixei lá, a cadeira rangendo lentamente até parar. Eu queria pegar uns saquinhos de chá; meu avô costumava fazer os pacientes morderem saquinhos de chá para estancar o sangramento. Revirei as gavetas de Mamie: talco, santinhos, obrigado pelas flores. Os saquinhos de chá estavam numa lata, atrás do fogão portátil.
A toalha de papel que eu tinha posto na boca do meu avô estava encharcada de sangue agora. Joguei-a no chão, enfiei um punhado de saquinhos de chá na boca dele e apertei os maxilares um contra o outro. Gritei. Sem dente nenhum, o rosto dele parecia uma caveira, ossos brancos em cima do pescoço ensanguentado. Um monstro medonho, um bule de chá que ganhou vida, com etiquetas amarelas e pretas de chá Lipton penduradas como enfeites de Carnaval. Corri para telefonar para a minha mãe, mas não tinha moeda para fazer a ligação. Não consegui virar o meu avô para alcançar os bolsos dele. Ele tinha mijado na calça; gotas de urina pingavam no chão. Volta e meia uma bolha de sangue aparecia na narina dele e estourava em seguida.
O telefone tocou. Era minha mãe. Ela estava chorando. A carne assada, um bom almoço de domingo. Com pepino, cebola e tudo, exatamente como Mamie fazia. “Socorro! O vovô!”, eu disse e desliguei.
Ele tinha vomitado. Ah, que bom, pensei, e depois ri, porque era uma coisa idiota pra se pensar “ah, que bom”. Joguei os saquinhos de chá no meio da porcaria amontoada no chão, molhei algumas toalhas e limpei o rosto dele. Abri o pote de sais aromáticos debaixo do nariz do meu avô, depois cheirei os sais eu mesmo e estremeci.
Meus dentes!”, ele berrou.
Não tem mais dente”, eu disse, como se estivesse falando com uma criança. “Nenhum!”
Os novos, palerma!”
Fui buscar a dentadura. Já a conhecia àquela altura; era exatamente como a boca do meu avô costumava ser por dentro.
Ele estendeu a mão para pegá-la como um mendigo de Juárez, mas estava tremendo demais.
Eu boto pra você. Enxague a boca primeiro.” Entreguei pra ele o antisséptico bucal. Ele bochechou e cuspiu sem levantar a cabeça. Eu lavei a dentadura com água oxigenada e a pus na boca dele. “Ei, olha!” Levantei o espelho de marfim de Mamie.
Olha xó exa gengiva!” Ele estava rindo.
Uma obra-prima, vovô!” Eu ri também e dei um beijo na sua cabeça suada.
Ai meu Deus!”, minha mãe exclamou com uma voz estridente e veio andando na minha direção com os braços estendidos. Escorregou no sangue e trombou com os barris de dentes. Apoiando-se neles, recuperou o equilíbrio.
Olha os dentes dele, mãe.”
Ela não tinha nem reparado. Disse que não dava para notar diferença nenhuma. Ele ofereceu um copo com Jack Daniel’s para ela. Ela aceitou, fez um brinde distraído a ele e bebeu.
Você é maluco, pai. Ele é maluco. De onde veio esse monte de saquinhos de chá?”
A camisa dele fez um ruído de rasgo quando desgrudou da pele. Eu o ajudei a lavar o peito e a barriga enrugada. Depois me lavei também e vesti um suéter cor de coral da Mamie. Os dois ficaram bebendo, em silêncio, enquanto esperávamos o táxi da 8-5. Eu conduzi o elevador até lá embaixo e aterrissei bem perto do piso. Quando nós chegamos em casa, o motorista ajudou o vovô a subir as escadas. Ele parou em frente ao quarto de Mamie, mas ela estava dormindo.
Na cama, o vovô dormiu também, seus dentes à mostra num esgar de Bela Lugosi. A boca dele devia estar doendo.
Ele fez um bom trabalho”, minha mãe disse.
Você não odeia mais o vovô, odeia, mãe?”
Ah, odeio”, disse ela. “Odeio sim.”

Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

27/04/2025

Estrelas e santos


Espera, me deixa explicar…
A vida inteira eu me vi nesse tipo de situação, como naquele dia com o psiquiatra. Ele estava hospedado no chalé atrás da minha casa enquanto a sua casa nova passava por uma reforma. Parecia muito simpático, além de bonito, e claro que eu queria causar uma boa impressão; pensei até em levar uns brownies para ele, mas não queria que ele me achasse oferecida. Uma manhã, logo depois do amanhecer, como de costume, eu estava tomando café e olhando pela janela para o meu jardim, que estava lindo naquela época, com ervilhas-de-cheiro, delfínios e cosmos. Eu estava sentindo, bem, eu estava sentindo uma enorme alegria… por que hesito em te contar isso? Não quero que você me ache boba, quero causar uma boa impressão. Enfim, eu estava feliz e joguei um punhado de alpiste no deque lá fora, depois fiquei sentada, sorrindo sozinha enquanto dezenas de rolinhas e tentilhões vinham voando para comer o alpiste. De repente, num relâmpago, dois gatos enormes saltaram para o deque e começaram a estraçalhar os passarinhos, penas voando para todo lado, justo na hora em que o psiquiatra estava saindo pela porta do chalé. Ele olhou para mim, chocado, disse “Que horror!” e foi embora. Depois daquela manhã, ele passou a me evitar completamente, e não era imaginação minha. Não havia jeito de explicar que tudo tinha acontecido rápido demais, que eu não estava sorrindo porque os gatos estavam devorando os passarinhos. É que a minha alegria com as ervilhas-de-cheiro e os tentilhões não tinha tido tempo de murchar.
Até onde me lembro, eu sempre causei uma péssima primeira impressão. Como naquela vez em Montana em que o que eu estava tentando fazer era só tirar as meias de Kent Shreve para a gente ficar descalço, mas elas estavam presas às ceroulas dele. Mas o que eu queria falar mesmo é da escola St. Joseph’s. Sabe, os psiquiatras (por favor, não me entenda mal, eu não sou obcecada por psiquiatras nem nada disso)… é só que tenho a impressão de que os psiquiatras se concentram demais na cena primária e na privação pré-edipiana e ignoram o trauma da escola e das outras crianças, que são cruéis, secas, impiedosas.
Não vou nem mencionar o que aconteceu na Vilas, a primeira escola que frequentei em El Paso. Um grande mal-entendido do início ao fim. Então, dois meses depois de iniciado o ano letivo, na terceira série, lá estava eu no pátio em frente à St. Joseph’s. Minha nova escola. Absolutamente apavorada. Eu tinha pensado que usar uniforme fosse ajudar. Só que o problema era o trambolho que eu tinha nas costas, um colete de metal para corrigir o que chamavam de curvatura, mas que era, vamos encarar os fatos, uma corcunda. Então, eu tive que comprar uma blusa branca e uma saia xadrez de um tamanho muito maior do que o meu para poder vesti-las por cima do colete, e claro que nem passou pela cabeça da minha mãe fazer pelo menos uma bainha na saia.
Outro grande mal-entendido. Meses mais tarde, a irmã Mercedes estava encarregada de monitorar o hall. Ela era aquele tipo de freira jovem e doce que devia ter tido um caso amoroso trágico. Ele provavelmente tinha morrido na guerra, num avião bombardeiro. Quando estávamos passando por ela em fila, duas a duas, ela pôs a mão na minha corcunda e disse baixinho: “Minha querida, você tem uma cruz para carregar”. Ora, como ela poderia saber que eu tinha me transformado numa fanática religiosa àquela altura, que aquelas suas palavras inocentes só iriam confirmar a minha suspeita de estar predestinada a me unir ao Nosso Salvador?
(Ah, e as mães. Outro dia mesmo, no ônibus, uma mãe entrou com o filho pequeno. Ela obviamente trabalhava fora, tinha acabado de pegar o filho na escola maternal, estava cansada, mas feliz de vê-lo, e perguntou como tinha sido o dia dele. O menino contou a ela todas as coisas que ele havia feito. “Você é tão especial!”, ela disse e o abraçou. “Especial quer dizer que eu sou retardado!”, disse o menino. Lágrimas enormes brotaram de seus olhos e ele ficou lá sentado, com uma expressão de pânico no rosto, enquanto a mãe continuava sorrindo exatamente como eu no episódio dos passarinhos.)
Aquele dia no pátio eu tive a certeza de que nunca na vida ia conseguir me enturmar. Não falo da coisa de se adequar, mas de se enturmar. Num canto do pátio, duas meninas giravam uma corda grossa e pesada e, uma a uma, lindas meninas de bochechas rosadas saíam da fila correndo para pular sob a corda, pulavam, pulavam e saíam de novo na hora exata, depois voltavam para a fila. Vapt, vapt, ninguém perdia uma única batida. No meio do pátio havia um balanço redondo, com um assento circular que girava vertiginosa e alegremente sem nunca parar, mas crianças risonhas saltavam para subir ou descer dele sem… não só sem cair, mas sem sequer titubear. Ao meu redor no pátio, em todo canto, havia simetria, sincronia. Duas freiras, as contas do rosário estalando em uníssono, os rostos lavados se virando para cumprimentar as crianças como se fossem um só. O jogo das pedrinhas. A bola quicando no cimento com um baque seco, as doze pedrinhas voando para o alto e agarradas todas de uma vez com o giro de um pequeno pulso. Tapa, tapa, tapa, outras meninas faziam complicadas brincadeiras de bater as mãos. Era uma vez um pequeno holandês. Tapa, tapa. Fiquei circulando, não só incapaz de me enturmar, mas aparentemente invisível, o que era um misto de bênção e maldição. Fugi para a lateral do edifício, onde ouvi ruídos e risos vindos da cozinha da escola. Foi ali que me escondi do pátio; os barulhos amistosos que vinham lá de dentro me tranquilizavam. Mas eu também não podia entrar lá. Pouco depois, no entanto, ouvi gritos e brados e uma freira dizendo “Ah, eu não consigo, eu simplesmente não consigo”, e concluí que eu poderia entrar, porque o que ela não conseguia fazer era tirar os ratos mortos das ratoeiras. “Eu faço isso”, eu disse. E as freiras ficaram tão contentes que não disseram nada sobre o fato de eu estar na cozinha, embora uma delas tenha cochichado “Protestante” para a outra.
E foi assim que começou. Além disso, elas me deram um pãozinho, quente e delicioso, com manteiga. Claro que eu tinha tomado café da manhã, mas o pãozinho era tão delicioso que eu o devorei num instante e elas me deram outro. Então, todo dia, em troca de esvaziar e rearmar duas ou três ratoeiras, eu ganhava não só pãezinhos, mas também uma medalha de são Cristóvão, que eu usava mais tarde como ficha para comprar lanche. Isso me poupava do embaraço de entrar na fila, antes de a aula começar, para trocar moedas pelas medalhas que serviam como fichas para o lanche.
Por causa das minhas costas, as freiras deixavam que eu ficasse na sala durante a aula de educação física e o recreio. Era só de manhã cedo que era difícil, porque o ônibus chegava lá antes da hora em que o portão do prédio era aberto. Eu me forçava a tentar fazer amizade, a puxar conversa com meninas da minha turma, mas era inútil. Todas elas eram católicas e se conheciam desde o jardim de infância. Eram, justiça seja feita, boas meninas, meninas normais. Eu estava adiantada na escola e, portanto, era bem mais nova do que elas. Além disso, só tinha morado em campos de mineração remotos antes da guerra. Não sabia dizer coisas como “Você gosta de estudar o Congo Belga?” ou “O que você gosta de fazer no seu tempo livre?”. Chegava perto delas de repente e disparava: “O meu tio tem um olho de vidro”. Ou “Uma vez eu encontrei um urso morto com a cara cheia de larvas”. Elas me ignoravam, davam risadinhas ou diziam “Quem mente o nariz cresce!”.
Então, durante algum tempo eu tive um lugar para ir antes das aulas. Eu me sentia útil e valorizada. Mas depois comecei a ouvir as meninas sussurrarem “bolsista carente” e “protestante” quando me viam e, passado um tempo, elas começaram a me chamar de “menina da ratoeira” e “Minnie Mouse”. Eu fingia não ligar e, além do mais, adorava a cozinha, o riso suave e os murmúrios das freiras cozinheiras, que usavam batinas rústicas, parecidas com camisolas, na cozinha.
Claro que a essa altura eu tinha decidido me tornar freira, não só porque elas nunca pareciam ficar nervosas, mas principalmente por causa das batinas pretas e das toucas brancas, que pareciam enormes flores de lis brancas e engomadas. Aposto que a Igreja católica perdeu uma porção de aspirantes a freiras quando elas começaram a se vestir como guardas femininas comuns. Então, a minha mãe resolveu fazer uma visita à escola para saber como eu estava me saindo. Elas disseram que o meu desempenho nos trabalhos de classe era excelente e o meu comportamento, perfeito. A irmã Cecilia disse que elas eram muito gratas a mim na cozinha e sempre zelavam para que eu tomasse um bom café da manhã. Minha mãe, a esnobe, com aquele seu casaco velho e xexelento que tinha uma gola de raposa xexelenta cujos olhos de conta tinham caído, ficou chocada, enojada com a história dos ratos e furiosa com a medalha de são Cristóvão, porque eu continuava a receber dinheiro para o lanche todas as manhãs e o gastava com balas quando saía da escola. Ladrazinha trapaceira. Vapt, vapt. Chocada!
Então, fim da história, e foi um grande mal-entendido de todos os lados. Ao que parece, as freiras achavam que eu fazia ponto na cozinha porque era uma pobre criancinha desamparada e faminta, e só me davam a tarefa de cuidar das ratoeiras por caridade, não porque de fato precisassem de mim. O problema é que até hoje eu não sei como a falsa impressão poderia ter sido evitada. Talvez se eu tivesse recusado o pãozinho?
Foi assim que eu acabei indo matar o tempo antes das aulas na igreja e decidi realmente virar freira, ou santa. O primeiro mistério que encontrei foi que as fileiras de velas em frente a cada uma das estátuas de Jesus, Maria e José ficavam bruxuleando e tremendo como se estivessem recebendo lufadas de vento, quando na verdade a enorme igreja estava toda muito bem fechada e nenhuma de suas portas pesadas estava aberta. Concluí, então, que o espírito de Deus nas estátuas era tão forte que fazia as chamas das velas se agitarem e sibilarem, trêmulas de sofrimento. Cada pequeno pique de luz iluminava o sangue coagulado nos pés brancos e ossudos de Jesus e fazia com que ele parecesse úmido.
No início, eu ficava bem no fundo da igreja, grogue, embriagada com o cheiro de incenso. Ajoelhava e rezava. Ajoelhar era muito doloroso, por causa do problema nas minhas costas e porque o colete se encravava na coluna. Eu tinha certeza de que isso me tornava santa e servia como penitência pelos meus pecados, mas doía demais e, por fim, acabei desistindo e passei a ficar só sentada lá, na igreja escura, até o sinal da entrada tocar. Geralmente não havia ninguém na igreja além de mim, salvo nas quintas-feiras, quando o padre Anselmo ia para o confessionário e se trancava lá. Algumas senhoras, meninas dos últimos anos do colegial e, de vez em quando, uma ou outra aluna do ginásio se dirigiam até lá, parando para se ajoelhar e fazer o sinal da cruz diante do altar, depois se ajoelhando e fazendo o sinal da cruz de novo antes de entrarem pelo outro lado do confessionário. O que me intrigava era o tempo variável que elas passavam rezando depois que saíam de lá. Eu teria dado qualquer coisa no mundo para saber o que acontecia lá dentro. Não sei ao certo quanto demorou até eu conseguir reunir coragem para entrar, com o coração martelando no peito. O interior do confessionário era muito mais bonito do que eu poderia ter imaginado. Enevoado pela mirra, uma almofada de veludo para ajoelhar, uma virgem abençoada olhando para mim lá do alto com infinita piedade e compaixão. Atrás da treliça trabalhada estava o padre Anselmo, que normalmente era um homenzinho ensimesmado. Mas ele estava em silhueta, como o homem de cartola na parede de Mamie. Poderia ser qualquer um… Tyrone Power, meu pai, Deus. Sua voz não parecia nem um pouco com a do padre Anselmo; era uma voz grave, com um leve eco. Como eu não conhecia a oração que me pediu para rezar, ele recitou os versos e eu os repeti, profundamente arrependida de vos ter ofendido. Então, ele me perguntou quais eram os meus pecados. Eu não estava mentindo. Realmente não tinha nenhum pecado para confessar. Nenhum mesmo. Fiquei muito envergonhada. Não era possível que eu não conseguisse pensar em alguma coisa. Procure bem no fundo do seu coração, minha filha… Nada. Aflita, querendo desesperadamente agradar, eu inventei um pecado. Tinha batido na cabeça da minha irmã com uma escova de cabelo. Você tem ciúme da sua irmã? Tenho, tenho sim, padre. O ciúme é um pecado, minha filha, reze para ficar livre dele. Três ave-marias. Enquanto rezava, ajoelhada, eu me dei conta de que tinha recebido uma penitência curta. Da próxima vez eu me sairia melhor. Mas não haveria próxima vez. Naquele dia, a irmã Cecilia quis conversar comigo depois da aula. O fato de ela ser tão gentil tornou a coisa ainda pior. Ela entendia que eu quisesse vivenciar os sacramentos e os mistérios da Igreja. Os mistérios, sim! Mas eu era protestante e não tinha sido batizada nem crismada. Podia frequentar a escola delas, e ela era grata por isso, porque eu era uma aluna estudiosa e obediente, mas não podia tomar parte na Igreja delas. Tinha que ficar no pátio com as outras crianças.
Um pensamento terrível me passou pela cabeça e eu tirei quatro santinhos de dentro do bolso. Toda vez que a gente tirava nota máxima em leitura ou aritmética, ganhava uma estrela. Nas sextas-feiras, a aluna que tivesse mais estrelas recebia um santinho, que era parecido com um card de beisebol, só que na auréola tinha purpurina. “Eu posso ficar com os meus santinhos?”, perguntei a ela, com o coração apertado.
Claro que pode. E eu espero que você ganhe vários outros.” Ela sorriu para mim e me fez outro favor. “Você ainda pode rezar, minha querida, pedindo que Deus a guie. Vamos rezar uma ave-maria juntas.” Eu fechei os olhos e rezei com fervor para Nossa Senhora, que para mim sempre vai ter o rosto da irmã Cecilia.
Sempre que uma sirene soava lá fora, na rua, perto ou longe, a irmã Cecilia nos fazia parar o que quer que estivéssemos fazendo, deitar a cabeça nas nossas mesas e rezar uma ave-maria. Eu ainda faço isso. Rezar uma ave-maria, quero dizer. Bem, às vezes eu também deito a cabeça em mesas de madeira, para ouvi-las, porque elas de fato produzem sons, como galhos ao vento, como se ainda fossem árvores. Várias coisas andavam me intrigando muito naquela época, como o que dava vida às velas ou de onde exatamente vinha o som das mesas de madeira. Se tudo o que existe no mundo de Deus tem alma, até as mesas, já que elas têm uma voz, então deve existir um céu. Eu não podia ir para o céu, porque era protestante. Ia ter que ir para o limbo. Eu preferia ir para o inferno a ir para o limbo. Que palavra feia, limbo. Parece lombo, molambo. Um lugar sem dignidade nenhuma.
Eu disse à minha mãe que queria virar católica. Ela e meu avô tiveram um ataque. Ele queria me botar de volta na escola Vilas, mas minha mãe disse que não, que lá era cheio de mexicanos e de delinquentes juvenis. Eu disse a ela que havia muitas alunas mexicanas na St. Joseph’s, mas ela disse que elas eram de boas famílias. A gente era uma boa família? Eu não sabia. Uma coisa que eu ainda faço até hoje é espiar pelas janelas o interior de salas onde famílias estão reunidas e ficar pensando o que será que aquelas pessoas fazem, como será que elas falam umas com as outras.
Uma tarde, a irmã Cecilia e outra freira foram até a nossa casa. Eu não sei por que elas foram lá e elas não tiveram a chance de dizer. Estava tudo uma bagunça. A minha mãe chorando e Mamie, a minha avó, também. Vovô estava bêbado e avançou para cima delas, chamando-as de bruxas. No dia seguinte eu estava com medo de que a irmã Cecilia tivesse ficado zangada comigo e não me dissesse mais “Até logo, minha querida” quando me deixasse sozinha na sala durante o recreio. Mas, antes de sair, ela me deu um livro chamado Understood Betsy e disse que achava que eu ia gostar. Foi o primeiro livro de verdade que eu li, o primeiro livro pelo qual me apaixonei.
Ela elogiava os meus trabalhos na escola e comentava com as outras alunas sempre que eu recebia uma estrela ou ganhava um santinho às sextas-feiras. Eu fazia tudo para agradar-lhe, escrevia A.M.D.G.* com letras cuidadosamente desenhadas no alto de todos os trabalhos, corria para apagar o quadro-negro. A minha voz era a mais alta quando rezávamos, a minha mão era a primeira a se erguer quando ela fazia uma pergunta. Ela continuou a me dar livros para ler e, uma vez, me deu um marcador de livro de papel que dizia “Rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte”. Eu mostrei o marcador para Melissa Barnes na cafeteria. Tinha posto na cabeça, tolamente, que, já que a irmã Cecilia gostava de mim, as meninas também passariam a gostar. Mas agora, em vez de rir de mim, elas me odiavam. Quando eu me levantava para responder a alguma pergunta na aula, elas sussurravam queridinha, queridinha, queridinha. Se a irmã Cecilia me escolhia para recolher as moedas e distribuir as medalhas para comprar lanche, cada uma das meninas sussurrava queridinha quando recebia a medalha de mim.
Então um dia, sem mais nem menos, a minha mãe ficou furiosa comigo porque o meu pai escrevia mais para mim do que para ela. É porque eu escrevo mais para ele. Não, é porque você é a queridinha dele. Um dia, eu cheguei tarde em casa. Tinha perdido o ônibus que passava na praça. Minha mãe apareceu no alto da escada, segurando uma carta aérea azul do meu pai numa das mãos. Com a outra, ela acendeu um fósforo na unha do polegar e queimou a carta enquanto eu corria escada acima. Aquilo sempre me assustava. Quando era pequena, eu não via o fósforo e achava que ela acendia os cigarros dela com um polegar em chamas.
Parei de falar. Não disse: agora, eu não vou mais falar. Simplesmente fui parando aos poucos e, quando sirenes passavam, eu deitava a cabeça na mesa e sussurrava a oração para mim mesma. Quando a irmã Cecilia me chamava, eu sacudia a cabeça e me sentava de novo. Parei de ganhar estrelas e santinhos. Mas já era tarde demais. Agora elas me chamavam de burralda. Um dia, a irmã Cecilia ficou na sala depois que a turma saiu para a aula de educação física. “O que há com você, minha querida? Eu posso ajudar? Por favor, fale comigo.” Eu trinquei os dentes e me recusei a olhar para ela. Ela saiu e eu fiquei lá sentada, na penumbra quente da sala de aula. Ela voltou mais tarde, com um exemplar de Beleza negra, que pousou na minha mesa. “Esse livro é maravilhoso, só que muito triste. Diga para mim, você está triste com alguma coisa?”
Eu fugi dela e do livro e corri para o pequeno vestiário de guardar casacos. Claro que não havia casaco nenhum lá, já que no Texas faz muito calor, mas sim caixas cheias de livros didáticos empoeirados, enfeites de Páscoa, enfeites de Natal. A irmã Cecilia entrou no vestiário minúsculo atrás de mim. Ela me fez virar de frente para ela e ajoelhar. “Vamos rezar”, disse.
Ave Maria, cheia de graça, o senhor é convosco. Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus… Os olhos dela estavam cheios de lágrimas. Eu não consegui suportar a ternura que havia neles e me desvencilhei dela, derrubando-a sem querer no chão. A touca ficou presa num gancho de casaco e foi arrancada. Ela não tinha a cabeça raspada como as meninas diziam. Ela gritou e saiu de lá correndo.
Fui mandada para casa naquele dia mesmo, expulsa da Saint Joseph’s por agredir uma freira. Não sei como ela pode ter achado que eu seria capaz de bater nela. Não tinha sido nada disso.
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* Ad maiorem Dei gloriam (“para maior glória de Deus”), lema dos jesuítas. (N. T.)

Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

10/04/2025

Espere um instante


Suspiros, o ritmo dos nossos batimentos cardíacos, as contrações do parto, orgasmos, tudo entra no mesmo compasso como relógios de pêndulo postos um ao lado do outro logo batem em uníssono. Vaga-lumes numa árvore acendem e apagam ao mesmo tempo. O sol se levanta e se põe. A lua cresce e míngua e geralmente o jornal da manhã pousa em frente à porta às seis e trinta e cinco.
O tempo para quando alguém morre. Claro que para para quem morre, talvez, mas para quem fica de luto o tempo entra em parafuso. A morte vem cedo demais. Ela esquece das marés, dos dias que estão ficando mais curtos ou mais longos, da lua. Rasga o calendário. Você não está diante da sua mesa, nem no metrô, nem preparando o jantar das crianças. Você está lendo People na sala de espera de um centro cirúrgico, ou tremendo de frio numa varanda fumando a noite inteira. Você está olhando para o vazio, sentado no seu quarto de criança com o globo em cima da mesa. Pérsia, Congo Belga. O lado ruim é que, quando você volta à sua vida normal, todas as rotinas, todos os marcos do dia ficam parecendo mentiras sem sentido. Tudo é suspeito, tudo é um truque para nos acalmar, nos ninar e nos restituir à plácida inexorabilidade do tempo.
Quando alguém tem uma doença terminal, a reconfortante agitação do tempo é estilhaçada. Rápido demais, não dá tempo, eu te amo, preciso terminar isso, diga aquilo para ele. Espere um instante! Eu quero explicar. Onde é que está o Toby, afinal? Ou então o tempo se torna sadicamente lento. A morte só fica ali, pairando, enquanto você espera que anoiteça e depois que amanheça. Todo dia você se despede um pouco. Ah, pelo amor de Deus, acaba com isso de uma vez. Você não para de olhar para o quadro de Chegadas e Partidas. As noites são intermináveis porque você acorda com qualquer tossezinha ou soluço, depois fica acordada ouvindo a pessoa respirar suavemente, como uma criança. Em tardes passadas ao lado de uma cama, você sabe que horas são pela passagem da luz do sol, agora na Virgem de Guadalupe, agora no nu a carvão, no espelho, na caixa de joias trabalhada, ofuscante no frasco de Fracas. O vendedor de camote apita na rua lá embaixo e então você ajuda sua irmã a ir para a sala para assistir às notícias da Cidade do México e depois às notícias dos Estados Unidos com Peter Jennings. Os gatos vêm se sentar no colo dela. Ela tem um tanque de oxigênio, mas mesmo assim o pelo deles dificulta sua respiração. “Não! Não os leve embora. Espere um instante.”
Toda noite, depois dos noticiários, Sally chorava. Debulhava-se em lágrimas. Provavelmente não era um choro demorado, mas, na dobra temporal da doença dela, era interminável, dolorido e rouco. Não consigo me lembrar se, no início, minha sobrinha Mercedes e eu chorávamos com ela. Acho que não. Nem eu nem ela somos muito de chorar. Mas nós a abraçávamos e beijávamos, cantávamos para ela. Tentávamos fazer piadas. “Talvez fosse melhor a gente ver o noticiário do Tom Brokaw.” Fazíamos sucos, chás e chocolate quente para ela. Não lembro quando exatamente ela parou de chorar, pouco antes de morrer, mas, quando parou, aí sim foi horrível de verdade, aquele silêncio, e durou muito tempo.
Quando chorava, ela às vezes dizia coisas como “Desculpe, deve ser a quimioterapia. É uma espécie de reflexo. Não liguem”. Outras vezes, porém, ela implorava que chorássemos com ela.
Não consigo, mi Argentina”, Mercedes dizia. “Mas o meu coração está chorando. Como sabemos que vai acontecer, nós automaticamente endurecemos.” Era gentil da parte dela dizer isso. O choro simplesmente me deixava maluca.
Uma vez, enquanto chorava, Sally disse: “Eu nunca mais vou ver jumentos!”, o que eu e Mercedes achamos engraçadíssimo. Sally ficou furiosa, atirou sua xícara e seus pratos, nossos copos e o cinzeiro na parede. Virou a mesa com um chute, berrando conosco. Suas malvadas, frias, calculistas. Vocês não têm um pingo de compaixão, de piedade.
Nem uma mísera lágrima. Vocês nem parecem tristes.” Ela estava sorrindo a essa altura. “Vocês são como sargentonas. ‘Beba isto. Tome aqui um lenço. Vomite na bacia.’”
Mais tarde, nós a preparávamos para ir para a cama, dávamos os remédios, uma injeção. Eu dava um beijo nela e a cobria. “Boa noite. Eu te amo, minha irmã, my sister, mi cisterna.” Eu dormia num quartinho, um closet, ao lado do quarto dela, e a ouvia por trás da parede de compensado, lendo, cantando baixinho, escrevendo. Às vezes ela chorava na cama, e esses eram os piores momentos, porque ela tentava abafar esses choros tristes e silenciosos com o travesseiro.
No início eu ia para perto dela e tentava consolá-la, mas isso parecia fazer com que ela chorasse mais, ficasse mais nervosa. O remédio para dormir acabava fazendo o efeito oposto e a deixava desperta, agitada e enjoada. Então passei a só falar com ela: “Sally. Minha querida Sal y pimienta, Salsa, não fique triste”. Coisas assim.
Lembra que a Rosa costumava pôr tijolos quentes na nossa cama, no Chile?”
Eu tinha me esquecido disso!”
Você quer que eu procure um tijolo pra você?”
Não, mi vida, eu já estou quase dormindo.”
Ela havia feito mastectomia e radioterapia e depois, durante cinco anos, tinha ficado bem. Bem de verdade. Radiante e bonita, extremamente feliz com um homem gentil, Andrés. Ela e eu nos tornamos amigas, pela primeira vez desde a nossa difícil infância. Tinha sido como se apaixonar, nossa descoberta uma da outra, o modo como nos abrimos. Fomos a Yucatán e a Nova York juntas. Eu ia para o México ou ela ia para Oakland. Quando nossa mãe morreu, passamos uma semana em Zihuatanejo, onde conversávamos dia e noite. Exorcizamos nossos pais e nossas próprias rivalidades, e acho que nós duas crescemos.
Eu estava em Oakland quando ela telefonou. O câncer estava nos pulmões agora. Em toda parte. Não restava mais muito tempo. Apúrate. Vem para cá agora!
Levei três dias para sair do meu emprego, arrumar as malas e entregar o apartamento. No avião rumo à Cidade do México, eu pensava em como a morte despedaça o tempo. Minha vida normal tinha desaparecido. Terapia, aulas de natação. Que tal um almoço na sexta? A festa de Gloria, dentista amanhã, lavar roupa, pegar livros com Moe, limpar a casa, comprar ração de gato, tomar conta dos netos no sábado, encomendar gaze e sondas de gastrostomia no trabalho, escrever para August, falar com Josee, assar bolinhos, C. J. está vindo aí. Mais estranho ainda foi, um ano depois, encontrar com funcionários da mercearia ou da livraria ou com amigos na rua que não tinham sequer percebido que eu tinha estado fora.
Telefonei para Pedro, o oncologista de Sally, do aeroporto no México, querendo saber o que esperar. Tinha parecido que era uma questão de semanas ou, no máximo, um mês. “Ni modo”, disse ele. “Nós vamos continuar com a químio. Pode levar seis meses, um ano, talvez mais.”
Era só você ter falado ‘Eu quero que você venha agora’, eu teria vindo”, eu disse a ela mais tarde naquela noite.
Não teria não!”, ela disse, rindo. “Você é realista. Você sabe que eu tenho empregadas para fazer tudo, e enfermeiras, médicos, amigos. Você ia achar que eu não precisava de você ainda. Mas eu quero você agora, para me ajudar a botar tudo em ordem. Eu quero que cozinhe para que a Alicia e o Sergio venham comer aqui. Eu quero que leia pra mim e cuide de mim. Agora é que eu estou sozinha e apavorada. Eu preciso de você agora.”
Todos nós temos álbuns de fotografias mentais. Instantâneos. Imagens de pessoas que amamos em diferentes épocas. Essa é Sally com roupa de corrida verde-escura, sentada de pernas cruzadas na cama dela. A pele luminosa, os olhos verdes delineados por lágrimas enquanto ela falava comigo. Sem dissimulações nem autopiedade. Eu a abracei, grata pela confiança que ela tinha em mim.
No Texas, quando eu tinha oito anos e ela três, eu odiava Sally, sentia um ciúme violento dela. Nossa avó me deixava por minha própria conta, à mercê dos outros adultos, mas protegia a pequena Sally, penteava o cabelo dela e fazia tortas só para ela, ninava-a e cantava “Way Down in Missoura” para ela dormir. Mas eu tenho instantâneos dela mesmo dessa época, sorrindo, me oferecendo um pedaço de bolo com uma inegável doçura que ela nunca perdeu.
Na Cidade do México, os primeiros meses passaram voando, como quando os calendários vão perdendo as folhas em filmes antigos. Como num filme de Charlie Chaplin acelerado, carpinteiros martelavam na cozinha, encanadores ribombavam no banheiro. Homens vieram consertar todas as maçanetas e janelas quebradas, lixar os assoalhos. Mirna, Belen e eu atacamos o quarto de cacarecos, o topanco, os armários, as estantes e gavetas. Jogamos fora sapatos, chapéus, coleiras de cachorro, túnicas. Mercedes, Alicia e eu tiramos todas as roupas e joias de Sally dos armários e etiquetamos as que ela queria dar para diferentes amigas.
Doces tardes preguiçosas no chão do quarto de Sally, separando fotografias, lendo cartas, poemas, fofocando, contando histórias. O telefone e a campainha tocavam o dia inteiro. Eu filtrava as ligações e as visitas, era quem as interrompia se ela estava cansada, ou não interrompia se ela estava feliz, como sempre ficava com Gustavo.
Assim que uma pessoa é diagnosticada com uma doença fatal, ela recebe uma avalanche de telefonemas, cartas, visitas. Mas, conforme os meses vão passando e o tempo vai se transformando em tempos difíceis, cada vez menos gente aparece. É quando a doença está avançando e o tempo é lento e barulhento. Você ouve os relógios, os sinos das igrejas, os vômitos, cada respiração áspera.
O ex-marido de Sally, Miguel, e Andrés vinham todos os dias, mas em horários diferentes. Só uma vez as visitas deles coincidiram. Fiquei espantada com a maneira como a prioridade foi automaticamente dada ao ex-marido. Ele havia se casado de novo fazia muito tempo, mas ainda era preciso tomar cuidado para não ferir o orgulho dele. Andrés tinha entrado no quarto de Sally fazia poucos minutos. Eu trouxe café e pan dulce para ele. Assim que pousei a bandeja em cima da mesa, Mirna entrou para dizer “O señor está vindo!”.
Rápido, para o seu quarto!”, disse Sally. Andrés correu para o meu quarto, carregando o café e o pan dulce. Eu tinha acabado de fechá-lo lá dentro quando Miguel chegou.
Café! Eu preciso de café!”, ele disse. Então, eu entrei no meu quarto, tirei o café e o pan dulce de Andrés e os levei para Miguel. Andrés desapareceu.

Fiquei muito fraca e com dificuldade de andar. Achamos que fosse estress (não há nenhuma palavra em espanhol para stress), mas acabei desmaiando na rua e sendo levada para a emergência de um hospital. Eu estava com uma anemia grave por causa de uma hérnia esofágica com sangramento. Fiquei internada alguns dias para fazer transfusões de sangue.
Estava me sentindo muito mais forte quando voltei, mas a minha doença tinha deixado Sally assustada. A morte havia nos lembrado que ela ainda estava lá. O tempo acelerou de novo. Eu achava que Sally tinha pegado no sono e me levantava para ir para a minha cama.
Não vá embora!”
Eu só vou ao banheiro e já volto.” Durante a noite, se ela se engasgava ou tossia, eu acordava e ia até lá para ver como ela estava.
Ela estava usando oxigênio agora e raramente saía da cama. Eu lhe dava banho no quarto dela, dava injeções para amenizar a dor e a náusea. Ela tomava um pouco de sopa, comia bolachas de água e sal às vezes. Gelo moído. Eu botava gelo numa toalha e batia, batia, batia a toalha contra a parede de concreto. Mercedes se deitava ao lado dela e eu me deitava no chão, lendo para elas. Quando elas pareciam estar dormindo, eu parava, mas as duas diziam “Não pare!”.
Bueno. “Eu desafio qualquer um a dizer que a nossa Becky, que certamente tem lá seus defeitos, não foi apresentada ao público de uma maneira absolutamente elegante e inofensiva…”
Pedro aspirou o pulmão dela, mas mesmo assim Sally estava tendo cada vez mais dificuldade de respirar. Eu decidi que nós devíamos fazer uma limpeza de verdade no quarto dela. Mercedes ficou com ela na sala enquanto Mirna, Belen e eu varríamos e tirávamos o pó, lavávamos as paredes, as janelas e o chão. Eu mudei a cama dela de lugar, botando-a na horizontal debaixo da janela; agora Sally ia poder ver o céu. Belen botou lençóis limpos e passados e cobertas macias na cama e nós levamos Sally de volta para o quarto. Ela se recostou no travesseiro, e o sol da primavera bateu em cheio no seu rosto.
El sol”, disse Sally. “Eu posso sentir o sol daqui.”
Eu me sentei encostada na outra parede e fiquei vendo Sally olhar pela janela. Avião. Pássaros. Um rastro de jato. O pôr do sol!
Bem mais tarde, eu lhe dei um beijo de boa-noite e fui para o meu quartinho. O umidificador do tanque de oxigênio dela borbulhava como uma fonte. Fiquei esperando para ouvir o tipo de respiração que significava que ela tinha adormecido. O colchão dela rangeu. Ela arfou e depois gemeu, respirando ruidosamente. Fiquei ouvindo e esperando e, então, escutei o tlim-tlim das argolas da cortina acima da cama dela.
Sally? Salamandra, o que você está fazendo?”
Estou olhando para o céu!”
Perto dela, olhei lá para fora pela minha própria janelinha.
Oye, irmã…”
O que foi?”, perguntei.
Eu estou ouvindo. Você está chorando por mim!”
Faz sete anos que você morreu. Claro que a próxima coisa que eu vou dizer é que o tempo voou. Fiquei velha. De repente. Ando com dificuldade. Babo até. Deixo a porta destrancada para o caso de eu morrer enquanto estiver dormindo, mas o mais provável é que eu continue assim indefinidamente até ser internada em algum lugar. Já estou caducando. Outro dia estacionei meu carro numa transversal porque a vaga onde eu costumo parar já estava ocupada. Mais tarde, quando vi a vaga vazia, fiquei me perguntando para onde eu tinha ido. Não é tão estranho eu falar com o meu gato, mas me sinto idiota porque ele é completamente surdo.
Mas nunca há tempo suficiente. “Tempo de verdade”, como os prisioneiros para quem eu dava aula diziam, explicando como só parecia que eles tinham todo o tempo do mundo. O tempo nunca era deles.
Estou dando aula agora numa cidadezinha de montanha bonita, fresa. Nas mesmas montanhas Rochosas onde papai minerava, só que muito diferente de Butte ou Coer d’Alene. Mas tenho sorte. Tenho bons amigos aqui. Moro no sopé, onde cervos passam, elegantes e discretos, pela minha janela. Vi cangambás cruzando ao luar; seus gritos ásperos eram como instrumentos orientais.
Sinto saudades dos meus filhos e de suas famílias. Vejo-os talvez uma vez por ano e é sempre ótimo, mas não faço mais realmente parte da vida deles. Nem da vida dos seus filhos, Sally, embora Mercedes e Enrique tenham vindo se casar aqui!
Tantas outras pessoas se foram. Eu costumava achar estranho quando alguém dizia “Eu perdi meu marido”. Mas essa é a sensação que dá. Alguém desapareceu. Paul, tia Chata, Buddy. Eu entendo as pessoas que acreditam em fantasmas ou fazem sessões espíritas para invocar os mortos. Passo meses sem pensar em ninguém a não ser nos vivos e então Buddy aparece com uma piada, ou você surge vividamente na minha frente, evocada por um tango ou uma agua de sandía. Se pelo menos você pudesse falar comigo. Você é tão inútil quanto o meu gato surdo.
Você veio pela última vez alguns dias depois da nevasca. Gelo e neve ainda cobriam o chão, mas nós tivemos a sorte inesperada de um dia quente. Esquilos e pegas-rabudas estavam matraqueando e pardais e tentilhões cantavam em árvores desfolhadas. Abri todas as portas e cortinas. Tomei chá na mesa da cozinha sentindo o sol nas minhas costas. Vespas saíram do ninho na varanda da frente, atravessaram a minha casa planando sonolentamente e ficaram voando em círculos modorrentos pela cozinha inteira. Bem nessa hora a bateria do detector de fumaça descarregou, e então o alarme começou a cricrilar feito um grilo no verão. O sol alcançou o bule de chá, o pote de farinha, o vaso de flores prateado.
Uma iluminação preguiçosa, como uma tarde mexicana no seu quarto. Eu vi o sol no seu rosto.

Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos