quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Dr. H. A. Moynihan



Eu odiava a escola St. Joseph’s. Aterrorizada pelas freiras, eu bati na irmã Cecilia num dia de calor texano e fui expulsa da escola. Como punição, tive que trabalhar todos os dias das férias de verão no consultório do meu avô dentista. Eu sabia que o verdadeiro motivo do castigo era que eles não queriam que eu brincasse com as crianças da vizinhança, que eram mexicanas e sírias. Não havia negros, mas isso era só uma questão de tempo, segundo minha mãe.
Tenho certeza de que eles também queriam me poupar de ver Mamie morrendo, dos gemidos dela, das suas amigas rezando, do fedor e das moscas. À noite, com a ajuda da morfina, ela cochilava, e então minha mãe e meu avô iam beber sozinhos em seus respectivos quartos. Eu ouvia o gorgolejo de seus respectivos uísques da varanda onde eu dormia.
Meu avô mal falou comigo o verão inteiro. Eu esterilizava e enfileirava os instrumentos dele, prendia babadores em volta do pescoço dos pacientes, entregava o copinho com antisséptico bucal e falava para eles cuspirem. Quando não havia nenhum paciente, vovô ia para sua oficina para fazer dentes ou para seu escritório para colar recortes. Eu não estava autorizada a entrar em nenhum dos dois cômodos. Ele colava artigos de Ernie Pyle e sobre Franklin Delano Roosevelt; tinha álbuns de recortes separados para as guerras japonesa e alemã. Também tinha álbuns sobre Crimes, Texas e Acidentes Insólitos: Homem se enfurece e joga uma melancia pela janela de um apartamento de segundo andar. A fruta atinge a cabeça da mulher dele e a mata, depois atinge o bebê dentro do carrinho e o mata também, e nem sequer chega a rachar.
Todo mundo odiava o meu avô, menos Mamie, e eu, acho. Toda noite ele ficava bêbado e mau. Era cruel, intolerante e orgulhoso. Tinha dado um tiro no olho do meu tio John durante uma briga e envergonhado e humilhado a minha mãe a vida dela inteira. Ela nunca falava com ele, nunca sequer chegava perto dele por ele ser tão sujo e porco, sempre esparramando comida e cuspindo, deixando cigarros molhados em toda parte. Vivia coberto de pintas brancas, do gesso dos moldes de dentes, como se fosse um pintor ou uma estátua.
Ele era o melhor dentista do oeste do Texas, talvez até do Texas inteiro. Muita gente dizia isso, e eu acreditava. Não era verdade que os pacientes dele eram todos velhos beberrões ou então amigos de Mamie, como a minha mãe dizia. Homens respeitáveis vinham até mesmo de Dallas ou de Houston para se tratar com o meu avô porque ele fazia dentaduras maravilhosas. As dentaduras que ele fazia não saíam do lugar nem assobiavam, e eram iguaizinhas a dentes de verdade. Ele tinha inventado uma fórmula secreta para deixá-las da cor certa e às vezes fazia até dentes lascados ou amarelados e com obturações e coroas.
Não deixava ninguém entrar na oficina dele, a não ser os bombeiros, naquela única vez. A oficina não via uma faxina fazia uns quarenta anos. Eu entrava lá quando ele ia ao banheiro. As janelas estavam pretas de sujeira, gesso e cera. A única luz vinha das chamas azuladas e tremeluzentes de dois bicos de Bunsen. Havia enormes sacos de gesso empilhados junto às paredes, vertendo pó num chão coberto de cacos de moldes de dentes, e potes cheios de dentes soltos, cada pote com um tipo diferente de dente. Bolotas de cera rosa e branca grudavam-se às paredes, com teias de aranha penduradas. As prateleiras estavam abarrotadas de ferramentas enferrujadas e de fileiras de dentaduras sorrindo ou fazendo carranca, de cabeça para baixo, como máscaras de teatro. Ele cantarolava enquanto trabalhava, suas guimbas de cigarro volta e meia ateando fogo em bolotas de cera ou em embalagens de bombom. Então, ele jogava café no fogo, manchando o chão coberto de gesso de um tom escuro e cavernoso de marrom.
A oficina dava passagem para um pequeno escritório, onde havia uma escrivaninha de tampo corrediço, sobre a qual vovô colava recortes nos seus álbuns e preenchia cheques. Depois de assinar, ele sempre sacudia a caneta, fazendo pingar tinta preta sobre a assinatura e, às vezes, borrando o valor, de modo que o banco tinha que telefonar para conferir de quanto era o cheque.
Não havia porta entre a sala onde ele atendia os pacientes e a sala de espera. Enquanto trabalhava, ele virava para trás para conversar com quem estava na sala de espera, gesticulando com a broca na mão. Os pacientes que haviam extraído dentes se recuperavam numa espreguiçadeira; o resto se sentava nos peitoris das janelas ou nos radiadores. Às vezes, alguém se sentava na cabine telefônica, um cubículo de madeira com um telefone público, um ventilador e uma placa que dizia: “Eu nunca conheci um homem de quem não gostasse”.
Não havia nenhuma revista na sala de espera. Se alguém trouxesse uma e a deixasse por lá, vovô a jogava fora. Minha mãe dizia que ele só fazia isso para ser do contra. Ele dizia que era porque ver pessoas sentadas lá folheando revistas o deixava maluco.
Quando não estavam sentados, os pacientes ficavam zanzando pela sala, mexendo nos objetos pousados em cima dos dois cofres. Budas, caveiras com dentaduras presas com arame para abrir e fechar, cobras que mordiam quando você puxava o rabo, globos de vidro que nevavam quando virados de cabeça para baixo. No teto havia uma placa: POR QUE RAIOS VOCÊ ESTÁ OLHANDO AQUI PARA CIMA? Os cofres continham ouro e prata para as obturações, maços de dinheiro e garrafas de Jack Daniel’s.
Em todas as janelas, que davam para a rua principal de El Paso, havia grandes letras douradas que diziam: “Dr. H. A. Moynihan. Eu não trabalho para negros”. As placas se refletiam nos espelhos pendurados nas três paredes restantes. O mesmo aviso estava escrito na porta que dava para o hall. Eu nunca me sentava de frente para aquela porta, por medo de que negros passassem ali e olhassem para dentro da sala por cima do aviso. Mas nunca vi um único negro no edifício Caples, a não ser Jim, o ascensorista.
Quando alguém telefonava para marcar consulta, vovô me mandava dizer que ele não estava mais aceitando pacientes. Então, à medida que o verão passava, havia cada vez menos coisa para fazer. Por fim, pouco antes de Mamie morrer, já não havia mais paciente algum. Vovô simplesmente ficava trancado dentro da oficina ou do escritório. Eu ia para o terraço às vezes. Dava para ver a cidade de Juárez e todo o centro de El Paso lá de cima. Eu escolhia uma pessoa na multidão e a acompanhava com os olhos até que ela desaparecesse. Mas a maior parte do tempo eu ficava no consultório mesmo, sentada no radiador e olhando para a Yandel Drive lá embaixo. Passava horas decodificando cartas da seção de correspondência do Capitão Marvel, embora isso não tivesse a menor graça; o código era sempre A no lugar de Z, B no lugar de Y e assim por diante.
As noites eram longas e quentes. Mesmo quando Mamie dormia, as amigas dela ficavam lá, lendo passagens da Bíblia, às vezes cantando. Vovô saía, ia para o clube ou para Juárez. O motorista do táxi da companhia 8-5 o ajudava a subir a escada. Minha mãe saía, segundo ela, para jogar bridge, mas também voltava para casa bêbada. As crianças mexicanas brincavam na rua até bem tarde. Eu ficava observando as meninas da varanda. Elas jogavam o jogo das pedrinhas, agachadas no chão de concreto, à luz do poste de iluminação. Eu morria de vontade de brincar com elas. O som das pedrinhas parecia mágico, o arremesso delas era como uma vassourinha arrastando num tambor ou como a chuva quando uma lufada de vento a empurra de encontro ao vidro da janela.
Uma manhã, quando ainda estava escuro, vovô me acordou. Era domingo. Eu me vesti enquanto ele chamava um táxi. Para chamar um táxi, ele pediu à telefonista que o ligasse com a 8-5 e, quando atenderam, ele perguntou: “Dá pra fazer uma viagenzinha hoje?”. Ele não respondeu quando o motorista do táxi perguntou por que estávamos indo para o consultório num domingo. A portaria estava escura e assustadora. Baratas corriam pelos ladrilhos e revistas mostravam os dentes para nós de trás de grades. Vovô conduziu o elevador, dando um solavanco para cima e para baixo e depois para cima de novo feito um maníaco, até que finalmente paramos um pouco acima do quinto andar e pulamos. Tudo ficou muito silencioso depois que paramos. Só o que se ouvia eram sinos de igreja e o bonde de Juárez.
No início eu fiquei com medo de entrar na oficina atrás dele, mas depois ele me puxou lá para dentro. Estava escuro, como uma sala de cinema. Ele acendeu os bicos de Bunsen resfolegantes. Eu continuei sem entender, sem conseguir ver o que ele queria que eu visse. Ele pegou uma dentadura de cima de uma prateleira, pousou-a no bloco de mármore e a empurrou para perto da chama. Eu sacudi a cabeça.
Continua olhando.” Vovô abriu bem a boca e eu olhei para os dentes dele, depois para a dentadura e para os dentes dele de novo.
São iguais!”, eu disse.
A dentadura era uma réplica perfeita dos dentes na boca do meu avô; até as gengivas tinham o mesmo tom feio, pálido e doentio de rosa. Alguns dentes estavam obturados e rachados, outros lascados ou gastos. Ele só tinha modificado um dente, um dos da frente, no qual tinha posto uma coroa de ouro. Era isso que a tornava uma obra de arte, ele disse.
Como foi que você conseguiu fazer todas essas cores?”
Ficou bom à beça, né? Então… é a minha obra-prima ou não é?”
É.” Eu apertei a mão dele. Estava muito feliz por estar ali.
Como é que você vai encaixar a dentadura?”, eu perguntei. “Ela vai encaixar?”
Normalmente, ele arrancava todos os dentes, deixava as gengivas cicatrizarem, depois fazia uma impressão da gengiva desdentada.
Tem uns caras novos fazendo desse jeito. Você tira a impressão antes de arrancar os dentes, faz a dentadura e a encaixa antes que as gengivas tenham chance de encolher.”
Quando você vai arrancar os dentes?”
Agora mesmo. Somos nós que vamos arrancar. Vai lá preparar as coisas.”
Eu liguei o esterilizador enferrujado na tomada. O fio estava puído e soltou faíscas. Vovô correu em direção ao fio. “Deixa para lá esse…”, mas eu protestei. “Não. Eles têm que ser esterilizados”, e ele riu. Depois, botou sua garrafa de uísque e seus cigarros em cima da bandeja, acendeu um cigarro, encheu um copo de papel de Jack Daniel’s e se sentou na cadeira. Eu ajeitei o refletor, botei um babador no meu avô e apertei o pedal para fazer a cadeira subir e se inclinar.
Aposto que vários pacientes seus gostariam de estar no meu lugar.”
Aquele troço já está fervendo?”
Ainda não.” Enchi alguns copos de papel com antisséptico bucal e peguei um pote de sais aromáticos.
E se você desmaiar?”, perguntei.
Ótimo. Aí você pode arrancar todos. Você tem que segurar o dente o mais perto da gengiva que você puder e depois torcer e puxar ao mesmo tempo. Me dá uma bebida.” Eu entreguei um copo com antisséptico pra ele. “Engraçadinha.” Servi um copo com uísque.
Nenhum dos seus pacientes ganha bebida.”
Eles são meus pacientes, não seus.”
Pronto, está fervendo.” Esvaziei o esterilizador dentro da cuspideira e estendi uma toalha. Usando outra toalha, arrumei os instrumentos em arco em cima da bandeja sobre o peito dele.
Segura o espelhinho pra mim”, ele disse e pegou o alicate.
Subi no apoio para os pés, entre os joelhos do meu avô, para segurar o espelho perto do rosto dele. Os primeiros três dentes saíram fácil. Ele os entregou para mim e eu os joguei dentro do barril perto da parede. Os incisivos foram mais difíceis, um deles em particular. Vovô engasgou e parou, a raiz do dente ainda presa na gengiva. Ele fez um barulho estranho e pôs o alicate na minha mão. “Pega!” Eu puxei o dente. “Usa a tesoura, sua idiota!” Eu me sentei na placa de metal entre os pés dele. “Só um instante, vô.”
Ele esticou o braço por cima de mim para pegar a garrafa de uísque, bebeu, depois pegou outra ferramenta da bandeja. Começou a extrair o resto dos dentes de baixo mesmo sem o espelho. O som era como o de raízes de árvores sendo arrancadas do solo congelado no inverno. Gotas de sangue caíam na bandeja, ploc, ploc, e na placa de metal onde eu estava sentada.
Ele começou a rir tão alto que eu achei que ele tinha enlouquecido. Depois, desabou em cima de mim. Assustada, eu dei um pulo tão grande que o empurrei de volta para a cadeira inclinada. “Arranca o resto!”, ele disse, arfando. Eu estava com muito medo e, por um instante, fiquei me perguntando se seria assassinato se eu arrancasse os dentes restantes e ele morresse.
Arranca!” Ele cuspiu uma pequena cascata vermelha queixo abaixo.
Fiz a cadeira se inclinar totalmente. Ele estava mole, não parecia sentir nada enquanto eu puxava os dentes superiores de trás para o lado e para fora. Ele desmaiou, seus lábios se fechando feito conchas cinzentas de marisco. Eu abri a sua boca e enfiei uma toalha de papel lá no fundo, de um dos lados, para poder arrancar os três dentes de trás que faltavam.
Não restava mais dente nenhum. Tentei abaixar a cadeira com o pedal, mas bati na alavanca errada e acabei fazendo meu avô girar, espalhando pingos de sangue pelo chão. Eu o deixei lá, a cadeira rangendo lentamente até parar. Eu queria pegar uns saquinhos de chá; meu avô costumava fazer os pacientes morderem saquinhos de chá para estancar o sangramento. Revirei as gavetas de Mamie: talco, santinhos, obrigado pelas flores. Os saquinhos de chá estavam numa lata, atrás do fogão portátil.
A toalha de papel que eu tinha posto na boca do meu avô estava encharcada de sangue agora. Joguei-a no chão, enfiei um punhado de saquinhos de chá na boca dele e apertei os maxilares um contra o outro. Gritei. Sem dente nenhum, o rosto dele parecia uma caveira, ossos brancos em cima do pescoço ensanguentado. Um monstro medonho, um bule de chá que ganhou vida, com etiquetas amarelas e pretas de chá Lipton penduradas como enfeites de Carnaval. Corri para telefonar para a minha mãe, mas não tinha moeda para fazer a ligação. Não consegui virar o meu avô para alcançar os bolsos dele. Ele tinha mijado na calça; gotas de urina pingavam no chão. Volta e meia uma bolha de sangue aparecia na narina dele e estourava em seguida.
O telefone tocou. Era minha mãe. Ela estava chorando. A carne assada, um bom almoço de domingo. Com pepino, cebola e tudo, exatamente como Mamie fazia. “Socorro! O vovô!”, eu disse e desliguei.
Ele tinha vomitado. Ah, que bom, pensei, e depois ri, porque era uma coisa idiota pra se pensar “ah, que bom”. Joguei os saquinhos de chá no meio da porcaria amontoada no chão, molhei algumas toalhas e limpei o rosto dele. Abri o pote de sais aromáticos debaixo do nariz do meu avô, depois cheirei os sais eu mesmo e estremeci.
Meus dentes!”, ele berrou.
Não tem mais dente”, eu disse, como se estivesse falando com uma criança. “Nenhum!”
Os novos, palerma!”
Fui buscar a dentadura. Já a conhecia àquela altura; era exatamente como a boca do meu avô costumava ser por dentro.
Ele estendeu a mão para pegá-la como um mendigo de Juárez, mas estava tremendo demais.
Eu boto pra você. Enxague a boca primeiro.” Entreguei pra ele o antisséptico bucal. Ele bochechou e cuspiu sem levantar a cabeça. Eu lavei a dentadura com água oxigenada e a pus na boca dele. “Ei, olha!” Levantei o espelho de marfim de Mamie.
Olha xó exa gengiva!” Ele estava rindo.
Uma obra-prima, vovô!” Eu ri também e dei um beijo na sua cabeça suada.
Ai meu Deus!”, minha mãe exclamou com uma voz estridente e veio andando na minha direção com os braços estendidos. Escorregou no sangue e trombou com os barris de dentes. Apoiando-se neles, recuperou o equilíbrio.
Olha os dentes dele, mãe.”
Ela não tinha nem reparado. Disse que não dava para notar diferença nenhuma. Ele ofereceu um copo com Jack Daniel’s para ela. Ela aceitou, fez um brinde distraído a ele e bebeu.
Você é maluco, pai. Ele é maluco. De onde veio esse monte de saquinhos de chá?”
A camisa dele fez um ruído de rasgo quando desgrudou da pele. Eu o ajudei a lavar o peito e a barriga enrugada. Depois me lavei também e vesti um suéter cor de coral da Mamie. Os dois ficaram bebendo, em silêncio, enquanto esperávamos o táxi da 8-5. Eu conduzi o elevador até lá embaixo e aterrissei bem perto do piso. Quando nós chegamos em casa, o motorista ajudou o vovô a subir as escadas. Ele parou em frente ao quarto de Mamie, mas ela estava dormindo.
Na cama, o vovô dormiu também, seus dentes à mostra num esgar de Bela Lugosi. A boca dele devia estar doendo.
Ele fez um bom trabalho”, minha mãe disse.
Você não odeia mais o vovô, odeia, mãe?”
Ah, odeio”, disse ela. “Odeio sim.”

Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

Nenhum comentário:

Postar um comentário