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10/05/2022

Longe dali, em outro tempo


Durante toda a noite vapores pestilentos elevam-se do pântano verde. Um cheiro adocicado de podridão se espalha entre nossas cabanas. Tudo que é de ferro oxida da noite para o dia, ervas peçonhentas derrubam as cercas, o bolor devora as paredes, a umidade faz a palha e o feno enegrecerem como carvão, mosquitos enxameiam por toda parte, nossos quartos estão cheios de insetos voadores e rastejantes. A própria poeira borbulha, pustulenta. Carunchos, traças e pulgões roem móveis, parapeitos de madeira e até telhas podres. O verão inteiro, nossas crianças padecem de furúnculos, eczemas e gangrenas. Os velhos morrem com as vias respiratórias decompostas. O odor fétido da morte exala também dos vivos. Muitos aqui são desfigurados, apalermados, têm bócio, membros deformados, feições contorcidas, a baba escorre da boca, porque aqui todos procriam com todos: irmão com irmã, filho com mãe, pais com filhas.
Eu, que para cá fui enviado há vinte ou vinte e cinco anos pelo Departamento de Incentivo a Regiões Atrasadas, continuo a sair todos os dias, ao cair do crepúsculo, para borrifar as águas do pântano com desinfetante e para distribuir aos desconfiados habitantes quinino, ácido carbólico, pó de sulfa, unguentos para a pele e remédios contra parasitas. Faço-lhes preleções sobre abstinência e higiene, sobre água sanitária e ddt. Vou aguentando, até que finalmente chegue um substituto, talvez alguém mais jovem e de caráter mais forte do que o meu.
Enquanto isso, sou o farmacêutico, o professor, o tabelião, o árbitro, o sanitarista, o arquivista, o litigante, o apaziguador de querelas. Eles ainda tiram para mim seus chapéus amarfanhados, apertam-nos contra o peito, fazem uma reverência e me chamam de senhor. Eles ainda me bajulam, com seus sorrisos dissimulados e desdentados. Entretanto, mais agora do que antes, sou compelido a adulá-los, a fingir que nada vejo, a me amoldar a suas superstições, a ignorar suas gargalhadas insolentes, a suportar o fedor de seus corpos e o bafo de suas bocas, a aturar as invasões de propriedade que se espalham por toda a aldeia. Admito que já não me resta quase poder algum. Minha autoridade vai se esvanecendo. Restam apenas resquícios esfarrapados de influência, que procuro exercitar por meio de subterfúgios, adulação, mentiras necessárias, vagas advertências e pequenos subornos. O que me resta é aguentar por algum tempo, um pouco mais, até a chegada do substituto. Partirei então para sempre. Ou o contrário: pegarei uma cabana vazia, uma camponesa rechonchuda, e ficarei de vez.
Certa vez, antes da minha vinda, há um quarto de século ou mais, o governador fez uma visita, acompanhado de uma grande comitiva. Ficou uma ou duas horas, e mandou que o curso do rio fosse desviado imediatamente para drenar o pântano maligno. Com ele vieram dignitários e funcionários, topógrafos, clérigos, um jurista, um cantor, um historiador oficial, um ou dois intelectuais, um astrólogo e representantes de dezesseis serviços secretos. O governador fez registrar por escrito suas determinações: cavar. Desviar. Drenar. Erradicar. Desinfetar. Canalizar. Remover. Priorizar. Abrir uma nova página.
Nada aconteceu desde então.
Há quem diga que lá, do outro lado do rio, além das florestas e das montanhas, o governo mudou de mãos várias vezes. Um foi deposto, outro foi derrotado, um terceiro deu um passo em falso, um quarto foi assassinado, um quinto aprisionado, um sexto deu uma guinada, um sétimo fugiu, ou caiu no sono. Aqui, tudo é como sempre foi: os velhos e os bebês continuam a morrer, os jovens a envelhecer prematuramente. A população da aldeia, segundo meus cálculos conservadores, diminui cada vez mais. Pela tabela que preparei e pendurei sobre minha cama, até a metade do século não restará aqui uma alma viva. Exceto os insetos e répteis.
É verdade que aqui nascem crianças aos montes, mas a maioria morre ainda na infância, e quase não são lamentadas. Os jovens fogem para o norte. As moças cultivam beterrabas e batatas na lama espessa, engravidam aos dezesseis anos, e aos vinte murcham diante dos meus olhos. Às vezes, a paixão toma de assalto a aldeia, arrastando-a a uma noite de libertinagem à luz de fogueiras feitas com madeira úmida. Todos perdem a compostura, velhos com crianças, moças com aleijados, homens com animais. Não posso dar detalhes, pois nessas noites me tranco na minha cabana, que é também a farmácia, fecho as rebentadas venezianas de madeira, passo o ferrolho na porta e, por via das dúvidas, ponho uma pistola sob o travesseiro.
Mas noites como essas não são frequentes. No dia seguinte, eles acordam ao meio-dia, atordoados, os olhos vermelhos, e de novo, submissos, vão labutar do alvorecer ao anoitecer em suas glebas lamacentas. Os dias são de calor ardente. Pulgas exasperantes, do tamanho de uma moeda, nos atacam e, quando nos mordem, emitem uma espécie de silvo agudo e insuportável. O trabalho nos campos parece ser extenuante. As beterrabas e as batatas vão sendo tiradas da lama pastosa, quase todas apodrecidas, e mesmo assim são comidas cruas, ou cozidas numa papa pestilenta e infecta. Dois dos filhos do coveiro fugiram para as montanhas e entraram para uma gangue de contrabandistas. Suas mulheres foram morar, elas e os filhos, na cabana do caçula, que ainda é uma criança, não tendo completado catorze anos.
Quanto ao próprio coveiro, um homem de poucas palavras, corcunda e ossudo, ele decidiu não aceitar aquilo calado. Mas seguiram-se semanas e meses de total silêncio, e anos se passaram igual. Um dia, o coveiro açodou-se e se mudou, ele também, para a cabana do filho caçula. Mais e mais bebês foram nascendo, e ninguém sabe quais são os filhos dos irmãos fugitivos, que às vezes pernoitam uma ou duas noites na aldeia, e quais são do filho caçula, e quais do coveiro, e quais de seu velho pai. Seja como for, a maioria desses bebês morreu algumas semanas depois de nascer. À noite, outros homens lá entravam e saíam, assim como algumas moças, crescidas e desmioladas, em busca de um teto ou de um macho, de um abrigo, de um bebê ou de comida. O atual governador não respondeu a três memorandos urgentes, cada um mais alarmante que o outro, que lhe foram enviados a curtos intervalos para alertar quanto à degeneração dos padrões morais e para solicitar sua urgente intervenção. Fui eu o redator e o frustrado remetente desses memorandos.
Os anos transcorrem em silêncio. Meu substituto não chegou. Para o lugar do guarda veio seu cunhado, e há rumores de que o guarda demitido juntou-se aos contrabandistas das colinas. Ainda estou em meu posto, mas cada vez mais exausto. Eles já não me chamam de senhor nem se dão o trabalho de tirar seus bonés esfarrapados para me cumprimentar. Os desinfetantes já acabaram. As mulheres, sem me fazer qualquer pagamento, retiram pouco a pouco o resto de estoque da farmácia. Parece que minha mente e minha vontade se deterioram gradativamente. Ou talvez sejam apenas meus olhos a escurecer, a ponto de até mesmo a luz do meio-dia lhes parecer sombria, e a fila de mulheres à porta da farmácia se assemelhar a uma fileira de sacos abarrotados. Com o passar do tempo, quase me acostumei a seus dentes podres e à onda de fedor que emana de seus hálitos. Assim vou levando, da manhã à noite, dia após dia, do verão ao inverno. Há muito deixei de sentir as picadas dos insetos. Meu sono é profundo e tranquilo. O musgo cresce em meus lençóis, e manchas de fungo florescem em todas as paredes. De vez em quando, uma ou outra aldeã se apieda de mim e me alimenta com um líquido viscoso, provavelmente feito de cascas de batata. Todos os meus livros estão mofados, as encadernações se esfarelam e desmancham. Nada me restou, e eu não saberia distinguir um dia do outro, ou a primavera do outono, ou um ano de outro qualquer. Às vezes, à noite, tenho a impressão de ouvir o lamento distante de algum instrumento de sopro antigo, e não tenho a menor noção de qual seja ou de quem o está tocando, e se o estão tocando na floresta, ou talvez nas colinas, ou talvez dentro de meu crânio, debaixo de meus cabelos cada vez mais grisalhos e ralos. Vou assim, lentamente, voltando as costas a tudo que me circunda e a mim mesmo também.
Exceto por um acontecimento que testemunhei esta manhã, e que aqui devo relatar por escrito, sem expressar qualquer opinião:
Esta manhã o sol subiu e transformou os vapores do pântano numa espécie de chuva viscosa e gelatinosa. Uma chuva quente de verão, com cheiro de suor velho e azedo. Os aldeões começaram a sair das cabanas para descer até os canteiros de batata. Então, no cume da colina mais a leste, entre nós e o sol que se elevava no céu, apareceu um estranho, forte e bonito. Ele começou a agitar os braços, a desenhar no ar úmido todo tipo de círculos e curvas, a dar chutes e a fazer reverências, a pular no mesmo lugar, sem dizer palavra. Quem é ele?, os homens se perguntavam, e o que será que ele quer aqui? Ele não é daqui, nem da outra aldeia, nem das colinas, diziam os velhos uns aos outros. Talvez tenha vindo da nuvem.
E as mulheres diziam, É preciso ter cuidado com ele, é preciso pegá-lo em flagrante, é preciso matá-lo. Enquanto deliberavam e discutiam, o ar amarelado encheu-se com o rumor de diversos sons, pássaros que gritavam, cães, fala humana, berros, broncas, o zumbido de insetos do tamanho de canecas de cerveja. Os sapos do pântano também se deram conta e começaram a coaxar, as galinhas lhes fizeram coro, arreios tilintavam e tosses e gemidos e xingamentos. Vozes diversas.
Aquele homem, começou a dizer o filho caçula do coveiro, mas de repente mudou de ideia e calou-se. Aquele homem, disse o estalajadeiro, está tentando seduzir as moças. E as moças gritavam, vejam, ele está nu, vejam como é grande, vejam, ele está dançando, ele quer voar, vejam, parecem asas, vejam como ele é branco.
O velho coveiro disse, Qual a razão para tanto falatório? O sol já vai alto no céu, o homem branco que estava lá, ou que pensávamos estar lá, desapareceu do outro lado do pântano, ficar falando não adianta nada, um novo dia está começando, está muito quente e precisamos ir trabalhar. Quem pode trabalhar que trabalhe e sofra em silêncio. E quem não pode que vá em frente e morra. Isso é tudo.

Amós Oz, in Cenas da vida na aldeia

27/04/2022

Judas | 1

Eis aí uma história dos dias de inverno no final de 1959 e início de 1960. Nesta história há erro e desejo, há amor frustrado e certa questão religiosa que ficou aqui sem resposta. Em alguns prédios ainda se reconhecem os sinais da guerra que há dez anos dividiu a cidade. Ao fundo dá para ouvir o toque distante de um acordeão ou os sons nostálgicos de uma gaita ao entardecer, por trás de uma persiana cerrada.
Em muitas residências de Jerusalém é possível ver na parede da sala de estar o redemoinho de estrelas de Van Gogh ou a ardência de seus ciprestes, e nos pequenos quartos ainda estão estendidas esteiras de palha, e um exemplar de Iemei Tziklag ou de Doutor Jivago virado e aberto na beirada de um colchão de espuma coberto com um pedaço de tecido de motivo oriental e um monte de almofadas bordadas. Durante a noite inteira um aquecedor a querosene arde com uma chama azul. De dentro de um cartucho de obus no canto da sala cresce uma espécie de ramalhete estilizado feito de ramos de espinheiro.
No início de dezembro Shmuel Asch interrompeu seus estudos na universidade e pretendia ir embora de Jerusalém, por causa de um amor frustrado, devido a uma pesquisa que empacou e principalmente porque a situação econômica de seu pai despencara e Shmuel se via obrigado a procurar algum trabalho.
Era um rapaz corpulento, barbado, vinte e cinco anos mais ou menos, tímido, sensível, socialista, asmático, com tendência a se entusiasmar facilmente e se decepcionar logo em seguida. Tinha ombros pesados, um pescoço curto e grosso, assim como a mão, e também os dedos: grossos e curtos como se em cada um deles faltasse uma falange. De cada poro do rosto e do pescoço de Shmuel Asch irrompia sem freio um fio de barba encaracolado que lembrava lã de aço. Essa barba se estendia e se juntava ao cabelo, que era todo cacheado, e com o emaranhado de pelos do peito. De longe parecia sempre, fosse no verão ou no inverno, que ele estava todo afogueado e banhado em suor. Mas de perto, com agradável surpresa, se notava que a pele de Shmuel não exalava a acidez do suor, mas simplesmente um delicado aroma de talco de bebê. Ele num instante se embriagava com novas ideias, contanto que essas ideias viessem muito bem formuladas e implicassem numa mudança radical. Mas da mesma forma tendia a se cansar depressa, talvez por causa de um coração dilatado e também porque sofria de asma.
Com grande facilidade seus olhos se enchiam de lágrimas, e isso lhe causava constrangimento e até vergonha: ao pé de uma cerca um filhote de gato berra numa noite de inverno, talvez tenha se perdido da mãe, e esse filhote ergue para Shmuel um olhar de cortar o coração e se esfrega suavemente em sua perna, e logo os olhos de Shmuel se turvam. Ou ao final de algum filme bem mediano sobre solidão e desespero no Cinema Edison de repente se descobre que o personagem mais durão de todos é capaz, afinal de contas, de revelar a grandeza de sua alma, e logo lhe vêm as lágrimas e elas começam a sufocar-lhe a garganta. Ao avistar na saída do Hospital Shaarei Tsedek uma mulher magra e um menino, que lhe são totalmente estranhos, parados e abraçados, ambos chorando — na mesma hora lhe vem o choro e também o arrebata.
Naquela época era comum considerar o choro uma coisa de mulher. Um homem banhado em lágrimas provocava retraimento, e até uma leve repulsa, mais ou menos como uma mulher com uma barbicha crescendo no queixo. Shmuel sentia muita vergonha dessa sua fraqueza e se esforçava muito por superá-la, mas sem conseguir. No íntimo, ele mesmo aderia às zombarias suscitadas por sua sensibilidade, e até se resignava com o pensamento de que sua masculinidade estava um pouco prejudicada e por isso era bastante provável que sua vida fosse passar em branco e sem atingir qualquer objetivo.
Mas o que faz você, perguntava-se às vezes em sua autorrejeição, o que na verdade você faz além de sentir pena? Pois aquele gato, por exemplo, você poderia ter aconchegado no casaco e levado para o seu quarto. Quem o impediu? E você poderia simplesmente ter ido até a mulher chorosa e o menino, e ter perguntado a eles como poderia, quem sabe, ajudá-los. Ou fazer o garoto sentar na varanda com algum livro e com biscoitos, enquanto você e a mulher sentam-se um junto ao outro na cama, no quarto, e aos sussurros esclarecem o que tinha acontecido a ela e o que você poderia tentar fazer?
Alguns dias antes de abandonar você, Iardena lhe disse: Você, ou é uma espécie de cachorrinho todo animado, fazendo barulho, correndo, se esfregando, e até mesmo quando está sentado numa cadeira de certa forma fica rodando o tempo todo em torno de seu rabo, ou ao contrário, passa dias inteiros enfiado na cama como um cobertor que fica lá o inverno todo sem ser arejado.
Com isso Iardena se referia, por um lado, ao eterno cansaço de Shmuel, e por outro a algum componente de insanidade, perceptível em seu modo de andar, no qual sempre se escondia uma corrida reprimida: devorava degraus impetuosamente, de dois em dois. Atravessava ruas movimentadas na diagonal, com muita pressa, e muito risco, sem olhar à direita ou à esquerda, como quem se atira numa briga, a cabeça com sua barba encaracolada se jogando com força à frente, pronta para a batalha, o corpo inclinado para a frente, e sempre parecendo que suas pernas perseguiam com todas as forças o corpo que perseguia a cabeça, como se as pernas tivessem medo de se atrasar caso Shmuel desaparecesse de sua vista depois de dobrar uma esquina, deixando-as para trás. Corria o dia inteiro, ofegando, febril, não porque temesse atrasar-se para a aula ou para um encontro político, mas porque a qualquer momento, pela manhã ou à noite, estava sempre querendo terminar de uma vez o que tinha de fazer, apagar tudo o que tinha anotado em sua lista diária de tarefas. E finalmente voltar para a tranquilidade de seu quarto. Cada dia de sua vida lhe parecia uma cansativa corrida de obstáculos pelo caminho no qual circulava desde o momento em que era arrancado do sono, de manhã, até voltar para debaixo do cobertor de inverno.
Gostava muito de discursar para quem o ouvisse, e sobretudo para os colegas do grupo de estudos sobre a renovação socialista: gostava de explicar, fundamentar, divergir, refutar e propor algo novo. Discorria longamente, com prazer, com agudeza e com ímpeto. Mas quando lhe respondiam, quando chegava sua vez de ouvir as ideias alheias, Shmuel era logo atacado de impaciência, perda de atenção e cansaço a ponto de fechar os olhos e deixar pender a cabeça desgrenhada para o peito estofado.
Também gostava de proferir para Iardena todo tipo de discurso veemente, demolir preconceitos e abalar convenções, tirar conclusões de uma hipótese e formular uma hipótese a partir de uma conclusão. Mas, quando era ela que lhe falava, suas pálpebras costumavam baixar em dois ou três minutos. Ela o acusava de nem sequer a ouvir, ele negava, ela pedia que ele repetisse o que havia dito ainda agora, e ele mudava de assunto e lhe falava do erro que Ben Gurion estava cometendo. Ele era bondoso, generoso, cheio de boa vontade e suave e macio como uma luva de lã, sempre disposto a tudo para ser útil a todos, mas também confuso e impaciente, esquecia onde exatamente tinha pendurado a outra meia ou o que o senhorio estava querendo dele ou a quem tinha emprestado o caderno com as anotações das palestras. Mesmo assim, nunca se confundia ao levantar para citar com toda a exatidão o que Kropótkin tinha dito sobre Necháiev após o primeiro encontro entre os dois e o que disse sobre ele dois anos depois. Ou quem, dos apóstolos de Jesus, era o que falava menos entre todos os outros apóstolos.
Apesar de gostar de seu espírito vivaz, de seu desamparo, do que parecia a ela ser uma qualidade de cão amigável, esfuziante e exuberante, um grande cão que sempre se aperta contra nós para se esfregar e babar em nossos joelhos, Iardena decidiu separar-se dele e aceitar o pedido de casamento feito pelo namorado anterior, um hidrologista aplicado e calado chamado Nesher Sharshavsky, especialista em captação e acumulação de água de chuva, que quase sempre sabia adivinhar exatamente qual seria o próximo desejo dela. Nesher Sharshavsky comprou para ela uma bela echarpe como presente de aniversário, segundo a data do calendário universal, e depois uma esteira ao estilo oriental, verde, de acordo com a data do calendário hebraico, que caiu dois dias depois. Ele se lembrava até mesmo dos aniversários dos pais dela.

Amós Oz, in Judas