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26/09/2023

Caixa com gatos




[…]

Perto do estúdio fotográfico Sawada, subindo uma ladeira suave, chegava-se a uma área residencial. Ali, em uma região proclamada trinta anos antes como a epítome do desenvolvimento, enfileiravam-se casas padronizadas e modernos prédios residenciais.
A família de Satoru morava naquele bairro, em um condomínio modesto. Eram apenas Satoru e os pais.
Kosuke conheceu Satoru na escola de natação, quando estava no segundo ano do ensino fundamental. Desde pequeno, Kosuke tinha tendência a dermatite atópica, e a mãe o matriculou na natação porque acreditava na teoria de que esse esporte torna a pele mais resistente. Já Satoru tinha outros motivos. Foi o professor da escola quem sugeriu que ele fizesse aulas de natação e aprendesse a sério o esporte, pois parecia ter nadadeiras nas mãos, de tão rápido que era na água.
Muito brincalhão, Satoru passava os intervalos das aulas fazendo gracinhas — rondava o fundo da piscina grudado ao chão como uma salamandra, assustava os outros alunos agarrando seus pés por baixo da água. Os professores brigavam com ele e o chamavam de Kappa, a criatura do folclore japonês que vive nos rios e prega peças nos humanos, e esse logo se tornou seu apelido. Dependendo do humor do professor, às vezes também era chamado de “Nadadeiras”.
Quando a aula começava, Satoru se juntava à turma do curso avançado, a dos que nadavam bem, e Kosuke ficava na turma normal, cheia de crianças com alergias.
Mesmo com os apelidos de Kappa ou Nadadeiras, era impressionante ver Satoru atravessando a piscina a grandes braçadas. Nessas horas, apesar de ser seu amigo, Kosuke sentia uma pontinha de raiva. Bem que eu podia nadar como Satoru.
Mas logo mudou de ideia ao vê-lo pular na piscina fazendo palhaçadas e dar com a testa no piso.
Talvez, no dia que encontraram Hachi, o pêndulo estivesse pendendo um pouco mais para a inveja…
Era um dia no começo do verão, e eles já praticavam natação havia dois anos.
Kosuke foi o primeiro a chegar ao pé da ladeira da área residencial, onde se encontravam para irem juntos ao treino. Por conta disso, foi ele quem viu primeiro a caixa.
No chão, embaixo de uma placa grande com o mapa do bairro, estava largada uma caixa de papelão. E a caixa miava baixinho. Ele entreabriu a tampa, temeroso, e encontrou duas bolas de pelo branco macio, decoradas aqui e ali por manchas marrons e pretas.
Ele observou os animais em silêncio. Eram criaturas tão indefesas e delicadas! Tão pequenas que dava até medo de tocar …
Nossa! Gatos! — A voz de Satoru ressoou acima da cabeça dele. — De onde veio isso?
Ele se agachou ao lado de Kosuke.
A caixa estava largada aqui.
Ah, que bonitinhos!
Os dois passaram algum tempo acariciando timidamente as bolinhas de pelo com as pontas dos dedos, até que Satoru propôs:
Vamos pegar eles?
Kosuke hesitou por um momento, lembrando-se das advertências severas da mãe, que sempre dissera que ele não podia mexer em animais por causa da dermatite, mas, se Satoru pegasse um no colo, Kosuke não ia aguentar ficar só olhando. Além do mais, ele é que tinha encontrado a caixa.
Apanhou um dos filhotes com cuidado, com as duas mãos. Ele era tão leve!
Os meninos queriam continuar brincando com os gatos por horas, mas iam se atrasar para a natação. “Acho que a gente tem que ir”, “Já está tarde”, “Vamos logo!”. Incentivando um ao outro, conseguiram afinal se afastar da caixa.
Combinaram de voltar por ali para ver os gatos de novo e dispararam pela rua até a escola de natação.
Quando chegaram, esbaforidos, o treino já tinha começado. Os dois levaram uma bronca do professor.
Assim que a aula acabou, eles dispararam de volta, rumo ao pé da ladeira.
A caixa continuava ali, embaixo do mapa, mas agora tinha só um gatinho. Pelo visto, alguém tinha levado o outro. Naquele momento, os dois meninos sentiram que o destino do filhote que restara estava nas mãos deles. Era o que tinha duas manchinhas na testa e o rabo torto.
Eles se sentaram no chão ao lado da caixa e ficaram vendo o gatinho dormir calmamente, todo enrolado. Que criança não ia querer levar para casa um bichinho fofo como aquele? Era óbvio que os dois estavam calculando, a toda velocidade, o que aconteceria se o levassem.
Como seria lá em casa? Mamãe não aceitaria, por causa da dermatite… E papai também não gosta muito de animais.
Enquanto Kosuke refletia sobre as várias questões que enfrentaria em casa, Satoru foi logo dizendo:
Vou pedir pra minha mãe!
Ei, assim não vale!
No protesto que Kosuke deixou escapar havia um pequeno rancor que ele guardava fazia algumas semanas, quando ele ouvira uma menina da natação de quem gostava comentando, enquanto via Satoru nadar: “Puxa, ele é o máximo!”. (Pensando sobre isso agora, ela provavelmente queria dizer apenas “Para alguém tonto como o Kappa, até que ele manda bem”, então talvez não fosse um elogio digno de inveja…)
Satoru nadava bem, não tinha dermatite e com certeza poderia ficar com o gato se o levasse para casa, porque tinha pais legais. Além de ganhar elogio da menina de que eu gosto, ainda vai ter esse gatinho? Não é justo!
O protesto do amigo atingiu Satoru como uma bofetada. Kosuke se arrependeu assim que viu a expressão perplexa dele.
Sabia perfeitamente que estava só descontando sua frustração no amigo.
É que… fui eu que vi primeiro…
Essa foi a única desculpa esfarrapada que conseguiu produzir, mas bastou para fazer Satoru se desculpar sinceramente.
Verdade, você encontrou primeiro, então o gato é seu.
Kosuke só pôde concordar com a cabeça, sentindo-se patético por descontar sua raiva no amigo. Depois de uma despedida meio desconfortável, ele levou a caixa para casa.
Ao contrário do que ele imaginara, a mãe não se opôs à ideia.
Você não tem tido mais dermatite, talvez por causa da natação. Se cuidarmos para a casa ficar bem limpa, acho que não tem problema. Além do mais, quando fomos para a casa do seu tio no outro dia, você não teve problemas com o gato dele…
Pensando bem, ultimamente ela não dava mais tantos sermões sobre a dermatite. Também fazia tempo que não iam ao médico.
No fim, o verdadeiro obstáculo foi o pai.
Ficou maluco? De jeito nenhum!
E fim de conversa. Não havia chance de argumentar.
O que você vai fazer se ele sair afiando as unhas pela casa? E saiba que criar um gato não é de graça não, viu? Você acha que eu dou duro o dia inteiro lá no estúdio pra comprar comida pra bicho?
A mãe tentou interceder a favor do menino, mas, aparentemente, isso só aumentou a irritação do pai. Cada vez mais obstinado, ele enxotou Kosuke de casa, mandando-o devolver a caixa ao lugar onde a tinha encontrado, e que fizesse isso antes do jantar.
Kosuke foi choramingando até o pé da ladeira, abraçado à caixa com o gatinho. Chegou até a placa com o mapa, mas como poderia largar a caixa lá? Em vez disso, seguiu até a casa de Satoru, mesmo se sentindo ainda um pouco desconfortável por terem se despedido em um clima desagradável.

Hiro Arikawa, in Relatos de um gato viajante

14/09/2023

RELATO 1 | Kosuke Sawada


Há quanto tempo!”
O e-mail começava assim.
O remetente era Satoru Miyawaki, um amigo de infância que tinha se mudado para longe quando ainda eram pequenos. Ele se mudou várias outras vezes, mas os dois sempre mantiveram contato, e assim a amizade perdurava, mesmo agora, com mais de trinta anos. Podiam passar anos sem se ver, mas quando se encontravam a conversa fluía como se tivessem se visto no dia anterior. Satoru era desse tipo de amigo.
Desculpa pedir assim em cima da hora, mas será que você podia adotar meu gato?”
Segundo a mensagem, aquele gato era seu xodó, mas, por questões incontornáveis, Satoru não ia poder ficar com ele e estava procurando alguém que o adotasse.
Não havia explicação sobre os tais motivos incontornáveis. “Se você achar que pode ficar com ele”, continuava o texto do e-mail, “levo-o aí para apresentar vocês dois.”
Vinham duas fotos anexadas, de um gato branco com duas manchinhas escuras na cabeça. Kosuke soltou uma exclamação de espanto.
É igualzinho ao Hachi!
O gato da foto era muito parecido com aquele que tinham resgatado.
Kosuke desceu até a segunda foto: um close do rabo torto em forma de 7. Ele se lembrou de ter ouvido em algum lugar que gatos com rabo torto dão sorte.
Quem foi que disse isso? Refletiu por um instante, para logo em seguida deixar escapar um suspiro. A esposa. A esposa, que fora embora para a casa dos pais e que ele não sabia quando voltaria de lá.
A cada dia ele estava mais convencido de que ela nunca voltaria.
Kosuke se perguntou, em vão, se teria sido diferente se os dois tivessem um gato assim, de rabo torto.
Com um gato daqueles zanzando pela casa, recolhendo com o gancho do rabo as pequenas felicidades do dia a dia, quem sabe eles não conseguissem levar uma vida alegre, mesmo sem filhos?
Talvez eu possa ficar com ele, pensou. O gato era bonitinho, parecia Hachi, de rabo torto. Além do mais, seria bom ver Satoru.
Kosuke enviou uma mensagem à esposa, contando que um amigo tinha lhe pedido que adotasse seu gato e perguntando o que ela achava. A resposta: “Faça como quiser”. Considerando que até então todas as mensagens dele tinham sido sumariamente ignoradas, a grosseria até que era um bom sinal.
A esposa adorava gatos. Se ele adotasse o de Satoru, talvez conseguisse atraí-la com um convite para vir conhecê-lo. Se chorasse as pitangas dizendo que não sabia cuidar direito do novo bichano, era capaz até que ela voltasse, não por ele, mas por compaixão ao animalzinho.
Ih, mas meu pai não gosta de gatos…
Ao perceber que estava se preocupando com o humor do pai, Kosuke deu um resmungo de irritação.
É por causa desse tipo de coisa que nem minha esposa me quer. Agora o dono do estúdio sou eu. Não tenho que ficar esquentando a cabeça com o que meu pai acha ou deixa de achar.
A revolta contra o pai brotou em seu peito enquanto ele pensava isso. Incitado pelo sentimento, Kosuke Sawada respondeu que sim, podia ficar com o gato do amigo.
Satoru Miyawaki veio visitá-lo já na semana seguinte, no dia em que o estúdio não abria. Chegou em uma van prata, trazendo consigo seu tão adorado gato.

Ao ouvir o ruído do motor, Kosuke saiu à rua e viu Satoru entrando com a van no estacionamento do estúdio.
Kosuke! Há quanto tempo! — Satoru largou o volante e ficou acenando pela janela aberta.
Estacione logo de uma vez! — apressou Kosuke, sorrindo.
Fazia uns três anos que não se viam, mas Satoru continuava bem-humorado como sempre. Não mudara nada desde os tempos de criança.
Você podia ter parado na primeira vaga. Nessa aí é ruim de manobrar.
Havia três vagas diante do estúdio, e Satoru estava estacionando na mais próxima da entrada. Ali, plantas e objetos ficavam no caminho, então os clientes geralmente preferiam as outras. O carro dos moradores ficava nos fundos da casa, em uma vaga não asfaltada.
É que aí vai atrapalhar se chegar algum cliente…
Hoje não abrimos, esqueceu?
Naquele estúdio fotográfico, que Kosuke herdara do pai, a folga semanal era às quartas-feiras. Kosuke havia proposto se encontrarem em um sábado ou domingo, pois Satoru trabalhava em uma empresa privada, mas ele fez questão de vir no dia de folga de Kosuke. Disse que já estava pedindo um favor e não queria dar mais trabalho.
Ah, é verdade! — disse Satoru, descendo da van e pegando a caixa de transporte no banco de trás.
Nana está aí dentro?
Está! Você viu as fotos? Ele se chama Nana por causa do rabo em forma de 7. Mandei bem nesse nome, hein?
Não sei se eu diria que “mandou bem”… Você tem esse gosto por nomes literais, desde Hachi.
Kosuke o convidou a entrar e quis ver como era Nana, mas o gato não queria sair da caixa por nada. Só chiava lá dentro, mal-humorado. Espiando o interior da caixa, Kosuke viu apenas o traseiro branco e o rabo preto e torto.
Ué, o que foi que deu em você, Nana? Naaana? — Agoniado, Satoru tentou por algum tempo convencer o gato a sair, mas não adiantou. — Desculpa, ele deve estar nervoso em uma casa desconhecida… Daqui a pouco se acalma.
Os dois resolveram deixar a caixa ali, com a portinhola aberta, enquanto colocavam o papo em dia.
O que quer beber? Um chá ou café, já que está dirigindo?
Pode ser um café.
Kosuke serviu duas xícaras. Satoru pegou a sua e perguntou, casualmente:
E sua esposa?
Por um segundo, Kosuke pensou em disfarçar, mas nenhuma desculpa lhe veio à mente.
Voltou pra a casa dos pais.
Ah…
Satoru ficou com a expressão culpada de quem não queria ter cutucado uma ferida.
Mas então… Tudo bem você decidir sozinho sobre Nana? Ela não vai achar ruim quando voltar?
Pelo contrário, é capaz de ela voltar só por causa do gato, se eu ficar com ele.
Hum, mas cada um tem suas preferências, em se tratando de gatos…
Eu encaminhei as fotos que você me mandou, e ela respondeu assim: “Faça como quiser”.
Isso quer dizer que ela gostou?
Essa foi a única vez que ela me respondeu desde que foi embora.
Kosuke tinha dito em tom de brincadeira que era capaz que sua esposa voltasse por causa do gato, mas na verdade estava mesmo contando com isso.
Se ela voltar, sei que não vai expulsar o gato. Ela nunca faria isso. E se ela não voltar, eu crio Nana sozinho. De um jeito ou de outro, não tem problema.
Satoru pareceu se conformar com a resposta. Agora era a vez de Kosuke fazer perguntas.
Mas, deixando isso de lado, me diga: por que você não pode mais ficar com ele?
Ah, bom… — Satoru deu um sorriso atrapalhado e coçou a cabeça. — É que aconteceram umas coisas, e não vai dar mais.
De repente, Kosuke entendeu. Bem que ele tinha achado estranho ao saber que Satoru viria visitá-lo no meio da semana.
Demitiram você?
É, bem… A questão é que não vou mais poder ficar com Nana.
A resposta foi ambígua, mas Kosuke não quis pressioná-lo.
Enfim, aí preciso arranjar uma casa pra ele, então resolvi pedir aos amigos mais próximos.
Entendi… Que chato!
A vontade de ficar com o gato aumentou. Era uma boa ação, além de justo para Satoru.
E você, como está? Digo… vai se sair bem disso?
Vou sim, obrigado. Se eu conseguir resolver as coisas para Nana, vai ficar tudo bem.
Pelo jeito, era melhor parar por ali. Não parecia ser o caso de insistir e perguntar se ele precisava de alguma coisa.
Nossa, mas eu levei um susto quando vi as fotos! Ele é igualzinho ao Hachi!
Ao vivo parece mais ainda… — disse Satoru, espiando a caixa às suas costas. Nana não dava sinal de que ia sair de lá. — Também levei um susto quando o vi pela primeira vez! Por um instante, achei que fosse Hachi.
O jeito como ele falou, com uma risada de quem diz “é claro que não podia ser ele”, doeu um pouco em Kosuke.
No fim, o que aconteceu com Hachi?
Ele morreu quando eu estava no colégio. Meu tio que o criava me avisou, disse que foi no trânsito.
Devia ter sido uma notícia bem dolorosa para Satoru. Onde será que ele estava quando soube?
Você podia ter me contado…
Como um amigo que conhecia Hachi, Kosuke poderia pelo menos ter acompanhado Satoru em seu luto. Devia ter chorado sozinho, pensando no gato.
Desculpa, eu fiquei tão triste que não consegui pensar em mais nada…
Não precisa pedir desculpas por isso, poxa! — Kosuke ameaçou empurrar o amigo, que se esquivou brincando.
O tempo passa muito rápido, não acha? Parece que foi ontem que a gente encontrou Hachi na rua! Você lembra?
Se eu lembro?
Como é que eu ia esquecer uma coisa dessas? — perguntou Kosuke, sorrindo.
Satoru também sorriu, meio envergonhado.
[…]

Hiro Arikawa, in Relatos de um gato viajante

10/09/2023

PRÉ-RELATO | O que aconteceu antes da nossa partida


[...]
Quando eu era criança, tinha um gato igualzinho a você!
Satoru pegou um álbum de fotos do armário e me mostrou.
Olha só.
Era o álbum inteiro só de fotos do mesmo gato. Ah, já saquei tudo! Os humanos que fazem esse tipo de coisa são os tais “gateiros”.
O gato das fotos realmente se parecia comigo. Tinha o pelo quase todo branco, com exceção de duas manchinhas marrons na testa e o rabo preto e torto. A única diferença era que o rabo dele virava para o outro lado. Até as manchas no rosto eram idênticas.
Ele se chamava Hachi, “oito”, por causa dessas manchas inclinadas na testa, que parecem o ideograma do número.
Nossa, mas que falta de criatividade! Oito, Nana, como no ideograma ! Comecei a ficar preocupado com o nome que ele pretendia me dar.
E se ele me chamar de “nove”? Eu seria “Kyu”?
Que tal Nana, de “sete”?
Opa, uma subtração? Por essa eu não esperava.
É que seu rabo faz uma curva para o lado oposto do rabo do Hachi, e olhando de cima parece o número 7!
Ah, então a coisa tinha a ver com meu rabo…
Ei, espera aí. Nana não é nome de menina? Eu sou um macho autêntico, viu? Como é que fica isso?
É um bom nome, hein, Nana? Sete é o número da sorte!
Miei bem alto — Ei, me ouve! —, mas Satoru só afagou meu queixo, sorrindo satisfeito.
Achou legal também?
Não! Mas… poxa, perguntar enquanto me faz carinho é sacanagem.
Foi só eu me distrair e dar uma ronronadinha que Satoru se animou:
Que bom que você gostou!
Nããão, eu odiei!
Acabei nunca tendo a oportunidade de esclarecer o mal-entendido (o cara não parava com os cafunés!), então esse ficou sendo meu nome.
Vamos precisar nos mudar …
Naquele prédio eram proibidos animais de estimação, Satoru tinha negociado para eu poder ficar só até minha pata sarar. Fomos morar em um apartamento no mesmo bairro. Mudar de casa por causa de um gato… Sei que eu, por razões óbvias, não deveria dizer isto, mas só um gateiro de carteirinha para fazer uma coisa dessas.
E assim começou nossa vida juntos. Satoru não deixava nada a desejar como roommate de gato, e eu não deixava nada a desejar como roommate de humano.
A gente realmente se entendeu muito bem, durante aqueles cinco anos.

*

Eu já era um gato adulto e Satoru passava dos trinta anos quando partimos.
Nana, me perdoe.
Satoru afagou minha cabeça. Tudo bem, tudo bem, não se preocupe.
Me perdoe por ter que fazer isso.
Não precisa dizer mais nada. Sou um gato muito sagaz, já entendi tudo.
Eu não queria ter que me desfazer de você, nunca.
Não tem jeito, a vida nem sempre corre como a gente deseja. Pelo menos eu tenho sete delas.
Se eu não puder mais viver com você, volto à situação em que eu estava cinco anos atrás, só isso. É como se, naquele incidente em que quebrei a perna, eu tivesse só esperado sarar e ido embora. Pronto. Tive um pequeno hiato, mas amanhã mesmo posso voltar a ser um gato de rua.
Não perdi nada. Só ganhei: o nome Nana e os cinco anos que passamos juntos.
Então não faz essa cara, vai.
Um bom gato aceita, sem drama, tudo o que o destino lhe reserva.
A única vez que não consegui fazer isso foi quando quebrei a pata e gritei por socorro.
Bom, então vamos indo?
Satoru abriu a portinhola da caixa de transporte e eu entrei, obediente. Durante os anos que vivi com Satoru, sempre fui muito obediente. Nunca fiz escândalo ou me recusei a entrar na caixa, nem quando ele ia me levar ao veterinário, aquele inferno na terra.
O.k., vamos lá. Eu, que não deixei nada a desejar como roommate, certamente não deixarei nada a desejar como companheiro de viagem.
Satoru entrou na van prata, carregando minha caixa.

Hiro Arikawa, in Relatos de um gato viajante

26/08/2023

Pré-relato | O que aconteceu antes da nossa partida


[…]
Daquele dia em diante, todas as noites eu encontrava debaixo da van prata aquela comida que faz croc-croc. Sempre um punhado, na proporção de uma mão humana, atrás do pneu traseiro. O suficiente para uma refeição de gato.
Era aquele homem que tinha desaparecido dentro do prédio quem me trazia a comida, à noite. Quando ele me encontrava por ali, eu o recompensava deixando que brincasse um pouco comigo, mas, mesmo que eu não estivesse, ele deixava, respeitosamente, sua oferenda.
Às vezes outro gato encontrava a comida antes de mim, ou acontecia de o homem sair para algum lugar, e aí, por mais que eu esperasse, o croc-croc não aparecia. Mesmo assim, passei a ter uma refeição garantida praticamente todos os dias. Só que os humanos são criaturas muito caprichosas, então é melhor nunca depender totalmente deles. Um gato de rua esperto tem seus esquemas e se garante em vários lugares.
E foi assim que começou minha relação com aquele homem — éramos apenas conhecidos, mantendo uma distância segura um do outro. Entretanto, logo quis o destino que essa relação se transformasse completamente.
E esse destino doeu horrores.
Eu estava atravessando a rua, de madrugada, quando o farol de um carro veio em cheio na minha cara. Tentei correr, mas uma buzina gritou nos meus ouvidos. Aí, já era.
Levei um susto com a buzina, o que me fez demorar um segundo a mais para correr. Não fosse por isso, eu teria conseguido escapar fácil, mas a meio passo da calçada o carro me atingiu, com uma força espantosa — BAM!. Depois disso, eu não vi mais nada.
Quando dei por mim, estava caído no meio dos arbustos da calçada. Meu corpo doía de um jeito que eu nunca tinha sentido na vida. Ah, mas eu estava vivo!
Puxa vida, que situação. Tentei ficar em pé… só para despencar, com um grito. Ai, ai, ai, que dor!
Era a minha pata traseira direita que doía absurdamente.
Voltei a me deitar, sem forças, e lá fui eu lamber a ferida. Ah, não! Tinha um osso espetado.
E agora? O que eu faço? Alguém me ajude!!
Onde já se viu, um gato de rua pedir socorro? Não temos ninguém para nos acudir… Mas naquela hora eu me lembrei do homem, o que me dava a comida croc-croc toda noite.
Talvez ele me socorresse. Não sei por que pensei isso, afinal, era só um conhecido que às vezes me levava uns agrados, e de vez em quando eu permitia um cafuné em troca.
Saí andando, arrastando a pata com o osso aparecendo. A cada vez que ela raspava pelo chão, eu sentia a dor vibrar por todo o meu esqueleto. Ao longo do caminho, várias vezes perdi as forças e caí. Não dá, desisto, não consigo dar nem mais um passo.
Não era uma grande distância até o prédio, mas o céu já estava clareando quando alcancei a van prata.
Não dá, desisto, não consigo dar nem mais um passo… Dessa vez, era verdade.
Então, gritei o mais alto que consegui.
Aaaaaaaaiiiiii!!!
Gritei e gritei, sem parar, até minha voz começar a falhar. Nessas horas, juro pra vocês, parece que até os gritos ressoam nos ossos da gente, porque a dor só aumenta.
Quando eu já não conseguia mais gritar, alguém apareceu na entrada do prédio. Olhei para cima: era o homem.
Sabia que era você!
Ele se aproximou correndo, transtornado.
O que aconteceu? Foi atropelado?
Odeio admitir, mas foi só eu vacilar um pouco que…
Está doendo muito? Aposto que sim.
Não faça perguntas idiotas, por favor! Anda logo, me ajuda!
Você me chamou com um grito tão agoniado que até me acordou! Estava me chamando, não estava?
Estava, chamei até cansar! Você demorou muito, viu?
Você sabia que podia contar comigo…
Eu ia responder na defensiva, explicar que não tinha alternativa, mas reparei que ele estava fungando.
Eu me machuco e você é que chora?
Que bom que você se lembrou de mim!
Não choramos como os humanos, mas, não sei por quê… naquela hora, acho que entendi o que é chorar.
Quando pensei que fosse meu fim, eu me lembrei de você. Pensei que, se você viesse, daria um jeito de me salvar.
Você vai me ajudar, né? Está doendo tanto! Não aguento mais.
Dói tanto que estou com medo. O que vai ser de mim?
Não se preocupe, agora vai ficar tudo bem.
Ele me acomodou em uma caixa de papelão forrada com uma toalha macia e me colocou dentro da van prata.
Fomos a um hospital veterinário. Vou poupá-los dos detalhes do que me aconteceu naquele lugar terrível, fonte eterna dos meus suplícios. Na primeira visita ao veterinário, qualquer animal aprende que nunca mais quer voltar ali, então não tenho por que me alongar no relato dessa experiência.
Depois disso, fiquei hospedado na casa do homem até minha pata sarar. Ele morava sozinho, e o apartamento até que era bem razoável. Ele instalou um banheiro para mim em um canto ao lado do boxe e colocou na cozinha as vasilhas para comida e água.
Pode não parecer, mas sou um gato muito inteligente e de boas maneiras. Aprendi num instante a usar o banheiro e nunca fiz sujeira no apartamento dele. Eu nem afiava as unhas nos lugares que o homem não permitiu. Vi que ele não gostava que eu afiasse nas paredes e nas colunas, então eu usava só os móveis e o tapete. Esses, ele nunca disse diretamente que eram proibidos. (Tudo bem, no começo ele me olhava feio, mas sou um gato muito perspicaz, percebo direitinho se algo é totalmente proibido ou não. Os móveis e os tapetes não eram totalmente proibidos.)
Acho que demorou uns dois meses para meu osso sarar e tirarem os pontos. Nesse tempo, eu aprendi o nome do homem. Era Satoru Miyawaki.
Satoru me chamava como lhe desse na telha: “você”, “gato”, “senhor gato”, e por aí vai.
Natural, já que eu não tinha nome.
E mesmo que eu tivesse um nome, não teria como contar a Satoru, já que ele não fala minha língua. Esse negócio de os humanos falarem só a própria língua é muito inconveniente. Não sei se os senhores estão cientes, mas nesse aspecto os animais são muito mais poliglotas.
Sempre que eu pedia para sair um pouco do apartamento, Satoru fazia o mesmo discurso, com uma expressão tensa:
Se você sair, talvez não volte mais, não é? Espere só mais um pouco, até sua pata sarar de vez. Senão, vai acabar passando o resto da vida com esses pontos.
Eu não entendia muito bem qual era o problema de ter os tais pontos, pois já conseguia andar normalmente, era só ignorar umas pontadinhas de dor, mas Satoru ficava muito aflito, então aguentei firme e fiquei dois meses sem passear. Além do mais, se eu arranjasse briga com algum rival, manco daquele jeito, não seria legal.
Finalmente, o ferimento cicatrizou por completo.
Fui até a porta, onde sempre era barrado por aquela expressão aflita, e exigi sair. Muito obrigado por tudo, serei eternamente grato por sua dedicação.
A partir de agora vou abrir uma exceção, só para você: pode brincar comigo sempre que me encontrar em cima daquela van, mesmo que não me dê nenhum presente.
Dessa vez, a expressão de Satoru não era de preocupação, mas de tristeza. Era aquela cara de “não é totalmente proibido, mas…”.
Você realmente gosta mais do mundo lá fora?
Ei, ei, não faz essa cara de choro. Desse jeito eu me sinto mal de ir embora!
Eu estava pensando se você não queria ser o gato aqui de casa…
Para falar a verdade, isso nunca me ocorreu. Sabe, é que eu sou um verdadeiro gato de rua, então a ideia de virar um bichinho de estimação nem me passou pela cabeça.
Meu plano era ficar aqui só até me recuperar. Mentira, não era bem isso. Eu achava que teria que ir embora.
E aí, se era para ir embora de qualquer jeito, melhor ir logo, com elegância, do que esperar me expulsarem. Temos classe, sabe?
Por que não avisou logo que eu podia morar aqui de vez?
Satoru abriu a porta, relutante, e eu me esgueirei para fora. Então parei, me voltei para ele e miei: Vem!
E Satoru entendeu. Para um humano, ele até que tinha jeito com a língua dos gatos. Hesitou um pouco, mas acabou me acompanhando.
Era uma noite clara de luar. O bairro estava em silêncio total.
Pulei para o capô da van prata, encantado em ter minha agilidade recobrada. Depois saltei de volta para o chão e rolei pra lá e pra cá, até cansar.
Quando um carro passou perto, meu rabo se arrepiou todo. O pavor que senti ao ser lançado pelos ares, a ponto de quebrar um osso, devia ter ficado gravado no meu corpo. Sem perceber, me escondi atrás de Satoru, que ria baixinho, me olhando com ternura.
Demos uma volta pela vizinhança e voltamos para o prédio dele. Parei diante da porta do primeiro apartamento do segundo andar e miei. Abre!
Levantei a cabeça para Satoru, que sorria com os olhos marejados.
Você voltou, foi?
Aham, voltei. Então abre logo essa porta.
Vai morar aqui?
Vou. Mas vamos sair para dar uma volta de vez em quando, tá?
E foi assim que eu me tornei o gato do Satoru.

Hiro Akiwara, in Relatos de um gato viajante

21/08/2023

PRÉ-RELATO | O que aconteceu antes da nossa partida


Eu sou um gato. Ainda não tenho nome.
Ouvi falar que certo gato muito famoso aqui no Japão disse isso.*
Não sei o que esse gato aí fez de tão importante, mas sei que ganho dele pelo menos nisso. Nome, eu tenho.
Agora, se eu gosto ou não desse nome, aí já são outros quinhentos. O problema fundamental é que o nome que me deram não é compatível com meu gênero.
Faz uns cinco anos que ganhei esse nome, bem na época em que atingi a maioridade. Falando nisso, parece que há várias teorias sobre a melhor maneira de converter a idade dos gatos em idade de humanos, mas todas concordam que o primeiro ano de vida de um gato equivale mais ou menos aos primeiros vinte anos de um humano.
Naquela época, meu lugar preferido para dormir era o capô de uma van prata, no estacionamento de certo prédio residencial.
Naquela van eu tinha tranquilidade para dormir, sem medo de ser enxotado com um humilhante “Xô! Xô!”. O ser humano é uma criatura arrogante demais para quem não passa de um macaco gigante que sabe andar ereto.
Deixam o carro largado, à mercê das intempéries, mas acham um absurdo se um gato sobe nele? Não faz sentido. Até porque, para nós, gatos, todas as coisas deste vasto mundo em que é possível subir são consideradas vias públicas de acesso livre.
E se você se distrai e deixa alguma pegada no capô, então? Eles surtam, te botam para correr.
Enfim, eu gostava muito de dormir no capô daquela van. Era o meu primeiro inverno, e o metal quentinho do capô, aquecido pelo sol, era como uma bolsa térmica. Perfeito para uma soneca.
Finalmente, a primavera chegou, completei minha primeira volta pelas estações. Para um gato, é uma grande sorte nascer na primavera. Nós, gatos, costumamos ter duas temporadas reprodutivas ao ano, uma na primavera e outra no outono, porém os filhotes nascidos no outono raramente sobrevivem ao inverno.
Lá estava eu, instalado confortavelmente no capô quentinho, quando senti um olhar intenso sobre mim. Entreabri os olhos para espiar…
Um homem magricelo e alto me observava dormir, sorridente.
Você dorme sempre aqui?
Durmo. Algum problema?
Você é muito bonitinho!
Pois é, ouço bastante isso.
Posso te fazer um carinho?
Opa! Aí já é demais.
Com um movimento da pata, afastei a mão do homem, que fez um bico, chateado. Ué, você também ficaria incomodado se alguém viesse querendo mexer em você no meio do seu sono, não ficaria?
De graça não vai rolar, é?
Olha só, até que você é esperto. Isso mesmo, vai ter que me recompensar por você ter interrompido meu descanso.
Levantei a cabeça, interessado. O homem revirou a sacola que segurava.
Não tenho nada muito bom para um gato…
Qualquer coisa serve! Um gato de rua não pode ser muito exigente. Que tal esse petisquinho de vieira, hein? Acho que seria uma boa. Dei uma fungada no pacote que despontava da sacola, e o homem me deu um tapinha na cabeça, rindo sem jeito. Ei, ainda não autorizei você a encostar em mim!
Esse aqui não pode, faz mal pra saúde. E é apimentado, ainda por cima.
Faz mal pra saúde? Você acha que um gato vadio como eu, que não sabe nem se verá o dia de amanhã, vai se preocupar com esse tipo de coisa? Minha prioridade máxima é encher a barriga aqui e agora.
Por fim, ele pegou um pedaço de frango empanado de um sanduíche, tirou a casquinha frita e me ofereceu a carne na palma da mão. Ih, tá achando que eu vou comer assim, direto da sua mão, é? Pois saiba que eu não caio nesses truques baratos de quem quer vir para cima de mim cheio de intimidades!
Se bem que não é todo dia que me aparece uma carne assim tão fresquinha e apetitosa. Acho que posso abrir uma exceção.
Enquanto eu mastigava o frango, uns dedos se esgueiraram por baixo do meu queixo até minha orelha. Era a outra mão do homem. Ele deu uma coçadinha atrás da minha orelha, devagar. Às vezes eu permito que as pessoas me façam um cafuné em troca de comida, e aquele sujeito até que sabia o que estava fazendo…
Se me der mais, deixo você coçar embaixo do meu queixo também, viu?
Foi só roçar a cabeça na mão dele. Fácil, fácil.
Desse jeito vai me sobrar um sanduíche só de repolho!
Ele deu um sorriso contrariado, mas pegou o último pedaço do frango, novamente tirou a parte frita e me ofereceu a carne. Por mim, podia deixar a casquinha… Tanto melhor.
Permiti que o desconhecido me afagasse um bom tempo, em troca da doação recebida, mas já estava chegando a hora de parar. Justo quando eu ia levantar a pata para afastar a mão dele…
Até mais!
Ele tirou a mão um segundo antes e foi embora, subindo os degraus de entrada do prédio.
Puxa vida, taí um sujeito que sabe a hora certa de parar.
E foi assim que nos conhecemos. Mas ainda levou um tempo até ele me dar meu nome.
[…]

* Refere-se à primeira frase de Eu sou um gato, de Natsume Soseki, uma das obras literárias mais conhecidas no Japão. (N. T.)

Hiro Arikawa, in Relatos de um gato viajante