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24/05/2023

Aquele quadro

[…]
Afastou o livro, pensou que os versos de Pound podiam ficar para depois, e resolveu gozar uma noite em que nada se devia esperar de sua parte. Uma noite de abril, o céu ainda claro. Aquela sala era calma, geralmente calmante e, assim como os três outros cômodos do apartamento, guardava trinta anos de memórias. Salas onde se viveu muito tempo acabam parecendo praias sujas: difícil saber de onde veio este ou aquele caco.
Ela sabia exatamente de onde provinha cada tralha teatral: de que peça ou de que ator. Mas no parapeito da janela havia uma tigela cheia de pedrinhas coloridas que havia apanhado às portas de uma cidade na Provença, onde fora passear com os dois filhos, então com doze e treze anos. Como era o nome daquela cidade? Visitara a mesma região diversas vezes, e sempre colhera pedras para trazer para casa. Cordões de contas em todos os tons de vermelho presos em forma de leque numa prancha que ocupava boa parte de uma parede. Por que guardava aquilo? Pilhas de livros sobre teatro subiam junto às paredes: fazia anos que não abria alguns deles. E também o pôster do Mardi Gras. Estava ali, olhando para ela, havia décadas, aquele jovem arrogante, sexy, com a roupa de losangos vermelhos e pretos e aquele ar de não me toques. Parecia-se com seu filho — bem, quer dizer, há muito tempo. George era agora um cientista quase de meia-idade. Atualmente, quando de fato olhava a reprodução (afinal, não olhamos muito para as coisas que temos nas paredes), seus olhos examinavam o outro jovem do quadro, inseguro, com seus pensativos olhos escuros, na roupa folgada de Pierrô. Sua filha, aos quinze anos, havia pedido uma fantasia de Pierrô, e ela, mãe de Cathie, entendera que era uma espécie de afirmação. Sou como ele. Preciso de um disfarce. Queria não ser insegura, mas sim como o Arlequim, que sabe que é lindo. Cathie agora não tinha nada de insegura, uma bem-sucedida matrona, com filhos, emprego e um marido satisfatório.
Sarah sabia que via aquele quadro como retrato de seus próprios filhos. Por que o mantinha ali? Muitas vezes, os pais sentem um carinho secreto por fotos de suas crias que já não têm nada a ver com a idade delas, e elas nem sempre são crianças atraentemente desamparadas.
Tinha de se livrar de toda aquela tralha… então, de repente, sentou-se ereta na cadeira, depois se levantou e começou a caminhar pela sala. Não era a primeira vez que lhe vinha a ideia. Anos antes, olhara em torno daquela sala, cheia de coisas que acabaram indo parar ali por uma razão ou outra, e pensara: Tenho de me livrar disso tudo.
O pôster estava ali porque sua filha, Cathie, o trouxera para casa. Não tinha nada a ver com ela, Sarah. O que podia chamar de seu? Os livros, os livros de referência: instrumentos de trabalho. E o resto da casa? Uma prolongada ronda, na época, repetida agora, a fizera repassar pratos com conchas apanhadas pelas crianças décadas antes, um armário que ainda guardava as roupas velhas delas, cartões-postais presos com percevejos num quadro de cortiça, enviados por pessoas em férias. Suas roupas? Podia afirmar que eram suas porque as tinha escolhido? Até que sim, mas haviam sido ditadas pela moda.
Naquela noite, anos antes, tinha chegado à inquietante conclusão de que muito pouco daqueles quatro grandes cômodos se achava ali por uma ponderada escolha sua. Escolha daquela parte de si própria que considerava como sendo ela mesma. Não, e decidira vasculhar as salas e jogar tudo fora… bom, quase tudo: ali estava uma coisa que ficaria, mesmo que todo o resto fosse para a lata de lixo. Era uma fotografia de verdade, que se levava a sério. Um homem agradável, um tanto preocupado talvez, ou cansado? — uma rede de finas rugas em torno de olhos azuis francos e camaradas, fios brancos entre os cabelos louros (cuja maciez de seda ainda podia sentir nos dedos), provavelmente um primeiro sinal do ataque do coração que o mataria tão jovem, aos quarenta anos. Sentado com os braços em torno de duas crianças, um menino e uma menina, de oito e nove anos. Os três sorrindo para Sarah. A foto estava numa moldura de prata, art déco, não do gosto de Sarah, mas que lhe tinha sido dada pelo marido, que a ganhara da mãe. Será que devia jogar fora a moldura, já que nunca gostara dela?
Por que não tinha feito uma faxina completa? Porque havia estado ocupada demais. Alguma peça nova no teatro, provavelmente. Trabalhava tanto, sempre.
Sarah parou diante de um espelho. Viu uma mulher bonita, aparentando meia-idade, com um bom corpo. Os cabelos, sempre presos por questão de conveniência — não podia se dar ao trabalho de ir a cabeleireiros —, eram descritos no passaporte como louros, mas eram, antes, de um amarelo sem graça, como latão sem polir. Com toda a certeza ela já devia ter pelo menos um ou outro fio branco. Mas essa tonalidade quase nunca fica grisalha, nem branca, pelo menos até a velhice propriamente dita. Enquanto jovens, aqueles que têm os cabelos dessa cor almejam tonalidades mais vivas e podem tingi-los. Quando mais velhos, agradecidos, deixam-nos em paz e são acusados de tingi-los. Ela quase nunca se olhava no espelho: não se preocupava com a aparência. Por que deveria? Consideravam-na sempre vinte anos mais nova que sua idade real. Num outro espelho, além da porta aberta de seu quarto, parecia ainda mais nova. Torcendo o corpo conseguia ver-se refletida nele. Tinha as costas eretas e era cheia de vitalidade. O osteopata com quem se tratara por causa de dores nas costas (que agora pareciam voltar a se manifestar) perguntara se havia sido bailarina. Os dois espelhos estavam ali porque décadas antes seu marido dissera: “Sarah, essas salas são muito escuras. Não dá para deixá-las mais claras?”. As paredes foram então pintadas de um branco brilhante, mas tinham esmaecido, e as cortinas que haviam sido brancas eram agora cor-de-creme escuro. Quando o sol entrava, o quarto se enchia de luz, sombra, reflexos em movimento, um espaço de sugestões e possibilidades. Sem sol, os espelhos mostravam a mobília pairando numa luz imóvel como água. Uma luz perolada. Repousante. Gostava desses cômodos, não podia imaginar nada pior do que ter de deixá-los. Podiam ser criticados por estarem em mau estado. Era o que seu irmão dizia, mas ela achava a casa dele chique e horrenda. Fazia anos que nada mudava ali. As salas se fundiam suavemente em aceitação: do fato de ela estar sempre tão ocupada e, no fundo, não muito interessada, e do modo como os anos se acumulavam, deixando depositados sedimentos, livros e fotografias, cartões-postais e coisas do teatro.
Aquele lixo todo tinha de ser jogado fora… Ali na parede de seu quarto havia um grupo de fotos. Algumas eram de sua avó e seu avô na Índia, posadas e formais, cumprindo seu dever, às quais havia acrescentado um recorte de revista, com uma moça vestida de acordo com a moda do ano em que Sarah Anstruther partira para se casar com o noivo, que ia muito bem no Serviço Civil Indiano. Essa moça não era a avó de Sarah Durham, mas todas as fotos que Sarah guardava dessa mulher que jamais conhecera mostravam uma jovem matrona encarando o mundo com competência, e a desconhecida tímida e medrosa era — Sarah Durham tinha quase certeza — muito mais relevante. Uma moça de dezoito anos, viajando para um país de que nada sabia, onde iria se casar com um jovem que mal conhecia, para tornar-se uma memsahib… bastante comum, naquela época, mas que coragem.
A vida de Sarah Durham não havia tido nenhuma escolha tão dramática. Uma biografia reduzida, do tipo que se lê nas orelhas dos livros ou em notas de programas teatrais, diria assim:
Sarah Durham nasceu em 1924 em Colchester. Dois filhos. O irmão estudou medicina. Frequentou algumas escolas bastante conceituadas para moças. Na universidade estudou francês e italiano, depois passou um ano na Universidade de Montpellier estudando música, morando com uma tia casada com um francês. Durante a guerra, foi motorista para o movimento França Livre, em Londres. Em 1946, casou-se com Alan Durham e tiveram dois filhos. Ele faleceu, deixando-a viúva aos trinta e poucos anos. Ela continuou vivendo em Londres, com os filhos.
Uma mulher calma e razoável… verdade que a morte de Alan a havia lançado na infelicidade por algum tempo, mas isso acabara passando. Era assim que via as coisas agora, sabendo que estava escolhendo não lembrar a miséria daquela época. Hipócrita memória… gentil memória que lhe permitia evocar uma vida tranquila.
Voltou à sala de trabalho e leu outra vez aquela passagem exemplar do livro, aquela que começava com “Envelhecer com graça…”. O trecho concluía um capítulo e o seguinte começava assim: “Aquilo de que mais gostei em minha viagem à Índia foram as manhãs, antes de o calor piorar e termos de ficar dentro de casa. Quando afinal resolvi não me casar com Rupert, tenho hoje certeza de que era o calor e não a ele que recusava. Não o amava, mas não sabia disso então. Ainda não havia aprendido o que era amar”.
Pela terceira vez, leu “Envelhecer com graça…” até o fim do capítulo. É, aquilo servia bem. Aos sessenta e cinco anos, via-se dizendo a amigos mais jovens que envelhecer não era nada, bastante agradável até, pois, ainda que se perca uma coisa ou outra, outros prazeres dos quais os jovens nem suspeitam acabam surgindo, e nos surpreendemos muitas vezes nos perguntando qual será a próxima surpresa. Dizia essas coisas de boa-fé, e, quando observava os torvelinhos emocionais de quem era até uma só década mais jovem do que ela, permitia-se ficar arrepiada diante da ideia de passar por tudo aquilo de novo — fórmula que incluía o amor. Quanto a amar, ocorreu-lhe que fazia vinte anos que se apaixonara pela última vez, ela que se apaixonava com tanta facilidade e — tinha de admitir — até com certa avidez. Não conseguia acreditar que pudesse amar de novo. Também isso ela dizia com complacência, esquecendo a dura lei segundo a qual acabamos passando por aquilo que desprezamos.
Não ia sentar-se e trabalhar… ocorreu-lhe que uma das razões para aquele exagerado não a mais uma noite trabalhando naquilo que fazia o dia inteiro era seu — sim, não havia outra palavra — medo daquela música. Aqueles lamentos de outros tempos eram como uma droga. Será que o jazz realmente a dominara como a Condessa Dié e Bernard, Pierre e Giraut? E aquela mulher que agora a ocupava — Julie Vairon, cuja música jazia ali naquelas pilhas amarelecidas sobre a mesa? Não, ela desconfiava da música. Estava em boa companhia, afinal; muitos dos grandes e sábios consideravam a música um amigo dúbio. Sempre escutara música com um certo espírito de: você não vai me dominar, nem pense nisso!
Não: nada de trabalho e nada de música. Estava tão inquieta que podia… subir uma montanha, andar vinte quilômetros. Sarah descobriu que estava arrumando a sala, que sem dúvida precisava de arrumação. Podia aproveitar e passar o aspirador… por que não nos quatro cômodos? Na cozinha. No banheiro. Por volta da meia-noite, o apartamento era um modelo de perfeição. Qualquer um pensaria que aquela mulher se orgulhava de suas virtudes de dona de casa. Em vez disso, tinha uma faxineira que vinha uma vez por semana, e só.
Com toda a certeza não estava nervosa por ter de se encontrar — como teria de fazer amanhã — com Stephen Ellington-Smith, chamado de brincadeira na companhia de Nosso Anjo. Não se lembrava de ter jamais ficado nervosa com esse tipo de encontro. Afinal, era sua função encontrar-se com patrocinadores, benfeitores e anjos e abrandá-los, era o que fazia o tempo todo.

Doris Lessing, in Amor, de novo

04/03/2023

Envelhecer com graça

[…]
Ficou sentada, ouvindo o silêncio. Um pardal trilou.
Pensou: vou dar uma olhada naquele poema provençal de Pound; isso, afinal, não se pode chamar de trabalho.
Em cima da mesa havia pilhas de livros de referência, pastas de recortes e, de um dos lados, estantes que subiam até o teto. O livro estava aberto, ao lado do computador.

Envelhecer com graça… é só seguir os marcos do caminho. Pode-se dizer que as instruções estão contidas num roteiro invisível que pouco a pouco vai se tornando legível, à medida que a vida o vai expondo. Então, é só dizer as palavras adequadas. No fim das contas os velhos não se dão mal. O orgulho é uma grande coisa, e as atitudes e estoicismos necessários vêm fáceis, porque os jovens não sabem — isso lhes é ocultado — que a carne murcha em torno de um cerne imutável. Os velhos compartilham ironias próprias a fantasmas num festim, em que um enxerga o outro, invisíveis para os outros convidados, cujas posturas e expressões observam, sorrindo, recordando.

A maioria das pessoas em vias de envelhecimento assinaria embaixo desse conjunto de frases plácidas, cheias de autorrespeito, sentindo-se bem representada e até mesmo defendida por elas.
É, concordo com isso, pensou Sarah. Sarah Durham. Um nome bem sensato para uma mulher sensata.
O livro onde encontrou essas frases fora comprado na banca de uma feira ao ar livre, memórias de uma moça da sociedade antes famosa pela beleza, escrito em sua velhice e publicado quando a autora era quase centenária, vinte anos atrás. Estranho ter escolhido esse livro, pensou Sarah. Houve tempo em que nem abriria um livro escrito por um velho: nada a ver com ela, pensaria. Mas existe algo mais estranho do que o modo como os livros que refletem nossa condição ou estágio da vida acabam se insinuando em nossas mãos?
Afastou o livro, pensou que os versos de Pound podiam ficar para depois, e resolveu gozar uma noite em que nada se devia esperar de sua parte. Uma noite de abril, o céu ainda claro. Aquela sala era calma, geralmente calmante e, assim como os três outros cômodos do apartamento, guardava trinta anos de memórias. Salas onde se viveu muito tempo acabam parecendo praias sujas: difícil saber de onde veio este ou aquele caco.

Doris Lessing, in Amor, de novo

28/02/2021

Mudanças

“Eu tenho a certeza que toda a gente já teve a experiência de ler um livro, e achar que foi vibrante, com vivacidade, colorido e excitante. E que, talvez algumas semanas mais tarde, tenham-no lido outra vez e considerá-lo simples e vazio. Bem, não foi o livro que mudou: a pessoa é que mudou.”

Doris Lessing, in The golden notebook

19/02/2021

Espaço vazio

          “O mundo só é tolerável devido aos lugares vazios que existem... quando o mundo ficar completamente cheio, teremos que tomar alguma estrela. Qualquer estrela. Vênus ou Marte. E deixá-la vazia. O homem precisa de um espaço vazio nalgum lugar para que o seu espírito possa lá descansar.”

Doris Lessing, in Going Home

19/10/2018

Nosso dever

“Nós passamos as nossas vidas a lutar para conseguir que pessoas ligeiramente mais estúpidas que nós aceitem as verdades que os grandes homens conheceram desde sempre. Já há milhares de anos que eles sabiam que fechar uma pessoa doente num ambiente solitário torna-a ainda pior. Já há milhares de anos que eles sabiam que um homem pobre que é assustado, pelo seu patrão, e pela polícia, é um escravo. Eles sabiam. Nós sabemos. Mas será que a grande massa iluminada dos britânicos o sabem? Não. É o nosso dever, Ella, o teu e o meu, de lhes dizer. Porque os grandes homens são demasiado grandes para serem incomodados. Estão já a descobrir como colonizar Vênus e como irrigar a Lua. Isso é que é o mais importante para o nosso tempo. Tu e eu somos os empurradores da pedra. Todas as nossas vidas, tu e eu, temos que empregar as nossas energias, e todo o nosso talento, a empurrar uma enorme pedra por uma montanha acima. A pedra é a verdade que os grandes homens sabem por instinto, e a montanha é a estupidez da humanidade.”
Doris Lessing, in The golden notebook

18/07/2013

O espaço vazio - A importância de preservar o lugar da escrita na vida pessoal

Em seu discurso de recebimento do Prêmio Nobel de Literatura em 2007, Doris Lessing fez uma série de comentários sobre a importância da tradição literária e da memória na vida e no trabalho de um escritor. Lá pelas tantas, do alto de sua experiência, ela comenta um aspecto às vezes negligenciado: a importância de preservar o espaço da escrita na vida pessoal.
Lessing diz que é frequente perguntarem aos autores sobre seu processo criativo, se escrevem à mão ou no computador, se têm alguma mania ou disciplina, mas a questão essencial, de acordo com ela, é: “Você conseguiu encontrar um espaço, aquele espaço vazio que deveria ter à sua volta enquanto escreve?” Ela define esse espaço como “um modo de escuta, de atenção”, que será preenchido pelas vozes dos personagens, pelas ideias. É sobre isso, diz Lessing, que os autores conversam entre si: “Você encontrou esse espaço? Está conseguindo preservá-lo a todo custo?”
Lembrei desse texto dias atrás, na Festa Literária Internacional de Paraty, quando tive a oportunidade de tomar algumas xícaras de café com o ensaísta John Jeremiah Sullivan, cujo excelente “Pulphead” acaba de ser publicado no Brasil. Falamos sobre blues, sobre as manifestações que estão ocorrendo no Brasil, sobre nossos livros anteriores e, finalmente, sobre o que estávamos escrevendo agora. Ele está tentando não perder o rumo de um livro de não ficção no qual trabalha há dois anos; eu ainda estou tentando voltar à ficção depois de meses de divulgação do meu último romance e de esforços para concluir todas as traduções e trabalhos que deixei de entregar no prazo por causa dos meses dedicados à conclusão desse mesmo romance.
“Você encontrou esse espaço? Está conseguindo preservá-lo a todo custo?”
Sempre imagino que caras como o Sullivan têm essa questão resolvida em suas vidas. Ele deve pensar o mesmo de outros autores. A verdade é que, na vida contemporânea, a batalha pela proteção desse espaço vazio da criação se tornou um novo tipo de guerra, interminável e contra um inimigo onipresente. Poucos autores — talvez somente os mais reclusos temperamentos — escapam dela.
Não vou fingir que não estou vendo a ironia da situação: dois autores na Flip, numa das poucas brechas entre as mesas, entrevistas, conversas com leitores, festas de editoras e instâncias de interação social voluntária ou forçada, compartilhando a nostalgia de um isolamento perdido ou que jamais tiveram, pensando no que poderiam estar escrevendo naquele exato momento caso estivessem em casa ou no escritório, milagrosamente livres de incertezas, limitações, dispersão doméstica e miasmas de procrastinação. Também não vou transformar o resto desta coluna numa diatribe contra os eventos literários e a espetacularização da figura do escritor, embora haja uma série de ameaças sérias nesta segunda, que vão do fomento à indulgência e autoindulgência ao esvaziamento do caráter fabular da ficção literária, passando por questões mercadológicas (promoção e autopromoção vis-à-vis qualidade e recepção da obra et cetera).
Para além dos inegáveis benefícios para a difusão e o debate da literatura, os eventos literários celebram o prazer da nossa relação com os livros e o compartilhamento da leitura, ao mesmo tempo em que servem ao mercado. Nada disso exclui necessariamente o rigor intelectual, o desenvolvimento de juízo crítico e a sobriedade introspectiva de uma leitura envolvida.
Mas nenhum autor pode perder de vista o risco ressaltado por Lessing: “Você ainda tem seu espaço? Sua alma, aquele lugar íntimo e necessário onde suas vozes podem conversar com você, onde consegue sonhar? Oh, agarre firme, não solte!” Há autores capazes de preservar esse espaço vazio na turbulência da cena literária, dos deslocamentos geográficos e do convívio social extremo. Há até mesmo aqueles que extraem energia criativa disso e depois escrevem em saguões de aeroporto e nos breves intervalos entre os compromissos. Há autores que gostam de falar, ou ao menos não se importam.
Mas para muitos — suspeito que seja a maioria — o espaço vazio ainda requer afastamento e alguma medida de abnegação. No meu caso, falar em público (e se expor a lentes) pode ser muito desgastante. Não sou intelectual. Só sei falar sobre o que escrevi, e mesmo isso soa como uma espécie de indiscrição imprecisa. Falta pathos à minha trajetória como autor e à porção de vida pessoal que estou disposto a compartilhar nesse tipo de ocasião — o meio para transcender isso são os livros, é a ficção, a literatura. Amplificação, disfarce, fantasia; também a descrição amorosa de tudo que parece ser exterior a mim, mas me afeta. Para prosseguir é necessário desaparecer um pouco. “Oh, agarre firme, não solte!” Exposição e sossego. Vaidade e doação. E por aí vai. É uma longa fileira de gangorras nesse parquinho.
Daniel Galera, in oglobo.globo.com/cultura