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14/02/2012

Filho da canção, irmão do poema



Graduado em Letras pela UERN, instituição da qual é hoje pesquisador e professor de Literaturas Norte-americana e Inglesa, Mariano Tavares fez seu mestrado em Literatura Comparada pela UFRN. Sua dissertação foi sobre a performance/performatividade nos poemas do livro "Ariel", da poetisa, romancista e contista norte-americana Sylvia Plath. Mas outros elementos também são essenciais às apresentações de Tavares, hoje restritas a teatros. Os cenários, sempre assinados pelo artista visual e fotógrafo Renato de Melo Medeiros, a iluminação e os figurinos, muitos criados pelo estilista Henrique Araujo, corroboram para sua identidade artística.
A formação musical de Mariano Tavares começou ainda na infância. Seu pai, de quem herdou o nome e a dramaticidade nas interpretações, foi um famoso e requisitado seresteiro que se apresentava em Assu e cidades vizinhas.
Na adolescência, descobriu e encantou-se com o tropicalismo, movimento que acontecera uma geração anterior a sua. "Foi o encontro que considero mais definitivo na minha carreira", afirma ele sobre o coletivo vanguardista do final da década de 1960. "E aqui incluo, além dos compositores e cantores, alguns poetas e artistas que circundaram o movimento. Toda aquela ideia de uma música/arte que olhava para dentro de si, para dentro do Brasil, do Sertão, mas que não se furtava a se deixar contaminar pela contemporaneidade que vinha do estrangeiro". Mais recentemente, Tavares vem se dedicando ao estudo da obra dos compositores, cantores e produtores brasileiros Cibelle, que desenvolveu sua carreira em Londres, e Cícero, o fluminense de Nova Friburgo que vem recebendo elogios de medalhões da MPB, e dos norte-americanos Antony Hegarty, líder da banda Antony and the Johnsons, e Rufus Wainwright. 
Os primeiros acordes do piano de Humberto Luiz na música "Sem Parar", que abre o disco homônimo de Mariano Tavares, indicam a sofisticação sonora que permeia todas as 11 faixas do segundo álbum da carreira do cantor e compositor assuense. Já a voz suave e de timbre baixo dele explode e se agiganta na dramaticidade de suas interpretações. E as letras de todo o álbum não são pop; elas são poesias sublimes: "E quando os humanos matarem a dor no cartaz/ Terei ido embora/ Será nosso fim/ A deslizar sem parar/ A deslizar sem parar/ Sem parar".
Todas as músicas são de autoria de Tavares, com exceção de "É Dando Que Se Recebe", que compôs em parceria com a poetisa e atriz Civone Medeiros; "It's Not For Us", com o economista e estudante de Direito Hugo Vargas Soliz; e "Sacrifício", com o cantor e compositor Romildo Soares. Essa última ganhou clipe veiculado no programa "Canto da Terra", da TVU, e integra o DVD "Dos Pés  à Cabeça", do coral Harmus, que será lançado neste semestre. A música foi gravada no Salão Nobre do TAM com Tavares acompanhado apenas pelo coral e pelo pianista Humberto Luiz, seu maestro e arranjador. Outra exceção é "How Should I Your True Love Know", de William Shakespeare para "Hamlet". Ela é uma das canções do álbum em que se pode "ouvir" o silêncio de Tavares exercitando seu talento também como violonista. Na igualmente ótima "Se Eu Te Chamar de Baby", que encerra o disco, Tavares executa com suavidade seu violão e entrega sua voz a versos como "Se eu te chamar de baby/ Vai ser para ter de volta/ Meu retrato na parede/ E andar sob a chuva com você". Duas cantoras potiguares da nova geração fazem participações especiais em "Sem Parar" - que teve a capa e o encarte assinados pelo designer gráfico Alexandre Oliveira. Katarina Góis canta em "Não Há Segredo" e Simona Talma em "Para Onde os Sonhos Vão?".
Ficou fora do CD uma versão de "Age d'Or", do poeta simbolista francês Arthur Rimbaud que Tavares musicou. O motivo foi a não autorização dos direitos autorais pelo tradutor Ivo Barroso. Mas ela, assim como outros vídeos de Mariano Tavares, pode ser conferida no YouTube. 
Sílvio Santiago, in Tribuna do Norte