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09/11/2023

Comida | Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto, 1987


Lançada pelos Titãs em seu quarto álbum, Jesus não tem dentes no país dos banguelas, de 1987, “Comida” se tornou uma das músicas mais emblemáticas do espírito da banda. Cantada por Arnaldo Antunes, foi o segundo single do disco e um sucesso nas rádios como uma nova forma de manifesto político e social anárquico, indo muito além dos slogans ideológicos e partidários, numa das melhores letras da década:
A gente não quer só comida / a gente quer comida, diversão e arte.”
E finalizando com os versos antológicos:
A gente não quer só dinheiro / A gente quer dinheiro e felicidade / A gente não quer só dinheiro / A gente quer inteiro e não pela metade.”
A nova democracia ampliava as demandas sociais, já não bastavam os velhos slogans políticos, era preciso querer o impossível.
Arnaldo Antunes (1960) tinha feito a primeira frase, a ideia-mãe, mas não conseguia avançar. Quando o grupo começou a trabalhar no repertório do novo álbum, mostrou a frase ao guitarrista Marcelo Fromer (1961-2001) e ao tecladista e cantor Sérgio Britto (1959), e juntos criaram a melodia e desenvolveram a letra. Como Britto relembrou no livro Titãs: Todas as canções (1984-2001), num primeiro momento, eles acharam que a música tinha ficado meio monocórdica, e adicionaram novos versos e uma marcante frase musical no teclado. Na hora de gravar, tentaram até uma versão acústica, mas acertaram em cheio com um funk eletrônico pesado, produzido por Liminha e inspirado em Prince.
Comida” foi uma das primeiras músicas de um grupo de rock adotadas por intérpretes de MPB, a partir de Marisa Monte, abrindo seu disco de estreia MM (1988), e depois foi cantada por Maria Bethânia, Ney Matogrosso e até pelo grupo de pagode Exaltasamba.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

15/10/2023

Vou largar tudo para tocar pandeiro no Titãs

Se por uma sorte eu ficar na frente de Marisa Monte, darei um tiro na cabeça e, antes de morrer, balbuciarei: ‘‘Você é tudo, eu sou nada.” De noite, na cama, fico pensando naqueles que conseguem ser mais que simples mortais como eu, como você, como a maioria. Por que não nasci belo, completo, moderno e chique? Por que pertenço à massa duvidosa que duela com a própria imagem em frente ao espelho, se punindo por ser apenas mais um, entre tantos anônimos, inúteis passageiros, quando podia ter nascido Caetano Veloso, Guimarães Rosa, Marisa Monte ou um dos Titãs? Por que não cheguei aos pés deles, nasci isso, essa coisa, coisa boba, pequena mostra do que as musas propõem? Ofereceram-me a vida, e desperdicei a chance de ser um Nijinski, um Fellini, um Titã do Iê-Iê-Iê.
Conheço os Titãs há tempos. São bons. Nascemos na mesma praia. Alguns, amigos de infância. Algumas namoradas em comum. Assisti ao primeiro show, no Sesc; capenga, ingênuo, fazendo cover da propaganda “A baratinha só pensa em DDD”. Mas o tempo aumentou a distância. Numa viagem para Brasília, embarcamos no mesmo avião. Iriam dar um show num ginásio. Eu, participar de uma feira de livros. Aos 28 anos, perto deles, já me sentia um intelectual velho, amassado pelos conceitos; até hoje não me livrei da bengala acadêmica, frequentando aulas de mestrado, buscando aprender algo que talvez não possa ser ensinado, sem nunca me sentir assado ao ponto. No desembarque, meu amigo Ivan, velho boêmio, baixo, barrigudo, feio como eu, me esperando numa alegria literária, ansioso por me mostrar os novos bares da cidade. Havia 13 garotas, as mais bonitas e gostosas de Brasília; muito arrumadinhas e perfumadas; cabelos esvoaçantes; ansiosas para o amor. Pergunto a elas o que faziam no aeroporto. Esperavam os Titãs, lógico. Olhei para a barriga do meu cicerone e senti a amargura de não ter nascido um Titã.
Eu queria ser um deles, segurar uma guitarra e fazer cara de mau, ter o camarim cheio de chiques e modernos, frequentar a MTV, ser bajulado por poetas concretistas que já bajularam os tropicalistas e são mestres na arte de bajular os seus seguidores, como se Deus devesse algo aos homens. Mas não. Intelecto, ora bolas, se perder pelo labirinto do conhecimento, enquanto Marisa Monte existe, tem um pulso que ainda pulsa, se banha com flores aromáticas, dorme só de calcinha e toma suco natural todas as manhãs. Ah, meu amigo, vou me aposentar, largar essas noites solitárias na frente de um computador gelado que não canta, não tem cheiro, não me ama. Abandonar as páginas incertas e, se me aceitarem, tocar pandeiro com os Titãs.

Marcelo Rubens Paiva, in Crônicas para ler na Escola

24/09/2011

Por que eu sei que é Amor


Porque eu sei que é amor
Eu não peço nada em troca
Porque eu sei que é amor
Eu não peço nenhuma prova
Mesmo que você não esteja aqui
O amor está aqui
Agora
Mesmo que você tenha que partir
O amor não há de ir
Embora
Eu sei que é pra sempre
Enquanto durar
Eu peço somente
O que eu puder dar (2x)
Porque eu sei que é amor
Sei que cada palavra importa
Porque eu sei que é amor
Sei que só há uma resposta
Mesmo sem porquê eu te trago aqui
O amor está aqui
Comigo
Mesmo sem porquê eu te levo assim
O amor está em mim
Mais vivo
Eu sei que é pra sempre
Enquanto durar
Eu peço somente
O que eu puder dar (4x)
Porque eu sei que é amor (3x)

Composição: Sérgio Britto e Paulo Miklos