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11/10/2024

A Revolução dos Bichos | 2.



Daí a três noites, faleceu o velho Major, tranquilamente, durante o sono. Seu corpo foi enterrado no fundo do pomar.
Começava o mês de março. Nos três meses seguintes houve uma intensa atividade secreta. As palavras do Major haviam dado uma perspectiva de vida inteiramente nova aos animais de maior inteligência da granja. Não sabiam quando teria lugar a Rebelião predita pelo Major, nem tinham razões para acreditar que fosse durante a existência deles próprios, mas percebiam claramente o dever de aprestar-se para ela. A tarefa de instruir e organizar os outros recaiu naturalmente sobre os porcos, reconhecidos como os mais inteligentes dos bichos. Salientavam-se, entre eles, dois jovens barrões, Bola-de-Neve e Napoleão, que o sr. Jones criava para vender. Napoleão era um cachaço berkshire, de aparência ameaçadora, o único berkshire da fazenda, pouco falante, mas com a reputação de ter grande força de vontade. Bola-de-Neve era mais ativo que Napoleão, de palavra mais fácil, mais imaginoso, porém não gozava da mesma reputação quanto à solidez de caráter. Todos os demais porcos da fazenda eram castrados. Dentre estes, o mais conhecido era um porquinho gordo chamado Garganta, de bochechas redondas, olhos sempre piscando, movimentos lépidos e voz aguda. Manejava a palavra com brilho, e quando discutia algum ponto mais difícil tinha o hábito de dar pulinhos de um lado para o outro e abanar o rabicho, uma coisa bastante persuasiva. Diziam que Garganta era capaz de convencer de que preto era branco.
Esses três haviam organizado os ensinamentos do Major num sistema de pensamento a que deram o nome de Animalismo. Várias noites por semana, depois que Jones dormia, faziam reuniões secretas no celeiro e expunham aos outros os princípios do Animalismo. De início, encontraram certa apatia e muita ignorância. Alguns animais mencionavam o dever de lealdade para com Jones, a quem se referiam como o “dono”, ou emitiam comentários elementares do tipo: “O senhor Jones nos alimenta. Se ele fosse embora, nós morreríamos de fome”. Outros faziam perguntas como: “Que importa o que acontecerá depois da nossa morte?”, ou: “Se essa Rebelião virá de qualquer maneira, que diferença faz trabalharmos por ela ou não?”; e os porcos tinham grande dificuldade em fazê-los ver que isso ia contra o espírito do Animalismo. As perguntas mais estúpidas eram sempre as de Mimosa, a égua branca. A primeira pergunta que ela fez a Bola-de-Neve foi:
Ainda haverá açúcar depois da Rebelião?”
Não”, Bola-de-Neve respondeu firmemente. “Não temos meio de obter açúcar nesta fazenda. Além do mais, você não precisa de açúcar. Mas terá toda a aveia e o feno que quiser.”
E ainda vou poder usar laço de fita na crina?”, perguntou Mimosa.
Camarada”, explicou Bola-de-Neve, “essas fitas que você tanto estima são o distintivo da servidão. Não vê que a liberdade vale mais que laços de fita?”
Mimosa sempre concordava, mas não dava a impressão de estar lá muito convencida.
Muito mais ainda lutaram os porcos para neutralizar as mentiras espalhadas por Moisés, o corvo doméstico. Moisés, mascote do sr. Jones, era um espião linguarudo, mas também de boa conversa. Afirmava a existência de uma região misteriosa, a Montanha de Açúcar-Cande, para onde iam os animais após a morte. Essa montanha ficava em algum lugar no céu, pouco acima das nuvens, segundo Moisés. Na Montanha de Açúcar-Cande, os sete dias da semana eram domingos, o ano inteiro era época de trevo, e as sebes davam torrões de açúcar e bolinhos de linhaça. Os bichos detestavam Moisés, porque vivia de histórias e não trabalhava, porém alguns acreditavam na Montanha de Açúcar-Cande, e os porcos travaram grandes discussões para convencê-los de que esse lugar não existia.
Os discípulos mais fiéis eram os dois cavalos de tração, Sansão e Quitéria. Ambos tinham enorme dificuldade em pensar qualquer coisa por si próprios; todavia, aceitando os porcos como instrutores, absorviam tudo quanto lhes era dito e passavam adiante para os outros animais por simples repetição. Jamais faltavam aos encontros secretos no celeiro e davam o tom para o canto de “Bichos da Inglaterra”, que sempre encerrava as reuniões.
Afinal, a Rebelião ocorreu muito mais cedo e bem mais facilmente do que se esperava. Jones fora, no passado, um patrão duro, mas competente. Agora estava em decadência. Desestimulado com a perda de dinheiro numa ação judicial, dera para beber muito além do que devia. Às vezes passava dias inteiros recostado em sua cadeira de braços, na cozinha, lendo os jornais, bebendo e dando a Moisés cascas de pão molhadas na cerveja. Seus peões eram vadios e desonestos, o campo estava coberto de erva daninha, os galpões careciam de telhas novas, as cercas estavam caindo, e os animais tinham fome.
Junho chegou, e o feno estava quase pronto para o corte. Na véspera do solstício de verão, um sábado, Jones foi a Willingdon e bebeu tanto no Leão Vermelho que só voltou ao meio-dia de domingo. Os homens ordenharam as vacas de manhã cedo e saíram para caçar lebres, sem tratar da forragem dos animais. Ao voltar, Jones caiu dormindo no sofá da sala com o News of the World sobre o rosto; portanto, ao cair da tarde, os animais ainda não haviam comido. Aquilo já era demais. Uma das vacas rebentou a chifradas a porta do celeiro, e os bichos avançaram sobre as tulhas. Nesse momento, Jones acordou. Num átimo, ele e seus quatro peões estavam no celeiro com os chicotes na mão, batendo a torto e a direito. Isso ultrapassou tudo quanto os animais famintos podiam suportar. De comum acordo, muito embora nada fosse planejado, lançaram-se sobre seus verdugos. Jones e os homens viram-se de repente marrados e escoiceados de todo lado. A situação fugira ao controle. Nunca tinham visto os animais daquele jeito, e a súbita revolta de criaturas que eles estavam acostumados a surrar e maltratar à vontade os encheu de pavor. Em poucos instantes largaram de defender-se e deram o fora. Um minuto depois, os cinco voavam pela trilha rumo à estrada, com os bichos no encalço, triunfantes.
A mulher de Jones olhou pela janela do quarto, viu o que ocorria, juntou às pressas alguns haveres numa bolsa de pano e escapuliu da granja por outro caminho. Moisés levantou voo do poleiro e bateu asas atrás dela, grasnando. A essa altura, os animais haviam posto Jones e os peões para fora da granja, fechando atrás deles a porteira das cinco barras. E assim, antes de se darem conta, a Rebelião vencera. Jones fora expulso, e a Granja do Solar era deles.
Durante os primeiros minutos, os bichos mal puderam acreditar na sorte. Seu primeiro ato foi galopar pelos limites da granja, como a ver se nenhum ser humano ficara escondido; depois, correram de volta às casas da granja, para varrer os últimos vestígios do odiado império de Jones. O galpão dos arreios, no fundo dos estábulos, foi arrombado; freios, argolas de nariz, correntes de cachorro, as cruéis facas com que Jones castrava os porcos e os cordeiros, foi tudo atirado no fundo do poço. As rédeas, os cabrestos, os antolhos e os degradantes bornais foram jogados na fogueira que ardia no pátio. O mesmo destino tiveram os relhos. Os bichos saltaram de alegria quando viram os chicotes em chamas. Bola-de-Neve jogou também ao fogo as fitas que enfeitavam as crinas e caudas dos cavalos em dias de feira.
Fitas”, disse ele, “devem ser consideradas roupas, que são a marca do ser humano. Todos os animais têm de andar nus.”
Ao ouvir isso, Sansão foi buscar o chapeuzinho de palha que usava no verão para proteger suas orelhas das moscas, e o atirou também no fogo.
Em pouco tempo, os bichos destruíram tudo o que lhes recordava Jones. Napoleão conduziu-os de volta ao celeiro e serviu uma ração dupla de milho para todo mundo, dois biscoitos para cada cachorro. Cantaram, então, “Bichos da Inglaterra” do começo ao fim sete vezes, depois deitaram-se e dormiram como nunca.
Porém, como sempre, acordaram de madrugada, e ao lembrar-se do glorioso evento da véspera, correram para a pastagem. A pequena distância, havia um morrete donde se via quase toda a fazenda. Os animais subiram e olharam em volta, à luz clara da manhã. Sim, era deles — tudo o que enxergavam era deles! No êxtase dessa percepção, deram cambalhotas e saltos de contentamento. Rolaram no orvalho, comeram a deliciosa grama do verão, arrancaram torrões de terra e aspiraram aquele rico aroma. Depois fizeram um circuito de inspeção em toda a granja, vistoriando, com muda admiração, a lavoura, o campo de feno, o pomar, a lagoa, o arvoredo. Era como se nunca tivessem visto aquilo, e mal podiam acreditar: tudo era deles.
Voltaram, então, para as casas da granja e pararam silenciosos em frente à porta da casa-grande. Era deles também, mas ficaram com medo de entrar. Após alguns instantes, porém, Bola-de-Neve e Napoleão forçaram a porta a trancos, e os animais entraram em fila indiana, caminhando com o maior cuidado para não desarrumar nada. Andaram na ponta dos pés, de um aposento para o outro, falando baixinho e olhando com certa reverência o luxo inacreditável, as camas, os colchões de penas, os espelhos, o sofá de crina, o tapete de Bruxelas, a litografia da rainha Vitória sobre a lareira da sala de estar. Quando desciam as escadas, deram pela falta de Mimosa. Voltando, descobriram-na no quarto principal. Havia apanhado no toucador da sra. Jones um pedaço de fita azul, e segurava-o contra a espádua, admirando-se no espelho com trejeitos ridículos. Repreenderam-na acerbamente, e saíram todos. Alguns presuntos, pendurados na cozinha, foram levados para fora e enterrados; o barril de cerveja da copa foi rebentado com um coice de Sansão; além disso, nada mais foi tocado na casa. Ali mesmo aprovou-se, por unanimidade, a resolução de conservá-la como museu. Concordaram em que nenhum animal jamais deveria morar lá.
Os bichos tomaram o café da manhã e foram outra vez convocados por Bola-de-Neve e Napoleão.
Camaradas”, disse Bola-de-Neve, “são seis e quinze, e temos um longo dia pela frente. Iniciaremos hoje a colheita do feno. Mas antes, há outro assunto de que devemos tratar.”
Os porcos revelaram que, nos últimos três meses, haviam aprendido a ler e a escrever, num velho livro de ortografia que pertencera aos filhos de Jones e fora jogado no lixo. Napoleão mandou buscar latas de tinta preta e tinta branca e marchou à frente até a porteira das cinco barras, que dava para a estrada principal. Então, Bola-de-Neve (que escrevia melhor) pegou o pincel entre as juntas da pata, cobriu de tinta o nome GRANJA DO SOLAR do travessão superior e, em seu lugar, escreveu GRANJA DOS BICHOS. Seria esse o nome da granja dali em diante. Depois disso, voltaram para as casas da granja; Bola-de-Neve e Napoleão mandaram buscar uma escada e fizeram-na encostar à parede do fundo do celeiro grande. Explicaram que, segundo os estudos que haviam feito nos últimos três meses, era possível resumir os princípios do Animalismo em Sete Mandamentos. Esses Sete Mandamentos seriam agora escritos na parede, constituindo a lei inalterável pela qual a Granja dos Bichos deveria reger sua vida para sempre.
Com alguma dificuldade (pois não é fácil para um porco equilibrar-se numa escada de mão), Bola-de-Neve subiu e começou a trabalhar, enquanto Garganta, alguns degraus abaixo, segurava a lata de tinta. Os Mandamentos foram escritos na parede alcatroada em grandes letras brancas que podiam ser lidas a muitos metros de distância.
Eram os seguintes:
OS SETE MANDAMENTOS
1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
2. O que andar sobre quatro pernas, ou tiver asas, é amigo.
3. Nenhum animal usará roupa.
4. Nenhum animal dormirá em cama.
5. Nenhum animal beberá álcool.
6. Nenhum animal matará outro animal.
7. Todos os animais são iguais.
Foi tudo muito bem escrito, e com exceção da palavra “álcool”, que saiu “álcol”, e de um dos S, desenhado ao contrário, a ortografia estava correta. Bola-de-Neve leu o que escrevera, em voz alta, para os demais. Todos os bichos balançaram a cabeça, de pleno acordo, e os mais atentos começaram logo a decorar os Mandamentos.
Agora, camaradas”, disse Bola-de-Neve, deixando cair o pincel, “ao campo de feno! É questão de honra fazer a colheita em menos tempo do que Jones e sua gente.”
Nesse momento, porém, as vacas, que já vinham dando sinais de inquietação, começaram a mugir. Há vinte e quatro horas não eram ordenhadas, e tinham os úberes quase estourando. Depois de alguma reflexão, os porcos pediram baldes e ordenharam as vacas razoavelmente bem, pois seus cascos adaptavam-se à tarefa. Tiraram cinco baldes de um leite espumante e cremoso, que muitos dos animais olharam com considerável interesse.
Que vamos fazer com esse leite?”, perguntou alguém.
Jones, às vezes, misturava um pouco ao nosso farelo”, disse uma galinha.
Não vos ocupeis do leite, camaradas!”, exclamou Napoleão, postando-se à frente dos baldes. “Nós trataremos desse assunto. A colheita é mais importante. O camarada Bola-de-Neve vos conduzirá. Eu irei dentro de alguns minutos. Avante, camaradas! O feno espera.”

George Orwell, em A Revolução dos Bichos

30/09/2024

A Revolução dos Bichos


1.

O sr. Jones, dono da Granja do Solar, fechou o galinheiro para a noite, mas estava bêbado demais para lembrar-se de fechar também as vigias. Com o facho de luz da lanterna balançando de um lado para o outro, atravessou cambaleante o pátio, tirou as botas na porta dos fundos, tomou um último copo de cerveja do barril da copa e foi para a cama, onde sua mulher já ressonava.
Tão logo apagou-se a luz do quarto, houve um silencioso movimento em todos os galpões da granja. Correra, durante o dia, o boato de que o velho Major, um porco que já fora premiado numa exposição, tivera um sonho muito estranho na noite anterior e desejava contá-lo aos outros animais. Haviam combinado encontrar-se no celeiro, assim que Jones se deitasse. O velho Major (chamavam-no assim, muito embora ele houvesse concorrido na exposição com o nome de “Belo de Willingdon”) gozava de tão alto conceito na granja que todos estavam dispostos a perder uma hora de sono só para ouvi-lo.
Ao fundo do grande celeiro, sobre uma espécie de estrado, estava o Major refestelado em sua cama de palha, sob um lampião que pendia da viga. Com doze anos de idade, já bem corpulento, era ainda um porco de porte majestoso, com ar sábio e benevolente, a despeito de suas presas jamais terem sido cortadas. Os outros animais chegavam e punham-se a cômodo, cada qual a seu modo. Os primeiros foram os três cachorros, Branca, Lulu e Cata-Vento, depois os porcos, que se sentaram sobre a palha, em frente ao estrado. As galinhas empoleiraram-se nas janelas, as pombas voaram para os caibros do telhado, as ovelhas e as vacas deitaram-se atrás dos porcos e ali ficaram a ruminar. Os dois cavalos de tração, Sansão e Quitéria, chegaram juntos, andando lentamente e pousando no chão os enormes cascos peludos, com grande cuidado para não machucar qualquer animalzinho porventura oculto na palha. Quitéria era uma égua volumosa, matronal, já chegada à meia-idade, cuja silhueta não mais se recompusera após o nascimento do quarto potrinho. Sansão era um bicho enorme, de quase um metro e noventa de altura, forte como dois cavalos. A mancha branca do focinho dava-lhe certo ar de estupidez, e realmente ele não tinha lá uma inteligência de primeira ordem, embora fosse grandemente respeitado pela retidão de caráter e pela tremenda capacidade de trabalho. Depois dos cavalos chegaram Maricota, a cabra branca, e Benjamim, o burro. Benjamim era o animal mais idoso da fazenda, e o mais moderado. Raras vezes falava, e em geral quando o fazia era para emitir uma observação cínica — para dizer, por exemplo, que Deus lhe dera uma cauda para espantar as moscas, e no entanto seria mais do seu agrado não ter nem a cauda nem as moscas. Era o único dos animais que nunca ria. Quando lhe perguntavam por quê, respondia não ver motivo para riso. Não obstante, sem que admitisse abertamente, tinha certa afeição por Sansão; com frequência passavam os domingos juntos no pequeno potreiro existente atrás do pomar, pastando lado a lado em silêncio.
Mal se haviam acomodado os dois cavalos quando uma ninhada de patinhos órfãos desfilou celeiro adentro, piando baixinho e procurando um lugar onde não fossem pisoteados. Quitéria protegeu-os com a pata dianteira, e os patinhos ali se aconchegaram, caindo no sono. No último instante, Mimosa, a égua branca, vaidosa e fútil, que puxava a charrete do sr. Jones, entrou, requebrando-se graciosamente e mastigando um torrão de açúcar. Tomou lugar bem à frente e ficou meneando a crina branca, na esperança de chamar atenção para as fitas vermelhas que a adornavam. Por fim, chegou a gata, que buscou, como sempre, o lugar mais morno, enfiando-se entre Sansão e Quitéria; ronronou satisfeita durante toda a fala do Major, sem ouvir uma só palavra.
Todos os animais estavam presentes, exceto Moisés, o corvo domesticado, que dormia fora, num poleiro junto à porta dos fundos. Quando o Major os viu, bem acomodados e aguardando atentamente, limpou a garganta e começou:
Camaradas, já ouvistes, por certo, algo a respeito do estranho sonho que tive a noite passada. Mas falarei do sonho mais tarde. Antes, tenho outras coisas a dizer. Sei, camaradas, que não estarei convosco por muito mais tempo, e antes de morrer considero uma obrigação transmitir-vos o que aprendi sobre o mundo. Já vivi bastante, e muito tenho refletido na solidão da minha pocilga. Creio poder afirmar que compreendo a natureza da vida sobre esta terra tão bem quanto qualquer outro animal vivente. É sobre o que desejo vos falar.
Então, camaradas, qual é a natureza desta nossa vida? Enfrentemos a realidade: nossa vida é miserável, trabalhosa e curta. Nascemos, recebemos o mínimo alimento necessário para continuar respirando, e os que podem trabalhar são exigidos até a última parcela de suas forças; no instante em que nossa utilidade acaba, trucidam-nos com hedionda crueldade. Nenhum animal na Inglaterra sabe o que é felicidade ou lazer após completar um ano de vida. Nenhum animal na Inglaterra é livre. A vida do animal é feita de miséria e escravidão: essa é a verdade nua e crua.
Será isso, apenas, a ordem natural das coisas? Será esta nossa terra tão pobre que não ofereça condições de vida decente aos seus habitantes? Não, camaradas, mil vezes não! O solo da Inglaterra é fértil, o clima é bom, ela pode dar alimento em abundância a um número de animais muitíssimo maior do que o existente. Só esta nossa fazenda comportaria uma dúzia de cavalos, umas vinte vacas, centenas de ovelhas — vivendo todos num conforto e com uma dignidade que agora estão além de nossa imaginação. Por que, então, permanecemos nesta miséria? Porque quase todo o produto do nosso esforço nos é roubado pelos seres humanos. Eis aí, camaradas, a resposta a todos os nossos problemas. Resume-se em uma só palavra — Homem. O Homem é o nosso verdadeiro e único inimigo. Retire-se da cena o Homem e a causa principal da fome e da sobrecarga de trabalho desaparecerá para sempre.
O Homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o que dê para pegar uma lebre. Mesmo assim, é o senhor de todos os animais. Põe-nos a mourejar, dá-nos de volta o mínimo para evitar a inanição e fica com o restante. Nosso trabalho amanha o solo, nosso estrume o fertiliza, e no entanto nenhum de nós possui mais que a própria pele. As vacas, que aqui vejo à minha frente, quantos litros de leite terão produzido neste ano? E que aconteceu a esse leite, que poderia estar alimentando robustos bezerrinhos? Desceu pela garganta dos nossos inimigos. E as galinhas, quantos ovos puseram neste ano, e quantos se transformaram em pintinhos? Os restantes foram para o mercado, fazer dinheiro para Jones e seus homens. E você, Quitéria, diga-me onde estão os quatro potrinhos que deveriam ser o apoio e o prazer da sua velhice. Foram vendidos com a idade de um ano — nunca mais você os verá. Como paga por seus quatro partos e por todo o seu trabalho no campo, que recebeu você, além de ração e baia?
Mesmo miserável como é, nossa vida não chega nem ao fim de modo natural. Não me queixo por mim, que tive até muita sorte. Estou com doze anos e sou pai de mais de quatrocentos porcos. Isto é a vida normal de um barrão. Mas no fim nenhum animal escapa ao cutelo. Vós, jovens leitões que estais sentados à minha frente, não escapareis de guinchar no cepo dentro de um ano. Todos chegaremos a esse horror, as vacas, os porcos, as galinhas, as ovelhas, todos. Nem mesmo os cavalos e os cachorros escapam a esse destino. Sansão, no dia em que seus músculos fortes perderem a rigidez, Jones o mandará para o carniceiro, e você será degolado e fervido para alimentar os cães de caça. Quanto aos cachorros, depois de velhos e desdentados, Jones amarra-lhes uma pedra ao pescoço e os atira na primeira lagoa.
Não está, pois, claro como água, camaradas, que todos os males da nossa existência têm origem na tirania dos humanos? Basta que nos livremos do Homem para que o produto de nosso trabalho seja só nosso. Praticamente, da noite para o dia, poderíamos nos tornar ricos e livres. Que fazer, então? Trabalhar dia e noite, de corpo e alma, para a derrubada do gênero humano. Esta é a mensagem que eu vos trago, camaradas: rebelião! Não sei dizer quando será esta revolução, pode ser daqui a uma semana ou daqui a um século, mas uma coisa eu sei, tão certo quanto vejo esta palha sob meus pés: mais cedo ou mais tarde, justiça será feita. Fixai isso, camaradas, para o resto de vossas curtas vidas! E, sobretudo, transmiti esta minha mensagem aos que virão depois de vós, para que as futuras gerações continuem na luta até a vitória.“E lembrai-vos, camaradas, jamais deixai fraquejar vossa decisão. Nenhum argumento vos poderá desviar. Fechai os ouvidos quando vos disserem que o Homem e os animais têm interesses comuns, que a prosperidade de um é a prosperidade dos outros. É tudo mentira. O Homem não busca interesses que não os dele próprio. Que haja entre nós, animais, uma perfeita unidade, uma perfeita camaradagem na luta. Todos os homens são inimigos, todos os animais são camaradas.”Nesse momento houve uma tremenda confusão. Enquanto o Major falava, quatro ratos haviam rastejado para fora de seus buracos e estavam sentados nas patinhas de trás, a ouvi-lo. De repente, os cachorros lhes deram pela presença, e somente pela rapidez com que sumiram nos buracos foi que os ratos conseguiram escapar com vida. O Major levantou a pata, pedindo silêncio.“Camaradas”, disse ele, “eis aí um ponto que precisa ser esclarecido. As criaturas rebeldes, tais como os ratos e os coelhos, serão nossos amigos ou nossos inimigos? Coloquemos o assunto em votação. Apresento à assembleia a seguinte questão: são os ratos camaradas?”A votação foi realizada imediatamente, e concluiu-se, por esmagadora maioria, que os ratos eram camaradas. Houve apenas quatro votos contra, dos três cachorros e da gata, que, depois se descobriu, votara pelos dois lados. O Major prosseguiu:“Pouco mais tenho a dizer. Repito apenas: lembrai-vos sempre do vosso dever de inimizade para com o Homem e todos os seus desígnios. O que quer que ande sobre duas pernas é inimigo, o que quer que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo. Lembrai-vos também de que na luta contra o Homem não devemos ser como ele. Mesmo quando o tenhais derrotado, evitai-lhe os vícios. Animal nenhum deve morar em casas, nem dormir em camas, nem usar roupas, nem beber álcool, nem fumar, nem tocar em dinheiro, nem comerciar. Todos os hábitos do Homem são maus. E principalmente, jamais um animal deverá tiranizar outros animais. Fortes ou fracos, espertos ou simplórios, somos todos irmãos. Todos os animais são iguais.“E agora, camaradas, vou contar-vos o sonho que tive na noite passada. Não sei o que significa. Foi um sonho sobre como será o mundo quando o Homem desaparecer. Mas lembrou-me algo que havia muito eu esquecera. Há anos, quando eu ainda era um leitãozinho, minha mãe e as outras porcas costumavam cantar uma antiga canção da qual só conheciam a melodia e as três primeiras palavras. Na minha infância aprendi a melodia, depois a esqueci. Na noite passada, entretanto, ela me voltou à memória. O mais interessante é que me lembrei também dos versos — os quais, tenho certeza, foram cantados pelos animais de antanho, depois esquecidos por muitas gerações. Vou cantar essa canção, camaradas. Estou velho, e minha voz é rouca, mas quando vos houver ensinado a melodia, podereis cantá-la melhor que eu. Chama-se ‘Bichos da Inglaterra’.”O velho Major limpou a garganta e começou a cantar. De fato, a voz era roufenha, mas ele entoava bem, e a melodia era bastante movimentada, algo entre “Clementine” e “La cucaracha”. Os versos diziam:

Bichos da Inglaterra e da Irlanda,
Daqui, dali, de acolá,
Escutai a alvissareira
Novidade que virá.
Mais hoje, mais amanhã,
O Tirano vem ao chão,
E os campos da Inglaterra
Só os bichos pisarão.
Não mais argolas nas ventas,
Dorsos livres dos arreios,
Freio e espora enferrujando
E relho em cantos alheios.
Riqueza incomensurável,
Terra boa, muito grão,
Trigo, cevada e aveia,
Pastagem, feno e feijão.
Lindos campos da Inglaterra,
Ribeiros com águas puras,
Brisas leves circulando,
Liberdade nas alturas.
Lutemos por esse dia
Mesmo que nos custe a vida.
Gansos, vacas e cavalos,
Todos unidos na lida.
Bichos da Inglaterra e da Irlanda,
Daqui, dali, de acolá,
Levai esta minha mensagem
E o futuro sorrirá.

O canto levou a bicharada à mais extrema excitação. Mesmo antes de o Major chegar ao fim, já haviam começado a cantar por conta própria. Até os mais parvos pegaram a melodia e algumas palavras; os mais vivos, tais como os porcos e os cachorros, decoraram a canção em minutos. Então, depois de algumas tentativas, a granja toda atacou “Bichos da Inglaterra” em potente uníssono. As vacas mugiam a canção, os cachorros latiam, as ovelhas baliam, os cavalos relinchavam, os patos grasnavam. Foi tal o enlevo que cantaram cinco vezes corridas, de ponta a ponta, e teriam cantado a noite toda se não fossem interrompidos.
Infelizmente, o alarido acordou Jones, que pulou da cama certo de que havia raposa no pátio. Deitou a mão na espingarda, sempre pronta num canto do quarto, e disparou uma carga de chumbo grosso na escuridão. O chumbo foi encravar-se na parede do celeiro, e a reunião dispersou-se num abrir e fechar de olhos. Cada qual correu para seu pouso. As aves saltaram para os poleiros, o gado deitou-se na palha e, em poucos instantes, toda a fazenda dormia.

George Orwell, em A Revolução dos Bichos

21/09/2016

O ataque dos humanos à granja


Pelo fim do verão, a notícia do que sucedia na Granja dos Bichos já se espalhara pelo condado. Todos os dias, Bola-de-Neve e Napoleão enviavam formações de pombos com instrução de misturar-se aos animais das granjas vizinhas, contar-lhes a história da Revolução e ensinar-lhes a melodia de Bichos da Inglaterra.
Jones passava a maior parte desse tempo no Leão Vermelho, em Willingdon, queixando-se, a quem quisesse ouvi-lo, da monstruosa injustiça que sofrera ao ser expulso de sua granja por uma súcia de animais imprestáveis. Os outros granjeiros eram lhe simpáticos, em princípio, mas inicialmente não lhe deram muita ajuda. No fundo, cada um imaginava secretamente alguma forma de tirar vantagem do infortúnio de Jones. Era uma sorte que os proprietários das granjas adjacentes à dos bichos estivessem permanentemente em más relações. Uma delas, chamada Foxwood, era uma granja grande, abandonada e antiquada, coberta de mato, com as pastagens cansadas e as cercas caindo.
O proprietário, Sr. Pilkington, era um sujeito indolente, granjeiro que passava a maior parte do seu tempo caçando ou pescando, conforme a estação. A outra granja, chamada Pinchfield, era menor e mais bem tratada. Seu proprietário era o Sr. Frederick, homem rude e sagaz, permanentemente envolvido em processos na justiça e com a reputação de levar a cabo barganhas muito difíceis. Os dois se hostilizavam tanto que lhes era sumamente difícil chegar a qualquer acordo, mesmo em defesa de seus próprios interesses.
Todavia, ambos estavam assustados com a Revolução na Granja dos Bichos e desejosos de prevenir que seus próprios animais tomassem maior conhecimento do assunto. De início, acharam graça na ideia de bichos gerirem por si próprios uma granja. O caso todo estaria acabado numa quinzena, diziam. E diziam também que os animais da Granja do Solar (insistiam em chamá-la Granja do Solar; não admitiam o nome “Granja dos Bichos”) estavam lutando entre si e não tardariam a definhar até morrer. Como o tempo passava e os animais evidentemente não definhavam, Frederick e Pilkington mudaram de tom e começaram então a falar nas terríveis perversidades que estavam ocorrendo na Granja dos Bichos. Comentavam que os animais praticavam o canibalismo, torturavam uns aos outros com ferraduras ao rubro e tinham suas fêmeas em comum. Isso era o que advinha do desrespeito às leis da Natureza, diziam Frederick e Pilkington.
Entretanto, nunca ninguém acreditou nessas histórias. Boatos de um sítio maravilhoso, de onde haviam sido expulsos os seres humanos e onde os bichos tomavam conta dos próprios negócios, continuavam a circular, em formas vagas e desfiguradas, e durante todo aquele ano uma onda de revolta percorreu a região. Bois que sempre haviam sido tratáveis, repentinamente se tornaram selvagens, as ovelhas derrubavam cercas e comiam o trevo, as vacas davam coices nos baldes, os cavalos de salto refugavam os obstáculos, jogando os cavaleiros do outro lado. Sobretudo, a melodia e mesmo a letra de Bichos da Inglaterra tornavam-se conhecidas em toda parte. Espalhavam-se com espantosa rapidez. Os humanos não podiam conter a raiva ao ouvirem essa canção, embora quisessem encará-la como simplesmente ridícula. Não conseguiam compreender, diziam, que mesmo animais chegassem ao ponto de cantar aquela porcaria. O bicho que fosse apanhado a cantá-la, seria chicoteado. Ainda assim, a canção era irreprimível. Os melros cantavam-na pousados nas cercas, as pombas arrulhavam-na nos olmeiros, e ela aparecia nas marteladas dos ferreiros e no bimbalhar dos sinos das igrejas. Ao ouvirem-na, os seres humanos tremiam secretamente ante aquela mensagem que previa sua desgraça
No início de outubro, quando o trigo já fora colhido, amontoado, e em parte até debulhado, uma revoada de pombos chegou em turbilhão e pousou no pátio da Granja dos Bichos, presa de grande excitação. Jones e todos os seus homens, mais meia dúzia de outros homens de Foxwood e Pinchfield, haviam penetrado pela porteira das cinco barras e vinham subindo a trilha que conduzia à fazenda. Todos armados de bastões, exceto Jones, que marchava à frente com uma espingarda na mão. Era, evidentemente, uma tentativa de recuperar a granja
Há muito isso era esperado, e os preparativos estavam feitos. Bola-de-Neve, que estudara um velho livro sobre as campanhas de Júlio César, encontrado na casa-grande, estava encarregado das operações defensivas. Rapidamente deu suas ordens, e em pouco tempo cada animal estava em seu posto.
Quando os homens chegaram perto das casas, Bola-de-Neve lançou o primeiro ataque. Os pombos, em número de trinta e cinco, voaram por cima dos homens e defecaram no ar sobre eles; enquanto os homens atrapalhavam-se com isso. Os gansos, até então escondidos nas sebes, avançaram e bicaram-lhes as pernas energicamente Mas isso era apenas uma pequena manobra de escaramuça, destinada a criar confusão, e os homens facilmente espantaram os gansos com os bastões Então, Bola-de-Neve lançou sua segunda linha de ataque. Maricota, Benjamim e as ovelhas, com Bola-de-Neve à frente, arremeteram sobre os homens, marrando, mordendo e escoiceando-os por todos os lados. Novamente, porém, os homens com os bastões e os coturnos rústicos foram mais fortes; e de repente, a um guincho de Bola-de-Neve que era o sinal para bater em retirada, todos os bichos volveram a frente e fugiram para dentro do pátio; através do portão.
Os homens soltaram um brado de triunfo. Viram, tal como haviam imaginado, seus inimigos em fuga e lançaram-se no encalço, desordenadamente. Era justamente o que Bola-de-Neve desejava. Tão logo eles entraram no pátio, os três cavalos, as três vacas e o restante dos porcos, que estavam emboscados atrás do estábulo, surgiram-lhes de inopino à retaguarda, cortando a retirada. Bola-de-Neve deu o sinal de carga. Ele próprio correu na direção de Jones. Vendo-o, Jones levantou a arma e atirou. Os projéteis abriram riscos sangrentos no dorso de Bola-de-Neve e uma ovelha caiu morta. Sem titubear um só instante, Bola-de-Neve lançou os seus cem quilos contra as pernas de Jones. O homem foi jogado sobre um monte de esterco, e a arma voou-lhe das mãos. Porém, o espetáculo mais terrível, entre tudo era Sansão, erguendo-se nos posteriores e dando manotaços com seus cascos ferrados, feito um garanhão. Logo ao primeiro golpe atingiu o crânio de um cavalariço de Foxwood, prostrando-o sem vida na lama. Ante isso, vários homens largaram os bastões e tentaram correr. O pânico tomou conta deles, e em poucos momentos os animais os caçavam em volta do pátio. Foram chifrados, batidos, mordidos e atropelados. Não houve bicho da granja que não tirasse desforra, cada um à sua moda. Até o gato, inesperadamente, saltou de um telhado sobre as costas de um peão, cravando-lhe as unhas no pescoço e fazendo o homem dar um berro de dor. Em dado momento, desimpedida a saída, os homens conseguiram fugir do pátio e correram desabaladamente rumo à estrada principal. E assim, poucos minutos após a invasão, batiam em vergonhosa retirada pelo mesmo caminho da vinda, com uma multidão de gansos no seu encalço, bicando-lhes as pernas sem piedade.
Todos os homens haviam fugido, exceto um. No pátio, Sansão empurrava, com a pata, o cavalariço que jazia de bruços na lama, tentando virá-lo. Mas o rapaz não se mexia.
Está morto — disse Sansão penalizado. Eu não queria fazer isso. Esqueci que estava usando ferraduras. Quem acreditará que não fiz de propósito?
Nada de sentimentalismos, camarada! — gritou Bola-de-Neve, de cujos ferimentos o sangue jorrava. — Guerra é guerra. Ser humano bom ser humano morto.
Eu não desejo tirar a vida de quem quer que seja, nem mesmo de um ser humano — repetiu Sansão com os olhos cheios de lágrimas.
George Orwell, in A revolução dos bichos

22/03/2012

Um Clássico da Literatura Mundial

 

"O Homem é o nosso verdadeiro e único inimigo. Retire-se da cena o Homem e a causa principal da fome e da sobrecarga de trabalho desaparecerá para sempre.
O Homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o que dê para pegar uma lebre. Mesmo assim, é o senhor de todos os animais. Põe-nos a mourejar, dá-nos de volta o mínimo para evitar a inanição e fica com o restante. Nosso trabalho amanha o solo, nosso estrume o fertiliza, e, no entanto, nenhum de nós possui mais que a própria pele. As vacas, que aqui vejo à minha frente, quantos litros de leite terão produzido neste ano? E que aconteceu a esse leite, que poderia estar alimentando robustos bezerrinhos? Desceu pela garganta dos nossos inimigos. E as galinhas, quantos ovos puseram neste ano, e quantos se transformaram em pintinhos? Os restantes foram para o mercado, fazer dinheiro para Jones e seus homens. E você, Quitéria, diga-me onde estão os quatro potrinhos que deveriam ser o apoio e o prazer da sua velhice. Foram vendidos com a idade de um ano - nunca mais você os verá. Como paga por seus quatro partos e por todo o seu trabalho no campo, que recebeu você, além de ração e baia?" 
George Orwell, in A Revolução dos Bichos