Mário de Andrade, em Poesias completas
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15/10/2024
Prefácio Interessantíssimo
Dans
mon pays de fiel et d’or
j’en
suis la loi.
E.
Verhaeren
Leitor:
Está fundado o Desvairismo.
•
Este
prefácio, apesar de interessante, inútil.
•
Alguns
dados. Nem todos. Sem conclusões. Para quem me aceita são inúteis
ambos. Os curiosos terão prazer em descobrir minhas conclusões,
confrontando obra e dados. Para quem me rejeita trabalho perdido
explicar o que, antes de ler, já não aceitou.
•
Quando
sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo o que meu
inconsciente me grita. Penso depois: não só para corrigir, como
para justificar o que escrevi. Daí a razão deste Prefácio
interessantíssimo.
•
Aliás
muito difícil nesta prosa saber onde termina a blague, onde
principia a seriedade. Nem eu sei.
•
E
desculpe-me por estar tão atrasado dos movimentos artísticos
atuais. Sou passadista, confesso. Ninguém pode se libertar duma só
vez das teorias-avós que bebeu; e o autor deste livro seria
hipócrita se pretendesse representar orientação moderna que ainda
não compreende bem.
•
Livro
evidentemente impressionista. Ora, segundo modernos, erro grave o
Impressionismo. Os arquitetos fogem do gótico como da arte nova,
filiando-se, para além dos tempos históricos, nos volumes
elementares: cubo, esfera, etc. Os pintores desdenham Delacroix como
Whistler, para se apoiarem na calma construtiva de Rafael, de Ingres,
do Greco. Na escultura Rodin é ruim, os imaginários africanos são
bons. Os músicos desprezam Debussy, genuflexos diante da polifonia
catedralesca de Palestrina e João Sebastião Bach. A poesia...
“tende a despojar o homem de todos os seus aspectos contingentes e
efêmeros, para apanhar nele a humanidade”... Sou passadista,
confesso.
•
“Este
Alcorão nada mais é que uma embrulhada de sonhos confusos e
incoerentes. Não é inspiração provinda de Deus, mas criada pelo
autor. Maomé não é profeta, é um homem que faz versos. Que se
apresente com algum sinal revelador do seu destino, como os antigos
profetas”. Talvez digam de mim o que disseram do criador de Alá.
Diferença cabal entre nós dois: Maomé apresentava-se como profeta;
julguei mais conveniente apresentar-me como louco.
•
Você
já leu São João Evangelista? Walt Whitman? Mallarmé? Verhaeren?
•
Perto
de dez anos metrifiquei, rimei. Exemplo?
Artista
O
meu desejo é ser pintor – Lionardo,
cujo
ideal em piedades se acrisola;
fazendo
abrir-se ao mundo a ampla corola
do
sonho ilustre que em meu peito guardo...
Meu
anseio é, trazendo ao fundo pardo
da
vida, a cor da veneziana escola,
dar
tons de rosa e de ouro, por esmola,
a
quanto houver de penedia ou cardo.
Quando
encontrar o manancial das tintas
e
os pincéis exaltados com que pintas,
Veronese!
teus quadros e teus frisos,
irei
morar onde as Desgraças moram;
e
viverei de colorir sorrisos
nos
lábios dos que imprecam ou que choram!
•
Os
srs. Laurindo de Brito, Martins Fontes, Paulo Setúbal, embora não
tenham evidentemente a envergadura de Vicente de Carvalho ou de
Francisca Júlia, publicam seus versos. E fazem muito bem. Podia,
como eles, publicar meus versos metrificados.
•
Não
sou futurista (de Marinetti). Disse e repito-o. Tenho pontos de
contato com o futurismo. Oswald de Andrade, chamando-me de futurista,
errou. A culpa é minha. Sabia da existência do artigo e deixei que
saísse. Tal foi o escândalo, que desejei a morte do mundo. Era
vaidoso. Quis sair da obscuridade. Hoje tenho orgulho. Não me
pesaria reentrar na obscuridade. Pensei que se discutiriam minhas
ideias (que nem são minhas): discutiram minhas intenções. Já
agora não me calo. Tanto ridicularizariam meu silêncio como esta
grita. Andarei a vida de braços no ar, como o Indiferente de
Watteau.
•
“Alguns
leitores ao lerem estas frases (poesia citada) não compreenderam
logo. Creio mesmo que é impossível compreender inteiramente à
primeira leitura pensamentos assim esquematizados sem uma certa
prática. Nem é nisso que um poeta pode queixar-se dos seus
leitores. No que estes se tornam condenáveis é em não pensar que
um autor que assina não escreve asnidades pelo simples prazer de
experimentar tinta; e que, sob essa extravagância aparente havia um
sentido porventura interessantíssimo, que havia qualquer coisa por
compreender”. João Epstein.
•
Há
neste mundo um senhor chamado Zdislas Milner. Entretanto escreveu
isto: “O fato duma obra se afastar de preceitos e regras
aprendidas, não dá a medida do seu valor”. Perdoe-me dar algum
valor a meu livro. Não há pai que, sendo pai, abandone o filho
corcunda que se afoga, para salvar o lindo herdeiro do vizinho. A
ama-de-leite do conto foi uma grandíssima cabotina desnaturada.
•
Todo
escritor acredita na valia do que escreve. Se mostra é por vaidade.
Se não mostra é por vaidade também.
•
Não
fujo do ridículo. Tenho companheiros ilustres.
•
O
ridículo é muitas vezes subjetivo. Independe do maior ou menor alvo
de quem o sofre. Criamo-lo para vestir com ele quem fere nosso
orgulho, ignorância, esterilidade.
•
Um
pouco de teoria? Acredito que o lirismo, nascido no subconsciente,
acrisolado num pensamento claro ou confuso, cria frases que são
versos inteiros, sem prejuízo de medir tantas sílabas, com
acentuação determinada. Entroncamento é sueto para os condenados
da prisão alexandrina. Há porém raro exemplo dele neste livro. Uso
de cachimbo...
•
A
inspiração é fugaz, violenta. Qualquer empecilho a perturba e
mesmo emudece. Arte, que, somada a Lirismo, dá Poesia, não
consiste em prejudicar a doida carreira do estado lírico para
avisá-lo das pedras e cercas de arame do caminho. Deixe que tropece,
caia e se fira. Arte é mondar mais tarde o poema de repetições
fastientas, de sentimentalidades românticas, de pormenores inúteis
ou inexpressivos.
•
Que
Arte não seja porém limpar versos de exageros coloridos. Exagero:
símbolo sempre novo da vida como do sonho. Por ele vida e sonho se
irmanam. E, consciente, não é defeito, mas meio legítimo de
expressão.
•
“O
vento senta no ombro das tuas velas!” Shakespeare. Homero já
escrevera que a terra mugia debaixo dos pés de homens e cavalos. Mas
você deve saber que há milhões de exageros na obra dos mestres.
•
Taine
disse que o ideal dum artista consiste em “apresentar, mais que os
próprios objetos, completa e claramente qualquer característica
essencial e saliente deles, por meio de alterações sistemáticas
das relações naturais entre as suas partes, de modo a tornar essa
característica mais visível e dominadora”. O sr. Luís Carlos,
porém, reconheço que tem o direito de citar o mesmo em defesa das
suas “Colunas”.
•
Já
raciocinou sobre o chamado “belo horrível”? É pena. O belo
horrível é uma escapatória criada pela dimensão da orelha de
certos filósofos para justificar a atração exercida, em todos os
tempos, pelo feio sobre os artistas. Não me venham dizer que o
artista, reproduzindo o feio, o horrível, faz obra bela. Chamar de
belo o que é feio, horrível, só porque está expressado com
grandeza, comoção, arte, é desvirtuar ou desconhecer o conceito da
beleza. Mas feio = pecado... Atrai. Anita Malfatti falava-me outro
dia no encanto sempre novo do feio. Ora Anita Malfatti ainda não leu
Emílio Bayard: “O fim lógico dum quadro é ser agradável de ver.
Todavia comprazem-se os artistas em exprimir o singular encanto da
feiura. O artista sublima tudo”.
•
Belo
da arte: arbitrário, convencional, transitório – questão de
moda. Belo da natureza: imutável, objetivo, natural – tem a
eternidade que a natureza tiver. Arte não consegue reproduzir
natureza, nem este é seu fim. Todos os grandes artistas, ora
consciente (Rafael das Madonas, Rodin
do Balzac, Beethoven
da Pastoral, Machado de Assis do Brás Cubas), ora
inconscientemente (a grande maioria) foram deformadores da natureza.
Donde infiro que o belo artístico será tanto mais artístico, tanto
mais subjetivo quanto mais se afastar do belo natural. Outros infiram
o que quiserem. Pouco me importa.
•
Nossos
sentidos são frágeis. A percepção das coisas exteriores é fraca,
prejudicada por mil véus, provenientes das nossas taras físicas e
morais: doenças, preconceitos, indisposições, antipatias,
ignorâncias, hereditariedade, circunstâncias de tempo, de lugar,
etc... Só idealmente podemos conceber os objetos como os atos na sua
inteireza bela ou feia. A arte que, mesmo tirando os seus temas do
mundo objetivo, desenvolve-se em comparações afastadas, exageradas,
sem exatidão aparente, ou indica os objetos, como um universal, sem
delimitação qualificativa nenhuma, tem o poder de nos conduzir a
essa idealização livre, musical. Esta idealização livre,
subjetiva, permite criar todo um ambiente de realidades ideais onde
sentimentos, seres e coisas, belezas e defeitos se apresentam na sua
plenitude heroica, que ultrapassa a defeituosa percepção dos
sentidos. Não sei que futurismo pode existir em quem quase perfilha
a concepção estética de Fichte. Fujamos da natureza! Só assim a
arte não se ressentirá da ridícula fraqueza da fotografia...
colorida.
•
Não
acho mais graça nenhuma nisso da gente submeter comoções a um
leito de Procusto para que obtenham, em ritmo convencional, número
convencional de sílabas. Já, primeiro livro, usei indiferentemente,
sem obrigação de retorno periódico, os diversos metros pares.
Agora liberto-me também desse preconceito. Adquiro outros. Razão
para que me insultem?
•
Mas
não desdenho balouços dançarinos de redondilhas e decassílabos.
Acontece a comoção caber neles. Entram pois às vezes no cabaré
rítmico dos meus versos. Nesta questão de metros não sou aliado;
sou como a Argentina: enriqueço-me.
•
Sobre
a ordem? Repugna-me, com efeito, o que Musset chamou: “L’art de
servir à point un dénouement bien cuit”.
•
Existe
a ordem dos colegiais infantes que saem das escolas de mãos dadas,
dois a dois. Existe uma ordem nos estudantes das escolas superiores
que descem uma escada de quatro em quatro degraus, chocando-se
lindamente. Existe uma ordem, inda mais alta, na fúria desencadeada
dos elementos.
•
Quem
leciona História do Brasil obedecerá a uma ordem que, certo, não
consiste em estudar a guerra do Paraguai antes do ilustre acaso de
Pedro Álvares. Quem canta seu subconsciente seguirá a ordem
imprevista das comoções, das associações de imagens, dos contatos
exteriores. Acontece que o tema às vezes descaminha. • O impulso
lírico clama dentro de nós como turba enfuriada. Seria
engraçadíssimo que a esta se dissesse: “Alto lá! Cada qual berre
por sua vez; e quem tiver o argumento mais forte, guarde-o para o
fim!” A turba é confusão aparente. Quem souber afastar-se
idealmente dela, verá o imponente desenvolver-se dessa alma
coletiva, falando a retórica exata das reivindicações.
•
Minhas
reivindicações? Liberdade. Uso dela; não abuso. Sei embridá-la
nas minhas verdades filosóficas e religiosas; porque verdades
filosóficas, religiosas, não são convencionais como a Arte, são
verdades. Tanto não abuso! Não pretendo obrigar ninguém a
seguir-me. Costumo andar sozinho.
•
Virgílio,
Homero, não usaram rima. Virgílio, Homero, têm assonâncias
admiráveis. • A língua brasileira é das mais ricas e sonoras. E
possui o admirabilíssimo “ão”.
•
Marinetti
foi grande quando redescobriu o poder sugestivo, associativo,
simbólico, universal, musical da palavra em liberdade. Aliás: velha
como Adão. Marinetti errou: fez dela sistema. É apenas auxiliar
poderosíssimo. Uso palavras em liberdade. Sinto que o meu copo é
grande demais para mim, e inda bebo no copo dos outros.
•
Sei
construir teorias engenhosas. Quer ver?
A
poética está muito mais atrasada que a música. Esta abandonou,
talvez mesmo antes do século 8, o regime da melodia quando muito
oitavada, para enriquecer-se com os infinitos recursos da harmonia. A
poética, com rara exceção até meados do século 19 francês, foi
essencialmente melódica. Chamo de verso melódico o mesmo que
melodia musical: arabesco horizontal de vozes (sons) consecutivas,
contendo pensamento inteligível.
Ora,
se em vez de unicamente usar versos melódicos horizontais:
“Mnezarete,
a divina, a pálida Frineia,
Comparece
ante a austera e rígida assembleia
Do
Areópago supremo...”
fizermos
que se sigam palavras sem ligação imediata entre si: estas
palavras, pelo fato mesmo de se não seguirem intelectual,
gramaticalmente, se sobrepõem umas às outras, para a nossa
sensação, formando, não mais melodias, mas harmonias.
Explico
melhor:
Harmonia:
combinação de sons simultâneos. Exemplo:
“Arroubos...
Lutas... Setas... Cantigas... Povoar!...”
Estas
palavras não se ligam. Não formam enumeração. Cada uma é frase,
período elíptico, reduzido ao mínimo telegráfico. Se pronuncio
“Arroubos”, como não faz parte de frase (melodia), a palavra
chama a atenção para seu insulamento e fica vibrando, à espera
duma frase que lhe faça adquirir significado e QUE NÃO VEM.
“Lutas” não dá conclusão alguma a “Arroubos”; e, nas
mesmas condições, não fazendo esquecer a primeira palavra, fica
vibrando com ela. As outras vozes fazem o mesmo. Assim: em vez de
melodia (frase gramatical) temos acorde arpejado, harmonia, – o
verso harmônico. Mas, se em vez de usar só palavras soltas, uso
frases soltas: mesma sensação de superposição, não já de
palavras (notas) mas de frases (melodias). Portanto: polifonia
poética. Assim, em Pauliceia desvairada usam-se o verso
melódico:
“São
Paulo é um palco de bailados russos”;
o
verso harmônico:
“A
cainçalha... A Bolsa... As jogatinas...”;
e
a polifonia poética (um e às vezes dois e mesmo mais versos
consecutivos):
“A
engrenagem trepida... A bruma neva...”
Que
tal? Não se esqueça porém que outro virá destruir tudo isto que
construí.
Para
ajuntar à teoria:
1º
Os
gênios poéticos do passado conseguiram dar maior interesse ao verso
melódico, não só criando-o mais belo, como fazendo-o mais variado,
mais comotivo, mais imprevisto. Alguns mesmo conseguiram formar
harmonias, por vezes ricas. Harmonias porém inconscientes,
esporádicas. Provo inconsciência: Victor Hugo, muita vez harmônico,
exclamou depois de ouvir o quarteto do Rigoletto: “Façam
que possa combinar simultaneamente várias frases e verão de que sou
capaz”. Encontro anedota em Galli, Estética musical. Se non
é vero...
2º
Há
certas figuras de retórica em que podemos ver embrião da harmonia
oral, como na lição das sinfonias de Pitágoras encontramos germe
da harmonia musical. Antítese – genuína dissonância. E se tão
apreciada é justo porque poetas como músicos, sempre sentiram o
grande encanto da dissonância, de que fala G. Migot.
3º
Comentário
à frase de Hugo. Harmonia oral não se realiza, como a musical, nos
sentidos, porque palavras não se fundem como sons, antes
baralham-se, tornam-se incompreensíveis. A realização da harmonia
poética efetua-se na inteligência. A compreensão das artes do
tempo nunca é imediata, mas mediata. Na arte do tempo coordenamos
atos de memória consecutivos, que assimilamos num todo final. Este
todo, resultante de estados de consciência sucessivos, dá a
compreensão final, completa da música, poesia, dança terminada.
Victor Hugo errou querendo realizar objetivamente o que se realiza
subjetivamente, dentro de nós.
4º
Os
psicólogos não admitirão a teoria... É responder-lhes com o
Só-quem-ama de Bilac. Ou com os versos de Heine de que Bilac
tirou o Só-quem-ama. Entretanto: se você já teve por acaso
na vida um acontecimento forte, imprevisto (já teve, naturalmente)
recorde-se do tumulto desordenado das muitas ideias que nesse momento
lhe tumultuaram no cérebro. Essas ideias, reduzidas ao mínimo
telegráfico da palavra, não se continuavam, porque não faziam
parte de frase alguma, não tinham resposta, solução, continuidade.
Vibravam, ressoavam, amontoavam-se, sobrepunham-se. Sem ligação,
sem concordância aparente – embora nascidas do mesmo acontecimento
– formavam, pela sucessão rapidíssima, verdadeira simultaneidade,
verdadeiras harmonias acompanhando a melodia enérgica e larga do
acontecimento.
5º
Bilac,
Tarde, é muitas vezes tentativa de harmonia poética. Daí,
em parte ao menos, o estilo novo do livro. Descobriu, para a língua
brasileira, a harmonia poética, antes dele empregada raramente
(Gonçalves Dias, genialmente, na cena da luta, I-Juca-Pirama).
O defeito de Bilac foi não metodizar o invento; tirar dele todas as
consequências. Explica-se historicamente seu defeito: Tarde é
um apogeu. As decadências não vêm depois dos apogeus. O apogeu já
é decadência, porque sendo estagnação não pode conter em si um
progresso, uma evolução ascensional. Bilac representa uma fase
destrutiva da poesia; porque toda perfeição em arte significa
destruição. Imagino o seu susto, leitor, lendo isto. Não tenho
tempo para explicar: estude, se quiser. O nosso primitivismo
representa uma nova fase construtiva. A nós compete esquematizar,
metodizar as lições do passado. Volto ao poeta. Ele fez como os
criadores do organum medieval: aceitou harmonias de quartas e de
quintas desprezando terceiras, sextas, todos os demais intervalos. O
número das suas harmonias é muito restrito. Assim, “[...] o ar e
o chão, a fauna e a flora, a erva e o pássaro, a pedra e o tronco,
os ninhos e a hera, a água e o réptil, a folha e o inseto, a flor e
a fera” dá impressão duma longa, monótona série de quintas
medievais, fastidiosa, excessiva, inútil, incapaz de sugestionar o
ouvinte e dar-lhe a sensação do crepúsculo na mata.[48]
•
Lirismo:
estado afetivo sublime – vizinho da sublime loucura. Preocupação
de métrica e de rima prejudica a naturalidade livre do lirismo
objetivado. Por isso poetas sinceros confessam nunca ter escrito seus
melhores versos. Rostand por exemplo; e, entre nós, mais ou menos, o
sr. Amadeu Amaral. Tenho a felicidade de escrever meus melhores
versos. Melhor do que isso não posso fazer.
•
Ribot
disse algures que inspiração é telegrama cifrado transmitido pela
atividade inconsciente à atividade consciente que o traduz. Essa
atividade consciente pode ser repartida entre poeta e leitor. Assim
aquele não escorcha e esmiúça friamente o momento lírico; e
bondosamente concede ao leitor a glória de colaborar nos poemas.
•
“A
linguagem admite a forma dubitativa que o mármore não admite”.
Renan.
•
“Entre
o artista plástico e o músico está o poeta, que se avizinha do
artista plástico com a sua produção consciente, enquanto atinge as
possibilidades do músico no fundo obscuro do inconsciente”. De
Wagner.
•
Você
está reparando de que maneira costumo andar sozinho...
•
Dom
Lirismo, ao desembarcar do Eldorado do Inconsciente no cais da terra
do Consciente, é inspecionado pela visita médica, a Inteligência,
que o alimpa dos macaquinhos e de toda e qualquer doença que possa
espalhar confusão, obscuridade na terrinha progressista. Dom Lirismo
sofre mais uma visita alfandegária, descoberta por Freud, que a
denominou Censura. Sou contrabandista! E contrário à lei da vacina
obrigatória
•
Parece
que sou todo instinto... Não é verdade. Há no meu livro, e não me
desagrada, tendência pronunciadamente intelectualista. Que quer
você? Consigo passar minhas sedas sem pagar direitos. Mas é
psicologicamente impossível livrar-me das injeções e dos tônicos.
•
A
gramática apareceu depois de organizadas as línguas. Acontece que
meu inconsciente não sabe da existência de gramáticas, nem de
línguas organizadas. E como Dom Lirismo é contrabandista...
•
Você
perceberá com facilidade que se na minha poesia a gramática às
vezes é desprezada, graves insultos não sofre neste prefácio
interessantíssimo. Prefácio: rojão do meu eu superior. Versos:
paisagem do meu eu profundo.
•
Pronomes?
Escrevo brasileiro. Se uso ortografia portuguesa é porque, não
alterando o resultado, dá-me uma ortografia.
•
Escrever
arte moderna não significa jamais para mim representar a vida atual
no que tem de exterior: automóveis, cinema, asfalto. Se estas
palavras frequentam-me o livro não é porque pense com elas escrever
moderno, mas porque sendo meu livro moderno, elas têm nele sua razão
de ser.
•
Sei
mais que pode ser moderno artista que se inspire na Grécia de Orfeu
ou na Lusitânia de Nun’Álvares. Reconheço mais a existência de
temas eternos, passíveis de afeiçoar pela modernidade: universo,
pátria, amor e a presença-dos-ausentes,
ex-gozo-amargo-de-infelizes.
•
Não
quis também tentar primitivismo vesgo e insincero. Somos na
realidade os primitivos duma era nova. Esteticamente: fui buscar
entre as hipóteses feitas por psicólogos, naturalistas e críticos
sobre os primitivos das eras passadas, expressão mais humana e livre
de arte.
•
O
passado é lição para se meditar, não para reproduzir. “E tu che
se’ costì, anima viva, Pàrtiti da cotesti che son morti”.
•
Por
muitos anos procurei-me a mim mesmo. Achei. Agora não me digam que
ando à procura da originalidade, porque já descobri onde ela
estava, pertence-me, é minha.
•
Quando
uma das poesias deste livro foi publicada, muita gente me disse: “Não
entendi”. Pessoas houve porém que confessaram: “Entendi, mas não
senti”. Os meus amigos... percebi mais duma vez que sentiam, mas
não entendiam. Evidentemente meu livro é bom.
•
Escritor
de nome disse dos meus amigos e de mim que ou éramos gênios ou
bestas. Acho que tem razão. Sentimos, tanto eu como meus amigos, o
anseio do farol. Se fôssemos tão carneiros a ponto de termos escola
coletiva, esta seria por certo o “Farolismo”. Nosso desejo:
alumiar. A extrema-esquerda em que nos colocamos não permite
meio-termo. Se gênios: indicaremos o caminho a seguir; bestas:
naufrágios por evitar.
•
Canto
da minha maneira. Que me importa se me não entendem? Não tenho
forças bastantes para me universalizar? Paciência. Com o vário
alaúde que construí, me parto por essa selva selvagem da cidade.
Como o homem primitivo cantarei a princípio só. Mas canto é agente
simpático: faz renascer na alma dum outro predisposto ou apenas
sinceramente curioso e livre, o mesmo estado lírico provocado em nós
por alegrias, sofrimentos, ideais. Sempre hei-de achar também algum,
alguma que se embalarão à cadência libertária dos meus versos.
Nesse momento: novo Anfião moreno e caixa-d’óculos, farei que as
próprias pedras se reúnam em muralhas à magia do meu cantar. E
dentro dessas muralhas esconderemos nossa tribo.
•
Minha
mão escreveu a respeito deste livro que “não tinha e não tem
nenhuma intenção de o publicar”. Jornal do Comércio, 6 de
junho. Leia frase de Gourmont sobre contradição: 1° volume das
Promenades littéraires. Rui Barbosa tem sobre ela página
lindíssima, não me recordo onde. Há umas palavras também em João
Cocteau, La noce massacrée.
Mas
todo este prefácio, com todo o disparate das teorias que contém,
não vale coisíssima nenhuma. Quando escrevi Pauliceia desvairada
não pensei em nada disto. Garanto porém que chorei, que cantei, que
ri, que berrei... Eu vivo!
•
Aliás
versos não se escrevem para leitura de olhos mudos. Versos
cantam-se, urram-se, choram-se. Quem não souber cantar não leia
Paisagem n° 1. Quem não souber urrar não leia Ode ao
burguês. Quem não souber rezar, não leia religião.
Desprezar: A escalada.
Sofrer: Colloque sentimental.
Perdoar: a cantiga do berço, um dos solos de Minha Loucura, das
Enfibraturas do Ipiranga.
Não continuo. Repugna-me dar a chave de meu livro. Quem for como eu
tem essa chave.
•
E
está acabada a escola poética “Desvairismo”.
•
Próximo
livro fundarei outra.
•
E
não quero discípulos. Em arte: escola = imbecilidade de muitos para
vaidade dum só.
•
Poderia
ter citado Gorch Fock. Evitava o Prefácio
Interessantíssimo.
“Toda canção de liberdade vem do cárcere”.
04/07/2024
Carvalhos & margaridas
Há poetas, há certos poemas radioativos. São os que, sem querer, vêm operando as transmutações, as mutações humanas. Não eram cogumelos súbitos. Agitava-os o vento shakespeariano de todas as paixões, de todos os cuidados. Não sei se ficamos melhores ou piores: ficamos mais profundos. Mas há, neste mundo, os que sofrem a vertigem das profundezas ou das alturas. Para esses, inclinam-se à beira da estrada umas florinhas silvestres que sempre estão se oferecendo: colhe-me, colhe-nos! E os poetas da planície fazem buquês com elas! Alguns até belíssimos, mas sem perigo algum. Pudera! Eram flores de retórica.
Mário Quintana, em Porta giratória
27/12/2023
O peru de Natal
Freedom from want (1943), de Norman Rockwell
O
nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai
acontecida cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a
felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes,
nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem
crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas.
Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser
desprovido de qualquer lirismo, duma exemplaridade incapaz,
acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da
vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma
estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai
fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos
desmancha-prazeres. Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando
chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais
pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter
sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em
cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a
ideia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas.
Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo
cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas
regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por
espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.
Foi
decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a ideia de
fazer uma das minhas chamadas “loucuras”. Essa fora aliás, e
desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente
familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que
arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo
às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha,
uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou
recebi, não sei, duma criada de parentes: eu consegui no
reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de
“louco”. “É doido, coitado!” falavam. Meus pais falavam com
certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo
para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que convencem de
alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o
que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu
ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer
tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência
sem complexos, de que não posso me queixar um nada.
Era
costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se
imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa
do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os
três manos por causa dos quebra-nozes...), empanturrados de
castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi
lembrando isso que arrebentei com uma das minhas “loucuras — Bom,
no Natal, quero comer peru”.
Houve
um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia
solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos
convidar ninguém por causa do luto.
— Mas
quem falou de convidar ninguém! Essa mania... Quando é que a gente
já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa,
vem toda essa parentada do diabo...
— Meu
filho, não fale assim...
— Pois
falo, pronto!
E
descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem
infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era
mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não
perdi a ocasião. Me deu de sopetão uma ternura imensa por mamãe e
titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que
sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário
de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de
festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição,
invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas
três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão
trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem
feitos, a parentagem devorava tudo e inda levava embrulhinhos pros
que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de
exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que
mamãe com titia inda provavam um naco de perna, vago, escuro,
perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava
tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que
era peru em nossa casa, peru resto de festa.
Não,
não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E
havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca,
douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a
farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um
cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha
companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas
todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado,
se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E
cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. é certo que com meus
“gostos”, já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num
vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o
doido, mamãe adorava cerveja.
Quando
acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num
desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que
sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho
é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de
empurrarem pra cima de mim a... culpa de seus desejos enormes.
Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que
minha irmã resolveu o consentimento geral: — É louco mesmo!...
Comprou-se
o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal
rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado: assim
que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não
fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por
ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no
mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova
que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda
disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse
todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um
dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia
que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem — Não
senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!
Era
mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim,
que até era capaz de comer pouco, só pra que os outros quatro
comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru
comido a sós, redescobria em cada um o que a cotidianidade abafara
por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me
perdoe mas estou pensando em Jesus... Naquela casa de burgueses bem
modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus.
O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas. — Eu
que sirvo!
“É
louco, mesmo!”, pois por que havia de servir, se sempre mamãe
servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram
passados pra mim e principiei uma distribuição heroica, enquanto
mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo dum pedaço
admirável da “casca”, cheio de gordura e pus no prato. E depois
vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço
angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru: — Se
lembre de seus manos, Juca!
Quando
que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da
Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus
crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O
prato ficou sublime. — Mamãe, este é o da senhora! Não! não
passe não!
Foi
quando ela não pôde mais com tanta comoção e principiou chorando.
Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o
dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu
lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro.
Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também,
tinha dezenove anos... Diabo de família besta que via peru e
chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é
que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por
associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua
figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal. Fiquei
danado.
Bom,
principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava
perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira
entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida,
inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa
preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado
ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma
incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo
que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.
Principiou
uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o
peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara
decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios
visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru a
imagem de papai cresceu vitoriosa, Insuportavelmente obstruidora. —
Só falta seu pai...
Eu
nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me
interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai.
E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e
político. Naquele Instante que hoje me parece decisivo da nossa
família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:
— É
mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto
trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente...
(hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós
todos reunidos em família.
E
todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi
diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu.
Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito
bom, sempre se sacrificara por nós, fora um santo que “vocês,
meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai”, um santo.
Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável
estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de
contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador,
completamente vitorioso.
Minha
mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever
“felicidade gustativa”, mas não era só isso não. Era uma
felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros
parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi
aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um
amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais
complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade
familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim
grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.
Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe
fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas
pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!
A
tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor...
Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra
levam o nome de “bem-casados”. Mas nem mesmo este nome perigoso
se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em
dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.
Levantamos.
Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de
cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa,
porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica
antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder
sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e
pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu
bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!...
— Villa
Rica Editoras Reunidas LTDA.
Mário de Andrade, in Contos novos
27/07/2023
Descobrimento
Abancado
à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.
Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse homem é brasileiro que nem eu.
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.
Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse homem é brasileiro que nem eu.
Mário de Andrade, in Antologia Poética
25/12/2019
Eterna Presença
Este feliz desejo de abraçar-te,
Pois que tão longe tu de mim estás,
Faz com que te imagine em toda a parte
Visão, trazendo-me ventura e paz.
Pois que tão longe tu de mim estás,
Faz com que te imagine em toda a parte
Visão, trazendo-me ventura e paz.
Vejo-te
em sonho, sonho de beijar-te;
Vejo-te sombra, vou correndo atrás;
Vejo-te nua, oh branco lírio de arte,
Corando-me a existência de rapaz…
Vejo-te sombra, vou correndo atrás;
Vejo-te nua, oh branco lírio de arte,
Corando-me a existência de rapaz…
E
com ver-te e sonhar-te, esta lembrança
Geratriz, esta mágica saudade,
Dá-me a ilusão de que chegaste enfim;
Geratriz, esta mágica saudade,
Dá-me a ilusão de que chegaste enfim;
Sinto
alegrias de quem pede e alcança
E a enganadora força de, em verdade,
Ter-te, longe de mim, juntinho a mim.
E a enganadora força de, em verdade,
Ter-te, longe de mim, juntinho a mim.
Mário de Andrade
10/12/2019
Lundu do escritor difícil
Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquizila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez.
Que a muita gente enquizila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez.
Cortina
de brim caipora,
Com teia caranguejeira
E enfeite ruim de caipira,
Fale fala brasileira
Que você enxerga bonito
Tanta luz nesta capoeira
Tal-e-qual numa gupiara.
Com teia caranguejeira
E enfeite ruim de caipira,
Fale fala brasileira
Que você enxerga bonito
Tanta luz nesta capoeira
Tal-e-qual numa gupiara.
Misturo
tudo num saco,
Mas gaúcho maranhense
Que pára no Mato Grosso,
Bate este angu de caroço
Ver sopa de caruru;
A vida é mesmo um buraco,
Bobo é quem não é tatu!
Mas gaúcho maranhense
Que pára no Mato Grosso,
Bate este angu de caroço
Ver sopa de caruru;
A vida é mesmo um buraco,
Bobo é quem não é tatu!
Eu
sou um escritor difícil,
Porém culpa de quem é!…
Todo difícil é fácil,
Abasta a gente saber.
Bajé, pixé, chué, ôh “xavié”
De tão fácil virou fóssil,
O difícil é aprender!
Porém culpa de quem é!…
Todo difícil é fácil,
Abasta a gente saber.
Bajé, pixé, chué, ôh “xavié”
De tão fácil virou fóssil,
O difícil é aprender!
Virtude
de urubutinga
De enxergar tudo de longe!
Não carece vestir tanga
Pra penetrar meu caçanje!
Você sabe o francês “singe”
Mas não sabe o que é guariba?
— Pois é macaco, seu mano,
Que só sabe o que é da estranja.
De enxergar tudo de longe!
Não carece vestir tanga
Pra penetrar meu caçanje!
Você sabe o francês “singe”
Mas não sabe o que é guariba?
— Pois é macaco, seu mano,
Que só sabe o que é da estranja.
Mário
de Andrade
25/11/2019
Vei, a Sol
Ora o pássaro careceu de fazer
necessidade, fez e o herói ficou escorrendo sujeira de urubu. Já
era de madrugadinha e o tempo estava inteiramente frio. Macunaíma
acordou tremendo, todo lambuzado. Assim mesmo examinou bem a pedra
mirim da ilhota para vê si não havia alguma cova com dinheiro
enterrado. Não havia não. Nem a correntinha encantada de prata que
indica pro escolhido, tesouro de holandês. Havia só as formigas
jaquitaguas ruivinhas.
Então passou Caiuanogue, a estrela da
manhã. Macunaíma já meio enjoado de tanto viver pediu pra ela que
o carregasse pro céu.
Caiuanogue foi se chegando porém o herói fedia muito.
Caiuanogue foi se chegando porém o herói fedia muito.
—Vá tomar banho! — ela fez. E foi-se
embora.
Assim nasceu a expressão “Vá tomar
banho” que os brasileiros empregam se referindo a certos imigrantes
europeus.
Mário de Andrade, in
Macunaíma: o herói
sem nenhum caráter
22/09/2019
A dor maior
[…]
Estou convencido que
perseveraríamos amigos pela vida inteira, se ela, a tal, a vida, não
se encarregasse de nos roubar essa grandeza.
Pouco depois de formados, ano que foi de
hesitação pra nós, eu querendo estudar pintura mas “isso não
era carreira”, ele medicina, mas os negócios prendendo a São
Paulo a gente dele, uma desgraça me aproximou de Frederico
Paciência: morreu-lhe o Pai. Me devotei com sinceridade. Nascera em
mim uma experiência, uma... sim, uma paternidade crítica em que as
primeiras hesitações de Frederico Paciência puderam se apoiar sem
reserva.
Meu amigo sofreu muito. Mas, sem indicar
insensibilidade nele (aliás era natural que não amasse muito um pai
que fora indiferentemente bom) me parece que a dor maior de Frederico
Paciência não foi perder o Pai, foi a decepção que isso lhe dava.
Sentiu um espanto formidável essa primeira vez que deparou com a
morte. Mas fosse decepção, fosse amor, sofreu muito. Fui eu a
consolar e consegui o mais perfeito dos sacrifícios, fiquei muito
mudo, ali. O melhor alívio para a infelicidade da morte é a gente
possuir consigo a solidão silenciosa duma sombra irmã. Vai-se pra
fazer um gesto, e a sombra adivinha que a gente quer água, e foi
buscar. Ou de repente estende o braço, tira um fiapo que pegou na
vossa roupa preta.
Mário de Andrade, in Frederico
Paciência
22/07/2019
Epitalâmio
O alto fulgor desta paixão insana
Há-de cegar nossos corações
E deserdados da esperança humana
Palmilharemos por escuridões…
Há-de cegar nossos corações
E deserdados da esperança humana
Palmilharemos por escuridões…
Não
mais te orgulharás da soberana
Beleza! e eu, minhas cálidas canções
Não mais dedilharei com mão ufana
Na harpa de luz das minhas ilusões!…
Beleza! e eu, minhas cálidas canções
Não mais dedilharei com mão ufana
Na harpa de luz das minhas ilusões!…
Pela
realização que ora se ultima
Vai apagar-se em breve o alto fulgor
Que te inflama e ilumina o meu desejo…
Vai apagar-se em breve o alto fulgor
Que te inflama e ilumina o meu desejo…
Como
no último verso a última rima,
Eu deporei, sem gozo e sem calor,
Meu derradeiro beijo no teu beijo!
Eu deporei, sem gozo e sem calor,
Meu derradeiro beijo no teu beijo!
Mário
de Andrade
22/05/2019
Ode ao Burguês
Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu
insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os “Printemps” com as unhas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os “Printemps” com as unhas!
Eu
insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!
Morte
à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiburi!
Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!
“— Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
— Um colar… — Conto e quinhentos!!!
Más nós morremos de fome!”
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiburi!
Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!
“— Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
— Um colar… — Conto e quinhentos!!!
Más nós morremos de fome!”
Come!
Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! Oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! Oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!
Ódio
e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora!
Fu! Fora o bom burguês!…
Mário
de Andrade
06/05/2019
Lundu do escritor difícil
Eu
sou um escritor difícil
Que a muita gente enquizila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez.
Que a muita gente enquizila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez.
Cortina
de brim caipora,
Com teia caranguejeira
E enfeite ruim de caipira,
Fale fala brasileira
Que você enxerga bonito
Tanta luz nesta capoeira
Tal-e-qual numa gupiara.
Com teia caranguejeira
E enfeite ruim de caipira,
Fale fala brasileira
Que você enxerga bonito
Tanta luz nesta capoeira
Tal-e-qual numa gupiara.
Misturo
tudo num saco,
Mas gaúcho maranhense
Que pára no Mato Grosso,
Bate este angu de caroço
Ver sopa de caruru;
A vida é mesmo um buraco,
Bobo é quem não é tatu!
Mas gaúcho maranhense
Que pára no Mato Grosso,
Bate este angu de caroço
Ver sopa de caruru;
A vida é mesmo um buraco,
Bobo é quem não é tatu!
Eu
sou um escritor difícil,
Porém culpa de quem é!…
Todo difícil é fácil,
Abasta a gente saber.
Bajé, pixé, chué, ôh “xavié”
De tão fácil virou fóssil,
O difícil é aprender!
Porém culpa de quem é!…
Todo difícil é fácil,
Abasta a gente saber.
Bajé, pixé, chué, ôh “xavié”
De tão fácil virou fóssil,
O difícil é aprender!
Virtude
de urubutinga
De enxergar tudo de longe!
Não carece vestir tanga
Pra penetrar meu caçanje!
Você sabe o francês “singe”
Mas não sabe o que é guariba?
— Pois é macaco, seu mano,
Que só sabe o que é da estranja.
De enxergar tudo de longe!
Não carece vestir tanga
Pra penetrar meu caçanje!
Você sabe o francês “singe”
Mas não sabe o que é guariba?
— Pois é macaco, seu mano,
Que só sabe o que é da estranja.
Mário
de Andrade
24/04/2019
Descobrimento
Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.
Não
vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse
homem é brasileiro que nem eu.
Mário
de Andrade
25/12/2018
O valioso tempo dos maduros
Contei
meus anos e descobri que terei
menos tempo para viver daqui
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
menos tempo para viver daqui
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me
como aquele menino que
recebeu uma bacia de cerejas. As primeiras,
ele chupou displicente, mas percebendo
que faltam poucas, rói o caroço.
recebeu uma bacia de cerejas. As primeiras,
ele chupou displicente, mas percebendo
que faltam poucas, rói o caroço.
Já
não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam
egos inflamados. Inquieto-me com invejosos
tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Não quero estar em reuniões onde desfilam
egos inflamados. Inquieto-me com invejosos
tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já
não tenho tempo para conversas intermináveis,
para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias
que nem fazem parte da minha.
para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias
que nem fazem parte da minha.
Já
não tenho tempo para administrar melindres
de pessoas, que apesar da idade cronológica,
são imaturos.
de pessoas, que apesar da idade cronológica,
são imaturos.
Detesto
fazer acareação de desafetos
que brigaram pelo majestoso cargo de secretário
geral do coral. As pessoas não debatem conteúdos,
apenas os rótulos?
que brigaram pelo majestoso cargo de secretário
geral do coral. As pessoas não debatem conteúdos,
apenas os rótulos?
Meu
tempo tornou-se escasso para debater rótulos,
quero a essência, minha alma tem pressa?
quero a essência, minha alma tem pressa?
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver
ao lado
de gente humana, muito humana;
que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora,
não foge de sua mortalidade, caminhar perto de
coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!
de gente humana, muito humana;
que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora,
não foge de sua mortalidade, caminhar perto de
coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!
Mário de Andrade
03/12/2017
Sobre os degraus da morte
(Na
morte de Paul Éluard)
Ainda
tenho no ouvido tua voz grave, feita metálica pelo interurbano, a me
dizer do México para Los Angeles: “Alors, mon vieux, qu’est-ce
que tu attends? Viens, donc... “ Tu me chamavas sem me conhecer,
porque sabias que eu sou poeta, não tão grande quanto és, não tão
bravo quanto foste, não tão necessário quanto serás; mas poeta, e
poeta atento às necessidades do seu tempo. Tu me chamavas porque
outros poetas, amigos nossos, te haviam falado de mim.
Eras
tu, Di Cavalcanti, Neruda, Guillén, a me chamarem, a me mandarem
cartas escritas em bares, cheias de fraternidade e palavrões, a me
falarem da beleza do México e do gosto da tequilla, a me cativarem
para o vosso convívio boêmio e grave.
E
eu fui. Fui porque me “tutoiaste” sem me conhecer, nessa grande
intimidade que só os poetas têm e só a poesia pode dar. Mas quando
cheguei já havias partido para França, a compromissos urgentes.
Conheci tua mulher, tua terceira mulher Dominique, que ficara por uns
poucos dias mais, essa menina alta, de face lisa de campônia, que
vivia ainda envolta na beleza das coisas que lhe deras e lhe
disseras. Tinhas casado com ela dias antes, depois de um passeio
louco em companhia de Siqueiros e sua mulher pelo México adentro.
Ela só tinha na boca jovem um nome: o teu nome. Ela dizia Paul,
Paul, Paul, Paul - com uma esperança simples no olhar. Seus braços
traziam ainda as marcas de tuas carícias de homem. Tinhas dado um
papagaio a ela, e ela o carregava alto no dedo e lhe falava de ti,
dizia-lhe que breve estaríeis todos juntos na França, e que ele
teria de ter juízo e não falar quando o poeta estivesse
trabalhando, pois o poeta era um homem cheio de poemas a fazer. Ela
lhe falava como a uma criança, a voz quente, e as penas da cabeça
da ave eriçavam-se brandamente enquanto engrolava também doces
absurdos.
Tua
morte - como a de Mário de Andrade, de angina pectoris - chegou-me,
tal a dele, como um teor vazio e abstrato. Inútil pensar que
morreste. Mário morreu por acaso? Não vem ele visitar-me sempre que
estou sozinho, sempre que estou sofrendo, o amigo fiel? - e não
pousa como dantes a grande mão no meu ombro e se deixa horas comigo
a discutir os velhos assuntos sentidos, poesia, amizade, beleza,
amor, morte, vida, arte, povo, mulher, bebida - e poesia ainda, e
ainda poesia, e mais poesia?
Loucura
pensar que morreste. Sobre cada face viva, sobre cada coisa viva,
sobre o coração da vida - escrevo o teu nome.
Escrevo
o teu nome sobre os degraus da morte, gravo-o a fogo sobre os seios
da aurora, pinto-o em luz sobre tudo o que é triste, escuro e
trágico. Tu escolheste. Tu foste claro, ardente, digno. Delicado até
os ossos de ti mesmo - esses que restarão de tua bela figura de
homem - tu enfrentaste a brutalidade dos carrascos. Hoje eu digo o
teu nome e digo-o sentindo-me melhor por ter participado do teu tempo
humano. Teu nome é também Liberdade, Paul Éluard.
Vinicius
de Moraes, in Para viver um grande amor
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