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02/02/2026

São Paulo

De São Paulo recebi uma carta de Fernanda Montenegro. Telefonei-lhe pedindo licença para publicá-la. Foi dada: 

“Clarice 

é com emoção que lhe escrevo pois tudo o que você propõe tem sempre essa explosão dolorosa. É uma angústia terrivelmente feminina, dolorosa, abafada, educada, desesperada e guardada.
Ao ler meu nome, escrito por você, recebi um choque não por vaidade mas por comunhão. Ando muito deprimida, o que não é comum. Atualmente em São Paulo se representa de arma no bolso. Polícia nas portas dos teatros. Telefonemas ameaçam o terror para cada um de nós em nossas casas de gente de teatro. É o nosso mundo.
E o nosso mundo, Clarice?
Não este, pelas circunstâncias obrigatoriamente político, polêmico, contundente. Mas aquele mundo de que nos fala Tchekhov: onde repousaremos, onde nos descontrairemos? Ai, Clarice, a nossa geração não o verá. Quando eu tinha quinze anos pensava alucinadamente que minha geração desfaria o nó. Nossa geração falhou, numa melancolia de ‘canção sem palavra’, tão comum no século XIX. O amor no século XXI é a justiça social. E Cristo que nos entenda.
Estamos aprendendo a lição seguinte: amor é ter. Na miséria não está a salvação.
Quem não tem, não dá. Quem tem fome não tem dignidade (Brecht). Clarice, estou pedindo desculpas por este palavrório todo. Mas deixe que eu mantenha com você esta sintonia dolorosa dos que percebem alguns mundos, não apenas este ou aquele, porém até mesmo aquele outro, embora linearmente – como é o caso.
Nossa geração sofre da frustração do repouso. É isso, Clarice? A luta que fizermos, não o faremos pra nós. E temos uma pena enorme de nós por isso. É assim que explico pra mim estas frases que você põe no seu artigo: ‘Eu que dei pra mentir. E com isso estou dizendo uma verdade. Mas mentir já não era sem tempo. Engano a quem devo enganar, e, como sei que estou enganando, digo por dentro verdades duras.’ A luta, a que me refiro lá no alto, seria aquela luta bíblica, a grande luta, a que engloba tudo.
Voltando às ‘verdades duras’ de que você fala: na minha profissão o enganar é a minha verdade. É isso mesmo, Clarice, como profissão. Mas na minha intimidade toda particular, sinto, sem enganos, que nossa geração está começando a comungar com a barata. A nossa barata (Fernanda se refere a um livro meu). Nós sabemos o que significa esta comunhão, Clarice. Juro que não vou afastá-la de mim, a barata. Eu o farei. Preciso já organicamente fazê-lo. Dê-me a calma e a luz de um momento de repouso interior, só um momento.
Com intensa comoção.
Fernanda”

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

24/10/2025

Carta VIII


Meu querido Vermelindo,

Então, quer dizer que você nutre “grandes esperanças de que a fase religiosa do seu paciente esteja definhando”, não é? Eu sempre achei que a Academia de Treinamento havia chegado ao fundo do poço desde que empossaram o velho Remeleca como diretor, mas agora tenho certeza. Será que ninguém nunca lhe contou sobre a Lei da Ondulação?
Os seres humanos são anfíbios — em parte animais, em parte espíritos. (A insistência do Inimigo em produzir tal híbrido revoltante foi um dos fatores determinantes para o Nosso Pai retirar o seu apoio a ele). Como espíritos, eles pertencem à eternidade, mas, como animais, estão fadados à temporalidade. Isso significa que, enquanto o seu espírito pode ser direcionado para um objeto eterno, seus corpos, suas paixões e suas imaginações estão em constante mudança, pois mudar significa estar inserido na temporalidade. Eles experimentam a constância apenas em meio à ondulação — o retorno repetitivo a um nível do qual frequentemente se desviam, uma série de altos e baixos. Se você tivesse observado seu paciente cuidadosamente, teria visto essa ondulação em todos os aspectos de sua vida — seu interesse pelo trabalho, sua afeição pelos amigos, seus apetites físicos, todos têm seus altos e baixos. Enquanto seu humano viver sobre a Terra, os períodos de riqueza e vivacidade emocional e física se alternarão com períodos de entorpecimento e de pobreza. A aridez e o tédio que seu paciente está passando agora não são, como você entusiasticamente supõe, obra sua; eles são meramente um fenômeno natural que de nada nos servirá se não soubermos tirar vantagem disso.
Para decidir qual é a maior vantagem que se pode tirar, você deve perguntar o que o Inimigo pretende fazer com isso, e, então, fazer o oposto. Talvez você se surpreenda com o fato de que ele, em seus esforços para ter a posse permanente de uma alma, confie muito mais nos baixos que nos altos. Alguns dos seus filhos prediletos passaram por vales e depressões maiores e mais profundos do que qualquer pessoa. E a razão é a seguinte: para nós, os humanos não passam de comida. Nosso objetivo é a absorção da vontade deles na nossa, o aumento da nossa própria reserva de egoísmo à custa deles. Mas a obediência que o Inimigo demanda dos seres humanos é algo bem diferente. Deve-se encarar o fato de que toda aquela conversa sobre o seu amor pelos homens e a liberdade perfeita que vem de se entregar e dedicar-se a ele não é mera propaganda (como se poderia de bom grado acreditar), e sim uma verdade aterrorizante. Ele quer realmente encher o universo com um monte de pequenas réplicas repugnantes de si mesmo. Criaturas cujas vidas, numa escala em miniatura, serão qualitativamente como a sua, não porque ele as tenha absorvido, mas porque elas desejam se conformar de livre e espontânea vontade a ele. O que nós queremos é apenas gado que possa acabar nos servindo de comida; ele deseja servos que possam acabar se tornando seus filhos. Nós desejamos sugar, ele deseja retribuir. Nós somos vazios e queremos ser preenchidos; ele é pleno e, por isso, transborda. O objetivo de nossa guerra é um mundo em que o Nosso Pai nas Profundezas tenha absorvido todos os outros seres em si: já o Inimigo deseja um mundo cheio de seres unidos a ele, mas que, ainda assim, continuem sendo distintos.
E é aí que entram os períodos de baixa. Você já deve ter se perguntado muitas vezes por que o Inimigo não utiliza os seus poderes para estar sensivelmente presente nas almas humanas em qualquer nível sempre que desejar. Mas agora você vê que o Irresistível e o Incontestável são duas armas que a própria natureza de seu desígnio o impede de usar. Atropelar a vontade humana (o que aconteceria se ele se tornasse perceptível, mesmo no nível mais tênue e mínimo) não valeria de nada para ele, porque não pode violentá-los, pode apenas encantá-los. Pois sua ideia desprezível é fazer duas coisas incompatíveis ao mesmo tempo; as criaturas devem ser um com ele, sem deixarem de ser elas mesmas; simplesmente anulá-las, ou assimilá-las não servirá aos seus propósitos. Ele está preparado para intervir um pouquinho, no início. Irá instigá-los com pequenos sinais de sua presença que, embora minguados, parecem grandes para eles, repletas de doçura emocional e representativas de uma resistência fácil à tentação. Mas ele nunca permitirá que esse estado de coisas dure muito tempo. Mais cedo ou mais tarde, irá retirar, se não de fato, pelo menos de sua experiência consciente, todo apoio e incentivo. Deixará a criatura andar com suas próprias pernas — a fim de executar a partir da própria vontade aqueles deveres que já perderam o atrativo. É durante esses períodos de baixa, muito mais do que nos períodos de pico, que ela amadurecerá e se tornará o tipo de criatura que ele deseja que ela seja. Desse modo, as orações feitas no estado de aridez são aquelas que o agradam mais. Podemos arrastar nossos pacientes por meio da tentação contínua, porque nosso propósito em relação a eles é apenas que sirvam de refeição, e quanto mais conseguirmos interferir na vontade deles, melhor. O Inimigo não pode “tentá-los” para a virtude da mesma forma que “tentamos” para o vício. Ele quer que eles aprendam a andar sozinhos e deve, por isso, retirar a sua mão. E se o que restar for apenas a vontade de andar, ele ficará satisfeito até mesmo com seus tropeços. Não se iluda, Vermelindo. Não haverá um perigo maior para a nossa causa do que quando um ser humano, que não mais deseja, mas ainda assim pretende fazer a vontade de nosso Inimigo, olhar em redor, para um universo do qual todo traço dele parece ter desaparecido, e perguntar-se por que foi abandonado e ainda obedece.
Mas é claro que os períodos de baixa oferecem oportunidades também para nosso lado. Na semana que vem vou lhe dar algumas dicas de como explorá-las.
Com carinho,
Seu tio, Maldanado

C. S. Lewis, em Cartas de um diabo a seu aprendiz

09/10/2025

Carta VII




Meu querido Vermelindo,

Fico espantado com sua pergunta se é essencial manter o paciente na ignorância quanto à sua própria existência. Essa questão, ao menos para a fase presente da luta, já nos foi respondida pelo Alto Comando. Nossa política para o momento é de nos mantermos ocultos. Claro que isso nem sempre foi assim. Na verdade, estamos nos deparando com um dilema curioso. Quando os seres humanos deixam de acreditar em nossa existência, perdemos todas as consequências prazerosas do terrorismo direto e deixamos de produzir bruxos. Por outro lado, quando eles acreditam em nós, não temos como torná-los materialistas e céticos. Pelo menos por enquanto. Tenho muita esperança de que iremos aprender em pouco tempo como apelar aos sentimentos e transformar em mito a ciência deles a ponto de aquilo que é, com efeito, uma crença em nós (embora não com esse nome) se infiltrará de mansinho, enquanto a mente humana permanecerá fechada à crença na existência do Inimigo. A “Energia Vital”, a veneração do sexo e alguns aspectos da Psicanálise poderão ser bem úteis aqui. Se conseguirmos realizar nosso trabalho perfeito — o bruxo materialista, o homem que não usa, antes, cultua verdadeiramente ao que ele chama vagamente de “Forças” ao mesmo tempo que nega a existência de “espíritos” —, então o fim da guerra estará às portas. Mas, nesse meio tempo, deveremos obedecer às ordens recebidas. Não acho que você terá muita dificuldade para manter o paciente na escuridão. O fato de que os “demônios” são figuras predominantemente cômicas na imaginação moderna irá ajudá-lo. Se qualquer suspeita tênue de sua existência começar a surgir na mente dele, sugira uma imagem de uma entidade em trajes vermelhos e convença-o de que, já que ele não pode acreditar nessas coisas (trata-se de um velho método de manual para confundi-los), também não poderá acreditar em você.
Não esqueci da promessa que fiz de avaliar se devemos tornar o paciente um extremo patriota ou um extremo pacifista. Todos os extremos, exceto a devoção extrema ao Inimigo, devem ser encorajados. Nem sempre, é claro, mas principalmente nas condições atuais. Algumas épocas são apáticas e complacentes, e o nosso trabalho é deixá-las ainda mais calmas e embalá-las mais rapidamente no sono. Já outras eras, como a nossa, são desequilibradas e inclinadas à facção, sendo o nosso dever inflamá-las. Qualquer círculo de pessoas, reunidas por algum interesse desprezado ou ignorado por outras, tende a se desenvolver em um caldeirão de admiração mútua e também a gerar uma grande quantidade de vaidade e ódio para com o mundo exterior, os quais são alimentados sem nenhum pudor, tudo pela “causa”, que é seu patrocinador e é considerada impessoal. Isso é assim, mesmo quando o pequeno grupo existe originalmente para os propósitos próprios do Inimigo. Queremos que a Igreja permaneça pequena não apenas para que menos pessoas possam conhecer o Inimigo, mas também para que aqueles que o conhecem possam adquirir a intensidade inquietante e o falso moralismo defensivo de uma sociedade secreta ou de uma panelinha. É claro que a Igreja em si é defendida com veemência, portanto, não tivemos ainda sucesso em dar a ela todas as características de uma facção; mas facções subordinadas dentro dela muitas vezes produziram resultados admiráveis das partes de Paulo e Apolo, em Corinto, até o baixo e o alto clero da Igreja Anglicana.
Se o seu paciente puder ser induzido a se tornar um contestador consciente, ele automaticamente se identificará como membro de uma sociedade pequena, organizada, impopular, mas com voz ativa, e os efeitos disso sobre alguém tão recém-chegado ao cristianismo quase sempre serão positivos. Mas apenas quase. Será que essa pessoa já teve sérias dúvidas sobre a legalidade de servir em uma guerra justa antes da atual ter começado? Será que ele é um homem de grande coragem física — tão grande que não terá quaisquer dúvidas sobre os reais motivos de seu pacifismo?
Será que, quando estiver bem perto da honestidade (nenhum humano jamais estará muito perto), ele vai se sentir completamente convencido de que agiu plenamente impulsionado pelo desejo de obedecer ao Inimigo? Se ele for esse tipo de homem, é provável que o seu pacifismo não nos faça muito bem, e o Inimigo irá provavelmente protegê-lo das consequências usuais de pertencer a uma facção. Sua melhor estratégia nesse caso seria tentar provocar uma crise súbita, confusa e emocional, da qual pudesse emergir como um convertido irrequieto em prol do patriotismo. Esses fatores geralmente são manipuláveis. Mas se ele for o homem que eu penso que é, tente o pacifismo.
No entanto, seja qual for a seita que ele adotar, sua tarefa principal será a mesma. Comece por fazê-lo tratar o patriotismo ou o pacifismo como parte de sua religião. Depois, deixe-o, sob a influência do espírito partidário, chegar a se referir a isso como a parte mais importante. Depois, silenciosa e gradativamente, cuide para que ele alcance um estágio em que a religião se torne meramente parte da “causa”, em que o cristianismo passe a ser valorizado principalmente em razão dos argumentos excelentes que é capaz de produzir em favor do esforço britânico em prol da guerra ou do pacifismo. A atitude da qual você deseja se proteger é aquela na qual os assuntos temporais são tratados essencialmente como matéria de obediência. Uma vez que você tenha feito do mundo um fim e da fé um meio, terá quase conquistado o seu homem. E faz muito pouca diferença que tipo de fim mundano ele esteja perseguindo. Desde que os encontros, as panfletagens, as políticas, os movimentos, as causas e as cruzadas importem mais para ele do que as orações, os sacramentos e a caridade, ele será nosso — e quanto mais “religiosos” (nesses termos) forem os homens, mais seguramente os teremos em nossas mãos. Há jaulas repletas de gente desse tipo aqui embaixo.

Com carinho,
Seu tio, Maldanado

C. S. Lewis, em Cartas de um diabo a seu aprendiz

01/10/2025

Carta VI


Meu querido Vermelindo,

Fiquei satisfeito de saber que a idade e a profissão de seu paciente tornam possível, embora não garantam, que ele seja convocado para o serviço militar. Gostaríamos que ele ficasse num completo estado de incerteza, de modo que a sua mente fique cheia de imagens contraditórias do futuro, sendo que cada uma delas desperte nele esperança ou medo. Não há nada mais eficaz que o suspense e a ansiedade para bloquear a mente humana contra o Inimigo. Ele quer que os homens fiquem preocupados com o que fazem; nosso negócio é fazer com que fiquem constantemente pensando sobre o que vai acontecer com eles.
É claro que o seu paciente já terá se convencido de que precisa se submeter com paciência à vontade do Inimigo. O que o Inimigo quer dizer com isso é essencialmente que ele deve aceitar com paciência a tribulação que lhe sobreveio — a ansiedade e o suspense atuais. É sobre isso que ele deve dizer: “Seja feita a tua vontade” e, pela tarefa diária de suportar isso que o pão de cada dia será providenciado. O seu negócio é garantir que o paciente nunca pense no medo presente como a cruz que lhe foi designada, mas apenas nas coisas que o deixam temeroso. Deixe-o considerá-las como sendo as suas cruzes: não o deixe pensar que, já que são incompatíveis, elas não podem todas acontecer com ele, e faça-o praticar a coragem e a paciência em relação a elas, mesmo antes de acontecerem. Porque uma resignação real, ao mesmo tempo, para com uma dúzia de situações diferentes e hipotéticas, é quase impossível, sendo que o Inimigo não ajuda muito aqueles que tentam ficar nesse estado de conformação. A resignação ao sofrimento presente e real, mesmo quando esse sofrimento consiste basicamente no medo, é mais cômoda e geralmente é auxiliada por essa ação direta.
Há uma lei espiritual importante envolvida aqui. Expliquei que você pode enfraquecer as orações do seu paciente desviando a atenção dele do Inimigo em si, para atentar sobre os seus próprios estados mentais em relação a ele. Por outro lado, o medo se torna mais fácil de dominar quando a mente do paciente é desviada da coisa temida para o medo em si, considerado um estado presente e indesejável de sua própria mente — e quando ele se refere ao medo como a cruz que lhe foi designada, passa inevitavelmente a pensar nisso como um estado de espírito. Por isso, é possível formular a seguinte regra geral: em todas as atividades mentais que favorecem a nossa causa, encoraje o paciente a não atentar para si mesmo, e sim a concentrar-se no objeto; mas, no caso daquelas atividades que favorecem o Inimigo, leve-o a concentrar-se só em si. Faça com que um insulto ou o corpo de uma mulher prendam tanto a atenção dele no objeto, que ele não chegue a pensar algo como: “estou entrando agora em um estado chamado Raiva — ou no estado chamado Luxúria”. Em contrapartida, faça-o refletir em termos como: “agora, meus sentimentos estão se tornando mais puros, ou mais generosos”, e, então, fixe a sua atenção dentro dele mesmo para que não consiga mais olhar para além de si a ponto de enxergar nosso Inimigo ou seu próximo.
Com relação à atitude mais genérica dele em relação à guerra, você não deve confiar demais naqueles sentimentos de ódio que os humanos estão muito interessados em discutir nos periódicos cristãos ou anticristãos. Em sua angústia, o paciente pode, é claro, sentir-se encorajado a retaliar por meio de alguns sentimentos vingativos direcionados aos líderes germânicos, e isso, até certo ponto, é bom. Mas se trata normalmente de um tipo de ódio melodramático ou mítico direcionado a bodes expiatórios imaginários. Ele nunca topou com tais pessoas na vida real — elas são figuras leigas, moldadas a partir do que ele extrai dos jornais. Os resultados desses ódios fantasiosos são muitas vezes os mais decepcionantes e, dentre todos os seres humanos, os ingleses são, com respeito a isso, os mais deploráveis fracotes. São criaturas daquele tipo miserável que proclamam em alta voz que a tortura seria pouco para os seus inimigos, mas logo em seguida oferecem chá e cigarros ao primeiro piloto alemão ferido que aparece na porta dos fundos.
Faça você o que fizer, sempre haverá alguma benevolência, bem como alguma malícia na alma do seu paciente. O negócio é direcionar a malícia para os seus vizinhos, com quem ele topa todos os dias, e transferir sua benevolência a circunstâncias remotas, dirigindo-a a pessoas que ele não conhece. Assim, a malícia se torna totalmente real e a benevolência, em grande parte, imaginária. Não há nenhuma vantagem em inflamar o seu ódio contra os alemães se, ao mesmo tempo, um hábito pernicioso de caridade estiver tomando forma entre ele e sua mãe, seu chefe e o homem com quem ele topa no trem. Pense no seu homem como uma série de círculos concêntricos, sendo que a sua vontade é o mais interno, o seu intelecto vem logo depois e, finalmente, sua fantasia. Não é de se esperar que se possa excluir imediatamente de todos os círculos tudo que cheira ao Inimigo, mas você deve continuar a transferir todas as virtudes para círculos externos até que eles finalmente estejam no círculo da fantasia, e todas as qualidades desejáveis para dentro da Vontade. Somente quando alcançam a Vontade e são ali incorporadas em hábitos é que as virtudes se tornam realmente fatais para nós. (É claro que não estou me referindo ao que o paciente toma erroneamente por sua Vontade, aquela fúria de resoluções e de dentes cerrados, e sim ao centro real, aquilo que o Inimigo chama de Coração.) Todos os tipos de virtudes pintadas na fantasia, aprovadas pelo intelecto ou, em certa medida, amadas e admiradas, afastarão uma pessoa da casa de Nosso Pai: na verdade, elas poderão torná-lo mais divertido quando chegar lá.

Com carinho,
Seu tio, Maldanado

C. S. Lewis, em Cartas de um diabo a seu aprendiz

18/09/2025

Carta V


Meu querido Vermelindo,

É um pouco decepcionante esperar um relatório detalhado sobre o seu trabalho e receber, em vez disso, uma rapsódia tão vaga quanto sua última carta. Você diz que está “pulando de alegria”, delirando, porque os humanos europeus começaram outra guerra. Sei muito bem que bicho lhe mordeu. Você não está louco, só está bêbado. Lendo bastante as entrelinhas do seu delirante relato sobre a noite insone de seu paciente, posso reconstituir com grande precisão o estado mental dele. Essa foi a primeira vez na sua carreira que você provou daquele vinho que é a recompensa de todos os nossos esforços — a angústia e o atordoamento de uma alma humana — e isso subiu à sua cabeça. Claro que não o culpo. Não posso esperar maturidade dos jovens. Será que o paciente reagiu a algum dos retratos do futuro de horror que você pintou para ele? Será que você trabalhou direitinho em cima de alguns vislumbres, regados a autocomiseração, do seu passado feliz? — será que havia algumas sensações refinadas na boca do estômago dele? Será que você tocou o seu violino lindamente? Bem, tudo isso é bem natural. Mas lembre-se, Vermelindo, de que o dever vem antes do prazer. Se qualquer comodismo de sua parte levar à perda definitiva de sua presa, você será condenado a privar-se eternamente da bebida da qual só degustou o primeiro gole. Se, por outro lado, puder finalmente ganhar a alma dele com determinação e frieza, aqui e agora, então ele será seu para sempre — um cálice vivo, cheio até a borda de desespero, terror e assombro que você poderá levar aos lábios quantas vezes quiser. Portanto, não permita que nenhum entusiasmo temporário tire o foco de sua atividade principal que é solapar a fé e impedir a formação de virtudes. Em sua próxima carta, quero que você me preste, sem falta, um relatório completo das reações do paciente à guerra, de modo que possamos analisar se estaremos mais propensos a torná-lo um patriota extremo ou um pacifista militante. Há todo o tipo de possibilidades. Nesse meio tempo, devo alertá-lo a não esperar demais da guerra.
É claro que uma guerra é diversão garantida. O medo e o sofrimento imediatos dos humanos são um refresco legítimo e prazeroso para os nossos muitos trabalhadores que pegam no pesado. Mas que bem permanente isso poderá fazer se não tirarmos disso vantagem para levar almas ao Nosso Pai nas Profundezas? Quando vejo o sofrimento temporal dos humanos que conseguiram escapar de nós, sinto como se tivesse sido autorizado a provar do primeiro prato de um banquete farto e depois tenha sido impedido de comer o resto. Isso é pior do que não tê-lo sequer provado. O Inimigo, fiel aos seus métodos bárbaros de guerra, permite-nos testemunhar a breve miséria de seus prediletos tão somente para nos afligir e atormentar — escarnecer da fome incessante que, ao longo desta fase atual do grande conflito, seu bloqueio está reconhecidamente impondo. Vamos então pensar primeiro sobre como usar e, depois,como nos deliciar com essa guerra europeia, pois há certas tendências inerentes a ela que não estão, em si mesmas, de forma alguma atuando em nosso favor. Podemos ter esperança de achar alguma dose de crueldade e de impiedade. Mas se não formos cuidadosos, veremos milhares se voltando para o Inimigo em sua tribulação, enquanto dezenas de milhares que não irão assim tão longe, e ainda assim terão a sua atenção desviada de si mesmos para valores e causas que acreditam serem superiores a eles próprios. Sei que o Inimigo desaprova muitas dessas causas. Mas é aí que se mostra tão injusto ao premiar, muitas vezes, aqueles seres humanos que deram suas vidas por causas que ele considera ruins, a partir da fundamentação monstruosamente sofística de que os seres humanos as achavam boas e estavam fazendo o melhor que sabiam. Considere ainda quantas mortes indesejáveis ocorrem em tempos de guerra. Pessoas são mortas em lugares onde sabiam que poderiam morrer e para os quais vão preparadas, se já estiverem, de alguma forma, do lado do Inimigo. Seria tão melhor para nós se todos os seres humanos morressem em hospitais caros cercados por médicos que mentem, enfermeiras que mentem e amigos que fazem o mesmo, conforme foram por nós treinados, a prometer vida para os moribundos, a encorajar a crença de que a doença pode ser tida como desculpa para qualquer indulgência, e até mesmo (se nossos trabalhadores fizerem bem o seu trabalho) a negar qualquer sugestão de que se chame um reverendo, a menos que sonegue ao doente sua verdadeira condição! E quão desastrosa para nós é a lembrança da morte que a guerra impõe. Uma de nossas melhores armas, o contentamento mundano, se mostrará inútil. Nos tempos de guerra, nem mesmo um ser humano consegue acreditar que viverá para sempre.
Sei que o Cascagrossa e outros viram nas guerras uma grande oportunidade para atacar a fé, mas penso que esse ponto de vista seja exagerado. Os humanos partidários do Inimigo foram todos plenamente instruídos por ele a enxergar o sofrimento como uma parte essencial daquilo que ele chama de Redenção, de modo que uma fé destruída pela guerra ou pela pestilência não pode realmente ter sido digna do esforço de ser destruída. Estou falando daquele sofrimento difuso por um longo período tal como o que a guerra irá produzir. É claro que, no exato momento do terror, do luto ou dor física, você poderá capturar o seu homem quando a razão dele estiver temporariamente suspensa. Mas mesmo então, se ele candidatar-se ao quartel-general do Inimigo, constatei que seu posto será quase sempre defendido.

Com carinho,
Seu tio,
Maldanado

C. S. Lewis, em Cartas de um diabo a seu aprendiz

08/09/2025

Carta IV


Meu querido Vermelindo,

As sugestões amadorísticas da sua última carta me alertaram para o fato de que está mais do que na hora de eu escrever para instruí-lo sobre o doloroso tema da oração. Você poderia ter me poupado do comentário de que minhas advertências sobre as orações do humano pela mãe dele “se provaram singularmente infelizes”. Um sobrinho nunca deveria escrever esse tipo de coisa ao tio — nem um tentador iniciante ao subsecretário de um departamento. Esse fato também revela um desejo desagradável de passar adiante a responsabilidade. Você deve aprender a pagar pelos seus próprios erros.
A melhor coisa, sempre que possível, é manter o paciente longe de qualquer tentativa séria no sentido de qualquer tipo de oração. Se o paciente for um adulto recentemente convertido ao partido do Inimigo, como é o caso do seu homem, a melhor maneira de fazer isso é incentivando-o a se lembrar, ou achar que está se lembrando, da natureza repetitiva de suas orações na infância. Para contrariar isso, ele poderá ser persuadido a vislumbrar algo inteiramente espontâneo, íntimo, informal e não regulamentado. E isso na verdade significará, para o iniciante, um esforço de produzir em si mesmo um estado de espírito vagamente devocional, no qual a concentração real da vontade e da inteligência não desempenhem papel algum. Um de seus poetas, Coleridge, registrou certa vez que não orava “mexendo os lábios e pondo-se de joelhos”, mas simplesmente “preparava o seu espírito para amar” e se entregava a “uma atitude de súplica”. Esse é exatamente o tipo de oração que desejamos; e como carrega uma semelhança superficial com a oração silenciosa conforme praticada por aqueles que estão em nível bem avançado no serviço prestado ao Inimigo, os pacientes espertos e preguiçosos poderão ser apanhados nessa armadilha durante um período bem longo de tempo. No mínimo, poderão ser persuadidos de que a posição do corpo não faz qualquer diferença na sua oração, pois se esquecem constantemente, coisa de que você deve se lembrar sempre, de que são animais, e de que qualquer coisa em relação ao seu corpo afetará suas almas. É engraçado ver como os mortais sempre nos acusam de enfiar ideias em suas cabeças: na verdade, nosso trabalho mais importante é manter coisas fora delas.
Se isso falhar, você terá que apelar para uma distorção mais sutil da intenção deles. Sempre que estiverem a serviço do Inimigo, teremos sido derrotados, mas há formas de impedi-los de fazer isso. A mais simples é desviar a atenção deles para si mesmos. Mantenha-os ocupados com os próprios pensamentos e tentando produzir sentimentos pela ação de suas próprias vontades. Quando tiverem a intenção de pedir-lhe um ato de caridade, faça com que, em vez disso, comecem a tentar produzir neles mesmos sentimentos caridosos, mas sem que eles notem que são eles próprios que estão fazendo isso. Quando tiverem a ideia de orar por coragem, deixe-os tentar sentirem-se realmente corajosos. Quando disserem que estão orando por perdão, deixe-os tentar sentirem-se perdoados. Ensine-os a estimarem o valor de cada oração por seu sucesso em produzir o sentimento desejado, e nunca os deixe suspeitar de que esse tipo de sucesso ou de fracasso irá depender de estarem bem ou mal, descansados ou exaustos, naquele momento.
Mas, é claro, o Inimigo não ficará de braços cruzados nesse meio tempo. Sempre que houver oração, haverá o perigo de sua ação imediata. Ele fica cinicamente indiferente à dignidade de sua posição, e à nossa, meros espíritos puros, e sobre os animais humanos que se colocam de joelhos, e derrama quantidades enormes de autoconhecimento sem o menor escrúpulo. Mas, mesmo se ele derrotar você em sua primeira tentativa de ludibriar o seu humano, temos uma arma mais sutil. Os humanos não possuem aquela percepção direta dele que nós, infelizmente, não conseguimos evitar. Nunca conheceram aquela luminosidade sinistra, aquele resplendor penetrante e intenso que compõe o pano de fundo do sofrimento permanente de nossa vida. Se conseguir olhar dentro da mente do paciente enquanto ele ora, não encontrará isso. Se examinar o objeto ao qual ele está servindo, descobrirá que se trata de uma composição de vários ingredientes bastante ridículos. Haverá imagens derivadas de retratos do Inimigo, quando este surgiu durante episódio desacreditado e conhecido como Encarnação: haverá imagens ainda mais vagas — talvez bem primitivas e pueris — associadas às outras duas Pessoas. Haverá até um pouco de sua própria reverência (e das sensações físicas que a acompanham) tornadas em objetos e atribuídas ao objeto reverenciado. Sei de casos em que aquilo que o paciente chamava de seu “Deus” era, na verdade, uma localização física — no canto esquerdo do teto do seu quarto, ou de dentro de sua própria cabeça, ou um crucifixo na parede. Mas qualquer que seja a natureza do objeto composto, você terá de mantê-lo orando para aquilo — para a coisa que ele fez, não para a Pessoa que o tenha criado. Talvez até mesmo o encoraje a dar grande importância à correção e ao aperfeiçoamento do seu objeto composto, e a mantê-lo constantemente diante dos olhos de sua imaginação ao longo de toda oração, pois se ele jamais chegar a fazer a distinção, se direcionar conscientemente suas orações “não para o que eu penso que sejas, mas para o que sabes que és”, nossa situação será, nessa hora, desesperadora. Uma vez que todos os seus pensamentos e imagens tiverem sido descartados, ou preservados, mas com o pleno reconhecimento de sua natureza meramente subjetiva, e uma vez que o homem entregar-se à Presença completamente real, externa, invisível, que estará com ele no quarto e nunca será conhecida dele, como ele é conhecido por ela — então, meu amigo, é que tudo poderá acontecer. Para evitar essa situação embaraçosa — essa completa nudez da alma na oração — você se valerá do fato de que os próprios humanos não desejam isso tanto quanto se pode supor. Existe mesmo essa coisa chamada receber mais do que aquilo que estavam pedindo!
Com carinho,
Seu tio, Maldanado

C. S. Lewis, em Cartas de um diabo a seu aprendiz

30/08/2025

Carta III


Meu querido Vermelindo,

Fiquei muito satisfeito com o que você me contou sobre o relacionamento desse homem com a mãe. Mas você deve tirar vantagem disso. O Inimigo irá trabalhar de dentro para fora, gradualmente corrigindo a conduta do paciente cada vez mais pelo novo padrão, e pode ser que ele mude o seu comportamento em relação à senhora idosa a qualquer momento. Seria bom que você entrasse em cena antes. Mantenha-se em contato íntimo com nosso colega Maldadiposo, que está encarregado da mãe, e construam um hábito consistente de irritação mútua, de pequenas azucrinações diárias. Os seguintes métodos são de grande ajuda:

1. Mantenha a mente dele focada na vida interior. Ele pensa que a sua conversão é algo que ocorreu dentro dele e que sua atenção, por isso mesmo, está voltada para os estados atuais do seu próprio espírito — ou, antes, para a versão muito expurgada deles, que é tudo o que você deve permitir que ele veja. Encoraje isso. Mantenha a mente dele longe dos deveres mais elementares, direcionando-a para os mais avançados e espirituais. Agrave essa característica mais humana, mais útil de todas, o horror e a negligência ao óbvio. Você deve levá-lo a uma condição em que ele possa praticar o autoexame por uma hora sem descobrir nenhum desses fatos sobre si mesmo, que são perfeitamente claros para qualquer um que já viveu na mesma casa que ele ou trabalhou no mesmo escritório.

2. Sem dúvida, é impossível evitar que ele ore pela mãe, mas temos meios de tornar essas orações inócuas. Certifique-se de que elas sejam sempre muito “espirituais”, que ele sempre se preocupe com o estado da alma da mãe, e nunca com o reumatismo dela. Há duas vantagens nisso. Em primeiro lugar, sua atenção ficará concentrada no que ele considera serem os pecados dela, pelo que, com um pouco de orientação da sua parte, ele poderá ser induzido a considerar pecado as ações da mãe que julga inconvenientes ou irritantes. Assim, você pode continuar a esfregar as feridas do dia de forma um pouco mais forte, mesmo enquanto ele estiver de joelhos; a operação é muito fácil e você vai achá-la bastante divertida. Em segundo lugar, já que as ideias dele sobre a alma da mãe serão muito rudimentares e muitas vezes errôneas, ele estará, até certo ponto, orando por uma pessoa imaginária, e a sua tarefa será tornar essa pessoa imaginária todos os dias cada vez menos parecida com a mãe real — a senhora idosa de língua afiada à mesa do café da manhã. Com o passar do tempo, a divisão que você causou entre eles será tamanha que nenhum pensamento ou sentimento de suas orações pela mãe imaginária alcançará ou servirá de ajuda à mãe verdadeira. Eu já tive tamanho controle sobre alguns de meus pacientes que era possível fazê-los levantar da oração pela alma da esposa ou do filho para ir bater na esposa ou no filho reais ou mesmo insultá-los sem o menor escrúpulo.

3. Quando dois seres humanos vivem juntos por muitos anos, é comum que cada um adquira tons de voz e expressões faciais que são quase insuportavelmente irritantes para o outro. Explore bem isso. Faça-o ficar prestando atenção nas sobrancelhas erguidas da mãe, que ele aprendeu a detestar na infância, e faça com que ele fique refletindo sobre o quanto isso o aborrece. Faça-o partir do pressuposto de que ela sabe o quanto isso é irritante e que o faz para irritá-lo — se você souber fazer o seu serviço direitinho, ele não notará a imensaimprobabilidade de sua suposição. E, é claro, nunca o deixe suspeitar de que ele mesmo tenha tons, caras e bocas que também são capazes de irritá-la. Como ele não pode ver ou ouvir a si mesmo, isso é fácil de conseguir.

4. Na vida civilizada, o ódio doméstico usualmente se expressa dizendo coisas que pareceriam bem inofensivas no papel (as palavras em si não são ofensivas), mas que, ditas naquele tom de voz, ou naquele momento, não estarão longe de parecer um tapa na cara. Para manter esse jogo em andamento, você e Maldadiposo devem cuidar para que cada um desses tolos tenham dois pesos e duas medidas. Seu paciente deve demandar que todos os seus pronunciamentos sejam tomados literalmente e julgados simplesmente com base nas palavras reais; ao mesmo tempo, ele deve julgar todos os pronunciamentos da mãe com a interpretação mais completa e supersensível do tom, do contexto e da intenção suspeita. Ela deve ser encorajada a fazer o mesmo com ele. Assim, eles podem sair de toda briga convencidos, ou bem perto de estarem convencidos, de que eles são os inocentes da história. Você conhece bem esse tipo de coisa: “Basta perguntar quando o jantar ficará pronto, que ela logo tem um chilique”. Uma vez que esse hábito estiver bem consolidado, você terá a prazerosa situação em que um ser humano diz coisas com o propósito expresso de ofender e, ainda assim, queixa-se quando é ele o ofendido.
Enfim, conte-me algo sobre o posicionamento religioso da velha senhora. Será que ela está com alguma espécie de ciúme do novo fator na vida do filho? — no caso, sentindo-se ofendida pelo fato de ele aprender com outros, e tão tarde, aquilo que ela acha que deu a ele oportunidades de aprender na infância? Será que ela sente que ele está fazendo muito fuzuê em torno disso — ou que ele está aceitando tudo tranquilo demais? Você se lembra do irmão mais velho na história do Inimigo, não é mesmo?

Com carinho,
Seu tio, Maldanado

C. S. Lewis, em Cartas de um diabo a seu aprendiz

26/08/2025

Carta II

 


Meu querido Vermelindo,

Fiquei bastante contrariado com a notícia de que o seu paciente se tornou cristão. Não alimente vãs esperanças de poder escapar das penalidades habituais; de fato, tenho certeza de que, em seus melhores momentos, nem você mesmo deseja isso. Nesse meio tempo, precisamos tirar a maior vantagem possível dessa situação. Não há motivo para desespero; centenas desses novos convertidos adultos foram recuperados depois de uma breve estada no campo do Inimigo e agora estão conosco. Todos os hábitos do paciente, tanto mentais quanto físicos, continuam militando a nosso favor.
Um dos nossos grandes aliados no presente é a própria Igreja. Não me entenda mal. Não estou falando da Igreja que vemos expandir-se ao longo dos tempos e do espaço, arraigada na eternidade, terrível como um exército levantando suas bandeiras. Esse, posso confessar, é um espetáculo que tira nossos tentadores mais audaciosos do sério. Mas, felizmente, isso é quase invisível para os humanos. Tudo o que o seu paciente vê é o simulacro de um prédio gótico construído pela metade. Quando ele entra nela, vê o dono da mercearia local vindo em sua direção para cumprimentá-lo com aquela bajulação, apressado para lhe empurrar um livrinho intacto, contendo um tipo de liturgia que ninguém entende, e um livrinho surrado, que contém textos alterados de várias canções religiosas, a maioria de mau gosto, e em letras miúdas. Quando ele se assenta no banco de igreja e olha em redor, vê precisamente aquela turma de vizinhos quehavia evitado até então. Você deve investir pesado nesses vizinhos. Faça com que a sua mente pendule entre uma expressão como “o corpo de Cristo” e as faces reais do banco vizinho. É claro que pouco interessa que tipo de pessoa esteja de fato sentado no banco ao lado. Talvez você até saiba que um deles é um grande guerreiro do exército Inimigo. Não importa. Graças ao Nosso Senhor das Profundezas, o seu paciente é um baita tolo. Se algum desses vizinhos desafinar na hora de cantar, ou fizer barulho com as solas dos sapatos, ou tiver queixo duplo, ou vestir roupas bizarras, o paciente vai acreditar facilmente que a sua religião só pode ser, por isso mesmo e de alguma forma, ridícula. No seu estágio atual, ele tem uma ideia de “cristãos” em sua mente que supõe ser espiritual, mas que, na verdade, é, em grande escala, pictórica. A sua mente está cheia de togas e sandálias e armaduras e pernas de fora e o mero fato de que as outras pessoas na igreja vistam roupas modernas representa um empecilho real — ainda que inconsciente — para ele. Nunca deixe que isso venha à tona; nunca deixe que ele pergunte como, afinal, esperava que elas se vestissem. Mantenha tudo nebuloso na mente dele agora e você terá com que se divertir por toda a eternidade, ao proporcionar-lhe a clareza peculiar trazida pelos Infernos.
Então, trabalhe duro na decepção ou no anticlímax que certamente sobrevirá ao paciente nas suas primeiras semanas na igreja. O Inimigo permite que tal decepção ocorra no limiar de todo empreendimento humano. Ela acontece quando o garotinho que ficou encantado na escola maternal com as histórias da Odisseia passa a estudar o grego com seriedade. Ela ocorre quando os amantes se casam e dão início à tarefa real de aprender a viver juntos. Em todas as instâncias da vida, ela marca a transição da aspiração sonhadora para o fazer laborioso. O Inimigo assume esse risco porque ele tem uma fantasia curiosa de tornar todos esses repugnantes vermezinhos humanos naquilo que ele chama de seus amantes e servos “livres” — “filhos” é a palavra que usa com seu amor inveterado de degradar todo o mundo espiritual por ligações anormais com os animaizinhos bípedes. Justamente por desejar a sua liberdade, ele se recusa a conduzi-los, pelas suas meras afeições e hábitos, a quaisquer dos objetivos que colocou diante deles: ele os deixa “fazer as coisas por si mesmos”. E é aí que a nossa oportunidade aparece. Mas lembre-se de que aí também mora o perigo. Uma vez que eles tenham passado com sucesso por esse deserto inicial, tornam-se muito menos dependentes da emoção e, assim, muito mais difíceis de tentar.
Estive escrevendo até aqui partindo do pressuposto de que as pessoas do banco ao lado na igreja não forneçam nenhuma fundamentação racional para a decepção. É claro que, se elas fornecerem essa base — se o paciente ficar sabendo que a mulher com o chapéu bizarro é viciada em jogar bridge, ou que o homem com os sapatos ranhentos é um avarento e chantagista —, então sua tarefa se tornará bem mais fácil. Tudo o que você terá que fazer é manter fora da cabeça dele a questão: “Se eu, sendo o que sou, posso me considerar, em certo sentido, um cristão, por que os diferentes vícios daquelas pessoas sentadas no banco ao lado provariam que a sua religião não passa de hipocrisia e de convenção?” Você poderá se perguntar se é possível evitar a ocorrência de um pensamento tão óbvio até mesmo a uma mente humana. É possível, sim, Vermelindo, é possível! Trate seu paciente da forma adequada e isso simplesmente não passará pela mente dele. Ele ainda não conviveu o bastante com o Inimigo para ter qualquer humildade real. O que ele diz sobre a sua própria pecaminosidade, mesmo de joelhos, é tudo conversa fiada. No fundo, ele ainda acredita que, por ser um convertido, tem um crédito bastante favorável no balanço da contabilidade do Inimigo e pensa que está mostrando grande humildade e condescendência em sequer ir para a igreja com esses vizinhos vulgares e presunçosos. Mantenha-o nesse estado de espírito o máximo de tempo possível.
Com carinho,
Seu tio,
Maldanado

C. S. Lewis, em Cartas de um diabo a seu aprendiz

20/08/2025

Carta I


Meu querido Vermelindo,

Eu noto que você diz que está direcionando a leitura do seu paciente e se encarregando de fazer com que ele tenha encontros regulares com o tal amigo materialista. Mas será que você não está sendo um pouco ingênuo? Até parece que está achando que a argumentação seja o melhor modo de mantê-lo fora das garras do Inimigo. Até poderia ter sido esse o caso, há alguns séculos. Naquela época, as pessoas ainda sabiam muito bem quando algo tinha sido provado logicamente e quando não; e quando tinha sido provado, elas criam nisso de verdade. Elas ainda faziam associação entre o pensamento e a ação e estavam dispostas a mudar o seu estilo de vida em decorrência de ideias racionalmente encadeadas. Mas, graças à imprensa diária e outras armas desse tipo, conseguimos alterar amplamente essa situação. Seu homem está acostumado, desde pequeno, a manter uma dúzia de filosofias incompatíveis dançando em sua cabeça ao mesmo tempo. Ele não classifica as doutrinas essencialmente em “verdadeiras” ou “falsas”, mas como “acadêmicas” ou “práticas”; “ultrapassadas” ou “contemporâneas”; “convencionais” ou “opressoras”. É o jargão, e não o argumento, o seu maior aliado para mantê-lo longe da Igreja. Não perca tempo tentando fazê-lo achar que o materialismo é verdadeiro! Faça-o considerá-lo poderoso, ou despojado, ou corajoso — eis a filosofia do futuro. É com esse tipo de coisa que ele se preocupa.
O problema da argumentação é que ela transporta toda a batalha para o território do Inimigo. Ele também pode argumentar; por outro lado, graças à propaganda realmente prática — do tipo que estou sugerindo —, temos demonstrado, por séculos a fio, como o Inimigo é inferior ao Nosso Pai nas Profundezas. Pelo próprio ato de argumentar, desperta-se a razão do nosso paciente; uma vez desperta, quem poderá prever o resultado? Mesmo se uma específica cadeia de pensamentos pudesse ser distorcida a nosso favor, você descobrirá que acabou reforçando em seu paciente o hábito fatal de tocar em questões universais e ignorar o fluxo das percepções sensoriais imediatas. Sua tarefa é a de fixar a atenção dele nesse fluxo. Ensine-o a chamá-lo de “vida real” e não o deixe perguntar-se o que ele quer dizer com “real”.Lembre-se de que ele não é, como você, um espírito puro. Nunca tendo sido humano (ah, que vantagem abominável a do Inimigo!) você não se dá conta do quanto eles são escravos das pressões do cotidiano. Já tive um paciente, um ateu convicto, que costumava ler no Museu Britânico. Certo dia, enquanto lia, vi uma cadeia de pensamento na sua mente começando a tomar o caminho errado. É claro que o Inimigo estava ao lado dele nessa hora. Num piscar de olhos, vi meu trabalho de vinte anos começar a ruir. Se eu tivesse perdido a cabeça e começado a tentar me defender com base na argumentação, talvez tivesse sido derrotado. Mas não fui tão tolo assim. Imediatamente, ataquei a parte do homem que tinha mais sob controle e lhe sugeri que já estava quase na hora do almoço. Posso supor que o Inimigo tenha feito uma contraproposta (você sabia que não é possível entreouvir exatamente o que o Inimigo diz a eles?) de que o assunto era mais importante que o almoço. Pelo menos, penso que essa tenha sido sua linha de argumentação, pois quando eu disse: “Verdade. Realmente, trata-se de um problema importante demais para a hora do almoço”, o rosto do paciente se iluminou consideravelmente, e, no momento em que eu acrescentei: “Seria muito melhor voltar a esse assunto depois do almoço e abordá-lo com uma mente renovada”, ele já estava a meio caminho da porta. Quando alcançou a rua, a batalha havia sido vencida. Eu lhe mostrei um jornaleiro gritando as manchetes do dia, e que o ônibus de número 73 vinha passando, e antes de ele ter subido os primeiros degraus da escada para pegá-lo, eu lhe impingi uma convicção inabalável de que, por mais estranhas que sejam as ideias que possam vir à mente de alguém rodeado de livros, uma dose saudável de “vida real” (com o que ele se referia ao ônibus e ao jornaleiro) foi o suficiente para lhe mostrar que todo “esse tipo de coisa” simplesmente não podia ser verdade. Ele sabia que tinha escapado por pouco e em anos posteriores gostava de falar sobre “aquela percepção inexprimível da realidade que é a nossa última salvaguarda contra as aberrações da mera lógica”. Hoje, ele está seguro na casa do Nosso Pai.
Entende aonde quero chegar? Graças aos processos que colocamos em ação dentro deles há séculos, eles acham de todo impossível acreditar no desconhecido quando o que é familiar está bem diante dos seus olhos. Persista incutindo nele a banalidade das coisas. Acima de tudo, não tente usar a ciência (quero dizer, as ciências verdadeiras) como defesa contra o cristianismo. Elas vão positivamente encorajá-lo a pensar sobre as realidades que ele não pode tocar nem ver. Tem havido perdas tristes entre os físicos modernos. Se ele insistir em meter-se com a ciência,mantenha-o no campo da economia e da sociologia; não o deixe se desviar da inestimável “vida real”. Mas o ideal mesmo seria não deixá-lo ler qualquer obra científica; antes, procure dar-lhe uma sensação geral de que ele sabe tudo e que aquilo que consegue fisgar de conversas e leituras casuais é “resultado de pesquisas mais recentes”. Lembre-se de que você existe para confundi-lo. Da forma como vocês jovens demônios falam, qualquer um pode até achar que a nossa tarefa é ensinar!

Com carinho,
Seu tio, Maldanado

C. S. Lewis, em Cartas de um diabo a seu aprendiz

16/08/2025

Carta de Manuel Bandeira a João Guimarães Rosa

AMIGO MEU, J. Guimarães Rosa, mano-velho, muito saudar!

Me desculpe, mas só agora pude campear tempo para ler o romance de Riobaldo.
Como que pudesse antes? Compromisso daqui, obrigação dacolá… Você sabe: a vida é um Itamarati – viver é muito dificultoso.
Ao despois de depois, andaram dizendo que você tinha inventado uma língua nova e eu não gosto de língua inventada. Sempre arreneguei de esperantos e volapuques.
Vai-se ver, não é língua nova nenhuma a do Riobaldo. Difícil é, às vezes. Quanta palavra do sertão! A princípio, muito aplicadamente, ia procurar a significação no dicionário. Não encontrava. Pena o título: Grande Sertão: Veredas. Nenhum dicionário dá a palavra “vereda” com o significado que você mesmo define à página 74: “Rio é só o São Francisco, o Rio do Chico. O resto pequeno é vereda.” Tinha vezes que pelo contexto eu inteligia: “ciriri dos grilos”, “gugo da juriti” etc. Mas até agora não sei, me ensine, o que é “arga”, “suscenso”, “lugugem” e um desadôro de outras vozes dos gerais. Tinha vezes que eu nem podia atinar se a palavra era nome de bicho vivente, plantinha ou coisa sem corpo nem côr nem coragem, abstrato que se diz, não é? Ou é? Ou será?
Ainda por cima disso, você fez Riobaldo poeta, como Shakespeare fez Macbeth poeta. Natural: por que um jagunço dos gerais demais do Urucuia não poderá ser poeta? Pode sim. Riobaldo é você se você fosse jagunço A sua invenção é essa: pôr o jagunço poeta inventando dentro da linguagem habitual dele. O vocabulário dele já é riquíssimo, dá a impressão que não ficou de fora nenhuma dicção de seus pagos e arredores; aumentado com os neologismos, sempre de boa formação lingüística, ficou um potosi, nossa! A gente acaba tendo que entregar os pontos, nem que seja um Gilberto Amado. O diabo é que depois de ler você a gente começa a se sentir e cantar eu sou pobre, pobre, pobre, rema, rema, rema, ré.
Só que acho que não precisava contar de um rojão só, como o Joyce do último capítulo de Ulysses, as 594 páginas da história de Riobaldo. Quantas horas levaria? Eu levei dias para ler. Ainda bem que você virgulou tudo, minudente. E o caso de Diadorim, seria mesmo possível? Você é dos gerais, você é que sabe. Mas eu tive a minha decepção quando se descobriu que Diadorim era mulher. Honni soit qui mal y pense, eu preferia Diadorim homem até o fim. Como você disfarçou bem! nunca que maldei nada.
Amigo meu J. Guimarães Rosa, mano-velho, o menino Guirigó e o cego Borromeu são duas criações geniais. Aliás todo esse mundo de gente vive com uma intensidade assombrosa. E o sertão?
O sertão é uma espera enorme.
E o silêncio?
O vento é verde. Aí, no intervalo, o senhor pega o silêncio, põe no colo.
Tão deleitável tudo, nem que estar nos braços da linda moça Rosa’uarda, ou de Nhorinhá, de Ana Dazuza filha, ou daquela prostitutriz que proseava gentil sobre as sérias imoralidades.
Ah Rosa, mano-velho, invejo é o que você sabe:
O diabo não há! Existe é o homem humano.
Soscrevo.
13/3/1957

Manuel Bandeira, em Revista Prosa, verso e arte

09/12/2024

[Para Anthony Linick]


22 de abril de 1959

[...] Preciso sair correndo, agora, para pegar o primeiro páreo. Obrigado por atenuar o golpe na minha fraqueza gramatical mencionando que alguns dos seus amigos de faculdade têm problemas para estruturar frases. Acho que alguns escritores sofrem mesmo dessa sina, sobretudo porque no íntimo são rebeldes e as regras gramaticais, como muitas das outras regras de nosso mundo, demandam um arrebanhamento e uma confirmação que o escritor natural abomina por instinto, e, ademais, seu interesse reside no âmbito mais amplo do assunto e do espírito... Hemingway, Sherwood Anderson, Gertrude Stein, Saroyan foram alguns que reformularam as regras, especialmente na pontuação e no fluxo ou na quebra das frases. E, claro, James Joyce foi ainda mais longe. Temos interesse por cor, forma, significado, força... os pigmentos que assinalam a alma. Mas sinto que há uma diferença entre ser um não gramático e ser iletrado, e é aos iletrados e aos despreparados, os tão apressados em publicar com estardalhaço que não vasculharam as eras em busca de um sólido e básico trampolim, que lanço minha censura. E com absoluta certeza a escola da Kenyon Review leva um fio de vantagem sobre nós aqui, embora eles tenham extrapolado tanto que seu fio criativo ficou cego.

Charles Bukowski, em Escrever para não enlouquecer

30/11/2024

[Para Anthony Linick] | 2 de abril de 1959


[...] Enquanto escrevo, devo mencionar que o ensaio do “manifesto” que mandei ontem (acredito) agora está me incomodando. Embora eu não tenha o original por perto, creio ter usado a expressão “leave us be fair”. Isso tem me deixado acordado em meu quente catre solitário (as putas, por agora, andam se deitando com tolos menos comprometidos). Acredito que “let us be fair” é mais correto. Ou não é? Algum gramático na Nomad? Em minha juventude (ó, velozes anos!), recebi um D em Inglês no bom e velho L.A.C.C. por aparecer todas as manhãs às 7:30 de ressaca. Não era tanto a ressaca quanto o fato de que a aula começava às 7:00, quase sempre com uma cornetada capturadora de Gilbert e Sullivan que, tenho certeza, teria me matado. Em Inglês II recebi um A ou B porque a aula era dada por uma professora que me pegava olhando constantemente suas pernas. Tudo isso para dizer que minha compenetração na gramática não foi das mais fervorosas, e, quando escrevo, é pelo amor à palavra, à cor, como jogar tinta numa tela, e, usando bastante ouvido e tendo lido um pouco aqui e ali, geralmente consigo me sair mais ou menos bem, mas em termos técnicos não sei o que está acontecendo, tampouco me importo. Sejamos justos. sejamos justos. sejamos...

Charles Bukowski, em Escrever para não enlouquecer

25/11/2024

[Para Anthony Linick] | 6 de março de 1959

[...] Eu diria que vários dos nossos poetas, os honestos, admitiriam que não têm manifesto algum. É uma confissão dolorosa, mas a arte da poesia traz em si seus próprios poderes, sem ter de desmembrá-los em listagens críticas. Não estou querendo dizer que a poesia deveria ser um palhaço malucão e irresponsável atirando palavras ao vazio. Mas a própria sensação de um bom poema traz em si sua razão de ser. Tenho noção da Neocrítica e da Nova Neocrítica e da escola de pensamento do Violão Azul, da escola inglesa transmitida por Paris Leary, da forte escola imagética de Epos e Flame etc. etc., mas tudo isso são demandas em estilo e modo e método mais do que em conteúdo, embora tenhamos certas restrições aqui também. Mas essencialmente a Arte é sua própria desculpa, e ou é Arte ou é outra coisa. Ou é um poema ou é um pedaço de queijo.

Charles Bukowski, em Escrever para não enlouquecer

18/11/2024

[Aos editores da Nomad] | Setembro de 1958


Fico grato por saber que os senhores gostaram de 4 dos poemas. É um número de atacado, uma injeção de ânimo por um belo tempo vindouro. Ou o campo da poesia está se abrindo, ou eu estou, ou então ambos estamos. De todo modo, isso é legal, e eu preciso me permitir um sentimento legal de vez em quando. […]
Quanto a mim, devo parecer bastante velho para estar me lançando na poesia: fiz 38 neste último 16 de agosto e me sinto, aparento e ajo como um sujeito bem mais velho. Ando trabalhando com poesia nestes últimos dois anos depois de um apagão de mais ou menos 10 anos, infligido por mim mesmo, suponho, um período um tanto infeliz, mas que não deixou de ter seus momentos. Não sou do tipo que lamenta o desperdício desenfreado como perda total – há música em tudo, até mesmo na derrota –, mas ir parar num leito de morte numa ala de hospital meio que me desacelerou, me proporcionou aquela velha pausa para pensar. Eu me vi escrevendo poesia: um estado dos diabos. Eu havia, nos meus primeiros tempos, trabalhado com o conto, ganhando um belo incentivo de Whit Burnett, descobridor de W[illiam] Saroyan e outros e fundador da então famosa revista Story. Whit por fim pegou uma – eu costumava lhe mandar 15 ou 20 histórias por mês, e quando elas voltavam eu as rasgava – lá em 1944, quando eu tinha 24, era doce e fogoso. Emplaquei 3 ou 4 histórias na Matrix e uma num periódico internacional da época chamado Portfolio, e aí joguei mais ou menos tudo pela janela, até uns dois anos atrás, quando comecei a escrever exclusivamente poesia. No primeiro ano ninguém mordeu a isca, e aí fui publicado (e assim voltamos aos dias atuais) por Quixote, Harlequin, Existaria, The Naked Ear, The Beloit Poetry Journal, Hearse, Approach, The Compass Review e Quicksilver. Tive trabalhos aceitos para futura publicação em Insert, Quixote, Semina, Olivant, Experiment, Hearse, Views, The Coercion Review, Coastlines, Gallows e The San Francisco Review. A Hearse vai lançar um livreto de poemas meus Flower, Fist and Bestial Wail no início do ano que vem... Frequentei o L.A. City College quando era garoto e cursei uma aula de jornalismo, mas o mais perto que já cheguei de um jornal é a cada 2 ou 3 dias, quando folheio algum com um interesse bem mirrado. Voltei à escola noturna lá cerca de um ano atrás e cursei algumas aulas de arte, comercial e outras, mas aí, de novo, eles se moviam devagar demais para mim e queriam obediência demais. Não tenho nenhum talento ou ofício definido, e como consigo ficar vivo é em grande medida uma questão de mágica. É mais ou menos isso – vocês podem tirar daqui as poucas linhas das quais precisam.

Charles Bukowski, em Escrever para não enlouquecer

11/11/2024

[Para Carol Ely Harper] | 13 de novembro de 1956




Os poemas que a senhora mencionou ainda estão disponíveis – não tenho carbonos, por isso não me lembro dos poemas completamente, mas me causa particular satisfação que a senhora tenha aceitado “A Note to Carl Sandburg”*. Esse é um poema que escrevi sobretudo para mim mesmo, pensando que ninguém jamais teria coragem de publicá-lo.
Tenho 36 anos de idade (16-8-20) e fui publicado pela primeira vez (um conto) na revista Story, de Whit Burnett, lá em 1944. Depois alguns contos e poemas em 3 ou 4 edições da Matrix por volta da mesma época, e um conto na Portfolio. Como a senhora sabe, essas revistas já faleceram. Ah sim, também um conto e um par de poemas em algo chamado Write, que saiu uma ou duas vezes e aí desistiu. Depois, por 7 ou 8 anos, escrevi pouco, muito pouco. Foi uma bebedeira e tanto. Fui parar na ala de caridade do hospital com buracos na barriga, esguichando sangue que nem uma cachoeira. Tomei uma transfusão de 3 litros – e sobrevivi. Não sou o mesmo homem de antes, mas estou escrevendo de novo.
Recebi um bilhete ontem da Espanha, da sra. Hills, informando-me que um de meus poemas foi aceito para a Quixote. E deverei ter alguns contos e poemas aparecendo na próxima edição da Harlequin, uma nova revista que lançou seu primeiro número no Texas e agora se mudou para L.A. Eles me convidaram para ingressar na equipe editorial, coisa que eu fiz. E é uma experiência e tanto; e o que aprendi foi isto: que existem tantos, tantos escritores escrevendo que não sabem escrever em absoluto, e eles continuam escrevendo na boa todos os clichês e temas batidos, e enredos de 1890, e poemas sobre Primavera e poemas sobre Amor, e poemas que eles acham que são modernos porque são compostos em gíria ou estilo staccato, ou escritos com os “is” pequenos, ou, ou, ou!!!... Veja bem, não posso ingressar no Experiment Group, mas é uma honra para mim que a senhora tenha me convidado a entrar. Simplesmente – como a senhora deve saber, devido ao seu próprio colapso nervoso – não há tempo suficiente – eu tenho meu trivial e cansativo emprego de 44 horas por semana e salário baixo, e frequento escola noturna 4 noites por semana, duas horas por noite, mais uma ou duas horas adicionais de dever de casa. Estou cursando Arte Comercial pelos próximos dois anos, se eu persistir (esse é o esquema da escola noturna), e além disso acabei de começar meu primeiro romance, A Place to Sleep the Night. Estou sendo muito prolixo em lhe contar tudo isso, então se eu não lhe mandar algumas peças de um minuto a senhora saberá por quê. De qualquer maneira, se eu bem me conheço, a senhora vai receber tentativas minhas. Não creio, porém, que a forma teatral mexa comigo como deveria. Veremos.

Nota:
*O poema “A Note to Carl Sandburg” jamais foi publicado; A Place to Sleep the Nightfoi abandonado depois que a Doubleday rejeitou alguns capítulos.

Charles Baudelaire, em Escrever para não enlouquecer