Meu querido Vermelindo,
Fiquei satisfeito de saber que a idade
e a profissão de seu paciente tornam possível, embora não
garantam, que ele seja convocado para o serviço militar. Gostaríamos
que ele ficasse num completo estado de incerteza, de modo que a sua
mente fique cheia de imagens contraditórias do futuro, sendo que
cada uma delas desperte nele esperança ou medo. Não há nada mais
eficaz que o suspense e a ansiedade para bloquear a mente humana
contra o Inimigo. Ele quer que os homens fiquem preocupados com o que
fazem; nosso negócio é fazer com que fiquem constantemente pensando
sobre o que vai acontecer com eles.
É claro que o seu paciente já terá
se convencido de que precisa se submeter com paciência à vontade do
Inimigo. O que o Inimigo quer dizer com isso é essencialmente que
ele deve aceitar com paciência a tribulação que lhe sobreveio —
a ansiedade e o suspense atuais. É sobre isso que ele deve dizer:
“Seja feita a tua vontade” e, pela tarefa diária de suportar
isso que o pão de cada dia será providenciado. O seu negócio é
garantir que o paciente nunca pense no medo presente como a cruz que
lhe foi designada, mas apenas nas coisas que o deixam temeroso.
Deixe-o considerá-las como sendo as suas cruzes: não o deixe pensar
que, já que são incompatíveis, elas não podem todas acontecer com
ele, e faça-o praticar a coragem e a paciência em relação a elas,
mesmo antes de acontecerem. Porque uma resignação real, ao mesmo
tempo, para com uma dúzia de situações diferentes e hipotéticas,
é quase impossível, sendo que o Inimigo não ajuda muito aqueles
que tentam ficar nesse estado de conformação. A resignação ao
sofrimento presente e real, mesmo quando esse sofrimento consiste
basicamente no medo, é mais cômoda e geralmente é auxiliada por
essa ação direta.
Há uma lei espiritual importante
envolvida aqui. Expliquei que você pode enfraquecer as orações do
seu paciente desviando a atenção dele do Inimigo em si, para
atentar sobre os seus próprios estados mentais em relação a ele.
Por outro lado, o medo se torna mais fácil de dominar quando a mente
do paciente é desviada da coisa temida para o medo em si,
considerado um estado presente e indesejável de sua própria mente —
e quando ele se refere ao medo como a cruz que lhe foi designada,
passa inevitavelmente a pensar nisso como um estado de espírito. Por
isso, é possível formular a seguinte regra geral: em todas as
atividades mentais que favorecem a nossa causa, encoraje o paciente a
não atentar para si mesmo, e sim a concentrar-se no objeto; mas, no
caso daquelas atividades que favorecem o Inimigo, leve-o a
concentrar-se só em si. Faça com que um insulto ou o corpo de uma
mulher prendam tanto a atenção dele no objeto, que ele não chegue
a pensar algo como: “estou entrando agora em um estado chamado
Raiva — ou no estado chamado Luxúria”. Em contrapartida, faça-o
refletir em termos como: “agora, meus sentimentos estão se
tornando mais puros, ou mais generosos”, e, então, fixe a sua
atenção dentro dele mesmo para que não consiga mais olhar para
além de si a ponto de enxergar nosso Inimigo ou seu próximo.
Com relação à atitude mais genérica
dele em relação à guerra, você não deve confiar demais naqueles
sentimentos de ódio que os humanos estão muito interessados em
discutir nos periódicos cristãos ou anticristãos. Em sua angústia,
o paciente pode, é claro, sentir-se encorajado a retaliar por meio
de alguns sentimentos vingativos direcionados aos líderes
germânicos, e isso, até certo ponto, é bom. Mas se trata
normalmente de um tipo de ódio melodramático ou mítico direcionado
a bodes expiatórios imaginários. Ele nunca topou com tais pessoas
na vida real — elas são figuras leigas, moldadas a partir do que
ele extrai dos jornais. Os resultados desses ódios fantasiosos são
muitas vezes os mais decepcionantes e, dentre todos os seres humanos,
os ingleses são, com respeito a isso, os mais deploráveis fracotes.
São criaturas daquele tipo miserável que proclamam em alta voz que
a tortura seria pouco para os seus inimigos, mas logo em seguida
oferecem chá e cigarros ao primeiro piloto alemão ferido que
aparece na porta dos fundos.
Faça você o que fizer, sempre haverá
alguma benevolência, bem como alguma malícia na alma do seu
paciente. O negócio é direcionar a malícia para os seus vizinhos,
com quem ele topa todos os dias, e transferir sua benevolência a
circunstâncias remotas, dirigindo-a a pessoas que ele não conhece.
Assim, a malícia se torna totalmente real e a benevolência, em
grande parte, imaginária. Não há nenhuma vantagem em inflamar o
seu ódio contra os alemães se, ao mesmo tempo, um hábito
pernicioso de caridade estiver tomando forma entre ele e sua mãe,
seu chefe e o homem com quem ele topa no trem. Pense no seu homem
como uma série de círculos concêntricos, sendo que a sua vontade é
o mais interno, o seu intelecto vem logo depois e, finalmente, sua
fantasia. Não é de se esperar que se possa excluir imediatamente de
todos os círculos tudo que cheira ao Inimigo, mas você deve
continuar a transferir todas as virtudes para círculos externos até
que eles finalmente estejam no círculo da fantasia, e todas as
qualidades desejáveis para dentro da Vontade. Somente quando
alcançam a Vontade e são ali incorporadas em hábitos é que as
virtudes se tornam realmente fatais para nós. (É claro que não
estou me referindo ao que o paciente toma erroneamente por sua
Vontade, aquela fúria de resoluções e de dentes cerrados, e sim ao
centro real, aquilo que o Inimigo chama de Coração.) Todos os tipos
de virtudes pintadas na fantasia, aprovadas pelo intelecto ou, em
certa medida, amadas e admiradas, afastarão uma pessoa da casa de
Nosso Pai: na verdade, elas poderão torná-lo mais divertido quando
chegar lá.
Com carinho,
Seu tio, Maldanado
C. S. Lewis, em Cartas de um diabo a seu aprendiz

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