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18/01/2024

Grandes esperanças | 3


Era uma manhã de geada, muito úmida. Eu vira a umidade do lado de fora de minha janelinha, como se um duende tivesse ficado ali a noite inteira a chorar, usando a janela à guisa de lenço. Agora eu a via nas sebes desfolhadas e na grama rala, formando como que teias de aranha de uma espécie mais grosseira, pendendo de graveto a graveto e de folha a folha. Em cada grade e portão a umidade formava uma camada grudenta; e a névoa do charco era tão espessa que a placa de madeira do poste que indicava a direção da nossa aldeia — uma direção que ninguém tomava, pois ninguém jamais ia lá — só se tornou visível para mim quando fiquei bem embaixo dela. Então, quando levantei a vista para a placa, que pingava, ela tomou forma na minha consciência oprimida como um espectro que me sentenciava às presigangas.
A névoa ficou mais pesada ainda quando penetrei o charco, de modo que, em vez de eu correr em direção às coisas, tudo parecia correr em minha direção. Essa sensação era muito desagradável para um espírito cheio de culpa. As porteiras e diques e barrancos surgiam-me de repente em meio à névoa, como se gritassem de modo perfeitamente claro: “Um menino com um pastelão de porco que não é dele! Peguem esse menino!”. Os bois também surgiam diante de mim subitamente, olhando-me com seus olhos fixos, vapor saindo de suas narinas: “Ora essa, um ladrãozinho!”. Um boi preto, com uma gravata branca — o qual parecia à minha consciência despertada ter um ar clerical — fixou-me os olhos de modo tão obstinado, e girava a cabeçorra de maneira tão acusadora, que choraminguei para ele: “Não foi por querer, senhor! Não foi para mim que eu peguei!”. Quando então o animal baixou a cabeça, exalou uma nuvem de fumaça pelo nariz e desapareceu, com um coice e um floreio da cauda.
Enquanto isso, eu me aproximava do rio; mas por mais depressa que caminhasse, não conseguia aquecer os pés, aos quais o frio úmido parecia estar pregado, tal como o ferro estava preso à perna do homem com quem eu ia me encontrar. Eu conhecia bem o caminho da bateria, pois já estivera lá uma vez, num domingo, com Joe, o qual, sentado num canhão velho, me dissera que quando eu fosse seu aprendiz,1 com contrato e tudo, nós haveríamos de fazer grandes patuscadas ali! Porém, na confusão da névoa, terminei me dando conta de que me desviara demais para a direita, e por isso tive que tentar voltar seguindo o rio, pela margem de pedras soltas acima da lama e estacas que traçavam o limite da maré. Caminhando com toda a pressa, tinha eu acabado de atravessar uma vala que sabia ser bem próxima à bateria, e subira o montículo do outro lado dela, quando vi o homem sentado à minha frente. Estava de costas para mim, de braços cruzados, a cabeça caída para a frente, pesada de sono.
Julguei que o homem ficaria mais satisfeito se eu me aproximasse dele, com seu desjejum, de modo inesperado; assim fui chegando pé ante pé e toquei-o no ombro. No mesmo instante ele levantou-se de um salto, e não era o mesmo homem, e sim outro!
E, no entanto, ele estava com a mesma roupa de pano cinzento grosseiro, e também tinha um ferro grande na perna, e estava manco, e rouco, e transido de frio, e era sob todos os aspectos igual ao outro homem; só que não tinha o mesmo rosto, e usava um chapéu de feltro chato, de aba larga e copa baixa. Tudo isso vi num momento, pois tive apenas um momento para ver: ele xingou-me, tentou golpear-me — um golpe fraco e confuso que não me atingiu e teve o efeito de fazê-lo tropeçar e quase cair — e depois saiu correndo pela névoa adentro, tropeçando duas vezes no caminho, até que o perdi de vista.
É o rapaz!”, pensei, sentindo meu coração disparar ao identificá-lo. Creio que teria sentido uma dor no fígado também, se soubesse onde ele ficava.
Logo cheguei à bateria, e lá estava o homem certo — abraçando o próprio corpo e mancando de um lado para o outro, como se tivesse passado a noite inteira a abraçar-se e mancar sem interrupção — à minha espera. Ele estava mesmo com muito frio. Eu meio que esperava que a qualquer momento ele caísse duro diante de meus olhos, morto de frio. Havia também tanta fome em seu olhar que, quando lhe entreguei a lima e ele a depôs na grama, ocorreu-me que teria tentado comê-la se não tivesse visto minha trouxa. Não me virou de cabeça para baixo, dessa vez, para pegar o que eu tivesse, porém me deixou na posição normal enquanto eu abria a trouxa e esvaziava os bolsos.
O que tem nessa garrafa, menino?”, ele perguntou.
Brande”, respondi.
Ele já estava enfiando o recheio de torta goela abaixo de um modo muito curioso — mais parecia um homem que estivesse guardando a comida em algum lugar com muitíssima pressa do que alguém comendo — porém interrompeu o processo para tomar um gole de bebida. Enquanto isso, estremecia de modo tão violento que era com dificuldade que conseguia manter o gargalo entre os dentes sem trincá-lo.
Acho que o senhor está com sezão”, disse eu.
Sou mais ou menos da tua opinião, menino”, disse ele.
Aqui é muito ruim”, prossegui. “O senhor tem dormido no chaco, e isso sempre dá sezão. E reumatismo também.”
Vou fazer meu desjejum antes que eles me pegue pra me matar”, disse ele. “Eu havia de comer mesmo que eles me fosse pendurar naquela forca acolá, logo adespois. Duvido que a sezão me derrube, sou capaz de apostar.”
Ele devorava recheio de torta, osso, pão, queijo e pastelão de porco, tudo ao mesmo tempo: olhando desconfiado, enquanto comia, para a névoa que nos cercava, e a toda hora parando — parando até de mastigar — para escutar. Algum som ouvido ou imaginado, algum estalido no rio ou respiração de animal no charco, assustou-o, e ele disse de repente:
Tu não és um diabrete traiçoeiro? Não trouxeste ninguém junto contigo?”
Não, senhor! Ninguém!”
Nem mandaste ninguém não vir atrás?”
Não!”
Bom”, disse ele, “acredito em ti. Só mesmo sendo um filhote de cão feroz pra, pequeno como és, ajudar a caçar um rato desgraçado, já quase morto e jogado no lixo, como esse pobre rato desgraçado de mim!”
Alguma coisa estalou em sua garganta, como se ele tivesse dentro dele um mecanismo como o de um relógio, que estivesse prestes a dar a hora. E ele passou a manga rude e rasgada nos olhos.
Apiedando-me de seu desamparo, e vendo-o atacar aos poucos o pastelão, criei coragem de dizer: “Que bom que o senhor gostou”.
Falaste?”
Eu disse que bom que o senhor gostou.”
Obrigado, meu menino. Gostei, sim.”
Muitas vezes eu vira um cão grande que tínhamos devorando seu alimento; e me dei conta então de que havia uma semelhança nítida entre a maneira de comer do cachorro e a dele. O homem dava mordidas fortes, intensas, súbitas, tal como o animal. Ele engolia, ou melhor, abocanhava, cada bocado, cedo demais e rápido demais; e olhava para os lados, para lá e para cá, enquanto comia, como se acreditasse haver o perigo, em todas as direções, de que alguém viesse lhe tomar o pastelão. De tal modo o perturbava essa possibilidade que ele não aproveitava direito a comida, pensei, nem suportaria ter algum comensal a seu lado sem ficar trincando os dentes para ele. Sob todos esses aspectos ele muito se assemelhava ao cão.
Acho que o senhor não vai deixar nada pra ele”, comentei, tímido; após um silêncio durante o qual hesitei, não sabendo se minha observação seria educada. “Lá de onde veio essa comida tem mais.” Foi a certeza desse fato que me levou a fazer a insinuação.
Deixar nada pra quem? Ele quem?”, disse meu amigo, parando de mastigar um pedaço de pastelão.
O rapaz. De quem o senhor falou. Que estava escondido com o senhor.”
Ah, ah!”, ele retrucou, com uma espécie de riso áspero. “Ele? Sei, sei! Ele não quer saber de comida.”
Ele me deu a impressão de que queria, sim”, disse eu.
O homem parou de comer, e me encarou com uma atenção intensa e uma enorme surpresa.
Ele? Quando?”
Logo agora.”
Adonde?”
Ali”, respondi, apontando, “onde ele estava cochilando, e pensei que fosse o senhor.”
O homem agarrou-me pelo colarinho e olhou-me de tal modo que comecei a achar que ele voltara a pensar na ideia de cortar-me a garganta.
Vestido tal como o senhor, sabe, só que com chapéu”, expliquei, trêmulo, “e… e…” — eu queria dizê-lo do modo mais delicado — “e com… a mesma razão pra querer uma lima emprestada. O senhor não ouviu o canhão ontem à noite?”
Então deram tiro mesmo!”, disse ele a si próprio.
Não entendo como o senhor pode ter dúvida”, retruquei, “pois nós ouvimos lá em casa, que é mais longe, e ainda por cima estávamos com as janelas fechadas.”
Ora, vê lá”, explicou ele, “quem está sozinho nesse descampado, com a cabeça tonta e a barriga vazia, morrendo de frio e fome, não faz outra coisa a noite toda que não ouvir tiro de canhão e gente gritando. Ouvir? Ele vê os sordado, de túnica vermelha iluminada pelos archote, vindo cercar o lugar onde ele está. Ouve chamar o número dele, ouvi gente provocando, ouve o barulho dos mosquete, ouve as ordem de ‘Preparar! Apontar! Bala nele, sordado!’, sente as mão agarrando — e não tem nada! Ora, essa noite mesmo eu vi um esquadrão de busca — vindo tudo em ordem, os desgraçado, marchando, marchando — vi bem uns cem. E os tiro! Ora, eu vi a bruma tremer com os tiro de canhão, adespois que já tinha clareado. — Mas esse homem” — ele falara até então como se tivesse esquecido a minha presença — “reparaste alguma coisa nele?”
O rosto dele estava muito machucado”, disse eu, relembrando algo que eu mal sabia que sabia.
Não aqui?”, exclamou o homem, batendo na face esquerda de modo impiedoso, com a mão aberta.
Isso, aí mesmo!”
Que é dele?” Enfiou o pouco de comida que restava no peito do casaco cinzento. “Mostra pra que lado que ele foi. Eu mato ele feito um cachorro. O diabo leve esse ferro na minha perna machucada! Me dá a lima, menino.”
Apontei a direção onde a névoa havia ocultado o outro homem, e ele levantou a vista por um instante. Mas logo se escarrapachou na grama crescida e úmida, atacando o ferro com a lima como um louco, sem ligar para mim nem para sua própria perna, onde havia uma escoriação antiga e também sangue, mas que ele manipulava com brutalidade, como se ela fosse tão insensível quanto a lima. Ele voltara a me fazer muito medo, agora que estava possuído por aquela pressa feroz, e além disso eu tinha muito medo de prolongar aquela minha saída por mais tempo. Disse-lhe que tinha de ir embora, mas ele sequer percebeu, e assim julguei que o melhor a fazer era escapulir. Quando vi o homem pela última vez, ele estava debruçado sobre o joelho e limando com força o grilhão, murmurando imprecações impacientes dirigidas ao ferro e à perna. Quando ouvi o homem pela última vez, ao parar na névoa e aguçar os ouvidos, a lima continuava em ação.

Charles Dickens, in Grandes esperanças

06/01/2024

Grandes esperanças | 2


Minha irmã, a sra. Joe Gargery, era mais de vinte anos mais velha que eu, e granjeara grande reputação junto a si própria e à vizinhança por ter me criado “com a mão”. Sendo, na época, obrigado a descobrir por conta própria o significado da expressão, e sabendo que sua mão era dura e pesada, e que ela tinha o hábito de usá-la com frequência contra o marido e contra mim, concluí que tanto eu quanto Joe Gargery tínhamos sido criados com a mão.
Não era uma mulher bonita, a minha irmã; e tinha eu a impressão geral de que ela havia obrigado Joe Gargery a casar-se com ela com a mão. Joe era um homem claro, com cachos de cabelo cor de palha dos dois lados do rosto liso, e olhos de um azul tão indeciso que pareciam de algum modo misturar-se com os brancos à sua volta. Era um homem tranquilo, bondoso, bem-humorado, de fácil trato, simplório e amável — uma espécie de Hércules em força, e também na fraqueza.
Minha irmã, a sra. Joe, de cabelos e olhos negros, tinha uma pele tão vermelha que por vezes eu ficava a imaginar se era possível que ela se lavasse com um ralador de noz-moscada em vez de sabão. Era alta e ossuda, e quase sempre usava um avental grosseiro, amarrado a sua pessoa com dois laços atrás, e tendo um peitilho quadrado inexpugnável à frente, cheio de agulhas e alfinetes cravados. Parecia-lhe um grande mérito seu, e uma grave acusação contra Joe, o fato de que ela usava tanto esse avental. Se bem que não consigo entender por que motivo ela o usava: ou por que, se o usava, não poderia tirá-lo, todos os dias de sua vida.
A ferraria de Joe ficava ao lado de nossa casa, que era de madeira, como eram muitas das casas de nossa região — a maioria delas, na época. Quando cheguei correndo do campo-santo, a ferraria estava fechada, e encontrei Joe a sós na cozinha. Sendo eu e Joe companheiros de infortúnio, trocávamos confidências, e ele me fez uma confidência tão logo levantei a tranca da porta e pela fresta olhei para ele, sentado no canto da chaminé.
A senhora Joe já saiu umas doze vezes, à tua procura, Pip. E está lá fora outra vez, completando uma dúzia de frade.”
É mesmo?”
É, sim, Pip”, disse Joe, “e o pior é que ela levou o pau-de-cosca.”
Diante dessa terrível informação, fiquei a torcer o único botão de meu colete, olhando com muito desânimo para o fogo. O pau-de-cócega era um pedaço de bengala com cera na ponta, já liso de tanto me fazer cócegas no couro.
Ela sentou”, disse Joe, “e levantou, e garrou no pau-de-cosca, e saiu espumando. Foi o que ela fez”, disse Joe, lentamente abrindo espaço para o fogo entre as barras inferiores com o atiçador, e olhando para ele: “Saiu espumando, Pip.”
Ela já saiu há muito tempo, Joe?” Eu sempre o tratava como uma espécie maior de criança, e como um igual.
Bom”, ele respondeu, olhando de relance para o relógio alemão, “ela saiu espumando, da última vez, há coisa de cinco minuto, Pip. Lá vem ela! Te esconde atrás da porta, meu velho, e fica atrás da toalha rolante.”
Segui seu conselho. Minha irmã, a sra. Joe, escancarando a porta, e encontrando um obstáculo atrás dela, de imediato adivinhou a causa, e valeu-se do pau-de-cócega para investigar. Terminou jogando-me — eu amiúde lhe servia de projétil conubial — em cima de Joe, o qual, satisfeito por se apoderar de mim, mesmo dessa maneira, me pôs dentro da chaminé e discretamente protegeu-me com sua perna enorme.
Adonde que te enfiaste, macaquinho?”, disse a sra. Joe, batendo com o pé no chão. “Me diz logo o que andaste fazendo pra me matar de preocupação e aflição, senão eu te tiro desse canto, mesmo que fosses cinquenta Pips, e houvesse quinhentos Gargerys na frente.”
Fui só lá no campo-santo”, respondi, de meu banquinho, chorando e me esfregando.
Campo-santo!”, repetiu minha irmã. “Se não fosse eu, já tinhas ido parar no campo-santo há muito tempo, e de lá não saías. Quem que te criou com a mão?”
A senhora”, respondi.
E por que foi que eu fiz isso, me diz, hein?”, exclamou minha irmã.
Choraminguei: “Não sei”.
Eu é que não sei!”, retrucou minha irmã. “Nunca que eu fazia isso de novo! Isso eu sei. Com toda certeza, nunca que tirei esse meu avental desde que nasceste. Como se não bastasse ser mulher de ferreiro (e de um Gargery inda por cima), inda fui ser tua mãe.”
Meus pensamentos se desviaram dessa questão enquanto meus olhos desconsolados contemplavam o fogo. Pois o fugitivo lá no charco, com o ferro na perna, o rapaz misterioso, a lima, a comida e o horrível juramento que eu fizera, comprometendo-me a cometer um furto contra o lar que me servia de abrigo, surgiam diante de mim nas brasas vingativas.
Ah!”, exclamou a sra. Joe, recolocando o pau-de-cócega em seu devido lugar. “Campo-santo, ora, essa é boa! Vocês dois falando de campo-santo.” Um de nós, aliás, não havia tocado no assunto. “Vocês dois, um dia desses, ainda vão me fazer parar no campo-santo, e quero só ver o que será dessa bela dupla sem mim!”
Enquanto ela cuidava dos apetrechos do chá, Joe olhou de esguelha para mim por cima da perna, como se estivesse mentalmente nos somando os dois, eu e ele, e calculando que dupla haveríamos de fazer, nas lamentáveis circunstâncias antevistas. Em seguida, ficou a cofiar os cachos e as suíças cor de palha do lado direito, e acompanhando a sra. Joe com os olhos azuis, como sempre fazia em momentos de tempestade.
Minha irmã tinha um modo vigoroso de cortar pão com manteiga para nós, que nunca variava. Primeiro, com a mão esquerda apertava o pão com força contra o peitilho — onde por vezes nele se cravava um alfinete, e por vezes uma agulha, que depois terminava em nossas bocas. Depois pegava um pouco de manteiga (não muita) com a faca e espalhava-a no pão, como um boticário preparando um emplastro — usando os dois lados da faca com uma destreza abrupta, aparando e aplainando a manteiga em torno da côdea. Então dava um último golpe preciso com a faca na beira do emplastro, e em seguida cortava um pedaço bem grosso do pão: o qual, por fim, antes de separá-lo do resto do pão, ela serrava ao meio, dando a Joe uma das metades e a mim a outra.
Na ocasião em questão, embora estivesse com fome, não ousei comer minha fatia. Julgava eu que era necessário guardar alguma coisa para meu terrível conhecido e seu aliado mais terrível ainda, o rapaz. Eu sabia que a sra. Joe era muito minuciosa quanto aos gastos da família, e que se eu explorasse o cofre talvez não encontrasse nada. Por isso resolvi enfiar minha fatia de pão com manteiga na perna de minha calça.
O esforço de determinação necessário para atingir esse objetivo foi, conforme verifiquei, terrível. Era como se eu tivesse de me obrigar a saltar do telhado de uma casa alta, ou mergulhar em águas muito profundas. E tudo se tornava mais difícil por não estar Joe a par do que acontecera. Na nossa maçonaria de companheiros de infortúnio, já mencionada, e numa atitude de camaradagem simpática, tínhamos o hábito de comparar, todas as noites, a maneira como mordíamos nossas fatias, exibindo-as em silêncio para a admiração mútua, de vez em quando, o que nos incentivava a empreender novos esforços. Naquela noite, Joe várias vezes me convidou, exibindo sua fatia cada vez menor, a participar de nossa costumeira competição amistosa; porém a cada vez ele deparava com minha caneca amarela de chá num dos joelhos e minha fatia intacta de pão com manteiga no outro. Por fim, concluí em desespero que era preciso fazer o que havia de ser feito, e que devia fazê-lo da maneira menos improvável compatível com as circunstâncias. Aproveitei-me de um momento em que Joe tinha acabado de olhar para mim e enfiei o pão na perna da calça.
Joe, sem dúvida, estava preocupado com o que julgou ser minha perda de apetite, e deu em sua fatia uma mordida que pareceu não lhe dar prazer. Revirou o bocado na boca por muito mais tempo do que era seu costume, pensando profundamente, e no fim engoliu-o como se fosse uma pílula. Ia dar mais uma mordida, e já havia posicionado a cabeça em um dos lados do pão para abocanhá-lo com jeito, quando olhou para mim e percebeu que minha fatia havia desaparecido.
O espanto e a consternação com que Joe se deteve no instante antes de morder e ficou a olhar para mim eram evidentes demais para que minha irmã não os observasse.
O que foi, agora?”, indagou ela, vigorosa, pondo a xícara na mesa.
Ora, o que é isso!”, murmurou Joe, sacudindo a cabeça para mim numa repreensão muito séria. “Pip, meu velho! Isso vai te fazer mal. Há de ficar entalado em algum lugar. Não é possível que tenhas mastigado, Pip.”
O que foi, agora?”, repetiu minha irmã, com mais vigor ainda que antes.
Se conseguires botar para fora, Pip, recomendo-te que o faças”, disse Joe, assustado. “Boas maneiras é importante, mas saúde é saúde.”
A essa altura, minha irmã estava desesperada, e assim avançou sobre Joe e, pegando-o pelas duas suíças, bateu-lhe a cabeça por algum tempo contra a parede atrás dele; enquanto isso, no meu canto, eu assistia à cena, cheio de culpa.
Agora, quem sabe, vais me dizer o que houve”, falou minha irmã, ofegante, “estafermo de uma figa.”
Joe olhou-a, impotente; depois deu uma mordida impotente, e voltou a olhar para mim.
Sabes, Pip”, disse Joe, muito sério, com a última bocada na bochecha, e falando num tom confidencial, como se nós dois estivéssemos a sós, “somos sempre amigos, tu e eu, e eu seria a última pessoa a te delatar, em qualquer ocasião. Mas…” — ele mudou de posição a cadeira e olhou para o trecho de chão entre nós dois, e depois voltou a olhar para mim — “… engolir tudo assim sem mastigar!”
Então ele anda engolindo a comida sem mastigar, é?”, exclamou minha irmã.
Tu sabes, meu velho”, disse Joe, olhando para mim, e não para a sra. Joe, com o bocado ainda na bochecha, “eu também fazia isso, quando tinha a tua idade — fazia muito — e quando menino conheci muitos que fazia a mesma coisa; mas nunca vi nada igual ao que fizeste, Pip, e não sei como não morreste entalado.”
Minha irmã saltou sobre mim e me fisgou pelos cabelos, dizendo apenas as palavras terríveis: “Vem tomar o remédio”.
Algum médico sem alma havia restituído o prestígio medicinal da água alcatroada, e a sra. Joe sempre tinha uma provisão da substância em seu armário, pois acreditava que suas virtudes eram tão grandes quanto era horrendo seu gosto. Na melhor das hipóteses, fazia-me ingerir uma quantidade tamanha desse elixir, tido como tônico excelente, que depois eu percebia que estava exalando um cheiro de cerca recém-erigida. Na noite em questão, a urgência de meu caso exigia meio litro dessa mistura, que foi despejada em minha goela, para meu maior conforto, enquanto a sra. Joe segurava minha cabeça debaixo do braço, como quem prende uma bota numa descalçadeira. Joe se safou com apenas um quarto de litro; porém foi obrigado a tomar a mistura (muito a contragosto, lentamente a mastigar e meditar diante da lareira), “porque ele estava com um achaque”. Do meu ponto de vista, eu diria que sem dúvida ele teve um achaque depois, ainda que nada tivesse antes.
A consciência é uma coisa terrível quando ela acusa um homem ou um menino; mas quando, no caso de um menino, esse ônus secreto coopera com outro ônus secreto enfiado na perna de suas calças, o resultado (como posso testemunhar) é um tremendo castigo. O pensamento culposo de que eu iria roubar a sra. Joe — jamais pensei que ia roubar Joe, pois nunca encarei os objetos da casa como propriedade dele — associado à necessidade de manter sempre uma das mãos no pão com manteiga, estando eu sentado ou realizando alguma tarefa na cozinha, quase me enlouqueceu. Então, quando os ventos que vinham do charco atiçaram o fogo, imaginei que ouvia a voz lá fora, a voz do homem com ferro na perna, que me obrigara a jurar manter segredo, afirmando que ele não podia e não queria morrer de fome esperando até amanhã, porém precisava da comida agora. Em outros momentos, eu pensava: e se o rapaz, que com tanta dificuldade ele impedia de sujar as mãos com o meu sangue, cedesse a sua impaciência constitucional, ou se enganasse a respeito do combinado e julgasse ter direito a meu coração e meu fígado naquela noite, e não no dia seguinte? Se alguma vez alguém ficou com o cabelo em pé de terror, certamente terei sido eu. Mas talvez isso jamais tenha acontecido com ninguém.
Era noite de Natal, e eu tinha que ficar a mexer o pudim para o dia seguinte no tacho de cobre, das sete às oito pelo relógio alemão. Tentei mexer com o tacho em cima da perna (o que me fez pensar outra vez no homem com o ferro na perna) e verifiquei que era impossível fazê-lo com o pão com manteiga querendo a toda hora escapulir pela boca da calça. Felizmente, consegui sair de fininho e guardar esse pedaço de minha consciência na água-furtada que me servia de quarto.
Que foi isso?”, exclamei, quando, tendo terminado de mexer o pudim, estava a me aquecer no canto da chaminé antes de ser mandado para a cama. “Foi tiro de canhão, Joe?”
Ah!”, disse Joe. “Mais um forçado que se escafedeu.”
O que quer dizer isso, Joe?”, perguntei.
A sra. Joe, que sempre assumia as explicações, disse, irritada: “Fugiu. Fugiu”. Administrando a definição como se fosse água alcatroada.
Estando a sra. Joe debruçada sobre sua costura, formei as palavras com a boca em silêncio olhando para Joe: “O que é forçado?”, Joe formou com a boca as palavras de uma resposta tão complicada que a única coisa que entendi foi: “Pip”.
Ontem um forçado escapou”, disse ele em voz alta, “depois do tiro do pôr do sol. E deram outro tiro pra anunciar a fuga dele. E agora, parece que estão anunciando mais outra.”
Quem é que está atirando?”, perguntei.
Diabo de menino”, interveio minha irmã, fechando a cara para mim sem interromper o trabalho, “não para de fazer pergunta. Não faças perguntas que não lhe dirão mentiras.”
Ela não estava sendo muito delicada consigo própria, pensei, dando a entender que mentiria para mim se eu lhe fizesse perguntas. Mas ela nunca era delicada, a menos que estivesse em presença de visitas.
A essa altura, Joe em muito aumentou minha curiosidade dando-se o trabalho de escancarar a boca ao máximo, e formar uma palavra que me pareceu ser “esgana”. Naturalmente, apontei para a sra. Joe, e formei a palavra “ela?”. Mas Joe sacudiu a cabeça com veemência, e mais uma vez escancarou a boca, formando com ela uma palavra muito enfática. Mas não consegui entender que palavra seria.
Senhora Joe”, arrisquei, como último recurso, “eu queria saber — se a senhora não se incomodar — de onde vêm esses tiros?”
Deus abençoe esse menino!”, exclamou minha irmã, num tom que parecia exprimir o sentimento contrário. “Das presigangas.”
Ah!”, disse eu, olhando para Joe. “As presigangas!”
Joe repreendeu-me com uma tosse cujo sentido era: “Eu não te disse?”
E, por favor, o que é presiganga?”
Com esse menino é sempre assim!”, exclamou minha irmã, apontando para mim com a agulha e a linha, e sacudindo a cabeça. “A gente responde uma pergunta, e ele faz mais uma dúzia na mesma hora. As presigangas são navios-prisões, do outro lado do chaco.” Era esse o nome que sempre dávamos ao charco, na nossa região.
Quem será que mandam pra esses navios-prisões, e por que será que fazem isso?”, perguntei eu, uma pergunta de caráter geral, com um desespero contido.
Foi demais para a sra. Joe, que imediatamente se levantou. “Eu vou te dizer uma coisa, rapazinho”, disse ela, “eu não te criei com a mão pra ficares a maçar a vida dos outros. Desse jeito o que fiz não merece elogio, e sim censura. Mandam pras presigangas quem mata, e quem rouba, e quem frauda, e quem faz tudo que é errado; e quem faz essas coisas sempre começa fazendo pergunta. Já pra cama!”
Nunca me deixavam levar uma vela para ir até a cama, e, enquanto subia a escada no escuro, com a cabeça latejando — por efeito do dedal da sra. Joe, que nela tocara pandeiro como acompanhamento de suas palavras finais — tive a impressão preocupante de que as presigangas eram muito práticas para gente como eu. Sem dúvida, meu destino era lá. Eu começara fazendo perguntas, e agora ia roubar a sra. Joe.
Desde aquele tempo, já muito distante agora, com frequência me ocorre o pensamento de que poucas pessoas sabem quantos segredos guardam as crianças sob o impacto do terror. Não importa que o terror seja ilógico, desde que terror seja. Inspirava-me um terror mortal o rapaz que queria meu coração e meu fígado; e também o meu interlocutor com ferro na perna; e também eu mesmo, que fora obrigado a fazer uma promessa tremenda; não tinha eu esperança de me salvar através de minha irmã todo-poderosa, que me repelia a cada passo; tremo de pensar no que eu teria sido capaz de fazer, se me mandassem, sob o impacto de meu terror secreto.
Se dormi aquela noite, foi para imaginar-me descendo o rio numa forte maré de sizígia, até chegar às presigangas; um pirata espectral gritou para mim através de um porta-voz, quando passei pelo patíbulo, que era melhor eu ir me enforcar logo de uma vez, em vez de adiar o inevitável. Eu temia adormecer, mesmo que tal fosse possível, pois sabia que assim que o dia começasse a raiar seria obrigado a saquear a despensa. Não havia como fazê-lo à noite, pois era impossível acender o fogo com um atrito suave na época; para tal seria necessário usar pederneira e aço, o que faria tanto barulho quanto o pirata a chocalhar suas correntes.
Tão logo o grande manto de veludo negro do lado de fora de minha pequena janela começou a tingir-se de cinza, levantei-me e desci; cada tábua do caminho, e cada rachadura em cada tábua, gritava atrás de mim: “Pega ladrão!” e “Acorde, senhora Joe!”. Na despensa, que estava muito mais bem abastecida do que de costume, por ser Natal, fiquei muito assustado com uma lebre dependurada pelas patas, a qual me deu a nítida impressão, quando fui lhe dar as costas, de ter piscado o olho. Não havia tempo para nenhuma verificação, para escolhas, para coisa alguma, pois eu corria contra o relógio. Roubei um pouco de pão, um pedaço de casca de queijo, cerca de meio pote de recheio de torta* (que guardei numa trouxa feita com meu lenço, junto com minha fatia de pão da véspera), um pouco de brande de uma garrafa de pedra (que eu verti dentro de uma garrafa de vidro em que, secretamente, eu preparara uma bebida inebriante, sumo de alcaçuz, no meu quarto: compensando o brande roubado com água tirada de uma jarra no armário da cozinha), um osso com muito pouca carne nele, e um belo pastelão de porco, redondo e compacto. Por um triz não saí sem o pastelão, porém senti-me tentado a subir até uma prateleira, para ver o que fora guardado com tanto cuidado num prato de cerâmica, coberto, num canto, lá encontrei o pastelão e o peguei, na esperança de que a intenção fosse consumi-lo mais tarde, e que, portanto, não se desse por sua falta por algum tempo.
Havia na cozinha uma porta que dava direto para a ferraria; destranquei-a e levantei a retranca, e peguei uma lima em meio às ferramentas de Joe. Depois fechei tudo tal como estava antes, abri a porta pela qual eu entrara na véspera, quando voltei correndo para casa, fechei-a e saí correndo em direção ao charco nevoento.

Charles Dickens, in Grandes esperanças

02/01/2024

Grandes esperanças | 1


Sendo o sobrenome de meu pai Pirrip, e meu nome de batismo Philip, quando menino minhas tentativas de pronunciar os dois nomes não resultavam em nada mais longo nem mais explícito do que Pip. Por isso passei a denominar-me Pip, e assim vim a ser chamado.
Digo que Pirrip era o sobrenome de meu pai com base na sua lápide e na minha irmã — a sra. Joe Gargery, que se casou com o ferreiro. Como jamais vi meu pai nem minha mãe, e nunca vi retrato deles (pois que viveram muito antes do tempo das fotografias), minhas primeiras fantasias a respeito de sua aparência se fundavam, de modo nada razoável, nas suas lápides. A forma das letras na lápide de meu pai me inspirou a estranha ideia de que ele teria sido um homem quadrado, robusto, moreno, com cabelos negros crespos. A partir do aspecto e fraseado da inscrição, “Também Georgiana Esposa do Acima”, extraí a conclusão infantil de que minha mãe era sardenta e doente. Cinco pequenos losangos de pedra, cada um com cerca de meio metro de comprimento, dispostos numa fileira ordenada ao lado da sepultura dos dois, e dedicados à memória de cinco irmãozinhos meus — que desistiram de tentar viver excepcionalmente cedo nesse conflito universal — me inspiraram a convicção, à qual me apegava com fervor religioso, de que todos eles haviam nascido de costas, com as mãos nos bolsos das calças, e de lá jamais as tiraram neste estado da existência.
Nossa região era o charco junto ao rio, a uma distância, onde o rio fazia curva, de trinta quilômetros do mar. Minhas primeiras impressões vívidas e abrangentes da identidade das coisas, creio eu que as vivenciei numa memorável tarde fria e úmida, já perto do anoitecer. Nessa ocasião descobri com certeza que aquele lugar lúgubre, coberto de urtigas, era o campo-santo; e que Philip Pirrip, paroquiano de lá, e também Georgiana, esposa do acima, estavam mortos e enterrados; e que Alexandre, Bartholomew, Abraham, Tobias e Roger, filhos pequenos dos dois, também estavam mortos e enterrados; e que o descampado escuro e plano que se estendia além do campo-santo, pontuado por diques e outeiros e porteiras, com algumas cabeças de gado esparsas a pastar, era o charco; e que a linha plana e cor de chumbo mais além era o rio; e que aquele pasto selvagem e longínquo de onde vinha o vento era o mar; e que o serzinho estremecendo de medo de tudo isso, e começando a chorar, era Pip.
Para com esse barulho!”, gritou uma voz terrível, e um homem veio vindo por entre as sepulturas ao lado do alpendre da igreja. “Fica quieto, seu diabrete, senão eu te corto a garganta!”
Um homem assustador, com uma roupa grosseira toda cinzenta, com um grande ferro na perna. Um homem sem chapéu, e com sapatos rasgados, e com um trapo velho amarrado em torno da cabeça. Um homem que havia afundado na água, e chafurdado na lama, e torcido o pé nas pedras, e se cortado nas pederneiras, e se espetado nas urtigas, e se rasgado nas urzes; que mancava, e estremecia, e rosnava; e que me olhava com olhar feroz, estalejando os dentes enquanto me agarrava pelo queixo.
Ah! Não me corte a garganta, senhor”, implorei apavorado. “Por favor, não faça isso, senhor.”
Diz o teu nome!”, ordenou o homem. “Depressa!”
Pip, senhor.”
De novo”, disse o homem, olhando-me fixamente. “Fala!”
Pip. Pip, senhor!”
Mostra onde tu moras”, disse o homem. “Aponta pro lugar!”
Indiquei a direção de nossa aldeia, na margem plana do rio, em meio a amieiros e árvores podadas, a quase dois quilômetros da igreja.
O homem, tendo me olhado por um momento, virou-me de cabeça para baixo e esvaziou-me os bolsos. Neles não havia nada além de um pedaço de pão. Quando a igreja se endireitou — pois ele foi tão repentino e forte que a fez virar de ponta-cabeça diante de mim, e vi o campanário debaixo de meus pés —, quando a igreja se endireitou, como eu dizia, dei por mim sentado numa lápide alta, tremendo, enquanto ele devorava o pão com avidez.
Filhote de cachorro”, disse o homem, lambendo os beiços, “tuas bochecha é bem gorducha.”
Creio que eram mesmo gordas, embora na época eu fosse um menino pequeno para minha idade, e nada forte.
Ora se eu não comia elas”, disse o homem, sacudindo a cabeça de modo ameaçador, “e posso muito bem comer, mesmo!”
Manifestei enfaticamente a esperança de que ele não fizesse tal coisa, e agarrei-me com mais força à lápide em que ele me colocara; em parte para não cair dela, em parte para não chorar.
Escuta aqui!”, disse o homem. “Que é da tua mãe?”
Ali, senhor!”, apontei.
Ele assustou-se, correu um pouco, parou e olhou para trás.
Ali, senhor!”, expliquei, tímido. “Também Georgiana. É a minha mãe.”
Ah!”, ele exclamou, voltando. “E aquele ali ao lado da tua mãe é o teu pai?”
Sim, senhor”, respondi, “paroquiano de cá.”
Ah!”, ele murmurou então, pensativo. “Tu vives com quem — se é que eu vou ser bonzinho e te deixar viver, coisa que ainda não decidi?”
Minha irmã, senhor — a senhora Joe Gargery — mulher de Joe Gargery, o ferreiro, senhor.”
Ferreiro, é?”, disse ele. E olhou para a própria perna.
Depois de olhar feroz para a perna e para mim algumas vezes, aproximou-se de minha lápide, segurou-me pelos dois braços e inclinou-me para trás até onde pôde fazê-lo, de modo que pudesse me olhar nos olhos do modo mais penetrante, enquanto os meus olhavam para os dele, impotentes.
Escuta aqui”, disse ele, “o negócio é saber se te deixo viver ou não. Tu sabes o que é uma lima de ferro.”
Sei, sim, senhor.”
E sabes o que é comida.”
Sei, sim, senhor.”
Depois de cada pergunta, ele me inclinava um pouco mais, de modo a acentuar minha sensação de impotência e perigo.
Me traz uma lima.” Inclinou-me outra vez. “E me traz comida.” Inclinou-me outra vez. “Me traz as duas coisa.” Inclinou-me outra vez. “Senão eu te ranco o coração e o figo.” Inclinou-me outra vez.
Eu estava terrivelmente assustado, e tão tonto que me agarrei a ele com as duas mãos, dizendo: “Se o senhor por favor parar de me entortar, pode ser que eu não fique enjoado, e preste mais atenção no senhor”.
Ele me virou ao contrário com toda a força, de modo que a igreja pulou por cima de seu próprio cata-vento. Então me segurou pelos braços, de cabeça para cima, sobre a lápide, e continuou, ameaçador:
Me traz amanhã, de manhã bem cedo, a lima e a comida. Leva tudo pra mim, na velha bateria acolá. Faz isso e não ouses dizer uma palavra a ninguém, nem dar a entender que encontraste uma pessoa como eu, nem pessoa nenhuma, que aí eu te deixo viver. Se não fizeres o que mando, ou se desviares do que eu te digo, por pouco que seja, teu coração e teu figo vai ser arrancado, assado e comido. Olha, eu não estou sozinho não, ao contrário do que podes estar pensando. Tem um rapaz escondido comigo, e em comparação com esse rapaz eu sou um anjo. Esse rapaz está ouvindo tudo que eu digo. Esse rapaz tem um jeito secreto que só ele sabe de pegar um garoto, e rancar o coração dele, e o figo dele. Não adianta tentar se esconder desse rapaz. O garoto pode trancar a porta, se enfiar na cama quentinha, se embrulhar todo nas coberta, puxar elas até cobrir a cabeça, crente que está muito confortável e bem protegido, mas aí esse rapaz entra sem fazer barulho, chega até ele e rasga ele ao meio. Eu estou no momento impedindo esse rapaz de fazer mal a ti, com muita dificuldade. É muito difícil impedir esse rapaz de te rasgar ao meio. E então, o que me dizes?”
Eu disse que ia lhe trazer a lima, e os restos de comida que conseguisse pegar, e viria a seu encontro na bateria de manhã cedinho.
Diz que Deus te mate mortinho se não fizeres isso!”, disse o homem.
Obedeci, e ele me pôs no chão.
Pois então”, insistiu, “lembra do que foi combinado, e lembra daquele rapaz, e vai pra casa!”
Bo-boa noite, senhor”, gaguejei.
Boa uma ova!”, exclamou, correndo a vista pela planície fria e úmida. “Eu queria ser um sapo. Ou então uma enguia!”
Enquanto abraçava o próprio corpo, que tremia, com os dois braços — apertando com força, como para não se desmanchar — seguia mancando até a mureta da igreja. Fiquei a vê-lo, contornando com cuidado as urtigas, por entre as sarças que cingiam os montículos verdes, e a meus olhos de criança ele dava a impressão de estar se esquivando das garras dos defuntos, que esticavam os braços cautelosos de suas sepulturas, para lhe agarrar o tornozelo e puxá-lo para dentro.
Chegando à mureta, passou por cima dela, como um homem cujas pernas estão dormentes e duras, e depois se virou para me procurar. Quando vi que ele se virava, voltei-me na direção de minha casa, e corri o mais depressa que pude correr. Mas pouco depois olhei para trás e vi que ele voltava para os lados do rio, ainda a abraçar-se com os dois braços, pondo com cuidado os pés feridos entre as pedras grandes postas aqui e ali no charco, para servirem de passadeiras quando chovia forte, ou quando subia a maré.
O charco era apenas uma longa linha horizontal negra quando parei para tentar encontrá-lo; e o rio não passava de mais uma linha horizontal, bem menos larga e menos negra; e o céu, só um feixe de linhas longas de um vermelho colérico, entremeadas com faixas negras e densas. Na margem do rio eu divisava, com dificuldade, os dois únicos vultos negros em toda a paisagem que pareciam estar em posição vertical; um deles era o farol que orientava os marinheiros — parecia um barril sem aros no alto de um poste — uma coisa feia quando vista de perto; o outro, um patíbulo onde pendiam umas correntes, no qual outrora fora enforcado um pirata. O homem seguia mancando em direção a esse patíbulo, como se fosse o pirata redivivo, que dele tendo descido agora voltava, para lá se pendurar outra vez. Esse pensamento fez-me muito mal; e, ao ver os bois levantando as cabeças e olhando para o homem, perguntei a mim mesmo se eles também teriam a mesma impressão. Corri a vista à minha volta, temendo deparar com o rapaz terrível, e não vi nenhum sinal dele. Porém, como estava com medo de novo, fui para casa correndo sem parar.

Charles Dickens, in Grandes esperanças