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01/09/2019

O narrador

Da lasca do tempo que herdei,
etiqueto o mundo:

digo pedra a pedra, digo chão o chão,
digo brisa a brisa, digo carne a carne,
digo faca a faca, digo sangue o sangue
e assim por diante e diante.

Narro o ato a partir do nome
dado a cada algo recortado
no quadro divisado pelos olhos
carregados e pesados de todo
o visto e vivido e passado;

não digo fome, digo resto digo esquálido,
não digo amor, digo gozo digo esteio,
não digo medo, digo mordaça digo túmulo,
não digo ódio, digo tortura digo punhal.

Narrar é tudo: fazer verdade
da mentira inquestionável a
partir do presente do indicativo
das manchetes de jornal:
o cisco transmuta-se trave
a trave transmuta-se viga
a viga transmuta-se barra
ao sabor da pujança adjetiva;

e, no entanto, dizer é pouco, pois
se digo chão o sangue, o sangue não é chão,
se digo pedra a faca, a faca não é pedra,
se digo brisa a carne, a carne não é brisa:
uma hora ou outra se evidencia
a fraude, a farsa, a força
da ilusão tão fraca.

O problema não é dar a ver o que ninguém percebe,
mas apontar diuturnamente
para o que, de tão visto,
tornou-se invisível e
de novo fazê-lo evidente.
Yuri Pires

25/08/2019

A morte do escriba

Da escolha exclui a parte,
molda-se o escriba:
sua pele, sua carne
sua margem, sua saliva

e todo tijolo é medido,
a argamassa, pesada,
como se embala o filho
como se constrói a casa

o trabalho findado,
morre com ele o escriba,
renasce então o lastro:
o homem e sua lida;

em tudo comum essa vida
a imagem é o mundo,
o homem que se aproxima
como todo homem, em tudo,

sem maior saber exato
que não o ofício aprendido
sem nenhum poder inato
ou inspiração ou espírito

e se não há saber concreto
e a divisão do pouco
só resulta desafeto,
não há saber no morto,

é apenas mais um corpo
de arquitetura igual
sem potência se solto
onipotente se multidão;

e quando inicia a escrita
no papel renascido
então o escriba respira
silente, sem aplauso, sozinho,

e se corpo, cala o indivíduo,
fala como fala o coletivo,
se escriba, fala o escrito,
fala como morto e redivivo.
Yuri Pires

04/08/2019

Utopia da palavra II

Uma imagem é palavra,
conjunto de, composta por;
conceitos, ideias, erratas:
palavras – tijolos de compor.

Há as vazias, amorfas, insípidas,
que cabem em qualquer imagem;
há as pesadas, formes, mínimas,
cujo manuseio exige uniformidade.

Mas como toda ela, maleável,
um artífice pode encaixá-las
em qualquer uma identidade,
decompostas, desmontadas;

amor cabe em Julieta e Aurélia,
ódio cabe em Moisés e Valjean,
paixão cabe em Evita e Lucrécia,
e assim por diante e diante.

Se mais pesadas, menos largas,
mais restritas no que sabem,
menos lisas e dissimuladas.
Utopia: a palavra sem imagem.
Yuri Pires