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27/02/2026

A palavra



Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito — como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de viver em voz alta.
Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.
Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento — e depois esqueci.
Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa ao piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante uma transmissão de jogo de futebol... mas o canário não cantava.
Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven — e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro?
Alguma coisa que eu disse distraído — talvez palavras de algum poeta antigo — foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.

Rubem Braga, em Ai de ti, Copacabana

07/09/2025

Palavra

Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.

Manoel de Barros, em Livro sobre nada

21/06/2025

Palavra

Há quem receite a palavra ao ponto de osso, de oco
ao ponto de ninguém e de nuvem.
Sou mais a palavra com febre, decaída, fodida, na
sarjeta.
Sou mais a palavra ao ponto de entulho.
Amo arrastar algumas no caco de vidro, envergá-las
pro chão, corrompê-las
até que padeçam de mim e me sujem de branco.
Sonho exercer com elas o ofício de criado:
usá-las como quem usa brincos.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo

25/03/2025

Adeus

Ou, em francês, adieu, espanhol, adiós, italiano, addio.

São expressões elípticas cujo significado em latim era “recomendo-te a Deus”, usadas no momento de despedida.

Orlando Loureiro Neves, em Dicionário Origem Das Palavras

17/03/2025

Agosto

Após a batalha de Accio, em que Caio Júlio César Octávio (sobrinho do assassinado Júlio César) derrotou Marco António, Roma atribuiu-lhe o título de imperador, a que acrescentou o cognome de augustus que significa majestoso, venerável, magnífico (do verbo augeo, que quer dizer, “aumentar, engrandecer, glorificar, tornar-se maior”).

Ora num certo mês sextilis, o sexto do antigo calendário latino que começava no actual mês de Março, Octávio Augusto entrou em Roma com três sensacionais vitórias: submetera o exército de Janículo, submetera Cleópatra no Egipto e pusera definitivo termo à guerra civil, iniciando um período de paz e grande desenvolvimento cultural (é a época de Horácio, Virgílio, Ovídio, Catulo, Marcial, etc.) que ficou conhecido como “a paz octaviana”.

O mês anterior, o quintilis, tinha mudado de nome por decisão do seu tio Júlio César. Passara, em sua honra, a chamar-se Julius (Julho). Octávio Augusto resolveu fazer o mesmo ao tal sexto mês em que festejara as vitórias: cerca de duas dezenas de anos a. C. pôs-lhe o nome de Augustus (donde veio Agosto). Esta ambição de se engrandecer tanto como o tio, segundo certos autores, levou-o mais longe: aumentou um dia ao seu Agosto para ter o mesmo número de dias de Julho. Como se sabe, no actual calendário, Agosto já não é o sexto, mas o oitavo mês.

Orlando Loureiro Neves, em Dicionário da origem das palavras

06/03/2025

Álbum

Provém do latim e significa a cor branca (donde, também, a palavra alvo). Mas album, o branco, simplesmente, era a designação de um quadro, uma tábua branqueada a gesso ou alvaiade que os romanos fixavam na praça pública, o Campo de Marte, e na qual, em letras pretas, se escreviam as decisões dos vários sectores do governo (daí, igualmente, alvo como local a que se aponta). Assim se davam a conhecer os decretos, as resoluções régias, os acórdãos, etc. Havia o álbum dos pretores (album praetoris), dos senadores (album senatorum), dos pontífices (album pontificis), etc. Se um particular quisesse dar a conhecer aos seus concidadãos qualquer informação escrevê-la-ia, obrigatoriamente, numa tabula de outra cor.
Na Idade Média, a tábua começou a ser substituída por pergaminho e, mais tarde, por papel quase sempre branco. Nele se difundiam as questões religiosas, sobretudo o catálogo dos santos, festas religiosas e outros. A pouco e pouco, passou a registar genealogias e, depois, autógrafos, pensamentos, poesias até que, nos nossos dias, o álbum é, sobretudo, utilizado para arquivar postais, fotografias, recortes e deixou de ter qualquer conotação com o seu próprio significado, branco.

Orlando Loureiro Neves, em Dicionário da origem das palavras

09/02/2025

Alfarrábio

Tudo leva a crer que o livro velho ou antigo denominado “alfarrábio” provém do nome próprio árabe de Abu ben Uzlâg Al-Farabi, por ser natural de Farrabe, no Turquestão. Viveu em Bagdade onde morreu em 950 com 80 anos. Ficou célebre pela sua obra e por ser apontado como “o segundo sábio”. O primeiro seria Aristóteles, a quem Al-Farabi dedicou grande parte do seu trabalho sendo considerado um dos mais sagazes comentadores da filosofia aristotélica.

Orlando Loureiro Neves, em Dicionário da origem das palavras

04/02/2025

Aleatório

Conhece-se a frase de Júlio César quando decidiu atravessar o Rubicão e entrar em Roma, desafiando o Senado: alea jacta est, comumente traduzia por “a sorte está lançada”. Seria mais correto traduzi-la por “os dados estão lançados”.
Alea, em latim, significa “dado”, jogo de dados que é, de fato, um jogo de sorte. “Aleatório” é, pois, tudo o que se refere ao jogo de dados, o que é decidido pela sorte. Também no latim se chamava à casa onde se jogava, antepassada do cassino, aleatorium.

Orlando Loureiro Neves, em Dicionário da origem das palavras

28/01/2025

Alcoviteiro

Virá de “alcofa” pelo árabe al-quffâ que significa “cesto”, “canastra”. Nestes se levavam e traziam coisas. Metaforicamente, nas suas andanças de transportadores de mercadorias, os alcoviteiros e alcoviteiras levavam também as novidades e intrigas que iam conhecendo junto dos seus clientes.
Outra opinião alvitra que a sua procedência, continuando árabe, seria al-qubbâ, com o significado de “edifício em abóbada”, “tenda”, “local onde se dorme”. Daí, a passagem para “alcova”, ou seja “quarto com cama”, é óbvia. O alcoviteiro era, pois, aquele (aquela) que negociava casamentos, amantismos e proxenetismos.

Orlando Loureiro Neves, em Dicionário da origem das palavras

16/01/2025

Alarme

Talvez não se detecte, de imediato, o que se esconde nesta palavra que hoje é indicativa de situação perigosa, de sobressalto perante acontecimento que pode ser prejudicial ou fatal para os seres humanos ou para a Natureza.
Os vocábulos que na palavra se ocultam são italianos. Trata-se de arme que, na língua transalpina, é o plural de “arma”, a que se antepõe alle, “às”, simplesmente. Assim, all’armeé, tão-só, o nosso “às armas” e foi grito soltado pelas tropas italianas nos séculos XVI e XVII, aquando das guerras com os espanhóis.
Passou para a nossa língua, quase directamente, sem ter havido adaptação do plural — deveríamos dizer, em insólito rigor, “alarmas” ou, pelo menos, “alarma”, forma esta usada em tempos antigos e, curiosamente, mantida no castelhano e no português que se fala no Brasil.

Orlando Loureiro Neves, em Dicionário da origem das palavras

12/01/2025

De stella et adventu magorum



No presépio onde tudo se perfazia estático — simultâneo repetir-se de matérias belas, retidas em arte de pequena eternidade — os Três Reis introduziam o tempo. O mais parava ali, desde a véspera da Noite, sob o fino brilho suspenso das bolas de cores e ao vivo cheiro de ananás, musgo, cera nobre e serragens: o Menino na manjedoura, José e a Virgem, o burrinho e o boi, os pastores com seus surrões, dentro da gruta; e avessa gente e objetos, confusas faunas, floras, provendo a muitíssima paisagem, geografia miudamente construída, que deslumbrava, à alma, os olhos do menino míope.
Em coisa alguma podia tocar-se, que Vovó Chiquinha, de coração exato e austera, e Chiquitinha, mamãe, proibiam. Eles, porém, regulavam-se à parte, com a duração de personagens: o idoso e em barbas Melchior, Gaspar menos avelhado e ruivo, Baltasar o preto — diversos mesmo naquele extraordinário orbe, com túnicas e turbantes e sobraçando as dádivas — um atrás do outro. Dia em dia, deviam avançar um tanto, em sua estrada, branca na montanha. Cada um de nós, pequenos, queria o direito de pegar neles e mudá-los dos quotidianos centímetros; a tarefa tinha de ser repartida. Então, à uma, preferíamos todos o Negro, ou o ancião Brechó, ou el-rei Galgalaad; preferíamos era a briga. Mas Vovó Chiquinha ralhava que não nós, por nossas mãos, os mexíamos, senão a luz da estrela, o cometa ignoto ou milagroso meteoro, rastro sideral dos movimentos de Deus. E Chiquitinha, para restituir-nos à paz dos homens concordiosos, mostrava a fita com a frase em douradas letras — Gloria in excelsis... — clara de campainhas no latim assurdado e umbroso.
No prazo de seu dia, à Lapinha iam chegar, o que nos alvoroçava, como todas as chegadas — escalas para o último enfim, a que se aspira. Mas, de repente, muito antes, apareciam e eram outros, com acompanhamento de vozes em falsete:

Boa noite, oh de casa,
a quem nesta casa mora…

A Folia de Reis — bando exótico de homens, que sempre se apresentavam engraçadamente sérios e excessivamente magros, tinham o imprevisto decoro dos pedintes das estradas, a impressiva hombridade esmoler. Alguns traziam instrumentos: rabecas, sanfonas, caixa-de-bater, violas. Entravam, mantinham-se de pé, em roda, unidos, mais altos, não atentavam para as pessoas, mas apenas à sua função, de venerar em festa o Menino-Deus. Pareciam-me todos cegos. Será, só eles veriam ainda a Estrela? Porém, no centro, para nossa raptada admiração, dançavam os dois Máscaras, vestidos de alegria e pompa, ao enquanto das vozes dos companheiros vindos só para cantar:

Eis chegados a esta casa
os Três Reis do Oriente...

De onde — oásis de Arábia, Pérsia de Zaratustra, Caldeia astrológica — da parte do Oriente ficava sua pátria incerta, além Jordão, descambado o morro do Bento Velho, por cujo caminho, banda de cá, costumavam descer os viajantes do Araçá e da Lagoa, e, sobre, na vista-alegre a gente se divertia com inteiros arco-íris, no espaço das chuvas, seduzidamente, conforme vinham, balançando-se em seus camelos, para adorar o Rei dos Judeus, fantasiados assim, e Herodes a Belém os enviava: o Guarda-Mor e o Bastião.
Dois, só? Respondiam: que por estilos de virtude, porque, os Magos, mesmo, não remedavam de ser. E por que os chamavam, com respeito embora, de “os palhaços”? Bastião, o acólito, de feriada roupa vermelha, gorro, espelho na testa, e que bazofiava, curvando-se para os lados, fazendo sempre símias e facécias, representasse de sandeu. Mas o “mascarado velho”, o Guarda-Mor, esse trajava de truz, seu capacete na cabeça era de papelão preto, imponente, e sérios o enorme nariz e o bigode de pêlos de cauda de boi. Dele, a gente, a gente teria até medo. Pulavam, batendo no chão os bastões enfeitados de fitas e com rodelas de lata, de grave chocalhar. Um dos outros homens alteava o pau com a bandeira, estampa em pano. Entoavam: … “A lapinha era pequena, não cabiam todos três... Cada um por sua vez, adoraram todos três...” Prestigiava-se ao irreal o presépio, à grossa e humana homenagem, velas acesas; a dança e música e canto rezando mesmo por nós, forçoso demais, em fé acima da nossa vontade; pasmavam-nos.
Depois, recebiam uma espórtula, fino recantando agradeciam: “Deus lhe pague a bela esmola...” — e saíam, saudando sem prosa, só o sagrado visitavam. Mas a gente queria acompanhá-los era para poder ver o que se contava tanto — que, onde não lhes dessem entrada, então, de fora, bradavam cantoria torta, a de amaldiçoar: “Esta casa fede a breu...” — e, que dentro dela morava incréu, a zangação continuava. Em vão, porém, esperava-se turra de violências. Avisados por um anjo, voltavam por outro caminho, seguiam se alontanando.
Se às vezes chegavam outras, folias de maiores distâncias, sucedia-se o em tudo por tudo. Só que, os homens, mais desconhecidos, sempre, diferentes mesmo dos iguais. Nem paravam — no vindo, ido e referido. Duas folias se encontrassem, deviam disputar o uso desafio: a vencedora, de mais arte em luzimento, ganhando em paz, da outra, a sacola com o dinheiro. Os estúrdios, que agora no sertão navegavam! A gente repetia de os esquecer.
Celebrava-se o dia 6, Vovó Chiquinha desmanchava o presépio, estiava o tempo em veranico entes do São Sebastião frechado. Por quanto, tornavam a falar nos foliões, deles não sendo boas, nem de casta lembrança, as notícias aportadas. Sabia-se que, por adiante, facilitavam aos poucos de receber no grupo aparasitados e vadios, pegavam desrumo, o Canto sacro dava mais praça a poracé e lundu, perdiam o conselho. Já mal podiam trocar as fardas, vez em quando, desfeitos do suor e das poeiras e chuvaradas. Passavam fome, quando não entravam em pantagruomérico comer, dormiam irrepousadamente, bebiam do tonel das danadas; pintavam o caneco. Nem honravam mais as praxes de preceito. Uma folia topava outra, e, sem nem um mal-entendimento, em vez de avença desapoderavam-se logo, à acossa, enfrentemente: batiam à força aberta, a bastão, a pau de bandeira, a cacete, espatifavam-se nas cabeças os tampos de rabecas e violas.
Só que não podiam tão cedo parar, no ímpeto de zelo, e iam, iam, à conta inteira, de lugar em lugar, fazenda em fazenda, ultrapassavam seu prazo de cessação, a Epifania, queriam os tantos quantos são nos presépios e os meninos-de-jesus do mundo. Mas, era como se, ao passo com que se distanciavam do Natal, no tempo, fossem perdendo sua mágica realidade e a eficácia devota, o furor de fervor não dava para tanta lonjura, e de tão esticado se estragava. Assim naufragavam por aí, espandongados, adoentados, exaustos, caindo abaixo de sono, em pé mesmo se dormiam. Derrotados, recuavam então, retornando, debandando — se coitados, se danados — não raro sob ameaça e apupos, num remate da santa desordem, na matéria merencória.
A gente se entristecia, de saber, receávamos não voltassem, mais nunca, não houvesse a valente Festa de Reis, beleza de piedade, com o Bastião truão e o Guarda-Mor destronado.
— “Mas, sim, eles voltam. Para o ano, se Deus quiser, todos voltam. Sempre, mesmo. Hão de recomeçar...” Os meninos se sorriam. — “... Eles são homens de boa-vontade...” — repetia Chiquitinha.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra