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22/01/2016

Ia chover: a caatinga ressuscitaria

Google Imagens

Seu Tomás fugira também, com a seca, a bolandeira estava parada. E ele, Fabiano, era como a bolandeira. Não sabia porquê, mas era. Uma, duas, três, havia mais de cinco estrelas no céu. A lua estava cercada de um halo cor de leite. Ia chover. Bem. A catinga ressuscitaria, a semente do gado voltaria ao curral, ele, Fabiano, seria o vaqueiro daquela fazenda morta. Chocalhos de badalos de ossos animariam a. solidão. Os meninos, gordos, vermelhos, brincariam no chiqueiro das cabras, Sinha Vitória vestiria saias de ramagens vistosas. As vacas povoariam o curral. E a catinga ficaria toda verde.
Lembrou-se dos filhos, da mulher e da cachorra, que estavam lá em cima, debaixo de um juazeiro, com sede. Lembrou-se do preá morto. Encheu a cuia, ergueu-se, afastou-se, lento, para não derramar a água salobra. Subiu a ladeira. A aragem morna acudia os xiquexiques e os mandacarus. Uma palpitação nova. Sentiu um arrepio na catinga, uma ressurreição de garranchos e folhas secas.
Chegou. Pôs a cuia no chão, escorou-a com pedras, matou a sede da família. Em seguida acocorou-se, remexeu o aió, tirou o fuzil, acendeu as raízes de macambira, soprou-as, inchando as bochechas cavadas. Uma labareda tremeu, elevou-se, tingiu-lhe o rosto queimado, a barba ruiva, os olhos azuis. Minutos depois o preá torcia-se e chiava no espeto de alecrim.
Eram todos felizes. Sinha Vitória vestiria uma saia larga de ramagens. A cara murcha de sinhá Vitória remoçaria, as nádegas bambas de Sinha Vitória engrossariam, a roupa encarnada de Sinha Vitória provocaria a inveja das outras caboclas.
A lua crescia, a sombra leitosa crescia, as estrelas foram esmorecendo naquela brancura que enchia a noite. Uma, duas, três, agora havia poucas estrelas no céu. Ali perto a nuvem escurecia o morro.
A fazenda renasceria - e ele, Fabiano, seria o vaqueiro, para bem dizer seria dono daquele mundo.
Os troços minguados ajuntavam-se no chão: a espingarda de pederneira, o aió, a cuia de água o baú de folha pintada. A fogueira estalava. O preá chiava em cima das brasas.
Uma ressurreição. As cores da saúde voltariam a cara triste de Sinha Vitória. Os meninos se espojariam na terra fofa do chiqueiro das cabras. Chocalhos tilintariam pelos arredores. A catinga ficaria verde. Baleia agitava o rabo, olhando as brasas. E como não podia ocupar-se daquelas coisas, esperava com paciência a hora de mastigar os ossos. Depois iria dormir.
Graciliano Ramos, in Vidas Secas

02/10/2012

Desertão, saartão, sertão…

Imagem: Wikipédia

Andando esses dias, Senhor Redator, pelo sertão mundo afora, levando na bruaca enfeitada com arte de pregaria a fortuna das palavras de gente importante como Felipe Guerra, Eloy de Souza, Câmara Cascudo, Juvenal e Oswaldo Lamartine – fachos luminosos do sertão à luz das lamparinas feito – olhei o mato esturricado, e pensei cá comigo: a estética da civilização sertaneja é a caatinga seca. No inverno, os verdes se parecem. Na fartura, a paisagem épica cede lugar ao dionisíaco. Tudo é festa para os olhos.
Foi ali, na secura daquele mundo sem brandura e sem amavio que floresceu a sociedade rude dos vaqueiros, no dizer bonito de Euclydes da Cunha. Longe da civilização do açúcar, de senhores de engenho aristocráticos, ricos de escravos pobres de tudo. O compadrio não nasce entre dominadores e dominados. Ao contrário do sertão, onde o senhor de terras e de gados divide a cria dos bezerros com os seus vaqueiros, é padrinho dos seus filhos e, juntos, seja na seca ou no inverno, dividem a vida e a lida.
Nem citei nas minhas conversas com os alunos do Sesc, sempre tão atenciosos e que encontrei naqueles vastos auditórios, a Conferência de Lajes que Eloy de Souza fez para tão poucos ouvidos e passou anos perdida. Foi Vingt-Un Rosado que um dia encontrou nos guardados de um sertanejo velho e zeloso do que ouvira no tempo de moço. Não falei do alvoroço do seu coração, mas contei lembranças antigas de Juvenal Lamartine puxando o fio da memória dos velhos costumes do seu grande sertão.
Como foi bom repetir a belíssima e lúdica descrição de Câmara Cascudo a projetar no plano infantil os traços e costumes da tradição na vida real. A imaginação recriando no quintal da infância o sertão do menino: dos bois de osso, dos açudes feitos com cacos de louça, da água escorrendo nas valas abertas a unha. Um sertão em miniatura, mas, na repetição mágica de cada gesto, o concerto maquinal de um mundo real, embora vivido num sopro de vida que reinventa, alegoricamente, o tempo morto.
Olhando aquela gente ouvindo cada palavra num silêncio monástico fiquei convencido da velha certeza que tantas vezes aprendi com Oswaldo Lamartine: há qualquer coisa de bíblico no sertão. Na pastoral dos seus lajedos. Na solidão das suas pedras. Na tristeza dos bichos no cantochão do aboio a apascentar os rebanhos. Um rio cheio é um deslumbramento, avisa Câmara Cascudo. E o açude, no sono das suas águas mansas quando acorda no quebrar da barra para repetir, a cada dia, o milagre da criação.
Seja como for, é um mundo inteiro que vive ali encantado naqueles mundos de lonjura e solidão, feitos de abandono, mas espiados por olhos que ninguém vê. Mundo que nasce e morre a cada inverno e a cada seca. Morre até que as primeiras chuvas acordem no seu chão velho a babugem que dormia e que volta para reinaugurar nos homens e nos bichos a alegria da vida. Sertão vazio, perdido entre caminhos sem ninguém, e que um dia se levanta depois do sono das horas sem vida. Desertão, saartão, sertão…
Vicente Serejo, in O Jornal de Hoje, 28/08/2012

06/04/2011

O Poeta tem Razão

Quem já passou no sertão
E viu o solo rachado,
A caatinga cor de cinza,
Duvido não ter parado
Pra ficar olhando o verde
Do juazeiro copado.


E sair dali pensando:
Como pode a natureza
Num clima tão quente e seco,
Numa terra indefesa
Com tanta adversidade
Criar tamanha beleza.


O juazeiro, seu moço,
É pra nós a resistência,
A força, a garra e a saga,
O grito da independência
Do sertanejo que luta
Na frente da Emergência.


Nos seus galhos se agasalham
Do periquito ao cancão. 
É hotel de retirante
Que anda de pé no chão,
O general da caatinga
E o vigia do sertão.


Vinha eu de Canindé
Com sono e muito cansado
Quando vi...


             Para saber o que o Poeta Antônio Francisco viu, leiam a continuidade dessa grande Saga no livro Os Animais Têm Razão (transcrição autorizada pelo autor).