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07/12/2024

Querer ser justo e querer ser juiz

— Schopenhauer, cujo grande conhecimento das coisas humanas, demasiado humanas, cujo primordial senso dos fatos foi um tanto prejudicado pela colorida pele de leopardo de sua metafísica (que é preciso antes remover, para descobrir embaixo um verdadeiro gênio de moralista) — Schopenhauer faz esta excelente distinção, com a qual terá bem mais razão do que realmente podia confessar a si mesmo: “a compreensão da rigorosa necessidade das ações humanas é a linha que separa as mentes filosóficas das outras”. Essa poderosa percepção, a que por vezes ele se achava aberto, ele contrariava dentro de si mesmo com o preconceito que ainda tinha em comum com os homens morais (não com os moralistas) e que assim expressa, de maneira ingênua e crédula: “a última e verdadeira explicação sobre a íntima essência da totalidade das coisas deve, por necessidade, ligar-se estreitamente àquela sobre a significação ética do agir humano” — o que precisamente não é “necessário” de forma nenhuma, e sim é rejeitado por aquela proposição sobre a rigorosa necessidade das ações humanas, ou seja, da absoluta não liberdade e irresponsabilidade da vontade. As mentes filosóficas se diferenciarão das outras, portanto, através da descrença na significação metafísica da moral: e isso pode estabelecer entre elas um abismo profundo e insuperável, de que o deplorado abismo entre “cultos” e “incultos”, tal como hoje existe, não pode dar ideia. É certo que devem ser reconhecidas como inúteis várias outras escapatórias que as “mentes filosóficas”, como Schopenhauer mesmo, deixaram para si: nenhuma leva ao ar livre, ao ar do livre-arbítrio; cada uma, através da qual até agora se tentou escapar, revelou novamente por trás o muro brônzeo do fado: nós estamos na prisão, só podemos nos sonhar livres, não nos tornar livres. Que não se pode contrariar por muito tempo mais esse conhecimento, isso demonstram as desesperadas, incríveis posturas e contorções daqueles que contra ele investem, que com ele prosseguem a luta. — Eis o que agora se passa neles, aproximadamente: “Então ninguém é responsável? E em tudo há pecado e sentimento do pecado? Mas alguém tem de ser o pecador: se é impossível e não mais é permitido acusar e julgar o indivíduo, a pobre onda na inevitável rebentação do devir — então: que a rebentação mesma, o devir, seja o pecador: aqui está o livre-arbítrio, aqui se pode acusar, condenar, expiar e pagar: que seja Deus o pecador, e o homem, seu redentor: que a história universal seja culpa, autocondenação e suicídio; que o malfeitor se torne seu próprio juiz, e o juiz, seu próprio carrasco”. — Esse cristianismo de cabeça para baixo — que é, senão isso? — é a última estocada na luta entre a doutrina da moralidade absoluta e a da não liberdade absoluta — uma coisa horrível, se fosse mais do que uma careta lógica, mais do que um gesto feio do pensamento que sucumbe — algo como o espasmo final do coração desesperado e ansioso de cura, ao qual a loucura sussurra: “És o cordeiro que carrega o pecado de Deus”. — O erro está não apenas no sentimento “eu sou responsável”, mas igualmente na antítese “eu não sou responsável, mas alguém tem de ser”. — Isso justamente não é verdadeiro: o filósofo deve então dizer, como Cristo: “não julguem!”, e a diferença última entre os espíritos filosóficos e os outros seria que os primeiros querem ser justos e os outros querem ser juízes.

Friedrich Nietzsche, em Humano, demasiado humano

26/07/2024

Felicidade e luta

 “Uma vida feliz é impossível: o máximo que o homem pode atingir é um curso de vida heroico. Este o possui aquele que luta por um bem destinado a todos contra dificuldades gigantescas, vencendo por fim, mas recebendo pouca ou nenhuma recompensa por seu esforço.”

Arthur Schopenhauer, em Parerga e Paralipomena: Pequenos escritos filosóficos

23/05/2023

O homem e a sociedade


O nosso mundo civilizado não passa de uma mascarada – Delicadeza – Amizade caricata – O cão, único amigo do homem – Orgulho e vaidade – Isolamento do gênio

As coisas passam-se no mundo como nas comédias de Gozzi, em que aparecem sempre as mesmas pessoas com idênticas intenções e idêntico destino; o assunto e os fatos diferem sem dúvida em cada intriga, mas o espírito dos acontecimentos é o mesmo, as personagens de uma peça também nada sabem do que se passou na precedente, onde contudo também eram atores: por isso, após toda a experiência das comédias anteriores, Pantaleão não se tornou nem mais destro nem mais generoso, nem Tartaglia mais honesto, nem Briguela mais corajoso, nem Colombina mais virtuosa.
O nosso mundo civilizado não passa de uma grande mascarada. Encontram-se aí cavaleiros, frades, soldados, doutores, advogados, padres, filósofos, e que mais se encontram ainda? Não são, porém, o que representam: são simples máscaras sob as quais se ocultam geralmente especuladores de dinheiro (moneymakers). Um afivela a máscara da justiça e do direito com o auxílio de um advogado, para ferir melhor o seu semelhante; outro, com o mesmo fim, escolheu a máscara do bem público e do patriotismo; um terceiro, a da religião, da fé imaculada. Para toda espécie de desígnios secretos, mais de um se ocultou sob a máscara da filosofia, como também da filantropia etc. As mulheres têm menos por onde escolher: servem-se, a maior parte das vezes, da máscara da virtude, do pudor, da simplicidade, da modéstia. Há também máscaras gerais, sem caráter especial, como os dominós nos bailes de máscaras, e que se encontram em toda parte: essas simulam a honestidade rígida, a delicadeza, a simpatia sincera e a amizade caricata. Quase sempre não há, como já disse, senão puros industriais, comerciantes, especuladores debaixo de todas essas máscaras. Desse ponto de vista, a única classe honesta é a dos negociantes, porque se apresentam como são e passeiam de rosto descoberto, por isso os colocaram no ponto inferior da escala.
O médico vê o homem em toda a sua fraqueza; o jurista o vê em toda a sua maldade; o teólogo, em toda a sua imbecilidade.
Assim como basta uma folha a um botânico para reconhecer toda a planta, assim como um único osso era suficiente para Cuvier reconstruir todo o animal, assim um só ato característico da parte de um homem pode fazer com que se chegue ao conhecimento exato do seu caráter, e, portanto, reconstituí-lo numa certa medida, embora se tratasse de uma coisa insignificante; nos casos importantes, os homens acautelam-se; nas coisas pequenas, pelo contrário, seguem a sua índole sem darem por isso. Se alguém, à proposta de uma bagatela, mostra pelo seu procedimento egoísta, sem a mínima consideração pelos outros, que o sentimento de justiça é estranho ao seu coração, ninguém deve confiar-lhe o mais insignificante valor sem as necessárias garantias… Segundo o mesmo princípio, é preciso romper imediatamente com essa gente que se intitula os bons amigos quando tem, mesmo nas coisas mais fúteis, um caráter mau, falso ou vulgar, a fim de evitar quaisquer partidas que possam pregar nos casos graves. Diria outro tanto dos criados: antes só que entre traidores.
Deixar transparecer a cólera ou o ódio nas palavras ou no rosto é inútil, perigoso, imprudente, ridículo, banal. Só se deve trair a cólera ou o ódio pelas ações. Os animais de sangue frio são os únicos que têm peçonha.
Delicadeza é prudência, indelicadeza é estupidez; criar inimigos inutilmente e de peito feito é loucura, é como quem deita fogo à própria casa. Porque a delicadeza é como os tentos do jogo, uma moeda manifestamente falsa; ser econômico dessa moeda é falta de espírito; ser pródigo, pelo contrário, é dar prova de bom senso.
A nossa confiança nos homens não tem geralmente outras causas senão a preguiça, o egoísmo e a vaidade: a preguiça, quando o aborrecimento de refletir, de vigiar, de proceder, nos leva a confiar em alguém; o egoísmo, quando a necessidade de falar dos nossos negócios nos impele a fazer confidências; a vaidade, quando temos qualquer coisa vantajosa a dizer a nosso respeito. Nem por isso deixamos de exigir que honrem a nossa confiança.
É prudente dar a perceber algumas vezes a todos, homens e mulheres, que se pode muito bem passar sem eles; esse fato fortifica a amizade e, mesmo junto da maior parte dos homens, não é mau mostrar de vez em quando na conversa um tal ou qual desdém a seu respeito; farão assim maior caso de nossa amizade: chi non istima vien stimato, quem não estima é estimado, diz um provérbio italiano. Se encontrarmos em alguém um grande valor real, devemos esconder-lhe a nossa descoberta como se fosse um crime. Isso não é precisamente divertido; mas é assim mesmo. Os cães mal suportam a grande amizade; menos ainda os homens podem fazê-lo.
O cão, o único amigo do homem, tem um privilégio sobre todos os outros animais, um traço que o caracteriza, é esse movimento da cauda tão benévolo, tão expressivo e tão profundamente honesto. Que contraste a favor dessa maneira de saudar que lhe deu a natureza, quando se compara com as reverências e as horrorosas caretas que os homens trocam como sinal de delicadeza; essa prova de terna amizade e de dedicação da parte do cão é mil vezes mais segura, pelo menos para o presente.
O que me torna tão agradável a companhia do meu cão é a transparência do seu ser. – O meu cão é transparente como o vidro. – Se não existissem cães, não gostaria de viver.
Não há nada que traduza melhor a ignorância do mundo do que alegar, como uma prova dos merecimentos e do valor de um homem, o fato de ter amigos; como se os homens concedessem a amizade consoante o valor e o merecimento, como se não fossem antes semelhantes aos cães que estimam aquele que os afaga ou lhes dá apenas ossos, sem maior solicitude. – Aquele que melhor sabe afagar os homens, embora fossem os animais mais horrendos, é esse que tem muitos amigos.
“Nem amar, nem odiar”, é metade da sabedoria humana; “nada dizer e nada crer” a outra metade. Mas com que prazer se volta costas a um mundo que exige semelhante sabedoria.
Os amigos dizem-se sinceros; mas os inimigos é que o são: portanto dever-se-ia tomar-lhes a crítica como um remédio amargo, e aprender com eles a conhecermo-nos melhor.
Pode suceder sentirmos a morte dos nossos inimigos e dos nossos adversários, mesmo passado grande número de anos, quase tanto como a dos nossos amigos – é quando vemos que nos fazem falta para serem testemunhas dos nossos brilhantes sucessos.
A diferença entre a vaidade e o orgulho consiste em que este é uma convicção bem firme da nossa superioridade em todas as coisas; a vaidade, pelo contrário, é o desejo de despertar nos outros essa persuasão, com a esperança secreta de chegar por fim a convencer a nós mesmos.
O orgulho tem, pois, origem numa convicção interior e direta que se possui do próprio valor; a vaidade procura apoio na opinião alheia para chegar à estima de si próprio. A vaidade é faladora, o orgulho silencioso. Mas o homem vaidoso deveria saber que a alta opinião dos outros, alvo dos seus esforços, se obtém mais facilmente por um silêncio contínuo do que pela palavra, embora se tivessem para dizer as coisas mais lindas. – Não é orgulhoso quem quer, o mais que se pode é simular o orgulho, mas como todo papel de convenção, não logrará ser sustentado até o fim. Porque é apenas a convicção profunda, firme, inabalável que se tem de possuir qualidades superiores e excepcionais que dá o verdadeiro orgulho. Essa convicção, embora seja errônea, ou fundada apenas em vantagens exteriores, em nada prejudica o orgulho, se é séria e sincera, porque o orgulho tem raízes na nossa convicção, e não depende, assim como sucede com qualquer outro conhecimento, do nosso bel-prazer. O seu pior inimigo, quero dizer, o seu maior obstáculo, é a vaidade, que apenas solicita os aplausos alheios para formar uma alta opinião de si mesma, enquanto o orgulho faz supor que esse sentimento está já completamente arraigado entre nós. Há quem censure e critique o orgulho, esses sem dúvida nada possuem de que se possam orgulhar.
A natureza é o que há de mais aristocrático no mundo; toda diferença que a situação ou a riqueza estabelece entre os homens na Europa e as castas na Índia é pequena em comparação com a distância que, do ponto de vista moral e intelectual, a natureza marcou irrevogavelmente; e, na aristocracia da natureza como nas outras aristocracias, há dez mil plebeus para um nobre e milhões para um príncipe; a grande multidão é o todo, plebs, mob, rabble, a canalha.
Portanto, digamo-lo de passagem, os patrícios e os nobres da natureza deveriam, como os dos Estados, misturar-se pouco com a plebe, e viver tanto mais afastados e inacessíveis quanto mais elevados são.
A tolerância, que muitas vezes se nota e se louva nos grandes homens, é sempre resultado do mais profundo desprezo pelo resto da humanidade: quando um grande espírito se compenetra desse desprezo, deixa de considerar os homens como seus semelhantes, e de exigir deles o que se exige dos semelhantes. Usa então para com eles a mesma tolerância que tem com os outros animais, aos quais não temos que censurar a sem-razão nem a bestialidade.
Quem tem uma ideia da beleza, quer física quer intelectual, não experimenta com a vista ou o conhecimento novo desse ente que se chama o homem, outra impressão, cem vezes contra uma, a não ser a de uma amostra completamente nova, verdadeiramente original e que nunca teria imaginado, de um ente composto de fealdade, de insipidez, de vulgaridade, de perversão, de estupidez, de maldade. Quando me encontro no meio de caras novas, recorda-me a tentação de Santo Antônio de Téniers e de quadros análogas, onde a cada nova deformidade monstruosa que se me depara admiro a novidade das combinações imaginadas pelo pintor.
É a maldição do homem de gênio, que, na própria medida em que parece aos outros grande e admirável, esses lhe parecem pequenos e mesquinhos. Contudo, tem de calar toda a vida essa opinião, como eles calam a sua. Entretanto, é condenado a viver numa ilha deserta, onde não encontra ninguém que se lhe assemelhe, e sem outros habitantes senão macacos e papagaios. E é ainda vítima da ilusão, que lhe faz tomar de longe um macaco por um homem.
Devo confessá-lo sinceramente: a vista de qualquer animal regozija-me e satisfaz-me o coração; principalmente os cães, e todos os animais em liberdade, pássaros, insetos etc. Pelo contrário, a presença dos homens excita quase sempre em mim uma pronunciada aversão; porque, com poucas exceções, oferecem-me o espetáculo das deformidades mais horríveis e variadas: fealdade física, expressão moral de paixões baixas e ambições desprezíveis, sintomas de loucura e de perversidade de todas as espécies e grandezas; enfim, uma corrupção sórdida, fruto e resultado de costumes degradantes; feliz por encontrar aí os animais.

Arthur Schopenhauer, in As dores do mundo

18/05/2023

A política

O Estado, uma mordaça – O homem, um animal selvagem – Anarquia ou despotismo – O rei – Imprudência dos demagogos – Miséria inevitável – Bonaparte e Robespierre – Planos utopistas

O Estado não é mais do que uma mordaça cujo fim é tornar inofensivo esse animal carnívoro que é o homem, e dar-lhe o aspecto de um herbívoro.
O homem, no íntimo, é um animal selvagem, uma fera. Só o conhecemos domesticado, domado, nesse estado que se chama civilização, por isso recuamos assustados ante as explosões acidentais do seu temperamento. Se caíssem os ferrolhos e as cadeias da ordem legal, se a anarquia rebentasse, ver-se-ia então o que é o homem.
A organização da sociedade humana oscila como um pêndulo entre dois extremos, dois pólos, dois males opostos: o despotismo e a anarquia. Quanto mais se afasta de um, mais se aproxima do outro. Surge então o pensamento que o justo meio seria o ponto conveniente: que erro! Esses dois males não são igualmente nocivos e perigosos; o primeiro é muito menos para recear: em primeiro lugar, os golpes do despotismo só existem no estado de possibilidade, e, quando se traduzem em atos, só atingem um homem entre milhões deles. Quanto à anarquia, possibilidade e realidade são inseparáveis: os seus golpes ferem cada cidadão, o que sucede todos os dias. Por isso toda Constituição deve se aproximar muito mais do despotismo que da anarquia: deve até conter uma ligeira possibilidade de despotismo.
O rei, em lugar do “nós, pela graça de Deus”, poderia dizer mais justamente “nós, de dois males o menor”. Porque sem rei as coisas não seguiriam bem; ele é a chave de abóbada do edifício que, sem a qual, se desmoronaria.
Em toda parte, em todo o tempo, tem havido grande descontentamento contra os governos, as leis e as instituições públicas; é o resultado do estarem sempre dispostos a torná-los responsáveis pela miséria inseparável da existência humana, pois tem por origem, segundo o mito, a maldição que feriu Adão e com ele toda a raça humana. Contudo, nunca essa tendência injusta foi explorada de um modo mais mentiroso e mais impudente do que pelos nossos demagogos contemporâneos. Esses, de fato, por ódio ao cristianismo, proclamam-se otimistas: aos seus olhos, o mundo não tem fim algum fora de si mesmo, e, pela sua natureza, parece-lhes organizado na perfeição, uma verdadeira mansão de felicidade. É aos governos somente que atribuem as misérias colossais do mundo que bradam contra essa teoria; parece-lhes que, se os governos fizessem o seu dever, o céu existiria na Terra, isto é, todos os homens poderiam sem trabalho e sem cuidados comer e beber à farta, propagar-se e morrer: porque é isso o que eles entendem quando falam do progresso infinito da humanidade, de que fazem o fim da vida e do mundo, e que não se cansam de anunciar em frases pomposas e enfáticas.
A raça humana é, de uma vez por todas e por natureza, voltada ao sofrimento e à ruína; embora fosse possível com auxílio do Estado e da história remediar a injustiça e a miséria ao ponto de a Terra se tornar uma espécie de país de Cocanha, os homens chegariam a disputar por aborrecimento, precipitar-se-iam uns sobre os outros, ou então o excesso de população daria em resultado a fome, e essa os destruiria.
É extremamente raro que um homem reconheça toda a sua horrorosa malícia no espelho das suas ações. Demais, pensam realmente que Robespierre, Bonaparte, o imperador de Marrocos, os assassinos que morrem no suplício, são os únicos maus entre todos? Não veem que muitos fariam outro tanto se pudessem?
Bonaparte, falando imparcialmente, não é pior que muitos homens, para não dizer a maior parte dos homens. Apenas tem o egoísmo perfeitamente vulgar que consiste em procurar o seu bem à custa dos outros. O que o distingue é unicamente uma força superior para satisfazer essa vontade, uma inteligência mais vasta, uma razão melhor, uma maior coragem, e o acaso deu-lhe, além disso, um campo favorável. Graças a todas essas condições reunidas, realizou para o seu egoísmo o que milhares de outros bem gostariam, mas não lhes é dado fazer. Todo garoto incorrigível, que, pela maldade, procura uma pequena vantagem em detrimento dos seus camaradas, embora seja insignificante o dano que cause, é tão mau como Bonaparte.
Querem planos utopistas: a única solução do problema político e social seria o despotismo dos sábios e dos nobres, de uma aristocracia pura e verdadeira, obtida por meio da geração, pela união dos homens de sentimentos altamente generosos com as mulheres mais inteligentes e finas. Essa proposta é a minha “utopia” e a minha “república” de Platão.

Arthur Schopenhauer, in As dores do mundo

13/05/2023

A religião

A morte, mãe da religião – Necessidade metafísica – Necessidade de uma fé positiva – Insuficiência prática da moral religiosa – Catolicismo – Conflito da religião com a filosofia

Não admite dúvida que é o conhecimento da morte e a consideração do sofrimento e da miséria da existência que dão o impulso mais forte ao pensamento filosófico e às interpretações metafísicas do mundo. Se a nossa existência fosse ilimitada e isenta de dores, talvez nenhum homem tivesse tido a ideia de perguntar a si próprio porque existe o mundo e se encontra constituído justamente dessa maneira; tudo se compreenderia por si mesmo. Também assim se explica o interesse que nos inspiram os sistemas filosóficos e as religiões. Esse poderoso interesse liga-se principalmente ao dogma de uma duração qualquer após a morte; e se as religiões parecem cuidar, acima de tudo, da existência dos seus deuses, e empregar todo zelo a defendê-la, é unicamente porque ligam a essa existência o dogma da imortalidade de que a consideram inseparável: só a imortalidade os preocupa. Se fosse possível assegurar de outra maneira a vida eterna ao homem, o seu zelo ardente pelos deuses esfriaria imediatamente, e daria até lugar a uma indiferença quase absoluta, desde que lhe fosse mostrada com evidência a impossibilidade de uma vida futura… Por esse motivo, os sistemas completamente céticos ou materialistas nunca hão de exercer uma influência geral ou duradoura.
Templos e igrejas, pagodes e mesquitas, em todos os tempos, pela sua magnificência e grandeza, testemunham a necessidade metafísica do homem que, forte e indestrutível, segue passo a passo a necessidade física. Poder-se-ia, é certo, querendo empregar o tom satírico, acrescentar que a primeira necessidade é modesta e contenta-se com pouco. Fábulas grosseiras, contos para dormir em pé, é quanto lhe basta muitas vezes: se as imprimirem bastante cedo no espírito do homem, essas fábulas e essas lendas tornam-se as explicações suficientes da sua existência e os sustentáculos da sua moralidade. Considere-se, por exemplo, o Alcorão: esse livro medíocre bastou para fundar uma religião que, espalhada pelo mundo, satisfaz a necessidade metafísica de milhões de homens há mil e duzentos anos, serve-lhes de fundamento à moral, inspira-lhes grande desprezo pela morte e entusiasmo pelas guerras sangrentas e pelas vastas conquistas. Encontramos nesse livro a figura mais triste e miserável do teísmo. Talvez tenha perdido muito com as traduções; mas não me foi possível descobrir aí um único pensamento de algum valor. O que prova que a capacidade e a necessidade metafísicas não andam a par.
Não contente com os cuidados, as aflições e os embaraços que o mundo real lhe impõe, o espírito humano crê ainda num mundo imaginário sob a forma de mil superstições diversas. Essas ocupam-no de todas as maneiras; consagra-lhes o melhor do seu tempo e das suas forças, logo que o mundo real lhe conceda um repouso que não é capaz de gozar. Pode-se verificar esse fato na sua origem, entre os povos que, colocados sob um céu puro e num solo clemente, têm uma existência fácil, tal como os índios, depois os gregos, os romanos, mais tarde os italianos, os espanhóis etc. – O homem representa demônios, deuses e santos à sua imagem; exigem a todo momento sacrifícios, orações, ornamentos, promessas feitas e realizadas, peregrinações, prosternações, quadros, adornos etc. Ficção e realidade entremeiam-se ao seu serviço, e a ficção obscurece a realidade; qualquer acontecimento da vida é aceite como uma manifestação do seu poder. Os colóquios místicos com essas divindades preenchem metade dos dias, sustentam incessantemente a esperança; o encanto da ilusão torna-os muitas vezes mais interessantes que a convivência dos seres reais. Que expressão e que sintoma da miséria inata do homem, da urgente necessidade que ele tem de socorro e de assistência, de ocupação e de passatempo! E, embora perca forças úteis e instantes preciosos em súplicas e sacrifícios vãos em vez de se proteger a si mesmo, quando surgem perigos imprevistos, não cessa contudo de se ocupar e distrair nesse exercício fantástico com um mundo de espíritos com que sonha; é essa a vantagem das superstições, vantagem da qual não se deve desdenhar.
Para domar as almas bárbaras e desviá-las da injustiça e da crueldade, não é a verdade que se torna útil, porque não lhes é dado concebê-la; é portanto o erro, um conto, uma parábola. Daí vem a necessidade de ensinar uma fé positiva.
Quando se compara a prática dos fiéis à excelente moral que prega a religião cristã e mais ou menos qualquer religião, e se representa o que seria dessa moral se o braço secular não impedisse os crimes, e o que teríamos a temer, se por um único dia se suprimissem todas as leis, há de se confessar que a ação de todas as religiões sobre a moral é, na realidade, muito fraca. Certamente a culpa é da fraqueza da fé. Teoricamente e enquanto se entregam às meditações pias, todos se julgam firmes na sua fé. Mas o ato é a dura pedra de toque de todas as nossas convicções: quando se chega aos atos e se torna necessário provar a fé por grandes renúncias e duros sacrifícios, é então que se vê surgir toda a fraqueza. Quando um homem medita seriamente num delito, abre já uma brecha na moralidade pura. A primeira consideração que em seguida o detém é a da justiça e da polícia. Se passa adiante, esperando subtrair-se-lhe, o segundo obstáculo que então se apresenta é a questão da honra. Se o transpõe, pode-se apostar que depois de haver triunfado dessas duas resistências poderosas qualquer dogma religioso não terá já a força precisa para o impedir de proceder. Porque se um perigo iminente, seguro, não assusta, como se poderá recear um perigo distante e que só se funda na fé?
Na religião dos gregos a moral reduzia-se a bem pouco, tudo se limitava quase ao respeito pelo juramento, não havia moral nem dogmas oficiais; contudo não vemos que a generalidade dos gregos fosse moralmente inferior aos homens dos séculos cristãos. A moral do cristianismo é infinitamente superior a todas as das outras religiões que jamais apareceram na Europa, mas quem poderá crer que a moralidade dos europeus melhorou na mesma proporção, ou seja, atualmente superior à dos outros países? Isso constituiria um grande erro, porque se encontra entre os maometanos, os guebros, os índios e os budistas pelo menos tanta honestidade, fidelidade, tolerância, serenidade, benevolência, generosidade, abnegação como entre os outros povos cristãos. De mais, seria longa a lista das bárbaras crueldades que acompanharam o cristianismo, cruzadas injustificáveis, exterminação de uma grande parte dos habitantes primitivos da América e colonização dessa parte do mundo com escravos negros, arrancados sem direito, sem a sombra de um direito, à pátria, à família, ao solo natal e condenados por toda a vida a trabalhos forçados, perseguição incansável dos heréticos tribunais de inquisição que bradam ao céu vingança, noite de S. Bartolomeu, execução de 18 mil holandeses pelo Duque de Alba etc., outros tantos fatos pouco favoráveis que deixam incerteza sobre a superioridade do cristianismo.
A religião católica é uma instrução para mendigar o céu, que seria muito incômodo merecer. Os padres são intermediários dessa mendicidade.
A confissão foi um pensamento feliz; porque na verdade cada um de nós é um juiz moralmente perfeito e competente, conhecendo exatamente o bem e o mal, e mesmo um santo, quando ama o bem, detesta o mal. Isso é verdade com respeito a cada um de nós, contanto que o inquérito seja aos atos de outrem e não aos nossos próprios, e que se trate apenas de aprovar e reprovar, e que os outros se encarreguem da execução. Portanto, qualquer um pode, como confessor, tomar absolutamente o lugar de Deus.
As religiões são necessárias ao povo, e são para ele um benefício inapreciável. Mesmo quando elas querem se opor ao progresso da humanidade no conhecimento do verdadeiro, é preciso desviá-las com todas as atenções possíveis. Mas exigir que um grande espírito, um Goethe, um Shakespeare, aceite convictamente impliciter, bona fide et sensu próprio (Implicitamente, de boa-fé e no verdadeiro sentido) os dogmas de uma religião qualquer é exigir que um gigante calce o sapato de um anão.
Na realidade, qualquer religião positiva é usurpadora do trono que pertence à filosofia. Por isso os filósofos hão de estar sempre em hostilidade com ela, embora tenham de considerá-la como um mal necessário, um amparo para a fraqueza mórbida do espírito da maior parte dos homens.
Deus, na nova filosofia, representa o papel dos últimos reis francos com os seus mordomos-mores; é apenas um nome que se conserva para maior proveito e comodidade, a fim de se assegurar mais facilmente o caminho no mundo.

Arthur Schopenhauer, in As dores do mundo

03/05/2023

A Moral | III – Resignação, renúncia, ascetismo e libertação

Quando a ponta do véu de Maia (a ilusão da vida individual) se ergue ante os olhos de um homem, de tal modo que já não faz diferença egoísta entre a sua pessoa e os restantes homens, e toma tanto interesse pelos sofrimentos estranhos como pelos seus próprios, tornando-se assim caritativo até a dedicação, pronto a sacrificar-se pela salvação dos seus semelhantes – esse homem, chegado ao ponto de se reconhecer a si mesmo em todos os seres, considera como seus os sofrimentos infinitos de tudo quanto vive, e apodera-se, dessa maneira, da dor do mundo. Nenhuma miséria lhe é indiferente. Todos os tormentos que vê e tão raramente lhe são dados suavizar, todas as angústias de que ouve falar, mesmo aquelas que lhe é possível conceber, perturbam-lhe o espírito como se fosse ele a vítima.
Insensível às alternativas de bens e de males que se sucedem no seu destino, livre de todo egoísmo, penetra os véus da ilusão individual; tudo quanto vive, tudo quanto sofre, está igualmente junto do seu coração. Imagina o conjunto das coisas, a sua essência, a sua eterna passagem, os esforços vãos, as lutas íntimas e os sofrimentos sem fim; para qualquer lado que se volte, vê o homem que sofre, o animal que sofre, e um mundo que se desvanece eternamente. E une-se tão estreitamente às dores do mundo como o egoísta à sua pessoa. Como poderia ele, com tão grande conhecimento do mundo, afirmar com desejos incessantes a sua vontade de viver, prender-se cada vez mais estreitamente à vida?
O homem seduzido pela ilusão da vida individual, escravo do egoísmo, só vê as coisas que o tocam pessoalmente, e encontra aí motivos incessantemente renovados para desejar e querer; pelo contrário, aquele que penetra a essência das coisas, que domina o conjunto, chega ao repouso de todo desejo e de todo querer. Daí em diante, a sua vontade desvia-se da vida, repele com susto os gozos que a perpetuam. O homem chega então ao estado da renúncia voluntária, da resignação, da tranquilidade verdadeira, e da ausência absoluta de vontade.
Enquanto o mau, entregue pela violência da vontade e dos desejos a tormentos íntimos, contínuos e devoradores, se vê reduzido, quando se lhe esgota o manancial de todos os gozos, a saciar a sede ardente dos desejos no espetáculo das desgraças alheias, o homem penetrado da ideia de renúncia absoluta, seja qual for o seu desenlace, embora privado exteriormente de toda alegria e de todo bem, goza contudo uma aventura completa e um repouso verdadeiramente celeste. Para ele, não existe já o ardor febril, a alegria exuberante, essa alegria precedida e seguida de tantos desgostos, condição inevitável da existência para o homem que tem gosto pela vida; o que ele experimenta é uma paz inabalável, um repouso profundo, uma serenidade íntima, um estado que não podemos ver ou imaginar sem o desejarmos com ardor, porque se nos assemelha o único, justo, infinitamente superior a qualquer outro, um estado para o qual nos convidam e nos chamam o que há de melhor em nós e essa voz íntima que nos brada: sapere aude. Sentimos então que todo desejo realizado, toda felicidade arrancada à miséria do mundo são como a esmola que hoje sustenta o mendigo, para que amanhã morra de fome, enquanto a resignação é como um bem que se herdou, que coloca para sempre o feliz possuidor ao abrigo dos cuidados.
Sabemos que os momentos em que a contemplação das obras de arte nos livra dos desejos ávidos, como se pairássemos acima da atmosfera pesada da terra, são ao mesmo tempo os mais felizes que conhecemos.
Por aqui podemos deduzir a felicidade que deve experimentar o homem cuja vontade se acha apaziguada, não por alguns instantes como no gozo desinteressado do belo, mas para sempre, e se extingue mesmo inteiramente, de modo que só resta a última centelha da luz vacilante, que anima o corpo e se extinguirá com ele. Quando esse homem, após muitos e rudes combates contra o seu próprio temperamento, acaba por triunfar completamente, apenas existe como um ser puramente intelectual, como um espelho do mundo que coisa alguma perturba. Daí em diante nada há que possa causar-lhe angústia, que consiga agitá-lo; porque os mil laços do querer que nos mantêm acorrentados ao mundo e nos atormentam em todos os sentidos com incessantes dores sob a forma de desejo, receio, inveja, cólera, esses mil laços quebra-os ele. Lança um olhar para trás, tranquilo e risonho, às imagens ilusórias deste mundo que puderam um dia agitá-lo e torturar-lhe o coração; olha para elas com tanta indiferença como para o xadrez, depois de finda a partida ou para as máscaras de carnaval que se largaram de manhã e cujas figuras lograram irritar-nos ou perturbar-nos na noite de terça-feira gorda. A vida e todas as formas passam-lhe diante dos olhos como aparição passageira, como um ligeiro sonho matutino para o homem meio desperto, um sonho que a verdade trespassa já com os seus raios e que não consegue nos iludir; e, assim como um sonho, a vida também por fim se desvanece, sem transição brusca.
Se refletirmos sobre como a miséria e os infortúnios são geralmente necessários para a nossa libertação, reconheceremos que deveríamos invejar menos a felicidade do que a desgraça dos nossos semelhantes. É por essa razão que o estoicismo, que afronta o destino, é na verdade para a alma uma espessa couraça contra as dores da existência e ajuda a suportar melhor o presente; mas opõe-se à verdadeira salvação porque torna o coração endurecido. E como poderia o estóico tornar-se melhor pelo sofrimento, se é insensível a ele sob a camada de pedra com que se cobre? – Até um certo grau, esse estoicismo não é muito raro. Muitas vezes não passa de uma pura afetação, de um modo de dissimular o enfado; e quando é real, provém quase sempre da pura insensibilidade, da falta de energia, de vivacidade, de sentimento e de imaginação, necessária para sentir uma dor.
Quem se mata quer a vida, só se queixa das condições sob as quais ela se lhe oferece. Não renuncia portanto à vontade de viver, mas unicamente à vida, de que destrói na sua pessoa um dos fenômenos passageiros… É precisamente porque não pode cessar de querer que cessa de viver, e é suprimindo em si o fenômeno da vida que afirma o seu desejo de viver. Porque era justamente a dor a que se subtrai, que poderia, como mortificação da vontade, conduzi-lo à renúncia e à libertação. Sucede àquele que se mata o mesmo que a um doente que, não tendo a energia precisa para deixar terminar uma operação dolorosa mas salutar, preferisse continuar doente. O sofrimento suportado com coragem permitir-lhe-ia suprimir a vontade; mas subtrair-se ao sofrimento, destruindo no corpo essa manifestação da vontade, de tal modo que ela subsiste sem obstáculos.
Poucos homens, pelo simples conhecimento refletido das coisas, conseguem penetrar a ilusão do principium individuationis, poucos homens possuidores de uma perfeita bondade de alma, de caridade universal, chegam por fim a reconhecer todas as dores do mundo como as suas próprias, para obterem a negação da vontade. Mesmo nos que mais se aproximam desse grau superior, as comodidades pessoais, o encanto fascinador do momento, a visão da esperança, os desejos incessantemente renovados são um eterno obstáculo à renúncia, um eterno incentivo à vontade; donde resulta que personificaram nos demônios infinidade de seduções que nos tentam e atraem.
Tem portanto a nossa vontade que ser quebrada por um imenso sofrimento antes que chegue à renúncia de si própria. Quando ela percorreu todos os graus da angústia, quando após uma suprema resistência toca o abismo do desespero, o homem volta subitamente a si, conhece-se, conhece o mundo, transforma-se-lhe a alma, eleva-se acima de si mesmo e de todo sofrimento; então purificado, santificado de algum modo num repouso, numa felicidade inabalável, numa elevação inacessível, renuncia a todos os objetos dos seus apaixonados desejos, e recebe a morte com alegria. Como um pálido clarão, a negação da vontade de viver, isto é, a libertação, jorra subitamente da chama purificadora da dor.
Os próprios criminosos podem-se purificar por uma enorme dor; transformam-se inteiramente. Os crimes passados deixam de lhes oprimir a consciência; contudo, estão prontos a expiá-los pela morte e vêm de bom grado extinguir-se com eles esse fenômeno passageiro da vontade, que se lhes tem tornado estranho e como um objeto de horror. No tocante episódio de Gretchen, Goethe ofereceu-nos uma pintura incomparável e brilhante dessa negação da vontade causada por um imenso infortúnio e pelo desespero. É um modelo perfeito dessa segunda maneira de atingir a renúncia, a negação da vontade, não pelo puro conhecimento das dores do mundo inteiro, às quais nos identificamos voluntariamente, mas por uma dor esmagadora que nos acabrunhou.Uma grande dor, uma grande desgraça podem nos obrigar a conhecer as contradições da vontade de viver consigo mesmo, e mostrar-nos nitidamente a inutilidade de todos os esforços. É por esse motivo que se têm visto muitas vezes alguns homens, depois de uma existência agitada de paixões tumultuosas, reis, heróis, aventureiros, mudarem subitamente, resignarem-se, arrependerem-se, fazerem-se frades ou anacoretas. É esse o assunto de todas as histórias de conversões autênticas, por exemplo a de Raimundo Lulio: um dia uma mulher que ele amava havia muito marcou-lhe enfim uma entrevista em sua casa, ele entra no quarto, louco de alegria, mas a bela, entreabrindo o vestido, mostrou-lhe um seio corroído por um medonho cancro. Desde esse momento, como se tivesse entrevisto o inferno, converteu-se, abandonou a corte do rei de Maiorca, retirou-se para um deserto, fez penitência.
A conversão de Rancé assemelha-se muito à de Raimundo Lulio. Consagrara a mocidade a todos os prazeres e vivia, por fim, com uma dama de Monbazon. Uma noite, à hora da entrevista, encontra o quarto vazio, escuro, em desordem; tropeça em qualquer coisa, era a cabeça da amante que haviam separado do tronco; morrera subitamente, e não haviam conseguido meter o cadáver no caixão de chumbo colocado ali perto. – Torturado por uma angústia sem limites, Rancé tornou-se, em 1663, o Reformador da Ordem dos Trapistas, então completamente degenerada da sua antiga disciplina; em pouco tempo elevou-a a essa grandeza de renúncia que ainda hoje vemos, a essa negação da vontade, conduzida metodicamente por meio das mais duras privações, a essa vida de austeridade, de trabalhos incríveis que penetra o estrangeiro de um santo horror, quando, entrando no convento, observa ato contínuo a humildade desses verdadeiros frades que, extenuados de jejuns, de vigílias, de orações, de trabalhos, se ajoelha diante dele, filho do mundo e pecador, pedindo-lhe a benção. É entre o povo mais alegre, mais divertido, mais sensual e mais leviano – será preciso nomear a França? – que essa ordem, única entre todas, manteve-se intacta por entre todas as revoluções, e deve-se atribuir a sua duração à seriedade profunda que não se pode deixar de reconhecer no espírito que anima e que exclui qualquer consideração secundária. A decadência da religião não a atingiu, porque as raízes dessa ordem encontram-se nas profundidades da natureza humana, bem mais do que num dogma positivo qualquer.
Desviemos os olhos da nossa própria insuficiência, da mesquinhez dos nossos sentimentos e preconceitos, para os erguermos para aqueles que venceram o mundo, para aqueles em que a vontade, levada ao pleno conhecimento de si própria, se encontrou em todas as coisas e se negou livremente e que esperam que os últimos clarões se apaguem com o corpo que os anima; vemos então, em lugar dessas paixões irresistíveis, dessa atividade sem repouso, em vez dessa passagem incessante do desejo ao receio e da alegria à dor, em vez da esperança que coisa alguma satisfaz e que nunca se sacia e se dissipa, e de que é feito o sonho da vida para o homem subjugado pela vontade – vemos a paz, superior a toda razão, esse grande mar calmo do sentimento, esse sossego profundo, essa segurança inabalável, essa serenidade, cujo único reflexo no rosto, tais como Rafael e Correggio o pintaram, é um completo evangelho no qual nos podemos fiar: só resta o conhecimento; a vontade desapareceu.
O espírito íntimo e o sentido da vida verdadeira e pura do claustro e do ascetismo em geral é nos sentirmos dignos e capazes de uma existência melhor do que a nossa, e querermos fortificar e manter essa convicção pelo desprezo de todos os vãos gozos deste mundo. Espera-se com segurança e calma o fim desta vida livre das ilusões enganadoras, para saudar um dia a hora da morte como a da libertação.
Quietismo, isto é, renúncia a todo desejo; ascetismo, isto é, imolação refletida da vontade egoísta; e misticismo, isto é, consciência da identidade do seu ser com o conjunto das causas e o princípio do universo – três disposições da alma que se ligam estreitamente; quem fizer profissão de uma é atraído para a outra, mau grado seu. – Não há nada mais surpreendente do que ver o acordo de todos aqueles que nos pregaram essas doutrinas, por entre a extrema variedade dos tempos, dos países e das religiões, e nada mais curioso do que a segurança inabalável como o rochedo, a certeza interior com que nos apresentam o resultado da sua experiência íntima.
Não é na verdade o judaísmo com a sua máxima: “Deus viu todas as coisas que havia feito, e estavam muito boas” (Moisés, 1:31), mas o bramanismo e o budismo, que pelo espírito e pela tendência moral se aproximam do cristianismo. O espírito e a tendência moral são o que há de essencial numa religião, e não os mitos com que ela os envolve.
Essa máxima do Antigo Testamento é realmente estranha ao puro cristianismo; porque em todo o Novo Testamento trata-se do mundo como de uma coisa a que se não pertence, que não se ama, de uma coisa que está sob o poder do diabo. Isso concorda com o espírito do ascetismo, de renúncia e de vitória sobre o mundo, esse espírito que junto ao amor ao próximo e ao perdão das injúrias marca o traço fundamental e a estreita afinidade que unem o cristianismo, o bramanismo e o budismo. É no cristianismo principalmente que é necessário sondar bem a fundo as coisas e não se contentar com as aparências.
O protestantismo, eliminado o ascetismo e o celibato, que é o seu ponto capital, atingiu a própria essência do cristianismo, e desse ponto de vista pode ser considerado como uma apostasia. Viu-se bem nos nossos dias quanto o protestantismo degenerou pouco a pouco num vulgar racionalismo, espécie de pelagianismo moderno, que se resume na doutrina de um bom pai criando o mundo para que aí se divirtam muito (no que se teria redondamente enganado); e esse bom pai, sob certas condições, promete também procurar mais tarde aos seus servos fiéis um mundo muito mais belo, cujo único inconveniente é ter uma entrada tão funesta. Isso pode ser certamente uma boa religião para padres protestantes casados e esclarecidos, mas não é esse o cristianismo. O cristianismo é a doutrina que afirma que o homem é profundamente culpado pelo único fato de ter nascido e ensina ao mesmo tempo que o coração deve aspirar à libertação, que só se pode obter à custa de grandes sacrifícios, pela renúncia, pelo aniquilamento de si próprio, isto é, por uma transformação total da natureza humana.
O otimismo não é mais do que uma forma de louvores que a vontade de viver, única e primeira causa do mundo, concede sem razão a si mesma, quando se revê com gosto na sua obra; não é só uma doutrina falsa, é uma doutrina corruptora, porque apresenta a vida como um estado desejável, e dá-lhe como fim a felicidade do homem. Em vista disso, cada um imagina que possui os mais justificados direitos à felicidade e ao gozo; se contudo esses bens, como sucede frequentemente, não lhe são dados em partilha, julga-se vítima de uma injustiça – não lhe falhou o fim da sua existência –, ao passo que é bem mais justo considerar o trabalho, a privação, a miséria e o sofrimento coroado pela morte como o único alvo da nossa vida (assim fazem o bramanismo, o budismo e também o verdadeiro cristianismo), porque todos esses males conduzem à negação da vontade de viver. No Novo Testamento, o mundo é representado como um vale de lágrimas; a vida, como um meio de purificar a alma; e o símbolo do cristianismo é um instrumento de martírio.
A moral dos índios tal como é apresentada do modo mais variado e mais enérgico nos Vedas, nos Puranas, pelos poetas nos mitos e nas lendas dos santos, nas suas sentenças e regras de vida, prescreve expressamente: o amor ao próximo, com absoluto desprendimento de si mesmo, amor não só limitado aos homens mas a todos os seres vivos: a beneficência levada até o abandono do salário cotidiano obtido à custa de duro e pesado trabalho; uma bondade sem limites para com aquele que nos ofende; o bem e o amor em troca do mal que nos façam por maior que seja; o perdão alegre e espontâneo para todas as injúrias; a abstinência de todo alimento animal; uma castidade absoluta e a renúncia a todas as voluptuosidades para aquele que aspira à verdadeira santidade; o desprezo pelas riquezas, o abandono da moradia, da propriedade; uma solidão profunda e absoluta, passada em muda contemplação, junto a um arrependimento voluntário e sofrimentos lentos e horríveis para mortificar absolutamente a vontade, a ponto de morrer de fome; entregar-se aos crocodilos; precipitar-se do cimo de um rochedo do Himalaia, santificado por esse uso; enterrar-se vivo; lançar-se debaixo das rodas do carro gigantesco, que passeia as imagens dos deuses, no meio de cantos, gritos de alegria e danças. E essas prescrições, cuja origem data de mais de quatro mil anos, existem ainda no maior rigor entre esse povo, por muito degenerado que se encontre hoje. Um uso mantido há tanto tempo entre tantos milhões de homens, uma prática que impõe tão pesados sacrifícios, não pode ser a invenção arbitrária de algum cérebro alucinado, deve ter raízes profundas na própria essência da humanidade. – Acrescento que não se pode admirar assaz o acordo, a perfeita unanimidade de sentimentos que se nota, se lermos a vida de um santo ou a de um penitente cristão, e a de um índio. Por meio da variedade da oposição absoluta dos dogmas, dos costumes, dos meios, dos esforços, a vida íntima de um e de outro é idêntica.
Os cristãos místicos e os mestres da filosofia vedanta concordam ainda em considerar como supérfluas as obras exteriores e os exercícios religiosos para aquele que consegue atingir a perfeição.
Tão grande acordo entre povos tão diferentes, numa época muito remota, é uma prova evidente de que não se trata aqui, como declaram os banais otimistas, de uma aberração, de um desequilíbrio do espírito e dos sentidos; pelo contrário, é um lado essencial da natureza humana, um lado admirável que raramente se encontra e que se exprime nesse ascetismo.
Assim considerando a vida dos santos, que sem dúvida raramente nos é dado encontrar e conhecer por experiência própria, mas de quem a arte nos traça a história com uma verdade segura e profunda, devemos dissipar a sombria impressão deste nada, que flutua com o último objetivo atrás de toda a virtude e de toda a santidade, e que tememos, como a criança teme as trevas, em vez de procurarmos escapar como os índios, por meio de mitos e palavras destituídas de sentido, tais como a ressorção no Brama, ou o Nirvana dos budistas. Reconheçamos: o que resta após a supressão total da vontade não é coisa alguma para todos aqueles que estão ainda cheios da vontade de viver, é o nada. Mas também para aqueles nos quais a vontade chegou a desviar-se do seu fito, a negar-se a si mesma o nosso mundo, que nos parece tão real como todos os seus sóis e as suas vias lácteas, o que é? Nada.

Arthur Schopenhauer, in As dores do mundo

19/04/2023

A Moral | II – A Piedade

A piedade é esse fato admirável, misterioso, pelo qual vemos a linha de demarcação, que aos olhos da razão separa totalmente um ser do outro, desaparecer e o eu não se tornar de modo algum o eu.
Só a piedade é o princípio real de toda justiça livre e de toda caridade verdadeira. A piedade é um fato incontestável da consciência do homem; é-lhe essencialmente própria e não depende de noções anteriores, de ideias a priori, religiões, dogmas, mitos, educação e cultura; é o produto espontâneo, imediato, inalienável da natureza; resiste a todas as provas, e mostra-se em todos os tempos e em todos os países; em toda parte é invocada com confiança, tão grande é a certeza de que ela existe em todos os homens, e nunca é contada entre os “deuses estranhos”. O ente que não conhece a piedade está fora da humanidade, e essa mesma palavra humanidade é muitas vezes tomada como sinônimo de piedade.
Pode-se objetar a toda boa ação que nasce unicamente das convicções religiosas, que não é desinteressada, que procede do pensamento de uma recompensa ou de um castigo que se espera, enfim, que não é puramente moral. – Considerando-se o móbil moral da piedade, quem ousaria contestar que em todas as épocas, em todos os povos, em todas as situações da vida, em plena anarquia, no meio dos horrores das revoluções e das guerras, nas grandes como nas pequenas coisas, todos os dias, todas as horas, a piedade não prodigaliza os seus efeitos benéficos e verdadeiramente maravilhosos, não impede muitas injustiças, não provoca de improviso mais de uma boa ação sem esperança de recompensa, e que em toda parte onde atua só reconhecemos nela, com admiração e comoção, o puro valor moral sem mistura?
Inveja e piedade, todos têm em si esses dois sentimentos diametralmente opostos; origina-os a comparação involuntária, inevitável da nossa própria situação com a dos outros; segundo essa comparação, reage sobre cada caráter individual um ou outro desses sentimentos, torna-se uma disposição fundamental e a origem dos nossos atos. A inveja só faz elevar, engrossar, consolidar o muro que se erguia entre tu e eu; a piedade, pelo contrário, torna-o delgado e transparente, por vezes derruba-o completamente, e dissipa-se, desse modo, toda a diferença entre eu e os outros homens.
Quando travamos conhecimento com um homem, não tratamos de lhe pesar a inteligência, o valor moral, o que nos levaria a reconhecer-lhe a maldade das intenções, a escassez da razão, a falsidade dos raciocínios, e só nos despertaria desprezo e aversão; consideremos, antes, os seus sofrimentos, misérias, angústias, dores, e assim sentiremos quanto ele nos toca de perto; é então que despertará a nossa simpatia e que, em lugar de ódio e de desprezo, experimentaremos por ele essa piedade, que é o único ágape a que o Evangelho nos convida.
Se considerarmos a perversidade humana e nos dermos pressa em nos indignar com ela, é preciso imediatamente lançar os olhos sobre a miséria da existência humana e, reciprocamente, se a miséria nos assusta, considerar a perversidade; achar-se-á então que se equilibram uma à outra, e reconhecer-se-á a justiça eterna; ver-se-á que o próprio mundo é o julgamento do mundo.
A cólera, embora deveras legítima, acalma-se logo perante a ideia de que aquele que nos ofendeu é um desgraçado. O que a chuva é para o fogo é a piedade para a cólera. Aconselho àquele que não deseja preparar-se remorsos que, quando pense em vingar cruelmente uma injúria, imagine sob as mais vivas cores a sua vingança já realizada, represente-se a sua vítima presa de sofrimentos físicos e morais, em luta com a miséria e a necessidade, e diga a si próprio: eis a minha obra. Se há alguma coisa no mundo que possa extinguir a cólera é com certeza esse pensamento.
O que faz que os pais tenham geralmente maior predileção pelos filhos doentes é que a sua aparência solicita incessantemente a piedade.
A piedade, princípio de toda moralidade, toma também os animais sob a sua proteção, ao passo que os outros sistemas de moral europeia têm para com eles pouquíssima responsabilidade e solicitude. A suposta ausência de direitos dos animais, o preconceito de que o nosso procedimento para com eles não tem importância moral, que não existem, como se diz, deveres para com os animais, é justamente uma ignorância revoltante, uma barbaridade do ocidente, cuja origem está no judaísmo…
É preciso recordar a esses desprezadores dos animais, a esses ocidentais judaizados, que assim como eles foram amamentados pelas mães, também o cão teve mãe que o amamentou.
A piedade com os animais está tão intimamente ligada à bondade de caráter que se pode afirmar que quem é cruel com os animais não pode ser bom.
Uma piedade sem limites para com todos os seres vivos é o penhor mais firme e seguro do procedimento moral; isso não exige nenhuma casuística. Pode-se ter a certeza de que aquele que a possui nunca ofenderá ninguém, nem lhe causará dano nos seus direitos ou na sua pessoa; pelo contrário, será indulgente para com todos, perdoará a todos, prestará socorro ao seu semelhante na medida das suas forças, e todos os seus atos terão o cunho da justiça e do amor pelo próximo. Tentem alguma vez dizer: “Este homem é virtuoso, mas desconhece inteiramente a piedade”, ou então: “É um homem injusto e mau, contudo é muito sensível aos males alheios”; a contradição, nesse caso, torna-se frisante. – Nem todos têm os mesmos gostos; mas não conheço melhor súplica do que aquela com que terminam as peças antigas do teatro índio (como outrora as peças inglesas concluíam com estas palavras: “pelo rei”).
É este o sentido: 
“Que todos os seres vivos se conservem isentos de dores!”

Arthur Schopenhauer, in As dores do mundo

15/04/2023

A Moral

A virtude, assim como o gênio, não se ensina; a ideia que se faz da virtude é estéril, e só pode servir de instrumento, como as coisas técnicas em matéria de arte. Esperar que os nossos sistemas de moral e as nossas éticas possam tornar os homens virtuosos, nobres e santos é tão insensato como imaginar que os nossos tratados sobre estética possam produzir poetas, escultores, pintores e músicos.
Não há senão três causas fundamentais das ações humanas, e nada se faz sem elas. Temos: a) o egoísmo, que quer o seu próprio bem (não tem limites); b) a maldade, que deseja o mal de outrem (vai até a extrema crueldade); c) a piedade, que quer o bem de outrem (vai até a generosidade, à grandeza de alma). Toda ação humana depende de uma dessas três causas, ou mesmo de duas.

I – O Egoísmo

O egoísmo inspira um tal horror que inventamos a delicadeza para ocultá-lo como uma parte vergonhosa; mas ele rasga todos os véus, e trai-se em todo encontro em que nos esforçamos instintivamente por utilizar cada novo conhecimento a fim de servir a alguns dos nossos inúmeros projetos. O nosso primeiro pensamento é sempre saber se tal homem nos pode ser útil para alguma coisa. Se não nos pode servir, já não tem valor algum… Suspeitamos a tal ponto desse sentimento em nossos semelhantes que, se nos suceder pedir-lhes um conselho ou um esclarecimento, perdemos toda a confiança no que nos disserem se supusermos, por um momento, que têm aí um interesse qualquer; porque pensamos imediatamente que o nosso conselheiro quer servir-se de nós como de um instrumento; e atribuímos o seu parecer não à prudência da sua razão, mas às suas intenções secretas, por muito grande que seja a primeira, por muito fracas e distantes que sejam as segundas.
O egoísmo, por natureza, não tem limites; o homem só tem um desejo absoluto, conservar a existência, eximir-se de qualquer dor, de qualquer privação; o que almeja é a maior soma possível de bem-estar, é a posse de todos os gozos de que é capaz de imaginar, e que se esforça por variar e desenvolver incessantemente. Qualquer obstáculo que surja entre o seu egoísmo e as suas cobiças excita-lhe a raiva, a cólera, o ódio: é um inimigo que é preciso esmagar. Desejaria tanto quanto possível gozar tudo, possuir tudo; não o podendo, almejaria pelo menos dominar tudo: “Tudo para mim, nada para os outros”, é a sua divisa. O egoísmo é colossal, o universo não pode contê-lo. Porque se dessem a cada um a escolha entre o aniquilamento do universo e a sua própria perda, é ocioso dizer qual a resposta.
Cada um considera-se o centro do mundo, açambarca tudo, até as próprias agitações dos impérios se consideram primeiro do ponto de vista do interesse de cada um, por muito ínfimo e distante que possa estar. Haverá contraste mais surpreendente? De um lado, esse interesse superior, exclusivo, que cada um tem por si mesmo; e, do outro, esse olhar indiferente que lança a todos os homens. Chega a ser uma coisa cômica, essa convicção de tanta gente procedendo como se só eles tivessem uma existência real, e os seus semelhantes fossem meras sombras, puros fantasmas.
Para pintar de um traço a enormidade do egoísmo numa hipérbole empolgante, cheguei a isto: Muita gente seria capaz de matar um homem para se apoderar da gordura do morto e untar com ela as botas. Só me resta um escrúpulo: será realmente uma hipérbole?
O Estado, essa obra-prima de egoísmo inteligente e raciocinado, esse total de todos os egoísmos individuais, colocou os direitos de cada um nas mãos de um poder infinitamente superior ao poder do indivíduo, e que o obriga a respeitar os direitos dos outros. É assim que são lançados na sombra o egoísmo desmedido de quase todos, a maldade de muitos, a ferocidade de alguns; a sujeição mantém-nos acorrentados, daí resulta uma aparência enganadora. Mas o poder protetor do Estado encontra-se, como às vezes sucede, sofismado ou paralisado, vê-se surgir à luz do dia os apetites insaciáveis, a sórdida avareza, a secreta falsidade, a maldade, a perfídia dos homens, e então recuamos, gritamos, como se esbarrássemos com um monstro ainda desconhecido; contudo, sem a sujeição das leis, sem a necessidade que há da honra e da consideração, todas essas paixões triunfariam constantemente.
É necessário ler as coisas célebres, a história dos tempos da anarquia, para saber o que há no íntimo do homem, o que vale a sua moralidade! Esses milhares de entes que temos à vista, obrigando-se mutuamente a respeitar a paz, são outros tantos tigres e lobos, que uma forte mordaça impede de morder. Suponha-se a força pública suprimida, a mordaça tirada, recuar-se-ia de medo ante o espetáculo que se teria à vista, e que todos imaginam facilmente; não é isto confessar quão pouco os homens se fundam na religião, na consciência, na moral, seja qual for a sua base? Todavia, é então que, em face dos sentimentos egoístas, antimorais, entregues a eles mesmos, se veria igualmente o verdadeiro instinto moral do homem revelar-se, desenvolver o seu poder, e mostrar o que pode fazer; e ver-se-ia que há tanta variedade nos caracteres morais como há variedades de inteligência, o que não é dizer pouco.
Tem a consciência origem na natureza? Pode-se duvidar. Pelo menos, há também uma consciência bastarda, conscientia spuria, que se confunde frequentemente com a verdadeira. A angústia e o arrependimento causados pelos nossos atos não são muitas vezes outra coisa senão receio das consequências. A violação de certas regras exteriores, arbitrárias e mesmo ridículas, desperta escrúpulos perfeitamente análogos aos remorsos de consciência. É por esse motivo que certos judeus ficarão obsediados com a ideia de terem fumado o cachimbo em sua casa ao sábado, contrariamente ao preceito de Moisés, capítulo XXXV, parágrafo 3º: “não se acenderá o lume no dia de sábado em vossas casas”. Certo fidalgo, certo oficial, não se consola por haver faltado numa ocasião qualquer às regras desse código dos loucos, que se chama ponto de honra, de tal modo que mais de um, não lhe sendo possível manter a sua palavra ou satisfazer as exigências do código da honra, deu um tiro nos miolos (conheço exemplos). Todavia, esse mesmo homem violará todos os dias, com a maior facilidade, a sua palavra, contanto que não tenha acrescentado este termo fatídico, este Schiboleth: pela honra.
Em geral, uma inconsequência, uma imprevidência, qualquer ato contrário aos nossos projetos, aos nossos princípios, às nossas convenções, seja de que natureza forem, e mesmo qualquer indiscrição, qualquer imperícia, qualquer grosseria, deixam após elas um verme que nos rói em silêncio, um espinho enterrado no coração. Muita gente se espantaria se visse os elementos de que se compõe essa consciência, de que formam uma ideia tão grandiosa: cerca de 1/5 de medo dos homens; 1/5 de temores religiosos; 1/5 de preconceitos; 1/5 de vaidade; 1/5 de hábito; tanto valeria dizer como o inglês: I cannot afford to keep a conscience: Não sou assaz rico para ter o luxo de uma consciência.
Embora os princípios e a razão abstrata não sejam de modo algum a origem primitiva ou o primeiro fundamento da moralidade, são contudo indispensáveis à vida moral; é como um reservatório alimentado pela fonte de toda a moralidade, mas que não corre a todo instante, que se conserva, e no momento útil pode espalhar-se onde se torna necessário… Sem princípios firmes, os instintos antimorais, uma vez postos em movimento pelas expressões exteriores, dominar-nos-iam imperiosamente. Manter a firmeza dos princípios, segui-los a despeito dos motivos opostos que nos solicitam, é o que se chama ser senhor de si.
Os atos e o procedimento de um indivíduo e de um povo podem ser modificados pelos dogmas, pelo exemplo, e pelo hábito; mas os atos considerados em si próprios são apenas imagens vãs, é a disposição do espírito que impele a praticá-los, que lhes dá uma importância moral. Esta pode conservar-se absolutamente a mesma, embora tenha manifestações exteriores completamente diferentes. Com um grau igual de maldade, um pode morrer no cadafalso, e outro acabar o mais sossegadamente possível no meio dos seus. Pode o mesmo grau de maldade exprimir-se num povo por meio de atos grosseiros, mortes, selvageria, num outro, suavemente e em miniatura, por intrigas da corte, opressões e velhacarias sutis de toda espécie; o fundo das coisas é o mesmo. Poder-se-ia imaginar um Estado perfeito, ou mesmo, talvez, um dogma inspirando uma fé absoluta nas recompensas e nos castigos depois da morte, que lograsse evitar todos os crimes: politicamente seria muito, moralmente não se ganharia coisa alguma, só os atos seriam acorrentados e não a vontade. Os atos poderiam ser corretos, a vontade permaneceria pervertida.

Arthur Schopenhauer, in As dores do mundo

11/04/2023

A Arte

A arte é uma redenção – Ela livra da vontade, e portanto da dor – Torna as imagens da vida cheias de encanto – A sua missão é reproduzir-lhe todas as cambiantes, todos os aspectos – Poesia lírica – Tragédia, comédia – Pintura – Música; a ação do gênio é aí mais sensível do que noutra arte

Todo desejo nasce de uma necessidade, de uma privação, de um sofrimento. Satisfazendo-o, acalma-se; mas embora se satisfaça um, quantos permanecem insaciados! De mais, o desejo dura muito tempo, as exigências são infinitas, o gozo é curto e avaramente medido. E mesmo esse prazer, uma vez obtido, é apenas aparente; sucede-lhe outro: o primeiro é uma ilusão dissipada; o segundo, uma ilusão que dura ainda. Nada há no mundo capaz de apaziguar a vontade, nem fixá-la de um modo duradouro; o mais que se pode obter do destino parece sempre uma esmola, que se lança aos pés do mendigo, que só conserva a vida hoje para prolongar o seu tormento amanhã. Assim, enquanto estamos sob o domínio dos desejos, sob o império da vontade, enquanto nos abandonamos às esperanças que nos acometem, aos temores que nos perseguem, ele não é para nós nem repouso nem felicidade amável. Quer nos encarnicemos em qualquer perseguição ou fujamos ante qualquer ameaça, agitados pela expectativa ou pela apreensão, no fundo é a mesma coisa: os cuidados, que nos causam as exigências da vontade sob todas as formas, não cessam de nos perturbar e atormentar a existência. Assim o homem, escravo da vontade, está continuamente preso à roda de Ixion, enche sempre o tonel das Danaides, é o Tântalo devorado de eterna sede.
Mas quando uma circunstância estranha ou a nossa harmonia interior nos arrebata por um momento à torrente infinita do desejo, nos livra o espírito da opressão da vontade, nos desvia a atenção de tudo que a solicita, e as coisas nos aparecem desligadas de todos os prestígios da esperança, de todo interesse próprio, como objetos de contemplação desinteressada e não de cobiça; é então que esse repouso, frustrantemente procurado nos caminhos abertos do desejo, mas que sempre nos fugiu, se apresenta e nos dá o sentimento da paz em toda a sua plenitude. É esse o estado livre de dores que celebrava Epicuro como o maior de todos os bens, como a felicidade dos deuses; porque nos vemos por um momento livres da pesada pressão da vontade, celebramos o Sabat depois dos trabalhos forçados da vontade, a roda de Ixion pára… Que importa então que se goze o pôr-do-sol da janela de um palácio, ou por entre as grades de uma prisão!
Acordo íntimo, predomínio do puro pensamento sobre a vontade, pode produzir-se em todo lugar. Testemunhas são esses admiráveis pintores holandeses, que souberam ver de um modo tão objetivo coisas tão pequenas, e que nos deixaram uma prova tão duradoura de desinteresse e de placidez de espírito nas cenas íntimas. O espectador não pode observá-las sem se comover, sem se representar o estado de espírito do artista, tranquilo, sereno, com o maior sossego, tal como era necessário para fixar a atenção sobre objetos insignificantes, indiferentes, e reproduzi-los com tanta solicitude; e a impressão é ainda mais forte porque observando-nos a nós mesmos, admiramo-nos dos contrastes dessas pinturas tão calmas com os nossos sentimentos sempre obscurecidos, sempre agitados pelas inquietações e pelos desejos.
Basta lançar um olhar desinteressado sobre qualquer homem, qualquer cena da vida, e reproduzi-los com a pena ou o pincel para que logo pareçam cheios de interesse e de encanto, e verdadeiramente dignos de inveja; mas se tomamos parte nessa situação, se somos esse homem, oh! então, como muitas vezes se diz, só o diabo poderia sustentá-la. É o pensamento de Goethe:

De tout se qui nous chagrine dans la vie
La peinture nous plait…(1)

Quando eu era novo, houve um tempo em que me esforçava incessantemente para representar todos os meus atos, como se se tratasse de uma outra pessoa. – Provavelmente para melhor gozá-los.
As coisas só têm atrativo enquanto não nos tocam. A vida nunca é bela, só os quadros da vida são belos, quando o espelho da poesia os ilumina e os reflete, principalmente na mocidade, quando ignoramos ainda o que é viver.
Apoderar-se da inspiração no seu voo e dar-lhe um corpo nos versos, tal é a obra da poesia lírica. E é contudo a humanidade inteira, nos seus íntimos arcanos, que reflete o verdadeiro poeta lírico; e todos os sentimentos que milhões de gerações passadas, presentes e futuras experimentaram e hão de experimentar nas mesmas circunstâncias que se reproduzirão sempre encontram na poesia a expressão viva e fiel… O poeta é homem, universal: tudo o que agitou o coração de um homem, tudo o que a natureza humana, em todas as circunstâncias pôde experimentar e produzir, tudo o que reside e fermenta num ser mortal – é esse o seu domínio que se estende a toda a natureza. Por isso o poeta pode contar tão bem a voluptuosidade como o misticismo, ser Angelus Silésius ou Anacreonte, escrever tragédias ou comédias, representar sentimentos nobres ou vulgares, segundo a fantasia ou a vocação. Ninguém poderia prescrever ao poeta ser nobre, elevado, moral, piedoso e cristão, ser ou não ser isto ou aquilo, porque ele é o espelho da humanidade e apresenta-lhe a imagem clara e fiel do que ela sente.
É um fato deveras notável e realmente digno de atenção que o objeto de toda a alta poesia seja a representação do lado medonho da natureza humana, a dor sem nome, os tormentos dos homens, o triunfo da maldade, o domínio irônico do acaso, a queda irremediável do justo e do inocente: é este um sinal notável da constituição do mundo e da existência… Não vemos nós na tragédia os entes mais nobres, após longos combates e prolongados sofrimentos, renunciarem para sempre aos desígnios que até ali perseguiam com violência, ou desviarem-se de todos os gozos da vida voluntariamente e com prazer: como o príncipe de Calderon; Gretchen, no Fausto; Hamlet, a quem o fiel Horácio seguiria da melhor vontade, mas que lhe promete ficar e viver ainda algum tempo num mundo tão cruel, tão cheio de dores, para contar o destino de Hamlet e purificar-lhe a memória; assim também Joana d’Arc, e a noiva de Messine: todos morrem purificados pelos sofrimentos, isto é, depois de se extinguir neles a vontade de viver…
O verdadeiro sentido da tragédia é essa observação profunda, que as faltas espiadas pelo herói não são as dele, mas as faltas hereditárias, isto é, o próprio crime de existir:

Pues el delito mayor
Del hombre es haber nacido.(2)

A tendência e o último objeto da tragédia é inclinar-nos à resignação, à negação da vontade de viver; a comédia, é certo, como toda representação da vida humana, coloca-nos inevitavelmente diante dos olhos os sofrimentos e os lados repugnantes, mas mostra-os como males passageiros, que acabam por desaparecer numa alegria final, como um misto de sucessos, de vitórias e de esperanças que triunfam por fim; e, além disso, faz sobressair o que há de constantemente alegre, risível, até nas mil e uma contrariedades da vida, a fim de nos conservar de bom humor, seja em que circunstância for. Afirma, portanto, como último resultado, que a vida considerada no seu conjunto é muito boa, sobretudo agradável e muito divertida. É preciso, bem entendido, deixar cair o pano depressa sobre o alegre desenlace, para que não se possa ver o que sucede em seguida; enquanto, geralmente, a tragédia acaba de tal modo que não pode suceder mais nada.
O poeta épico ou dramático não deve ignorar que ele é o destino e que deve ser implacável como este – ele é ao mesmo tempo o espelho da humanidade e tem de apresentar na cena caracteres maus e por vezes infames, loucos, tolos, espíritos acanhados, de vez em quando um personagem razoável ou prudente, ou bom, ou honesto, e muito raramente, com a mais singular das exceções, um caráter generoso. – Em todo Homero, não há, me parece, um caráter verdadeiramente generoso, embora se encontrem muitos bons e honestos; em Shakespeare, acha-se um ou dois e ainda assim, na sua nobreza, nada há de sobre-humano, é Cordélia, Coriolano; seria difícil enumerar mais algum, enquanto os outros se cruzam aí em quantidade… Na Minna de Barnhelm, de Lessing, há excesso de escrúpulo e de nobre generosidade de todos os lados. De todos os heróis de Goethe, combinados e reunidos, dificilmente se formaria um caráter de uma generosidade tão quimérica como o Marquês de Posa.
Não há um só homem nem uma só ação que não tenha a sua importância; em todos e entre tudo, se desenvolve mais ou menos a ideia da humanidade. Não há circunstância na existência humana que seja indigna de ser reproduzida pela pintura. Por isso mostram-se injustos para com os admiráveis pintores da escola holandesa, quando se limitam a louvar-lhes a habilidade técnica; com respeito ao resto, olham-nos de cima, com desdém, porque representam, a maior parte das vezes, fatos da vida comum, e só se confere importância aos assuntos históricos ou religiosos. Dever-se-ia primeiro pensar que o interesse de uma ação não tem relação alguma com a sua importância exterior, e que há, por vezes, entre os dois uma grande diferença.
A importância exterior de uma ação avalia-se pelas suas consequências para o mundo real e no mundo real. A sua importância interior é a vista profunda que ela nos oferece da própria essência da humanidade, colocando em plena luz certos lados dessa natureza, muitas vezes despercebidos, escolhendo certas circunstâncias favoráveis em que as particularidades se exprimem e se desenvolvem.
A importância interior só tem valor para a arte, a exterior, para a história. Uma e outra são absolutamente independentes, e tanto podem se encontrar separadas como reunidas. Um ato capital na história pode, considerado em si mesmo, ser da última banalidade, da última insignificância; e, reciprocamente, uma cena da vida cotidiana, uma cena íntima, pode ter um grande interesse ideal, se coloca em plena e brilhante luz seres humanos, atos e desejos humanos até os mais ocultos recônditos. Sejam quais forem a importância do fim que se prossegue e as consequências do ato, o traço da natureza pode ser o mesmo; assim, por exemplo, quer sejam ministros inclinados sobre um mapa disputando-se territórios e povos, quer sejam os camponeses numa taberna discutindo por causa de um jogo de cartas ou dados, não importa absolutamente nada: assim como é indiferente jogar o xadrez com peões de ouro ou com figuras de madeira.
A música não exprime nunca o fenômeno, mas unicamente a essência íntima de todo fenômeno, numa palavra, a própria vontade. Portanto, não exprime uma alegria especial ou definida, certas tristezas, certa dor, certo medo, certo transporte, certo prazer, certa serenidade de espírito, mas a própria alegria, a tristeza, a dor, o medo, os transportes, o prazer, a serenidade do espírito; exprime-lhes a essência abstrata e geral, fora de qualquer motivo ou circunstância. E, todavia, nessa quinta essência abstrata, sabemos compreendê-la perfeitamente.
A invenção da melodia, a descoberta de todos os segredos mais íntimos da vontade e da sensibilidade humana, é a obra do gênio. A sua ação é aí mais visível que em qualquer outro assunto, mais irrefletida, mais livre de toda intenção consciente, é uma verdadeira inspiração. A ideia, isto é, o conhecimento preconcebido das coisas abstratas e positivas é, neste ponto como em toda a arte, absolutamente estéril: o compositor revela a essência mais íntima do mundo e exprime a sabedoria mais profunda numa linguagem que a sua razão não compreende; do mesmo modo que uma sonâmbula dá respostas claríssimas a respeito de assuntos sobre os quais, desperta, não tem conhecimento algum.
O que há de íntimo e inexplicável em toda música, o que nos procura a visão rápida e passageira de um paraíso familiar e inacessível ao mesmo tempo, que compreendemos e que contudo não lograríamos explicar, é ela dar uma voz às profundas e surdas agitações do nosso ser, fora de toda a realidade, e por conseguinte, sem sofrimento.
Assim como há em nós duas disposições essenciais do sentimento, a alegria ou ainda o bom humor, a aflição ou ainda a melancolia, assim a música tem duas tonalidades gerais correspondentes, o sustenido e o bemol, e conserva-se quase sempre numa ou noutra. Mas na verdade não é extraordinário que haja um sinal – o bemol – exprimindo a dor, que não seja doloroso, nem fisicamente, nem sequer por convenção, e contudo tão expressivo que ninguém se possa enganar? Por esse fato se pode avaliar a que ponto a música entra na natureza íntima do homem e das coisas. Entre os povos do Norte, cuja existência é submetida a tão rudes provas, mormente entre os russos, é o bemol que domina, mesmo na música de igreja.
O allegro em bemol é muito frequente na música francesa, e muito característico; é como se alguém fosse dançar com sapatos que o incomodassem.
As frases curtas e claras da música de dança de andamento rápido só parecem exprimir uma felicidade comum, fácil de atingir; o allegro maestoso, com as suas grandes frases, exprime um esforço grande e nobre, para um fim distante que se acaba por atingir. O adágio fala-nos dos sofrimentos de um grande e nobre esforço, que despreza toda a alegria mesquinha. O que é, porém, mais surpreendente, é o efeito do bemol e do sustenido. Não é admirável que a mudança de um meio tom, a introdução de uma terça menor em lugar de uma maior, dê imediatamente uma sensação inevitável de dor e de inquietação, de que o sustenido logo nos livra? O adágio em bemol eleva-se até a expressão da dor suprema, torna-se um queixume dilacerante. A música de dança em bemol exprime a decepção de uma felicidade medíocre, que se deveria desdenhar, dir-se-ia que nos descreve a perseguição de algum fim inferior, obtido finalmente depois de muitos esforços e aborrecimentos.
Uma sinfonia de Beethoven descobre-nos uma ordem maravilhosa sob a desordem aparente; é como um combate encarniçado, que passado um momento se resolve num belo acordo: é o rerum concordia discors(3) – uma imagem fiel e perfeita da essência deste mundo, que gira dentre o espaço sem pressa e sem repouso, num tumulto indescritível de formas sem número, que se dissipam incessantemente. Mas ao mesmo tempo, por meio desta sinfonia falam todas as paixões, todas as comoções humanas, alegria, tristeza, amor, ódio, medo, esperança, com infinitos cambiantes, e contudo perfeitamente abstratas, sem coisa alguma que as distinga nitidamente umas das outras. É uma forma sem matéria, como um mundo de espíritos aéreos.
Depois de haver meditado longamente sobre a essência da música, recomendo o gozo dessa arte como a mais deliciosa de todas. Não há outra que atue mais diretamente, mais profundamente, porque também não há outra que revele mais diretamente e mais profundamente a verdadeira natureza do mundo. Ouvir longas e belas harmonias é como um banho de espírito: purifica de toda a mancha, de tudo o que é mau, mesquinho; eleva o homem e sugere-lhe os pensamentos mais nobres que lhe seja dado ter, e ele então sente claramente tudo o que vale, ou antes, quanto poderia valer.
Quando ouço música, a minha imaginação compraz-se muitas vezes com o pensamento de que a vida de todos os homens e a minha própria vida não são mais do que sonhos de um espírito eterno, bons e maus sonhos; de cada morte é o despertar.

(1) Dentre tantas coisas que nos causam infelicidade na vida, / A pintura nos dá prazer…
(2) Então, o maior crime / Do homem é ter nascido.
(3) A harmonia dissonante das coisas.

Arthur Schopenhauer, in As dores do mundo