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29/04/2025

O crime foi em Granada

Imagem na internet, sem autoria

Justamente quando escrevo estas linhas, a Espanha oficial celebra muitos – tantos! – anos desde a insurreição. Neste momento, em Madri, o Caudilho vestido de ouro e azul, rodeado pela guarda moura, junto ao embaixador norte-americano, ao da Inglaterra e a vários outros, passa as tropas em revista. Tropas compostas, em sua maioria, de rapazes que não conheceram aquela guerra.
Eu é que a conheci. Um milhão de espanhóis mortos! Um milhão de exilados! Parecia que jamais se apagaria da consciência humana esse espinho sangrento. No entanto, os rapazes que agora desfilam diante da guarda moura provavelmente ignoram a verdade dessa história tremenda.
Tudo começou para mim na noite de 19 de julho de 1936. Um chileno simpático e aventureiro, chamado Bobby Deglané, era empresário de catch-as-catch-can no grande circo Price de Madri. Manifestei-lhe minhas reservas sobre a seriedade desse esporte e ele me convenceu de que eu fosse ao circo, junto com García Lorca, para verificar a autenticidade do espetáculo. Convenci Federico e ficamos de nos encontrar ali numa hora combinada. Passaríamos o tempo vendo as truculências do Troglodita Mascando, do Estrangulador Abissínio e do Orangotango Sinistro.
Federico faltou ao encontro marcado. Já estava a caminho da morte. Nunca mais nos vimos. Seu encontro era com outros estranguladores. E desse modo a guerra da Espanha, que mudou minha poesia, começou para mim com o desaparecimento de um poeta.
Que poeta! Nunca vi reunidos como nele a graça e o gênio, o coração alado e a cascata cristalina. Federico García Lorca era o duende dissipador, a alegria centrífuga que recolhia no seio e irradiava como um planeta a felicidade de viver. Ingênuo e brincalhão, cômico e provinciano, músico singular, mímico esplêndido, impressionável e supersticioso, radiante e gentil, era uma espécie de resumo das idades da Espanha, do florescimento popular, um produto árabeandaluz que iluminava e perfumava como um jasmineiro todo o cenário daquela Espanha, ai de mim!, desaparecida.
Seduzia-me o grande poder metafórico de García Lorca e me interessava tudo o que escrevia. Por sua vez ele me pedia às vezes que eu lesse para ele meus últimos poemas e, no meio da leitura, me interrompia aos gritos: “Não continua, não continua, que me influencias!”
No palco e no silêncio, na multidão e na intimidade, era um multiplicador da beleza. Nunca vi ninguém com tanta magia nas mãos, nunca tive um irmão mais alegre. Ria, cantava, fazia música, saltava, inventava, era uma chispa constante. Pobrezinho! Tinha todos os dons do mundo e, assim como foi um trabalhador de ouro, uma abelha-mestra da poesia maior, era um perdulário de seu talento.
Escuta – dizia, tomando-me pelo braço –, estás vendo essa janela? Não achas que é chorpatélica?
E que significa chorpatélica?
Também não sei mas temos que saber o que é ou não chorpatélico. Senão estamos perdidos. Olha esse cachorro como é chorpatélico!
Ou me contava que num colégio de meninos de tenra idade, em Granada, convidaram-no para uma comemoração do Quixote e que, quando chegou na sala de aula, todos os meninos cantaram sob a direção da diretora:

Sempre sempre será celebrado
de um a outro confim
este livro que foi comentado
por Dom F. Rodriguez Marín.

Certa vez dei uma conferência sobre García Lorca, anos depois de sua morte, e um dos espectadores me perguntou:
Porque o senhor disse na Ode a Federico que por ele “pintam de azul os hospitais”?
Olhe, companheiro – respondi –, fazer perguntas desse tipo a um poeta é como perguntar a idade das mulheres. A poesia não é uma matéria estática mas uma corrente fluida que muitas vezes escapa das mãos do próprio criador. Sua matéria-prima está composta de elementos que são e ao mesmo tempo não são, de coisas existentes e inexistentes. De qualquer modo tratarei de responder-lhe com sinceridade. Para mim a cor azul é a mais bela das cores. Tem a implicação do espaço humano, como a abóbada celeste, em direção à liberdade e à alegria. A presença de Federico, sua magia pessoal, impunham uma atmosfera de júbilo ao seu redor. Meu verso provavelmente quer dizer que inclusive os hospitais, inclusive a tristeza dos hospitais, podiam se transformar sob o sortilégio de sua influência e se verem convertidos subitamente em belos edifícios azuis.
Federico teve uma antevisão de sua morte. Certa vez que voltava de uma tournée teatral me chamou para contar um fato muito estranho. Com os artistas de “La Barraca” tinha chegado a um povoado longínquo de Castilla, acampando nas redondezas. Fatigado pelas preocupações da viagem, Federico não conseguia dormir. Ao amanhecer levantou-se e saiu a vagar sozinho pelos arredores. Fazia frio, esse frio de punhal que Castilla reserva para o viajante, para o forasteiro. A névoa se desprendia em massas brancas e convertia tudo em sua dimensão fantasmagórica.
Um grande gradil de ferro oxidado, estátuas e colunas em ruínas, caídas entre as folhas secas. Deteve-se na porta de uma antiga propriedade. Era a entrada para o extenso parque de uma quinta feudal. O abandono, a hora e o frio tornavam a solidão mais penetrante. Federico sentiu-se subitamente oprimido pelo que viria daquele amanhecer, por algo confuso que ali tinha que acontecer. Sentou-se num capitel tombado.
Um carneiro pequenino começou a pastar entre as ruínas e sua aparição era como um pequeno anjo de névoa que humanizava subitamente a solidão, caindo como uma pétala de ternura sobre a solidão do lugar. O poeta sentiu-se acompanhado.
De súbito um bando de porcos entrou também no recinto. Eram quatro ou cinco animais escuros, porcos negros semisselvagens com fome feroz e patas de pedra.
Federico presenciou então uma cena espantosa. Os porcos lançaram-se sobre o cordeiro e, ante o horror do poeta, despedaçaram-no e o devoraram.
Esta cena de sangue e solidão fez com que Federico ordenasse a seu teatro ambulante continuar imediatamente o caminho.
Ainda transido de horror, três meses antes da guerra civil, Federico me contava esta história terrível.
Vi depois, cada vez com maior clareza, que aquele acontecimento foi a representação antecipada de sua morte, a premonição de sua incrível tragédia.

Federico García Lorca não foi fuzilado; foi assassinado. Naturalmente ninguém podia pensar que o matariam algum dia. De todos os poetas da Espanha era o mais amado, o mais querido e o mais semelhante a um menino pela sua alegria maravilhosa. Quem poderia crer que tivesse sobre a terra, e sobre sua terra, monstros capazes de um crime tão inexplicável?
Aquele crime foi para mim o acontecimento mais doloroso de uma longa luta. A Espanha sempre foi um campo de gladiadores, uma terra com muito sangue. A praça de touros, com seu sacrifício e sua elegância cruel, repete – ornamentado festivamente – o antigo combate mortal entre a sombra e a luz.
A Inquisição encarcera Frei Luís de León, Quevedo padece em seu calabouço, Colón caminha com grilhões nos pés. E o espetáculo máximo foi o ossário no Escorial, como agora é o Monumento a los Caídos com uma cruz sobre um milhão de mortos e sobre prisões escuras e incontáveis.

Pablo Neruda, em Confesso que vivi

15/09/2024

Morte de um pássaro

(Réquiem para Federico Garcia Lorca)

Ele estava pálido e suas mãos tremiam. Sim, ele estava com medo porque era tudo tão inesperado. Quis falar, e seus lábios frios mal puderam articular as palavras de pasmo que lhe causava a vista de todos aqueles homens preparados para matá-lo. Havia estrelas infantis a balbuciar preces matinais no céu deliquescente. Seu olhar elevou-se até elas e ele, menos que nunca, compreendeu a razão de ser de tudo aquilo. Ele era um pássaro, nascera para cantar. Aquela madrugada que raiava para presenciar sua morte, não tinha sido ela sempre a sua grande amiga? Não ficara ela tantas vezes a escutar suas canções de silêncio? Por que o haviam arrancado a seu sono povoado de aves brancas e feito marchar em meio a outros homens de barba rude e olhar escuro?
Pensou em fugir, em correr doidamente para a aurora, em bater asas inexistentes até voar. Escaparia assim à fria sanha daqueles caçadores maus que o confundiam com o milhafre, ele cuja única missão era cantar a beleza das coisas naturais e o amor dos homens; ele, um pássaro inocente, em cuja voz havia ritmos de dança.
Mas permaneceu em sua atonia, sem acreditar bem que aquilo tudo estivesse acontecendo. Era, por certo, um mal-entendido. Dentro em pouco chegaria a ordem para soltá-lo, e aqueles mesmos homens que o miravam com ruim catadura chegariam até ele rindo risos francos e, de braços dados, iriam todos beber manzanilla numa tasca qualquer, e cantariam canções de cante-hondo até que a noite viesse recolher seus corpos bêbados em sua negra, maternal mantilha.
As ordens, no entanto, foram rápidas. O grupo foi levado, a coronhadas e empurrões, até a vala comum aberta, e os nodosos pescoços penderam no desalento final. Lábios partiram-se em adeuses, murmurando marias e consuelos. Só sua cabeça movia-se para todos os lados, num movimento de busca e negação, como a do pássaro frágil na mão do armadilheiro impiedoso. O sangue cantava-lhe aos ouvidos, o sangue que fora a seiva mais viva de sua poesia, o sangue que tinha visto e que não quisera ver, o sangue de sua Espanha louca e lúcida, o sangue das paixões desencadeadas, o sangue de Ignácio Sánchez Mejías, o sangue das bodas de sangre, o sangue dos homens que morrem para que nasça um mundo sem violência. Por um segundo passou-lhe a visão de seus amigos distantes. Alberti, Neruda, Manolo Ortiz, Bergamín, Delia, María Rosa – e a minha própria visão, a do poeta brasileiro que teria sido como um irmão seu e que dele viria a receber o legado de todos esses amigos exemplares, e que com ele teria passado noites a tocar guitarra, a se trocarem canções pungentes.
Sim, teve medo. E quem, em seu lugar, não o teria? Ele não nascera para morrer assim, para morrer antes de sua própria morte. Nascera para a vida e suas dádivas mais ardentes, num mundo de poesia e música, configurado na face da mulher, na face do amigo e na face do povo. Se tivesse tido tempo de correr pela campina, seu corpo de poeta-pássaro ter-se-ia certamente libertado das contingências físicas e alçado voo para os espaços além; pois tal era sua ânsia de viver para poder cantar, cada vez mais longe e cada vez melhor, o amor, o grande amor que era nele sentimento de permanência e sensação de eternidade.
Mas foram apenas outros pássaros, seus irmãos, que voaram assustados dentro da luz da antemanhã, quando os tiros do pelotão de morte soaram no silêncio da madrugada.

Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor

12/11/2019

Morte de um pássaro

(Réquiem para Federico Garcia Lorca)

Ele estava pálido e suas mãos tremiam. Sim, ele estava com medo porque era tudo tão inesperado. Quis falar, e seus lábios frios mal puderam articular as palavras de pasmo que lhe causava a vista de todos aqueles homens preparados para matá-lo. Havia estrelas infantis a balbuciar preces matinais no céu deliquescente. Seu olhar elevou-se até elas e ele, menos que nunca, compreendeu a razão de ser de tudo aquilo. Ele era um pássaro, nascera para cantar. Aquela madrugada que raiava para presenciar sua morte, não tinha sido ela sempre a sua grande amiga? Não ficara ela tantas vezes a escutar suas canções de silêncio? Por que o haviam arrancado a seu sono povoado de aves brancas e feito marchar em meio a outros homens de barba rude e olhar escuro?
Pensou em fugir, em correr doidamente para a aurora, em bater asas inexistentes até voar. Escaparia assim à fria sanha daqueles caçadores maus que o confundiam com o milhafre, ele cuja única missão era cantar a beleza das coisas naturais e o amor dos homens; ele, um pássaro inocente, em cuja voz havia ritmos de dança.
Mas permaneceu em sua atonia, sem acreditar bem que aquilo tudo estivesse acontecendo. Era, por certo, um mal-entendido. Dentro em pouco chegaria a ordem para soltá-lo, e aqueles mesmos homens que o miravam com ruim catadura chegariam até ele rindo risos francos e, de braços dados, iriam todos beber manzanilla numa tasca qualquer, e cantariam canções de cante-hondo até que a noite viesse recolher seus corpos bêbados em sua negra, maternal mantilha.
As ordens, no entanto, foram rápidas. O grupo foi levado, a coronhadas e empurrões, até a vala comum aberta, e os nodosos pescoços penderam no desalento final. Lábios partiram-se em adeuses, murmurando marias e consuelos. Só sua cabeça movia-se para todos os lados, num movimento de busca e negação, como a do pássaro frágil na mão do armadilheiro impiedoso. O sangue cantava-lhe aos ouvidos, o sangue que fora a seiva mais viva de sua poesia, o sangue que tinha visto e que não quisera ver, o sangue de sua Espanha louca e lúcida, o sangue das paixões desencadeadas, o sangue de Ignácio Sánchez Mejías, o sangue das bodas de sangre, o sangue dos homens que morrem para que nasça um mundo sem violência. Por um segundo passou-lhe a visão de seus amigos distantes. Alberti, Neruda, Manolo Ortiz, Bergamín, Delia, María Rosa - e a minha própria visão, a do poeta brasileiro que teria sido como um irmão seu e que dele viria a receber o legado de todos esses amigos exemplares, e que com ele teria passado noites a tocar guitarra, a se trocarem canções pungentes.
Sim, teve medo. E quem, em seu lugar, não o teria? Ele não nascera para morrer assim, para morrer antes de sua própria morte. Nascera para a vida e suas dádivas mais ardentes, num mundo de poesia e música, configurado na face da mulher, na face do amigo e na face do povo. Se tivesse tido tempo de correr pela campina, seu corpo de poeta-pássaro ter-se-ia certamente libertado das contingências físicas e alçado voo para os espaços além; pois tal era sua ânsia de viver para poder cantar, cada vez mais longe e cada vez melhor, o amor, o grande amor que era nele sentimento de permanência e sensação de eternidade.
Mas foram apenas outros pássaros, seus irmãos, que voaram assustados dentro da luz da antemanhã, quando os tiros do pelotão de morte soaram no silêncio da madrugada.
Vinicius de Moraes, in Prosa

17/07/2019

O crime foi em Granada

Justamente quando escrevo estas linhas, a Espanha oficial celebra muitos - tantos! - anos desde a insurreição. Neste momento, em Madri, o Caudilho vestido de ouro e azul, rodeado pela guarda moura, junto ao embaixador norte-americano, ao da Inglaterra e a vários outros, passa as tropas em revista. Tropas compostas, em sua maioria, de rapazes que não conheceram aquela guerra.
Eu é que a conheci. Um milhão de espanhóis mortos! Um milhão de exilados! Parecia que jamais se apagaria da consciência humana esse espinho sangrento. No entanto, os rapazes que agora desfilam diante da guarda moura provavelmente ignoram a verdade dessa história tremenda.
Tudo começou para mim na noite de 19 de julho de 1936. Um chileno simpático e aventureiro, chamado Bobby Deglané, era empresário de catch-as-catch-can no grande circo Price de Madri. Manifestei-lhe minhas reservas sobre a seriedade desse esporte e ele me convenceu de que eu fosse ao circo, junto com García Lorca, para verificar a autenticidade do espetáculo. Convenci Federico e ficamos de nos encontrar ali numa hora combinada. Passaríamos o tempo vendo as truculências do Troglodita Mascando, do Estrangulador Abissínio e do Orangotango Sinistro.
Federico faltou ao encontro marcado. Já estava a caminho da morte. Nunca mais nos vimos. Seu encontro era com outros estranguladores. E desse modo a guerra da Espanha, que mudou minha poesia, começou para mim com o desaparecimento de um poeta.
Que poeta! Nunca vi reunidos como nele a graça e o gênio, o coração alado e a cascata cristalina. Federico García Lorca era o duende dissipador, a alegria centrífuga que recolhia no seio e irradiava como um planeta a felicidade de viver. Ingênuo e brincalhão, cômico e provinciano, músico singular, mímico esplêndido, impressionável e supersticioso, radiante e gentil, era uma espécie de resumo das idades da Espanha, do florescimento popular, um produto árabeandaluz que iluminava e perfumava como um jasmineiro todo o cenário daquela Espanha, ai de mim!, desaparecida.
Seduzia-me o grande poder metafórico de García Lorca e me interessava tudo o que escrevia. Por sua vez ele me pedia às vezes que eu lesse para ele meus últimos poemas e, no meio da leitura, me interrompia aos gritos: “Não continua, não continua, que me influencias!”
No palco e no silêncio, na multidão e na intimidade, era um multiplicador da beleza. Nunca vi ninguém com tanta magia nas mãos, nunca tive um irmão mais alegre. Ria, cantava, fazia música, saltava, inventava, era uma chispa constante. Pobrezinho! Tinha todos os dons do mundo e, assim como foi um trabalhador de ouro, uma abelha-mestra da poesia maior, era um perdulário de seu talento.
- Escuta - dizia, tomando-me pelo braço -, estás vendo essa janela? Não achas que é chorpatélica?
- E que significa chorpatélica?
- Também não sei mas temos que saber o que é ou não chorpatélico. Senão estamos perdidos. Olha esse cachorro como é chorpatélico!
Pablo Neruda, in Confesso que vivi

09/06/2019

Como era Federico

Uma longa viagem de dois meses por mar me trouxe de volta ao Chile - em 1932. Publiquei então El hondero entusiasta, que andava extraviado entre meus papéis, e Residencia em la Tierra, que tinha escrito no Oriente. Em 1933 me designaram cônsul do Chile em Buenos Aires, onde cheguei no mês de agosto.
Quase ao mesmo tempo chegou a essa cidade Federico García Lorca para dirigir e estrear sua tragédia teatral Bodas de Sangre na Companhia de Lola Membrives. Ainda não nos conhecíamos mas ficamos nos conhecendo em Buenos Aires e muitas vezes fomos homenageados juntos por escritores e amigos. É certo que não faltaram incidentes. Federico tinha contestadores; a mim também acontecia e continua acontecendo o mesmo. Estes contraditores sentem-se espicaçados e querem apagar a luz para que a gente não os veja. Assim aconteceu daquela vez. Como tinha interesse em ajudar no banquete que o Pen Clube oferecia no Hotel Plaza a Federico e a mim, alguém fez funcionar os telefones o dia inteiro para avisar que a homenagem tinha sido suspensa. E foram tão previdentes que avisaram inclusive o diretor do hotel, a telefonista e o cozinheiro-chefe para que não recebessem adesões nem preparassem o jantar. Mas a manobra se frustrou e no final nos reunimos, Federico García Lorca e eu com cem escritores argentinos.
Proporcionamos uma grande surpresa. Tínhamos preparado um discurso al alimón. Vocês provavelmente não sabem o que significa essa palavra e eu tampouco sabia. Federico, que estava sempre gracejando e inventando casos, explicou:
- Dois toureiros podem tourear ao mesmo tempo o mesmo touro e com uma única capa. Esta é uma das provas mais perigosas da tauromaquia. Por isso se vê muito poucas vezes. Não mais de duas ou três vezes num século e só podem fazê-lo dois toureiros que sejam irmãos ou que, pelo menos, tenham sangue comum. Isto é o que se chama tourear al alimón. E isto é o que faremos num discurso.
Foi o que fizemos sem ninguém saber. Quando nos levantamos para agradecer ao presidente do Pen Club o banquete oferecido, nos levantamos ao mesmo tempo, qual dois toureiros, para um só discurso. Como o jantar era servido em mesinhas separadas, Federico estava numa ponta e eu na outra, de modo que as pessoas, por um lado, me puxavam pela jaqueta para que eu me sentasse acreditando num equívoco e, pelo outro, faziam o mesmo com Federico. Começamos pois a falar ao mesmo tempo, dizendo ele “Senhoras” e continuando eu com “Senhores”, entrelaçando até o fim nossas frases de maneira que pareceu uma só unidade até que paramos de falar. O discurso foi dedicado a Rubén Darío porque, tanto García Lorca como eu, sem que desconfiassem que éramos modernistas, celebrávamos Rubén Darío como um dos grandes criadores da linguagem poética em idioma espanhol.
Eis aqui o texto do discurso:
Neruda: Senhoras...
Lorca: ... e senhores. Existe na tourada uma sorte chamada “toreo al alimón” em que dois toureiros se esquivam do touro agarrados na mesma capa.
Neruda: Federico e eu, unidos por um fio elétrico, vamos fazer um par e responder a esta recepção decisiva.
Lorca: É costume nestas reuniões que os poetas mostrem sua palavra viva, de prata ou madeira, e saúdem com sua voz própria os companheiros e amigos.
Neruda: Mas nós vamos estabelecer entre vocês um morto, um comensal viúvo, oculto nas trevas de uma morte maior que outras mortes, viúvo da vida, de quem fora, em seu tempo, marido deslumbrante; vamos nos esconder debaixo de sua sombra ardente, vamos repetir seu nome até que sua força salte do esquecimento.
Lorca: Vamos, depois de mandar nosso abraço com ternura de pinguim ao delicado poeta Amado Villar, vamos lançar um grande nome sobre a toalha da mesa, na certeza de que os copos se partirão, hão de saltar os garfos, buscando o olho ansiado por eles, e uma vaga há de manchar as toalhas de mesa. Vamos dizer o nome do poeta da América e da Espanha: Rubén...
Neruda: Darío. Porque, senhoras...
Lorca: e senhores...
Neruda: onde está, em Buenos Aires, a praça Rubén Darío?
Lorca: Onde está a estátua de Rubén Darío?
Neruda Ele amava os parques. Onde está o parque Rubén Darío?
Lorca: Onde está a loja de rosas de Rubén Darío?
Neruda: Onde está a macieira e as maçãs de Rubén Darío?
Lorca: Onde está a mão cortada de Rubén Darío?
Neruda: Onde?
Lorca: Rubén Darío dorme - em sua “Nicarágua natal”, sob seu espantoso leão de gesso como esses leões que os ricos põem nos portais de suas casas.
Neruda: Um leão de farmácia ao fundador de leões, um leão sem estrelas a quem dava estrelas.
Lorca: Insuflou o rumor da selva com um adjetivo e, como Frei Luís de Granada, mestre de idiomas, evocou signos estelares com o limão, e a pata do cervo, e os moluscos cheios de terror e infinito; lançou-nos ao mar com fragatas e sombras nas nossas meninas-dos-olhos e construiu um enorme caminho de gim sobre a tarde mais cinzenta que o céu já teve e saudou de igual para igual o sombrio vento do Sudoeste, todo sentimento, como um poeta romântico, e apoiou a mão sobre o capitel coríntio com uma dúvida irônica e triste de todas as épocas.
Neruda: Seu nome rubro merece ser recordado em seus caminhos essenciais com suas terríveis dores do coração, sua incerteza incandescente, sua descida aos espirais do inferno, sua subida aos castelos da fama, seus atributos de poeta maior desde então e para sempre e imprescindível.
Lorca: Como poeta espanhol ensinou na Espanha aos velhos mestres e às crianças como um sentido de universalidade e de generosidade que faz falta nos poetas atuais. Ensinou a Valle Inclán, a Juan Ramón Jiménez e aos irmãos Machado, e sua voz foi água e salitre no sulco do idioma venerável. Desde Rodrigo Caro aos Argensolas ou D. Juan Arguijo não havia tido o espanhol festas de palavras, choques de consoantes, luzes e forma como em Rubén Darío. Desde a paisagem de Velásquez e a fogueira de Goya e desde a melancolia de Quevedo ao culto cor de maçã das camponesas maiorquinas, Darío percorreu a terra espanhola como sua própria terra.
Neruda: Foi trazido ao Chile por uma maré, o mar quente do Norte, e ali o mar o deixou, abandonado na costa dura e recortada, e o oceano o golpeava com espumas e sinos e o vento negro de Valparaíso o enchia de sal sonoro. Façamos esta noite sua estátua com o ar, atravessada pelo fumo, pela voz, pelas circunstâncias e pela vida, como esta sua poética magnífica atravessada por sonhos e sons.
Lorca: Mas sobre esta estátua de ar, quero pôr seu sangue como um ramo de coral agitado pela maré, seus nervos idênticos à fotografia de um grupo de raios, sua cabeça de minotauro onde a neve gongorina é pintada por um voo de colibris, seus olhos vagos e ausentes de milionário de lágrimas e também seus defeitos. As estantes comidas já pelos saramagos, onde soa um vazio de flauta, as garrafas de conhaque de sua dramática embriaguez, seu mau gosto encantador e seu palavreado descarado que enchem de humanidade a multidão de seus versos. Fora de normas, formas e escolas permanece de pé a substância fecunda de sua grande poesia.
Neruda: Federico García Lorca, espanhol, e eu, chileno, declinamos a responsabilidade desta noite de camaradas para essa grande sombra que cantou mais alto que nós e saudou com voz inusitada a terra argentina em que estamos.
Lorca: Pablo Neruda, chileno, e eu, espanhol, coincidimos no idioma e no grande poeta nicaragüense, argentino, chileno e espanhol, Rubén Darío.
Neruda e Lorca: Por cuja homenagem e glória levantamos nosso copo.
Uma vez recebi de Federico um apoio inesperado numa aventura erótica cósmica. Tínhamos sido convidados uma noite por um desses milionários que só a Argentina ou os Estados Unidos podiam produzir: um homem rebelde e autodidata que tinha feito uma fortuna fabulosa com um jornal sensacionalista. Sua casa, rodeada por um imenso parque, era a encarnação dos sonhos de um vibrante novo-rico. Centenas de gaiolas de faisões de todas as cores e de todos os países ladeavam o caminho. A biblioteca estava coberta somente de livros antiquíssimos que comprava por telegrama nos leilões de bibliófilos europeus; além disso era extensa e estava repleta. Porém o mais espetacular era que o assoalho desta enorme sala de leitura era revestido totalmente com peles de pantera costuradas umas às outras até formar um só e gigantesco tapete. Soube que o homem tinha agentes na África, na Ásia e no Amazonas destinados exclusivamente a recolher peles de leopardos, ocelotes, gatos fenomenais, cujas manchas estavam agora brilhando sob meus pés na faustosa biblioteca.
Assim eram as coisas na casa do famoso Natálio Botana, capitalista poderoso, senhor da opinião pública em Buenos Aires. Federico e eu nos sentamos à mesa perto do dono da casa e em frente a uma poetisa alta, loura e diáfana, cujos olhos verdes eram dirigidos mais a mim que a Federico durante o jantar. Este consistia num boi inteiro assado nas brasas e nas cinzas numa liteira colossal levada sobre os ombros por oito a dez gaúchos. A noite era furiosamente azul e estrelada. O cheiro do assado com couro, invenção sublime dos argentinos, misturava-se ao ar do pampa, às fragrâncias do trevo e da hortelã, ao murmúrio de mil grilos e rãs.
Levantamo-nos depois de comer junto com a poetisa e com Federico, a quem todos festejavam e que divertia a todos. Afastamo-nos até a piscina iluminada. García Lorca ia na frente sem deixar de rir e de falar. Estava feliz como de costume. A felicidade era sua pele.
Dominando a piscina luminosa levantava-se uma torre alta. Sua brancura de cal fosforescia sob as luzes noturnas.
Subimos lentamente até o mirante mais alto da torre. No alto os três, poetas de diferentes estilos, permanecemos separados do mundo. O olho azul da piscina brilhava lá embaixo. Mais além ouviam-se as guitarras e as canções da festa. A noite, acima de nós, estava tão próxima e estrelada que parecia atrair nossas cabeças e submergi-las em sua profundidade.
Tomei a moça alta e dourada nos braços e ao beijá-la me dei conta de que era uma mulher carnuda e compacta, desempenada e rija. Diante da surpresa de Federico nos estendemos no chão do mirante, e já começava a despi-la, quando percebi sobre e junto de nós os olhos arregalados de Federico, que nos olhava sem atrever-se a acreditar no que estava acontecendo.
- Fora daqui! Ande e cuida que não suba ninguém pela escada! gritei.
Enquanto isso o sacrifício ao céu estrelado e à Afrodite noturna se consumava no alto da torre. Federico correu alegremente a cumprir sua missão celestial e de sentinela mas com tal açodamento e tanto azar que rolou pelas escadas escuras da torre. Tivemos que ajudá-lo, minha amiga e eu, com muita dificuldade. Ficou capengando durante quinze dias.
Pablo Neruda, in Confesso que vivi

20/08/2016

A cruz

A cruz,
(Ponto final do caminho.)

Mire-se no açude.
(Pontos de reticência.)
Federico García Lorca

27/05/2016

Hospitais azuis

Certa vez dei uma conferência sobre García Lorca, anos depois de sua morte, e um dos espectadores me perguntou:
- Porque o senhor disse na Ode a Federico que por ele “pintam de azul os hospitais”?
- Olhe, companheiro - respondi -, fazer perguntas desse tipo a um poeta é como perguntar a idade das mulheres. A poesia não é uma matéria estática mas uma corrente fluida que muitas vezes escapa das mãos do próprio criador. Sua matéria-prima está composta de elementos que são e ao mesmo tempo não são, de coisas existentes e inexistentes. De qualquer modo tratarei de responder-lhe com sinceridade. Para mim a cor azul é a mais bela das cores. Tem a implicação do espaço humano, como a abóbada celeste, em direção à liberdade e à alegria. A presença de Federico, sua magia pessoal, impunham uma atmosfera de júbilo ao seu redor. Meu verso provavelmente quer dizer que inclusive os hospitais, inclusive a tristeza dos hospitais, podiam se transformar sob o sortilégio de sua influência e se verem convertidos subitamente em belos edifícios azuis.
Federico teve uma antevisão de sua morte. Certa vez que voltava de uma tournée teatral me chamou para contar um fato muito estranho. Com os artistas de “La Barraca” tinha chegado a um povoado longínquo de Castilla, acampando nas redondezas. Fatigado pelas preocupações da viagem, Federico não conseguia dormir. Ao amanhecer levantou-se e saiu a vagar sozinho pelos arredores. Fazia frio, esse frio de punhal que Castilla reserva para o viajante, para o forasteiro. A névoa se desprendia em massas brancas e convertia tudo em sua dimensão fantasmagórica.
Um grande gradil de ferro oxidado, estátuas e colunas em ruínas, caídas entre as folhas secas. Deteve-se na porta de uma antiga propriedade. Era a entrada para o extenso parque de uma quinta feudal. O abandono, a hora e o frio tornavam a solidão mais penetrante. Federico sentiu-se subitamente oprimido pelo que viria daquele amanhecer, por algo confuso que ali tinha que acontecer. Sentou-se num capitel tombado.
Um carneiro pequenino começou a pastar entre as ruínas e sua aparição era como um pequeno anjo de névoa que humanizava subitamente a solidão, caindo como uma pétala de ternura sobre a solidão do lugar. O poeta sentiu-se acompanhado.
De súbito um bando de porcos entrou também no recinto. Eram quatro ou cinco animais escuros, porcos negros semi-selvagens com fome feroz e patas de pedra.
Federico presenciou então uma cena espantosa. Os porcos lançaram-se sobre o cordeiro e, ante o horror do poeta, despedaçaram-no e o devoraram.
Esta cena de sangue e solidão fez com que Federico ordenasse a seu teatro ambulante continuar imediatamente o caminho.
Ainda transido de horror, três meses antes da guerra civil, Federico me contava esta história terrível.
Vi depois, cada vez com maior clareza, que aquele acontecimento foi a representação antecipada de sua morte, a premonição de sua incrível tragédia.
Federico García Lorca não foi fuzilado; foi assassinado. Naturalmente ninguém podia pensar que o matariam algum dia. De todos os poetas da Espanha era o mais amado, o mais querido e o mais semelhante a um menino pela sua alegria maravilhosa. Quem poderia crer que tivesse sobre a terra, e sobre sua terra, monstros capazes de um crime tão inexplicável?
Aquele crime foi para mim o acontecimento mais doloroso de uma longa luta. A Espanha sempre foi um campo de gladiadores, uma terra com muito sangue. A praça de touros, com seu sacrifício e sua elegância cruel, repete - ornamentado festivamente - o antigo combate mortal entre a sombra e a luz.
A Inquisição encarcera Frei Luís de León, Quevedo padece em seu calabouço, Colón caminha com grilhões nos pés. E o espetáculo máximo foi o ossário no Escorial, como agora é o Monumento a los Caídos com uma cruz sobre um milhão de mortos e sobre prisões escuras e incontáveis.
Pablo Neruda, in Confesso que vivi

27/01/2016

Morte de um pássaro (Réquiem para Federico García Lorca)


Ele estava pálido e suas mãos tremiam. Sim, ele estava com medo porque era tudo tão inesperado. Quis falar, e seus lábios frios mal puderam articular as palavras de pasmo que lhe causava a vista de todos aqueles homens preparados para matá-lo. Havia estrelas infantis a balbuciar preces matinais no céu deliquescente. Seu olhar elevou-se até elas e ele, menos que nunca, compreendeu a razão de ser de tudo aquilo. Ele era um pássaro, nascera para cantar. Aquela madrugada que raiava para presenciar sua morte, não tinha sido ela sempre a sua grande amiga? Não ficara ela tantas vezes a escutar suas canções de silêncio? Por que o haviam arrancado a seu sono povoado de aves brancas e feito marchar em meio a outros homens de barba rude e olhar escuro?
Pensou em fugir, em correr doidamente para a aurora, em bater asas inexistentes até voar. Escaparia assim à fria sanha daqueles caçadores maus que o confundiam com o milhafre, ele cuja única missão era cantar a beleza das coisas naturais e o amor dos homens; ele, um pássaro inocente, em cuja voz havia ritmos de dança.
Mas permaneceu em sua atonia, sem acreditar bem que aquilo tudo estivesse acontecendo. Era, por certo, um mal-entendido. Dentro em pouco chegaria a ordem para soltá-lo, e aqueles mesmos homens que o miravam com ruim catadura chegariam até ele rindo risos francos e, de braços dados, iriam todos beber manzanilla numa tasca qualquer, e cantariam canções de cante-hondo até que a noite viesse recolher seus corpos bêbados em sua negra, maternal mantilha.
As ordens, no entanto, foram rápidas. O grupo foi levado, a coronhadas e empurrões, até a vala comum aberta, e os nodosos pescoços penderam no desalento final. Lábios partiram-se em adeuses, murmurando marias e consuelos. Só sua cabeça movia-se para todos os lados, num movimento de busca e negação, como a do pássaro frágil na mão do armadilheiro impiedoso. O sangue cantava-lhe aos ouvidos, o sangue que fora a seiva mais viva de sua poesia, o sangue que tinha visto e que não quisera ver, o sangue de sua Espanha louca e lúcida, o sangue das paixões desencadeadas, o sangue de Ignácio Sánchez Mejías, o sangue das bodas de sangre, o sangue dos homens que morrem para que nasça um mundo sem violência. Por um segundo passou-lhe a visão de seus amigos distantes. Alberti, Neruda, Manolo Ortiz, Bergamín, Delia, María Rosa - e a minha própria visão, a do poeta brasileiro que teria sido como um irmão seu e que dele viria a receber o legado de todos esses amigos exemplares, e que com ele teria passado noites a tocar guitarra, a se trocarem canções pungentes.
Sim, teve medo. E quem, em seu lugar, não o teria? Ele não nascera para morrer assim, para morrer antes de sua própria morte. Nascera para a vida e suas dádivas mais ardentes, num mundo de poesia e música, configurado na face da mulher, na face do amigo e na face do povo. Se tivesse tido tempo de correr pela campina, seu corpo de poeta-pássaro ter-se-ia certamente libertado das contingências físicas e alçado voo para os espaços além; pois tal era sua ânsia de viver para poder cantar, cada vez mais longe e cada vez melhor, o amor, o grande amor que era nele sentimento de permanência e sensação de eternidade.
Mas foram apenas outros pássaros, seus irmãos, que voaram assustados dentro da luz da antemanhã, quando os tiros do pelotão de morte soaram no silêncio da madrugada.
Vinicius de Moraes, in Para viver um grande amor

04/11/2015

Como era Federico

Uma longa viagem de dois meses por mar me trouxe de volta ao Chile - em 1932. Publiquei então El hondero entusiasta, que andava extraviado entre meus papéis, e Residencia em la Tierra, que tinha escrito no Oriente. Em 1933 me designaram cônsul do Chile em Buenos Aires, onde cheguei no mês de agosto.
Quase ao mesmo tempo chegou a essa cidade Federico García Lorca para dirigir e estrear sua tragédia teatral Bodas de Sangre na Companhia de Lola Membrives. Ainda não nos conhecíamos mas ficamos nos conhecendo em Buenos Aires e muitas vezes fomos homenageados juntos por escritores e amigos. É certo que não faltaram incidentes. Federico tinha contestadores; a mim também acontecia e continua acontecendo o mesmo. Estes contraditores sentem-se espicaçados e querem apagar a luz para que a gente não os veja. Assim aconteceu daquela vez. Como tinha interesse em ajudar no banquete que o Pen Clube oferecia no Hotel Plaza a Federico e a mim, alguém fez funcionar os telefones o dia inteiro para avisar que a homenagem tinha sido suspensa. E foram tão previdentes que avisaram inclusive o diretor do hotel, a telefonista e o cozinheiro-chefe para que não recebessem adesões nem preparassem o jantar. Mas a manobra se frustrou e no final nos reunimos, Federico García Lorca e eu com cem escritores argentinos.
Proporcionamos uma grande surpresa. Tínhamos preparado um discurso al alimón. Vocês provavelmente não sabem o que significa essa palavra e eu tampouco sabia. Federico, que estava sempre gracejando e inventando casos, explicou:
- Dois toureiros podem tourear ao mesmo tempo o mesmo touro e com uma única capa. Esta é uma das provas mais perigosas da tauromaquia. Por isso se vê muito poucas vezes. Não mais de duas ou três vezes num século e só podem fazê-lo dois toureiros que sejam irmãos ou que, pelo menos, tenham sangue comum. Isto é o que se chama tourear al alimón. E isto é o que faremos num discurso.
Foi o que fizemos sem ninguém saber. Quando nos levantamos para agradecer ao presidente do Pen Club o banquete oferecido, nos levantamos ao mesmo tempo, qual dois toureiros, para um só discurso. Como o jantar era servido em mesinhas separadas, Federico estava numa ponta e eu na outra, de modo que as pessoas, por um lado, me puxavam pela jaqueta para que eu me sentasse acreditando num equívoco e, pelo outro, faziam o mesmo com Federico. Começamos pois a falar ao mesmo tempo, dizendo ele “Senhoras” e continuando eu com “Senhores”, entrelaçando até o fim nossas frases de maneira que pareceu uma só unidade até que paramos de falar. O discurso foi dedicado a Rubén Darío porque, tanto García Lorca como eu, sem que desconfiassem que éramos modernistas, celebrávamos Rubén Darío como um dos grandes criadores da linguagem poética em idioma espanhol.
Eis aqui o texto do discurso:
Neruda: Senhoras...
Lorca: ... e senhores. Existe na tourada uma sorte chamada “toreo al alimón” em que dois toureiros se esquivam do touro agarrados na mesma capa.
Neruda: Federico e eu, unidos por um fio elétrico, vamos fazer um par e responder a esta recepção decisiva. Lorca: É costume nestas reuniões que os poetas mostrem sua palavra viva, de prata ou madeira, e saúdem com sua voz própria os companheiros e amigos.
Neruda: Mas nós vamos estabelecer entre vocês um morto, um comensal viúvo, oculto nas trevas de uma morte maior que outras mortes, viúvo da vida, de quem fora, em seu tempo, marido deslumbrante; vamos nos esconder debaixo de sua sombra ardente, vamos repetir seu nome até que sua força salte do esquecimento.
Lorca: Vamos, depois de mandar nosso abraço com ternura de pinguim ao delicado poeta Amado Villar, vamos lançar um grande nome sobre a toalha da mesa, na certeza de que os copos se partirão, hão de saltar os garfos, buscando o olho ansiado por eles, e uma vaga há de manchar as toalhas de mesa. Vamos dizer o nome do poeta da América e da Espanha: Rubén...
Neruda: Darío. Porque, senhoras...
Lorca: e senhores...
Neruda: onde está, em Buenos Aires, a praça Rubén Darío?
Lorca: Onde está a estátua de Rubén Darío?
Neruda: Ele amava os parques. Onde está o parque Rubén Darío?
Lorca: Onde está a loja de rosas de Rubén Darío?
Neruda: Onde está a macieira e as maçãs de Rubén Darío?
Lorca: Onde está a mão cortada de Rubén Darío?
Neruda: Onde?
Lorca: Rubén Darío dorme - em sua “Nicarágua natal”, sob seu espantoso leão de gesso como esses leões que os ricos põem nos portais de suas casas.
Neruda: Um leão de farmácia ao fundador de leões, um leão sem estrelas a quem dava estrelas.
Lorca: Insuflou o rumor da selva com um adjetivo e, como Frei Luís de Granada, mestre de idiomas, evocou signos estelares com o limão, e a pata do cervo, e os moluscos cheios de terror e infinito; lançou-nos ao mar com fragatas e sombras nas nossas meninas-dos-olhos e construiu um enorme caminho de gim sobre a tarde mais cinzenta que o céu já teve e saudou de igual para igual o sombrio vento do Sudoeste, todo sentimento, como um poeta romântico, e apoiou a mão sobre o capitel coríntio com uma dúvida irônica e triste de todas as épocas.
Neruda: Seu nome rubro merece ser recordado em seus caminhos essenciais com suas terríveis dores do coração, sua incerteza incandescente, sua descida aos espirais do inferno, sua subida aos castelos da fama, seus atributos de poeta maior desde então e para sempre e imprescindível.
Lorca: Como poeta espanhol ensinou na Espanha aos velhos mestres e às crianças como um sentido de universalidade e de generosidade que faz falta nos poetas atuais. Ensinou a Valle Inclán, a Juan Ramón Jiménez e aos irmãos Machado, e sua voz foi água e salitre no sulco do idioma venerável. Desde Rodrigo Caro aos Argensolas ou D. Juan Arguijo não havia tido o espanhol festas de palavras, choques de consoantes, luzes e forma como em Rubén Darío. Desde a paisagem de Velásquez e a fogueira de Goya e desde a melancolia de Quevedo ao culto cor de maçã das camponesas maiorquinas, Darío percorreu a terra espanhola como sua própria terra.
Neruda: Foi trazido ao Chile por uma maré, o mar quente do Norte, e ali o mar o deixou, abandonado na costa dura e recortada, e o oceano o golpeava com espumas e sinos e o vento negro de Valparaíso o enchia de sal sonoro. Façamos esta noite sua estátua com o ar, atravessada pelo fumo, pela voz, pelas circunstâncias e pela vida, como esta sua poética magnífica atravessada por sonhos e sons.
Lorca: Mas sobre esta estátua de ar, quero pôr seu sangue como um ramo de coral agitado pela maré, seus nervos idênticos à fotografia de um grupo de raios, sua cabeça de minotauro onde a neve gongorina é pintada por um voo de colibris, seus olhos vagos e ausentes de milionário de lágrimas e também seus defeitos. As estantes comidas já pelos saramagos, onde soa um vazio de flauta, as garrafas de conhaque de sua dramática embriaguez, seu mau gosto encantador e seu palavreado descarado que enchem de humanidade a multidão de seus versos. Fora de normas, formas e escolas permanece de pé a substância fecunda de sua grande poesia.
Neruda: Federico García Lorca, espanhol, e eu, chileno, declinamos a responsabilidade desta noite de camaradas para essa grande sombra que cantou mais alto que nós e saudou com voz inusitada a terra argentina em que estamos.
Lorca: Pablo Neruda, chileno, e eu, espanhol, coincidimos no idioma e no grande poeta nicaraguense, argentino, chileno e espanhol, Rubén Darío.
Neruda e Lorca: Por cuja homenagem e glória levantamos nosso copo.
Pablo Neruda, in Confesso que vivi