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07/01/2025

Fatumbi


Quase por milagre, a sinhá Ana Felipa deu sinais de melhora e estava esperançosa de conseguir segurar a criança até o final. Um dia, depois de ler a correspondência enviada da capital, ela chamou a Esméria e o Sebastião e disse que receberíamos visita importante. Eu estava ouvindo atrás da porta quando o Sebastião foi incumbido de preparar a casa para receber o padre Notório com todo o conforto e todo o luxo a que ele estava acostumado. O padre ficaria alguns dias na fazenda, porque, como ela disse, a casa estava precisando da presença de Deus, que era por isso que as crianças não vingavam. A Esméria deveria cuidar da cozinha, caprichando no preparo das refeições e de bolos, tortas e outros quitutes finos, coisas muito diferentes das que ela fazia pensando que todos na casa eram pretos acostumados a comer de qualquer jeito. A sinhá perguntou se algum dos escravos da casa sabia ler, porque ela tinha um caderno com receitas que queria que a Esméria e a Maria das Graças aprendessem a preparar e servissem durante a estada do padre Notório. A Esméria disse que não, que ninguém sabia ler ou escrever, e a sinhá respondeu que era o que esperava mesmo, que cabeça de preto mal dava para aprender a falar direito, quanto mais para ler e escrever. E ela, que não podia se levantar da cama, era quem tinha que ver tudo isso, e ia falar com o sinhô José Carlos para saber se entre os pretos da capital havia algum letrado que pudesse ajudar na casa durante aqueles dias. Na manhã seguinte, junto com as compras que ela tinha mandado fazer em São Salvador, chegou um preto do escritório que o sinhô tinha por lá, que a sinhá nos apresentou dizendo que ficaria conosco durante a visita do padre, porque precisava mostrar que a fazenda também tinha escravos de qualidade e não apenas os sem inteligência como nós, e que ele leria as receitas e todas as outras instruções que ela daria por escrito. E já que ele estava disponível, o Sebastião deveria providenciar um horário, todos os dias, para que a sinhazinha Maria Clara tivesse aulas de ler e escrever, pois a menina estava sendo criada xucra como preta, e alguém tinha que tomar providências.
O preto se chamava Fatumbi; era muito alto, magro e sério, de uma seriedade que fazia com que ninguém se sentisse à vontade para se aproximar dele. No dia seguinte à sua chegada, começaram as aulas para a sinhazinha Maria Clara aprender pelo menos as letras e os números, nos livros e cadernos que foram buscados às pressas na capital. Compraram também tinta, pena e outros apetrechos para a sinhazinha, e um quadro-negro onde o Fatumbi ia escrevendo o que ela precisava copiar. As aulas eram dadas na biblioteca, que ficava atrás de uma das portas do imenso corredor, uma que eu nunca tinha visto aberta antes. Fiquei feliz por poder assistir às aulas na qualidade de acompanhante da sinhazinha, e tratei de aproveitar muito bem a oportunidade. Ela nunca estava muito interessada, e o Fatumbi tinha que chamar a atenção dela diversas vezes, como se ele fosse branco e ela fosse preta, motivo que me fez brigar com ele, pois eu achava que ninguém podia falar daquele jeito com a nossa sinhazinha. Mas depois entendi que ele tinha razão, que se ela não quisesse aprender por bem, que fosse por mal. Acho que foi por isso que comecei a admirá-lo, o primeiro preto que vi tratando branco como um igual.
Enquanto a sinhazinha Maria Clara copiava as letras e os números que o Fatumbi desenhava no quadro-negro, eu fazia a mesma coisa com o dedo, usando o chão como caderno. Eu também repetia cada letra que ele falava em voz alta, junto com a sinhazinha, sentindo os sons delas se unirem para formar as palavras. Ele logo percebeu o meu interesse e achei que fosse ficar bravo, mas não; até quase sorriu e passou a olhar mais vezes para mim, como se eu fosse aluna da mesma importância que a sinhazinha. Comecei a aprender mais rapidamente que ela, que muitas vezes errava coisas que eu já sabia. As três horas de aula todas as tardes passaram a ser para mim as mais felizes do dia, as mais esperadas, e fiquei triste quando chegou o primeiro fim de semana, dias de folga que o professor aproveitou para ir até a capital. O Fatumbi também estava alojado na senzala pequena, mas não tinha esteira, dormia sobre uma pele de carneiro que guardava escondida dentro de um saco de pano grosso e escuro. Isto fez com que eu me lembrasse dos muçurumins no barracão de Uidá, que também tinham as tais peles, e achei que o jeito do professor era bem parecido com o deles. Ele nunca olhava as mulheres nos olhos, apenas eu e a sinhazinha, e, mesmo assim, só quando estava nos ensinando. Com as outras mulheres nem isso, nem quando o assunto era trabalho; falava só o necessário e quando o Sebastião não estava por perto para servir de leva e traz.
Na segunda-feira, esperei ansiosa pela volta do Fatumbi, e quando ele passou por mim, sendo que não havia mais ninguém por perto, cumprimentei-o com um salamaleco. Primeiro ele se assustou, mas depois respondeu ao meu cumprimento dando uma piscadela. Aquele ficou sendo o nosso segredo; eu sabia que ele era muçurumim, o que nem sempre eles gostavam que os outros soubessem. Depois da minha descoberta, que eu achava ser só minha e sobre a qual não comentei com ninguém, achei que ele passou a me tratar melhor, dando um jeito de, à noite, deixar que eu estudasse em alguns livros da sinhazinha que ele levava para corrigir, arrumando também papel e pena para que eu pudesse copiar e fazer os exercícios. A Esméria ficava brava, dizia que era perda de tempo e que nem valia a pena eu aprender as letras e os números, porque não teria chance de usar. Mas ela sempre ia ver o que eu estava fazendo antes que o pouco óleo do lampião acabasse e nós ficássemos no escuro, e perguntava alguma coisa, que número era aquele ou que letra era aquela, repetindo por um bom tempo depois. Eu também repetia; mesmo no escuro, eu ficava desenhando as letras na minha cabeça e tentando juntar umas com as outras, formando as palavras. Palavras que depois eu passava para o papel, usando a pena e uma tinta que o Fatumbi ensinou a Esméria a preparar com arroz queimado. Na segunda semana de aulas, chegou o padre tão esperado e tão bendito, porque, se não fosse por ele, a sinhá Ana Felipa não teria se lembrado de que a sinhazinha precisava se instruir, e eu junto com ela. Estava tão entretida com as aulas que nem acompanhei direito toda a movimentação na casa-grande. Eu e a sinhazinha passávamos a maior parte do tempo no quarto, ela fingindo estudar e eu estudando de fato, com os livros que não estavam em uso. Um dia antes da chegada do padre Notório, pedi ao Fatumbi que escrevesse para eu copiar o pai-nosso e a ave-maria, que achei muito mais fáceis de rezar depois de ler e entender. Mostrei para a Esméria e ela disse que nunca poderia imaginar que ali, naquele monte de tracinhos que não diziam nada, pelo menos para ela, estavam orações tão bonitas. Eram mesmo orações bonitas, que mais tarde também aprendi em iorubá, eve-fon e, muitos anos depois, em inglês e em francês.
Ao contrário do que eu imaginava, o padre Notório era moço, muito mais jovem que o sinhô José Carlos. E bonito também, tanto que a Antônia falou que ele até se parecia com os santos. No dia da chegada dele, a sinhá Ana Felipa acordou animada, dizendo que estava se sentindo ótima e que talvez até se levantasse. Depois, ficou com medo de que o sangramento voltasse e mudou de ideia, ficando na cama apesar de ter trocado a camisola por um vestido e feito um toucador completo. Chamou a Antônia para penteá-la e passou algumas cores no rosto, segundo ela para parecer mais saudável, porque não queria receber com aparência de morta o santo homem que estava chegando para pregar a vida. Pediu também que chamassem a sinhazinha até o quarto, para ver se ela estava bem cuidada e vestida, e como tinha muito tempo que não a via, achou que estava mudada, que tinha crescido e já era quase uma moça. Lamentou ter mandado fazer uns modelos de roupa de criança para ela com a modista da capital, que tinha estado na casa no início da semana anterior e de quem estava estreando um dos vestidos encomendados.
Todos nós, os escravos da casa, também ganhamos roupas novas. Fardas, como dizia a sinhá, tão bonitas que até se igualavam às roupas dos brancos. A minha farda era um vestido que se parecia um pouco com as roupas mais simples da sinhazinha, e não mais saia e bata, como eu sempre tinha usado. Para os homens foram encomendadas calças compridas até os pés, e não mais batendo no meio da canela. A calça era cor de vinho e tinha uma listra branca do lado de fora das pernas, combinando com a cor da camisa. As mulheres ganharam saias longas e rodadas da mesma cor que as calças dos homens e com as mesmas listras brancas na bainha, em toda a volta, e batas brancas para serem usadas por baixo de um avental com peitilho, também branco. A farda do Sebastião, além da calça e da camisa, tinha um paletó cor de vinho que ia até a metade das pernas. Mesmo com toda aquela roupa que não estávamos acostumados a usar, ninguém reclamou do calor, porque nunca tínhamos nos vestido daquele jeito. As roupas também tinham bolsos, luxo que era novidade para todos, e no peito do avental das mulheres estavam bordadas letras que mais pareciam desenhos, e que eu copiei muitas vezes. Um monograma, como ensinou a sinhá, que eram as letras que começavam o nome dela, A-F-D-A-A-C-G, de Ana Felipa Dusseldorf Albuquerque de Almeida Carvalho Gama. Ana Felipa era o nome de uma rainha do estrangeiro, Dusseldorf era herdado da mãe, Albuquerque, do pai, e Almeida Carvalho Gama, do marido.
A sinhá Ana Felipa disse que devíamos nos alegrar porque os tempos tinham mudado muito e os monogramas eram bordados nas roupas, e não mais na pele dos escravos. Contou que, ao se casar, além do enxoval, a mãe dela ganhou duas mucamas e três pretos, todos com o monograma gravado no rosto com ferro quente. Disse também que achava um monograma muito mais bonito que as marcas que os pretos da senzala grande tinham no rosto, coisa de animais e não de gente. Foi só então que reparei que nenhum dos escravos de casa tinha marcas no rosto, e esse era um critério que ela usava ao nos escolher, talvez até pensando em mandar gravar o tal monograma algum dia. Nenhum de nós também tinha marcas de varíola, embora essa doença não soubesse se a pessoa era branca ou preta, atacava de qualquer jeito, qualquer um, de qualquer idade. Era uma doença boa, cheguei a pensar na época, mas não consegui concluir e justificar o pensamento. Hoje sei que é por causa disso, por ela não fazer distinção e deixar as mesmas marcas em quem quer que seja.

Ana Maria Gonçalves, em Um defeito de cor

31/12/2024

Certo dia, a casa amanheceu em polvorosa, pois a sinhá Ana Felipa tinha começado a botar sangue e ainda faltavam mais de quatro meses para a época certa de a criança nascer. Foi chamada uma aparadeira famosa na ilha, e ela disse que não podia fazer muita coisa, que a sinhá tinha que ter fé, muita fé. Das outras vezes, nada tinha adiantado, nem as ervas das pretas benzedeiras, a quem ela recorreu achando que ninguém sabia, nem os remédios de botica. Nem a fé, pois todas as tentativas eram amparadas com muita reza. A sinhá exigia que houvesse pelo menos uma preta sempre ao lado dela, desfiando o rosário, e que era substituída assim que a voz demonstrasse cansaço. Já tinha recebido visitas de médicos da capital e até mesmo da corte, que ficava a muitos dias de navio da Bahia, na província do Rio de Janeiro. Mesmo assim, todas as vezes que a sinhá ficava pejada, as crianças não vingavam. Só podiam ser abikus, e eles não iam querer ficar enquanto não fossem tomadas as providências. Mas eu é que não ia voltar a falar nesse assunto, uma vez que a Esméria já tinha me repreendido.
Uma noite, sonhei com a Taiwo, quero dizer, acho que era a Taiwo, vestida com a roupa que a sinhazinha Maria Clara tinha me emprestado, pois tive a mesma sensação de quando nos olhávamos nos olhos por sobre os ombros da minha mãe, em Savalu. Parecia eu, mas era a Taiwo, e estava feliz, olhando nos meus olhos e sorrindo, enrolando a barra do vestido em volta das pernas, de um lado para outro. Logo na manhã seguinte, enquanto eu ajudava a Esméria a torrar e moer o café, a Nega Florinda apareceu e, sem dizer nada além de um breve cumprimento, foi embora depois de me entregar um embrulho com o pingente que todo ibêji que sobrevive à morte do outro deve usar para conservar a sua alma, e mais uma pequena escultura, também em madeira, representando os dois Ibêjis juntos. Mostrei à Esméria e ela me levou de volta à senzala pequena, de onde quase todos já haviam saído, menos os dois moleques, o Tico e o Hilário, que ainda dormiam de roncar. Ela me ajudou a cavar um buraco no local onde estava a minha esteira, suficientemente fundo para atingir a base da parede que entrava para dentro da terra, e deixando um oco, como se fosse uma caverna. Foi assim que descobri como os pretos guardavam os seus santos, escondidos dos olhos dos brancos, e que todas aquelas paredes já deviam estar apoiadas em quase nada. Até a Esméria tinha lá os seus orixás, mesmo já estando acostumada aos santos dos brancos e tendo simpatia por alguns deles, como São Benedito, que era preto como nós, ou Nossa Senhora da Conceição, que se reza como Iemanjá, assim como São Jorge é Xangô e Santo Antônio é Ogum, ou São Cosme e São Damião, que são os Ibêjis. Depois que colocamos a esteira para esconder a entrada do buraco, ela me pediu para tomar bastante cuidado na hora de tirar meus Ibêjis de lá, para ter certeza de que não havia ninguém olhando. Caso contrário, eu arriscaria não só o meu esconderijo, mas o de todos os pretos, pois poderiam mandar fazer uma busca nas senzalas. O pingente de ibêji, ao contrário do que eu pensava, não representava uma criança, como ainda era a Taiwo quando morreu, mas uma adulta com peitos e racha, que era como ela deveria ficar se tivesse crescido. Manter a Taiwo viva, esse era o papel do pingente, ou amuleto, que eu trago sempre comigo, pendurado no pescoço. Dias depois, um Xangô foi se juntar aos Ibêjis no esconderijo, também presente da Nega Florinda.

Ana Maria Gonçalves, em Um defeito de cor

25/12/2024

Brincadeiras


Sem a presença da sinhá Ana Felipa o ambiente na casa era muito melhor, mesmo com a Esméria nervosa com tanto trabalho e com o Sebastião mantendo a ordem e mandando em todo mundo como se fosse branco. Tínhamos mais liberdade, principalmente eu e a sinhazinha, que podíamos acompanhar o Tico e o Hilário em brincadeiras que, se a sinhá Ana Felipa visse, brigaria com a sinhazinha e mandaria castigar os meninos. Todas as pessoas gostavam deles, menos ela, que não permitia que nenhuma de nós duas conversasse com eles, os negrinhos de boca suja, como ela dizia. Bem se via que era perseguição, e o sinhô José Carlos não disfarçava certo prazer nas ocasiões em que ficava contra ela, a favor dos meninos. Mas naqueles dias podíamos brincar à vontade, e uma das brincadeiras preferidas dos meninos, que logo caiu no gosto da sinhazinha, era caçar passarinhos. Eu acompanhava só para não deixá-la sozinha com os moleques, pois, mesmo sendo mais nova, eu me sentia responsável por ela, e, com certeza, seria castigada caso algo ruim acontecesse. Eu tentava ficar de longe, sem olhar, mas, mesmo não olhando, sabia exatamente quando eles matavam algum passarinho, pelo piado triste ou pela falta do piado. Era como se sentisse a dor e o desespero deles, como se parte de mim também sofresse com eles. De início, a sinhazinha soltava algumas palavras de pena, mas logo se acostumou e passou a gostar da ideia, pedindo aos meninos que segurassem as aves aprisionadas entre as mãos para que ela as acertasse com uma pedrada, sem risco de errar, a poucos metros de distância. Os meninos eram certeiros com o bodoque mesmo de longe, e ficavam orgulhosos quando conseguiam atingir os bichinhos bem entre os olhos. Se não morriam na hora, ficavam tontos e não conseguiam voar, sendo presa fácil para a sinhazinha. Eu me sentia muito mal com tudo aquilo e falava com ela, que nem ligava. As fugidas para as matas, atrás dos meninos e seus bodoques ou arapucas, eram seu passatempo preferido, substituindo até as bonecas. Chegou a me dar duas de presente, que a Esméria não me deixou levar para a senzala enquanto a sinhá Ana Felipa não autorizasse, com medo de que eu fosse castigada.
A Esméria me contou sobre alguns castigos a que os pretos eram submetidos, raramente os da senzala pequena, que, pelo bom tratamento recebido, acabavam se comportando melhor. Embora precisassem ter muita paciência para não aceitar provocações dos outros, que estavam sempre tentando criar confusão para que um escravo de casa fosse mandado para a pesca ou para a roça, dando oportunidade para que alguém da senzala grande ocupasse o seu lugar. Com medo dos castigos e querendo também acabar com a matança dos passarinhos, resolvi contar para a Esméria um acontecimento que provocou a minha primeira briga séria com a sinhazinha, mas que nem se comparava ao que poderia ter acontecido caso alguém nos denunciasse. Certo dia, na mata, o Tico perguntou se queríamos vê-lo fazendo xixi, e já foi logo desamarrando o cordão e abaixando a calça. Eu já tinha visto muitos membros, mas a sinhazinha não, e começou a rir, achando aquilo muito engraçado. Os meninos disseram que os membros também eram chamados de passarinhos e que, ao invés de beberem água, como os de verdade, cuspiam água. O Hilário também abaixou a calça e começou a fazer xixi, guiando o jato na direção de uma fila de formigas, fazendo um risco sobre o caminho que elas traçavam. Eu me lembrei dos riozinhos do Kokumo e da minha mãe e da volta que as formigas davam para evitá-los. O Tico fez a mesma coisa, e o membro dele começou a ficar duro e a crescer, não do mesmo jeito que os membros dos guerreiros em Savalu, mas ele perguntou se eu ou a sinhazinha queríamos segurar nele e ajudar na matança das formigas. Ela parecia que ia aceitar e já estava andando na direção dele quando, pela primeira vez, fiz o que ela não queria. Peguei em seu braço com toda a minha força e saí correndo, e enquanto ouvíamos as gargalhadas dos meninos, ela reclamava que o vestido estava se prendendo nos galhos e ficando todo rasgado. Mesmo assim, não parei até chegarmos à casa, com ela me chamando de preta fedida, dizendo que ia mandar o pai me castigar no tronco e que nunca mais ia querer saber de mim. De fato, ficou dois ou três dias sem falar comigo, mas depois se esqueceu da promessa e também dos passarinhos, o que deve ter coincidido com a conversa que a Esméria teve com ela e depois com os meninos. Eles me contaram que ela jurou que cortaria fora os membros deles, caso se atrevessem a mostrá-los de novo à sinhazinha.
Voltamos às bonecas, mas elas já não tinham mais muita graça, e de vez em quando a sinhazinha me pedia para falar sobre os membros dos homens, como é que eles faziam para ter aquilo, até que tamanho cresciam, se serviam para outras coisas além de fazer xixi. Eu não contei o que sabia e o que já tinha visto, pois se fosse pega falando daquelas coisas para ela, aí é que poderia mesmo ir para o tronco ou ficar sem a língua, como tinha acontecido com o velho Fulgêncio, preto forro que às vezes chegava até a porta da cozinha querendo alguma coisa para comer. A Antônia contou que o ex-dono dele tinha mandado cortar a sua língua porque falou o que não devia. A sinhazinha era dois anos mais velha do que eu, mas não sabia nada daquilo, que eu também preferia não ter sabido tão cedo, pelo menos, não nas circunstâncias do acontecido.

Ana Maria Gonçalves, em Um defeito de cor

14/12/2024

As descobertas


A sinhá Ana Felipa já estava de cama havia três meses e o sinhô José Carlos tinha mudado de quarto, porque a sinhá exigia cuidados constantes e ele precisava dormir e descansar para o trabalho do dia seguinte. Além das dores, ela ainda sentia o pavor de perder novamente a criança que esperava, e mantinha a Antônia e a Firmina dia e noite ao pé da cama. Duas pretas da senzala grande foram chamadas para ocupar a cozinha, e a Maria das Graças e a Esméria passaram para o serviço da casa. Foi no meio dessa confusão toda que eu, depois de meses, deixei a varanda e a cozinha e entrei pela primeira vez na casa-grande, que não era chamada assim por acaso. Fiquei encantada com a sala de muitos móveis, com grandes sofás de madeira escura cobertos por almofadas ricas em bordados e pinturas, inteiras no comprimento do encosto e do assento, e outras soltas, menores, jogadas por cima das maiores. As pequenas eram de crochê ou de renda, de diversas cores e formatos, redondas, retangulares, quadradas, trabalhadas com linha finíssima, formando desenhos muito delicados. Havia também muitas poltronas e cadeiras, algumas da mesma madeira escura dos sofás, com os assentos de palha trançada que davam repouso para mais almofadas, quase todas vermelhas. Havia muito vermelho e dourado pela sala, como os xales jogados sobre bancos e móveis que eu nem sabia para que serviam, e que a Esméria explicou serem para descansar os pés.
À direita da porta da frente ficava um móvel com estátuas de santos, todas muito lindas e algumas vestidas com roupas de verdade, como a Nossa Senhora, a mãe do Menino Jesus, e o São José, o pai. Sobre este móvel também havia um vaso com flores e um castiçal de prata, e era dever da Antônia cuidar para que sempre houvesse lá uma vela acesa e um copo com água. Na parte de baixo do móvel ficava uma tábua um pouco elevada do chão, onde a pessoa se ajoelhava para rezar sobre uma almofada vermelha com bordados e franjas em dourado. Esse móvel tinha um nome também muito bonito, que eu tive dificuldade para aprender a falar, genuflexório. Em cada uma das paredes que separavam a sala da varanda, três janelas protegidas por cortinas, através das quais eu nunca tinha me atrevido a olhar pelo lado de fora, com medo de ser repreendida. Havia também uma mesa redonda com quatro cadeiras e muitas outras mesinhas espalhadas pelos cantos, com objetos de vidro, de prata ou de ouro, como cinzeiros, vasos com flores, caixinhas para rapé, castiçais e garrafinhas, tudo sobre delicadas toalhas de renda. Um outro móvel, com quatro prateleiras e porta de vidro, guardava copos de vários tamanhos e cores, em vidros tão finos que mais pareciam papel colorido, e também alguns pratos com desenhos que a Esméria disse serem do estrangeiro, da Europa, de onde tinham saído as famílias do sinhô e da sinhá. Havia mais pratos desses, com pinturas, pendurados nas paredes, ao lado de quadros que tanto eram de paisagens estrangeiras como de gente. Logo à entrada, ao lado da porta, um outro móvel com guarda-chuvas e capas de chuva, chapéus de todos os tipos, cores e tamanhos, luvas, e o que eu mais gostei, um espelho. Desde que me olhei nele pela primeira vez, não consegui passar um único dia sem voltar a fazê-lo sempre que surgia uma oportunidade. A Esméria parou na frente dele e me chamou, disse para eu fechar os olhos e imaginar como eu era, com o que me parecia, e depois podia abrir os olhos e o espelho me diria se o que eu tinha imaginado era verdade ou mentira. Eu sabia que tinha a pele escura e o cabelo duro e escuro, mas me imaginava parecida com a sinhazinha. Quando abri os olhos, não percebi de imediato que eram a minha imagem e a da Esméria paradas na nossa frente. Eu já tinha me visto nas águas de rios e de lagos, mas nunca com tanta nitidez. Só depois que deixei de prestar atenção na menina de olhos arregalados que me encarava e vi a Esméria ao lado dela, tal qual a via de verdade, foi que percebi para que servia o espelho. Era como a água muito limpa, coisa que, aliás, ele bem parecia.
Eu era muito diferente do que imaginava, e durante alguns dias me achei feia, como a sinhá sempre dizia que todos os pretos eram, e evitei chegar perto da sinhazinha. Quando era inevitável, fazia o possível para deixá-la feia também, principalmente em relação aos penteados. Pegava em seus cabelos com as mãos sujas de banha ou de terra e inventava maneiras estranhas de prendê-los. Sem a sinhá por perto e com a sinhazinha enfrentando a Esméria e a Antônia dizendo que, se eu tinha feito, então estava bonito, pois elas não entendiam nada de penteados, ficava por aquilo mesmo, e eu ria sozinha pelos cantos. O sinhô José Carlos não ligava para essas coisas; aliás, ele não ligava para a filha, por não ter o dom do afeto e por considerá-la culpada pela morte da mãe. E assim foi até o dia em que comecei a me achar bonita também, pensando de um modo diferente e percebendo o quanto era parecida com a minha mãe. O espelho passou a ser diversão, e eu ficava longo tempo na frente dele, fazendo caretas e vendo a minha imagem repeti-las, até o dia em que a sinhazinha viu e me chamou para ir ao quarto dela. A Esméria tinha dito para eu nunca entrar lá, porque, se sumisse alguma coisa, poderiam dizer que eu tinha roubado. Mas como a sinhazinha insistiu e eu morria de curiosidade, fui. Andamos pelo longo corredor que tinha o mesmo piso da sala, de tábuas largas e compridas, uma mais clara ao lado de outra mais escura, com tapetes coloridos jogados de espaço a espaço. O corredor era escuro, pois não tinha janelas como os outros cômodos, somente muitas portas fechadas e três lamparinas, que ficavam apagadas durante o dia.
Quando a porta do quarto da sinhazinha se abriu, eu me imaginei entrando em um outro mundo, cor-de-rosa como o tapete que cobria o chão. Tudo era dourado, branco ou cor-de-rosa, como a cama e o dossel, onde estava presa uma cortina feita de tecido muito leve e transparente, salpicado de flores bordadas. Ou a cômoda e o armário, onde ficavam guardadas as roupas e os sapatos, assim como o móvel que tomava toda uma parede e estava cheio de brinquedos de variados tipos, tamanhos e cores, principalmente bonecas. No chão, em meio a algumas almofadas, um cavalo de madeira pintado de branco com os pés iguais aos da cadeira de balanço em que a sinhá se sentava na varanda, com o rabo e a crina cor-de-rosa trançados e amarrados com fita. A sinhazinha abriu a porta do armário e eu vi mais roupas do que dez crianças juntas poderiam vestir, e, na porta, no lado de dentro, um imenso espelho, onde era possível ver nós duas juntas, de pé e de corpo inteiro. Fiquei fascinada, e mais ainda quando ela disse que eu podia pegar uma roupa para ver como ficava em mim. Ela era maior que eu, mas, mesmo assim, escolhi um vestido longo, do mesmo tecido da cortina que rodeava a cama, com diversas camadas de saias rodadas, sendo que a de cima estava bordada com minúsculas borboletas coloridas. Ela também me emprestou pares de luvas e sapatos que não couberam nos meus pés, mas fiz questão de ficar equilibrada em cima deles, com os dedos enfiados o mais que eu podia aguentar. A sinhazinha buscou na sala uma sombrinha cor-de-rosa, que combinava com todo o resto e completava o meu fascínio.
Olhando no espelho, eu me achei linda, a menina mais linda do mundo, e prometi que um dia ainda seria forra e teria, além das roupas iguais às das pretas do mercado, muitas outras iguais às da sinhazinha. Ela também deve ter me achado bonita e ficado com ciúme, pois logo deu a brincadeira por terminada e pediu que eu tirasse tudo antes que estragasse, ou antes que a sinhá Ana Felipa aparecesse e brigasse com nós duas. Mas a sinhá não ia aparecer, ela não se levantava da cama, para ver se conseguia segurar a criança que estava esperando, deixando a sinhazinha Maria Clara inteiramente aos cuidados da Esméria. E era bem possível que a sinhá não aparecesse nem se estivesse boa, pois comentavam que depois que ela se casou com o sinhô José Carlos, meses após a morte da sinhá Angélica, quando deveria ser uma mãe substituta para a sinhazinha, nunca cuidou da menina. Diziam que até a maltratava, e depois se tornou indiferente, como era naquela época. A indiferença ainda era acrescida de rancor, porque a sinhazinha Maria Clara era a lembrança de que ela não conseguia dar filhos ao sinhô José Carlos, ao contrário da finada sinhá Angélica e de algumas pretas, como diziam ser o caso da mãe do Tico e do Hilário.

Ana Maria Gonçalves, em Um defeito de cor

07/12/2024

Nega Florinda




Aos domingos e nos dias santos, todos os escravos tinham folga certa, menos nós, os da casa-grande, que precisávamos trabalhar se os senhores assim quisessem. E sempre queriam, pois falavam que a nossa vida era bem melhor que a vida dos escravos que viviam na senzala grande, e que, portanto, não fazíamos favor algum abrindo mão de certas regalias. De fato, eu já tinha percebido que a nossa vida era melhor mesmo, apesar do pouco contato com os outros, de quem o sinhô José Carlos fazia questão de nos manter afastados. Segundo a Esméria, era para que não pegássemos de novo os vícios selvagens dos pretos, e assim servirmos melhor aos brancos. Mas eu desconfiava que ela não cumpria muito bem esta ordem, pois em algumas noites que eu fingia dormir, via que ela se levantava e saía, voltando somente na hora de torrar e moer o café para o desjejum. Ela também conversava muito com a Nega Florinda, que aparecia de vez em quando na fazenda e de quem eu já tinha ouvido a sinhá Ana Felipa dizer que não gostava, por ser metida até as unhas com bruxarias, embora se divertisse com as histórias que a preta contava.
A Nega Florinda era das pessoas mais antigas da ilha, morava lá desde que tinha chegado da África, ainda mocinha, e já era forra havia tanto tempo que ninguém vivo se lembrava dela como escrava. Era muito velha e parecia saber todas as histórias do mundo, desde que o mundo era mundo, como ela mesma dizia. Como recontadeira, andava de casa em casa e recebia algum dinheiro ou mesmo sobras de comida, que aceitava de bom grado antes de se agachar em qualquer canto e contar histórias. Até a sinhá se aproximava para ouvi-la, e não se importava se algumas pretas da casa ou da cozinha também ficassem por perto. Parecia que o Tico e o Hilário tinham faro para as histórias, pois os dois podiam estar longe que davam um jeito de aparecer. Aliás, os dois estavam sempre sumidos, e muitas vezes, quando se precisava deles para fazer algo ou levar recado a pedido dos senhores, quem tinha recebido a incumbência de encomendar o serviço a eles acabava tendo que fazê-lo, porque só eram encontrados quando o assunto também lhes interessava.
Eu me assustei um pouco na primeira vez que vi a Nega Florinda se aproximar da varanda onde eu estava com a sinhazinha Maria Clara. De longe, ela parecia um dos egunguns que eu tinha visto certa vez passeando pelas ruas de Uidá. Era baixa e andava curvada, os passos rápidos para compensar as pernas curtas, e usava uma bata inteiriça e colorida que ia até os pés, com um pano da costa jogado sobre o ombro direito e, em uma das mãos, uma bolsa de tecido, onde guardava o dinheiro ou as prendas que recebia por suas histórias. Usava vários colares de contas coloridas em volta do pescoço, e em uma corda amarrada na cintura pendurava um sino pequeno e barulhento, que tilintava para anunciar sua chegada. A sinhá Ana Felipa não deixava que a Nega Florinda fosse recebida sem que ela estivesse presente, pois queria ter certeza de que, como desdenhava, a velha não contaria histórias de feitiços nem dos demônios que os pretos chamavam de santos e cultuavam como se fossem capazes de grandes feitos. Mas quando a sinhá estava cansada de bordar ou de ler, a Nega Florinda era até bem recebida, com direito a refresco e um pedaço de pão ou bolo, sem falar no dinheiro. Além de dizer alôs muito bem, era interessante ver como a Nega se preparava, batendo palmas ritmadas antes de começar e durante a narração, com força e velocidade diferentes, para ajudar a fazer suspense. A primeira história que ela contou eu já conhecia, a minha avó tinha contado para mim, para a Taiwo e o Kokumo enquanto tecia sob o pé de iroco, com uma pequena diferença no final, que a Nega Florinda devia ter feito para agradar à sinhá Ana Felipa. Era a história do teiú e da tartaruga, que viviam em um lugar onde há muito tempo não chovia, fazendo com que todos passassem fome. Para sobreviver, o teiú se arriscava para roubar o inhame que crescia dentro de uma rocha mágica vigiada por um homem muito bravo, e foi enganado pela fada da cabeça pelada. Mas no final deu tudo certo e a fada foi punida, apanhando muito do dono da roça, que quebrou seu casco em vários lugares. Arrependida, a fada recebeu ajuda da barata, que coseu o casco e o deixou daquele jeito, com as marcas das rachaduras. Perto da sinhá Ana Felipa, a Nega Florinda disse que a ajuda tinha sido de Nossa Senhora, mas tive quase certeza de que ela sabia o final verdadeiro.
Em um dia em que a Nega Florinda apareceu e não pôde ser recebida porque a sinhá estava de repouso para não perder a criança, aproveitei para conversar com ela. Imaginei que ela poderia me ajudar porque talvez fosse da mesma região que a minha avó, já que as duas conheciam a mesma história. Desse modo, entenderia a minha necessidade de cumprir as promessas feitas, de providenciar um Xangô, uma Nanã, uma Oxum, os Ibêjis e, principalmente, o pingente que representaria a Taiwo, para que eu pudesse ficar com a alma completa, a alma que nós duas dividíamos antes de ela morrer. Estávamos na varanda quando a Nega Florinda chegou, e como a sinhazinha adorava ouvir suas histórias, foi pedir à sinhá que deixasse a Nega Florinda contar uma história só, mesmo ela não estando por perto. Com a negativa da sinhá, a sinhazinha Maria Clara se trancou no quarto, chorando, e eu aproveitei para seguir a Nega Florinda até a praia. Antes, procurei pelo Eufrásio, o capataz, ou pelos homens que trabalhavam com ele, e não vi ninguém por perto. Na praia, apenas alguns pretos da senzala grande cuidavam dos barcos de pesca, ocupados com as próprias vidas, não dando importância ao que eu fazia da minha. Mesmo assim, pedi que entrássemos um pouco pelo palmeiral, para o caso de alguém aparecer de repente. A Nega Florinda disse que já sabia que eu precisava falar com ela e que podia ajudar. Contei como eu tinha chegado até ali e ela disse que isso já era um sinal de que os voduns e os orixás estavam comigo, mesmo que no momento eu não pudesse cultuá-los como mereciam, pois se eu tinha sobrevivido era porque havia uma importante missão a cumprir. Ela também era jeje, capturada em Ardra mais de sessenta anos antes, vivendo como liberta havia mais de trinta. No Daomé, tinha chegado a ser vodu-no, como a minha avó antes de ser expulsa da corte de Abomé. Disse também que devia conhecer quase todos os voduns que a minha avó conhecia e que poderia até me falar deles, mas não adiantaria muito porque eles eram de África e ainda não estavam assentados no Brasil, tinham ficado por lá. Alguns assentamentos já estavam sendo providenciados, mas aquela não era a minha missão porque, do contrário, eu já teria recebido um sinal. Muito menos era a missão dela, que, embora continuasse acreditando neles, na ajuda deles, sabia que não podiam fazer muita coisa por nós. No Brasil, o culto aos orixás era forte demais até para o grande poder que os voduns possuíam. Ela também disse que eu poderia me valer dos orixás para cultuar alguns voduns, porque, na Bahia, Mawu, Khebiosô, Legba, Anyi-ewo, Loko, Hoho, Saponan e Wu eram cultuados como Olorum, Xangô, Elegbá, Oxum, Iroco, Ibêjis, Xaponã e Olokum. Na Bahia, os orixás já tinham tomado conta da cabeça dos pretos e o culto deles vinha de muito tempo, praticado por quase todos os africanos que, por muitos e muitos anos, iam parar naquelas terras. Nossos voduns nunca teriam força para ganhar um pouco de espaço ou atenção, e para eles estava destinado um lugar não muito longe dali, do qual, por enquanto, ela nada podia falar. A Nega Florinda foi embora prometendo me ajudar, primeiro com o pingente da Taiwo, depois com a estátua dos Ibêjis, as maiores urgências. As outras coisas chegariam cada qual a seu tempo, como tinha que ser naquele lugar onde fingíamos cultuar os santos dos brancos.

Ana Maria Magalhães, em Um defeito de cor

20/11/2024

Sinhazinha


Antes de o sol nascer, a Esméria me acordou e fomos até a praia, para que eu me lavasse. Ela disse que um bom banho devia ser tomado em água doce, mas no momento o mar mesmo servia. Àquela hora da madrugada, já eram muitos os pretos que estavam acordados, alguns também tomando banho de mar, outros já trabalhando, circulando entre a praia, a casa-grande, as plantações e as senzalas, homens e mulheres carregando imensos balaios equilibrados sobre as cabeças ou amarrados às costas. Muito mais homens que mulheres, e até aquele momento eu não tinha visto nenhuma criança. Depois do banho, a Esméria me deu roupas melhores do que o pano que eu usava amarrado ao pescoço desde o desembarque, mas ainda longe de serem iguais às das mulheres que eu tinha visto no atracadouro. Eram roupas simples, uma bata e uma saia comprida até o tornozelo, brancas. Os pretos da senzala grande usavam roupas quase iguais, mas feitas de outro tipo de tecido, mais grosso e com listras brancas e azuis. A Esméria disse que as minhas não eram roupas novas e nem para crianças do meu tamanho, mas estavam bem conservadas e que depois perguntaria à sinhá se precisava providenciar outras, já que eu ia ficar dentro da casa, onde os pretos não deviam fazer má figura. Ela também disse que eu estava bonita e que não falaria mais comigo em iorubá, pois eu precisava aprender logo o português. Alertou novamente que nunca, nunca mesmo, eu poderia falar iorubá ou eve-fon perto do sinhô, da sinhá, da sinhazinha ou do Eufrásio, pois seria castigada. Não me pareceu difícil, pois eu achava a língua bonita e já entendia muitas palavras, faltando apenas aprender a pronunciá-las direito.
Na cozinha a movimentação já era grande, e a Esméria mal teve tempo de comer o mingau que a Antônia tinha preparado para todos nós. O dia na casa começava cedo, pois quando o sinhô José Carlos acordava, com os galos, a mesa do desjejum já devia estar posta. A Esméria parecia nervosa com o meu primeiro dia na casa, e eu também, desejando nunca ter deixado Savalu, que não era tão bonita quanto a Ilha dos Frades ou a Ilha de Itaparica, mas era onde eu tinha nascido e conhecia muita gente, onde tinha a minha mãe, a minha avó, a Taiwo e o Kokumo, e não ficava preocupada em saber se as pessoas iam gostar de mim ou não, porque já gostavam. A manhã já ia pelo meio quando a Antônia apareceu para me chamar; demos a volta por fora da casa e fomos até a varanda para encontrar a sinhá e a sinhazinha.
A sinhá estava sentada em uma cadeira de balanço e nem levantou os olhos do bordado que tinha no colo. A sinhazinha Maria Clara, em meio a almofadas e bonecas, brincava sobre uma esteira feita de panos coloridos. As bonecas dela tinham rostos com olhos, boca e nariz, e cabelos e roupas de verdade, parecendo gente, muito diferentes das que a minha avó fazia para mim e para a Taiwo. Quando chegamos perto e a Antônia disse o meu nome, ela levantou o rosto e era a pessoa mais bonita que eu já tinha visto, e ao mesmo tempo não parecia ser real. Era como uma de suas bonecas, uma boneca viva. Na verdade, eu não só a achei bonita, mas também senti medo ou um certo estranhamento quando percebi os olhos, que me pareceram de vidro ou de água do mar, pois nunca tinha visto gente com olhos daquela cor. Os do sinhô também eram azuis, como notei mais tarde, mas de um azul mais escuro, que não chamava atenção. Além dos olhos azuis, ela tinha o rosto muito branco, a boca pequena e cor-de-rosa e os cabelos da cor de cabelo de milho. Estava usando um vestido também azul, do mesmo tom dos olhos ou do mar, e que se espalhava feito água ao redor dela. A sinhazinha me olhou com certo interesse, mas não retribuiu meu sorriso, provavelmente tinha me achado menos interessante e muito mais feia que os outros brinquedos, porque foi isso que a Esméria disse que eu seria para ela, um brinquedo, e era como tal que eu deveria agir, ficar quieta e esperar que ela quisesse brincar comigo, do que ela quisesse. E apenas esperar, foi o que fiz durante todo o resto da manhã. Esperar que alguma coisa acontecesse que não fosse a sinhá Ana Felipa gritando de tempos em tempos para dentro de casa e logo sendo atendida pelo Sebastião ou pela Antônia, ou pelos dois juntos.
Fazendo de conta que eu não estava ali, a sinhazinha ficou trocando as roupas e penteando os cabelos das bonecas. Mas eu até gostei que ela me ignorasse, porque assim pudecontinuar maravilhada, sem tirar os olhos dela e, principalmente, das bonecas. Muito de vez em quando ela me olhava com o canto do olho, para logo depois se esquecer de mim novamente, em um alheamento que me fazia compará-la ainda mais às bonecas. Quando o sinhô apareceu na varanda e se sentou ao lado da sinhá por alguns instantes, os dois também permanecendo em silêncio, e o Sebastião chamou para o almoço, eu fiquei lá, como a Esméria tinha dito, como brinquedo obediente, parada, morrendo de vontade de ver de perto as bonecas da sinhazinha. Foi difícil me conter, mas fiquei com medo de que tivessem colocado alguém para me vigiar, até que a Esméria me chamou para comer também. Com os pratos nas mãos, nos sentamos à porta da cozinha, onde ela me mostrava alguns objetos, dizia os nomes deles em português e pedia que eu repetisse. Entre outras coisas, naquele dia aprendi que existem talheres, e que eu deveria usá-los para comer, que não podia mais comer com as mãos, o que era proibido pela sinhá aos escravos que trabalhavam na casa-grande.
Depois do almoço, os senhores foram se deitar um pouco e eu fui para o lugar onde estivera durante a manhã, como se não tivesse saído de lá. A sinhá e a sinhazinha voltaram para a varanda com a fresca da tarde e, de novo, agiram como se eu não existisse. A sinhá entretida com um livro e a sinhazinha, com as bonecas. E foi assim durante quatro ou cinco dias, enquanto à noite, e até que fosse necessário, as pretas da casa me ensinavam português, como também o Tico e o Hilário, com quem eu brincava de vez em quando. Eu já entendia quase tudo o que falavam e não foi muito difícil começar a falar também. Não tive a menor dificuldade em me comunicar com a sinhazinha quando ela finalmente conversou comigo, mostrando uma boneca e dois vestidos, um amarelo e outro branco, e perguntando qual deles eu preferia. Eu apontei o amarelo, mas foi o branco que ela colocou. Na mesma tarde, ela estava sentada no degrau mais baixo da escada que levava da varanda ao jardim, com a Antônia no degrau de cima, às suas costas, penteando os cabelos cor de milho. Eu apenas olhava quando ela me chamou, tirou o pente das mãos da Antônia e colocou nas minhas, pedindo que eu continuasse o trabalho da outra. Primeiro, tive medo de tocar os cabelos dela, de machucá-la com o pente, mas logo gostei da suavidade que tinha entre as mãos. Primeiro passei os dedos, sentindo os fios deslizarem entre eles como as franjas de um lenço que a Sanja, a filha da Titilayo, tinha ganhado de um marinheiro com quem se deitara. Acho que ficamos ali durante horas, eu mexendo no cabelo dela e nós duas olhando o mar além do jardim, além da areia branca. A partir daquele dia, só eu escovava os cabelos da sinhazinha, sempre inventando um jeito diferente de prendê-los, com fitas, grampos ou em tranças, que ela tentava repetir nas bonecas. Foi por isso que tive permissão para pegar nelas, porque a sinhazinha Maria Clara não conseguiu copiar um penteado com tranças e pediu que eu o fizesse. Os cabelos das bonecas eram quase tão macios quanto os dela, e ficávamos o dia inteiro naquilo, fazendo penteados e trocando as roupas para combinar, a sinhazinha sempre pedindo a minha opinião. Opinião que ela não aceitava, logo percebi, e passei a dizer o contrário do que realmente achava para que, ao me contrariar, ela fizesse o meu verdadeiro gosto.
A sinhá parou de aparecer na varanda e a Esméria disse que ela estava pejada, de resguardo. Contou que ela já tinha ficado assim várias vezes, mas nunca segurava criança. Quase todas morreram antes mesmo de se notar a barriga, mas duas chegaram a nascer antes do tempo e morreram logo em seguida. Em uma dessas vezes a sinhá quase morreu também, sendo salva por milagre. Foi um rebuliço na fazenda toda, com o sinhô descontando em maldade nos pretos o medo que ele tinha de perder a segunda mulher, como tinha acontecido com a primeira. Comentei que deviam dizer a ela que essas crianças podiam ser abikus, mas fui repreendida pela Esméria e avisada de que nunca deveria tocar nesse assunto. Ela disse também que, mesmo não sendo de verdade, todos nós tínhamos que adotar a religião e as crenças dos brancos, e que era falha dela ainda não ter me ensinado a rezar. Naquele dia mesmo, fez com que eu repetisse até decorar duas rezas importantes, a ave-maria e o pai-nosso, pois a qualquer momento a sinhá Ana Felipa poderia mandar me chamar para ver se eu já sabia rezar como gente de bem. Eu não conseguia entender que mal havia em falar de abiku, de Ibêjis, de voduns, mas a Esméria retrucou com tanta braveza que não me atrevi a contar sobre as promessas que tinha feito à minha avó, como providenciar o pingente da Taiwo, que eu tinha que trazer sempre comigo e que ainda estava representado pela concha amarrada no pescoço. Naquela noite sonhei com a Taiwo, que não disse nada, mas parecia brava comigo.

Ana Maria Gonçalves, em Um defeito de cor

01/11/2024

A primeira casa


Do armazém, seguimos em direção ao cais, de volta pelo caminho que eu já tinha percorrido, e mais uma vez pude reparar nas mulheres que tanto me fascinaram, prometendo a mim mesma que um dia usaria aquelas roupas e seria muito mais feliz do que jamais tinha sido, pois foi esta a imagem que elas me passaram, a de felicidade, apesar de tudo. Chegando ao ancoradouro, um barco com mais três pretos estava à nossa espera, e um para-sol foi aberto sobre o nosso dono assim que ele embarcou. Depois que todos estávamos sentados, quatro pretos tomaram seus lugares nas laterais do barco e remaram de modo vigoroso e cadenciado, como se mentalmente cantassem uma música que impunha o ritmo da travessia. Fiquei alegre ao pensar que estava voltando para a Ilha dos Frades, mas logo tomamos outra direção, tendo à nossa frente a maior das ilhas da Baía de Todos os Santos, que depois eu soube se chamar Itaparica.
A ilha crescia e ficava mais bonita à medida que nos aproximávamos, e eu já via suas imensas praias de areia muito branca e palmeiras que pareciam as de África, e, mais para dentro, morros cobertos por florestas que eu também imaginava como as do meu reino. O barco contornou algumas pedras ao longo da costa e atracou em uma das pontas da ilha. Desembarcamos e seguimos primeiro pela praia, para depois entrarmos por uma trilha em meio às árvores. Nós, os pretos, íamos a pé, mas assim que pisamos a areia, o nosso dono já tinha esperando por ele um meio de transporte que achei muito engraçado, e depois vi que era comum entre as pessoas ricas da terra. Uma espécie de cadeira com encosto alto e sem os pés, pois, no lugar deles, logo abaixo do assento, estavam fixadas duas grossas ripas de madeira, que se estendiam paralelas para a frente e para trás de quem estava sentado. Ajoelhados, dois pretos apoiavam as ripas sobre os ombros, uma de cada lado, que eram cuidadosamente erguidas depois que o ocupante se sentava. Os pretos pareciam acostumados àquele trabalho, e era importante que tivessem mais ou menos a mesma altura, para que a cadeira não pendesse para um dos lados. Mesmo assim, não devia ser nada confortável para o ocupante, que corria o risco de perder o equilíbrio a qualquer solavanco ou em um terreno inclinado. Mas o nosso dono, o senhor José Carlos de Almeida Carvalho Gama, de quem herdamos o apelido, preferia o desconforto à caminhada, sempre.
A casa ficava a poucos metros da praia e era das maiores que eu já tinha visto, e a mais bonita. Entramos pela lateral do terreno, grande, cercado de árvores comuns, de árvores com frutas e de muitas plantas floridas. Na frente havia palmeiras e um jardim muito bem cuidado, até o limite com a areia da praia. Nos fundos, em meio a árvores que mais adiante se fechavam em densa mata, havia dois enormes barracões rústicos e pintados de branco. A casa era azul-clara, com as molduras das janelas e das portas pintadas de azul-escuro, a mesma cor das vigas de madeira que sustentavam o telhado da varanda que abraçava toda a construção. Na sombra desta varanda havia algumas cadeiras e redes, plantas em vasos e algumas pretas cantando e costurando, ao lado de três pretos já idosos, que trançavam palha para fazer balaios ou esteiras. O sinhô José Carlos, era assim que ele gostava de ser chamado, mandou que um dos empregados levasse a cozinheira para a senzala pequena e o pescador, para a senzala grande. Para mim, ele disse qualquer coisa que não entendi por ser em português, mas achei que era para segui-lo, o que fiz até a porta da cozinha. Ele entrou e fez um gesto para que eu ficasse esperando do lado de fora da porta, onde apareceram duas mulheres, olharam para mim e tornaram a entrar. Surgiu então uma terceira, mais velha e gorda, vestindo saia e blusa sujas de carvão, que me ofereceu um bom pedaço de bolo e um copo de leite. Ela começou a conversar comigo em português e eu respondia em iorubá, não me lembro exatamente o quê, mas acho que devo ter entendido. Não era difícil entender o português, eu apenas ainda não conseguia falar. Enquanto comia, com gosto e fome, ela me olhava com pena e carinho, e quando devolvi o copo vazio, falou em iorubá que eu tinha que aprender logo o português, pois o sinhô José Carlos não permitia que se falassem línguas de pretos em suas terras, e que qualquer coisa de que eu precisasse era para falar com ela, que se chamava Esméria. E que também era para eu ficar com ela na cozinha até o anoitecer, quando me levaria para a senzala pequena, onde dormiam os escravos que trabalhavam na casa.
A cozinha era maior do que toda a minha casa em Savalu e quase do tamanho da casa da Titilayo, em Uidá. Em um canto havia um enorme fogão a lenha onde a Esméria trabalhava, vermelho, da cor do cimento que cobria o chão. Em uma das paredes havia um armário com várias panelas e uma pia enorme, onde uma outra preta, mais nova que a Esméria e chamada Firmina, lavava uma pilha de coisas de cozinha e de mesa, que eu passava a conhecer a partir daquele momento. Havia também uma mesa sobre a qual, do teto, pendiam molhos de alho, pedaços de toucinho e outras comidas que eu também não conhecia. Ao lado da porta de saída, perto da qual eu tinha me sentado para observar tudo com muita curiosidade, ficava uma outra porta por onde a Esméria entrava e saía diversas vezes, com os ingredientes que usava para fazer a comida. Ao sair, sempre trancava a porta com uma chave que carregava amarrada à cintura. Uma terceira porta, bem em frente de onde eu estava sentada, levava ao interior da casa, velado por uma cortina.
Quando o jantar ficou pronto, um preto muito bem-vestido apareceu para pegar as travessas, muitas, onde a Esméria ia ajeitando a comida de várias qualidades, cada uma disposta em sua própria vasilha. Fiquei tentando imaginar, pela quantidade e variedade, quantas pessoas moravam naquela casa. O preto se chamava Sebastião e era quase branco no seu jeito de andar e de falar, tendo até os pés calçados, como também era o caso da Antônia, que apareceu para ajudá-lo, vestida com roupas diferentes das que a Esméria e a Firmina usavam. Depois do jantar, foram os dois também que carregaram tudo de volta para a cozinha, travessas, pratos, copos, talheres e a comida quase intocada. A Esméria me deu um pouco do que tinha sobrado e disse para eu comer rápido e não contar a ninguém, enquanto ela e a Firmina faziam o mesmo. Depois que as duas terminaram de lavar, secar e guardar a louça, com a Antônia e o Sebastião sentados à mesa e conversando em voz baixa, a Esméria me levou para a senzala pequena, onde também dormiam todos que eu tinha conhecido.
A Esméria riu quando perguntei sobre aquela história de virar carneiro e disse que também já tinha pensado assim. Em iorubá, ela me explicou o que era um escravo, alguém por quem o dono tinha pagado a quantia que achava justa e que lhe dava o direito de ter o escravo trabalhando pelo resto da vida, ou até que ele pudesse pagar pela liberdade que tinha antes de ser comprado. Eu não sei se entendi direito naquele dia, mas a explicação conformada me pareceu justa, e acho que até fiquei feliz por saber que os brancos não nos compravam porque apreciavam a nossa carne. Gostei também quando ela disse que eu seria escrava de companhia da sinhazinha Maria Clara, a filha do sinhô José Carlos. Ele era casado com a sinhá Ana Felipa, mas a mãe da sinhazinha Maria Clara era a sinhá Angélica, que tinha morrido no parto. O sinhô José Carlos então se casou de novo e não teve mais filhos, o que fazia da sinhazinha uma criança bastante solitária naquele mundo de adultos. Antes de mim, ela tinha tido uma outra companhia, uma moça mais velha, que foi vendida pela sinhá Ana Felipa quando começou a se dar ao desfrute dentro da casa. A Esméria recomendou que eu me comportasse bem, nunca dizendo nada que não fosse perguntado, nunca fazendo o que não fosse pedido e nunca desobedecendo ou questionando, mesmo quando achasse que uma ordem estava errada ou era injusta. Era assim que as coisas aconteciam entre pretos e brancos, e era assim que deveriam continuar, pois eu nunca poderia mudá-las e tinha até muita sorte de estar entre os escravos da casa, mais bem tratados do que os que viviam na senzala grande e trabalhavam na lavoura, no engenho ou na pesca da baleia. A Esméria disse ainda que a sinhazinha era uma menina muito boa, pois tinha herdado a bondade da mãe, de quem todos sentiam falta.
A senzala pequena era um cômodo não muito grande, simples, com as paredes pintadas de branco do lado de fora e no tijolo cor de barro do lado de dentro. O chão era de barro alisado, mas muito limpo, sobre o qual estavam estendidas algumas esteiras. A Esméria colocou uma para mim ao lado da dela e mostrou onde dormiam a Firmina, o Sebastião e a Antônia, que eu já conhecia, e onde ia dormir a Maria das Graças, que tinha sido comprada junto comigo para ajudá-la na cozinha. As outras esteiras pertenciam ao Tico e ao Hilário, dois moleques que eram uma espécie de faz-tudo na casa-grande e que estavam sempre fugindo do trabalho, escondidos pelo mato. Havia ainda a esteira da Josefa, que estava na casa preparando o banho e os quartos para os nossos donos dormirem, a do Eufrásio, o capataz, que estava vigiando os pretos da senzala grande e esperando a hora de trancá-los dentro das baias, e a da Rita, a arrumadeira, que normalmente dormia na casa-grande, na cozinha, para o caso de o sinhô, a sinhá ou a sinhazinha precisarem de alguma coisa durante a noite. Eu estava cansada por causa do dia agitado e de tantas novidades, mas feliz por estar ali e pelo trabalho que ia fazer, e principalmente por causa da Esméria, de quem gostei bastante. Queria ter ficado mais tempo pensando na minha avó ou mesmo na Titilayo, que devia estar preocupada por falta de notícias nossas, mas peguei no sono tão logo larguei o corpo na esteira.

Ana Maria Gonçalves, em Um defeito de cor

19/10/2024

A venda


De fato, aconteceu que fui mesmo escolhida no segundo dia. Tão logo as portas do armazém foram abertas, começaram a chegar homens dos mais diferentes tipos, sabedores da notícia de que havia peças novas. Uns brancos, outros nem tanto, alguns com roupas bem parecidas com as que vestiam os brancos que nos pegaram em Uidá. Percebi uma pequena mudança nos rostos de todos aqueles que já estavam ali antes de nós. Parecia que renasciam a cada manhã, como se tivessem dentro deles um sol que surgia forte e que, com o correr do dia, ia enfraquecendo, até desaparecer por completo com o fim da tarde. A cada manhã renovavam a esperança de serem escolhidos para, enfim, deixarem aquele lugar que aos poucos ia acabando com eles, roubando saúde e, principalmente, dignidade. Era desonroso ficar no armazém por muito tempo, dia após dia, sendo preteridos e humilhados, rebaixados a um ponto em que não serviam nem mais para carneiros. A comida era pouca, levada uma vez por dia por um homem que a entregava a uma senhora bastante idosa e respeitada, que cuidava da preparação e da distribuição. Todos tentavam viver às boas com ela, que tanto poderia favorecer como prejudicar alguém. Não percebi se ela estava no armazém esperando para ser escolhida ou se aquele era o seu trabalho. Em comparação com a comida que recebíamos na Ilha dos Frades ou mesmo no navio, já que parecia ser para a mesma quantidade de pessoas, não chegava nem à metade. Além do mais, era apenas farinha, água, poucos legumes de péssima qualidade, já passados do ponto, e um pedaço de carne escura e malcheirosa, que depois me disseram ser carne de baleia, da pior qualidade.
Os brancos entravam, olhavam ao redor e apontavam os pretos pelos quais se interessavam. Então, um dos empregados se aproximava dos pretos e batia em seus ombros com uma vara ou gritava de longe para que eles se aproximassem, caso já entendessem o português. Não importando se era homem, mulher ou criança, o comprador apalpava-lhes todo o corpo e os fazia erguer os braços e mostrar as plantas dos pés, como a minha avó tinha feito em Uidá. O empregado do armazém batia com um chicote em suas pernas e eles tinham que pular, para ver se reagiam rápido, e depois tinham que abrir a boca e mostrar os dentes, para então gritar o mais alto que podiam. Senti vontade de rir quando vi este ritual pela primeira vez, talvez mais pelo nervoso de saber que também teria que passar por ele, mas desejando que acontecesse logo, que eu fosse logo escolhida e levada embora. Caso contrário, estaria condenada a ficar, quem sabe, até morrer, visto que a grande maioria dos compradores não se interessava por crianças. Quase todos os que tinham chegado junto comigo foram vendidos ainda de manhã, o que fazia aumentar a tristeza, o desânimo e o ódio dos que permaneciam. Sabendo das poucas chances que eu teria e que não deveria perder nenhuma delas, tentei me manter limpa e demonstrar alegria, pois percebi que a aparência contava muito. Primeiro foram vendidos os homens e as mulheres que estavam mais bem compostos e pareciam mais saudáveis, risonhos até, orgulhosos de serem escolhidos antes dos outros.
No meio da tarde eu já sentia muita fome, pois a comida não tinha dado para todo mundo. Os que estavam ali antes da nossa chegada foram os únicos a se servir, e em quantidades moderadas. Foi quando entrou um homem muito distinto, de meia-idade, seguido de perto por dois pretos também alinhados, embora tivessem os pés descalços. Ele pediu uma preta que soubesse cozinhar e algumas se apresentaram, voluntariamente ou depois de serem chamadas pelo empregado do barracão, que primeiro tentava vender as peças mais antigas, que os compradores recusavam para escolher as que estavam em melhores condições. Acabou sendo escolhida uma senhora que tinha viajado no meu navio, uma que eu vi chorando no dia em que levaram o marido morto para ser jogado no mar. Depois, o homem pediu um preto que entendesse de pescaria, e como já não havia mais homens da nova leva, ficou com um dos antigos que, na verdade, não tinha nada de antigo, era bem moço ainda, embora magro e maltratado. Quando parecia que já estava se preparando para ir embora, feliz com a compra, correu os olhos pelo armazém, como quem procura uma vaca entre carneiros, parou e apontou a bengala na minha direção.
Antes que ele se arrependesse, e antes mesmo que me chamassem, corri para ele e me apressei a fazer todo o procedimento, o que me valeu uma chicotada de reprimenda por parte do empregado, mas também algumas risadas de todos que estavam prestando atenção. Isso porque nem todos prestavam atenção, alguns pareciam completamente indiferentes em relação ao próprio destino, não se importando se fossem comprados ou não, se vivessem ou não. Mas eu queria viver e consegui arrancar uma gargalhada daquele que seria meu futuro dono, o que foi um sinal de permissão para que todos fizessem o mesmo. Logo o armazém tinha uma atmosfera menos triste, onde ecoavam algumas risadas tímidas e outras bem escandalosas. Como percebi que estava agradando, resolvi continuar. Dava um salto, levantava os braços, mostrava a planta dos pés, punha a língua para fora, berrava, corria ao redor de um círculo imaginário, me agachava e ficava de pé, dava pulos no ar e repetia tudo em seguida. Eu já estava ficando cansada quando o homem também se cansou de rir e passou a conversar em português com o empregado, e eu sabia que estava perguntando o meu preço. Fiquei muito feliz por ter sido aceita e me lembrei da minha mãe, da minha avó, da Taiwo e do Kokumo, e achei que eles também teriam rido se tivessem visto o que eu tinha acabado de fazer, e que estariam mais felizes ainda por eu ter sido escolhida no meu segundo dia no armazém. Mesmo não sendo mais para presente, eu não ia virar carneiro.
O homem que tinha acabado de me comprar sentou-se ao lado de uma mesa que servia de escritório em um dos cantos do armazém, onde ele e um dos empregados trataram da assinatura dos títulos de compra e venda. Os dois pretos que o acompanhavam já sabiam o que fazer e logo nos amarraram, eu, a cozinheira e o pescador, e nos levaram para perto da mesa, onde quiseram saber os nossos nomes, os nomes de branco que tínhamos recebido em África ou na Ilha dos Frades. O do pescador era Afrânio, e então passou a se chamar Afrânio Gama, e a cozinheira ficou sendo Maria das Graças Gama. Quando eu disse que me chamava Kehinde, o nosso dono pareceu ficar bravo, e um dos empregados perguntou novamente, em iorubá, que nome tinham me dado no batismo. Eu repeti que meu nome era Kehinde e não consegui entender o que diziam entre eles, enquanto o empregado procurava algum registro na lista dos que tinham chegado no dia anterior. O que sabia iorubá disse para eu falar o meu nome direito porque não havia nenhuma Kehinde, e eu não poderia ter sido batizada com este nome africano, devia ter um outro, um nome cristão. Foi só então que me lembrei da fuga do navio antes da chegada do padre, quando eu deveria ter sido batizada, mas não quis que soubessem dessa história. A Tanisha tinha me contado o nome dado a ela, Luísa, e foi esse que adotei. Para os brancos fiquei sendo Luísa, Luísa Gama, mas sempre me considerei Kehinde. O nome que a minha mãe e a minha avó me deram e que era reconhecido pelos voduns, por Nanã, por Xangô, por Oxum, pelos Ibêjis e principalmente pela Taiwo. Mesmo quando adotei o nome de Luísa por ser conveniente, era como Kehinde que eu me apresentava ao sagrado e ao secreto.

Ana Maria Gonçalves, em Um defeito de cor

12/10/2024

O mercado



Ao deixarmos a ruazinha, saímos em outra mais larga, na qual andamos bem pouco antes de entrarmos em um armazém. O espaço era grande e arejado, aberto para a rua com três enormes portas em forma de arcos que tomavam quase toda a parede da frente. O armazém já estava cheio de gente, e lá ficaram apenas os que não tinham nenhuma marca a ferro, pois tal marca indicava quem já tinha saído de África tratado de compra. Apesar de não estarem marcados, fui separada também de todos os muçurumins, e mais tarde soube que eles tinham grande valor e eram vendidos em lugares especiais. Fomos recebidos com certa alegria pelo branco que parecia ser o dono daquele local e que, ainda na rua, andou em torno de nós, apalpou nossas carnes, alisou nossas peles e provou o gosto deixado no dedo, abriu nossas bocas e olhou os dentes, e, por fim, fez sinais de aprovação. Quando entramos no armazém, percebi o motivo da felicidade, pois ele tinha um bom estoque de pretos, mas, juntando todos, não dava um de nós. Pareciam mesmo carneiros magros, bichos maltratados e doentes.
Quase todos estavam nus e eram homens e mulheres de várias idades, desde crianças de colo até idosos, todos tristes e muito diferentes dos pretos que eu tinha visto pelas ruas, sadios, fortes e, por que não dizer, alegres. Os que estavam no armazém pareciam não aguentar o peso do próprio corpo, que se resumia a quase que apenas ossos, e era por isso que permaneciam quietos o tempo todo. Em bancos encostados às paredes ficavam os mais velhos e os mais doentes, sentados ou deitados. Espalhados por todos os cantos do barracão, no chão de terra ou sobre esteiras de palha já se desmanchando, os mais jovens formavam grupos de acordo com os locais de onde tinham saído de África, o que era fácil de saber por causa das marcas nos rostos ou das línguas que falavam. As mulheres se acocoravam ao redor de fogareiros improvisados com barro e chapas de ferro que sustentavam tachos de comida. Elas olhavam, mudas, tanto para o fogo como para as vasilhas onde preparavam algo que nem de longe poderia ser chamado de refeição, apenas água onde boiavam pedaços minúsculos de verduras e ossos. Algumas crianças, magras e barrigudas, dormiam perto delas, outras estavam penduradas em peitos murchos, e outras ainda, um pouco mais velhas, brincavam de atirar pedrinhas para o ar e apanhá-las antes que tocassem o chão, como muitas vezes eu, a Taiwo e o Kokumo brincávamos em Savalu.
Os homens também formavam grupos, mais pela companhia, porque mal se falavam, deitados ou agachados, com os braços em volta dos joelhos e as cabeças enfiadas entre as pernas. O comum a todos eram os ossos, que de tão aparentes quase rasgavam a pele sem viço e sem cor definida, coberta por imensa quantidade de escaras. Tenho quase certeza de que nós também estávamos bem parecidos com eles quando desembarcamos, magros, tristes e com aparência de bichos, e nos fizeram muito bem os dias na Ilha dos Frades, ao ar livre, podendo tomar sol, tomar banho, e com comida suficiente para, além de não passarmos fome, ainda nos fartarmos com frutas, muitas que eu não conhecia e eram bem gostosas. Mais tarde, em África, senti muita falta delas. Os pretos que estavam naquele armazém provavelmente tinham ido do navio para lá, sem passar pelo período de descanso e recuperação. Ou estavam lá havia muito tempo, à espera de alguém que se interessasse por eles, não sendo cuidados por quem apenas intermediava a venda e não tratava bem de peça alheia. Na verdade, tamanho descaso fazia com que se tornassem peças que ninguém nunca ia querer.
Homens, mulheres e crianças tinham os cabelos raspados, mas alguns deixavam crescer pequenos tufos no alto da cabeça. As mulheres, na tentativa de imitar as que ficavam no porto, passavam grande parte do tempo amarrando e desamarrando lenços em volta da cabeça, enfeitados com qualquer coisa que fosse possível conseguir por ali, como palha, pedras e barro. Mas não ficavam bonitas, por mais que tentassem. Nem as crianças eram bonitas. Aliás, a única coisa que se podia perceber naqueles pretos era o ódio nos olhos de alguns deles, que até os guardas pareciam respeitar, mantendo uma distância segura. Até mesmo nós, talvez por estarmos mais bem-vestidos e mais saudáveis, fomos alvos de tais olhares. A sensação era de que a qualquer momento eles correriam todos na nossa direção e nos matariam, vingando em nós o tratamento recebido. O grupo no qual eu cheguei permaneceu unido, e ninguém conversou conosco durante um bom tempo. À noite, a temperatura esfriou e me senti desconfortável por todos aqueles que estavam nus, ou quase nus, inclusive as crianças, que choravam. Os guardas que ficavam do lado de fora das portas fechadas gritavam alguma coisa que as fazia calar, mas que eu não compreendia por não entender ainda o português.
Fiquei aliviada quando o dia amanheceu, pois tinha dormido muito mal, incomodada, com medo, mas vencida pelo cansaço provocado por emoções tão diferentes. Uma das mulheres do nosso grupo puxou conversa com outra das que já estavam no armazém, e ela disse que tinha chegado havia muito tempo e que infelizmente ninguém tinha se interessado por ela, um problema bastante comum para os que não eram vendidos logo nos primeiros dias. Quem acabava de chegar tinha a preferência por estar mais bem alimentado, e quanto mais tempo ficava ali, menores eram as chances de ser escolhido, porque a comida era pouca e irregular. Às vezes mal dava para as crianças, que tinham certas prioridades, seguindo uma norma estabelecida por eles mesmos. Mas quando a fome apertava, esqueciam até mesmo esta regra, colocavam as crianças para dormir e dividiam a comida entre os que tinham mais influência no grupo. Muitas das crianças não estavam acompanhadas de pai ou mãe, ou porque tinham viajado sozinhas, menos provável, ou porque ficaram órfãs durante a viagem, ou tinham sido separadas da família por compradores que se interessaram somente pelos adultos. A conversa atraiu outras mulheres, que estavam apenas observando, desconfiadas e curiosas para saber quando tínhamos saído da África, de que região éramos, a que tribo pertencíamos, como estava tudo por lá. Quando encontravam alguém da mesma região ou tribo, perguntavam por parentes e conhecidos, e às vezes aconteciam coincidências. Na segunda ou terceira leva anterior à nossa, havia um homem que conheceu a família de um rapaz que já estava no armazém e contou que a aldeia deles tinha sido arrasada, que os que não foram capturados estavam mortos.
Eu não sabia o motivo, mas tinha absoluta certeza de que não teria o mesmo destino que aquelas crianças, que alguém me escolheria logo e nada seria tão ruim assim, mas fiquei me perguntando se algumas delas já tinham tido o mesmo pensamento e a mesma certeza em vão. Mas elas pareciam indiferentes a tudo que acontecia ao redor, ou por estarem brincando ou por ficarem quietas a um canto, sozinhas, caladas, como se quisessem ficar invisíveis, como quando eu fechava os olhos na viagem de Savalu para Uidá e todo o mundo desaparecia.

Ana Maria Gonçalves, em Um defeito de cor

06/10/2024

O desembarque

Enquanto os remos do barco venciam lentamente a correnteza em volta da Ilha dos Frades, eu não sabia para onde olhar. Sentia vontade de permanecer na ilha, mas, ao mesmo tempo, queria seguir em direção àquela cidade que tão magicamente começava a se mostrar. Do barco já era possível vê-la quase inteira, fazendo uma suave curva para abraçar o mar, como um colar de contas em volta do pescoço. Contas que brilhavam à luz do sol, contas verdes da vegetação que descia pelas encostas, contas brancas das grandes casas construídas em cima do morro, contas coloridas das construções que se espalhavam ao pé das encostas e quase se misturavam com o verde e o azul do colo do mar.
Quando o barco ancorou, muitas pessoas se aproximaram falando a língua do Brasil, que, para mim, continuava parecendo mais música do que qualquer outra língua que eu já tinha ouvido. Alguns brancos acompanhavam um ou outro desembarque, mas a grande maioria era de pretos como nós, com tons de pele e aparências tão diferentes uns dos outros que eu imaginava ver uma África inteira em um só lugar, e tinham os rostos tão alegres que até pareciam nos dar boas-vindas. Não senti mais medo de virar carneiro, pois se tantos chegados antes de nós não tinham virado, seria muito azar se acontecesse justo na nossa vez. Havia um grande movimento, não apenas de barcos carregando pessoas, mas principalmente de cargas, caixas e mais caixas, baús e tonéis com mercadorias como frutas, peixes, tecidos e muitas outras coisas que eu não conhecia. Pretos enormes, como eu pouco tinha visto antes, transportavam tudo sobre os ombros, sozinhos ou aos pares, ou até mais que aos pares, dependendo do tamanho e do peso do objeto carregado. Estariam nus se não fosse um pedaço de pano que cobria apenas a região do membro, com os corpos suados brilhando ao sol, fortes e com músculos que dançavam sob a pele conforme o esforço. Trabalhavam cantando, o que era bonito de ver e ouvir, fazendo movimentos muito parecidos, como se tivessem ensaiado. Quando passavam uns pelos outros, eles se cumprimentavam, como em África, e ouvi alguns dizendo Oku ji ni o.
O que mais me impressionou foram as mulheres vendedoras de peixe fresco ou frito, quitutes e refrescos. Eu nunca tinha visto roupas tão bonitas. Dava para perceber que a maioria delas era da África por causa das marcas que tinham no rosto, mas estas eram as únicas evidências, pois se vestiam de um modo tão lindo, tão diferente, que eu nunca teria sido capaz de imaginar. Os cabelos estavam cobertos por turbantes grandes, feitos com tecidos brancos rendados, lisos ou enfeitados com búzios, conchas e contas de todos os tamanhos e de todas as cores. Usavam blusas costuradas sobre os ombros e nas laterais, com o comprimento até a metade das pernas, que ficavam escondidas dentro de saias muito rodadas. Geralmente, tanto a blusa como a saia eram brancas, embora algumas também se vestissem de amarelo, de verde, de azul e de rosa. As blusas, que até pareciam vestidos, eram de um tecido transparente e muito leve, escorregando pelos ombros, enfeitadas com bordados caprichados. Elas também tinham panos jogados sobre um dos ombros, que, mais tarde, eu soube que no Brasil são chamados de pano da costa, da costa da África. O pescoço e os braços eram enfeitados com colares e pulseiras dos mais coloridos, ou então dourados, que atraíam a luz do sol e ficavam ainda mais reluzentes. Algumas mulheres tinham os pés calçados, à moda dos brancos, com sapatos abertos e presos por tiras que subiam pelas pernas em interessantes trançados. Fiquei tão fascinada por elas que só queria saber onde conseguir roupa igual, e tentando guardar na memória cada detalhe, nem prestei muita atenção ao trajeto que fizemos. Só me lembro de ter passado por uma rua estreita e malcheirosa, de onde víamos o interior das casas, de um lado e do outro, algumas transformadas em comércio e outras mantidas como moradia. As pessoas também trabalhavam no meio das ruas, fazendo sapatos, trançando palha, bordando roupas e fabricando chapéus, além de outras atividades, deixando ainda menos espaço para quem passava por elas.

Ana Maria Gonçalves, em Um defeito de cor

01/10/2024

A Ilha dos Frades

Eu me senti quase feliz ao avistar a Ilha dos Frades. Uma felicidade que talvez pudesse ter sido chamada de alívio, como aconteceria várias outras vezes em minha vida. Por causa da beleza da ilha, fiquei impressionada com as cores, com o ar, com as novas sensações, com a esperança de tudo nem ser tão ruim assim. Ao subir as escadas do porão e ver primeiro o céu azul, depois a luz do sol quase me cegando, fazendo com que os outros sentidos ficassem mais atentos. Tive vontade de nascer de novo naquele lugar e ter comigo os amigos de Uidá. Havia um murmúrio do mar, um cantaréu de passarinhos, homens gritando numa língua estranha e melodiosa. Nascer de novo e deixar na vida passada o riozinho de sangue do Kokumo e da minha mãe, os meus olhos nos olhos cegos da Taiwo, o sono da minha avó. O mar era azul e nos levava tranquilos até uma ilha que, de longe e de cima do navio, não parecia ter nada além de árvores e da pequena faixa de areia branca. Algumas pessoas festejaram, deslumbradas, esquecendo-se de que iam virar carneiros, mesmo que fossem carneiros do paraíso. Eu tentava imaginar o que o Akin diria se eu contasse sobre aquele lugar ou, melhor ainda, se ele visse tal lugar. Desembarcamos do mesmo jeito que subimos a bordo, mas mandaram os homens na frente. Alguns saudaram a terra, saudaram a areia, batendo com a testa no chão. Os muçurumins pareciam não saber para que lado se virar e rezar, e demoraram olhando o céu até se decidirem, provavelmente baseados na posição do sol.
O sol estava quente e em pouco tempo já ardia na pele nua e acostumada à escuridão do navio, mas que ao mesmo tempo era refrescada pelo que parecia o vento harmatã, em África. Procurei o branco que queria a mim e à Taiwo como presente, mas não o encontrei, pois devia ter desembarcado assim que chegamos. Para falar a verdade, acho que fiquei feliz por ele não me querer mais, porque assim podia ficar na ilha, junto com os outros. A Tanisha também estava feliz e me abraçou. Da praia, o Amari e o Daren acenaram para ela, que agradeceu por estarem todos vivos. Nós não víamos a hora de desembarcar também, mas, disseram que antes teríamos que esperar um padre que viria nos batizar, para que não pisássemos em terras do Brasil com a alma pagã. Eu não sabia o que era alma pagã, mas já tinha sido batizada em África, já tinha recebido um nome e não queria trocá-lo, como tinham feito com os homens. Em terras do Brasil, eles tanto deveriam usar os nomes novos, de brancos, como louvar os deuses dos brancos, o que eu me negava a aceitar, pois tinha ouvido os conselhos da minha avó. Ela tinha dito que seria através do meu nome que meus voduns iam me proteger, e que também era através do meu nome que eu estaria sempre ligada à Taiwo, podendo então ficar com a metade dela na alma que nos pertencia.
O escaler que carregava o padre já estava se aproximando do navio, enquanto os guardas distribuíam alguns panos entre nós, para que não descêssemos nuas à terra, como também fizeram com os homens na praia. Amarrei meu pano em volta do pescoço, como a minha avó fazia, e saí correndo pelo meio dos guardas. Antes que algum deles conseguisse me deter, pulei no mar. A água estava quente, mais quente que em Uidá, e eu não sabia nadar direito. Então me lembrei de Iemanjá e pedi que ela me protegesse, que me levasse até a terra. Um dos guardas deu um tiro, mas logo ouvi gritarem com ele, provavelmente para não perderem uma peça, já que eu não tinha como fugir a não ser para a ilha, onde outros já me esperavam. Ir para a ilha e fugir do padre era exatamente o que eu queria, desembarcar usando o meu nome, o nome que a minha avó e a minha mãe tinham me dado e com o qual me apresentaram aos orixás e aos voduns.
Quando cheguei à ilha, sentei-me na areia e fiquei esperando, nem sei bem o quê. Um homem me chamou de selvagem em iorubá, e disse para eu ficar quieta, pois minha vida não valia quase nada. Aproveitei para pegar uma concha, desfiar algumas linhas do pano que tinham me dado, amarrar com elas a concha e pendurar no pescoço, onde ficaria representando a Taiwo enquanto eu não mandasse entalhar uma figura, como tinha que ser. Eu estava cansada, tinha percorrido uma boa distância do navio até a praia sem saber nadar direito, e fiquei feliz quando vi que o padre, ao deixar o navio, entrou no escaler e tomou a direção contrária à da ilha. A direção na qual eu vi, ao longe, algumas construções brilhando à luz do sol, equilibrando-se sobre montanhas, uma cidade que parecia ser muito maior que Uidá e Savalu juntas. Queria ter ficado olhando para ela, mas logo as outras mulheres chegaram à praia; fui amarrada junto com elas e conduzida por um caminho estreito entre muitas árvores, coqueiros e pássaros. Puxei o colar da Taiwo para fora da roupa para que ela também visse como tudo era bonito, e nos deixaram em um barracão que se erguia em imensa clareira, ao lado de mais duas construções, quase de igual tamanho. O lugar era limpo, com paredes de barro que subiam até quase o teto de sapé, deixando um vão por onde entrava uma claridade bonita e o ar fresco, muito diferente do que estávamos acostumados no navio. Ao entrar, todos se benzeram, agradecendo por terem chegado vivos. Eu também agradeci, principalmente aos espíritos dos pássaros e das cobras, que eu sabia serem os preferidos da minha avó.
Pensei que se aquela vida fosse a vida que carneiro de gente levava, era o que eu queria ter sido desde sempre, para sempre, porque os dias foram bons e até passaram mais rápido do que eu desejava. Éramos vigiados, mas não muito, porque dali não havia para onde ir, e nem queríamos. Apesar de não terem desamarrado os homens, para dificultar alguma tentativa de fuga, podíamos passear pela ilha, nadar, cozinhar e comer bananas e cocos que nasciam por todos os lados. Quando começava a escurecer, tínhamos que ir para o barracão, mas durante o dia éramos livres para fazer quase tudo que quiséssemos. No barracão, até certa hora, podia haver canto e dança, e alguns instrumentos foram feitos com o que achávamos nas andanças durante o dia e levávamos escondido por baixo dos panos. Pedaços de árvore, cipós, areia, conchas, folhas, pedras, tudo o que pudesse fazer barulho. Aprendemos também as primeiras palavras em português, uma língua que desde o início me pareceu uma música suave, com as palavras cantadas e muito bonitas. Todos os guardas que nos vigiavam falavam português e uma ou outra palavra nas nossas línguas, e um deles disse que não era para nos acostumarmos, porque só ficaríamos na ilha até terem certeza de que não estávamos doentes, e também para melhorarmos um pouco a aparência. Por causa disso, gostavam que tomássemos sol e caminhássemos, nos alimentavam bem e ainda podíamos comer tudo o que encontrássemos pela ilha.
Um dia nos fizeram cortar os cabelos uns dos outros, nos deram roupas limpas e disseram que o tempo de vadiagem tinha terminado. Em barcos separados para os que tinham e os que não tinham marcas de ferro, fomos levados para a cidade que víamos ao longe e que parecia ser muito bonita, a que ficava em cima do morro e da qual desde o início achei que fosse gostar bastante. Cruzando a baía, olhei uma última vez para a ilha e vi um navio grande ancorando, provavelmente com outros carneiros, que ocupariam os nossos lugares.

Ana Maria Gonçalves, em Um defeito de cor