Antes
de o sol nascer, a Esméria me acordou e fomos até a praia, para que
eu me lavasse. Ela disse que um bom banho devia ser tomado em água
doce, mas no momento o mar mesmo servia. Àquela hora da madrugada,
já eram muitos os pretos que estavam acordados, alguns também
tomando banho de mar, outros já trabalhando, circulando entre a
praia, a casa-grande, as plantações e as senzalas, homens e
mulheres carregando imensos balaios equilibrados sobre as cabeças ou
amarrados às costas. Muito mais homens que mulheres, e até aquele
momento eu não tinha visto nenhuma criança. Depois do banho, a
Esméria me deu roupas melhores do que o pano que eu usava amarrado
ao pescoço desde o desembarque, mas ainda longe de serem iguais às
das mulheres que eu tinha visto no atracadouro. Eram roupas simples,
uma bata e uma saia comprida até o tornozelo, brancas. Os pretos da
senzala grande usavam roupas quase iguais, mas feitas de outro tipo
de tecido, mais grosso e com listras brancas e azuis. A Esméria
disse que as minhas não eram roupas novas e nem para crianças do
meu tamanho, mas estavam bem conservadas e que depois perguntaria à
sinhá se precisava providenciar outras, já que eu ia ficar dentro
da casa, onde os pretos não deviam fazer má figura. Ela também
disse que eu estava bonita e que não falaria mais comigo em iorubá,
pois eu precisava aprender logo o português. Alertou novamente que
nunca, nunca mesmo, eu poderia falar iorubá ou eve-fon perto do
sinhô, da sinhá, da sinhazinha ou do Eufrásio, pois seria
castigada. Não me pareceu difícil, pois eu achava a língua bonita
e já entendia muitas palavras, faltando apenas aprender a
pronunciá-las direito.
Na
cozinha a movimentação já era grande, e a Esméria mal teve tempo
de comer o mingau que a Antônia tinha preparado para todos nós. O
dia na casa começava cedo, pois quando o sinhô José Carlos
acordava, com os galos, a mesa do desjejum já devia estar posta. A
Esméria parecia nervosa com o meu primeiro dia na casa, e eu também,
desejando nunca ter deixado Savalu, que não era tão bonita quanto a
Ilha dos Frades ou a Ilha de Itaparica, mas era onde eu tinha nascido
e conhecia muita gente, onde tinha a minha mãe, a minha avó, a
Taiwo e o Kokumo, e não ficava preocupada em saber se as pessoas iam
gostar de mim ou não, porque já gostavam. A manhã já ia pelo meio
quando a Antônia apareceu para me chamar; demos a volta por fora da
casa e fomos até a varanda para encontrar a sinhá e a sinhazinha.
A
sinhá estava sentada em uma cadeira de balanço e nem levantou os
olhos do bordado que tinha no colo. A sinhazinha Maria Clara, em meio
a almofadas e bonecas, brincava sobre uma esteira feita de panos
coloridos. As bonecas dela tinham rostos com olhos, boca e nariz, e
cabelos e roupas de verdade, parecendo gente, muito diferentes das
que a minha avó fazia para mim e para a Taiwo. Quando chegamos perto
e a Antônia disse o meu nome, ela levantou o rosto e era a pessoa
mais bonita que eu já tinha visto, e ao mesmo tempo não parecia ser
real. Era como uma de suas bonecas, uma boneca viva. Na verdade, eu
não só a achei bonita, mas também senti medo ou um certo
estranhamento quando percebi os olhos, que me pareceram de vidro ou
de água do mar, pois nunca tinha visto gente com olhos daquela cor.
Os do sinhô também eram azuis, como notei mais tarde, mas de um
azul mais escuro, que não chamava atenção. Além dos olhos azuis,
ela tinha o rosto muito branco, a boca pequena e cor-de-rosa e os
cabelos da cor de cabelo de milho. Estava usando um vestido também
azul, do mesmo tom dos olhos ou do mar, e que se espalhava feito água
ao redor dela. A sinhazinha me olhou com certo interesse, mas não
retribuiu meu sorriso, provavelmente tinha me achado menos
interessante e muito mais feia que os outros brinquedos, porque foi
isso que a Esméria disse que eu seria para ela, um brinquedo, e era
como tal que eu deveria agir, ficar quieta e esperar que ela quisesse
brincar comigo, do que ela quisesse. E apenas esperar, foi o que fiz
durante todo o resto da manhã. Esperar que alguma coisa acontecesse
que não fosse a sinhá Ana Felipa gritando de tempos em tempos para
dentro de casa e logo sendo atendida pelo Sebastião ou pela Antônia,
ou pelos dois juntos.
Fazendo
de conta que eu não estava ali, a sinhazinha ficou trocando as
roupas e penteando os cabelos das bonecas. Mas eu até gostei que ela
me ignorasse, porque assim pudecontinuar maravilhada, sem tirar os
olhos dela e, principalmente, das bonecas. Muito de vez em quando ela
me olhava com o canto do olho, para logo depois se esquecer de mim
novamente, em um alheamento que me fazia compará-la ainda mais às
bonecas. Quando o sinhô apareceu na varanda e se sentou ao lado da
sinhá por alguns instantes, os dois também permanecendo em
silêncio, e o Sebastião chamou para o almoço, eu fiquei lá, como
a Esméria tinha dito, como brinquedo obediente, parada, morrendo de
vontade de ver de perto as bonecas da sinhazinha. Foi difícil me
conter, mas fiquei com medo de que tivessem colocado alguém para me
vigiar, até que a Esméria me chamou para comer também. Com os
pratos nas mãos, nos sentamos à porta da cozinha, onde ela me
mostrava alguns objetos, dizia os nomes deles em português e pedia
que eu repetisse. Entre outras coisas, naquele dia aprendi que
existem talheres, e que eu deveria usá-los para comer, que não
podia mais comer com as mãos, o que era proibido pela sinhá aos
escravos que trabalhavam na casa-grande.
Depois
do almoço, os senhores foram se deitar um pouco e eu fui para o
lugar onde estivera durante a manhã, como se não tivesse saído de
lá. A sinhá e a sinhazinha voltaram para a varanda com a fresca da
tarde e, de novo, agiram como se eu não existisse. A sinhá
entretida com um livro e a sinhazinha, com as bonecas. E foi assim
durante quatro ou cinco dias, enquanto à noite, e até que fosse
necessário, as pretas da casa me ensinavam português, como também
o Tico e o Hilário, com quem eu brincava de vez em quando. Eu já
entendia quase tudo o que falavam e não foi muito difícil começar
a falar também. Não tive a menor dificuldade em me comunicar com a
sinhazinha quando ela finalmente conversou comigo, mostrando uma
boneca e dois vestidos, um amarelo e outro branco, e perguntando qual
deles eu preferia. Eu apontei o amarelo, mas foi o branco que ela
colocou. Na mesma tarde, ela estava sentada no degrau mais baixo da
escada que levava da varanda ao jardim, com a Antônia no degrau de
cima, às suas costas, penteando os cabelos cor de milho. Eu apenas
olhava quando ela me chamou, tirou o pente das mãos da Antônia e
colocou nas minhas, pedindo que eu continuasse o trabalho da outra.
Primeiro, tive medo de tocar os cabelos dela, de machucá-la com o
pente, mas logo gostei da suavidade que tinha entre as mãos.
Primeiro passei os dedos, sentindo os fios deslizarem entre eles como
as franjas de um lenço que a Sanja, a filha da Titilayo, tinha
ganhado de um marinheiro com quem se deitara. Acho que ficamos ali
durante horas, eu mexendo no cabelo dela e nós duas olhando o mar
além do jardim, além da areia branca. A partir daquele dia, só eu
escovava os cabelos da sinhazinha, sempre inventando um jeito
diferente de prendê-los, com fitas, grampos ou em tranças, que ela
tentava repetir nas bonecas. Foi por isso que tive permissão para
pegar nelas, porque a sinhazinha Maria Clara não conseguiu copiar um
penteado com tranças e pediu que eu o fizesse. Os cabelos das
bonecas eram quase tão macios quanto os dela, e ficávamos o dia
inteiro naquilo, fazendo penteados e trocando as roupas para
combinar, a sinhazinha sempre pedindo a minha opinião. Opinião que
ela não aceitava, logo percebi, e passei a dizer o contrário do que
realmente achava para que, ao me contrariar, ela fizesse o meu
verdadeiro gosto.
A
sinhá parou de aparecer na varanda e a Esméria disse que ela estava
pejada, de resguardo. Contou que ela já tinha ficado assim várias
vezes, mas nunca segurava criança. Quase todas morreram antes mesmo
de se notar a barriga, mas duas chegaram a nascer antes do tempo e
morreram logo em seguida. Em uma dessas vezes a sinhá quase morreu
também, sendo salva por milagre. Foi um rebuliço na fazenda toda,
com o sinhô descontando em maldade nos pretos o medo que ele tinha
de perder a segunda mulher, como tinha acontecido com a primeira.
Comentei que deviam dizer a ela que essas crianças podiam ser
abikus, mas fui repreendida pela Esméria e avisada de que
nunca deveria tocar nesse assunto. Ela disse também que, mesmo não
sendo de verdade, todos nós tínhamos que adotar a religião e as
crenças dos brancos, e que era falha dela ainda não ter me ensinado
a rezar. Naquele dia mesmo, fez com que eu repetisse até decorar
duas rezas importantes, a ave-maria e o pai-nosso, pois a qualquer
momento a sinhá Ana Felipa poderia mandar me chamar para ver se eu
já sabia rezar como gente de bem. Eu não conseguia entender que mal
havia em falar de abiku, de Ibêjis, de voduns, mas a Esméria
retrucou com tanta braveza que não me atrevi a contar sobre as
promessas que tinha feito à minha avó, como providenciar o pingente
da Taiwo, que eu tinha que trazer sempre comigo e que ainda estava
representado pela concha amarrada no pescoço. Naquela noite sonhei
com a Taiwo, que não disse nada, mas parecia brava comigo.
Ana Maria Gonçalves, em Um defeito de cor

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