quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Sinhazinha


Antes de o sol nascer, a Esméria me acordou e fomos até a praia, para que eu me lavasse. Ela disse que um bom banho devia ser tomado em água doce, mas no momento o mar mesmo servia. Àquela hora da madrugada, já eram muitos os pretos que estavam acordados, alguns também tomando banho de mar, outros já trabalhando, circulando entre a praia, a casa-grande, as plantações e as senzalas, homens e mulheres carregando imensos balaios equilibrados sobre as cabeças ou amarrados às costas. Muito mais homens que mulheres, e até aquele momento eu não tinha visto nenhuma criança. Depois do banho, a Esméria me deu roupas melhores do que o pano que eu usava amarrado ao pescoço desde o desembarque, mas ainda longe de serem iguais às das mulheres que eu tinha visto no atracadouro. Eram roupas simples, uma bata e uma saia comprida até o tornozelo, brancas. Os pretos da senzala grande usavam roupas quase iguais, mas feitas de outro tipo de tecido, mais grosso e com listras brancas e azuis. A Esméria disse que as minhas não eram roupas novas e nem para crianças do meu tamanho, mas estavam bem conservadas e que depois perguntaria à sinhá se precisava providenciar outras, já que eu ia ficar dentro da casa, onde os pretos não deviam fazer má figura. Ela também disse que eu estava bonita e que não falaria mais comigo em iorubá, pois eu precisava aprender logo o português. Alertou novamente que nunca, nunca mesmo, eu poderia falar iorubá ou eve-fon perto do sinhô, da sinhá, da sinhazinha ou do Eufrásio, pois seria castigada. Não me pareceu difícil, pois eu achava a língua bonita e já entendia muitas palavras, faltando apenas aprender a pronunciá-las direito.
Na cozinha a movimentação já era grande, e a Esméria mal teve tempo de comer o mingau que a Antônia tinha preparado para todos nós. O dia na casa começava cedo, pois quando o sinhô José Carlos acordava, com os galos, a mesa do desjejum já devia estar posta. A Esméria parecia nervosa com o meu primeiro dia na casa, e eu também, desejando nunca ter deixado Savalu, que não era tão bonita quanto a Ilha dos Frades ou a Ilha de Itaparica, mas era onde eu tinha nascido e conhecia muita gente, onde tinha a minha mãe, a minha avó, a Taiwo e o Kokumo, e não ficava preocupada em saber se as pessoas iam gostar de mim ou não, porque já gostavam. A manhã já ia pelo meio quando a Antônia apareceu para me chamar; demos a volta por fora da casa e fomos até a varanda para encontrar a sinhá e a sinhazinha.
A sinhá estava sentada em uma cadeira de balanço e nem levantou os olhos do bordado que tinha no colo. A sinhazinha Maria Clara, em meio a almofadas e bonecas, brincava sobre uma esteira feita de panos coloridos. As bonecas dela tinham rostos com olhos, boca e nariz, e cabelos e roupas de verdade, parecendo gente, muito diferentes das que a minha avó fazia para mim e para a Taiwo. Quando chegamos perto e a Antônia disse o meu nome, ela levantou o rosto e era a pessoa mais bonita que eu já tinha visto, e ao mesmo tempo não parecia ser real. Era como uma de suas bonecas, uma boneca viva. Na verdade, eu não só a achei bonita, mas também senti medo ou um certo estranhamento quando percebi os olhos, que me pareceram de vidro ou de água do mar, pois nunca tinha visto gente com olhos daquela cor. Os do sinhô também eram azuis, como notei mais tarde, mas de um azul mais escuro, que não chamava atenção. Além dos olhos azuis, ela tinha o rosto muito branco, a boca pequena e cor-de-rosa e os cabelos da cor de cabelo de milho. Estava usando um vestido também azul, do mesmo tom dos olhos ou do mar, e que se espalhava feito água ao redor dela. A sinhazinha me olhou com certo interesse, mas não retribuiu meu sorriso, provavelmente tinha me achado menos interessante e muito mais feia que os outros brinquedos, porque foi isso que a Esméria disse que eu seria para ela, um brinquedo, e era como tal que eu deveria agir, ficar quieta e esperar que ela quisesse brincar comigo, do que ela quisesse. E apenas esperar, foi o que fiz durante todo o resto da manhã. Esperar que alguma coisa acontecesse que não fosse a sinhá Ana Felipa gritando de tempos em tempos para dentro de casa e logo sendo atendida pelo Sebastião ou pela Antônia, ou pelos dois juntos.
Fazendo de conta que eu não estava ali, a sinhazinha ficou trocando as roupas e penteando os cabelos das bonecas. Mas eu até gostei que ela me ignorasse, porque assim pudecontinuar maravilhada, sem tirar os olhos dela e, principalmente, das bonecas. Muito de vez em quando ela me olhava com o canto do olho, para logo depois se esquecer de mim novamente, em um alheamento que me fazia compará-la ainda mais às bonecas. Quando o sinhô apareceu na varanda e se sentou ao lado da sinhá por alguns instantes, os dois também permanecendo em silêncio, e o Sebastião chamou para o almoço, eu fiquei lá, como a Esméria tinha dito, como brinquedo obediente, parada, morrendo de vontade de ver de perto as bonecas da sinhazinha. Foi difícil me conter, mas fiquei com medo de que tivessem colocado alguém para me vigiar, até que a Esméria me chamou para comer também. Com os pratos nas mãos, nos sentamos à porta da cozinha, onde ela me mostrava alguns objetos, dizia os nomes deles em português e pedia que eu repetisse. Entre outras coisas, naquele dia aprendi que existem talheres, e que eu deveria usá-los para comer, que não podia mais comer com as mãos, o que era proibido pela sinhá aos escravos que trabalhavam na casa-grande.
Depois do almoço, os senhores foram se deitar um pouco e eu fui para o lugar onde estivera durante a manhã, como se não tivesse saído de lá. A sinhá e a sinhazinha voltaram para a varanda com a fresca da tarde e, de novo, agiram como se eu não existisse. A sinhá entretida com um livro e a sinhazinha, com as bonecas. E foi assim durante quatro ou cinco dias, enquanto à noite, e até que fosse necessário, as pretas da casa me ensinavam português, como também o Tico e o Hilário, com quem eu brincava de vez em quando. Eu já entendia quase tudo o que falavam e não foi muito difícil começar a falar também. Não tive a menor dificuldade em me comunicar com a sinhazinha quando ela finalmente conversou comigo, mostrando uma boneca e dois vestidos, um amarelo e outro branco, e perguntando qual deles eu preferia. Eu apontei o amarelo, mas foi o branco que ela colocou. Na mesma tarde, ela estava sentada no degrau mais baixo da escada que levava da varanda ao jardim, com a Antônia no degrau de cima, às suas costas, penteando os cabelos cor de milho. Eu apenas olhava quando ela me chamou, tirou o pente das mãos da Antônia e colocou nas minhas, pedindo que eu continuasse o trabalho da outra. Primeiro, tive medo de tocar os cabelos dela, de machucá-la com o pente, mas logo gostei da suavidade que tinha entre as mãos. Primeiro passei os dedos, sentindo os fios deslizarem entre eles como as franjas de um lenço que a Sanja, a filha da Titilayo, tinha ganhado de um marinheiro com quem se deitara. Acho que ficamos ali durante horas, eu mexendo no cabelo dela e nós duas olhando o mar além do jardim, além da areia branca. A partir daquele dia, só eu escovava os cabelos da sinhazinha, sempre inventando um jeito diferente de prendê-los, com fitas, grampos ou em tranças, que ela tentava repetir nas bonecas. Foi por isso que tive permissão para pegar nelas, porque a sinhazinha Maria Clara não conseguiu copiar um penteado com tranças e pediu que eu o fizesse. Os cabelos das bonecas eram quase tão macios quanto os dela, e ficávamos o dia inteiro naquilo, fazendo penteados e trocando as roupas para combinar, a sinhazinha sempre pedindo a minha opinião. Opinião que ela não aceitava, logo percebi, e passei a dizer o contrário do que realmente achava para que, ao me contrariar, ela fizesse o meu verdadeiro gosto.
A sinhá parou de aparecer na varanda e a Esméria disse que ela estava pejada, de resguardo. Contou que ela já tinha ficado assim várias vezes, mas nunca segurava criança. Quase todas morreram antes mesmo de se notar a barriga, mas duas chegaram a nascer antes do tempo e morreram logo em seguida. Em uma dessas vezes a sinhá quase morreu também, sendo salva por milagre. Foi um rebuliço na fazenda toda, com o sinhô descontando em maldade nos pretos o medo que ele tinha de perder a segunda mulher, como tinha acontecido com a primeira. Comentei que deviam dizer a ela que essas crianças podiam ser abikus, mas fui repreendida pela Esméria e avisada de que nunca deveria tocar nesse assunto. Ela disse também que, mesmo não sendo de verdade, todos nós tínhamos que adotar a religião e as crenças dos brancos, e que era falha dela ainda não ter me ensinado a rezar. Naquele dia mesmo, fez com que eu repetisse até decorar duas rezas importantes, a ave-maria e o pai-nosso, pois a qualquer momento a sinhá Ana Felipa poderia mandar me chamar para ver se eu já sabia rezar como gente de bem. Eu não conseguia entender que mal havia em falar de abiku, de Ibêjis, de voduns, mas a Esméria retrucou com tanta braveza que não me atrevi a contar sobre as promessas que tinha feito à minha avó, como providenciar o pingente da Taiwo, que eu tinha que trazer sempre comigo e que ainda estava representado pela concha amarrada no pescoço. Naquela noite sonhei com a Taiwo, que não disse nada, mas parecia brava comigo.

Ana Maria Gonçalves, em Um defeito de cor

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