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05/08/2024

Noa Noa

Duas Taitianas com Flores de Manga (s.d.), de Paul Gauguin

Outro dia, ou melhor, outra noite, estava eu sentado na minha sala diante de uma bela reprodução de Gauguin, comprada aqui em Montevidéu. A reprodução fica sobre a lareira, no centro da sala, e representa duas lindas vahinés taitianas, com os seus pareos coloridos, posando para o dramático pintor, contra um fundo verde-amarelo de vegetação. A moça da esquerda (vista pelo observador) traz nas mãos uma cestinha de palha cheia de flores de um laranja-avermelhado, sobre a qual parecem repousar também seus esplêndidos seios nus. Mira ela o pintor com um ar de um tal mistério (ou será de uma misteriosa malícia?) que dá para a gente ficar pensando... À direita do quadro, sua jovem companheira, também olhando de meio-perfil para o pintor, parece ter acabado de segredar-lhe alguma coisa.
Que estariam elas dizendo? Olhei-as bem, em sua curiosa postura, e ao fim de dez minutos, não tive nenhuma dúvida. A vahiné da direita segredara à sua amiga:
Ele é divino, você não acha?
Ora se acho!
Você já...
Ainda não. Mas vou passar ele na cara hoje mesmo, ah, isso eu vou!
Depois você deixa eu dar uma voltinha?
Psiu... Cuidado que ele está olhando para cá...
Ah deixa...
E ninguém precisou torcer o braço de Gauguin para ele ter mais uma adorável noite taitiana…

Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor

03/06/2019

A obra-prima de Gauguin

De onde viemos? O que somos? Para onde vamos? (1897), de  Paul Gauguin

A composição de Gauguin De Onde Viemos? O que Somos? Para Onde Vamos? trata-se de sua maior pintura, com quase 4 metros de base, muitas vezes tida como sua obra-prima. Ele a realizou quando passava por um momento de grande angústia, tendo inclusive pensado em se matar em razão das dificuldades pelas quais passava, sem dinheiro até para comprar seu material de pintura, sem saúde e pela falta de reconhecimento de seu trabalho. Mas, antes de dar fim a sua vida, queria pintar um “grande quadro”, como relatou ao seu amigo Daniel Monfreid. A obra foi concluída em um mês, tendo o pintor trabalhado sem praticamente parar, durante esse período. Gauguin inspirou-se no Taiti para compor a sua obra.
No fundo da composição existe a predominância dos tons verdes. Sobre eles o artista espalhou vários personagens nativos. Alguns deles apresentam-se nus, outros seminus e alguns vestidos de corpo inteiro. A vegetação é pintada com fortes tons azuis e verdes, enquanto as figuras humanas são coloridas com cores claras. As árvores, com suas formas sinuosas e as figuras sólidas, compõem o paraíso tropical tão desejado pelo pintor, num misto de realidade e imaginação.
Um bebê dorme no chão, tendo a seu lado três jovens que descansam. Seria a representação da vida simples e sem preocupações do paraíso. No centro da composição, um jovem de corpo bem proporcionado e ereto retira uma fruta de uma árvore. O amarelo brilhante de seu corpo contrasta-se com os verdes e azuis do fundo da tela. Talvez o pintor tenha feito aqui uma alusão ao Jardim do Éden. As duas mulheres ao fundo, com o corpo todo coberto, representam a sabedoria.
A senhora idosa, com sua pele escura, destoa da vivacidade da mulher jovem a seu lado. Na sombra, ela parece estar olhando para o passado, enquanto  aguarda o fim de seus dias na Terra. A ave a seu lado pode representar o desconhecido que a aguarda após a morte. E, no primeiro plano, na parte esquerda da composição, uma garota come uma fruta, enquanto dois gatinhos brincam a seu lado. Assim como o rapaz colhendo a fruta, esta cena retrata a vida cotidiana.
A divindade presente na parte esquerda do quadro, toda em azul, simboliza o mundo do além. Ela traz os braços para cima e relembra as crenças primitivas, sendo tida por muitos como a deusa polinésia Hina que, além de representar a Mãe Terra, simboliza também a morte e a ressurreição.
O ciclo da vida é visto na pintura da direita para a esquerda, fugindo à habitualidade, pois está de acordo com a convenção oriental de leitura, iniciada da direita para a esquerda. O bebê e a anciã encontram-se nos dois extremos da tela, assim como acontece na linha da vida. E, como se pode deduzir através do título da obra que se encontra na margem superior esquerda da tela, escrito em francês, as figuras estão dispostas de forma a representarem o ciclo da vida:

  • o bebê dormindo (o início);
  • o jovem colhendo uma fruta (o meio);
  • a senhora idosa perto de uma ave (o fim).

No diagrama de Gauguin o quadro está assim explicado:

  • à direita (De onde Viemos) – as mulheres, as crianças, o cachorro e os símbolos da primavera representam o início da vida (De onde viemos);
  • no centro (Que Somos) – o homem se pergunta sobre o sentido da existência e procura alcançar o fruto da árvore do conhecimento;
  • à esquerda (Para aonde Vamos) – uma velha próxima da morte simboliza o final da vida. O pássaro é um aviso sobre a futilidade das palavras;
  • as duas figuras perto da árvore da sabedoria, envoltas em vestes escuras, simbolizam a tristeza trazida pelo próprio conhecimento;
  • os seres simples entregam-se à alegria de viver, numa natureza virgem que poderia ser um paraíso na acepção humana.

Curiosidade

Passando por um período precário, sem dinheiro, o pintor usou um tecido barato de saco como tela para sua composição. Nela também estão presentes elementos de outros quadros do pintor que a considera como a sua obra-prima, ou seja, uma síntese de suas pinturas e sua visão do mundo. Após a sua conclusão, Gauguin fez uma tentativa frustrada de suicídio, ao tomar arsênico. Vomitou e foi levado para o hospital, onde conseguiu se recuperar, voltando à calma interior. Gauguin sempre pretendeu mostrar que “a natureza não é um instrumento do homem, mas sua parceira”.
Fonte: virusdaarte.net

11/09/2018

Carta de Van Gogh a Émile Bernard

A leitora de romance (1888), de Vincente Van Gogh


Como você sabe, uma ou duas vezes, enquanto Gauguin estava em Arles, dei livre rédea às abstrações, por exemplo em “Mulher na cadeira de balanço” ou “Leitora de Romance”, preto numa biblioteca amarela; e naquela época a abstração parecia-me um caminho encantador.
Mas é um caminho encantado, meu velho, e a gente logo se vê contra um muro de pedra.
Não diria que não se possa aventurar por ela depois de toda uma vida viril de pesquisas, de uma luta direta com a natureza, mas não quero quebrar a cabeça com tais coisas.
Passei todo o ano convivendo com a natureza, sem pensar no Impressionismo ou nisto ou naquilo.
Não obstante, mais uma vez deixei-me ir à procura de estrelas demasiado grandes – um novo fracasso – e estou farto.
Por isso, estou trabalhando no momento entre as oliveiras, buscando os efeitos variados de um céu cinzento contra um chão amarelo, com uma nota verde escuro da folhagem; em outra ocasião, o chão e a folhagem são em tom violeta contra um céu amarelo; em outra ainda, um vermelho ocre no chão e um verde rosa no céu.
Sim, certamente isso me interessa muito mais do que as abstrações acima mencionadas.
Se há muito não lhe escrevo é porque, como tive de lutar contra a minha doença, e aclamar a minha cabeça, não me sentia inclinado a entrar em discussão, e essas abstrações me pareciam perigosas.
Se eu trabalhar muito calmamente, os belos motivos surgirão por si mesmos; realmente, acima de tudo é preciso retemperar-se na realidade, sem qualquer plano preconcebido, sem preconceito parisiense.
Falo-lhe dessas duas telas, especialmente da primeira, para lembrar-lhe que podemos dar uma impressão de angustia sem visar diretamente ao histórico Jardim de Getsêmani; que não é necessário retratar os personagens do Sermão da Montanha para produzir um motivo consolador e suave.
Ah! Sem dúvida é bom e justo ser comovido pela Bíblia, mas a realidade moderna tem sobre nós tal domínio que, mesmo se tentarmos reconstruir abstratamente os dias antigos em nossos pensamentos, os pequenos acontecimentos nos arrastam dessas meditações e nossas próprias aventuras nos lançam de novo nas sensações pessoais – alegria, tédio, sofrimento, cólera, ou sorriso.
Por vezes, errando encontramos o caminho certo.
Compense isso pintando o seu jardim exatamente como é, ou qualquer outra coisa que você queira.
Em todo o caso, é uma boa coisa buscar a distinção, a nobreza nas feições, e os estudos representam um esforço real e, em consequência, alguma coisa bem diferente da perda de tempo.
Saber dividir uma tela em grandes planos que se fundem, encontrar linhas, formas que contrastam, isso é técnica, truques se você quiser, cozinha, mas ainda assim um indício de que você se aprofunda na sua arte, o que é um bom sinal.
Por mais odiosa que a pintura possa ser, por mais onerosa que seja nos tempos que vivemos, se quem escolheu esse ofício o pratica zelosamente, será um homem do dever, sólido e fiel.
A sociedade torna nossa existência bem penosa, por vezes, e daí também a nossa impotência e a imperfeição de nossos trabalhos.
Acredito que até mesmo Guaguin sofre muito com isso, e não desenvolver-se, como tem a capacidade para fazer.
Sofro com uma falta absoluta de modelos. Mas, por outro lado, há aqui belos lugares.
Acabei de fazer cinco telas tamanho 30, oliveiras. E a razão da minha permanência aqui é minha saúde está melhorando muito.
O que estou fazendo é duro, seco, mas isso porque estou tentando adquirir forças novas através de um trabalho um pouco rude, e tenho medo de que as abstrações me debilitem.”
Carta de Van Gogh a Émile Bernard, St. Rémy, início de dezembro de 1889

15/12/2015

Noa Noa

Jovens Taitianas com flores de manga (1899), de Paul Gauguin

Outro dia, ou melhor, outra noite, estava eu sentado na minha sala diante de uma bela reprodução de Gauguin, comprada aqui em Montevidéu. A reprodução fica sobre a lareira, no centro da sala, e representa duas lindas vahinés taitianas, com os seus pareos coloridos, posando para o dramático pintor, contra um fundo verde-amarelo de vegetação. A moça da esquerda (vista pelo observador) traz nas mãos uma cestinha de palha cheia de flores de um laranja-avermelhado, sobre a qual parecem repousar também seus esplêndidos seios nus. Mira ela o pintor com um ar de um tal mistério (ou será de uma misteriosa malícia?) que dá para a gente ficar pensando... À direita do quadro, sua jovem companheira, também olhando de meio-perfil para o pintor, parece ter acabado de segredar-lhe alguma coisa.
Que estariam elas dizendo? Olhei-as bem, em sua curiosa postura, e ao fim de dez minutos, não tive nenhuma dúvida. A vahiné da direita segredara à sua amiga:
- Ele é divino, você não acha?
- Ora se acho! - Você já...
- Ainda não. Mas vou passar ele na cara hoje mesmo, ah, isso eu vou!
- Depois você deixa eu dar uma voltinha?
- Psiu... Cuidado que ele está olhando para cá...
- Ah deixa...
E ninguém precisou torcer o braço de Gauguin para ele ter mais uma adorável noite taitiana…
Vinicius de Moraes, in Para viver um grande amor