Flores em um Vaso (1891), de Paul Gauguin
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21/07/2025
27/06/2025
05/08/2024
Noa Noa
Duas Taitianas com Flores de Manga (s.d.), de Paul Gauguin
Outro
dia, ou melhor, outra noite, estava eu sentado na minha sala diante
de uma bela reprodução de Gauguin, comprada aqui em Montevidéu. A
reprodução fica sobre a lareira, no centro da sala, e representa
duas lindas vahinés taitianas, com os seus pareos coloridos, posando
para o dramático pintor, contra um fundo verde-amarelo de vegetação.
A moça da esquerda (vista pelo observador) traz nas mãos uma
cestinha de palha cheia de flores de um laranja-avermelhado, sobre a
qual parecem repousar também seus esplêndidos seios nus. Mira ela o
pintor com um ar de um tal mistério (ou será de uma misteriosa
malícia?) que dá para a gente ficar pensando... À direita do
quadro, sua jovem companheira, também olhando de meio-perfil para o
pintor, parece ter acabado de segredar-lhe alguma coisa.
Que
estariam elas dizendo? Olhei-as bem, em sua curiosa postura, e ao fim
de dez minutos, não tive nenhuma dúvida. A vahiné da direita
segredara à sua amiga:
– Ele
é divino, você não acha?
– Ora
se acho!
– Você
já...
– Ainda
não. Mas vou passar ele na cara hoje mesmo, ah, isso eu vou!
– Depois
você deixa eu dar uma voltinha?
– Psiu...
Cuidado que ele está olhando para cá...
– Ah
deixa...
E
ninguém precisou torcer o braço de Gauguin para ele ter mais uma
adorável noite taitiana…
Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor
03/06/2019
A obra-prima de Gauguin
De onde viemos? O que somos? Para onde vamos? (1897), de Paul Gauguin
A
composição de Gauguin De Onde Viemos? O que Somos? Para Onde
Vamos? trata-se de sua maior pintura, com quase 4 metros de base,
muitas vezes tida como sua obra-prima. Ele a realizou quando passava
por um momento de grande angústia, tendo inclusive pensado em se
matar em razão das dificuldades pelas quais passava, sem dinheiro
até para comprar seu material de pintura, sem saúde e pela falta de
reconhecimento de seu trabalho. Mas, antes de dar fim a sua vida,
queria pintar um “grande quadro”, como relatou ao seu amigo
Daniel Monfreid. A obra foi concluída em um mês, tendo o pintor
trabalhado sem praticamente parar, durante esse período. Gauguin
inspirou-se no Taiti para compor a sua obra.
No fundo da composição existe a
predominância dos tons verdes. Sobre eles o artista espalhou vários
personagens nativos. Alguns deles apresentam-se nus, outros seminus e
alguns vestidos de corpo inteiro. A vegetação é pintada com fortes
tons azuis e verdes, enquanto as figuras humanas são coloridas com
cores claras. As árvores, com suas formas sinuosas e as figuras
sólidas, compõem o paraíso tropical tão desejado pelo pintor, num
misto de realidade e imaginação.
Um bebê dorme no chão, tendo a seu lado
três jovens que descansam. Seria a representação da vida simples e
sem preocupações do paraíso. No centro da composição, um jovem
de corpo bem proporcionado e ereto retira uma fruta de uma árvore. O
amarelo brilhante de seu corpo contrasta-se com os verdes e azuis do
fundo da tela. Talvez o pintor tenha feito aqui uma alusão ao Jardim
do Éden. As duas mulheres ao fundo, com o corpo todo coberto,
representam a sabedoria.
A senhora idosa, com sua pele escura,
destoa da vivacidade da mulher jovem a seu lado. Na sombra, ela
parece estar olhando para o passado, enquanto aguarda o fim de
seus dias na Terra. A ave a seu lado pode representar o desconhecido
que a aguarda após a morte. E, no primeiro plano, na parte esquerda
da composição, uma garota come uma fruta, enquanto dois gatinhos
brincam a seu lado. Assim como o rapaz colhendo a fruta, esta cena
retrata a vida cotidiana.
A divindade presente na parte esquerda do
quadro, toda em azul, simboliza o mundo do além. Ela traz os braços
para cima e relembra as crenças primitivas, sendo tida por muitos
como a deusa polinésia Hina que, além de representar a Mãe Terra,
simboliza também a morte e a ressurreição.
O ciclo da vida é visto na pintura da
direita para a esquerda, fugindo à habitualidade, pois está de
acordo com a convenção oriental de leitura, iniciada da direita
para a esquerda. O bebê e a anciã encontram-se nos dois extremos da
tela, assim como acontece na linha da vida. E, como se pode deduzir
através do título da obra que se encontra na margem superior
esquerda da tela, escrito em francês, as figuras estão dispostas de
forma a representarem o ciclo da vida:
- o bebê dormindo (o início);
- o jovem colhendo uma fruta (o meio);
- a senhora idosa perto de uma ave (o fim).
No
diagrama de Gauguin o quadro está assim explicado:
- à direita (De onde Viemos) – as mulheres, as crianças, o cachorro e os símbolos da primavera representam o início da vida (De onde viemos);
- no centro (Que Somos) – o homem se pergunta sobre o sentido da existência e procura alcançar o fruto da árvore do conhecimento;
- à esquerda (Para aonde Vamos) – uma velha próxima da morte simboliza o final da vida. O pássaro é um aviso sobre a futilidade das palavras;
- as duas figuras perto da árvore da sabedoria, envoltas em vestes escuras, simbolizam a tristeza trazida pelo próprio conhecimento;
- os seres simples entregam-se à alegria de viver, numa natureza virgem que poderia ser um paraíso na acepção humana.
Curiosidade
Passando por um período precário, sem
dinheiro, o pintor usou um tecido barato de saco como tela para sua
composição. Nela também estão presentes elementos de outros
quadros do pintor que a considera como a sua obra-prima, ou seja, uma
síntese de suas pinturas e sua visão do mundo. Após a sua
conclusão, Gauguin fez uma tentativa frustrada de suicídio, ao
tomar arsênico. Vomitou e foi levado para o hospital, onde conseguiu
se recuperar, voltando à calma interior. Gauguin sempre pretendeu
mostrar que “a natureza não é um instrumento do homem, mas sua
parceira”.
Fonte: virusdaarte.net
11/09/2018
Carta de Van Gogh a Émile Bernard
A leitora de romance (1888), de Vincente Van Gogh
“Como você sabe, uma ou duas vezes,
enquanto Gauguin estava em Arles, dei livre rédea às abstrações,
por exemplo em “Mulher na cadeira de balanço” ou “Leitora de
Romance”, preto numa biblioteca amarela; e naquela época a
abstração parecia-me um caminho encantador.
Mas é um caminho encantado, meu velho, e
a gente logo se vê contra um muro de pedra.
Não diria que não se possa aventurar
por ela depois de toda uma vida viril de pesquisas, de uma luta
direta com a natureza, mas não quero quebrar a cabeça com tais
coisas.
Passei todo o ano convivendo com a
natureza, sem pensar no Impressionismo ou nisto ou naquilo.
Não obstante, mais uma vez deixei-me ir
à procura de estrelas demasiado grandes – um novo fracasso – e
estou farto.
Por isso, estou trabalhando no momento
entre as oliveiras, buscando os efeitos variados de um céu cinzento
contra um chão amarelo, com uma nota verde escuro da folhagem; em
outra ocasião, o chão e a folhagem são em tom violeta contra um
céu amarelo; em outra ainda, um vermelho ocre no chão e um verde
rosa no céu.
Sim, certamente isso me interessa muito
mais do que as abstrações acima mencionadas.
Se há muito não lhe escrevo é porque,
como tive de lutar contra a minha doença, e aclamar a minha cabeça,
não me sentia inclinado a entrar em discussão, e essas abstrações
me pareciam perigosas.
Se eu trabalhar muito calmamente, os
belos motivos surgirão por si mesmos; realmente, acima de tudo é
preciso retemperar-se na realidade, sem qualquer plano preconcebido,
sem preconceito parisiense.
Falo-lhe dessas duas telas, especialmente
da primeira, para lembrar-lhe que podemos dar uma impressão de
angustia sem visar diretamente ao histórico Jardim de Getsêmani;
que não é necessário retratar os personagens do Sermão da
Montanha para produzir um motivo consolador e suave.
Ah! Sem dúvida é bom e justo ser
comovido pela Bíblia, mas a realidade moderna tem sobre nós tal
domínio que, mesmo se tentarmos reconstruir abstratamente os dias
antigos em nossos pensamentos, os pequenos acontecimentos nos
arrastam dessas meditações e nossas próprias aventuras nos lançam
de novo nas sensações pessoais – alegria, tédio, sofrimento,
cólera, ou sorriso.
Por vezes, errando encontramos o caminho
certo.
Compense isso pintando o seu jardim
exatamente como é, ou qualquer outra coisa que você queira.
Em todo o caso, é uma boa coisa buscar a
distinção, a nobreza nas feições, e os estudos representam um
esforço real e, em consequência, alguma coisa bem diferente da
perda de tempo.
Saber dividir uma tela em grandes planos
que se fundem, encontrar linhas, formas que contrastam, isso é
técnica, truques se você quiser, cozinha, mas ainda assim um
indício de que você se aprofunda na sua arte, o que é um bom
sinal.
Por mais odiosa que a pintura possa ser,
por mais onerosa que seja nos tempos que vivemos, se quem escolheu
esse ofício o pratica zelosamente, será um homem do dever, sólido
e fiel.
A sociedade torna nossa existência bem
penosa, por vezes, e daí também a nossa impotência e a imperfeição
de nossos trabalhos.
Acredito que até mesmo Guaguin sofre
muito com isso, e não desenvolver-se, como tem a capacidade para
fazer.
Sofro com uma falta absoluta de modelos.
Mas, por outro lado, há aqui belos lugares.
Acabei de fazer cinco telas tamanho 30,
oliveiras. E a razão da minha permanência aqui é minha saúde está
melhorando muito.
O que estou fazendo é duro, seco, mas
isso porque estou tentando adquirir forças novas através de um
trabalho um pouco rude, e tenho medo de que as abstrações me
debilitem.”
Carta
de Van Gogh a Émile Bernard, St. Rémy, início de dezembro de 1889
15/12/2015
Noa Noa

Jovens Taitianas com flores de manga (1899), de Paul Gauguin
Outro
dia, ou melhor, outra noite, estava eu sentado na minha sala diante
de uma bela reprodução de Gauguin, comprada aqui em Montevidéu. A
reprodução fica sobre a lareira, no centro da sala, e representa
duas lindas vahinés taitianas, com os seus pareos coloridos, posando
para o dramático pintor, contra um fundo verde-amarelo de vegetação.
A moça da esquerda (vista pelo observador) traz nas mãos uma
cestinha de palha cheia de flores de um laranja-avermelhado, sobre a
qual parecem repousar também seus esplêndidos seios nus. Mira ela o
pintor com um ar de um tal mistério (ou será de uma misteriosa
malícia?) que dá para a gente ficar pensando... À direita do
quadro, sua jovem companheira, também olhando de meio-perfil para o
pintor, parece ter acabado de segredar-lhe alguma coisa.
Que
estariam elas dizendo? Olhei-as bem, em sua curiosa postura, e ao fim
de dez minutos, não tive nenhuma dúvida. A vahiné da direita
segredara à sua amiga:
-
Ele é divino, você não acha?
-
Ora se acho! - Você já...
-
Ainda não. Mas vou passar ele na cara hoje mesmo, ah, isso eu vou!
-
Depois você deixa eu dar uma voltinha?
-
Psiu... Cuidado que ele está olhando para cá...
-
Ah deixa...
E
ninguém precisou torcer o braço de Gauguin para ele ter mais uma
adorável noite taitiana…
Vinicius
de Moraes, in Para viver um grande amor
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