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16/09/2024

Estamos mudos e isolados

 “Olhe pela janela, você verá como vai o mundo. Para onde correm as pessoas? O que querem? Não diferençamos mais o encadeamento das coisas que lhes daria um sentido supra- pessoal. A despeito do rumor geral, cada um está mudo e isolado em si mesmo. O encaixe dos valores do mundo e dos valores do eu já não funcionam convenientemente. Não vivemos num mundo destruído, vivemos num mundo transtornado.”

Franz Kafka, em Conversas com Kafka, de Gustav Janouch

14/09/2015

Movimento interior

Kafka percebeu que eu não dormira o bastante. Disse-lhe a verdade: estava tão dominado pelo que fazia que fiquei escrevendo até de manhã.
Kafka pousou sobre a mesa suas grandes mãos que pareciam esculpidas em madeira e disse: - É uma grande felicidade poder exteriorizar tão espontaneamente o movimento interior.
- Era como uma embriaguez. Ainda não li o que afinal escrevi.
- Naturalmente. O escrito não passa de escórias do vivido.
Gustav Janouch, in Conversas com Kafka

30/08/2015

Acerca de poemas religiosos

Levei ao Dr. Kafka uma antologia tcheca de poemas religiosos franceses.
Ele folheou um momento o pequeno volume, depois empurrou-o cautelosamente em minha direção fazendo-o deslizar sobre a mesa.
- Este gênero de literatura é um estímulo requintado que não me agrada. A religião está derramada aí num alambique de onde só ressalta o esteticismo. O que é um meio de dar sentido à vida torna-se um estimulante, um objetivo decorativo e pretensioso como são, por exemplo, as cortinas luxuosas, quadros, móveis esculpidos ou autênticos tapetes persas. A religião desse gênero de literatura é um esnobismo.
Aprovei: - Tem razão, a guera produziu substitutivos até no domínio da fé. É esse gênero de literatura. Os poetas se apoderam da ideia de Deus como de uma bonita gravata na moda.
Sorrindo, Kafka veio em minha direção e acrescentou:
- E essa gravata é simplesmente uma corda que eles botam no pescoço. Como toda vez que utilizamos a transcendência como escapatória.
Gustav Janouch, in Conversas com Kafka

22/07/2015

No momento do amor

 “Um dia durante um passeio quando eu lhe falei de minha amiga Helena S., Kafka me disse: - No momento do amor, o ser humano é responsável não somente por si mesmo, mas também pelo outro. Encontra-se numa espécie de embriaguez que diminui sua faculdade de julgar. O conteúdo da palavra humano é mais vasto que o campo bem delimitado da consciência instantânea. A consciência só é parte do eu. Mas, a cada decisão que se toma, é ao eu integral que se imprime uma direção. E é assim que se vai dar nos conflitos mais usuais e mais graves, por mal-entendimento.”
Gustav Janouch, in Conversas com Kafka

14/07/2015

A doença: advertência e prova de força

Doente durante dez dias, fiquei de cama e faltei à escola. Meu pai trouxe-me os votos de Kafka e, de sua parte, um volume de capa colorida, da coleção Insel: Sobre os escritores e o Estilo, de Arthur Schopenhauer.
Alguns dias depois de minha cura, fui ao Instituto de Seguros Operários contra Acidentes. O Dr. Kafka estava de ótimo humor. Quando eu lhe disse que depois de minha doença me sentia muito mais forte do que antes, um sorriso de encanto irresistível apareceu em seu rosto:
- É compreensível – disse, você superou um encontro com a morte. Isso dá força.
- Toda a vida não passa de um caminho que conduz à morte – observei.
Franz Kafka olhou-me um momento com ar grave, depois, baixando os olhos para sua mesa, disse:
- Para a pessoa boa de saúde, a vida só significa de fato uma fuga inconsistente e não-confessada diante da consciência de ter de morrer um dia. A doença sempre é ao mesmo tempo uma advertência e uma prova de força. É por isso que a doença, a dor e o sofrimento são também as fontes mais importantes da religiosidade.
- Como o senhor a entende? - perguntei.
Kafka sorriu: - Entendo-a em termos judeus. Sou ligado a minha família, a meu clã. Eles sobrevivem ao indivíduo. Mas isso também não passa de uma tentativa e fuga diante da certeza da morte. Isso não passa de um desejo, mas de maneira nenhuma de uma fonte de conhecimento. Ao contrário… Por esse desejo, o pequeno Eu, temerosamente egoísta, se coloca diante da alma à procura de verdade.
Gustav Janouch, in Conversas com Kafka

30/06/2015

Cerimonial

 “Meu amigo Ernst Lederer escrevia poemas com uma tinta especial, azul-clara, sobre lindas folhas de papel de ótima qualidade.
Falei sobre isso a Kafka, que disse:
-Ele tem razão. Cada mágico tem seu cerimonial. Haydn, por exemplo, só compunha colocando uma peruca solenemente empoada. O ato de escrever é uma forma de evocar espíritos.”
Gustav Janouch, in Conversas com Kafka

23/06/2015

O que é o amor?

O jovem F. W. tinha se suicidado depois de um amor infeliz. Falamos disso e, no decorrer da conversa, Kafka me disse:
- O que é o amor? Mas é muito simples! O amor é tudo o que intensifica, amplia, enriquece nossa vida. Em direção de todos os cumes e de todos os abismos. O amor é tão pouco problemático quanto um veículo. Só há como problemática o condutor, os passageiros e a estrada.
Gustav Janouch, in Conversas com Kafka

13/06/2015

Não ceda ao mal e ao dissabor

 “Depois da primeira audiência do divórcio dos meus pais visitei Franz Kafka.
Estava muito agitado, muito infeliz e, por isso, muito injusto.
Quando cheguei ao fim de meus lamentos, Kafka me disse: - Seja calmo e paciente. Deixe tranquilamente o mal e o dissabor se abaterem sobre você. Não ceda a eles. Pelo contrário, observe-os bem de perto. Substitua a reação ativa pela compreensão ativa, e seu desenvolvimento espontâneo logo o levará acima dessas coisas. Para atingir a grandeza, o homem deve necessariamente passar por sua pequeneza.”
Gustav Janouch, in Conversas com Kafka

24/04/2015

Atrás de cada arte, há uma paixão

Contei a Kafka que meu pai se opunha a que eu estudasse música.
- Você respeitará essa proibição? - perguntou-me Kafka.
- Nem pense nisso – respondi. - Sou teimoso.
Kafka olhou-me com um ar muito grave e disse:
- É quando se é teimoso que se perde mais facilmente a cabeça. Dizendo isso, não quero de modo algum criticar seus estudos de músico, naturalmente. Pelo contrário! Só a paixão que resiste à prova da razão tem energia e profundida.
- Mas a música não é uma paixão, é uma arte – falei.
Mas Kafka sorriu.
- Atrás de cada arte, há uma paixão. Por isso você sofre e luta por sua música. Por isso você não se dobra à proibição materna, porque ama a música e o que está ligado à música mais do que seus próprios pais. Mas é sempre assim em matéria de arte. É preciso rejeitar a vida, para ganhá-la.”
Gustav Janouch, in Conversas com Kafka

15/04/2015

Os poetas, subversivos

Falávamos das Leis ideais de Platão, que eu lia na edição Eugen Diederichs.
Eu achava grave que Platão excluísse os poetas da cidade.
Kafka me disse: - É muito compreensível. Os poetas tentam dar ao homem outros olhos, a fim de mudar a realidade. Por isso são elementos realmente subversivos, pois querem a mudança. O Estado e, com ele, todos os seus devotados servidores só querem uma coisa: durar.”
Gustav Janouch, in Conversas com Kafka

29/05/2011

“O coração é uma casa com dois quartos de dormir. Num deles mora o sofrimento, no outro a alegria. É preciso não rir muito alto, sob pena de acordar o ocupante do quarto vizinho”.
Gustav Janouch