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09/10/2017

A nuança da palavra

Há uma só palavra para descrever determinada substância, determinada ação, determinado objeto, determinada qualidade.
Disse alguém, já não recordo o nome, que o verdadeiro escritor desconhece sinônimos. Horácio Quiroga, no Decálogo do perfeito contista, dedicou o sexto mandamento a essa questão.
O escritor precisa estar atento aos sutis contrastes entre as palavras de mesmo gênero, como o pintor às infinitas gradações na paleta das cores. A luta do escritor pela palavra adequada é a sua luta mais penosa. (O adjetivo não se origina, exatamente, em trabalhar com a “pena”?)
Os índios guaranis usavam quase duas dezenas de palavras para referir-se a um simples pôr de sol. Para cada matiz, uma palavra diferente. Os esquimós têm dezenas de substantivos para caracterizar a cor branca.
Gustav Flaubert, que se demorou seis anos na elaboração minuciosa da linguagem de Madame Bovary, cunhou a expressão mote juste – a palavra certa, a palavra exata, a palavra única.
Charles Kiefer, in Para ser escritor

16/07/2017

O guardião da floresta

Sempre que penso em escrever sobre meu clássico preferido, entro num labirinto, ou num bosque, como diria Umberto Eco. São tantas as árvores seculares, tantas as trilhas, que acabo andando em círculos.
Diante de qual delas devo me deter e investigar com mais atenção? Os fungos, os líquens e as trepadeiras que se agarram a seus troncos sólidos e bem enraizados até que as enobrecem, reforçam seu caráter de eternidade.
Também em relação aos livros basilares, os epígonos, com suas afiadas gavinhas, antes de prejudicá-los colaboram na criação dos sistemas literários.
Sei que estou girando em torno da árvore, sem coragem ainda de escolher uma no meio da mata e abraçá-la. Poderia aproximar-me mais desta aqui, um Flaubert legítimo, ou desta outra, um Tolstoi embaraçado em longas barbas-de-pau.
A copa alta e digna daquela tem o porte de Madame Bovary; este galho — Ivan Ilitch — parece apoiar-se no ombro de um empregado.
Sigo adiante e encontro algumas sequoias gigantescas, pura hybris. Suas folhas despencam no chão e se transformam no húmus de que as outras se alimentarão.
Sófocles, Eurípedes e Ésquio, indiferentes ao bulício da floresta, apenas farfalham.
Descanso um pouco à sua generosa sombra, no vento escuto o dorido lamento de Édipo, o ranger de dentes de Medeia, o brado de insubmissão de Antígona.
Continuo a caminhada. Sei que devo escolher uma, apenas uma, talvez este Shakespeare, de frutos amargos e variados; quem sabe este Proust silencioso, coberto de cortiça? Ou esta, reunião de muitos livros e destinos, Bíblia chamada?
Do outro lado, densos cipoais enlaçam Crane, Poe e Tchecov. Dou mais um passo e deparo-me com esta, estranha, de espinhos no tronco. Ainda lívida e trêmula, tem o aspecto de quem, nesta manhã invernosa, houvesse sido transformada num asqueroso inseto. Adiante, retorcida, tensa, fera na selva, Henry James me espreita.
No meio da neblina do labiríntico bosque da ficção clássica, percebo uma sombra e me recordo de Virgílio a conduzir Dante num outro inferno. Tem o passo claudicante, bate nas árvores com uma bengala, parece reconhecê-las pelo som que emitem. Não se assuste, ele me diz, sou o guardião da floresta. A um passo de distância, percebo que meu futuro guia, Jorge Luis Borges, é cego.
Charles Kiefer, in Para ser escritor

18/04/2017

Um ofício estranho

Sou professor de poesia, embora isso soe estranhamente estranho, como soa estranho essa estranha palavra “estranho”, do latim extraneus. Aliás, fazer isso, brincar com as palavras, estudá-las, localizar sua origem, examinar suas variantes é um bom caminho para quem deseja versificar. Afinal, é disso que se trata. No limite, a diferença entre o poeta e o escritor é que aquele utiliza o verso como veículo de sua expressão, e este, a prosa.
Ai, o espírito de Aristóteles quase me arrancou a orelha!
Sim, mestre, exagerei. É claro que me lembro de que disseste que o historiador pode escrever em versos e nem por isso estará fazendo poesia. É que do teu tempo para o nosso, inventamos outras formas literárias, como o conto, a crônica, a novela, o romance. Tivesse nascido hoje, Sófocles, teu admirado Sófocles, escreveria em prosa!
Sou professor de poesia. Isso mesmo. Dou uma cadeira, na graduação da faculdade de Letras, que se chama Produção de Textos Poéticos. Estudamos poeticidade, formas, metros, ritmos, harmonia e muitas outras tecniquerias, como diria o Unamuno. Mas, mais que teoria, fazemos poesia.
Os críticos das oficinas dirão que isso é impossível. Que a poesia é um dom divino e que só os eleitos são capazes de produzi-la. É impressionante como a aristocracia de espírito ainda tem adeptos.
Indiferente a esse platonismo de província, recebo alunos e alunas que nunca escreveram um verso, que sequer leram bons poemas e que, em três meses, são capazes de apresentar suas produções poéticas em saraus nas livrarias da cidade.
Milagre? Não, método.
Por falar nisso, me encanta a definição de Roland Barthes para método: “Exploração metódica de uma hipótese de trabalho”.
Sem pesar a mão na teoria, induzo meus alunos e minhas alunas a fazerem poesia a partir de exercícios de pasticho, de palavras aleatórias, de ritmos, de leituras de clássicos e de poetas atuais, entre outros. Afinal, todos os participantes da disciplina têm os ingredientes básicos: estão alimentados e são jovens. Além disso, já chegam às aulas alfabetizados.
Alguém ou alguma instituição, no passado, destruiu neles a fé em si mesmos, o gosto pelo novo, o gosto pelo lúdico, o gosto pelo desafio. Antes do Barack Obama, eu lhes dizia: sim, nós podemos. O que um ser humano faz, o outro faz também. E até melhor.
Na companhia de meus alunos de poesia, sou um professor feliz. Às vezes, no meio da brincadeira, porque para funcionar precisa ser uma brincadeira, entre um soneto de Petrarca e uma ode de Píndaro, entre um haicai de Bashô e um poemeto de Quintana, alguns deles produzem estruturas delicadas e metáforas audaciosas, dignas de Eliot, Pessoa, Shakespeare.
Basta mostrar-lhes que as palavras, como os tijolos, estão no léxico à espera do habilidoso construtor. Se com elas fazemos muros ou catedrais, é outra questão.
Em si, em seu adormecido estado de bibelôs de dicionário, as palavras são neutras. Isoladas, são fósseis. Vivificadas pelo sopro criador são como peixes, esguias, brilhantes e rápidas. Repartidas, multiplicam-se e alimentam quem tem fome de beleza.
Charles Kiefer, in Para ser escritor

13/11/2016

Três modelos teóricos

Existem apenas três modelos de interpretação do fenômeno literário realmente consistentes – na minha opinião. Faço essa coda autorreferencial porque sempre há alguém que dirá: “esta é a tua opinião”. Sim, tudo é uma questão de opinião. A objetividade absoluta, além de uma impossibilidade, é uma falácia.
Durante muito tempo, talvez desde Platão e Aristóteles, a disputa ideológica sobre o texto literário teve duas fortes correntes: a que o via como retrato da realidade social; e a outra, que o examinava como sucessão de sistemas estético-formais sem relação com a história e a sociedade. A sociologia clássica carimbava o primeiro de “esquerdista”, e o segundo de “direitista”. Rótulos – é verdade –, mas sem os rótulos acabamos bebendo vodca por vinho branco.
Na década de 1960, surgiu, na Alemanha, o que chamamos, em português, de estética da recepção, que é a terceira via de interpretação teórica da literatura. Não percebeu o primeiro tradutor, e talvez nem o teórico, que Rezeptionästhetik é uma redundância. Se “estética” vem do grego, e vem, que lá significava “sensação”, o sintagma “estética-da-recepção” é tautológico, pois só se pode “receber” o que se “sente”. Enfim, firulas etimológicas, boas para amantes de palavras-cruzadas.
Para Hans Robert Jauss, criador da estética da recepção, “qualquer obra de arte literária só será afetiva, só será re-criada ou ‘concretizada’, quando o leitor a legitimar como tal, relegando para plano secundário o trabalho do autor e o próprio texto criado. Para isso, é necessário descobrir qual o ‘horizonte de expectativas’ que envolve essa obra, pois todos os leitores investem certas expectativas nos textos que leem em virtude de estarem condicionados por outras leituras já realizadas”.
Ou seja, para Jauss, quem dá sentido ao texto é o leitor, e não o crítico. E o que realmente importa não é a obra em si, mas a relação que o leitor estabelece com a obra.
Charles Kiefer, in Para ser escritor

06/10/2016

Um parâmetro ético

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Giordano Bruno foi queimado vivo em 1600. Depois de preso e processado em Veneza, foi supliciado em Campo dei Fiori, condenado à morte pelo Santo Ofício como “frade apóstata”, “herético impenitente, pertinaz e obstinado”.
Em meu pequeno quarto em Três de Maio, adolescente imberbe e insciente das trapaças da vida, das injustiças que podemos receber das pessoas mais próximas, dos amigos mais chegados, dos amores mais intensos, eu imaginava a fogueira em que o filósofo padeceu. Eu o via com os cabelos incendiados, a pele tostada e o orgulho nos lábios.
Não se pede misericórdia dos injustos, não se dobra a cerviz a quem nos quer humilhar, não se muda de convicções científicas pela força, mas pela superioridade do argumento contraditório. O que os pré-socráticos ensinaram, Bruno compreendeu. E, em muitos sentidos, pavimentou o caminho para Bacon e Descartes. Por pensar por conta própria, transformou-se em carne viva e deixou de existir, e só existiu para que Descartes pudesse pensar que o pensamento é que constitui a verdadeira existência.
Fascinado pela figura histórica de Giordano Bruno, logo procurei ler o que pude e o que dele havia na biblioteca pública da cidade. Não entendi muita coisa, pois o jovem de formação precária que eu era não dominava a escolástica, o latim, a metafísica medieval. Mas se não soube admirar-lhe a profundidade filosófica, soube, sim, e muito, reconhecer-lhe o talento linguístico, a beleza sintática e a riqueza imagética (refiro-me, aqui, aos tropos e não a sua imaginação, que, aliás, era também prodigiosa).
Sei que a maior parte de meus poucos alunos não leu a obra de Giordano Bruno. Não os inculpo. Culpa tem o sistema educacional brasileiro, culpa têm as novas pedagogias, que são aplicadas em nosso país com a eficiência dos chás para emagrecer, culpa têm os pais, que preferem o passeio no shopping com os filhos em vez da biblioteca pública, dos museus e das galerias de arte.
Transcrevo-lhes uma pequena passagem que me deu forças para enfrentar a mediocridade geral em que vivia e me serviu de parâmetro ético nessa aventura de ser escritor. Ela se encontra na introdução da “Epístola preambular”, que abre o livro De l´infinito, universo e mondi, publicado em 1584:
Se eu, ilustríssimo Cavaleiro (ele se dirigia ao Cavaleiro da Ordem do Rei Cristianíssimo, o Senhor Michel de Castelnau, mecenas), manejasse o arado, apascentasse um rebanho, cultivasse uma horta, remendasse um paletó, ninguém faria caso de mim, raros me observariam, poucos me censurariam, e facilmente poderia agradar a todos. Mas, por eu ser delineador do campo da natureza, atento ao alimento da alma, ansioso da cultura do espírito e estudioso da atividade do intelecto, eis que me ameaça quem se sente visado, me assalta quem se vê observado, me morde quem é atingido, me devora quem se sente descoberto. E não é só um, não são poucos, são muitos, são quase todos. Se quiserdes saber porque isto acontece, digo-vos que a razão é que tudo me desagrada, que detesto o vulgo, a multidão não me contenta, e só uma coisa me fascina: aquela, em virtude da qual me sinto livre em sujeição, contente em pena, rico na indigência e vivo na morte; em virtude da qual não invejo aqueles que são servos na liberdade, que sentem pena no prazer, são pobres na riqueza e mortos em vida, pois que têm no próprio corpo a cadeia que os acorrenta, no espírito o inferno que os oprime, na alma o error que os adoenta, na mente o letargo que os mata, não havendo magnanimidade que os redima, nem longanimidade que os eleve, nem esplendor que os abrilhante, nem ciência que os avive. Daí, sucede que não arredo o pé do árduo caminho, por cansado; nem retiro as mãos da obra que se me apresenta, por indolente; nem qual desesperado, viro as costas ao inimigo que se me opõe, nem como deslumbrado, desvio os olhos do divino objeto: no entanto, sinto-me geralmente reputado um sofista, que mais procura parecer sutil do que ser verídico; um ambicioso, que mais se esforça por suscitar nova e falsa seita do que por consolidar a antiga e verdadeira; um trapaceiro que procura o resplendor da glória impingindo as trevas dos erros; um espírito inquieto que subverte os edifícios da boa disciplina, tornando-se maquinador de perversidade. Oxalá, Senhor, que os santos numes afastem de mim todos aqueles que injustamente me odeiam; oxalá que me seja sempre propício o meu Deus; oxalá que me sejam favoráveis todos os governantes do nosso mundo; oxalá que os astros me tratem tal como à semente em relação ao campo, e ao campo em relação à semente, de maneira que apareça no mundo algum fruto útil e glorioso do meu labor, acordando o espírito e abrindo o sentimento àqueles que não têm luz de intelecto; pois, em verdade, eu não me entrego a fantasias, e se erro, julgo não errar intencionalmente; falando e escrevendo, não disputo por amor da vitória em si mesma (pois que todas as reputações e vitórias considero inimigas de Deus, abjetas e sem sombra de honra, se não assentarem na verdade), mas por amor da verdadeira sapiência e fervor da verdadeira especulação me afadigo, me apoquento, me atormento. É isto que irão comprovar os argumentos da demonstração, baseados em raciocínios válidos que procedem de um juízo reto, informado por imagens não falsas, que, como verdadeiras embaixadoras, se desprendem das coisas da natureza e se tornam presentes àqueles que as procuram, patentes àqueles que as miram, claras para todo aquele que as aprende, certas para todo aquele que as compreende”.
Quatrocentos e vinte e seis anos depois dessas palavras, outras palavras não são necessárias. Calo-me, sob o olhar sereno do filósofo, em meio ao fogo.
Charles Kiefer, in Para ser escritor

01/08/2016

Sobre as mulheres de escritores

Para escrever, preciso isolar-me, recolher-me, concentrar-me somente no que estou escrevendo. Ou faço assim, ou a inspiração não vem. Aliás, sempre que ela me visita, encontra-me trabalhando.
Tenho as aulas, as viagens, as palestras, as feiras de livros. E não adianta. Até consigo escrever um conto ou outro em fins de semana, mas para escrever novelas e romances eu preciso de tempo ocioso, preciso não fazer nada, vagabundear, alterar os horários de dormir e levantar, almoçar e jantar.
Preciso, enfim, do que chamo de caos criativo.
Mas os conhecidos e os desconhecidos são implacáveis, querem leituras, orelhas, apresentações.
Felizmente, a Marta, minha esposa, nos últimos tempos, tem assumido o papel de cão de guarda. Sem a sua proteção, eu não conseguiria escrever nada.
Isso me fez pensar no esquecido papel das mulheres de escritores. Sem elas, muitas obras clássicas da literatura mundial não teriam sido escritas.
Sem Mafalda, Erico Verissimo, certamente, teria produzido uma bibliografia minguada.
Sem Lúcia, Luis Fernando Verissimo passaria o dia inteiro atendendo telefonemas.
Sem Valesca, Assis Brasil estaria um quarto de léguas distante do primor de suas obras.
E quando a situação se inverte e os artistas da palavra são mulheres?
Seus maridos atuam, também, como anteparos? E os filhos, deixam as mães em paz para que possam escrever?
No concurso literário da vida, nascer homem já é mais que meio caminho andado.
Charles Kiefer, in Para ser escritor

17/07/2016

O conto é um meteorito

Entre as muitas teses que se tem a respeito do conto e de seu processo de composição, há uma que em mim se consolida cada vez mais.
Um conto deve ser pensado longamente, mas escrito rapidamente.
Não importa o tempo que se leve depois, a retocá-lo, a reescrevê-lo.
Durante 32 anos (isso mesmo, 32 anos) acalentei a ideia de um conto. E, depois de três décadas a observá-lo, a pensá-lo, arranquei-o de mim. Chama-se A arara vermelha.
Escrever contos é como pintar paredes. Se interrompemos a pintura, para continuá-la num outro dia, ao retomá-la, restarão as marcas das junções. A tinta seca e a tinta molhada não se acertam.
Um conto é um meteorito. É preciso que viaje longamente pelo espaço do imaginário, para incendiar-se, subitamente, ao entrar em contato com a nossa atmosfera.
E essa sensação é impagável: fazer um bom conto, e que agrade, em primeiro lugar, ao exigente leitor que temos dentro de nós. Não venderá nada, não será lido por ninguém, mas não importa.
Toda beleza é inútil. E é bom que seja. É a nossa última trincheira, nesse mundo em que tudo vira mercadoria.
Charles Kiefer, in Para ser escritor

29/04/2016

Os oblíquos

É fácil conviver com os raivosos e lineares, mas não com os capciosos e oblíquos. O oblíquo, por sua própria natureza, é cheio de ângulos, de arestas, de sinuosidades. Como personagens, são extraordinários. Jamais são planos. Sempre redondos. Mas a vida não é literatura.
Na vida, você diz A, e o oblíquo entende A1. Ou ele diz A, mas é preciso entender que está dizendo A1. Essa pequena distorção, aparentemente insignificante, de meio grau, um grau, é, no entanto, venenosa, destrutiva.
O oblíquo, em geral, se trai por uma expressão típica:
Sim, mas...
O oblíquo não é capaz de dizer não. O não, para ele, é um anátema, um desaforo, um excesso de autenticidade.
Ao dizer “Sim, mas...”, ele concorda contigo, mas a própria expressão idiomática é uma contradição. Se é sim, é sim. Não há mas. Se há mas, não há sim. É simples, é uma questão de lógica, e de caráter.
O mas é a distorção – de meio grau, um grau. E é aí, nesse vão, nessa fissura, que penetra a subjetividade do oblíquo.
Um diálogo, com um oblíquo, é um monólogo. Porque ele não fala contigo, ele fala com a subjetividade dele, ele fala com a distorção. E quanto mais longa e generosa for a tua tentativa de comunicação genuína com um oblíquo, mais se abrirá a distância entre A e A1, embora o ângulo continue de meio grau, um grau. Aí quando reclamares, o oblíquo sorrirá com bonomia, como se dissesse: mas é só meio grau, estás fazendo tempestade em copo d´água.
Charles Kiefer, in Para ser escritor

23/03/2016

Sobre concursos literários

Sou um grande incentivador dos concursos literários. E as razões são estéticas, psicológicas, sociais e econômicas.
Do ponto de vista estético, os concursos aferem tendências, fazem aflorar novas formas, impulsionam a qualidade artística média.
Do ponto de vista psicológico, os concursos geram grande autoconfiança nos vencedores, levando-os a crer que são, realmente, escritores porque venceram.
Do ponto de vista social, os concursos são importantes porque dão visibilidade à literatura, que, neste momento da história, por conta das transformações técnicas (advento de novos meios de comunicação), anda desprestigiada. Quando muitos se tornam escritores, escrever deixa de ter importância.
E, do ponto de vista econômico, os concursos literários são uma excelente fonte de renda para os autores, que, hoje, veem o direito autoral esfarelar-se entre os dedos.
No entanto, apesar da importância, apesar do glamour, apesar de tudo que a vitória num concurso pode significar, é bom que os vitoriosos não esqueçam que Sófocles perdeu um concurso de tragédias, na Grécia; que Guimarães Rosa perdeu um concurso de contos, no Brasil; e que Fernando Pessoa perdeu um concurso de poesias, em Portugal.
Fico apenas nesses três gêneros (que considero os maiores) e apenas nesses três autores, que estão entre os melhores que a humanidade produziu.
Às vezes, ironicamente, ganhar um concurso pode significar outra coisa.
Charles Kiefer, in Para ser escritor

15/03/2016

Do som do H

Google Imagens

Fui acordado por Sofia, minha filha de sete anos, às seis horas, certa manhã, com um problema linguístico e filosófico:
Pai, este tal de H é muito difícil. Ele não tem som!
Fiz com que ela repetisse a questão, meio incrédulo e já ínsono:
Pai, este tal de H é muito difícil. Ele não tem som!
Depois de ouvir outra vez a sua categórica afirmação, tentei explicar:
É que as palavras não são apenas a reprodução do som – e parei aí, antes que eu enveredasse por explicações filogenéticas. – Sabe de uma coisa, Sofia? Esse H é um chato, aparece na festa das palavras sem ser convidado! E, além disso, é um exibido que caminha com pernas de pau!
Felizmente, ela riu e me contou um sonho que tivera, e que agora não lembro.
Algum tempo depois, na sala, depois do café matinal, perguntou-me o que era esporte.
Pego de surpresa, balbuciei em voz alta: — Do latim, não é. Será que vem do grego?
Vem do inglês, pai, sport. Mas eu quero saber o que significa?
Não sei, Sofia, o que significa a palavra sport...
Será que esporte começou num porto? – pensei com meus botões. E o que será pensar com botões? De onde terá vindo essa expressão “pensar com meus botões”?
Essas crianças, alimentadas a TV e computador, estão se tornando infernalmente inteligentes.
Não virá daí o arzinho de enfado e arrogância que, às vezes, percebo no rosto dos meus alunos?
E pensar que eu, aos sete ou oito anos, ainda achava que olimpíada era um concurso de piada…
Charles Kiefer, in Para ser escritor

21/02/2016

Cultura com sotaque

Os processos culturais, como outros fenômenos sociais, se dão sempre do centro para as margens. Isso significa dizer que sempre é o centro econômico e político que determina o padrão de consumo dos bens simbólicos. Pequenas cidades não são capazes de produzir filmes, livros, discos, peças de teatro ou músicas capazes de se impor como tradição cultural, como referência para o restante da sociedade.
Nem a imprensa, que se quer guardiã dos valores da cidadania, da cultura, da ética, da moralidade, consegue fugir a esse brutal processo de alienação e pasteurização globalizada, e ela reproduz, invariavelmente, o senso comum emanado dos grandes centros urbanos.
Como um tsunami gigantesco, a globalização nos impõe padrões culturais estabelecidos muito longe daqui. Para alguns, devíamos todos ouvir as mesmas músicas, falar a mesma língua, ver os mesmos filmes, recitar as mesmas poesias, comer as mesmas batatas fritas...
Recentemente, a Unesco aprovou, depois de vários anos de discussão, a Convenção sobre Diversidade Cultural, que a imprensa brasileira, sempre tão rápida em defender os interesses hegemônicos, praticamente ignorou.
O Império queria tratar a cultura como um produto a ser regido pelas leis do comércio internacional, mas 148 países estabeleceram um marco legal de defesa da diversidade cultural.
Já podemos levantar a cabeça, já podemos nos orgulhar do nosso sotaque, da nossa origem interiorana: a ONU reconheceu o direito que temos de ser diferentes, a ONU reconheceu que a cultura não é uma mercadoria. Temos, sim, direito a políticas culturais de caráter nacional e de integração regional, direito a apoios institucionais a projetos culturais, de divulgação e de cotas de proteção dos mercados nacionais e regionais. A ONU reconheceu a ação predatória da globalização cultural e nos deu o direito de defesa a esses ataques.
E as armas do nosso contra-ataque são os nossos contos, as nossas poesias, as nossas músicas, os nossos romances e as nossas peças de teatro, tenham sotaque ou não.
Charles Kiefer, in Para ser escritor

31/01/2016

O fogo sagrado

Alguns escritores entram na vida da gente com estardalhaço, arrancam portas, destroem preconceitos, iluminam regiões obscuras de nossa consciência com o poder das tempestades. Outros se instalam aos poucos, como se nos visitassem e a cada visita fossem demorando-se um pouco mais. Em lugar dos raios, trazem uma lâmpada de querosene, ou uma vela.
Friedrich Nietzsche invadiu minha adolescência com violência, estraçalhou minha fé romântica e messiânica. Mas passou, como um vento do Norte, e trouxe depois a longa chuva da melancolia. Dos escombros da fé, tratei de salvar um jeito enviesado de observar o mundo, em que misturo um niilismo reticente a um misticismo inócuo. Penso que o Nada é o destino final de todo o Universo, mas não deixo de parar, de vez em quando, em algumas estalagens que vendem ilusões de eternidade. Saio delas como o turista experimentado, consciente de ter comprado quinquilharias, mas e daí? Nas noites borrascosas, seu brilho falso sobre a cômoda será uma presença, e uma saudade.
Li Albert Camus na mesma época, imberbe, insciente da trapaça, do sabor do corpo, da satisfação do torna-viagem. Não houve espanto, mas uma ternura morna, mais uma simpatia que uma admiração. Seu estilo sóbrio e contido não encontrou eco nos meus arroubos, eu queria conhecer horizontes sombrios, como os de Dostoiévski, heroicos como os de Tolstói, delirantes como os de Edgar Allan Poe.
Depois, minhas ilusões foram se perdendo, e o argelino retornou, com um cigarro e um sorriso cínico nos lábios, a ofertar-me A queda, A peste, O estrangeiro. E descobri que era aquele o tom, o ritmo, a ambientação que eu gostaria de ter imprimido aos meus próprios textos. Como reconhecimento, coloquei o mesmo sol que bate na navalha do árabe assassinado por Meursault na foice que meu sem-terra empunha no centro da praça, em Porto Alegre, em Quem faz gemer a terra. Dois estrangeiros, sob um mesmo sol indiferente.
Só agora, quando o frio já começa a se aninhar nos meus ossos, descubro a coletânea de ensaios A inteligência e o cadafalso. Eu já conhecia O avesso e o direito, O homem revoltado, O mito de Sísifo, entre outras obras do desconfiado da vida. Reencontro a simplicidade profunda, cristalina, de que só são capazes aqueles escritores que não se deixam turvar pelos modismos e pelo desejo de parecer o que não são. O ensaio em que Albert Camus homenageia seu professor e mestre, Jean Grenier, é comovente. A descoberta da arte como um novo nascimento. “Uma frase se destaca do livro aberto, uma palavra ressoa ainda no cômodo, e de repente, em torno da palavra certa, da nota exata, as contradições se ordenam, a desordem deixa de existir. Ao mesmo tempo e já, como resposta a esta linguagem perfeita, um canto tímido, mais inábil, eleva-se na escuridão do ser.”
Por um instante, sinto-me feliz, responsável, artista. Em algum lugar, um jovem lerá este texto e sentirá dentro de si uma angústia, um sufoco, um ritmo, uma melodia. E um desejo insuperável de expressão. Na escuridão de seu ser, mais uma vez, o fogo sagrado elevará sua chama.
Charles Kiefer, in Para ser escritor

13/01/2016

O peso da obrigação de ser original

Meu primeiro livro chamou-se O lírio do vale. Um livro medíocre, mal-acabado, de poemas prematuros e inconsistentes. Eu tinha 17 anos e imaginava que escrever fosse despejar sobre o papel os meus sentimentos, as minhas emoções e os meus desejos com a maior sinceridade possível.
Retirei o título de uma famosa passagem bíblica que afirma que devemos olhar os lírios do campo, que não tecem, não fiam, não fazem nada e mesmo assim Deus os sustenta – ou algo assim, a depender da tradução.
Certamente eu já conhecia Olhai os lírios do campo, de Érico Veríssimo, e por isso devo ter imaginado, tolamente, que, se o meu “lírio” fosse do “vale”, seria mais profundamente meu.
Muitos anos depois, descobri que Honoré de Balzac havia publicado um romance com o mesmo nome, exatamente O lírio do vale, em 1835. Jamais o li, mas sei que descreve o amor platônico de Madame de Mortsauf por Félix Vandenesse.
O episódio rendeu-me uma prematura, e nunca superada, conclusão: não há originalidade. E mais – que a literatura é um amontoado de lugares comuns, e que os temas, na literatura, se repetem infinitamente.
Luigi Pirandello, o autor de Seis personagens em busca de um autor, dedicou-se a vida inteira a pesquisar os principais temas da literatura ocidental ao longo de 2.500 anos. Encontrou cinco.
O que não se repete é a voz, o uso particular que o escritor faz da língua, do léxico de que dispõe em seu idioma. E a essa voz, a esse timbre, um escritor pode acrescentar modulações, titubeios, trejeitos que constituem o seu estilo, que é irrepetível, irreprodutível e único.
Liberar dos ombros o peso da obrigação de ser original libera espaço para coisas mais importantes.
Charles Kiefer, in Para ser escritor

08/01/2016

Quatro mundos da criação

Atsilut: Mundo da Emanação
1. Tem-se uma ideia geral, ainda indefinida. A ideia está o mais perto possível da fonte de criação. A fonte pode ser o Grande Arquiteto, o Inconsciente, a Musa, a Paixão.

Beriá: Mundo da Criação
2. Já se tem uma ideia definida do que se fará. Nesse momento, o desejo vira palavra. Aqui entra a vontade, o querer fazer. É o momento de se apanhar um papel e uma caneta, ou o teclado de um computador, e deixar as palavras fluírem, sem censura, sem policiamento.

Yetsirá: Mundo da Formação
3. Momento de se fazer um plano ou um desenho arquitético daquilo que se pretende. O projeto começa a se consolidar, a se sedimentar. Consegue-se ver o vir-a-ser. A imagem mental começa a se tornar realidade objetual.

Assiyá: Mundo da Ação
4. Nesse momento, começa a construção em si. Aqui, o fazer se retroalimenta. Quanto mais se investir energia libidinal nessa fase sobre o objeto, mais ele brilhará depois. É o estágio final do processo criador. Obs.: entre cada um dos mundos, há graus infinitos. Cada pessoa demora-se mais ou menos em cada um deles.
Charles Kiefer, in Para ser escritor

19/12/2015

Paixões literárias

Vou envelhecendo, e algumas paixões literárias, já testadas pela releitura constante, se consolidam e se aprofundam. A cada inverno que passa, mais admiro Tchecov, Carver, Machado, Borges e Bradbury, entre outros.
Reli, com paixão e deleite, A cidade inteira dorme e outros contos, nome que o editor brasileiro deu ao Bradbury Stories original.
Apesar da traição, que traduzir é, mesmo, sempre trair, o título brasileiro resultou melhor que o norte-americano. Gosto desses títulos que são retirados de uma das peças do conjunto. A cidade inteira dorme e outros contos nos lança de imediato nesse clima psicológico, meio onírico e perturbador que o autor sempre constrói, apesar de fingir escrever sobre marcianos, viagens estelares e futuros distantes.
Na medida em que nos aproximamos da realidade descrita nesses contos magníficos – afinal, já estamos viajando pelos satélites e pelos planetas –, o aspecto de novidade desaparece e sobressai o que é mais importante na obra de Bradbury, a maestria com que trabalha o conto, o suave lirismo de sua linguagem, a riqueza metafórica e a absoluta humanidade de seus personagens.
Mario Quintana dizia que Ray Bradbury era um escritor de contos de fadas moderno. Nas mãos de um mestre como ele, aprendemos o quanto esse gênero difícil, esquivo e falsamente simples pode ser poderoso e inesquecível.

Charles Kiefer, in Para ser escritor

12/12/2015

É conto ou crônica?

É muito comum entre alunos e leitores em geral a confusão entre o conto e a crônica. Em estado puro, de laboratório, como costumo dizer, são tipos de textos completamente diferentes.
Discordo da boutade de Mário de Andrade de que um conto é tudo aquilo que um autor decidiu chamar de conto.
Um conto é um conto, e uma crônica é uma crônica. E nem sempre o autor sabe o que está fazendo. Um conto, como um cristal de quartzo, tem uma estrutura específica, rege-se por leis internas, mimetiza um instante da realidade, ficcionaliza a vida, enquanto a crônica, por sua própria natureza, registra os fatos, a realidade contingente.
A rigor, o conto recria, enquanto a crônica documenta.
No entanto, nas últimas décadas, está se vendo, principalmente no Brasil, a emergência de um novo tipo de crônica, não mais histórica e meramente factual, mas uma inquietante mescla das modalidades épica e lírica, o que naturalmente produz uma confusão generalizada no espírito classificatório da teoria literária.
Por esse motivo, mesmo professores de literatura têm dificuldades em definir conto e crônica.
A principal diferença centra-se na figura do narrador, persona que a mímese instaura. (Reconheço que as teorias mais recentes sobre o poder de duplicação da linguagem — nomear é criar outra realidade — podem ser o calcanhar de Aquiles de uma tese que se centre neste elemento estrutural da narrativa, já que o eu que se diz no texto não é o eu que existe no mundo concreto. Logo, mesmo quando emite uma opinião pessoal, o autor cria um autor que não é o autor real. O argumento, derivado das noções lacanianas, implode a noção de sujeito da enunciação, sobre a qual a crônica se constitui. Para não instaurar o caos, é necessário aceitar que o sujeito da enunciação que fala na crônica é socialmente reconhecível, responde juridicamente pela sua opinião, enquanto o narrador, que se dá a conhecer num conto, é uma máscara, um papel, e nenhum tribunal condenaria um ator por fingir ser. Ao menos não nas democracias ocidentais.)
Para se compreender a ontologia da crônica, é preciso pensá-la em sua relação com a imprensa. Davi Arrigucci Jr. lembra que ela, embora nascida no jornal, não é apêndice dele, já que as melhores, geralmente, acabam em livros.
A grande circulação desse tipo de narrativa nos jornais brasileiros, fenômeno que acontece desde o século passado, vem produzindo, sem dúvida, uma “forma peculiar”, com “dimensões estéticas” e com uma “relativa autonomia”, mas sua razão de ser mergulha na natureza de nosso tempo.
A crônica, pelas astúcias da linguagem, instaura um interessante paradoxo linguístico. Etimologicamente, tem origem grega, provém de Khrónos. No entanto, o tempo, no interior da crônica, não transcorre, ela é intemporal, descritiva.
Por outro lado, o conto, do latim computus, que significa relato, narração, permite que o tempo exista em seu interior, já que ele narra ações de personagens num determinado tempo e espaço através da voz de um narrador.
Se o conto, como toda narração, mergulha no mito e o reinstaura; a crônica, por outro lado, debruça-se sobre a história, para aprisionar o aqui e agora.
Tentar uma definição da crônica talvez não fosse o mais adequado nesse instante em que ela, enquanto gênero, ainda está tomando forma, mas é algo tentador.
Davi Arrigucci Jr., por exemplo, estudando Rubem Braga, determinou seus contornos: “um ser moderno, constantemente estremecido pelos choques da novidade, de consumo imediato, a refletir as inquietações do desejo sempre insatisfeito, as violentas transformações sociais e a futilidade e fugacidade da vida moderna”.
Nesse sentido, a crônica seria ainda a cristalização do espírito das grandes metrópoles do capitalismo industrial contemporâneo, como o romance foi a contraparte artística da ascensão da burguesia no século XIX.
Para superar o seu destino etimológico, para sobreviver ao tempo de sua circulação nas páginas dos jornais e abrigar-se sob as capas duras, e supostamente perenes, dos livros, a crônica precisa ter “um razoável grau de elaboração linguística, certa complexidade interna, penetração psicológica e social, temperados com a força da poesia e do humor”.
Talvez o paradoxo maior da crônica seja superar seu próprio paradoxo: penetrar, como disse o crítico, a substância íntima de uma época, refletindo os pequenos atos que a compõem, e, ao mesmo tempo, suportar a corrosão do tempo e a irrefutável releitura das épocas futuras.
Charles Kiefer, in Para ser escritor

04/12/2015

Títulos

Não há escritor que não se debata com a difícil questão dos títulos de suas obras, sejam elas poemas, crônicas, contos, novelas ou romances. O título faz a primeira ponte com o mundo, é o primeiro gancho de interesse, a primeira luz do farol no nevoeiro. A obra está lá, enrodilhada em si mesma, mas escondida, e é preciso uma etiqueta, um visgo ou um guizo para que ela seja percebida pelo possível leitor. Nesse instante, o autor defronta-se com uma questão ética – ser fiel a si mesmo e à obra ou a esse fátuo e imponderável leitor.
O leitor é uma abstração. Só existe em potência. Cada uma das partes envolvidas no processo de criação e produção do livro idealiza um leitor. Assim, há o leitor ideal do autor, como também há o leitor ideal do editor, do distribuidor, do livreiro. E lá no fim do processo, há o leitor real, raro e esquivo, soterrado sob uma avalanche infinita de títulos. Vigiando a todos, como uma esfinge hierática e fatal, sorri o Mercado, esse deus insaciável, que controla o Portal da Cidade do Livro e que deseja títulos vistosos, agradáveis, comerciais.
Mas, às vezes, a obra – inteira e autônoma – recusa-se a essas vestimentas carnavalescas, não querendo chamar tanta atenção sobre si mesma. Indeciso diante do enigma, o autor só tem duas opções: deixar a matéria gerar o próprio nome ou fazer aderir um nome qualquer à matéria. Que ouvido sutil há de ter o autor para captar o murmúrio da obra! Que espírito pragmático há de ter o autor para etiquetar, sem nenhuma angústia, o que acabou de produzir!
Edgar Allan Poe dizia que um título deve prenunciar tudo o que uma obra contém. Mas Poe, nós sabemos, estava pensando no consumidor , estava ajudando a construir uma ética para as relações comerciais – se vendo um produto, ele deve ser honesto; não é justo vender gato por lebre. E foi com essa visada pragmática que ele criticou duramente o título genial de Nathaniel Hawthorne, Twice told tales! Ou terá sido por despeito?
Gabriel García Márquez optou por ser absolutamente honesto e fiel ao espírito da própria obra, intitulando uma novela de assassinato e paixão de Crônica de uma morte anunciada . Talvez um dos maiores achados na história dos títulos. E um dos melhores exemplos de que o único caminho para um escritor é a radicalidade, a coerência e a fidelidade à própria obra. Absolutamente fechada em si mesma, ela se encarregará de dar o bote sobre os leitores, conquistando-os aos milhares. Ou adormecendo, mofada, nos estoques das distribuidoras.
Se a palavra efetivamente tem poder, se nomes condicionam destinos, os escritores devem se preocupar seriamente com os títulos de seus livros, como os pais com os nomes de seus filhos. Mas, se a palavra é um mero signo, se ela simplesmente se cola às coisas, na inútil tentativa de dar-lhes uma significação, é melhor que eles não resistam ao canto de sereia do Mercado. A este último, no entanto, é necessário lembrar que um bom título não salva um mau livro, mas um mau título pode prejudicar um bom livro.
Charles Kiefer, in Para ser escritor

26/11/2015

Dialética do conto

Narrar é um des-velamento. Desencobrir o que estava velado, no mundo e em si mesmo, e re-velar, tornar a cobrir de véus o que estava evidente, esconder outra vez. Esse duplo movimento, de fazer aparecer e de fazer esconder – o excesso de luz também impede de ver –, é a essência do bom conto. Na poesia, essa dialética melhor se mostra. Na prosa, a luz difusa e homogênea do verbo desgastado pela cotidianidade também permite ver, mas superficialmente e sob um mesmo tom monocromático.
Nesse sentido, o conto, o objeto literário que mais se assemelha à poesia, ainda pode re-velar, desde que evite a tagarelice, o prosaísmo, e consiga equilibrar harmonicamente fábula e trama. Se o contista descura da última, lança o seu objeto nas águas poluídas do entretenimento; se desmerece a primeira, arrisca-se a descaracterizar o gênero, jogando-o no tedioso mar do lirismo em prosa.
Um bom conto esconde o que mostra e mostra o que esconde, exigindo um leitor ativo, capaz de dinamizar as profundas reservas de energia que o texto não pode sonegar, mas que não deve oferecer com a facilidade dos anúncios publicitários.
Charles Kiefer, in Para ser escritor

17/11/2015

Sopro vital


Às vezes, um aluno de oficina produz um texto em que todos os elementos da narrativa estão perfeitamente encaixados, todas as partes que compõem o todo se ajustam com eficiência, e, no entanto, o todo não funciona, a obra é uma marionete desconjuntada, flácida e sem vitalidade.
Nesse instante, o instrutor silencia, à espera de que alguém mais, talvez o próprio autor, se dê conta do espantalho que foi gerado. Mas este, ainda dolorido e ensimesmado pela gestação e pelo parto, não percebe. E os colegas, mais por espírito de corpo do que por ignorância, também não perceberão. Ou farão de conta que não percebem. E não adianta tentar mostrar que aquilo é um fantoche, um factoide, um espectro. O autor não se permitirá perceber o problema. Ao contrário, apelará para as mais comezinhas autoindulgências, rebaterá com argumentos teóricos aprendidos com o próprio mestre, se apegará neuroticamente a detalhes sem nenhuma significação.
Se for culto e com boa bagagem de leitura, apresentará exemplos extraídos de obras clássicas que ele julga, arrogantemente, semelhantes à sua.
O professor, se coincidir de ser também escritor e não apenas crítico ou técnico, sofrerá duplamente. Em algum momento de sua carreira terá produzido essas aberrações da natureza literária, esses fantasmas sem vida nem transcendência, e reconhecerá, sem confessar publicamente, que há uma área da criação infensa à técnica, à cultura, ao conhecimento acumulado pela tradição. E sofrerá também porque essa área é inexplicável, intransferível e inapreensível.
Se for honesto, o professor murmurará que as ideias de Platão foram contestadas, mas não destruídas. Que, por mais materialistas que possamos ser, sempre restará espaço para o mito. Que o sopro vital é um dom do Espírito.
Se for honesto, o escritor que também ensina ensinará, como ensinou Gaston Bachelard, que não é digno de ser chamado de escritor aquele que não dedicar à Fênix parte de sua produção, especialmente aquela que já nasceu morta.
E ensinará que é do fogo e das cinzas da obra desvitalizada que virá a energia necessária para outra obra possível, aquela com frescor de banho e riso de bebê, aquela que se agitará como uma serpente no gramado e que será capaz de mesmerizar até o leitor mais desatento.
Charles Kiefer, in Para ser escritor