Mostrando postagens com marcador Do Amor e Outros Demônios. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Do Amor e Outros Demônios. Mostrar todas as postagens

12/11/2025

Do Amor e Outros Demônios — Capítulo Cinco


 
O bispo chamou Delaura em capítulo a seu escritório e ouviu sem contemplações sua confissão descarnada e completa como se estivesse oficiando não um sacramento, mas uma diligência judicial.
A única fraqueza que teve para com ele foi manter em segredo sua verdadeira falta, mas cassou-lhe comissões e privilégios sem qualquer explicação pública e mandou-o servir como enfermeiro de leprosos no hospital do Amor de Deus. O padre implorou o consolo de rezar a missa das cinco para os doentes, o que lhe foi concedido.
Ajoelhou-se com uma sensação de alívio profundo e rezaram juntos um pai-nosso. O bispo lhe deu a bênção e o ajudou a levantar-se.
Que Deus se apiade de ti — disse. E apagou-o de seu coração.
Mesmo depois de começar a cumprir a condenação, altos dignitários da diocese intercederam em seu favor, mas o bispo foi irredutível. Rejeitou a teoria de que os exorcistas acabam possuídos pelos mesmos demônios que pretendem conjurar. Seu argumento final foi que Delaura não se decidira a enfrentá-los com a autoridade inapelável de Cristo, mas incorrera na impertinência de discutir com eles questões de fé. Foi isso, disse o bispo, que comprometeu sua alma e colocou-o à beira da heresia. Mas causou surpresa que o prelado tivesse sido tão severo com seu homem de confiança, por uma culpa que no máximo mereceria uma penitência de velas verdes.
Martina se encarregou de Sierva María com uma dedicação exemplar.
Também ela ficara mortificada com a negativa do indulto, mas a menina só o notou numa tarde de bordado no terraço, quando ergueu avista e a viu banhada em lágrimas. Martina não disfarçou o seu desespero.
Prefiro estar morta a continuar morrendo nesta prisão.
Sua única esperança, explicou, era o pacto de Sierva María com os demônios. Queria saber quem eram, como eram, como negociar com eles. A menina enumerou seis, e Martina identificou um deles como um demônio africano que certa vez havia perseguido a casa de seus pais— Uma expectativa a animou.
Quero falar com ele. — E precisou o recado: — Dou minha alma em troca.
Sierva Mana se deleitou na malvadeza: — Ele não fala. Basta olhar a cara e já sabe o que quer dizer. — E com toda seriedade prometeu avisá-la para que se encontrasse com o tal na próxima visita.
Cayetano submeteu-se com humildade às condições infames do hospital. Os leprosos, em estado de morte legal, dormiam no chão de terra batida em barracas de folhas de palmeira. Muitos se arrastavam do jeito que podiam. As terças-feiras, dia de curativo geral, eram exaustivas. Cayetano se impôs o sacrifício purificador de lavar os corpos dos doentes em pior estado nas artesas da cocheira. Nisso estava ocupado, na primeira terça-feira da penitência, com a dignidade sacerdotal reduzida ao rude camisolão de enfermeiro, quando apareceu Abrenuncio no alazão presenteado pelo marquês.
Como vai esse olho? — perguntou.
Cayetano não lhe deu oportunidade para falar de sua desgraça ou se condoer do seu estado. Agradeceu o colírio, que de fato havia apagado da retina a imagem do eclipse.
Não tem nada que agradecer — disse Abrenuncio. — Dei-lhe o melhor que conhecemos para a ofuscação solar: gotas de água da chuva.
Convidou-o a lhe fazer uma visita. Cayetano explicou que não podia sair sem licença. Abrenuncio não deu importância.
Se o senhor conhece as fraquezas destes reinos, há de saber que as leis só são cumpridas durante uns três dias — disse. Colocou a sua biblioteca à disposição do padre para que continuasse seus estudos enquanto aguardava justiça. Cayetano o escutou com interesse mas sem nenhuma ilusão. — Aí lhe deixo essa angústia — concluiu Abrenuncio esporeando o cavalo. — Nenhum deus pode ter feito um talento como o seu para desperdiçá-lo esfregando morféticos.
Na terça seguinte levou-lhe de presente o volume das Cartas filosóficas em latim. Cayetano o folheou, farejou por dentro, calculou seu valor. Quanto mais o apreciava, menos entendia Abrenuncio.
Gostaria de saber por que é tão amável comigo — disse.
Porque nós ateus não conseguimos viver sem os padres — disse Abrenuncio. — Os pacientes nos confiam seus corpos, mas não suas almas, e nós vivemos como os diabos, tratando de disputá-las com Deus. — Isso não combina com as suas crenças — disse Cayetano.
Nem eu mesmo sei quais são elas — disse Abrenuncio.
O Santo oficio sabe — disse Cayetano.
Ao contrário do que se poderia esperar, aquele dardo entusiasmou Abrenuncio.
Venha à minha casa e discutiremos isso com calma — disse. — Não durmo mais de duas horas por noite, e sempre aos bocados, de modo que qualquer momento será bom.
Esporeou o cavalo e partiu.
Cayetano aprendeu depressa que um grande poder não se perde pela metade. As mesmas pessoas que antes disputavam a sua intimidade agora fugiam dele como de um leproso. Seus amigos das artes e letras mundanas se afastaram para não ter problemas com o Santo Ofício. Mas para ele tanto fazia. Só tinha coração para Sierva Maria, e ainda assim não lhe bastava. Estava convencido de que não haveria oceanos, nem leis da terra ou do céu, nem poderes do inferno que pudessem separá-los.
Uma noite, por uma inspiração desesperada, fugiu do hospital para tentar entrar de qualquer maneira no convento. Havia quatro portas. A principal, que era a da roda; outra de igual tamanho do lado do mar, e duas pequenas de serviço. As duas primeiras eram intransponíveis.
Foi fácil a Cayetano localizar da praia a janela de Sierva María no pavilhão da prisão, por ser a única ainda não condenada. Passou em revista palmo a palmo o edifício, procurando em vão uma brecha mínima por onde subir.
Estava prestes a desistir, quando se lembrou do túnel por onde a população abastecia o convento durante a Cessatio a Divinis. Os túneis, de quartéis ou de conventos, eram muito da época. Havia nada menos de seis conhecidos na cidade, e outros foram sendo descobertos no curso dos anos com suas arandelas de folhetim. Um leproso que tinha sido coveiro apontou a Cayetano o que buscava, um cano de esgoto em desuso que comunicava o convento com um solar vizinho, onde ficava no século anterior o cemitério das primeiras clarissas.
Saía justo debaixo do pavilhão das presas e diante de um muro alto e escabroso que parecia inacessível. Mas Cayetano conseguiu escalá-lo ao cabo de muitas tentativas frustradas, tal como acreditava conseguir tudo: pelo poder da oração.
O pavilhão ficava um remanso na madrugada. Certo de que a vigilante dormia fora, ele só se preocupava com Martina Laborde, que roncava com a porta entreaberta. Até esse momento, a tensão da aventura o mantivera sempre inquieto, mas quando se viu diante da cela, com o cadeado aberto na argola, seu coração disparou. Empurrou a porta com a ponta dos dedos, parou de viver enquanto durou o ranger dos gonzos, e viu Sierva María dormindo à luz da lamparina do Santíssimo. Ela abriu os olhos, mas custou a reconhecê-lo com o camisolão grosso dos enfermeiros de leprosos.
Ele mostrou as unhas ensanguentadas.
Escalei o muro — disse, sem voz.
Sierva María não se comoveu.
Para quê? — disse.
Para te ver — disse ele.
Não soube o que mais dizer, atarantado com o tremor das mãos e as frestas da voz.
Vá embora — disse Sierva María Ele fez que não várias vezes com a cabeça, de medo que lhe faltasse a voz.
Vá embora — repetiu ela. — Ou começo a gritar. — Ele estava tão perto que pôde sentir sua respiração virgem.
Nem que me matem — disse. Logo se sentiu do lado de lá do terror, e acrescentou com voz firme: — Se vais gritar, podes ir começando.
Ela mordeu os lábios. Cayetano, sentou-se na cama e fez um relato minucioso de seu castigo, mas sem dizer as razões. Ela entendeu mais do que ele era capaz de dizer. Olhou sem receio e perguntou por que estava sem o pano no olho.
Não preciso mais — disse ele, animado. Agora fecho os olhos e vejo uma cabeleira como um rio de ouro.
Saiu duas horas depois, feliz porque Sierva María concordou que voltasse, desde que trazendo os seus doces prediletos dos portais. Na noite seguinte, chegou tão cedo que ainda havia vida no convento e ela estava com o candeeiro aceso para terminar o bordado de Martina. Na terceira noite, levou mechas e óleo para alimentar a luz. Na quarta, um sábado, ficou várias horas ajudando-a a catar os piolhos que tinham voltado a proliferar na prisão. Quando a cabeleira ficou limpa e penteada, ele sentiu mais uma vez o suor gelado da tentação.
Deitou-se ao lado de Sierva María com a respiração opressa e viu seus olhos diáfanos a um palmo dos seus. Ambos ficaram perturbados.
Ele, rezando de medo, sustentou o olhar da menina. Ela se atreveu a falar: — Quantos anos tem? — Fiz trinta e seis em março — disse ele.
Ela o perscrutou.
-Já é um velhinho — disse com uma Ponta de zombaria. Reparou nos sulcos de sua testa e acrescentou com toda a inclemência da idade: — Um velhinho enrugado. — Ele o aceitou de bom humor. Sierva Maria lhe perguntou por que tinha uma mecha branca.
É um sinal — disse — De tintura — disse ela.
Natural — disse ele. — Minha mãe também tinha.
Até então não deixara de olhá-la nos olhos, e ela não dava mostras de se render. Ele suspirou fundo e recitou: — “Ó doces prendas por mim mal achadas.” Ela não entendeu.
É um verso do avô de minha tataravó explicou ele. — Escreveu três éclogas, duas elegias, cinco canções e quarenta sonetos. E a maioria inspirada por uma portuguesa sem maiores encantos que nunca foi dele, primeiro porque era casado e segundo porque ela casou com outro e morreu antes dele.
Também era frade? — Soldado — disse ele.
Alguma coisa mexeu no coração de Sierva María, pois ela quis ouvir o verso de novo. Ele o repetiu e dessa vez prosseguiu, com voz firme e bem-articulada, até o último dos quarenta sonetos do cavaleiro do amor e de armas, dom Garcilaso de La Vega, morto na flor da idade por uma pedrada de guerra.
Ao terminar, Cayetano tomou a mão de Sierva María e a pôs sobre seu coração. Ela sentiu lá dentro o fragor da tempestade.
Estou sempre assim — disse ele.
E sem lhe dar tempo ao pânico, libertou-se da matéria turva que o impedia de viver. Confessou que não passava um instante sem pensar nela, que tudo o que bebia e comia tinha gosto dela, que a vida era ela a toda hora e em toda parte, como só Deus tinha o direito e o poder de ser, e que o gozo supremo de seu coração seria morrer com ela.
Continuou falando sem a fitar, com a mesma fluidez e o mesmo calor com que recitava, até que teve a impressão de que Sierva María tinha dormido.
Mas ela estava atenta, fixos nele os seus olhos de corça assustada.
Apenas se atreveu a perguntar: — E agora? — Agora nada — disse ele. — Basta que saibas.
Não pôde continuar. Chorando em silêncio, passou o braço por baixo da cabeça dela, para que lhe servisse de travesseiro, e ela se enroscou a seu lado. Ficaram assim, sem dormir, sem falar, até que os galos começaram a cantar e ele teve que se apressar para chegar a tempo à missa das cinco. Antes de sair, Sierva María o presenteou com um colar de Odudua: dezoito polegadas de contas de nácar e coral.
O pânico foi substituído pelo naufrágio do coração. Delaura não tinha sossego, fazia as coisas de qualquer jeito, flutuava, até a hora feliz em que fugia do hospital para ir ver Sierva Maria. Chegava ofegante à cela, encharcado pelas chuvas perpétuas, e ela o esperava com ansiedade, mas bastava o sorriso dele para lhe devolver a calma. Uma noite, foi ela quem tomou a iniciativa com os versos que aprendia de tanto ouvir: — “Quando paro a contemplar meu estado e ver os passos por onde me trouxeste...”. — recitou. E perguntou com picardia: — Como continua? “Eu acabarei pois me entreguei sem arte a quem me saberá perder e acabar” — disse ele.
Ela repetiu os versos com a mesma ternura e continuaram até o fim do livro, saltando trechos, pervertendo e tergiversando os sonetos conforme a conveniência, brincando com eles à vontade, com um domínio de donos. De cansaço, pegaram no sono. A guardiã entrou com o desjejum às cinco, em meio à algazarra dos galos, e ambos despertaram assustados. Foi como se a vida parasse para eles. A guardiã pôs o desjejum na mesa, fez uma inspeção de rotina com a lanterna e saiu sem ver Cayetano na cama.
Lúcifer é incrível — zombou ele ao respirar de novo. — Também a mim ele tornou invisível.
Sierva María teve que caprichar na sua astúcia para evitar que a guardiã voltasse a entrar na cela aquele dia. Tarde da noite, depois de um dia inteiro de disfarces, se sentiam amados desde sempre, Cayetano, meio de brincadeira e meio a sério, se atreveu a soltar o cordão do espartilho de Sierva Maria. Ela protegeu o peito com as duas mãos; houve uma chispa de raiva em seus olhos e uma rajada de rubor lhe incendiou o rosto. Cayetano lhe agarrou as mãos com o polegar e o indicador, como se estivessem em fogo vivo, e as afastou do peito.
Ela tentou resistir, e ele lhe opôs uma força terna mas resoluta. 4 — Repete comigo — disse: — “Enfim a vossas mãos hei chegado.” Ela obedeceu.
— “Onde sei que hei de morrer”, — prosseguiu ele, enquanto abria o espartilho com seus dedos gelados. Ela repetiu quase sem VOZ trêmula de medo: — Para que só em mim seja provado o quanto corta uma espada num rendido." Então ele a beijou nos lábios pela primeira vez. O corpo de Sierva María estremeceu com gemido, e ela soltou uma tênue brisa marinha e se abandonou à própria sorte. Ele passou por sua pele as gemas dos dedos, tocando-a muito de leve, e viveu pela primeira vez o prodígio de se sentir em outro corpo. Uma voz interior o fez ver quão longe tinha estado do diabo em suas insônias de latim e grego, nos êxtases da fé, nos ermos da pureza, enquanto ela convivia com todas as potências do amor livre na senzala dos escravos. Deixou-se guiar por ela, tateando no escuro mas se arrependeu no último instante e desmoronou num cataclismo moral. Ficou deitado de costas, com os olhos fechados. Sierva María se assustou com o seu silêncio e sua quietude de morte, e o tocou com um dedo.
Que houve? -perguntou.
Deixa-me agora — murmurou ele. — Estou rezando.
Nos dias seguintes, só tiveram instantes de sossego quando juntos.
Não se fartavam de falar sobre as dores do amor. Esgotavam-se em beijos, declamavam chorando com lágrimas copiosas versos de namorados, cantavam um ao ouvido do outro, revolviam-se em pantanais de desejo até o limite de suas forças: exaustos mas virgens. Pois ele decidira manter o seu voto até receber o sacramento, e ela aceitou.
Nas pausas da paixão, trocavam provas excessivas. Ele afirmou que seria capaz de qualquer coisa por ela. Sierva Maria pediu com crueldade infantil que comesse uma barata. Ele agarrou uma antes que ela pudesse impedir e comeu-a viva. Em outros desafios alucinados, perguntou se ela cortaria a trança por ele, e ela disse que sim, mas avisou entre brincando e séria que só se ele casasse com ela para cumprir a condição da promessa. Ele levou a cela uma faca de cozinha e disse: “Vamos ver se é de verdade”. Ela virou-se de costas para que ele pudesse cortar pela raiz. Insistiu: “Tenha coragem”. Não teve. Dias depois, ela lhe perguntou se era capaz de se deixar degolar como um cabrito. Ele disse que sim com toda firmeza. Ela agarrou a faca e se dispôs a experimentar— Ele saltou de terror com o calafrio final. “Tu não” disse. Ela, rindo muito, quis saber por quê, e ele disse a verdade: “Porque tu, sim, tens coragem”.
Nos remansos da paixão, começaram a desfrutar também dos tédios do amor cotidiano. Ela mantinha a cela limpa e arrumada para quando ele chegava com a naturalidade de marido que volta para casa. Cayetano a ensinava a ler e escrever, e a iniciava no culto da poesia e na devoção do Espírito santo, à espera do dia feliz em que fossem livres e casados.
Ao amanhecer do dia 27 de abril, Sierva María começava a dormir depois que Cayetano deixou a cela, quando entraram sem avisar para buscá-la. Iam iniciar os exorcismos. Foi o ritual de um condenado à morte. Arrastaram-na para o tanque, lavaram-na a baldes de água, despojaram-na aos puxões de seus colares e puseram-lhe o camisolão brutal dos hereges. Uma irmã jardineira cortou-lhe a cabeleira até a altura da nuca com quatro mordidas de uma tesoura de podar e atirou-a numa fogueira acesa no pátio. A irmã cabeleireira acabou de tosar-lhe os cabelos até o tamanho de meia polegada, como usavam as clarissas; debaixo da mantilha, e foi lançando-os ao fogo à medida que cortava. Sierva María viu a deflagração dourada, ouviu o crepitar da lenha virgem e sentiu a exalação acre de chifre queimado sem que se movesse um músculo de seu rosto impenetrável. Por fim lhe puseram uma camisa-de-força, a cobriram com um trapo fúnebre, e dois escravos a levaram à capela numa padiola de soldados.
O bispo tinha convocado o Cabido Eclesiástico, composto de prebendados e esclarecidos, e estes escolheram quatro dos seus para acompanhar o processo de Sierva María. Num último ato de afirmação, o bispo se sobrepôs às misérias de sua saúde. Determinou que a cerimônia não fosse na catedral, como em outras ocasiões memoráveis, mas na capela do convento de Santa Clara, e assumiu em pessoa a execução do exorcismo.
As clarissas, encabeçadas pela abadessa, estavam no coro desde cedo, e ali cantaram as matinas com acompanhamento de órgão, comovidas pela solenidade do dia que despontava. Em seguida entraram os prelados do Cabido Eclesiástico, os prebostes de três ordens e os principais do Santo Ofício. Além destes últimos, não havia nem haveria nenhum laico.
O bispo entrou por último com aparato de grande cerimônia, levado em liteira por quatro escravos, numa aura de aflição inconsolável.
Sentou-se defronte do altar-mor, junto ao catafalco de mármore dos funerais grandiosos, numa poltrona giratória que facilitava o movimento do corpo. Às seis em ponto, os dois escravos levaram Sierva María na padiola, com a camisa-de-força e ainda coberta com o pano roxo.
O calor se tornou insuportável durante a missa cantada. Os baixos do órgão retumbavam no teto, mal deixando lugar para as vozes insípidas das clarissas invisíveis atrás das gelosias do coro. Os dois escravos meio nus que tinham levado a padiola de Sierva María ficaram de guarda junto a ela. No final da missa, a descobriram e deixaram estendida como uma princesa morta sobre o catafalco de mármore. Os escravos do bispo o levaram na poltrona para junto dela, e os deixaram sozinhos num amplo espaço em frente ao altar-mor.
Seguiram-se uma tensão invisível e um silêncio absoluto que pareciam o prelúdio de algum prodígio celestial. Um acólito colocou ao alcance do bispo o acéter com água benta. Ele agarrou o aspersório como se fosse uma maça de guerra, inclinou-se sobre Sierva María e a aspergiu ao longo do corpo murmurando uma oração.
Em seguida proferiu o conjuro que estremeceu os alicerces da capela.
Quem quer que sejas — gritou. — Por ordem de Cristo, Deus e Senhor de tudo o que é visível e invisível, de tudo o que é, que foi e que há de ser, abandona esse corpo redimido pelo batismo e volta às trevas.
Sierva María, fora de si pelo terror, gritou também. O bispo alteou a voz para fazê-la calar, mas ela gritou com mais força. O bispo aspirou fundo e tornou a abrir a boca para continuar o conjuro, mas o ar lhe morreu dentro do peito sem que o pudesse expulsar. Desabou de bruços, boqueando como um peixe fora d'água, e a cerimônia terminou com um estrépito colossal.
Naquela noite, Cayetano encontrou Sierva María tiritando de febre dentro da camisa-de-força. O que mais o indignou foi o escândalo do crânio pelado.
Deus do céu — murmurou com uma raiva surda, enquanto a livrava das correias. -Como é possível que permitas tamanho crime? — Logo que se soltou, Sierva Maria lhe pulou ao pescoço e ficaram abraçados sem falar, ela chorando. Deixou-a desabafar. Depois ergueu-lhe o rosto e disse: Nada de mais lágrimas. — E concluiu com Garcilaso: — “Bastam as que por vós tenho chorado.” Sierva Maria contou o terrível episódio da capela. Falou do estrondo dos coros que eram como de guerra, dos berros alucinados do bispo, de seu hálito abrasador, de seus belos olhos verdes incendiados pela emoção.
Parecia o diabo — disse.
Cayetano tentou acalmá-la. Assegurou que apesar de sua corpulência titânica, de sua voz tempestuosa e de seus métodos marciais, o bispo era um homem bom e sábio. De modo que o pavor de Sierva Maria era compreensível, mas não corria nenhum perigo.
[...]

Gabriel Garcia Márquez, em Do Amor e Outros Demônios

06/11/2025

Do Amor e Outros Demônios – Capítulo Quatro





[…]


Mais uma vez, o bispo comprovou a facilidade do poder terrenal. Apontou Delaura com o indicador trêmulo, sem olhar para ele, e disse ao vice-rei: — Aqui quem está a par dessas novidades é o padre Cayetano.
O vice-rei seguiu a direção do indicador e topou com a fisionomia distante e os olhos atônitos que o fitavam sem pestanejar. Perguntou a Delaura com um interesse real: — Leste Leibniz? 
Sim, Excelência — disse Delaura, e acrescentou: — Pela natureza do meu cargo.
No final da visita, ficou evidente que o interesse maior do vice-rei era pela situação de Sierva María. Por ela própria, explicou, e pela paz da abadessa, cuja atribulação o comovera.
Ainda nos faltam provas cabais, mas as atas do convento atestam que essa pobre criança está possuída pelo demônio — disse o bispo. — A abadessa sabe melhor que nós.
Ela acha que caístes num ardil de Satanás — disse o vice-rei.
Não somente nós, mas toda a Espanha — disse o bispo. — Atravessamos o mar oceano para impor a lei de Cristo, e o conseguimos nas missas, nas procissões, nas festas dos patronos, mas não nas almas.
Falou de Yucatán, onde tinham construído catedrais suntuosas para esconder as pirâmides pagãs, sem perceber que os aborígines acudiam à missa porque debaixo dos altares de prata seus santuários continuavam vivos. Falou da mixórdia de sangue que tinham feito desde a conquista: sangue de espanhóis com sangue de índios, destes e daqueles com negros de toda laia, até mandingas muçulmanos, e perguntava se tal promiscuidade cabia no reino de Deus. Apesar da sua dificuldade de respirar e de sua tossezinha de velho, terminou sem conceder uma pausa ao vice-rei: — Que pode ser tudo isso senão armadilhas do Inimigo? O vice-rei estava alterado.
O desencanto de Vossa Senhoria Ilustríssima é de extrema gravidade — disse.
Não o veja assim Vossa Excelência — disse o bispo com muito bons modos. — Procuro tornar mais evidente a força da fé de que necessitamos para que esses povos sejam dignos de nosso sacrifício.
O vice-rei retomou o fio.
Até onde entendo, os reparos da abadessa são de caráter prático — disse. — Ela acha que talvez outros conventos tenham condições melhores para um caso tão difícil.
Pois saiba Vossa Excelência que escolhemos Santa Clara sem hesitação, dada a integridade, a eficiência e a autoridade de Josefa Miranda — disse o bispo. — E Deus sabe que estamos certos.
Permitir-me-ei transmitir essa sua opinião — disse o vice-rei.
Ela a conhece de sobra — disse o bispo. — O que me inquieta é por que não ousa aceitá-la.
Ao tomar a decisão, sentiu passar a aura de uma crise iminente de asma, e apressou o final da visita. Comunicou que tinha recebido um memorial com as reclamações da abadessa e que prometia resolvê-las com o mais ardente amor pastoral assim que a saúde lhe desse uma trégua. O vice-rei agradeceu e pôs termo à visita com uma cortesia pessoal. Também ele sofria de asma, e ofereceu seus médicos ao bispo. Este não achou necessário.
Tudo o que é meu está nas mãos de Deus disse. — Tenho a idade em que a Virgem morreu.
Ao contrário dos cumprimentos, a despedida foi lenta e cerimoniosa.
Três dos sacerdotes, entre os quais Delaura, acompanharam em silêncio o vice-rei pelos corredores soturnos até a porta principal.
A guarda do vice-rei mantinha afastados os mendigos com uma barreira de alabardas cruzadas. Antes de subir à carruagem, o vice-rei voltou-se para Delaura, apontou-lhe o seu indicador inapelável, e disse: — Não deixes que me esqueça de ti.
Foi uma frase tão imprevista e enigmática que Delaura só conseguiu responder com uma reverência.
O vice-rei foi até o convento para informar a abadessa sobre os resultados da visita. Horas depois, já com o pé no estribo, e apesar da pressão da vice-rainha, negou o indulto a Martina Laborde, porque lhe pareceu um mau precedente para os muitos réus de lesa-majestade humana que encontrou nas enxovias.
O bispo permanecera inclinado para a frente, tentando conter os assobios de sua respiração, com os olhos fechados, até que Delaura voltou.
Os ajudantes já se haviam retirado pé ante pé, e a sala estava na penumbra. Olhando ao redor, o bispo viu as cadeiras vazias alinhadas contra as paredes e Cayetano sozinho na sala. Perguntou-lhe com voz sumida: — Já vimos um homem tão bom? Delaura respondeu com um gesto ambíguo. O bispo se ajeitou com um movimento difícil e continuou apoiado no braço da poltrona até dominar a respiração. Não quis jantar. Delaura apressou-se a acender um candeeiro para iluminar o caminho até o quarto.
Muito mal nos saímos com o vice-rei — disse o bispo.
Havia alguma razão para nos sairmos bem? — perguntou Delaura. — Não se bate à porta de um bispo sem um anúncio formal.
O bispo não estava de acordo e se explicou com grande vivacidade.
Minha porta é a porta da Igreja, e ele se comportou como um cristão dos antigos. O impertinente fui eu, por causa do meu mal de peito, e alguma coisa terei de fazer para me escusar.
Já na porta no quarto havia mudado de tom e de assunto, e despediu-se de Delaura, com uma palmadinha familiar no ombro.
Reza por mim esta noite — disse. — Temo que vá ser muito comprida.
De fato, sentiu-se morrer com a crise de asma que pressentira durante a visita. Como não fizessem efeito um vomitório de tártaro e outros paliativos extremos, tiveram que sangrá-lo às pressas. Ao amanhecer, já tinha recobrado o ânimo.
Cayetano, em vigília na biblioteca ao lado, não soube de nada.
Começava as rezas da manhã quando vieram anunciar que o bispo o esperava no quarto. Encontrou-o na cama, tomando uma xícara grande de chocolate, acompanhado de pão com queijo, respirando como um fole novo e de espírito exaltado. Bastou a Cayetano vê-lo para saber que suas decisões estavam tomadas.
Assim foi. Contrariando o pedido da abadessa, Sierva María ficava em Santa Clara, e o padre Cayetano Delaura continuava a cuidar dela com a plena confiança do bispo. Não estaria mais em regime carcerário, como até ali, e devia participar das facilidades gerais oferecidas à população do convento. O bispo levava em consideração as atas, mas a falta de rigor delas impedia a clareza do processo, de modo que o exorcista devia proceder segundo o seu próprio critério. Por último, determinou a Delaura que visitasse o marquês em seu nome, com poderes para resolver o que fosse necessário, até que ele tivesse tempo e saúde para atendê-lo em audiência.
Não haverá mais nenhuma instrução — disse o bispo para terminar — Que Deus te abençoe.
Cayetano foi ter ao convento com o coração batendo forte, mas não encontrou Sierva Maria em sua cela. Estava na sala de atos, coberta de jóias legítimas e com a cabeleira estendida a seus pés, posando com sua extraordinária dignidade de negra para um célebre retratista da comitiva do vice-rei. Tão admirável quanto sua beleza era a docilidade com que obedecia ao artista. Cayetano caiu em êxtase.
Sentado à sombra, e vendo-a sem ser visto, sobrou-lhe tempo para dissipar qualquer dúvida do coração.
À hora nona, o retrato estava terminado. O pintor examinou-o à distância, deu duas ou três pinceladas finais e antes de assinar pediu a Sierva María que o olhasse. Estava idêntica, de pé numa nuvem e no meio de uma corte de diabos submissos. Ela contemplou o retrato sem pressa e se reconheceu no esplendor dos seus anos. Por fim disse: — É como um espelho.
Até com os demônios? — perguntou o pintor.
Assim mesmo — disse ela.
Terminada a pose, Cayetano a acompanhou até a cela. Nunca a tinha visto andar; fazia-o com a mesma graça e facilidade com que dançava.
Nunca a tinha visto com outro traje que não fosse a bata de presa, e o vestido de rainha lhe dava uma idade e uma elegância que revelavam até que ponto já era mulher. Nunca tinham caminhado juntos, e era encantadora para ele a naturalidade com que se acompanhavam.
A cela estava diferente graças aos dons de persuasão dos vice-reis, que na visita de despedida tinham convencido a abadessa das boas razões do bispo. O colchão era novo, os lençóis de linho, e os travesseiros de penas, e se haviam posto utensílios para o asseio cotidiano e o banho de corpo. A luz do mar entrava pela janela sem cruzetas e resplandecia nas paredes recém-caiadas. Como a comida era a mesma da clausura, não foi mais necessário levar nada de fora, mas Delaura sempre conseguiu passar de contrabando algumas guloseimas dos portais. María quis partilhar a merenda, e Delaura aceitou um dos biscoitinhos que sustentavam o prestígio das clarissas. Enquanto comiam ela fez um comentário casual: — Conheci a neve.
Cayetano não se espantou. Em outra época tinham falado de um vice-rei que quis trazer a neve dos Pireneus, para que os aborígines a conhecessem, pois ignorava que a tínhamos quase dentro do mar, na Serra Nevada de Santa Marta. Talvez dom Rodrigo de Buen Lozano tivesse realizado a façanha com suas artes novidadeiras.
Não — disse a menina. — Foi num sonho.
Contou que estava defronte de uma janela e lá fora caía uma nevada forte, enquanto ela arrancava e comia uma por uma as uvas de um cacho no seu colo. Delaura teve um sobressalto de terror. Temendo a iminência da última resposta, perguntou: — E como acabou? — Tenho medo de contar — disse Sierva María.
Ele não precisou de mais. De olhos fechados, rezou por ela. Ao terminar, era outro.
Não te preocupes — disse. — Prometo que muito breve serás livre e feliz, por graça do Espírito Santo.
Bernarda não sabia até então que Sierva Maria estava no convento.
Soube quase por acaso, uma noite em que encontrou Dulce Olivia varrendo e arrumando a casa, e a confundiu com uma de suas alucinações. Em busca de alguma explicação racional, dedicou-se a revistar quarto por quarto, e no percurso se deu conta de que não via Sierva Maria há muito tempo. Caridad del Cobre lhe transmitiu o que sabia: "O senhor marquês avisou que ela ia para muito longe e que não a veríamos mais". Como a luz estava acesa no quarto do marido, Bernarda entrou sem bater.
Ele estava acordado na rede, em meio à fumaça da bosta que ardia a fogo lento para espantar os mosquitos. Viu a estranha mulher transfigurada pelo roupão de seda, e também pensou que se tratava de um fantasma, porque estava pálida e sinistra, e parecia vir de muito longe. Bernarda lhe perguntou por Sierva María.
Há dias que não está conosco — disse ele.
Ela o tomou no pior sentido, e para poder respirar teve que sentar na primeira poltrona que encontrou.
Quer dizer então que Abrenuncio fez o que era preciso fazer — disse.
O marquês se benzeu: — Deus nos livre! Contou a verdade. Teve o cuidado de explicar que não dissera nada antes porque quis tratá-la, conforme ela queria, como se tivesse morrido. Bernarda ouviu-o concentrada, com uma atenção que ele não merecera em doze anos de má vida comum.
Sabia que ia me custar a vida — disse marquês. — Mas em pagamento da vida dela.
Bernarda suspirou: — Quer dizer que agora nossa vergonha é de domínio público.
Viu nas pálpebras do marido o brilho de uma lágrima, e um tremor lhe subiu das entranhas. Dessa vez não era a morte, mas a certeza inelutável do que mais cedo ou mais tarde havia de acontecer. Não se enganou. O marquês levantou-se da rede com suas últimas forças, desabou diante dela e caiu num choro áspero de velho imprestável.
Bernarda capitulou sob o fogo das lágrimas de homem que molharam suas virilhas através da seda. Confessou, apesar de quanto odiava Sierva María, que era um alívio saber que estava viva.
Sempre entendi tudo, menos a morte — disse.
Tornou a fechar-se no quarto, a melaço e cacau, e quando saiu, duas semanas depois, era um cadáver ambulante. O marquês tinha notado desde muito cedo uns preparativos de viagem, mas não prestou muita atenção. Antes de o sol esquentar, viu Bernarda sair pelo portão do pátio numa mula mansa, seguida por uma outra com a bagagem. Muitas vezes saíra assim, sem arrieiros nem escravos, sem se despedir de ninguém nem dar qualquer explicação. Mas o marquês soube que daquela vez ia embora para nunca mais voltar, porque além dos baús de sempre levava duas bilhas cheias de ouro puro, que manteve enterradas debaixo da cama durante anos.
Jogado de qualquer maneira na rede, o marquês recaiu no pavor de que os escravos o esfaqueassem, e os proibiu de entrar na casa durante o dia. Assim, quando Cayetano Delaura foi visitá-lo Por ordem do bispo, teve que empurrar o portão e entrar sem licença, porque ninguém respondeu às batidas da aldraba. Os mastins se assanharam nos canis, mas o padre seguiu adiante. No pomar, com a chilaba, sarracena e o gorro toledano, o marquês fazia a sesta na rede, coberto de flores de laranjeira. Delaura o contemplou sem acordá-lo, e foi como se visse Sierva María decrepita e esmigalhada pela solidão. O marquês acordou e custou a reconhecê-lo por causa do pano no olho. Delaura, levantou a mão com os dedos esticados em sinal de paz.
Deus o guarde, senhor marquês — disse.
Como tem passado? — Assim, assim — disse o marquês. — Apodrecendo.
Afastou com mão vagarosa as teias de aranha da sesta e sentou-se na rede. Cayetano pediu desculpas por entrar sem ser convidado. O marquês explicou que ninguém fazia caso da aldraba porque se perdera o hábito das visitas. Delaura declarou em tom solene: — O senhor bispo, muito atarefado e sofrendo de asma, me manda aqui representando-o. — Cumprido o protocolo inicial, sentou-se junto à rede e foi ao assunto que lhe abrasava as entranhas. Quero informar-lhe que me foi confiada a saúde espiritual de sua filha.
O marquês agradeceu e quis saber como estava ela.
Bem — disse Delaura. — Mas quero ajudá-la a ficar melhor ainda.
Explicou o sentido e os métodos dos exorcismos. Falou do poder que Jesus deu a seus discípulos para expulsar dos corpos os espíritos imundos e curar enfermidades e fraquezas. Contou a lição evangélica de Legião e os dois mil porcos endemoninhados. Todavia, o mais importante era estabelecer se Sierva María estava de fato possessa. Ele não acreditava, mas precisava da ajuda do marquês para dissipar qualquer dúvida. Antes de mais nada, queria saber, segundo disse, como era a menina antes de ser internada no convento.
Não sei — disse o marquês. — Sinto que a conheço menos quanto mais a conheço.
Atormentava-o a culpa de a ter abandonado à própria sorte no pátio dos escravos. A isso atribuía seus silêncios que podiam durar meses, as explosões de violência irracional, a astúcia com que pendurando nos gatos a campainha que ela lhe prendia no pulso. A maior dificuldade para conhecê-la era o seu vício de mentir por prazer .
Como os negros — disse Delaura — Os negros mentem para nós, não entre eles — disse o marquês.
No quarto, Delaura separou com um simples olhar o que era o Profuso legado da avó e os objetos novos de Sierva María: as bonecas vivas, as dançarinas de corda, as caixas de música. Em cima da cama, tal como a arrumara o marquês, continuava a maleta com que a tinha levado ao convento. A tiorba coberta de poeira estava relegada a um canto. O marquês explicou que era um instrumento italiano caído em desuso, e exagerou a habilidade da filha no tocá-la. Começou a afiná-la Por distração e acabou tocando com boa memória, até cantando a canção que cantava com Sierva María.
Foi um instante revelador. A música disse a Delaura o que o marquês não conseguira dizer da filha. E este se comoveu tanto que não pôde terminar a canção. Suspirou: — Não imagina como ficava bem de chapéu.
Sua emoção contagiou Delaura.
Vejo que gosta muito dela — disse.
Não imagina quanto — disse o marquês. — Eu daria a alma para vê-la.
Mais uma vez Delaura sentiu que o Espírito Santo não saltava o mínimo detalhe.
Nada será mais fácil se pudermos demonstrar que não está possuída — disse.
Fale com Abrenuncio — disse o marquês. Desde o princípio afirmou que Sierva María está sã, mas só ele poderá lhe explicar.
Delaura se viu numa encruzilhada. Abrenuncio talvez lhe fosse providencial, mas falar com ele poderia trazer consequências indesejáveis. O marquês pareceu ler o seu pensamento.
É um grande homem — disse.
Delaura fez com a cabeça um gesto expressivo.
Conheço as regras do Santo Ofício — disse.
Qualquer sacrifício será pouco para recuperá-la — insistiu o marquês. E como Delaura não se manifestava, concluiu: — Peço-lhe pelo amor de Deus.
Delaura, com uma fenda no coração, disse: — Suplico-lhe que não me faça sofrer mais.
O marquês não insistiu. Apanhou a maletinha em cima da cama e pediu a Delaura que a levasse à filha.
Pelo menos vai ficar sabendo que penso nela.
Delaura precipitou-se sem se despedir. Embrulhou-se na capa., pois chovia a cântaros, e guardou debaixo a maleta. Custou a notar que sua voz interior ia repetindo versos soltos da canção da tiorba.
Começou a cantá-la, em voz alta, açoitado pela chuva, e a repetiu decorada até o final. No bairro dos artesãos, dobrou à esquerda da ermida, sempre cantando, e bateu na porta de Abrenuncio.
Ao fim de um longo silêncio, ouviram-se passos inseguros e a voz de sono: — Quem é? — A lei — disse Delaura Foi a única coisa que lhe veio à cabeça para não gritar o nome.
Abrenuncio abriu a porta acreditando que era mesmo gente do governo, e não o reconheceu. — Sou o bibliotecário da diocese — disse Delaura. O médico lhe abriu passagem passagem pelo vestíbulo mergulhado na penumbra e o ajudou a tirar a capa ensopada. No seu estilo próprio, Perguntou em latim: — Em que batalha perdeu esse olho? Delaura narrou em seu latim clássico o contratempo do eclipse e se estendeu em pormenores sobre a persistência do mal, embora o médico do bispo lhe tivesse assegurado que o parche era infalível Mas Abrenuncio só deu atenção à pureza do seu latim.
É de uma perfeição absoluta — disse, maravilhado. — De onde é o senhor? — De Ávila — disse Delaura.
Pois maior ainda é o mérito — disse Abrenuncio.
Fez o visitante tirar a batina e as sandálias, colocou-as para secar e pôs-lhe a sua capa de liberto por cima das calças amarfanhadas.
Depois tirou-lhe o tapa-olho e o jogou no caixote de lixo.
A única coisa ruim desse olho é que vê mais do que deve — disse.
Delaura estava pasmo com a quantidade de livros acumulados na sala.
Abrenuncio reparou, e levou-o à botica, onde havia muitos mais, em estantes que iam até o teto.
Espírito Santo! — exclamou Delaura. — Isto é a biblioteca de Petrarca.
Com uns duzentos livros mais — disse Abrenuncio. Deixou-o saciar a curiosidade. Havia exemplares únicos que na Espanha podiam dar prisão. Delaura os reconhecia e folheava, guloso, repondo-os nas estantes com dor na alma. Em posição privilegiada, com o eterno Fray Gerundio, encontrou Voltaire completo em francês e uma tradução para o latim das Cartas filosóficas.
Voltaire em latim é quase uma heresia— disse brincando.
Abrenuncio contou que a tradução era de um frade de Coimbra que se dava ao luxo de fazer livros raros para distração de peregrinos.
Enquanto Delaura o folheava, o médico perguntou se sabia francês.
Não falo, mas leio — disse Delaura em latim. E acrescentou sem falsos pudores: — E além disso, grego, inglês, italiano, português e um pouco de alemão.
Pergunto por causa do que comentou sobre Voltaire — disse Abrenuncio.
É uma prosa perfeita — E a que mais nos dói — disse Delaura— — Pena que seja de um francês.
O senhor diz isso por ser espanhol — disse Abrenuncio.
Na minha idade, e com tantos sangues cruzados, já não sei mais com certeza de onde sou disse Delaura. — Nem quem sou.
Ninguém sabe por estes reinos — disse Abrenuncio. — E creio que precisarão de séculos para saber.
Delaura conversava sem interromper o exame da biblioteca. De repente, como lhe acontecia com frequência, lembrou-se do livro que o diretor do seminário lhe tinha confiscado aos doze anos e do qual só recordava um episódio que tinha repetido ao longo de sua vida a quem pudesse ajudá-lo.
Lembra o título? — perguntou Abrenuncio.
Nunca soube — disse Delaura. — E daria qualquer coisa para saber como acaba.
Sem anunciar, o médico o pôs diante de um livro que ele reconheceu ao primeiro golpe de vista. Era uma antiga edição sevilhana dos quatro livros do Amadís de Gaula. Delaura, trêmulo, folheou-o e percebeu que estava à beira de renunciar a toda e qualquer salvação. Afinal se atreveu: — Sabe que este é um livro proibido? Como os melhores romances destes séculos — disse Abrenuncio. — Em lugar deles só se imprimem romances para homens doutos. Que leriam esses coitados de hoje se não lessem escondido os romances de cavalaria? — Há outros — disse Delaura — Cem exemplares da edição príncipe do Quixote foram lidos aqui no mesmo ano em que saíram.
Foram lidos, não — disse Abrenuncio. — Passaram pela alfândega a caminho dos diversos reinos.
Delaura não prestou atenção, porque tinha conseguido identificar o precioso exemplar do Amadís de Gaula.
Este livro desapareceu há nove anos do capítulo secreto de nossa biblioteca e nunca mais conseguimos encontrá-lo — disse.
Era de imaginar — disse Abrenuncio — Mas há outros motivos para considerá-lo, um exemplar histórico: durante mais de um ano circulou de mão em mão, pelo menos entre onze pessoas, e pelo menos três morreram— Tenho certeza de que foram vítimas de algum eflúvio desconhecido.
Meu dever seria denunciá-lo ao Santo ofício — disse Delaura.
Abrenuncio levou na brincadeira.
Terei dito uma heresia? — O caso é que tem aqui um livro proibido e alheio, e não denunciou.
— — Esse e muitos outros — disse Abrenuncio, assinalando com um amplo círculo do indicador suas prateleiras atulhadas. — Mas se fosse por isso, o senhor teria vindo há muito tempo e eu não lhe abriria a porta. — Voltou-se para ele e arrematou de bom humor: — Mas me alegra que tenha vindo agora, é um prazer vê-lo aqui.
Foi o marquês, ansioso pela sorte da filha, quem me sugeriu que viesse — disse Delaura.
Abrenuncio o fez sentar diante dele, e os dois se entregaram ao vício da conversação, enquanto uma tempestade apocalíptica convulsionava o mar. O médico fez uma exposição erudita e inteligente sobre a raiva desde a origem da humanidade, sobre seus estragos impunes e a incapacidade milenar da ciência médica para impedi-los. Deu exemplos lamentáveis de como sempre fora confundida com a possessão demoníaca, assim como certas formas de loucura e outras perturbações do espírito. Quanto a Sierva María, depois de tantas semanas, não parecia provável que a contraísse. O único perigo, concluiu Abrenuncio, era que morresse, como tantos outros, em consequência da crueldade dos exorcismos.
A última frase pareceu a Delaura um exagero próprio da medicina medieval, mas ele não discutiu, porque servia bem à sua argumentação teológica de que a menina não estava possuída.
Disse que os três idiomas africanos de Sierva María tão diferentes do espanhol e do português, não tinham de modo algum a carga satânica que lhes atribuíam no convento. Havia numerosos testemunhos de que era dotada de uma força física incomum, mas nenhum de que se tratasse de um poder sobrenatural. Também não se comprovara qualquer ato seu de levitação ou adivinhação do futuro, dois fenômenos que por certo serviam também como provas secundárias de santidade.
Contudo, Delaura tinha procurado o apoio de confrades insignes, até mesmo de outras comunidades, e nenhum ousara pronunciar-se contra as atas do convento nem contrariar a credulidade popular. Mas tinha consciência de que nem os seus critérios nem os de Abrenuncio convenceriam a quem quer que fosse, e muito menos os dois juntos.
Seríamos o senhor e eu contra todos — disse.
Por isso me surpreendeu que viesse — disse Abrenuncio. — Não sou mais que uma peça cobiçada no território de caça do Santo Ofício.
A verdade é que nem sei ao certo por que vim — disse Delaura. — A não ser que essa menina me tenha sido imposta pelo Espírito Santo para pôr a prova minha fé.
Bastou dizê-lo para se libertar do nó de suspiros que o oprimia.
Abrenuncio olhou-o nos olhos, até o fundo da alma, e percebeu que estava quase a chorar.
Não se atormente à toa — disse em tom tranquilizador. — Talvez só tenha vindo porque precisava falar nela.
Delaura sentiu-se nu. Levantou-se, procurou o rumo da porta e só não fugiu em disparada porque estava meio despido. Abrenuncio o ajudou a vestir a roupa ainda molhada, enquanto tratava de fazê-lo ficar para continuar a conversa.
Com o senhor, conversaria sem parar até o próximo século — disse.
Procurou retê-lo com um vidrinho de um colírio transparente para curar a persistência do eclipse no olho. Fê-lo voltar da porta para buscar a maleta que ficara esquecida em algum lugar da casa. Mas Delaura parecia tomado de uma dor mortal. Agradeceu a tarde, o auxilio médico, o colírio, mas a única concessão que fez foi a promessa de voltar outro dia com mais tempo.
Não aguentava mais a vontade de ver Sierva María. Mal notou, na porta, que já era noite fechada. Tinha estiado, mas os canais transbordavam devido ao aguaceiro, e Delaura foi caminhando pelo meio da rua com água pelos joelhos. A porteira do convento quis barrar-lhe a passagem por causa da proximidade do toque de recolher. Ele a empurrou para um lado: — Ordens do senhor bispo.
Sierva Maria acordou assustada e não o reconheceu no escuro. Ele não soube explicar por que ia numa hora tão incomum e lançou mão do pretexto: — Teu pai quer te ver.
A menina reconheceu a maletinha, e seu rosto se incendiou de fúria.
Mas eu não quero — disse.
Desconcertado, ele perguntou por quê.
Porque não — disse ela. — Prefiro morrer.
Ele tentou tirar a correia do seu tornozelo esquerdo são, achando que a agradava.
Deixe-me — disse ela. — Não me toque.
Delaura não ligou e ela soltou-lhe uma série de cusparadas na cara.
Ele se manteve firme e lhe ofereceu a outra face. Sierva María continuou a cuspir. Ele tornou a mudar a face, embriagado pela onda de prazer proibido que lhe subiu das entranhas. Cerrou os olhos e rezou com a alma enquanto ela continuava a cuspir, tanto mais feroz quanto mais ele gozava, até que se deu conta da inutilidade de sua raiva. Então Delaura assistiu ao espetáculo pavoroso de uma verdadeira energúmena. A cabeleira de Sierva María se encrespou com vida própria, como as serpentes da Medusa, e de sua boca saiu uma baba verde, uma saraivada de impropérios em línguas de idólatras.
Delaura brandiu o crucifixo, aproximou-o da cara dela e gritou aterrado: — Sai daí, sejas tu quem fores, besta dos infernos Seus gritos estimularam os da menina, que estava a ponto de romper as fivelas das correias. A guardiã acudiu assustada e forcejou para dominá-la, mas só Martina o conseguiu com seus modos celestiais.
Delaura fugiu.
O bispo estava inquieto porque ele não aparecera para a leitura do jantar. Ele sentiu que flutuava numa nuvem pessoal, onde nada deste mundo ou do outro tinha importância, a não ser a imagem apavorante de Sierva María aviltada pelo diabo. Fugiu para a biblioteca mas não conseguiu ler. Rezou com a fé exacerbada, cantou a canção da tiorba, chorou com lágrimas de óleo ardente que lhe abrasavam as entranhas. Abriu a maleta de Sierva María e pôs as coisas uma a uma em cima da mesa. Conheceu-as, cheirou-as com um desejo ávido do corpo, amou-as e falou com elas em hexâmetros obscenos, até que não pôde mais. Então desnudou o torso, tirou da gaveta da mesa de trabalho a disciplina de ferro que nunca ousara tocar e começou a flagelar-se com um ódio insaciável, que não lhe daria trégua até extirpar de suas entranhas o último vestígio de Sierva Maria.
O bispo, que tinha ficado à espera dele, encontrou-o revolvendo-se num lamaçal de sangue e lágrimas.
É o demônio, meu pai — disse Delaura. — O mais terrível de todos.

Gabriel Garcia Márquez, em Do Amor e Outros Demônios

01/11/2025

Do Amor e Outros Demônios | Capítulo Quatro



O padre Cayetano Delaura foi convidado pelo bispo a esperar o eclipse debaixo da pérgula de campânulas amarelas, o único lugar da casa que dominava o céu do mar. Os alcatrazes imóveis no ar com as asas abertas pareciam mortos em pleno vôo. O bispo se abanava devagar numa rede pendurada em duas forquilhas com cabrestantes de navio, onde acabava de fazer a sesta. Delaura se balançava a seu lado numa cadeira de balanço de vime. Ambos se achavam em estado de graça, tomando refresco de tamarindo e contemplando por cima dos telhados o vasto céu sem nuvens. Pouco depois das duas começou a escurecer, as galinhas se recolheram nos poleiros e todas as estrelas se acenderam, ao mesmo tempo. Um calafrio sobrenatural estremeceu o mundo. O bispo ouviu o ruflar de asas das pombas atrasadas que buscavam os pombais em vôo cego.
Deus é grande — suspirou. — Até os animais sentem.
A freira de turno levou-lhe um candeeiro e uns vidros enegrecidos para olhar o sol. O bispo se soergueu na rede e começou a observar o eclipse através do cristal.
Deve-se olhar com um olho só — disse, procurando dominar o assobio de sua respiração. — Se não, corre-se o risco de perder ambos.
Delaura ficou com o vidro na mão, sem olhar o eclipse. Ao fim de um longo período, o bispo o localizou no escuro e viu seus olhos fosforescentes por completo alheios aos sortilégios da falsa noite. Em que pensas? — perguntou.
Delaura não respondeu. Viu o sol como uma lua minguante que lhe feriu a retina apesar do vidro escuro. Mas não deixou de olhar.
Continuas pensando na menina — disse o bispo.
Cayetano teve um sobressalto, embora o bispo fosse dado àqueles acertos com mais frequência do que seria natural.
Estava pensando que o vulgo pode relacionar seus males com este eclipse — disse. O bispo sacudiu a cabeça sem afastar a vista do céu.
E quem sabe se não têm razão — disse. — As cartas do baralho do Senhor não são fáceis de ler.
Este fenômeno foi calculado há milênios pelos astrônomos assirios — disse Delaura.
É uma resposta de jesuíta — disse o bispo.
Cayetano continuou a olhar o sol sem o vidro, por simples distração.
Às duas e doze, parecia um disco negro, perfeito, e por um instante foi meia noite em pleno dia. Breve, o eclipse recobrou sua condição terrena, e os galos do amanhecer começaram a cantar. Quando Delaura deixou de olhar, a medalha de fogo persistia em sua retina.
Continuo vendo o eclipse — disse, brincalhão. — Para onde quer que se olhe, lá está ele.
O bispo deu o espetáculo por terminado.
Daqui a algumas horas desaparece — disse. Estirou-se sentado na rede, bocejou e deu graças a Deus pelo novo dia.
Delaura não tinha perdido o fio.
Com todo o respeito, meu pai — disse —, não creio que essa criatura esteja possessa.
Dessa vez o bispo se alarmou de verdade.
Por que o dizes? — Acho que está só aterrorizada — disse o padre.
Temos provas de sobra — disse o bispo. — Ou será que não lês as atas? Sim, Delaura havia estudado a fundo as atas, e achava que eram mais úteis para conhecer a mentalidade da abadessa que o estado de Sierva María. Tinham exorcizado os lugares onde ela estivera na manhã de sua chegada, e tudo quanto tocara. As pessoas que estiveram em contato com ela foram submetidas a abstinências e depurações. A noviça que lhe roubou o anel no primeiro dia foi condenada a trabalhos forçados na horta. Diziam que a menina se deleitara esquartejando um cabrito que degolou com as próprias mãos, e comeu os testículos e os olhos temperados como fogo vivo. Dominava uma porção de línguas, o que lhe permitia entender-se com os africanos de qualquer nação, melhor que eles mesmos entre si, ou com os bichos de qualquer espécie. No dia seguinte à sua chegada, as onze araras cativas que enfeitavam o jardim havia vinte anos apareceram mortas sem motivo.
Tinha encantado a criadagem com canções demoníacas, que cantava com voz diferente da sua. Quando soube que a abadessa a procurara, tornou-se invisível só para ela.
Apesar de tudo — disse Delaura —, creio que o que nos parece demoníaco são costumes dos negros, que a menina aprendeu por causa do abandono em que os pais a deixaram.
Cuidado! — alertou o bispo. — O Inimigo se aproveita melhor de nossas inteligências que de nossos erros.
Pois o melhor presente para ele seria que exorcizássemos uma pessoa sã — disse Delaura.
O bispo se encrespou.
Devo entender que estás em rebeldia? — Deve entender que mantenho minhas dúvidas, meu pai — disse Delaura. — Mas obedeço com toda humildade.
Assim, voltou ao convento sem convencer o bispo. Trazia no olho esquerdo um parche de caolho que seu médico lhe tinha posto enquanto não se apagava o sol impresso na retina. Sentiu os olhares que o seguiam ao longo do jardim e dos sucessivos corredores até o prédio da prisão, mas ninguém lhe dirigiu a palavra. Em todo o ambiente havia uma convalescença do eclipse.
Quando a guardiã abriu a cela de Sierva María, Delaura sentiu que o seu coração rebentava dentro do peito. Mal se aguentava em pé.
Só para sondar o humor da menina, perguntou-lhe se tinha visto o eclipse. Sim, tinha-o visto do terraço. Não entendeu que ele levasse um pano no olho, se ela olhara o sol sem proteção e estava bem.
Contou que as freiras tinham visto o eclipse ajoelhadas e que todo o convento tinha parado até que os galos começaram a cantar. Mas ela não achara aquilo nada do outro mundo.
O que vi é o que se vê todas as noites — disse.
Havia mudado nela alguma coisa que Delaura não era capaz de precisar, e cujo sintoma mais visível era uma ponta de tristeza. Não se enganou. Mal começaram os curativos, a menina fixou nele uns olhos aflitos e falou com voz trêmula: — Vou morrer.
Delaura estremeceu.
Quem disse isso? Martina — disse a menina. Viste-a? A menina contou que ela havia aparecido duas vezes em sua cela para ensiná-la a bordar, e que tinham visto juntas o eclipse. Falou que era boa e suave, e que a abadessa permitira que desse aulas de bordado no terraço para ver o pôr-do-sol no mar.
Ali, sim — disse ele, sem pestanejar. — E disse quando vais morrer? A menina concordou com os lábios apertados para não chorar.
Depois do eclipse.
Depois do eclipse podem ser os próximos cem anos — disse Delaura.
Mas teve de concentrar-se nos curativos para que ela não notasse que tinha um nó na garganta. Sierva María não disse mais nada. Ele tornou a fitá-la, intrigado com o seu silêncio, e viu que tinha os olhos cheios d'água.
Estou com medo — disse ela.
Jogou-se na cama e desatou num pranto dolorido. Ele se sentou mais próximo e consolou-a com paliativos de confessor. Só então Sierva María soube que Cayetano era o seu exorcista e não médico.
Então por que me cura? — perguntou.
Me falou com voz trêmula — Porque gosto muito de ti.
Ela não se mostrou sensível à audácia.
De saída, Delaura assomou à cela de Martina. Pela primeira vez de perto, viu que tinha a pele com marcas de varíola, o crânio pelado, o nariz grande demais, e dentes de ratazana, mas seu poder de sedução era um fluido material que logo se sentia. Delaura preferiu conversar do umbral.
Essa pobre menina já tem motivos demais para estar assustada — disse. — Peço-lhe que não os aumente.
Martina ficou desconcertada. Nunca lhe havia ocorrido prognosticar o dia da morte de ninguém, e muito menos para uma menina tão encantadora e indefesa. Só tinha perguntado pelo seu estado de saúde e com três ou quatro respostas viu que ela mentia por vício. A seriedade com que Martina falou foi bastante para Delaura compreender que Sierva María havia mentido também a ele. Desculpou-se pela precipitação e pediu que não fizesse nada capaz de magoar a menina.
Eu sempre hei de saber bem o que faço concluiu.
Martina o envolveu com seu feitiço.
Sei quem é Vossa Reverência — disse. — E sei que sempre sabe muito bem o que faz.
Mas Delaura tinha uma asa ferida, por comprovar que Sierva María não precisara da ajuda de ninguém para incubar na solidão de sua cela o pânico da morte.
No decorrer daquela semana, madre Josefa Miranda mandou ao bispo um memorial de queixas e reclamações, escrito do próprio punho. Pedia que poupasse às clarissas a tutela de Sierva María, que considerava um castigo tardio por culpas já purgadas de sobra. Enumerava uma nova lista de acontecimentos fenomenais incorporados às atas, e só explicáveis por um contubérnio, desenfreado da menina com o demo. O final era uma denúncia indignada da prepotência de Cayetano Delaura, de sua liberdade de pensamento e ojeriza pessoal contra ela, e do abuso de levar comida para o convento, contra as proibições do regulamento.
O bispo mostrou o memorial a Delaura logo que este voltou a casa. Ele o leu de pé, sem mover um músculo da face. Acabou enfurecido.
Se alguém está possuído por todos os demônios é Josefa Miranda — disse. — Demônios de rancor, de intolerância, de imbecilidade. É detestável! O bispo se admirou de sua violência. Delaura notou e procurou explicar-se num tom tranquilo.
Quero dizer que ela atribui tantos poderes às forças do mal que mais parece devota do demônio.
Minha investidura não permite estar de acordo contigo -disse o bispo. — Mas gostaria de estar.
Repreendeu-o por qualquer excesso que tivesse podido cometer e pediu paciência para aguentar o gênio aziago da abadessa.
Os Evangelhos estão cheios de mulheres iguais a ela, e com defeitos piores ainda — disse. E no entanto Jesus Cristo as elogiou.
Não pôde prosseguir, porque uma trovoada retumbou na casa e saiu rolando pelo mar, e um aguaceiro bíblico os afastou do resto do mundo.
O bispo estendeu-se na cadeira de balanço e naufragou na nostalgia.
Como estamos longe! — suspirou. De quê? — De nós mesmos -— disse o bispo. — Achas justo que alguém precise de um ano para saber que é órfão? — E, à falta de resposta, desabafou a sua saudade: — Fico aterrorizado só à ideia de saber que na Espanha já tenham dormido esta noite.
Não podemos interferir na rotação da Terra — disse Delaura.
Mas poderíamos ignorá-la, para que não nos doa — disse o bispo.
Mais que fé, o que faltava a Galileu era coração.
Delaura conhecia aquelas crises que angustiavam o bispo em suas noites de chuvas tristes, desde que a velhice o tomara de assalto. A única coisa que podia fazer era distraí-lo de suas biles negras até que o sono o vencesse.
Ao fim do mês anunciou-se por édito a próxima chegada do novo vice-rei, dom Rodrigo de Buen Lozano, de passagem para sua sede de Santa Fé. Vinha com um séquito de ouvidores e funcionários, criados e médicos pessoais, além de um quarteto de cordas com que a rainha o presenteara para suportar os tédios das índias. A vice-rainha, que tinha algum parentesco com a abadessa, pedira que o alojassem no convento.
Sierva María foi esquecida em meio à abrasão da cal viva, aos vapores do alcatrão, ao suplício das marteladas e às blasfêmias tonitruantes das pessoas de todo tipo que invadiram a casa até a clausura. Um andaime caiu com um estrépito colossal, um pedreiro morreu e sete outros operários ficaram feridos. A abadessa atribuiu o desastre aos fados maléficos de Sierva María e aproveitou a nova oportunidade para insistir que a mandassem para outro convento enquanto transcorria o jubileu. Dessa vez, o argumento principal foi que a vizinhança de uma possessa não era recomendável para a vice-rainha. O bispo não deu resposta.
Dom Rodrigo de Buen Lozano era um asturiano maduro e bem-apessoado, campeão de pelota basca e de tiro à perdiz, que compensava com seus encantos os vinte e dois anos a mais sobre a esposa. Ria com todo o corpo, até de si mesmo, e não perdia ocasião de demonstrá-lo.
Desde que sentiu as primeiras brisas do Caribe, misturadas com tambores noturnos e cheiros de goiabas maduras, tirou as vestes primaveris e andava de peito de fora por entre as rodas das senhoras. Desembarcou em mangas de camisa, sem discursos nem barulheira de bombardas. Em sua homenagem se autorizaram fandangos, folguedos e cumbés, embora proibidos pelo bispo, em como corridas de touros e brigas de galo em campo raso.
A vice-rainha era quase adolescente, ativa e um tanto rebelde, e irrompeu no convento como um vendaval de novidade. Não houve canto em que não se metesse, nem problema de que não entendesse, nem nada de bom que não quisesse melhorar. Ao percorrer o convento, queria resolver tudo com a facilidade de uma principiante. Assim, a abadessa considerou prudente poupar-lhe a má impressão do cárcere.
Não vale a pena — disse. — Só há duas presas, e uma está possuída pelo demônio.
Bastou dizê-lo para despertar o interesse da vice-rainha. Pouco lhe importou que as celas não tivessem sido preparadas nem as presas advertidas. Apenas abriram a porta, Martina Laborde se atirou a seus pés com uma súplica de perdão.
Não parecia fácil, depois de uma fuga frustrada e outra conseguida.
Tentara a primeira seis anos antes, pelo terraço do mar, com outras três freiras condenadas por diferentes causas a diversas penas. Uma conseguiu fugir. Foi então que pregaram as janelas e fortificaram o pátio debaixo do terraço. No ano seguinte, as três restantes amarraram a guardiã, que na época dormia no pavilhão, e escaparam por uma porta de serviço. A família de Martina, de acordo com seu confessor, devolveu-a ao convento. Durante quatro longos anos, continuou sendo a única presa sem direito a visitas no parlatório nem à missa de domingo na capela. De modo que o perdão parecia impossível.
Contudo, a vice-rainha ficou de interceder junto ao marido.
Na cela de Sierva María, o ar ainda estava áspero por causa da cal viva e do ranço do alcatrão, mas havia uma ordem nova. Mal a guardiã abriu a porta, a vice-rainha se sentiu enfeitiçada por um sopro glacial. Sierva María estava sentada, a bata puída e os chinelos sujos, e costurava devagar num canto iluminado por sua própria luz. Não ergueu os olhos até que a vice-rainha a cumprimentou. Logo percebeu no olhar da menina a força irresistível de uma revelação.
Santíssimo Sacramento — murmurou, dando um passo para dentro da cela.
Cuidado — disse-lhe a abadessa ao ouvido. É como uma onça.
Agarrou-a pelo braço. A vice-rainha não entrou, mas bastou-lhe ver Sierva María para formar o propósito de redimi-la.
O governador da cidade, que era solteiro e mulherengo, ofereceu ao vice-rei um almoço só para homens. O quarteto de cordas espanhol tocou, tocou um conjunto de gaitas e tambores de San Jacinto, fizeram-se danças públicas e mogigangas de negros que eram parodias descaradas dos bailes de brancos. No final, abriu-se uma cortina no fundo da sala e apareceu a escrava abissínia que o governador tinha comprado por seu peso em ouro. Vestia uma túnica quase transparente que aumentava o perigo de sua nudez. Depois de se exibir de perto aos convidados comuns, parou diante do vice-rei e a túnica resvalou pelo seu corpo até os pés.
Sua perfeição era alarmante. A espádua não tinha sido profanada pelo ferro em brasa do traficante, nem as costas pela inicial do primeiro dono, e toda ela exalava um hálito confidencial O vice-rei empalideceu, tomou fôlego e com um gesto de mão apagou da memória a visão insuportável.
Levem-na, pelo amor de Deus — ordenou. Não quero mais vê-la pelo resto de meus dias.
Talvez como represália à fraqueza do governador, a vice-rainha apresentou Sierva María na ceia que a abadessa lhes ofereceu em seu refeitório privado. Martina Laborde prevenira que ela se comportaria bem desde que não tentassem lhe tirar os colares e as pulseiras. Assim aconteceu. Puseram nela o vestido da avó com que chegou ao convento, lavaram e pentearam a cabeleira, solta para que melhor a arrastasse, e a própria vice-rainha a levou pela mão à mesa do marido. Até a abadessa ficou espantada com sua graça, sua luz pessoal e o prodígio da cabeleira. A vice-rainha cochichou ao ouvido do esposo: — Está possuída pelo demônio.
O vice-rei não quis acreditar. Tinha visto em Burgos uma energúmena que defecou sem parar durante uma noite inteira até o quarto transbordar. Na intenção de poupar a Sierva María um destino semelhante, recomendou-a aos seus médicos. Estes confirmaram a ausência de sintomas de raiva e concordaram com Abrenuncio em que já não era provável que contraísse o mal. Entretanto, ninguém se julgou autorizado a duvidar de que estivesse possuída pelo demônio.
O bispo aproveitou a festa para refletir sobre o memorial da abadessa e a situação final de Sierva María. Cayetano Delaura, por sua parte, tentou a purificação anterior ao exorcismo e fechou-se a bolo de aipim e água na biblioteca. Não conseguiu. Passou noites de delírio e dias em vigília escrevendo versos descomedidos que eram o seu único sedativo para as ânsias do corpo.
Alguns desses poemas foram achados num maço quase indecifrável quando a biblioteca foi desmantelada perto de um século depois. No primeiro, o único legível por completo, ele se recordava aos doze anos, sentado no seu baú escolar sob um tênue chuvisco de primavera, no pátio empedrado do seminário de Ávila. Acabara de chegar de Toledo, depois de uma viagem de dias em lombo de mula, com uma roupa do pai cortada à sua medida, e com aquele baú que pesava duas vezes mais que ele, porque sua mãe tinha posto dentro tudo o que lhe fosse fazer falta para sobreviver com honra até o fim do noviciado. O porteiro ajudou a colocá-lo, no centro do pátio, e ali abandonou o menino à sua sorte debaixo do chuvisco.
Leva-o ao terceiro andar — disse. — Lá te mostrarão o teu lugar no dormitório.
Num instante, o seminário em peso se comprimia nas sacadas do pátio, pendente do que ele iria fazer com o baú, como protagonista único de uma peça de teatro que só ele ignorava. Quando percebeu que não contava com ninguém, tirou do baú as coisas que podia levar nos braços e subiu com elas até o terceiro andar pelas escadas empinadas de pedra viva. O assistente indicou o seu lugar nas duas filas de leitos do dormitório de noviços. Cayetano pôs suas coisas em cima da cama, voltou ao pátio e subiu quatro vezes mais até terminar. Por último, agarrou pela alça o baú vazio e arrastou-o escadas acima.
Os professores e alunos que o viam das sacadas não se viravam para olhá-lo quando ele passava em cada andar. Mas o padre reitor esperou no patamar do terceiro quando ele subiu com o baú, e deu início aos aplausos. Os demais o imitaram com uma ovação. Cayetano soube então que tinha se saído com perfeição no primeiro rito de iniciação do seminário, que consistia em subir com o baú até o dormitório sem perguntar nada e sem ajuda de ninguém. A rapidez de sua inteligência, sua boa índole e a têmpera de seu caráter foram proclamadas como exemplo para o noviciado.
Entretanto, a recordação que mais havia de marcá-lo foi sua conversa daquela noite no escritório do reitor. Fora chamado por causa do único livro que encontraram em seu baú, desmanchado, incompleto e sem capa, tal como o apanhara por acaso numa gaveta do pai. Tinha-o lido até onde pôde nas noites da viagem e estava ansioso para conhecer o fim. O padre reitor queria saber sua opinião.
Saberei quando acabar de ler — disse ele.
Com um sorriso de alívio, o reitor guardou o livro debaixo de chave.
Pois não saberás nunca — disse, — É um livro proibido.
Vinte e quatro anos depois, na umbrosa biblioteca do bispado, deu-se conta de que tinha lido quantos livros passaram por suas mãos, autorizados ou não, menos aquele. Estremeceu à sensação de que toda uma vida terminava naquele dia. Outra, imprevisível, principiava.
Começava suas orações da tarde, no oitavo dia de jejum, quando lhe anunciaram que o bispo o esperava na sala para receber o vice-rei. Era uma visita inopinada, mesmo para o vice-rei, a quem a ideia veio de repente, durante o seu primeiro passeio pela cidade. Ficou olhando do terraço florido para os telhados, enquanto eram chamados às pressas os funcionários mais próximos e punha-se um pouco de ordem na sala.
O bispo o recebeu com seis sacerdotes do seu estado-maior. À sua direita tomou assento Cayetano Delaura, apresentado com seu nome completo e sem mais qualquer título. Antes de começar a conversa, o vice-rei examinou com um olhar de comiseração as paredes descascadas, as cortinas rasgadas, os móveis artesanais baratos, os padres empapados de suor dentro de seus hábitos indigentes. O bispo, atingido no seu orgulho, disse: "Somos filhos de José, o carpinteiro." O vice-rei fez um gesto de compreensão e se entregou a um relato de suas impressões da primeira semana. Falou sobre seus planos ilusórios para incrementar o comércio com as Antilhas inglesas, uma vez curadas as feridas da guerra; sobre as vantagens da intervenção oficial na educação, sobre os estímulos às artes e às letras para colocar estes subúrbios coloniais no nível do mundo.
Os tempos são de renovação — disse.
[...]

Gabriel Garcia Márquez, em Do Amor e Outros Demônios