01/11/2025

Do Amor e Outros Demônios | Capítulo Quatro



O padre Cayetano Delaura foi convidado pelo bispo a esperar o eclipse debaixo da pérgula de campânulas amarelas, o único lugar da casa que dominava o céu do mar. Os alcatrazes imóveis no ar com as asas abertas pareciam mortos em pleno vôo. O bispo se abanava devagar numa rede pendurada em duas forquilhas com cabrestantes de navio, onde acabava de fazer a sesta. Delaura se balançava a seu lado numa cadeira de balanço de vime. Ambos se achavam em estado de graça, tomando refresco de tamarindo e contemplando por cima dos telhados o vasto céu sem nuvens. Pouco depois das duas começou a escurecer, as galinhas se recolheram nos poleiros e todas as estrelas se acenderam, ao mesmo tempo. Um calafrio sobrenatural estremeceu o mundo. O bispo ouviu o ruflar de asas das pombas atrasadas que buscavam os pombais em vôo cego.
Deus é grande — suspirou. — Até os animais sentem.
A freira de turno levou-lhe um candeeiro e uns vidros enegrecidos para olhar o sol. O bispo se soergueu na rede e começou a observar o eclipse através do cristal.
Deve-se olhar com um olho só — disse, procurando dominar o assobio de sua respiração. — Se não, corre-se o risco de perder ambos.
Delaura ficou com o vidro na mão, sem olhar o eclipse. Ao fim de um longo período, o bispo o localizou no escuro e viu seus olhos fosforescentes por completo alheios aos sortilégios da falsa noite. Em que pensas? — perguntou.
Delaura não respondeu. Viu o sol como uma lua minguante que lhe feriu a retina apesar do vidro escuro. Mas não deixou de olhar.
Continuas pensando na menina — disse o bispo.
Cayetano teve um sobressalto, embora o bispo fosse dado àqueles acertos com mais frequência do que seria natural.
Estava pensando que o vulgo pode relacionar seus males com este eclipse — disse. O bispo sacudiu a cabeça sem afastar a vista do céu.
E quem sabe se não têm razão — disse. — As cartas do baralho do Senhor não são fáceis de ler.
Este fenômeno foi calculado há milênios pelos astrônomos assirios — disse Delaura.
É uma resposta de jesuíta — disse o bispo.
Cayetano continuou a olhar o sol sem o vidro, por simples distração.
Às duas e doze, parecia um disco negro, perfeito, e por um instante foi meia noite em pleno dia. Breve, o eclipse recobrou sua condição terrena, e os galos do amanhecer começaram a cantar. Quando Delaura deixou de olhar, a medalha de fogo persistia em sua retina.
Continuo vendo o eclipse — disse, brincalhão. — Para onde quer que se olhe, lá está ele.
O bispo deu o espetáculo por terminado.
Daqui a algumas horas desaparece — disse. Estirou-se sentado na rede, bocejou e deu graças a Deus pelo novo dia.
Delaura não tinha perdido o fio.
Com todo o respeito, meu pai — disse —, não creio que essa criatura esteja possessa.
Dessa vez o bispo se alarmou de verdade.
Por que o dizes? — Acho que está só aterrorizada — disse o padre.
Temos provas de sobra — disse o bispo. — Ou será que não lês as atas? Sim, Delaura havia estudado a fundo as atas, e achava que eram mais úteis para conhecer a mentalidade da abadessa que o estado de Sierva María. Tinham exorcizado os lugares onde ela estivera na manhã de sua chegada, e tudo quanto tocara. As pessoas que estiveram em contato com ela foram submetidas a abstinências e depurações. A noviça que lhe roubou o anel no primeiro dia foi condenada a trabalhos forçados na horta. Diziam que a menina se deleitara esquartejando um cabrito que degolou com as próprias mãos, e comeu os testículos e os olhos temperados como fogo vivo. Dominava uma porção de línguas, o que lhe permitia entender-se com os africanos de qualquer nação, melhor que eles mesmos entre si, ou com os bichos de qualquer espécie. No dia seguinte à sua chegada, as onze araras cativas que enfeitavam o jardim havia vinte anos apareceram mortas sem motivo.
Tinha encantado a criadagem com canções demoníacas, que cantava com voz diferente da sua. Quando soube que a abadessa a procurara, tornou-se invisível só para ela.
Apesar de tudo — disse Delaura —, creio que o que nos parece demoníaco são costumes dos negros, que a menina aprendeu por causa do abandono em que os pais a deixaram.
Cuidado! — alertou o bispo. — O Inimigo se aproveita melhor de nossas inteligências que de nossos erros.
Pois o melhor presente para ele seria que exorcizássemos uma pessoa sã — disse Delaura.
O bispo se encrespou.
Devo entender que estás em rebeldia? — Deve entender que mantenho minhas dúvidas, meu pai — disse Delaura. — Mas obedeço com toda humildade.
Assim, voltou ao convento sem convencer o bispo. Trazia no olho esquerdo um parche de caolho que seu médico lhe tinha posto enquanto não se apagava o sol impresso na retina. Sentiu os olhares que o seguiam ao longo do jardim e dos sucessivos corredores até o prédio da prisão, mas ninguém lhe dirigiu a palavra. Em todo o ambiente havia uma convalescença do eclipse.
Quando a guardiã abriu a cela de Sierva María, Delaura sentiu que o seu coração rebentava dentro do peito. Mal se aguentava em pé.
Só para sondar o humor da menina, perguntou-lhe se tinha visto o eclipse. Sim, tinha-o visto do terraço. Não entendeu que ele levasse um pano no olho, se ela olhara o sol sem proteção e estava bem.
Contou que as freiras tinham visto o eclipse ajoelhadas e que todo o convento tinha parado até que os galos começaram a cantar. Mas ela não achara aquilo nada do outro mundo.
O que vi é o que se vê todas as noites — disse.
Havia mudado nela alguma coisa que Delaura não era capaz de precisar, e cujo sintoma mais visível era uma ponta de tristeza. Não se enganou. Mal começaram os curativos, a menina fixou nele uns olhos aflitos e falou com voz trêmula: — Vou morrer.
Delaura estremeceu.
Quem disse isso? Martina — disse a menina. Viste-a? A menina contou que ela havia aparecido duas vezes em sua cela para ensiná-la a bordar, e que tinham visto juntas o eclipse. Falou que era boa e suave, e que a abadessa permitira que desse aulas de bordado no terraço para ver o pôr-do-sol no mar.
Ali, sim — disse ele, sem pestanejar. — E disse quando vais morrer? A menina concordou com os lábios apertados para não chorar.
Depois do eclipse.
Depois do eclipse podem ser os próximos cem anos — disse Delaura.
Mas teve de concentrar-se nos curativos para que ela não notasse que tinha um nó na garganta. Sierva María não disse mais nada. Ele tornou a fitá-la, intrigado com o seu silêncio, e viu que tinha os olhos cheios d'água.
Estou com medo — disse ela.
Jogou-se na cama e desatou num pranto dolorido. Ele se sentou mais próximo e consolou-a com paliativos de confessor. Só então Sierva María soube que Cayetano era o seu exorcista e não médico.
Então por que me cura? — perguntou.
Me falou com voz trêmula — Porque gosto muito de ti.
Ela não se mostrou sensível à audácia.
De saída, Delaura assomou à cela de Martina. Pela primeira vez de perto, viu que tinha a pele com marcas de varíola, o crânio pelado, o nariz grande demais, e dentes de ratazana, mas seu poder de sedução era um fluido material que logo se sentia. Delaura preferiu conversar do umbral.
Essa pobre menina já tem motivos demais para estar assustada — disse. — Peço-lhe que não os aumente.
Martina ficou desconcertada. Nunca lhe havia ocorrido prognosticar o dia da morte de ninguém, e muito menos para uma menina tão encantadora e indefesa. Só tinha perguntado pelo seu estado de saúde e com três ou quatro respostas viu que ela mentia por vício. A seriedade com que Martina falou foi bastante para Delaura compreender que Sierva María havia mentido também a ele. Desculpou-se pela precipitação e pediu que não fizesse nada capaz de magoar a menina.
Eu sempre hei de saber bem o que faço concluiu.
Martina o envolveu com seu feitiço.
Sei quem é Vossa Reverência — disse. — E sei que sempre sabe muito bem o que faz.
Mas Delaura tinha uma asa ferida, por comprovar que Sierva María não precisara da ajuda de ninguém para incubar na solidão de sua cela o pânico da morte.
No decorrer daquela semana, madre Josefa Miranda mandou ao bispo um memorial de queixas e reclamações, escrito do próprio punho. Pedia que poupasse às clarissas a tutela de Sierva María, que considerava um castigo tardio por culpas já purgadas de sobra. Enumerava uma nova lista de acontecimentos fenomenais incorporados às atas, e só explicáveis por um contubérnio, desenfreado da menina com o demo. O final era uma denúncia indignada da prepotência de Cayetano Delaura, de sua liberdade de pensamento e ojeriza pessoal contra ela, e do abuso de levar comida para o convento, contra as proibições do regulamento.
O bispo mostrou o memorial a Delaura logo que este voltou a casa. Ele o leu de pé, sem mover um músculo da face. Acabou enfurecido.
Se alguém está possuído por todos os demônios é Josefa Miranda — disse. — Demônios de rancor, de intolerância, de imbecilidade. É detestável! O bispo se admirou de sua violência. Delaura notou e procurou explicar-se num tom tranquilo.
Quero dizer que ela atribui tantos poderes às forças do mal que mais parece devota do demônio.
Minha investidura não permite estar de acordo contigo -disse o bispo. — Mas gostaria de estar.
Repreendeu-o por qualquer excesso que tivesse podido cometer e pediu paciência para aguentar o gênio aziago da abadessa.
Os Evangelhos estão cheios de mulheres iguais a ela, e com defeitos piores ainda — disse. E no entanto Jesus Cristo as elogiou.
Não pôde prosseguir, porque uma trovoada retumbou na casa e saiu rolando pelo mar, e um aguaceiro bíblico os afastou do resto do mundo.
O bispo estendeu-se na cadeira de balanço e naufragou na nostalgia.
Como estamos longe! — suspirou. De quê? — De nós mesmos -— disse o bispo. — Achas justo que alguém precise de um ano para saber que é órfão? — E, à falta de resposta, desabafou a sua saudade: — Fico aterrorizado só à ideia de saber que na Espanha já tenham dormido esta noite.
Não podemos interferir na rotação da Terra — disse Delaura.
Mas poderíamos ignorá-la, para que não nos doa — disse o bispo.
Mais que fé, o que faltava a Galileu era coração.
Delaura conhecia aquelas crises que angustiavam o bispo em suas noites de chuvas tristes, desde que a velhice o tomara de assalto. A única coisa que podia fazer era distraí-lo de suas biles negras até que o sono o vencesse.
Ao fim do mês anunciou-se por édito a próxima chegada do novo vice-rei, dom Rodrigo de Buen Lozano, de passagem para sua sede de Santa Fé. Vinha com um séquito de ouvidores e funcionários, criados e médicos pessoais, além de um quarteto de cordas com que a rainha o presenteara para suportar os tédios das índias. A vice-rainha, que tinha algum parentesco com a abadessa, pedira que o alojassem no convento.
Sierva María foi esquecida em meio à abrasão da cal viva, aos vapores do alcatrão, ao suplício das marteladas e às blasfêmias tonitruantes das pessoas de todo tipo que invadiram a casa até a clausura. Um andaime caiu com um estrépito colossal, um pedreiro morreu e sete outros operários ficaram feridos. A abadessa atribuiu o desastre aos fados maléficos de Sierva María e aproveitou a nova oportunidade para insistir que a mandassem para outro convento enquanto transcorria o jubileu. Dessa vez, o argumento principal foi que a vizinhança de uma possessa não era recomendável para a vice-rainha. O bispo não deu resposta.
Dom Rodrigo de Buen Lozano era um asturiano maduro e bem-apessoado, campeão de pelota basca e de tiro à perdiz, que compensava com seus encantos os vinte e dois anos a mais sobre a esposa. Ria com todo o corpo, até de si mesmo, e não perdia ocasião de demonstrá-lo.
Desde que sentiu as primeiras brisas do Caribe, misturadas com tambores noturnos e cheiros de goiabas maduras, tirou as vestes primaveris e andava de peito de fora por entre as rodas das senhoras. Desembarcou em mangas de camisa, sem discursos nem barulheira de bombardas. Em sua homenagem se autorizaram fandangos, folguedos e cumbés, embora proibidos pelo bispo, em como corridas de touros e brigas de galo em campo raso.
A vice-rainha era quase adolescente, ativa e um tanto rebelde, e irrompeu no convento como um vendaval de novidade. Não houve canto em que não se metesse, nem problema de que não entendesse, nem nada de bom que não quisesse melhorar. Ao percorrer o convento, queria resolver tudo com a facilidade de uma principiante. Assim, a abadessa considerou prudente poupar-lhe a má impressão do cárcere.
Não vale a pena — disse. — Só há duas presas, e uma está possuída pelo demônio.
Bastou dizê-lo para despertar o interesse da vice-rainha. Pouco lhe importou que as celas não tivessem sido preparadas nem as presas advertidas. Apenas abriram a porta, Martina Laborde se atirou a seus pés com uma súplica de perdão.
Não parecia fácil, depois de uma fuga frustrada e outra conseguida.
Tentara a primeira seis anos antes, pelo terraço do mar, com outras três freiras condenadas por diferentes causas a diversas penas. Uma conseguiu fugir. Foi então que pregaram as janelas e fortificaram o pátio debaixo do terraço. No ano seguinte, as três restantes amarraram a guardiã, que na época dormia no pavilhão, e escaparam por uma porta de serviço. A família de Martina, de acordo com seu confessor, devolveu-a ao convento. Durante quatro longos anos, continuou sendo a única presa sem direito a visitas no parlatório nem à missa de domingo na capela. De modo que o perdão parecia impossível.
Contudo, a vice-rainha ficou de interceder junto ao marido.
Na cela de Sierva María, o ar ainda estava áspero por causa da cal viva e do ranço do alcatrão, mas havia uma ordem nova. Mal a guardiã abriu a porta, a vice-rainha se sentiu enfeitiçada por um sopro glacial. Sierva María estava sentada, a bata puída e os chinelos sujos, e costurava devagar num canto iluminado por sua própria luz. Não ergueu os olhos até que a vice-rainha a cumprimentou. Logo percebeu no olhar da menina a força irresistível de uma revelação.
Santíssimo Sacramento — murmurou, dando um passo para dentro da cela.
Cuidado — disse-lhe a abadessa ao ouvido. É como uma onça.
Agarrou-a pelo braço. A vice-rainha não entrou, mas bastou-lhe ver Sierva María para formar o propósito de redimi-la.
O governador da cidade, que era solteiro e mulherengo, ofereceu ao vice-rei um almoço só para homens. O quarteto de cordas espanhol tocou, tocou um conjunto de gaitas e tambores de San Jacinto, fizeram-se danças públicas e mogigangas de negros que eram parodias descaradas dos bailes de brancos. No final, abriu-se uma cortina no fundo da sala e apareceu a escrava abissínia que o governador tinha comprado por seu peso em ouro. Vestia uma túnica quase transparente que aumentava o perigo de sua nudez. Depois de se exibir de perto aos convidados comuns, parou diante do vice-rei e a túnica resvalou pelo seu corpo até os pés.
Sua perfeição era alarmante. A espádua não tinha sido profanada pelo ferro em brasa do traficante, nem as costas pela inicial do primeiro dono, e toda ela exalava um hálito confidencial O vice-rei empalideceu, tomou fôlego e com um gesto de mão apagou da memória a visão insuportável.
Levem-na, pelo amor de Deus — ordenou. Não quero mais vê-la pelo resto de meus dias.
Talvez como represália à fraqueza do governador, a vice-rainha apresentou Sierva María na ceia que a abadessa lhes ofereceu em seu refeitório privado. Martina Laborde prevenira que ela se comportaria bem desde que não tentassem lhe tirar os colares e as pulseiras. Assim aconteceu. Puseram nela o vestido da avó com que chegou ao convento, lavaram e pentearam a cabeleira, solta para que melhor a arrastasse, e a própria vice-rainha a levou pela mão à mesa do marido. Até a abadessa ficou espantada com sua graça, sua luz pessoal e o prodígio da cabeleira. A vice-rainha cochichou ao ouvido do esposo: — Está possuída pelo demônio.
O vice-rei não quis acreditar. Tinha visto em Burgos uma energúmena que defecou sem parar durante uma noite inteira até o quarto transbordar. Na intenção de poupar a Sierva María um destino semelhante, recomendou-a aos seus médicos. Estes confirmaram a ausência de sintomas de raiva e concordaram com Abrenuncio em que já não era provável que contraísse o mal. Entretanto, ninguém se julgou autorizado a duvidar de que estivesse possuída pelo demônio.
O bispo aproveitou a festa para refletir sobre o memorial da abadessa e a situação final de Sierva María. Cayetano Delaura, por sua parte, tentou a purificação anterior ao exorcismo e fechou-se a bolo de aipim e água na biblioteca. Não conseguiu. Passou noites de delírio e dias em vigília escrevendo versos descomedidos que eram o seu único sedativo para as ânsias do corpo.
Alguns desses poemas foram achados num maço quase indecifrável quando a biblioteca foi desmantelada perto de um século depois. No primeiro, o único legível por completo, ele se recordava aos doze anos, sentado no seu baú escolar sob um tênue chuvisco de primavera, no pátio empedrado do seminário de Ávila. Acabara de chegar de Toledo, depois de uma viagem de dias em lombo de mula, com uma roupa do pai cortada à sua medida, e com aquele baú que pesava duas vezes mais que ele, porque sua mãe tinha posto dentro tudo o que lhe fosse fazer falta para sobreviver com honra até o fim do noviciado. O porteiro ajudou a colocá-lo, no centro do pátio, e ali abandonou o menino à sua sorte debaixo do chuvisco.
Leva-o ao terceiro andar — disse. — Lá te mostrarão o teu lugar no dormitório.
Num instante, o seminário em peso se comprimia nas sacadas do pátio, pendente do que ele iria fazer com o baú, como protagonista único de uma peça de teatro que só ele ignorava. Quando percebeu que não contava com ninguém, tirou do baú as coisas que podia levar nos braços e subiu com elas até o terceiro andar pelas escadas empinadas de pedra viva. O assistente indicou o seu lugar nas duas filas de leitos do dormitório de noviços. Cayetano pôs suas coisas em cima da cama, voltou ao pátio e subiu quatro vezes mais até terminar. Por último, agarrou pela alça o baú vazio e arrastou-o escadas acima.
Os professores e alunos que o viam das sacadas não se viravam para olhá-lo quando ele passava em cada andar. Mas o padre reitor esperou no patamar do terceiro quando ele subiu com o baú, e deu início aos aplausos. Os demais o imitaram com uma ovação. Cayetano soube então que tinha se saído com perfeição no primeiro rito de iniciação do seminário, que consistia em subir com o baú até o dormitório sem perguntar nada e sem ajuda de ninguém. A rapidez de sua inteligência, sua boa índole e a têmpera de seu caráter foram proclamadas como exemplo para o noviciado.
Entretanto, a recordação que mais havia de marcá-lo foi sua conversa daquela noite no escritório do reitor. Fora chamado por causa do único livro que encontraram em seu baú, desmanchado, incompleto e sem capa, tal como o apanhara por acaso numa gaveta do pai. Tinha-o lido até onde pôde nas noites da viagem e estava ansioso para conhecer o fim. O padre reitor queria saber sua opinião.
Saberei quando acabar de ler — disse ele.
Com um sorriso de alívio, o reitor guardou o livro debaixo de chave.
Pois não saberás nunca — disse, — É um livro proibido.
Vinte e quatro anos depois, na umbrosa biblioteca do bispado, deu-se conta de que tinha lido quantos livros passaram por suas mãos, autorizados ou não, menos aquele. Estremeceu à sensação de que toda uma vida terminava naquele dia. Outra, imprevisível, principiava.
Começava suas orações da tarde, no oitavo dia de jejum, quando lhe anunciaram que o bispo o esperava na sala para receber o vice-rei. Era uma visita inopinada, mesmo para o vice-rei, a quem a ideia veio de repente, durante o seu primeiro passeio pela cidade. Ficou olhando do terraço florido para os telhados, enquanto eram chamados às pressas os funcionários mais próximos e punha-se um pouco de ordem na sala.
O bispo o recebeu com seis sacerdotes do seu estado-maior. À sua direita tomou assento Cayetano Delaura, apresentado com seu nome completo e sem mais qualquer título. Antes de começar a conversa, o vice-rei examinou com um olhar de comiseração as paredes descascadas, as cortinas rasgadas, os móveis artesanais baratos, os padres empapados de suor dentro de seus hábitos indigentes. O bispo, atingido no seu orgulho, disse: "Somos filhos de José, o carpinteiro." O vice-rei fez um gesto de compreensão e se entregou a um relato de suas impressões da primeira semana. Falou sobre seus planos ilusórios para incrementar o comércio com as Antilhas inglesas, uma vez curadas as feridas da guerra; sobre as vantagens da intervenção oficial na educação, sobre os estímulos às artes e às letras para colocar estes subúrbios coloniais no nível do mundo.
Os tempos são de renovação — disse.
[...]

Gabriel Garcia Márquez, em Do Amor e Outros Demônios

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