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02/02/2024

Entre irmãos

O menino sentado à minha frente é meu irmão, assim me disseram; e bem pode ser verdade, ele regula pelos dezessete anos, justamente o tempo que estive solto no mundo, sem contato nem notícia. Quanta coisa muda em dezessete anos, até os nossos sentimentos, e quanta coisa acontece — um menino nasce, cresce e fica quase homem e de repente nos olha na cara e temos que abrir lugar para ele em nosso mundo, e com urgência porque ele não pode mais ficar de fora.
A princípio quero tratá-lo como intruso, mostrar-lhe a minha hostilidade, não abertamente para não chocá-lo, mas de maneira a não lhe deixar dúvida, como se lhe perguntasse com todas as letras: que direito tem você de estar aqui na intimidade de minha família, entrando nos nossos segredos mais íntimos, dormindo na cama onde eu dormi, lendo meus velhos livros, talvez sorrindo das minhas anotações à margem, tratando meu pai com intimidade, talvez discutindo a minha conduta, talvez até criticando-a? Mas depois vou notando que ele não é totalmente estranho, as orelhas muito afastadas da cabeça não são diferentes das minhas, o seu sorriso tem um traço de sarcasmo que eu conheço muito bem de olhar-me ao espelho, o seu jeito de sentar-se de lado e cruzar as pernas tem impressionante semelhança com o meu pai. De repente fere-me a ideia de que o intruso talvez seja eu, que ele tenha mais direito de hostilizar-me do que eu a ele, que vive nesta casa há dezessete anos, sem a ter pedido ele aceitou e fez dela o seu lar, estabeleceu intimidade com o espaço e com os objetos, amansou o ambiente a seu modo, criou as suas preferências e as suas antipatias, e agora eu caio aí de repente desarticulando tudo com minhas vibrações de onda diferente. O intruso sou eu, não ele.
Ao pensar nisso vem-me o desejo urgente de entendê-lo e de ficar amigo, de derrubar todas as barreiras, de abrir-lhe o meu mundo e de entrar no dele. Faço-lhe perguntas e noto a sua avidez em respondê-las, mas logo vejo a inutilidade de prosseguir nesse caminho, as perguntas parecem-me formais e as respostas forçadas e complacentes. Há um silêncio incômodo, eu olho os pés dele, noto os sapatos bastante usados, os solados revirando-se nas beiradas, as rachaduras do couro como mapa de rios em miniatura, a poeira acumulada nas fendas. Se não fosse o receio de parecer fútil eu perguntaria se ele tem outro sapato mais conservado, se gostaria que lhe oferecesse um novo, e uma roupa nova para combinar. Mas seria esse o caminho para chegar a ele? Não seria um caminho simples demais, e por conseguinte inadequado?
Tenho tanta coisa a dizer, mas não sei como começar, até a minha voz parece ter perdido a naturalidade, sinto que não a governo, eu mesmo me aborreço ao ouvi-la. Ele me olha, e vejo que está me examinando, procurando decidir se devo ser tratado como irmão ou como estranho, e imagino que as suas dificuldades não devem ser menores do que as minhas. Ele me pergunta se eu moro numa casa grande, com muitos quartos, e antes de responder procuro descobrir o motivo da pergunta. Por que falar em casa? E qual a importância de muitos quartos? Causarei inveja nele se responder que sim? Não, não tenho casa, há muito tempo que tenho morado em hotel. Ele me olha parece que fascinado, diz que deve ser bom viver em hotel, e conta que toda vez que faz reparos à comida mamãe diz que ele deve ir para um hotel, onde pode reclamar e exigir. De repente o fascínio se transforma em alarme, e ele observa que se eu vivo em hotel não posso ter um cão em minha companhia, o jornal disse uma vez que um homem foi processado por ter um cão em um quarto de hotel. Não me sinto atingido pela proibição, se é que existe, nunca pensei em ter um cão, não resistiria me separar dele quando tivesse que arrumar as malas, como estou sempre fazendo; mas devo dizer-lhe isso e provocar nele uma pena que eu mesmo não sinto? Confirmo a proibição e exagero a vigilância nos hotéis. Ele suspira e diz que então não viveria num hotel nem de graça.
Ficamos novamente calados e eu procuro imaginar como será ele quando está com seus amigos, quais os seus assuntos favoritos, o timbre de sua risada quando ele está feliz e despreocupado, a fluência de sua voz quando ele pode falar sem ter que vigiar as palavras. O telefone toca lá dentro e eu fico desejando que o chamado seja para um de nós, assim teremos um bom pretexto para interromper a conversa sem ter que inventar uma desculpa; mas passa-se muito tempo e perco a esperança, o telefone já deve até ter sido desligado. Ele também parece interessado no telefone, mas disfarça muito bem a impaciência. Agora ele está olhando pela janela, com certeza desejando que passe algum amigo ou conhecido que o salve do martírio, mas o sol está muito quente e ninguém quer sair à rua a essa hora do dia. Embaixo na esquina um homem afia facas, escuto o gemido fino da lâmina no rebolo e sinto mais calor ainda. Quando eu era menino tive uma faca que troquei por um projetor de cinema feito por mim mesmo — uma caixa de sapato dividida ao meio, um buraquinho quadrado, uma lente de óculos — e passava horas à beira do rego afiando a faca, servia para descascar cana e laranja. Vale a pena dizer-lhe isso ou será muita infantilidade, considerando que ele está com dezessete anos e eu tinha uns dez naquele tempo? É melhor não dizer, só o que é espontâneo interessa, e a simples hesitação já estraga a espontaneidade.
Uma mulher entra na sala, reconheço nela uma de nossas vizinhas, entra com o ar de quem vem pedir alguma coisa urgente. Levanto-me de um pulo para me oferecer; ela diz que não sabia que estávamos conversando, promete não nos interromper, pede desculpa e desaparece. Não sei se consegui disfarçar um suspiro, detesto aquela consideração fora de hora, e sou capaz de jurar que meu irmão também pensa assim. Olhamo-nos novamente já em franco desespero, compreendemos que somos prisioneiros um do outro, mas compreendemos também que nada podemos fazer para nos libertar. Ele diz qualquer coisa a respeito do tempo, eu acho a observação tão desnecessária — e idiota — que nem me dou ao trabalho de responder.
Francamente já não sei o que fazer, a minha experiência não me socorre, não sei como fugir daquela sala, dos retratos da parede, do velho espelho embaciado que reflete uma estampa do Sagrado Coração, do assoalho de tábuas empenadas formando ondas. Esforço-me com tanta veemência que a consciência do esforço me amarra cada vez mais àquelas quatro paredes. Só uma catástrofe nos salvaria, e eu desejo intensamente um terremoto ou um incêndio, mas infelizmente essas coisas não acontecem por encomenda. Sinto o suor escorrendo frio por dentro da camisa e tenho vontade de sair dali correndo, mas como poderei fazê-lo sem perder para sempre alguma coisa muito importante, e como explicar depois a minha conduta quando eu puder examiná-la de longe e ver o quanto fui inepto? Não, basta de fugas, preciso ficar aqui sentado e purgar o meu erro.
A porta abre-se abruptamente e a vizinha entra de novo apertando as mãos no peito, olha alternadamente para um e outro de nós e diz, numa voz que mal escuto: — Sua mãe está pedindo um padre.
Levantamos os dois de um pulo, dando graças a Deus — que ele nos perdoe — pela oportunidade de escaparmos daquela câmara de suplício.

José J. Veiga, in Os cavalinhos de Platiplanto

04/07/2020

A máquina extraviada


Você sempre pergunta pelas novidades daqui deste sertão, e finalmente posso lhe contar uma importante. Fique o compadre sabendo que agora temos aqui uma máquina imponente, que está entusiasmando todo o mundo. Desde que ela chegou — não me lembro quando, não sou muito bom em lembrar datas — quase não temos falado em outra coisa; e da maneira que o povo aqui se apaixona até pelos assuntos mais infantis, é de admirar que ninguém tenha brigado ainda por causa dela, a não ser os políticos.
A máquina chegou uma tarde, quando as famílias estavam jantando ou acabando de jantar, e foi descarregada na frente da Prefeitura. Com os gritos dos choferes e seus ajudantes (a máquina veio em dois ou três caminhões) muita gente cancelou a sobremesa ou o café e foi ver que algazarra era aquela. Como geralmente acontece nessas ocasiões, os homens estavam mal-humorados e não quiseram dar explicações, esbarravam propositalmente nos curiosos, pisavam-lhes os pés e não pediam desculpa, jogavam pontas de cordas sujas de graxa por cima deles, quem não quisesse se sujar ou se machucar que saísse do caminho.
Descarregadas as várias partes da máquina, foram elas cobertas com encerados e os homens entraram num botequim do largo para comer e beber. Muita gente se amontoou na porta mas ninguém teve coragem de se aproximar dos estranhos porque um deles, percebendo essa intenção nos curiosos, de vez em quando enchia a boca de cerveja e esguichava na direção da porta. Atribuímos essa esquiva ao cansaço e à fome deles e deixamos as tentativas de aproximação para o dia seguinte; mas quando os procuramos de manhã cedo na pensão, soubemos que eles tinham montado mais ou menos a máquina durante a noite e viajado de madrugada.
A máquina ficou ao relento, sem que ninguém soubesse quem a encomendou nem para que servia. É claro que cada qual dava o seu palpite, e cada palpite era tão bom quanto outro.
As crianças, que não são de respeitar mistério, como você sabe, trataram de aproveitar a novidade. Sem pedir licença a ninguém (e a quem iam pedir?), retiraram a lona e foram subindo em bando pela máquina acima — até hoje ainda sobem, brincam de esconder entre os cilindros e colunas, embaraçam-se nos dentes das engrenagens e fazem um berreiro dos diabos até que apareça alguém para soltá-las; não adiantam ralhos, castigos, pancadas; as crianças simplesmente se apaixonaram pela tal máquina.
Contrariando a opinião de certas pessoas que não quiseram se entusiasmar, e garantiram que em poucos dias a novidade passaria e a ferrugem tomaria conta do metal, o interesse do povo ainda não diminuiu. Ninguém passa pelo largo sem ainda parar diante da máquina, e de cada vez há um detalhe novo a notar. Até as velhinhas de igreja, que passam de madrugada e de noitinha, tossindo e rezando, viram o rosto para o lado da máquina e fazem uma curvatura discreta, só faltam se benzer. Homens abrutalhados, como aquele Clodoaldo seu conhecido, que se exibe derrubando boi pelos chifres no pátio do mercado, tratam a máquina com respeito; se um ou outro agarra uma alavanca e sacode com força, ou larga um pontapé numa das colunas, vê-se logo que são bravatas feitas por honra da firma, para manter fama de corajoso.
Ninguém sabe mesmo quem encomendou a máquina. O prefeito jura que não foi ele, e diz que consultou o arquivo e nele não encontrou nenhum documento autorizando a transação. Mesmo assim não quis lavar as mãos, e de certa forma encampou a compra quando designou um funcionário para zelar pela máquina.
Devemos reconhecer — aliás todos reconhecem — que esse funcionário tem dado boa conta do recado. A qualquer hora do dia, e às vezes também de noite, podemos vê-lo trepado lá por cima espanando cada vão, cada engrenagem, desaparecendo aqui para reaparecer ali, assoviando ou cantando, ativo e incansável. Duas vezes por semana ele aplica caol nas partes de metal dourado, esfrega, sua, descansa, esfrega de novo — e a máquina fica faiscando como joia.
Estamos tão habituados com a presença da máquina ali no largo, que se um dia ela desabasse, ou se alguém de outra cidade viesse buscá-la, provando com documentos que tinha direito, eu nem sei o que aconteceria, nem quero pensar. Ela é o nosso orgulho, e não pense que exagero. Ainda não sabemos para que ela serve, mas isso já não tem maior importância. Fique sabendo que temos recebido delegações de outras cidades, do estado e de fora, que vêm aqui para ver se conseguem comprá-la. Chegam como quem não quer nada, visitam o prefeito, elogiam a cidade, rodeiam, negaceiam, abrem o jogo: por quanto cederíamos a máquina. Felizmente o prefeito é de confiança e é esperto, não cai na conversa macia.
Em todas as datas cívicas a máquina é agora uma parte importante das festividades. Você se lembra que antigamente os feriados eram comemorados no coreto ou no campo de futebol, mas hoje tudo se passa ao pé da máquina. Em tempo de eleição todos os candidatos querem fazer seus comícios à sombra dela, e como isso não é possível, alguém tem de sobrar, nem todos se conformam e sempre surgem conflitos. Felizmente a máquina ainda não foi danificada nesses esparramos, e espero que não seja.
A única pessoa que ainda não rendeu homenagem à máquina é o vigário, mas você sabe como ele é ranzinza, e hoje mais ainda, com a idade. Em todo caso, ainda não tentou nada contra ela, e ai dele. Enquanto ficar nas censuras veladas, vamos tolerando; é um direito que ele tem. Sei que ele andou falando em castigo, mas ninguém se impressionou.
Até agora o único acidente de certa gravidade que tivemos foi quando um caixeiro da loja do velho Adudes (aquele velhinho espigado que passa brilhantina no bigode, se lembra?) prendeu a perna numa engrenagem da máquina, isso por culpa dele mesmo. O rapaz andou bebendo em uma serenata, e em vez de ir para casa achou de dormir em cima da máquina. Não se sabe como, ele subiu à plataforma mais alta, de madrugada rolou de lá, caiu em cima de uma engrenagem e com o peso acionou as rodas. Os gritos acordaram a cidade, correu gente para verificar a causa, foi preciso arranjar uns barrotes e labancas para desandar as rodas que estavam mordendo a perna do rapaz. Também dessa vez a máquina nada sofreu, felizmente. Sem a perna e sem o emprego, o imprudente rapaz ajuda na conservação da máquina, cuidando das partes mais baixas.
Já existe aqui um movimento para declarar a máquina monumento municipal — por enquanto. O vigário, como sempre, está contra; quer saber a que seria dedicado o monumento. Você já viu que homem mais azedo? Dizem que a máquina já tem feito até milagre, mas isso — aqui para nós — eu acho que é exagero de gente supersticiosa, e prefiro não ficar falando no assunto. Eu — e creio que também a grande maioria dos munícipes — não espero dela nada em particular; para mim basta que ela fique onde está, nos alegrando, nos inspirando, nos consolando. O meu receio é que, quando menos esperarmos, desembarque aqui um moço de fora, desses despachados, que entendem de tudo, olhe a máquina por fora, por dentro, pense um pouco e comece a explicar a finalidade dela, e para mostrar que é habilidoso (eles são sempre muito habilidosos) peça na garagem um jogo de ferramentas, e sem ligar a nossos protestos se meta por baixo da máquina e desande a apertar, martelar, engatar, e a máquina comece a trabalhar. Se isso acontecer, estará quebrado o encanto e não existirá mais máquina.
José J. Veiga, in Os cem melhores contos brasileiros do século

10/06/2019

Entre irmãos

O menino sentado à minha frente é meu irmão, assim me disseram; e bem pode ser verdade, ele regula pelos dezessete anos, justamente o tempo que estive solto no mundo, sem contato nem notícia. Quanta coisa muda em dezessete anos, até os nossos sentimentos, e quanta coisa acontece — um menino nasce, cresce e fica quase homem e de repente nos olha na cara e temos que abrir lugar para ele em nosso mundo, e com urgência porque ele não pode mais ficar de fora.
A princípio quero tratá-lo como intruso, mostrar-lhe a minha hostilidade, não abertamente para não chocá-lo, mas de maneira a não lhe deixar dúvida, como se lhe perguntasse com todas as letras: que direito tem você de estar aqui na intimidade de minha família, entrando nos nossos segredos mais íntimos, dormindo na cama onde eu dormi, lendo meus velhos livros, talvez sorrindo das minhas anotações à margem, tratando meu pai com intimidade, talvez discutindo a minha conduta, talvez até criticando-a? Mas depois vou notando que ele não é totalmente estranho, as orelhas muito afastadas da cabeça não são diferentes das minhas, o seu sorriso tem um traço de sarcasmo que eu conheço muito bem de olhar-me ao espelho, o seu jeito de sentar-se de lado e cruzar as pernas tem impressionante semelhança com o meu pai. De repente fere-me a ideia de que o intruso talvez seja eu, que ele tenha mais direito de hostilizar-me do que eu a ele, que vive nesta casa há dezessete anos, sem a ter pedido ele aceitou e fez dela o seu lar, estabeleceu intimidade com o espaço e com os objetos, amansou o ambiente a seu modo, criou as suas preferências e as suas antipatias, e agora eu caio aí de repente desarticulando tudo com minhas vibrações de onda diferente. O intruso sou eu, não ele.
Ao pensar nisso vem-me o desejo urgente de entendê-lo e de ficar amigo, de derrubar todas as barreiras, de abrir-lhe o meu mundo e de entrar no dele. Faço-lhe perguntas e noto a sua avidez em respondê-las, mas logo vejo a inutilidade de prosseguir nesse caminho, as perguntas parecem-me formais e as respostas forçadas e complacentes. Há um silêncio incômodo, eu olho os pés dele, noto os sapatos bastante usados, os solados revirando-se nas beiradas, as rachaduras do couro como mapa de rios em miniatura, a poeira acumulada nas fendas. Se não fosse o receio de parecer fútil eu perguntaria se ele tem outro sapato mais conservado, se gostaria que lhe oferecesse um novo, e uma roupa nova para combinar. Mas seria esse o caminho para chegar a ele? Não seria um caminho simples demais, e por conseguinte inadequado?
Tenho tanta coisa a dizer, mas não sei como começar, até a minha voz parece ter perdido a naturalidade, sinto que não a governo, eu mesmo me aborreço ao ouvi-la. Ele me olha, e vejo que está me examinando, procurando decidir se devo ser tratado como irmão ou como estranho, e imagino que as suas dificuldades não devem ser menores do que as minhas. Ele me pergunta se eu moro numa casa grande, com muitos quartos, e antes de responder procuro descobrir o motivo da pergunta. Por que falar em casa? E qual a importância de muitos quartos? Causarei inveja nele se responder que sim? Não, não tenho casa, há muito tempo que tenho morado em hotel. Ele me olha parece que fascinado, diz que deve ser bom viver em hotel, e conta que toda vez que faz reparos à comida mamãe diz que ele deve ir para um hotel, onde pode reclamar e exigir. De repente o fascínio se transforma em alarme, e ele observa que se eu vivo em hotel não posso ter um cão em minha companhia, o jornal disse uma vez que um homem foi processado por ter um cão em um quarto de hotel. Não me sinto atingido pela proibição, se é que existe, nunca pensei em ter um cão, não resistiria me separar dele quando tivesse que arrumar as malas, como estou sempre fazendo; mas devo dizer-lhe isso e provocar nele uma pena que eu mesmo não sinto? Confirmo a proibição e exagero a vigilância nos hotéis. Ele suspira e diz que então não viveria num hotel nem de graça.
Ficamos novamente calados e eu procuro imaginar como será ele quando está com seus amigos, quais os seus assuntos favoritos, o timbre de sua risada quando ele está feliz e despreocupado, a fluência de sua voz quando ele pode falar sem ter que vigiar as palavras. O telefone toca lá dentro e eu fico desejando que o chamado seja para um de nós, assim teremos um bom pretexto para interromper a conversa sem ter que inventar uma desculpa; mas passa-se muito tempo e perco a esperança, o telefone já deve até ter sido desligado. Ele também parece interessado no telefone, mas disfarça muito bem a impaciência. Agora ele está olhando pela janela, com certeza desejando que passe algum amigo ou conhecido que o salve do martírio, mas o sol está muito quente e ninguém quer sair à rua a essa hora do dia. Embaixo na esquina um homem afia facas, escuto o gemido fino da lâmina no rebolo e sinto mais calor ainda. Quando eu era menino tive uma faca que troquei por um projetor de cinema feito por mim mesmo — uma caixa de sapato dividida ao meio, um buraquinho quadrado, uma lente de óculos — e passava horas à beira do rego afiando a faca, servia para descascar cana e laranja. Vale a pena dizer-lhe isso ou será muita infantilidade, considerando que ele está com dezessete anos e eu tinha uns dez naquele tempo? É melhor não dizer, só o que é espontâneo interessa, e a simples hesitação já estraga a espontaneidade.
Uma mulher entra na sala, reconheço nela uma de nossas vizinhas, entra com o ar de quem vem pedir alguma coisa urgente. Levanto-me de um pulo para me oferecer; ela diz que não sabia que estávamos conversando, promete não nos interromper, pede desculpa e desaparece. Não sei se consegui disfarçar um suspiro, detesto aquela consideração fora de hora, e sou capaz de jurar que meu irmão também pensa assim. Olhamo-nos novamente já em franco desespero, compreendemos que somos prisioneiros um do outro, mas compreendemos também que nada podemos fazer para nos libertar. Ele diz qualquer coisa a respeito do tempo, eu acho a observação tão desnecessária — e idiota — que nem me dou ao trabalho de responder.
Francamente já não sei o que fazer, a minha experiência não me socorre, não sei como fugir daquela sala, dos retratos da parede, do velho espelho embaciado que reflete uma estampa do Sagrado Coração, do assoalho de tábuas empenadas formando ondas. Esforço-me com tanta veemência que a consciência do esforço me amarra cada vez mais àquelas quatro paredes. Só uma catástrofe nos salvaria, e eu desejo intensamente um terremoto ou um incêndio, mas infelizmente essas coisas não acontecem por encomenda. Sinto o suor escorrendo frio por dentro da camisa e tenho vontade de sair dali correndo, mas como poderei fazê-lo sem perder para sempre alguma coisa muito importante, e como explicar depois a minha conduta quando eu puder examiná-la de longe e ver o quanto fui inepto? Não, basta de fugas, preciso ficar aqui sentado e purgar o meu erro.
A porta abre-se abruptamente e a vizinha entra de novo apertando as mãos no peito, olha alternadamente para um e outro de nós e diz, numa voz que mal escuto: — Sua mãe está pedindo um padre.
Levantamos os dois de um pulo, dando graças a Deus — que ele nos perdoe — pela oportunidade de escaparmos daquela câmara de suplício.
José J. Veiga, in Os cem melhores contos brasileiros do século

28/08/2018

Uma noite perdida para Mandovi

Em cada viagem de volta Geminiano trazia uma ou duas pessoas na carroça, os passageiros saltavam no largo ou numa rua e ficavam parados numa esquina ou na sombra do coreto, muito interessados nas pessoas que passassem, mas apenas para olhar; não falavam com ninguém, não cumprimentavam nem gostavam de responder cumprimento, se respondiam era de má vontade, para dentro. Até padre Prudente, que uma vez passou por dois desses homens e ingenuamente olhou-os esperando uma demonstração qualquer de respeito, recebeu de volta um olhar fixo, que não soube precisar se era de atrevimento ou de espanto.
As crianças sofriam muitas provocações desses homens. Um certo Mandovi, menino que vendia cigarros numa caixinha de sapatos, era uma vítima constante. Da primeira vez, tomando alguns daqueles homens por possíveis compradores, ele chegou-se e ofereceu a mercadoria. Um dos homens despachou-o com a mão, mas outro achou de investigar o que havia na caixa; só que em vez de perguntar, ou pedir para ver, como fazia toda pessoa nova na cidade, o homem foi destampando a caixa e soltando a tampa no chão na maior sem-cerimônia. Mandovi já não gostou, e para mostrar que não tinha gostado puxou a caixa do alcance do homem e abaixou-se para recuperar a tampa, ao mesmo tempo pensando se continuaria dando atenção àquela gente ou se a cortaria de vez. Quando se ergueu, passando a tampa na roupa para limpar a terra, sentiu-se agarrado pela gola, enquanto outra mão tomava a caixa.
Que poderia ele fazer, tão pequeno e magrinho, contra dois homens enormes, de barba na cara, se bem que um deles parecesse não participar da curiosidade do outro?
O homem segurou a caixa com a mão esquerda, ajudando com o corpo, com a direita retirou uma rodilha de cigarros, exatamente a maior.
Isso o que é? — perguntou, rodando a rodilha na mão como se não soubesse, e sem olhar para o menino.
Mandovi teve vontade de responder que era pé de moleque, ou chouriço-pra-fazer-feitiço, mas procurou paciência e explicou direito. Mas o homem não estava interessado na resposta, e tentava arrancar com os dentes a linha que amarrava a rodilha.
Não tira que vai espandongar tudo — avisou Mandovi já tarde. O homem já tinha arrebentado a linha de um lado, os cigarros aproveitaram para se livrar do arrocho, se abriram em flor, caíram por todos os lados em volta da mão do homem e se espalharam no chão.
Agora paga. Desmanchou, paga — disse Mandovi, acreditando estar aplicando uma lei lógica que qualquer pessoa entenderia. Mas o homem soltou uma gargalhada de jogar o corpo para trás, e nisso largou a caixa, que caiu de lado e derramou as outras rodilhas no chão.
Mandovi esperou o homem acabar de achar graça; mas vendo que isso ia demorar um pouco, aproveitou o tempo para apanhar as rodilhas inteiras, deixando os cigarros soltos, que no seu entender não lhe pertenciam mais. Ainda rindo, o homem saiu andando com passos de bêbedo, pisando em cigarros, machucando rodilhas, e propositalmente ou não deu uma bicanca na caixa. Mandovi parou com as duas mãozinhas no chão, olhou e viu dois homens de muitas pernas, andaimes, vigas móveis tremendo, indo embora.
Sem pensar no que fazia, ele apanhou umas coisas no chão, pedras, paus, sabugos e foi jogando a esmo, com raiva, os baques fofos, os gritos, os homens correndo, as pedras não alcançando mais.
Quando chegou em casa, Mandovi pensou que alguém tivesse adoecido de repente, ou que o pai tivesse se machucado na oficina: muita gente na varanda conversando, perguntando, dando opinião. Mandovi já entrou assustado, a mãe correu para ele, abraçou-o:
Com efeito, meu filho! Como você foi fazer uma coisa dessas?
O pai separou-se de um grupo que conversava diante da janela e falou enérgico:
Mandovi, venha na oficina comigo.
Mandovi deixou a caixa de cigarros em cima da mesa, olhou para a mãe, não tomou conhecimento das outras pessoas. O pai chamou de novo, ele acompanhou-o pela escadinha do quintal.
Ninguém quis sair imediatamente; se seu Apolinário ia castigar o filho, eles queriam pelo menos ouvir os gritos. A mãe foi para a janela da frente para não ouvir, desejando que o marido não exagerasse no castigo, afinal de contas qual o menino que não faz uma travessura de vez em quando? Uma vizinha acompanhou-a para consolar, ela não escutava as palavras de consolo, estava de atenção voltada para a oficina ali ao lado da casa, não demoraria muito e Mandovi estaria gritando debaixo das chicotadas. Apolinário quando batia não alisava nem escolhia lugar, e ainda tinha a mania de bater com aquela tira de couro tão grossa e tão dura.
A vizinha falava, a mãe ia ficando impaciente, os gritos não vinham, alguma coisa fora do comum devia estar acontecendo.
Foi um susto para a mãe quando Mandovi apareceu ao lado dela já explicando por que tinha voltado com quase todo o cigarro.
Você disse a seu pai? — ela perguntou depois de ouvir as razões.
Disse sim senhora.
E ele não fez nada?
Não senhora. Disse que eu fiz o que devia.
A alegria da mãe nasceu e morreu ali mesmo na janela. Morreu quando ela compreendeu o motivo de tanta visita fora de hora: aquela gente esperava uma reação dos homens, e estava ali para assistir. Os homens não iam levar pedradas na rua e voltar mansinhos para casa. Apolinário dando razão a Mandovi agravou a situação, porque sabendo que o menino não tinha sido castigado, os homens iam querer eles mesmos aplicar o castigo, e sabe-se lá de que maneira.
Pelo resto do dia a casa esteve cheia de gente, uns se cansavam e iam embora, outros iam chegando de fresco, todo mundo se apertando na varanda pequena como para beijar o divino em pouso de folia, aquela zoada, gente se espremendo contra os móveis, ameaçando derrubar o pote de água que descansava num cepo alto num canto, a toda hora era preciso alguém protegê-lo do balanço, mas um pouco de água sempre derramava, fazendo lama no chão; gente pisando os pés uns de outros, pedindo desculpa e pisando de novo. Uma hora lá seu Apolinário perdeu a paciência e resolveu acabar com a furupa, bateu palma para chamar atenção e mandou que esquipasse todo mundo, disse que ali não tinha morrido ninguém por enquanto, graças a Deus, que fossem sacudir o corpo em algum serviçal como ele estava fazendo desde muito cedo — e foi pegando os chapéus que estavam nos cabides, em cima da mesa, no parapeito das janelas, na mão dos donos e pondo na cabeça das pessoas, às vezes o chapéu de um na cabeça de outro, e empurrando gente pelo corredor afora, cercando com os braços os que ameaçavam voltar.
A mulher achou boa essa providência, mas ficou envergonhada porque no meio do pessoal estavam umas amigas dela que não acharam jeito de ficar depois do que Apolinário tinha acabado de dizer.
Conheceram, papudos! Agora você pode fazer a janta em paz — disse Apolinário à mulher. — Se precisar de mim, estou na oficina. E outra coisa, Serena. Convém não deixar o Mandovi sair mais hoje.
Dona Serena gostava daquele jeito despachado e confiante do marido, mas achava que ele estava sendo despreocupado demais em hora de tanta ameaça. Pensando e pensando nisso, ela se distraiu na cozinha e cometeu uma série de deslizes — queimou a mão numa panela, deixou o arroz esturrar, esqueceu a chaleira fervendo até a água transbordar e quase apagar o fogo. Ela não esquecia os homens da tapera e os males que eles pudessem fazer.
Quando Apolinário veio jantar, ela disse com muito jeito que seria melhor ele não sair de casa à noite.
Por que agora? Eu não estou de resguardo.
Eu morro de medo por causa disso que Mandovi fez.
Tem nada não. O que ele fez foi bem feito.
Meu medo é que os homens queiram tirar vingança.
Tiram não. Se vierem arrastando mala, saem com ela espandongada.
Em vez de se acalmar com a bravata do marido, dona Serena mais se alarmou:
Olhe lá, Apolinário. Tenho muito medo.
Não tem motivo. Quem tem razão tem salvação.
Tomara que seja.
Mas Apolinário acabou fazendo o sacrifício de não dar a sua voltinha de toda noite. Ao escurecer foi à oficina, apanhou um malho dos mais leves e trouxe para casa, e enquanto Mandovi puxava água do poço para encher as vasilhas, e dona Serena grosava palha para cigarros, ele ficou um pouco na janela fumando e respondendo os cumprimentos dos passantes; depois foi para a varanda e deitou-se enganchado na rede, com o malho ao alcance da mão. Naquela noite Mandovi ficou proibido de brincar no largo.
Mas, mãe… que mal faz?
Convém não. Falha hoje. Brinquedo não é serviço urgente.
Se eles vierem, eu corro. Ninguém me pega na corrida.
Por mim não vai. Só se seu pai deixar.
Chamado a opinar, Apolinário apoiou a mulher:
Vai não. Sua mãe já disse, está resolvido. Pegue seu livro, vá estudar.
Não tinha jeito. Aquela noite estava mesmo perdida para Mandovi.
José J. Veiga, in A noite dos ruminantes

25/01/2018

O conserto da carroça

Naquele dia Amâncio não exagerou na bebida, não teve tempo. Pelo meio da tarde, no voltar da carroça, um dos da tapera saltou na esquina do beco, endireitou a roupa e rumou para a venda. A festa lá dentro parece que o desconcertou: ele parou na porta, fez menção de voltar, reconsiderou. Amâncio pulou o balcão e veio recebê-lo.
Grande honra! Dê as ordens, major.
Sem ligar à recepção, o homem entrou e olhou em volta, como querendo dizer que havia gente demais. Os outros entenderam o olhar, foram se levantando, espreguiçando, bocejando, coçando as costas, numa tentativa ingênua de dar a entender que iam sair porque queriam e não por estarem sendo expulsos. O homem arredou-se da porta para desimpedir a saída, e quando a última pessoa passou, ele olhou para o fundo da venda para ver se não restava alguém, depois chegou-se à porta e olhou o beco, não queria ver ninguém marombando nas vizinhanças; satisfeito com a inspeção, entrou e fechou a porta, como se fosse o dono da venda e Amâncio um simples acompanhante.
A conferência reservada não durou muito. As pessoas que tinham ficado escondidas na esquina olhando de meia cara viram os dois saírem discutindo, Amâncio falando mais, falava até enquanto passava a chave na porta, o outro só contribuindo com frequentes inclinações de cabeça entremeadas de frases curtas. Vendo que eles iam subir o beco, os espias debandaram depressa, ninguém queria ser apanhado naquele papel.
Quando alcançaram a casa de Manuel Florêncio, o homem da tapera parou como querendo entrar, Amâncio tomou a frente vedando a passagem. O homem quis afastá-lo, Amâncio empurrou-o delicadamente, mas com firmeza. Agora os papéis estavam trocados, quem mais falava era o outro, e Amâncio concordava de cabeça, sempre conduzindo o outro pela rua, o outro virando-se para trás quase fincando os calcanhares no chão para não ser empurrado. Por fim ele se conformou, Amâncio parece que venceu, eles continuaram a caminhada. Na ponte se despediram, Amâncio voltou muito preocupado, passando por pessoas conhecidas sem notar, não cumprimentando nem respondendo cumprimento, dando topadas frequentes e não ligando.
Nesse estado de espírito entrou em casa de Manuel Florêncio, entrou bufando, pisando forte. Parou no meio da oficina, pôs as mãos nos quadris e estourou:
Você, hein? Com a sua mania de independente!
Manuel parou o serviço, olhou-o intrigado, esperou.
Por que você não consertou a carroça?
Então era aquilo. Que tinha Amâncio a ver com o assunto?
Não consertei nem conserto. Cada um sabe o que faz — disse Manuel, e voltou a cepilhar, desinteressado da conversa.
Cada um sabe o que faz, uma penca. Se você soubesse, não tinha sido testudo.
Manuel largou o cepilho com brutalidade, ergueu a cabeça e disse taxativo:
Amâncio, você manda na sua venda. Eu mando no meu serviço. Disso não abro mão.
Amâncio sacudiu a cabeça desarvorado, rodou na sala, parou no mesmo lugar.
Está brincando com fogo, Manuel. Os homens estão por aqui com você. Com muito custo arranjei que dessem mais um prazo até amanhã. Você tem de consertar o diabo daquela carroça até amanhã, nem que seja preciso trabalhar de noite. Eu posso ajudar.
Manuel olhou firme para ele, de repente soltou uma gargalhada rara, pura, honesta; e tão forte que espantou um burro que pastava em frente.
Está aí uma coisa que eu queria ver — disse ele ainda rindo. — Alguém me forçar a fazer um serviço que eu refugo. Só tem um jeito, Amâncio. É muitos homens me sojigarem, outros segurarem minha mão com as ferramentas e fazerem os movimentos por mim. Já pensou o trabalho que sai?
Amâncio experimentou nova tática:
Somos amigos de muito tempo, Manuel…
Somos. E o que é que tem isso? Você por acaso…
Deixe eu falar. Somos amigos de muito tempo. Eu vim aqui pedir um favor. Conserte a carroça para mim.
Manuel apanhou novamente o cepilho, limpou os cavacos da fenda, falou:
Quanto mais escuto falar em carroça, mais enjoo tomo de tudo quanto é apetrecho de roda. Não tenho nada com carroça, não mandei ninguém carregar areia em carroça, quem mandou que conserte. De mais a mais, não engulo aquela gente. E se você é amigo mesmo, não me fale mais nesse assunto.
Amâncio não se conformava. Insistiu, ameaçando:
Quer dizer que não conserta mesmo? Quer dizer que vai aguentar o repuxo? Posso lavar minhas mãos?
Manuel chegou à janela, cuspiu para fora, voltou.
Vocês são engraçados. Trabalho aqui o ano inteiro, ninguém quer saber se estou bem ou se estou mal, se estou comendo ou fazendo cruz na boca. De repente aparece aí um diabo de uma carroça quebrada e todo mundo fica em cima de mim insistindo pelo conserto, azucrinando e falando em castigo. Vou consertar carroça nenhuma. Vou escrever um letreiro bem grande ali na parede dizendo: esta oficina não aceita conserto de carroça. Assim, ninguém precisa perder o latim. E aguento qualquer repuxo, sim senhor. Ora essa! Em que terra nós estamos? Onde estão os meus direitos? Quem não deve não teme.
Aí é que está o seu erro. Você fala como se não tivesse acontecido nada. Direitos? Que direitos! Quem não deve não teme! Tudo isso já morreu. Hoje em dia não é preciso dever para temer. Por que é que você acha que eu estou aqui pedindo, implorando, me rebaixando? Eu devo alguma coisa? E você já me viu com medo algum dia? Você precisa entender que não estamos mais naquele tempo…
Amâncio parou de falar, chegou à janela, olhou o largo com interesse, como quem se despede de um lugar antes de uma viagem demorada, com o cavalo já na porta arreado e o arrependimento de ir já doendo por dentro; e continuou falando para fora, indiferente à presença de Manuel Florêncio:
Quem havia de dizer que Manarairema ia mudar em tão pouco tempo? Antigamente a gente vivia descansado, sossegado, dormia e acordava e achava tudo no lugar certo, não era preciso pensar nada adiantado. Hoje a gente pensa até para dar bom-dia. O que foi que fizemos para acontecer isso? Manuel, estamos mal.
Manuel olhou-o meio comovido, meio desconfiado. Aquele lado novo não esconderia alguma armadilha? Amâncio segurou-o pelo ombro e disse, quase implorando:
Precisamos ficar muito unidos, compadre. Vamos atravessar uma quadra de muita dificuldade.
Mas Amâncio, por que agora? Ou você está assustado com alguma outra coisa?
Amâncio baixou a cabeça e disse em voz mais baixa:
Você sabe o que é que eu estou dizendo. Não pensei que chegasse a esse ponto, mas chegou. Caímos na ratoeira, e por enquanto não vejo saída.
Não sei de nada. Você não está exagerando?
Quem me dera que fosse tudo uma brincadeira, daquelas que a gente fazia antigamente. Mas eu estive lá. Antes não tivesse estado.
Ficaram calados por algum tempo, absorvendo a realidade de uma situação que eles nada tinham feito para criar e que nenhum deles sabia como remediar.
O silêncio do largo lembrava a tranquilidade antiga, mas vinha misturado com uma espécie de cheiro de perigo iminente. Uma borboleta grande azul-pomposa entrou tonta na oficina, esbarrou de raspão na parede, pousou no cabo de uma enxó. Os dois olharam para ela encantados, como se nunca tivessem visto uma borboleta igual, ou talvez estranhando que ainda pudesse haver borboleta no ar. Finalmente ela se despregou da enxó, tateou pela sala e escapuliu para o largo como chupada pelo ar da tarde, e eles ficaram mais tristes e preocupados.
Manuel respirou e disse com esforço, quase espremendo as palavras:
Resolvi consertar a carroça.
Quebrando uma sua praxe antiga, Amâncio abraçou-o demoradamente, quis falar mas apenas engrolou algumas palavras que não chegaram a ser entendidas.
José J. Veiga, in A hora dos ruminantes

04/10/2017

Quem mata minhas cobras sou eu mesmo


Quando chegou em casa, Manuel encontrou Geminiano na porta, montado na carroça, esperando. Geminiano cumprimentou expansivo, como não fazia havia muito tempo. Disse que Manuel devia estar ficando rico, ou já devia ter ficado, porque não estava mais ligando ao trabalho. Pulou da carroça e pediu licença para cumprimentá-lo de perto.
O que é isso, Gemi? Você parece que viu passarinho verde.
Eu? É. De hora em hora a gente melhora.
Sempre acabou o serviço?
Eu? Acabei a primeira parte. Agora vou começar a segunda.
Lá mesmo?
Sempre.
Cuidei que você estivesse cansado.
Eu? Que nada! Ainda tenho fôlego pra muito mais. Mas primeiro preciso da sua ajuda. Está vendo essas tábuas velhas? O senhor vai me mudar todas elas.
Manuel não gostou da maneira impositiva. Hábito de lidar com os homens da tapera? Alto lá!
Ah, não posso, Gemi. Estou cheio de serviço. Não tenho tempo para pegar remendo.
Geminiano olhou-o espantado. Não contava com a recusa.
Mas é preciso. Os homens estão esperando.
É? Esperar é bom para a saúde.
Não brinque com assunto sério, seu Manuel. A carroça não é mais minha. É deles. Eles mandaram consertar.
Folgo em saber, Gemi, mas não estou mais fazendo consertos. Sinto muito.
Geminiano pensou, alisando o pescoço do Serrote.
Seu Manuel, sempre tive consideração com o senhor, não vou deixar de ter agora. Faz de conta que o serviço ainda é pra mim, e fica tudo entre amigos.
Mas você acabou de dizer que não é.
Eu disse faz de conta. Vejo que o senhor está de má vontade com os homens. O senhor faz o serviço como se fosse pra mim e eles não precisam ficar sabendo desse nosso arranjo.
Não, Gemi. Não gosto de negócio turvo. Por mim você não precisa esconder nada. Pode dizer lá a eles que eu não quis fazer o serviço.
Que esperança! Não é assim não, seu Manuel. Não posso dizer isso. De jeito nenhum não posso.
Então você diz lá o que entender. Eu quis dar uma ideia. Se não serve, você arranja outra. Mas o certo é que eu não vou fazer o serviço.
Geminiano olhou calmo para ele, explicou com paciência:
O senhor não está entendendo, seu Manuel. Eles mandaram a carroça para o senhor consertar, eu não posso chegar lá e dizer que o senhor não vai fazer o serviço. Isso não casa com o sistema deles.
Isso de sistema cada um tem o seu, Gemi. Se o deles é esse que você está dizendo, o meu é aquele que eu já disse. Agora, com a sua licença, vou entrar. Tenho serviço esperando.
Geminiano não desanimou ainda; continuou explicando:
Seu Manuel, pense bem no que está fazendo para não se arrepender mais tarde. O assunto é sério, não cabe teima nem capricho. Acho melhor o senhor ir consertando a carroça. Não custa, é só umas poucas tábuas.
Em vez de se aborrecer, Manuel achou graça na insistência de Geminiano. Oh, homem renitente! Era só o que faltava, uma pessoa trabalhar obrigada. E de que jeito? Com outro segurando a mão dele, guiando nos cortes e golpes?
Gemi, a prosa está boa mas você está muito mandão. Qualquer outro dia conversamos, mas não assunto de conserto — disse Manuel, e cruzou a porta para entrar em casa.
Geminiano saltou na frente dele, segurou-o pelo braço e disse, agora implorando:
Seu Manuel, eu vou falar franco. Nunca tivemos questão até hoje. O que estou pedindo é um favor, não por mim mas pelo senhor mesmo. Não quero ver o senhor sofrendo por causa de uma pirraça. — Olhou furtivamente para os lados e acrescentou em voz baixa: — Aquela gente… o senhor não sabe quem é. Não queira cair na bigorna deles.
Manuel sacudiu o braço para livrar-se do aperto, pôs a mão no ombro de Gemi e disse como quem consola:
Agradeço o aviso, mas gosto de matar minhas cobras eu mesmo. Está vendo minhas ferramentas aí na parede? Estão compradas e pagas, e só trabalham em serviço que eu escolho. Esse é o meu sistema. Não leve a mal, você que falou em sistema. Remendo de carroça não faço nem vivo nem morto.
Geminiano olhou-o com olhos tristes, que tanto podiam ser de pena como de inveja; sacudiu a cabeça devagar, suspirou e disse:
Seu Manuel, quando o senhor estiver no aperto, lembre-se de que eu avisei como amigo. Fiz o que pude, mais não posso fazer. — Deu uns passos para sair, virou-se e completou: — Espero que o senhor seja tão teimoso com eles como foi comigo. Assim não podem me culpar de relaxo no cumprimento de ordem.
Pode deixar que eu me arranjo — disse Manuel, e entrou sem mais cerimônia.
Geminiano subiu vagaroso na carroça, sentou-se e ficou pensando. Os olhos parados na garupa do Serrote nem piscavam. Minutos depois Manuel chegou à janela para olhar o tempo, Geminiano estava na mesma posição. Vendo-o ali sem rumo e sem ação, Manuel pensou no Geminiano antigo tão senhor de si, correto, respeitador dos direitos alheios. Que força teria conseguido transformar aquele homem inteiriço nesse inútil feixe de medos? Olhando para cima, para baixo, para as casas em frente, Manuel sentiu que não estava vendo o largo familiar mas um trecho de outra cidade, remota, inóspita, maligna. Manarairema estaria se acabando, se perdendo para sempre? Se estava, valeria a pena continuar vivendo ali? Não seria melhor vender a casa, juntar as ferramentas num caixote e sair estrada afora, trabalhando de fazenda em fazenda nos serviços que aparecessem?
Enquanto Manuel pensava, Geminiano mexeu na rédea, propositalmente ou por distração. O Serrote acordou e saiu arrastando a carroça em passos lerdos, como quem cumpre uma condenação sem prazo, sem esperança de livramento. Pensando bem, o Serrote não era o mais infeliz; ele pelo menos sabia, ou parecia saber; mas as pessoas?
José J. Veiga, in A hora dos ruminantes

07/08/2017

O dia dos cachorros (trecho)


Mas uma tarde, já ao escurecer, como obedecendo um comando secreto, todos os cachorros cessaram o que estavam fazendo, farejaram o ar, limparam os pés e dispararam no rumo da tapera, atropelando gente e se atropelando. Saíam de quintais, latadas, de monturos, ainda arrastando gravetos e ramagens, derrubando cinza, cavacos, folhas secas do lombo. Os bandos que saíam de cada rua iam desaguar no largo, formando uma enchente que se despejava para a ponte, ganhava a estrada e subia compacta para a tapera, deixando atrás um vazio escuro que o ventinho fresco da boca da noite vinha preencher. Na passagem estreita da ponte o aperto era tanto que se viam cachorros avançando por cima dos outros, derramando-se para fora das grades e despencando na pedreira lá embaixo, deixando na queda um risco de grito a prumo.
As pessoas ficaram sem saber o que pensar nem o que fazer, com medo de se descontraírem antes da hora e terem de repor a máscara às pressas. Não querendo fazer comentários prematuros, todos se recolheram cedo para absorver no escuro as humilhações desnecessárias e tão prontamente aceitas, quando não procuradas espontaneamente.
Cada um torturado pela sua vergonha particular, ninguém dormiu bem aquela noite, nem mesmo os que se conservaram de lado desaprovando a degradação geral com um simples abanar de cabeça; esses já sentiam que desaprovar em silêncio é pouco menos do que aprovar, e nem tinham o consolo barato dos que tiveram a coragem de aderir.
No dia seguinte a cidade se esforçou por voltar à vida normal, e ninguém quis falar nos cachorros; mas a lembrança deles estava em toda a parte, no estrume deixado nos corredores das casas, nas calçadas, na grama do largo; no cheiro de urina que empestava todos os cantos; nos riscos de unhas feitos nas portas e paredes; nas penas de galinha espalhadas pelos quintais e que até ainda voavam no ar, no espanto ainda visível nos olhos das crianças e no constrangimento dos adultos.
Parece que Amâncio Mendes foi o primeiro a tocar no assunto, e do jeito que ele falou deu a impressão de estar sondando, provocando. Mas ninguém emendou conversa, ele sorriu, desviou.
Estou pensando em espichar a venda — disse ele com uma perna assentada no balcão. — É só derrubar uma dessas paredes do lado, fazer um puxado pra lá. Depois ponho fazendas, perfumaria, artigos finos.
Então vai ser uma loja — disse Dildélio. — Como a de seu Quinel.
Ou melhor. Vou contratar um bom empregado. Um ou dois.
E a freguesia? Seu Quinel anda se queixando da paradeira.
Freguesia tem. Vocês vão ver.
Os presentes se olharam disfarçadamente. Entenderam.
Dizem que eles não compram nada. Têm de tudo lá. Recebem de fora.
É, é? Deixa dizerem. Enquanto vão dizendo, eu vou vendendo.
E quando eles forem embora? — Quem falou foi Manuel Florêncio, sondando também.
Eles vão embora, é? Sabia não. Quem foi que disse?
Ninguém não. Mas um dia terão de ir.
É, é? Pois vá esperando.
Isso inquietou os presentes. Com exceção de Amâncio, que agora era uma espécie de advogado dos homens, ninguém sabia muito a respeito deles, e o que ia sendo revelado era sempre assim, desagradável. Então eles iam ficar. Fazendo o quê? Soltando cachorro na cidade para assustar o povo?
Afinal de contas, o que é que eles vieram cheirar aqui? — indagou Manuel Florêncio, não a Amâncio, nem a ninguém, mas como quem deixa escapulir uma pergunta que há muito o incomoda; mas todos olharam para Amâncio, reconhecendo que só ele podia dar resposta.
Amâncio não gostou da pergunta. Respondeu sério, repreendendo:
Cheirar, não. Ninguém veio cheirar nada. Eles vieram trabalhar, trazer progresso. Se o povo não entende, e fica de pé atrás, a culpa é do atraso, que é grande. Mas eles vão trabalhar assim mesmo, vão tocar para a frente de qualquer maneira. Quem não gostar que coma menos.
Ninguém disse nada. Todos ficaram olhando para o chão, para os sacos de gêneros, para as mercadorias penduradas, para as moscas enervantes. Amâncio parecia saber alguma coisa, devia saber, mas teimava em desconversar, em fazer mistério — ou pelo prazer de irritar ou porque não podia mesmo falar, ordem dos homens, proibição.
Mas Manuel Florêncio, positivo, meticuloso, incômodo, não ia se conformar. Torcendo um fio de sobrancelha, real ou imaginário, falou olhando para o chão:
Engraçado. Eles vieram trabalhar, trazer progresso, fazer o bem. Então por que ficam entocados lá longe, cercados, fechados, não se abrem com ninguém, e quando querem se distrair soltam cachorros em cima da gente?
Já vem você — disse Amâncio. — Você não entende, está de cabeça cheia. Ninguém aqui entende. Os homens estão trabalhando. Eu estive lá, eu vi.
Esteve lá jogando peteca. Se isso é trabalhar…
Amâncio fungou, derrubou o cigarro, apanhou; tornou a derrubar, pisou em cima com raiva, como quem mata um bicho venenoso, escorpião, lacraia.
Não é nada disso — gritou, por fim. — Ouviram cantar o galo. Eu sabia que iam avacalhar. O culpado é o Geminiano. Ele vai ver comigo. Pretete fedido.
Você é quem ouviu cantar o galo. Geminiano nem quis falar. Quem contou foi o menino.
Seja quem for, fez fuxico. Mas não faz mal. Podem falar até rachar o papo. Estou com os homens, o resto é muxingo de gongomé macho. Quem não gostar tire a ceroula e pise em cima.
Quando acabou de falar, Amâncio estava fungando forte, os dentes cerrados. A raiva era tanta que ele teve de riscar vários paus de fósforos para poder acender um cigarro. Era difícil discutir qualquer assunto com Amâncio. Sempre que ele ficava sem defesa caía na valentia e os outros recuavam. Brigar dá trabalho, e na maioria das vezes não paga a pena. Amâncio mesmo era um exemplo. Das brigas que vencia — quase todas — não ficava satisfeito com nenhuma. Passada a raiva, esfriada a cabeça, não havia muita diferença entre ele e o vencido. Em muitos casos, vencer briga não é melhor do que perder. Para que então andar brigando à toa?
Bom — disse Manuel Florêncio —, você diz que eles estão trabalhando e que no fim nós todos vamos lucrar. Então eu acredito e fico esperando.
Amâncio olhou para ele agradecido, desconfiado. Aquele Manuel às vezes dava raiva, às vezes também dava alegria. Manuel era mestre em evitar briga sem correr. Era mestre em muitas coisas que uma pessoa deve saber para poder viver neste mundo difícil. Manuel Osório de Almeida Florêncio. Manuel bobo. Manuel ladino. Manuel amigo.
Vamos tomar uma calcinada todo mundo — disse Amâncio virando-se para a prateleira para providenciar garrafa e copos.
Os outros se animaram, preparando a boca, antecipando; mas Manuel, sentado nas mãos apoiadas num caixote, disse sem alarde:
Tomem vocês. Eu agradeço.
Me esqueci que ele é contra. Está aprendendo para santo — disse Amâncio. Muitos riram, Amâncio sorriu satisfeito, Manuel explicou:
É o estômago. Não aguento nem o cheiro.
Tampa o nariz e vira — sugeriu um.
Não compensa. Prefiro olhar.
Então come um pé de moleque. Um beiju. Qualquer coisa — disse Amâncio mandando.
Manuel aceitou um beiju para evitar crítica, enquanto os outros iam virando, careteando, bufando e cuspindo. Se era tão bom, para que tanta resistência, tanto esforço?
Manuel demorou-se um pouco mais, riu, conversou, deu uma desculpa e saiu. Aquela função iria longe, terminaria em tocata de viola e cantaria, com algumas discussões no meio, depois a galopada de Amâncio pelas ruas, os tiros a esmo, os insultos diante das casas fechadas, trancadas, escoradas, depois o sono largado em alguma vala de arrabalde; Manuel tinha de estar descansado para o trabalho de procura e salvamento.
José J. Veiga, in A hora dos ruminantes