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10/11/2023

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro pra ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha quer não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca.

Fernando Pessoa, in Antologia Poética

01/05/2023

Pão

Dia 02 de fevereiro de 2009

Terá o digníssimo procurador público de Badalona lido Os miseráveis de Victor Hugo, ou pertence àquela parte da humanidade que crê que a vida se aprende nos códigos? A pergunta é obviamente retórica e, se a faço, é só para facilitar-me a entrada na matéria. Assim, o leitor ilustrado já ficou a saber que o dito procurador poderia ser, com inteira justiça, uma das figuras que Victor Hugo plantou no seu livro, a de acusador público. O protagonista da história, Jean Valjean (soa-lhe este nome, senhor procurador?), foi acusado de ter roubado (e roubou mesmo) um pão, crime que lhe custou quase uma vida de reclusão por via de sucessivas condenações motivadas por repetidas tentativas de fuga, mais logradas umas que outras. Jean Valjean sofria de uma enfermidade que ataca muito a população dos cárceres, a ânsia de liberdade. O livro é enorme, daqueles de que hoje se diz terem páginas a mais, e certamente não interessará ao senhor procurador que provavelmente já não está em idade de o ler: Os miseráveis são para ler na juventude, depois disso vem o cinismo e já são poucos os adultos que tenham paciência para interessar-se pela miséria e pelas desventuras de Jean Valjean. Com tudo isto, também pode suceder que eu esteja equivocado: talvez o senhor procurador tenha lido mesmo Os miseráveis… Se assim é, permita-me uma pergunta: como foi que ousou (se o verbo lhe parecer demasiado forte use qualquer dos equivalentes) pedir um ano e meio de prisão para o mendigo que em Badalona tentou roubar uma baguette, e digo tentou porque só conseguiu levar metade? Como foi? Será porque, em vez de um cérebro, tem no seu crânio, como único mobiliário, um código? Aclare-me, por favor, para que eu comece já a preparar a minha defesa se alguma vez vier a ter pela frente um exemplar da sua espécie.

José Saramago, in O caderno

14/02/2023

Menos coisas = mais liberdade

E se lhe apresentassem uma oportunidade maravilhosa e única na vida, mas você tivesse de atravessar o país em três dias para aproveitá-la? Você ficaria entusiasmado e começaria a fazer planos? Ou pensaria na sua casa, preocupado em como encaixotar tudo a tempo? Entraria em desespero com a ideia de transportar suas coisas por milhares de quilômetros (ou, pior, acharia isso completamente absurdo)? Será que acabaria concluindo que não vale o esforço, que você está “acomodado” aqui e que talvez, mais para a frente, surja outra oportunidade?
Sei que a pergunta a seguir parece loucura, mas será que as suas coisas teriam o poder de prendê-lo a um lugar? Para muitos de nós, é bem provável que a resposta seja “sim”.
As coisas podem funcionar como âncoras. Elas nos fixam e nos impedem de explorar novos interesses e desenvolver talentos. Elas podem atrapalhar nossos relacionamentos, o sucesso profissional e o tempo com a família. Podem sugar nossa energia e nosso espírito de aventura. Você já evitou uma visita porque sua casa estava bagunçada demais? Já perdeu um jogo de futebol do seu filho porque estava fazendo hora extra a fim de pagar as prestações do cartão de crédito? Já deixou passar uma viagem para um lugar exótico porque não tinha ninguém para “cuidar da casa”?
Olhe para as coisas à sua volta no cômodo em que está agora. Imagine que cada um desses itens — cada objeto pessoal — está ligado a você por uma corda. Alguns estão presos a seus braços, outros à sua cintura e outros a suas pernas. (Se quiser ser mais dramático, visualize correntes no lugar de cordas.) Agora tente se levantar e dar uma volta com todas essas coisas se arrastando e ressoando atrás de você. Não é fácil, hein? Acho que você não vai conseguir chegar muito longe nem fazer muita coisa. Vai logo desistir, voltar a se sentar e se dar conta de que é preciso muito menos esforço para ficar onde está.
Da mesma forma, bagunça demais também pode pesar no humor. É como se todos os objetos tivessem seu próprio campo gravitacional e estivessem nos puxando constantemente para baixo e para trás. Podemos nos sentir literalmente pesados e letárgicos num cômodo abarrotado, cansados e preguiçosos demais para nos levantar e fazer alguma coisa. Compare isso com um ambiente limpo, iluminado e com poucos móveis — num espaço assim, nos sentimos leves e cheios de possibilidades. Sem o peso de todos os pertences, sentimo-nos com energia e prontos para tudo.
Com isso em mente, podemos nos sentir tentados a fingir uma arrumação rápida e criar a ilusão de um espaço organizado. É só dar uma passada na loja de departamento, comprar algumas caixas bonitas e criar um cômodo minimalista instantâneo. Infelizmente, o simples ato de enfiar tudo em gavetas, cestas e latas não resolve o problema: a máxima “o que os olhos não veem o coração não sente” não funciona aqui. Mesmo coisas escondidas (seja no armário do corredor, lá na despensa ou num depósito do outro lado da cidade) continuam pesando em nosso coração. Para nos libertarmos mentalmente, precisamos nos livrar de verdade das coisas.
Algo mais a se considerar: além de nos comprimir fisicamente e nos sufocar psicologicamente, as coisas também nos escravizam em termos financeiros, através das dívidas que adquirimos para pagar por elas. Quanto mais devemos, mais insones são as noites e mais limitadas as nossas oportunidades. Não é nada agradável levantar toda manhã e ir se arrastando para um trabalho de que não gostamos a fim de pagar por coisas que não temos, não usamos nem queremos mais. É possível pensar em muitas outras coisas que preferiríamos estar fazendo! Além disso, se esgotamos nosso salário (e mais um pouco) em bens de consumo, secamos os recursos para outras atividades mais gratificantes, como fazer aulas de artesanato ou investir num negócio novo.
Viajar é uma analogia perfeita da liberdade inerente a um estilo de vida minimalista. Pense em como seria chato carregar duas ou três malas pesadíssimas durante as férias. Faz séculos que você está ansioso para essa viagem e, quando desembarca do avião, mal pode esperar para explorar as paisagens. Não tão rápido — antes você precisa esperar (e esperar e esperar) que as malas apareçam na esteira de bagagem. Depois, precisa arrastá-las pelo aeroporto. É provável que você siga direto para o ponto de táxi, porque manobrá-las no metrô seria quase impossível. E nem pense em tentar pegar lugar no city tour que está começando — você tem de ir primeiro ao hotel e se livrar desse fardo gigantesco. Quando você finalmente chega lá, desmaia de cansaço.
O minimalismo, por outro lado, o deixa ágil. Imagine viajar apenas com uma mochila leve — a experiência é definitivamente revigorante. Você chega ao destino, desce do avião e passa pela maré de gente esperando pela bagagem. Depois entra no metrô, pega um ônibus ou anda em direção ao hotel. No caminho, experimenta todas as visões, sons e aromas de uma cidade estrangeira, com o tempo e a energia para saborear tudo. Você tem a liberdade e a flexibilidade de um pássaro para se movimentar por aí — pode levar a mochila a museus e a pontos turísticos e guardá-la num armário quando for preciso.
Diferente do primeiro cenário, você começa com tudo e passa a tarde vendo as paisagens em vez de arrastar suas coisas de um lado para o outro. Chega ao hotel energizado por sua experiência e pronto para outra.
Quando não estamos mais acorrentados às nossas coisas, podemos saborear a vida, nos relacionar com outras pessoas e ser participativos em nossa comunidade. Ficamos abertos a experiências e mais capazes de reconhecer e aproveitar as oportunidades. Quanto menos bagagem carregamos (tanto física como mentalmente), mais podemos viver!

Francine Jay, in Menos é mais: Um guia minimalista para organizar e simplificar sua vida

30/12/2022

Baltazar Garzón

Dia 12 de dezembro de 2008

O juiz Baltasar Garzón deixou em Lisboa uma lição do que é ou deve ser o Direito. A verdade é que, em sentido estrito, do que se falou no acto organizado pela Fundação foi de Justiça. E de sentido comum: dos delitos que não podem ficar impunes, das vítimas a quem tem de ser dada satisfação, dos tribunais que têm de levantar alcatifas para ver o que há por baixo do horror. Porque muitas vezes, por baixo do horror, há interesses económicos, delitos claramente identificados perpetrados por pessoas e grupos concretos que não podem ser ignorados em Estados que se proclamam de direito. Quem sabe se os responsáveis dos crimes contra a humanidade, que de outra forma não posso chamar a esta crise financeira e económica internacional, não acabarão processados, como o foram Pinochet ou Videla ou outros ditadores terríveis que tanta dor espalharam? Quem sabe?
O juiz Baltasar Garzón fez-nos compreender a importância de não cair na vileza uma vez para não ficar para sempre vil. Quem conculca uma vez os direitos humanos, em Guantánamo, por exemplo, atira pela borda fora anos de direito e de legalidade. Não se pode ser cúmplice do caos internacional com que a administração Bush infectou meio mundo. Nem os governos, nem os cidadãos.
Um auditório multitudinário e atento seguiu as intervenções do juiz com respeito e consideração. E aplaudiu como quem ouve não verdades reveladas, mas sim a voz efectiva de que o mundo necessita para não cair na permissividade da abjecção.
A Fundação está contente: fizemos o que pudemos para recordar que há uma Declaração de Direitos Humanos, que estes não são respeitados e que os cidadãos têm de exigir que não se tornem em letra morta. Baltasar Garzón cumpriu a sua parte e tê-lo posto a claro esta tarde em Lisboa só pode fazer com que nos felicitemos.

José Saramago, in O caderno

21/06/2022

Amo a liberdade

 “Mudei me da casa dos eruditos e bati a porta ao sair. Por muito tempo, a minha alma assentou se faminta à sua mesa. Não sou como eles, treinados a buscar o conhecimento como especialistas em rachar fios de cabelo ao meio. Amo a liberdade. Amo o ar sobre a terra fresca. É melhor dormir em meios às vacas, que em meio às suas etiquetas e respeitabilidades.”

Friedrich Nietzsche, in Conversas com quem gosta de ensinar, de Rubem Alves

25/04/2022

A liberdade absurda

Agora o principal está feito. Detenho algumas evidências de que não posso me separar. O que sei, o que está certo, o que não posso negar, o que não posso rejeitar, eis o que vale. Posso negar tudo nessa parte de mim que vive de nostalgias incertas, menos esse desejo de unidade, essa fome de resolver, essa exigência de clareza e coesão. Posso contrariar tudo nesse mundo que me envolve, me choca ou me transporta, menos esse caos, esse rei acaso e essa divina equivalência que nasce da anarquia. Não sei se esse mundo tem um sentido que o ultrapasse. Mas sei que não conheço esse sentido e que, por ora, me é impossível conhecê-lo. Que significa, para mim, significado fora da minha condição? Só tenho como compreender em termos humanos. O que toco, o que me resiste, eis o que compreendo. E essas duas certezas, meu apetite de absoluto e de unidade, e a irredutibilidade desse mundo a um princípio racional e razoável, sei também que não posso conciliá-las. Que outra verdade posso reconhecer sem mentir, sem fazer intervir uma esperança que não tenho e que nada significa nos limites da minha condição?
Se eu fosse árvore entre as árvores, gato entre os animais, essa vida teria um sentido ou, antes, esse problema eu não o teria, pois faria parte do mundo. Eu seria esse mundo a que agora me oponho com toda a minha consciência e toda a minha exigência de familiaridade. Essa razão tão irrisória, é ela que me opõe a toda a criação. Não posso negá-la de uma penada. O que acredito verdadeiro, tenho, portanto, de manter. O que me parece tão evidente – mesmo contra mim – devo sustentar. E o que constitui o fundo desse conflito, dessa fratura entre o mundo e o meu espírito, se não a consciência que tenho dele? Se quero, pois, mantê-lo, é por uma consciência permanente, sempre empenhada, sempre renovada. Eis o que, por ora, preciso reter. Nesse momento, o absurdo, ao mesmo tempo tão evidente e tão difícil de conquistar, volta para a vida de um homem e reencontra sua pátria. Nesse momento, ainda, o espírito pode deixar a estrada árida e ressequida do esforço lúcido. Agora ela desemboca na vida cotidiana. Redescobre o mundo do “se” anônimo, mas o homem aí retorna, doravante com sua revolta e sua sagacidade. Desaprendeu de esperar. Esse inferno do presente é finalmente o seu reino. Todos os problemas readquirem os seus gumes. A evidência abstrata se retira ante o lirismo das formas e das cores. Os conflitos espirituais se encarnam e recobram o abrigo miserável e magnífico do coração humano. Ninguém está resolvido. Mas todos estão transfigurados.
Será preciso morrer, escapar pelo salto, reconstruir uma casa de ideias e de formas à sua medida? Vai-se, ao contrário, sustentar a aposta dilacerante e maravilhosa do absurdo? Façamos, a esse respeito, um último esforço e deduzamos todas as nossas consequências. O corpo, a ternura, a criação, a ação, a nobreza humana retomarão então seu lugar nesse mundo insensato. O homem reencontrará aí, enfim, o vinho do absurdo e o pão da indiferença com que alimenta sua grandeza.
Insistamos ainda sobre o método: trata-se de se obstinar. A uma certa altura do seu caminho, o homem absurdo é solicitado. A história não tem falta de religiões, nem de profetas, ainda que sem deuses. Pede-se a ele que salte. Tudo que pode responder é que não compreende bem, que isso não é evidente. Não quer fazer exatamente o que compreende bem. Asseguram-lhe que é pecado de orgulho, mas ele não entende a noção de pecado; que no final talvez esteja o inferno, mas ele não tem bastante imaginação para se representar esse estranho futuro; que ele perde a vida eterna, mas isso lhe parece fútil: Pretenderiam fazê-lo reconhecer sua culpabilidade. Ele se sente inocente. Na verdade, só sente isso, sua inocência irreparável. É ela que lhe permite tudo. Assim, o que ele exige de si mesmo é viver somente com o que sabe, arranjar-se com o que existe e não fazer intervir nada que não seja certo. Respondem-lhe que nada o é. Mas esta, pelo menos, é uma certeza. É dela que ele precisa: quer saber se é possível viver sem apelação.
Posso tratar agora da noção de suicídio. Já se sentiu que solução é possível lhe dar. Quanto a isso, o problema está invertido. Trata-se, anteriormente, de saber se a vida devia ter um sentido para ser vivida. Aqui fica parecendo, ao contrário, que ela será vivida melhor ainda se não tiver sentido. Viver uma experiência, um destino, é aceitá-la plenamente. Ora, não se viverá esse destino, sabendo-o absurdo, se não se faz tudo para manter diante de si esse absurdo aclarado pela consciência. Negar um dos termos da oposição de que ele vive é escapar-lhe. Abolir a revolta consciente é esquivar-se ao problema. O tema da revolução permanente se transporta assim para a experiência individual. Viver é fazer viver o absurdo. Fazê-lo viver é, antes de tudo, encará-lo. Ao contrário de Eurídice, o absurdo só morre quando alguém se desvia dele. Assim, uma das únicas posições filosóficas coerentes é a revolta. Ela é um confronto permanente do homem com sua própria obscuridade. É exigência de uma impossível transparência. E, a cada segundo, questiona o mundo de novo. Assim como o perigo apresenta ao homem a insubstituível ocasião de apoderar-se dela, também a revolta metafísica estende toda a consciência ao longo da experiência. Ela é presença constante do homem consigo mesmo. Ela não é aspiração, não tem esperança. Essa revolta é apenas a certeza de um destino esmagador, sem a resignação que deveria acompanhá-la.
É aqui que se vê a que ponto a experiência absurda se afasta do suicídio. Pode-se acreditar que o suicídio se segue à revolta. Mas é engano. Porque ele não representa o resultado lógico. É precisamente o seu contrário, pelo consentimento que envolve. O suicídio, como salto, é a aceitação em seu limite. Tudo está consumado: o homem volta à sua história essencial. Seu futuro, seu único e terrível futuro, ele o distingue e se precipita. À sua maneira, o suicida resolve o absurdo. Ele o arrasta na mesma morte. Mas eu sei que, para se manter, o absurdo não pode se revolver. Ele escapa ao suicídio à medida que é, ao mesmo tempo, consciência e recusa da morte. É, no ponto extremo do último pensamento do condenado à morte, esse cordão de sapato que apesar de tudo ele percebe a alguns metros, em cima da própria margem de sua queda vertiginosa. O contrário do suicida é, precisamente, o condenado à morte.
Essa revolta dá o seu preço à vida. Estendida ao longo de toda uma existência, ela lhe devolve sua grandeza. Para um homem sem antolhos, não existe espetáculo mais belo que o da inteligência lutando contra uma realidade que o ultrapassa. O espetáculo do orgulho humano é inigualável. Todas as depreciações resultam em nada. Essa disciplina que o espírito impõe a si próprio, essa vontade forjada de todas as peças, esse face-a-face têm algo de poderoso e singular. Empobrecer essa realidade cuja inumanidade faz a grandeza do homem é, paralelamente, empobrecer a ele mesmo. Compreendo então por que as doutrinas que me explicam tudo me enfraquecem ao mesmo tempo. Elas me descarregam do peso da minha própria vida e o que é mais necessário, no entanto, é que eu o suporte sozinho. A essa altura só posso conceber que uma metafísica cética vá se aliar a uma moral da renúncia.
Consciência e revolta: essas recusas são o contrário da renúncia. Tudo o que há de irredutível e apaixonado num coração humano as estimula, ao contrário de sua vida. Trata-se de morrer irreconciliado, não de boa vontade. O suicídio é um irreconhecimento. O homem absurdo só pode esgotar tudo, e se esgotar. O absurdo é sua tensão extrema, a que ele mantém constantemente com um esforço solitário, porque sabe que nessa consciência e nessa revolta de cada dia ele testemunha sua única verdade, que é o desafio. É esta uma primeira consequência.
Se me mantenho nessa posição estipulada, que consiste em extrair todas as consequências (e nada além delas) que acarreta uma noção descoberta, me coloco diante de um segundo paradoxo. Para permanecer fiel a esse método, não tenho nada a fazer com o problema da liberdade metafísica. Não me interessa saber se o homem é livre. Só posso pôr à prova a minha própria liberdade. A respeito dela, não posso ter noções gerais, mas algumas impressões inteligíveis. O problema da “liberdade em si” não tem sentido. Porque ele, de uma maneira inteiramente diversa, também está ligado ao de Deus. Saber se o homem é livre exige que se saiba se ele pode ter um senhor. A absurdidade peculiar a esse problema provém de que a própria noção que torna possível o problema da liberdade lhe suprime, ao mesmo tempo, todo o sentido. Porque, diante de Deus, há menos um problema da liberdade que um problema do mal. Conhecemos a alternativa: ou nós não somos livres, e Deus todo-poderoso é responsável pelo mal, ou somos livres e responsáveis, mas Deus não é todo-poderoso. Todas as sutilezas das várias escolas não acrescentaram nem subtraíram nada ao corte desse paradoxo.
É por isso que eu não posso me perder na exaltação ou na simples definição de uma noção que me escapa e que perde o sentido a partir do instante em que excede os limites da minha experiência individual. Não posso compreender o que pode ser uma liberdade que me seria dada por um ser superior. Perdi o sentido da hierarquia. Só posso ter, da liberdade, a concepção do prisioneiro ou do indivíduo moderno submetido ao Estado. A única que conheço é a liberdade de espírito e de ação. Ora, se o absurdo aniquila todas as minhas possibilidades de liberdade eterna, ele em contrapartida me devolve e exalta minha liberdade de ação. Essa privação de esperança e de futuro significa um crescimento na disponibilidade do homem.
Antes de deparar com o absurdo, o homem cotidiano vive com objetivos, uma preocupação com o futuro ou com a justificação (acerca de quem ou de que não nos importa). Ele avalia suas possibilidades, conta com o mais tarde, com sua aposentadoria ou o trabalho de seus filhos. Ainda acredita que alguma coisa da sua vida pode ser manobrada. Na verdade, ele age como se fosse livre, ainda que todos os fatos se encarreguem de contradizer essa liberdade. Após o absurdo, tudo se acha abalado. Essa ideia de que “eu sou”, minha maneira de agir como se tudo tivesse um sentido (mesmo se eu dissesse, no momento, que nada o tinha), tudo isso se encontra desmentido de uma forma vertiginosa pela incoerência de uma morte possível. Pensar no dia de amanhã, firmar um objetivo, ter preferências, tudo isso pressupõe a crença na liberdade, mesmo se às vezes nos convencemos de não a sentir efetivamente. Nesse instante, porém, essa liberdade superior, essa liberdade de ser que é a única a poder fundamentar uma verdade, sei muito bem, agora, que ela não existe. A morte está ali como única realidade. Depois dela, a sorte está lançada. Não sou mais livre para me perpetuar, mas escravo, e escravo, sobretudo, sem esperança de revolução eterna, sem refúgio no desprezo. E quem, sem revolução e sem desprezo, pode permanecer escravo? Que liberdade, no sentido pleno pode existir sem garantia de eternidade?
Mas, ao mesmo tempo, o homem absurdo compreende que, até ali, ele estava ligado a esse postulado de liberdade com cuja ilusão vinha vivendo. De certo modo, isso o atrapalhava. À proporção que imaginava um objetivo para sua vida, ele se conformava com as exigências de um objetivo a atingir e se tornava escravo de sua liberdade. Assim, eu não saberia mais agir a não ser como o pai de família (ou o engenheiro, ou o líder popular, ou o extranumerário dos Correios e Telégrafos) que me preparo para ser. Acredito que posso melhor escolher ser isso do que outra coisa. Acredito-o inconscientemente, é bem verdade. Mas defendo, ao mesmo tempo, meu postulado das crenças dos que me cercam, preconceitos do meu ambiente humano (os outros estão tão seguros de ser livres e esse bom humor é tão contagiante!). Por mais longe que se possa ficar de todo preconceito moral ou social, está-se em parte exposto a eles e mesmo, pelos melhores (há bons e maus preconceitos), amoldamos nossa vida. Assim o homem absurdo compreende que ele não era realmente livre. Para ser claro, à medida que espero, que me inquieto com uma verdade que me seja própria, com um modo de ser ou de criar, à medida, enfim, que organizo a vida e que provo, por isso, que admito tenha ela um sentido, vou me criando barreiras dentro das quais fecho a minha vida. Faço como tantos funcionários do espírito e do coração que só me causam repulsa e que não fazem outra coisa – vejo-o agora muito bem – senão levar a sério a liberdade do homem.
O absurdo me esclarece sobre esse ponto: não há o dia de amanhã. Eis, daqui em diante, a razão da minha liberdade profunda. Vou fazer agora duas comparações. À primeira vista, os místicos encontram uma liberdade para se dar. Absorvendo-se em seu deus, consentindo em suas regras, eles se tornam secretamente livres a seu modo. É na escravidão espontaneamente consentida que eles reencontram uma independência profunda. Mas que significa essa liberdade? Pode-se dizer, sobretudo, que eles se sentem livres diante de si mesmos e menos livres do que, sobretudo, libertados. Da mesma forma, inteiramente voltado para a morte (compreendida aqui como a absurdidade mais evidente), o homem absurdo se sente desembaraçado de tudo o que não é essa atenção apaixonada que se cristaliza nele. Ele prova uma liberdade no que diz respeito às normas comuns. Vê-se, agora, que os temas de que partiu a filosofia existencial conservam todo o seu valor. O retorno à consciência, a evasão para fora do sono cotidiano representam os primeiros procedimentos da liberdade absurda. Mas é a pregação existencial que se tem em mira e, com ela, esse salto espiritual que, no fundo, escapa à consciência. De igual modo (é a minha segunda comparação), os escravos da Antiguidade não podiam dispor de si mesmos. Mas eles conheciam essa liberdade que consiste em mão se sentir de modo algum responsável. Também a morte tem mãos patrícias que esmagam, mas que libertam.
Absorver-se nessa certeza sem fundo, sentir-se doravante tão estrangeiro em sua própria vida a ponto de aumentá-la e percorrê-la sem a miopia do amante, eis aí o princípio de uma libertação. Essa nova liberdade tem um prazo, como toda liberdade de ação. Ela não passa cheque para a eternidade. Substitui, porém, as ilusões da liberdade, que se detinham todas com a morte. A divina disponibilidade do condenado à morte diante de quem se abrem as portas da prisão em meio a um certo – e tênue – alvorecer, esse inacreditável desinteresse em relação a tudo, salvo para com a pura chama da vida, a morte e o absurdo são então – percebe-se claramente – os princípios da única liberdade razoável: a que um coração humano pode experimentar e viver. Esta é uma segunda consequência. O homem absurdo entrevê, assim, um universo ardente e gélido, transparente e limitado, em que nada é possível, mas tudo já se deu, depois do que vem o desmoronamento e o nada. Ele pode, então, decidir aceitar sua vida em semelhante universo e dele retirar suas forças, sua recusa à espera e o testemunho obstinado de uma vida sem consolação.
Mas o que significa a vida em semelhante universo? No momento, nada além da indiferença para com o futuro e a paixão de esgotar tudo o que se deu. A crença no sentido da vida compreende sempre uma escala de valores, uma escolha, preferências. A crença no absurdo, segundo as nossas definições, ensina o oposto. Mas nisso vale a pena que nos detenhamos. Saber se alguém pode viver sem apelação é tudo o que me interessa. Não quero sair nem um pouco desse ponto. Sendo-me assim manifesta essa fisionomia da vida, tenho como me acomodar a ela? Ora, em face dessa preocupação especial, a crença no absurdo passa a substituir a qualidade das experiências pela quantidade. Se me convenço que essa vida não tem outra face além da do absurdo, se comprovo que todo o seu equilíbrio depende dessa permanente oposição entre a minha revolta consciente e a obscuridade em que ela se debate se admito que a minha liberdade só tem sentido na relação com o seu destino limitado, então eu tenho de dizer que o que vale não é viver melhor mas viver mais. Não preciso me perguntar se isso é vulgar ou enfadonho, elegante ou lamentável. De uma vez por todas estão afastados daqui os juízos de valor em benefício dos juízos de fato. Tenho apenas de tirar minhas conclusões do que posso ver e não arriscar nada que não passe de hipótese. Supondo-se que viver assim não fosse honesto, então a verdadeira honestidade me obrigaria a ser desonesto.
Viver mais: em sentido amplo, essa regra de vida não significa nada. É necessário deixá-la mais precisa. À primeira vista, parece não se ter aprofundado suficientemente essa noção de quantidade. Porque ela pode abranger uma grande parte da experiência humana. A moral de um homem, sua escala de valores só têm sentido pela quantidade e variedade de experiências que lhe foi dado acumular. Ora, as condições da vida moderna impõem à maioria dos homens a mesma quantidade de experiências e, consequentemente, a mesma experiência profunda. É claro que também é preciso considerar a contribuição espontânea do indivíduo, o que nele já é “dado”. Mas eu não posso julgar isso e mais uma vez a minha regra aqui é a de me dispor de evidência imediata. Vejo então que o caráter particular de uma moral comum reside menos na importância ideal dos princípios que a animam do que na norma de uma experiência que é possível mensurar. Forçando um pouco as coisas, os gregos tinham a moral de seus lazeres como nós temos a das nossas jornadas de oito horas. Mas muitos homens – no meio dos mais trágicos – já nos fazem pressentir que uma experiência mais longa altera o quadro dos valores. Eles nos fazem imaginar esse aventureiro do cotidiano que pela simples quantidade das experiências bateria todos os recordes (emprego de propósito esse vocábulo esportivo) e ganharia assim a sua própria moral. Afastemo-nos, porém, do romantismo e nos perguntemos somente o que pode significar essa atitude para um homem decidido a manter sua aposta e a observar estritamente o que acredita ser a regra do jogo.
Bater todos os recordes é antes de tudo, e unicamente, estar diante do mundo com a maior constância possível. Como se pode fazer isso sem contradições e sem trocadilhos? Porque, de um lado, o absurdo ensina que todas as experiências são indiferentes e, de outro, ele impele para a maior quantidade de experiências. Como, então, não fazer como tantos desses homens de que eu falava mais acima, escolher a forma de vida que nos proporciona essa matéria humana o máximo possível, adotar assim uma escala de valores que, de outra parte, se pretende rejeitar?
Mas é ainda o absurdo, e sua vida contraditória, que nos ensina. Porque o erro está em pensar que essa quantidade de experiências depende das circunstâncias da nossa vida, quando ela só depende de nós. Aqui, é preciso ser simplista. A dois homens que vivem o mesmo número de anos o mundo fornece sempre a mesma soma de experiências. Cabe a nós estarmos conscientes delas. Sentir sua vida, sua revolta, sua liberdade, e o máximo possível, é viver, e o máximo possível. Aí onde reina a lucidez, a escala de valores se torna inútil. Sejamos ainda mais simplistas. Dissemos que o único obstáculo, a única “falta a ganhar” é constituída pela morte prematura. O universo aqui sugerido só vive em oposição a essa constante exceção que é a morte. É assim que nenhuma profundeza, nenhuma emoção, nenhuma paixão e nenhum sacrifício poderiam tornar iguais aos olhos do homem absurdo (mesmo se ele o desejasse) uma vida consciente de quarenta anos e uma lucidez estendida por sessenta anos. A loucura e morte são irremediáveis. O homem não escolhe. O absurdo e o acréscimo de vida que ele comporta não dependem da vontade do homem, mas de seu contrário que é a morte. Pesando bem as palavras, trata-se unicamente de uma questão de possibilidade. É preciso saber e consentir. Vinte anos de vida e de experiências jamais se substituirão.
Por uma estranha inconsequência de uma raça tão prevenida, os gregos pretendiam que os homens que morressem jovens fossem amados dos deuses. E isso só é verdadeiro se quisermos admitir que entrar no mundo irrisório dos deuses é perder para sempre a mais pura das alegrias, que é sentir e sentir sobre esta terra. O presente e a sucessão dos presentes diante de uma alma de incessante consciência é o ideal do homem absurdo. Mas a palavra ideal, aqui, soa falso. Não é mesmo sua vocação, mas somente a terceira consequência do seu raciocínio. Parte de uma consciência angustiada do inumano, a meditação sobre o absurdo retorna, no fim de seu itinerário, ao próprio cerne das chamas apaixonadas da revolta humana.
Assim, eu extraio do absurdo três consequências que são minha revolta, minha liberdade e minha paixão. Apenas com o jogo da consciência transformo em regra de vida o que era convite à morte – e recuso o suicídio. Conheço, sem dúvida, a surda ressonância que se estende ao longo desses dias. Mas só tenho uma palavra a dizer: é que ela é necessária. Quando Nietzsche escreve: “Parece claramente que a coisa mais importante no céu e sobre a terra é obedecer por muito tempo e numa mesma direção: com o passar dos dias, surge daí alguma coisa pela qual nos vale a pena viver sobre esta terra como, por exemplo, a virtude, a arte, a música, a dança, a razão, o espírito, alguma coisa que transfigura, alguma coisa de refinado, de louco ou de divino”, ele ilustra uma moral de grande discernimento. Mas também mostra o caminho do absurdo. Obedecer à chama é ao mesmo tempo o que há de mais fácil e de mais difícil. É bom, contudo, que o homem, confrontando-se com a dificuldade, se julgue de vez em quando. Está sozinho para poder fazê-lo.
A prece”, diz Alain, “é quando a noite vem sobre o pensamento”. “Mas é preciso que o espírito encontre a noite”, respondem os místicos e os existenciais. Certamente, mas não essa noite que nasce sob os olhos fechados e só pela vontade do homem – noite sombria e fechada que o espírito suscita para nela se perder. Se ele deve achar uma noite, que seja antes aquela do desespero que se mantém lúcido, noite polar, vigília do espírito, de que talvez se levantará essa claridade branca e intacta que desenha cada objeto à luz da inteligência. A essa altura, a equivalência reencontra a compreensão apaixonada. Já não se trata de julgar o salto existencial. Ele retoma seu lugar no meio do afresco secular das atitudes humanas. Para o espectador, se está consciente, esse salto é ainda absurdo. À medida que acredita resolver esse paradoxo, ele o restabelece por completo. Sob esse aspecto, é comovedor. Sob esse aspecto, tudo retoma seu lugar e o mundo absurdo renasce em seu esplendor e sua diversidade.
Mas é ruim parar, é difícil contentar-se com uma maneira de ver, privar-se da contradição, talvez a mais sutil de todas as formas espirituais. O que se diz acima só define um modo de pensar. Agora, a questão é viver.

Albert Camus, in O Mito de Sísifo Ensaio sobre o absurdo

16/02/2022

Liberdade

 “Tivemos liberdade para torturar, para matar, para assassinar, e tivemos liberdade para lutar, para seguir em frente, para tentar manter a dignidade. É aterrador o uso que se pode fazer de uma palavra. O importante é que haja presença de um senso de responsabilidade cívica, de dignidade pessoal, de respeito coletivo; se se mantém, se se constrói, se não se aceita cair na resignação, na apatia, na indiferença, isso pode ser uma simples semente para que algo mude. Mas eu estou muito consciente de que isso, por sua vez, não significa muito.”

José Saramago, in As palavras de Saramago

21/04/2021

Ideia de liberdade

Se examinarmos um indivíduo isolado sem o relacionarmos com o que o rodeia, todos os seus atos nos parecem livres. Mas se virmos a mínima relação entre esse homem e quanto o rodeia, as suas relações com o homem que lhe fala, com o livro que lê, com o trabalho que está fazendo, inclusivamente com o ar que respira ou com a luz que banha os objetos à sua roda, verificamos que cada uma dessas circunstâncias exerce influência sobre ele e guia, pelo menos, uma parte da sua atividade. E quantas mais influências destas observamos mais diminui a ideia que fazemos da sua liberdade, aumentando a ideia que fazemos da necessidade a que está submetido.
(...) A gradação da liberdade e da necessidade maiores ou menores depende do lapso de tempo maior ou menor desde a realização do ato até à apreciação desse mesmo ato. Se examino um ato que pratiquei há um minuto em condições quase as mesmas em que me encontro atualmente, esse ato parece-me absolutamente livre. Mas se aprecio um ato realizado há um mês, ao encontrar-me em circunstâncias diferentes, a meu pesar, se não tivesse realizado esse ato, não existiriam muitas coisas inúteis, agradáveis e necessárias que derivam dele. Se me translado com a memória a um ato mais remoto, a um ato de há dez anos ou mesmo mais, então as suas consequências ainda se me apresentarão mais evidentes e ser-me-á difícil representar-me seja o que for, caso aquele ato remoto nunca tivesse existido.
Quanto mais retroceder na minha memória, ou, o que vem a dar na mesma, quanto mais projetar no futuro o meu juízo, tanto mais duvidosos me parecerão os meus raciocínios acerca da liberdade do ato realizado.

Leon Tolstoi, in Guerra e Paz

17/02/2021

Libertação

Não há maior euforia, numa orquestra, como a dos pratos — tlin! tlin! tlan!!! — quando se vingam, enfim, do seu longo, do seu forçado silêncio.

Mário Quintana, in Caderno H

07/08/2020

Da liberdade

A liberdade é uma virtude e, portanto, tudo que em alguém é sinal de impotência não pode ser atribuído à sua liberdade. (…) Quanto mais livre alguém é, menos podemos dizer que esse alguém pode não usar da razão e escolher o mal em vez do bem.”
Spinoza, in Tratada político II, VII

03/08/2020

Se julgam livres

Uma criancinha acredita apetecer, livremente, o leite; um menino furioso, a vingança; e o intimidado, a fuga. Um homem embriagado também acredita que é pela livre decisão de sua mente que fala aquilo sobre o qual, mais tarde, já sóbrio, preferiria ter calado. Igualmente, o homem que diz loucuras, a mulher que fala demais, a criança e muitos outros do mesmo gênero acreditam que assim se expressam por uma livre decisão da mente, quando, na verdade, não são capazes de conter o impulso que os leva a falar. Assim, a própria experiência ensina, não menos claramente que a razão, que os homens se julgam livres apenas porque são conscientes de suas ações, mas desconhecem as causas pelas quais são determinados.”
Spinoza, in Ética

11/05/2020

Liberdade

Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.
Miguel Torga

27/12/2019

Acerca da liberdade

Há muitas espécies de liberdade. Umas tem o mundo de menos, outras tem o mundo de mais. Mas ao dizer que pode haver “de mais” de uma certa espécie de liberdade devo apressar-me a acrescentar que a única espécie de liberdade que considero indesejável é aquela que permite diminuir a liberdade de outrem, por exemplo, a liberdade de fazer escravos.
O mundo não pode garantir-se a maior quantidade possível de liberdade instituindo, pura e simplesmente, a anarquia, pois nesse caso os mais fortes seriam capazes de privar da liberdade os mais fracos. Duvido de que qualquer instituição social seja justificável se contribui para diminuir o quantitativo total de liberdade existente no mundo, mas certas instituições sociais são justificáveis apesar do fato de coagirem a liberdade de um certo indivíduo ou grupo de indivíduos.
No seu sentido mais elementar, liberdade significa a ausência de controles externos sobre os atos de indivíduos ou grupos. Trata-se, portanto, de um conceito negativo, e a liberdade, por si só, não confere a uma comunidade qualquer alta valia. Os Esquimós, por exemplo, podem dispensar o Governo, a educação obrigatória, o código das estradas, e até as complicações incríveis do código comercial. A sua vida, portanto, goza de um alto grau de liberdade; contudo, poucos homens civilizados prefeririam viver assim a viver no seio de uma comunidade mais organizada.
A liberdade é um requisito indispensável para a obtenção de muitas coisas valiosas; mas essas coisas valiosas têm de partir dos impulsos, desejos e crenças daqueles que desfrutam dessa liberdade. A existência de grandes poetas confere um certo brilho a uma comunidade, mas não se pode ter a certeza de que a comunidade produzirá grande poesia só pelo fato de não existir uma lei que a proíba. De uma maneira geral, consideramos justo que se obrigue a juventude a ler e a escrever, ainda que a maioria dos jovens preferisse o contrário; fazemos isso porque acreditamos em bens positivos que só um alto grau de alfabetização torna possível. Mas, ainda que a liberdade não constitua o total das coisas socialmente desejáveis, é tão necessária para a obtenção da maioria delas, e corre tanto o risco de ser insensatamente limitada, que mal será possível exagerar a sua importância.
Bertrand Russell, in Realidade e ficção

25/11/2019

Direito e liberdade

A cultura jurídica estabelece um círculo de preservação admirável, nestes períodos retrocessivos de indiferença, medo e sicofantismo, contra a infecção reinante. O trato usual do direito, o hábito do seu estudo, a influência penetrante da sua assimilação, nos acostumam a viver na razão, na lógica, na equidade, na moral, nos ensinam e predispõem a desprezar a força. Quando esta se apodera de uma sociedade, e, sob a pressão do seu contacto, a desmedula, a esvazia, a consome, a prostitui, a cadaveriza, cobrindo-a de vermes, as associações do gênero da vossa abrem, aos refratários, um refúgio abençoado. E, se um dia, após as longas tribulações desse gênero de tifismo, a coletividade em perigo emerge, afinal, desmorrendo, recobra a consciência de si mesma, convalesce na inteligência, na energia, no asseio, na honra, então nestes centros de reação persistente é que ela vem encontrar o tabernáculo das tradições da sua dignidade.
Outras não devem ser as afinidades, que aproximam do meu o vosso espírito, e embebem a solenidade que nos une deste alvoroço, desta efusão, deste suave calor reconfortante. Vinte anos há que me eu mato, clamando aos meus concidadãos contra a imoralidade e a baixeza da força, apostolando-lhes a nobreza e a santidade da lei. Toda a existência do nosso regímen se tem consumido nesse incessante conflito entre o princípio do bem e o do mal, com a prevalência, por derradeiro, do princípio do mal sobre o do bem. O meu papel, nesta fase histórica, espelha, dia a dia, esta luta. Outra coisa não sou eu, se alguma coisa tenho sido, senão o mais irreconciliável inimigo do governo do mundo pela violência, o mais fervoroso predicante do governo do homem pelas leis.
Se de algum modo mereci a fortuna da vossa eleição, de certo não foi por este. Os frutos da minha vida são escassos e tristes, bem que os seus ideais tenham sido grandes e belos. Muito é o bem a que tenho aspirado; mas o colhido, muito pouco. Não será, logo, pelo acervo dos resultados, que me teria feito digno do ingresso ao vosso consórcio. O que eu, aos vossos olhos, realmente valer, só se explicará, já se vê, pela excelência das convicções, que têm moldado o caráter da minha passagem por entre os meus contemporâneos, e determinaram no meio deles a minha posição atual.
Duas profissões tenho amado sobre todas: a imprensa e a advocacia. Numa e noutra me votei sempre à liberdade e ao direito. Nem numa nem noutra conheci jamais interesses, ou fiz distinção de amigos a inimigos, toda vez que se tratava de servir ao direito, ou à liberdade.
Rui Barbosa, in Antologia

13/11/2019

Hino à liberdade

Fora da liberdade, não sonhe ninguém a verdadeira prosperidade, material ou intelectual. Vós os que buscais na terra, amanhada com devoção, os tesouros, que vos oculta o seu seio inexaurível, não acrediteis que o trabalho possa medrar onde uns homens são servos de outros, onde a raça perde a sua virilidade no cativeiro, onde o torrão que se ara com amor se encrava nos desertos estéreis da escravidão. Vós os que vos tendes entregado às artes, às letras, às ciências, não esqueçais que de todas elas a mãe é a liberdade, e que sem esta o desenvolvimento daquelas é uma quimera fatal.
Do mundo antigo só não pereceram, para o cabedal estável do gênero humano, o cristianismo e a civilização grega, de que a romana é um longo reflexo. Mas o primeiro nos trouxe a liberdade no verbo divino da redenção pela justiça, pela tolerância, pela igualdade, e a segunda floresceu com a liberdade na eloquência, na filosofia, nas obras-primas da grande inspiração, nas supremas expressões humanas do belo.
Dezenas de séculos não lograram destruir a ânfora sagrada, que o gênio livre da Grécia inclinou à beira do mar Jônio; e é ainda ali que o pensamento busca hoje as suas origens, que os grandes renovadores da nossa cultura vão achar as fontes eternas, os modelos inimitáveis da transparência luminosa, da sinceridade e da natureza.
Rui Barbosa, in Antologia

31/10/2019

Dos fatos, da liberdade

Abandonar os fatos é abandonar a liberdade. Se nada for verdadeiro, ninguém poderá criticar o poder, porque não haverá uma base para fazê-lo. Se nada for verdadeiro, tudo é espetáculo. A carteira mais recheada garante a pirotecnia mais ofuscante.”
Timothy Snyder, in Sobre a tirania: vinte lições do século XX para o presente

30/09/2019

Acerca da liberdade

Não creio, no sentido filosófico do termo, na liberdade do homem. Todos agem não apenas sob um constrangimento exterior mas também de acordo com uma necessidade interior.”
Albert Einstein, in Como vejo o mundo

23/09/2019

Seja o mais corajoso possível


Se nenhum de nós estiver disposto a morrer pela liberdade, todos morreremos sob a tirania.”
Timothy Snyder, in Sobre a tirania: vinte lições do século XX para o presente
Snyder fecha seu livro afirmando que ‘tivemos nossa guarda baixadas’, iludidos com a política da inevitabilidade, que era a ideia de que a história estava fadada a se mover em uma só direção: a da Democracia Liberal. Fomos impregnados com o mito do ‘fim da história’.
Com essa espécie de letargia, reprimimos a imaginação, e abrimos caminho para que germes de regimes que prometemos nunca mais reviver voltassem a nos rondar. A história deixou de ser relevante, logo, quando ela se mostra disposta a se repetir, somos pegos desprevenidos.
Além da política da inevitabilidade, também fomos atingidos pela política da eternidade: ela se interessa pelo passado, mas de forma egocêntrica, livre de qualquer compromisso com a objetividade dos fatos.
O espírito de nostalgia reina nessa política, um desejo de retorno de momentos gloriosos que jamais aconteceram, e que, na realidade, foram desastrosos — e quase sempre tirânicos/ditatoriais.
Para o autor, corremos o perigo de passar da política da inevitabilidade para a política da eternidade, de uma ingênua e imperfeita república democrática para uma confusa e cínica oligarquia fascista.
Uma coisa é certa: se os jovens não começarem a fazer história, os políticos da eternidade e da inevitabilidade a destruirão. E, para fazer história, os jovens terão de conhecê-la um pouco. Isso não é o fim, mas um começo.”