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19/01/2021

Presente

          Luísa completava dezesseis anos. A mãe era só mais uma estrela no céu a brilhar. O irmão não morava com eles. Nem mesmo o pai lembrara dos seus anos — fora jogar a carpeta nalgum bolicho próximo. Pouco importava. Colocou o melhor de seus vestidos e, enquanto o sol cumpria seu ritual, a menina foi se afastando de casa. Com os pés descalços, corria em direção ao pequeno bosque de árvores frutíferas que cuidava com carinho e especial dedicação.
Desde que Antônio voltara para vê-la, mantinham aquele ritual secreto de adolescentes. Ela lembrava, ainda de um outro dia, há quase dois meses atrás, quando ele perguntara a ela se podia voltar. O pai e o irmão chamavam-na ao longe, e ela correu para ver o que queriam. Mas, daquela vez, não deixou Antônio sem respostas. Olhou para trás, olhos faiscando, e disse baixinho, quase um sussurro: Volta amanhã.
E ele voltou. Aquela e muitas outras vezes. Certo dia, foram flagrados aos risos. Luísa assustou-se, porém reconheceu os olhos acolhedores da dona Graça, a parteira. Dona Graça reconheceu os dois jovens e acenou. Ajudara os dois a nascerem. Quem sabe ajudaria também seus filhos? A mulher, tesoura de ferro nas mãos, sorriu e continuou sua caminhada.
No dia do seu aniversário, Luísa esperou por Antônio ainda mais bonita. Colocou no cabelo uma flor, brinco de princesa, que em seus tons de violeta realçavam ainda mais a sua beleza agreste. Quando Antônio apeou do bragado, agora já manso e sujeito, teve a certeza de que não poderia mais viver sem ela.
Estás muy linda, Luísa.
É meu aniversário, sabia?
Por que não me disse antes? Não trouxe nenhuma prenda pra te dar.
Não precisa... Nunca ganho nada.
A frase foi dita sem nenhum rancor ou mágoa.
Espera aí! — disse ele, e foi correndo em direção a uma centenária figueira que estendia seus braços próximo dali. Subiu no tronco forte da árvore e foi se empoleirando até alcançar as frutas que já estavam maduras. Pegou quantos figos gota-de-mel conseguiu.
Alcançou para Luísa o maior e mais bonito de todos. Ficou próximo o bastante para ver seu próprio reflexo nos olhos da jovem, que brilhavam cheios de promessas. A menina sorriu seu sorriso cheio de covinhas e deu uma mordida no figo. Ofereceu-lhe uma mordida também. Riam, porque cúmplices de um mesmo sentimento.
De repente, uma leve brisa sacudiu o fino tecido do vestido e fez com que uma mecha de cabelos escondesse o olhar de Luísa. Antônio, como por reflexo, tirou os cabelos da fronte da menina, arrepiando os pelos de seu braço e da sua nuca. Encararam-se e, a partir dali, nada mais importava. Beijaram-se, um beijo doce e nervoso. Gotas de mel.
Ele deslizou o vestido pelos ombros de Luísa, que estava entregue. Revelou-se a ele o corpo amorenado, de seios pequenos e pernas rijas, cobertas por uma fina penugem arrepiada. Estavam prontos para seu destino. Descobriram, juntos, o primeiro amor.
Nem repararam que, perto dali, alguém os observava.

R. Tavares, in Andarilhos

13/01/2021

Qual era o nome dela mesmo?

          Dona Quitéria, com suor a lhe manchar as vestes, mexia lentamente o doce que estava preparando no velho tacho de cobre. A mulher, gorda e retaca, exibia uma cara simpática de sorriso fácil.
As mãos de dedos curtos eram hábeis na arte de preparar alimentos. Ninguém por aquelas bandas era mais requisitado para ajudar nos festejos de casamento, nos aniversários, nas surpresas ou nas marcações festivas.
Escutou barulhos na mangueira. Pisadas de cavalo no chão duro dos palanques. Tentava adivinhar qual dos seus estava chegando. Os passos pararam na porta da casita humilde. O dono deles bateu com as botas no chão, para que caísse o barro e o pasto preso aos tacos das botas. Quitéria soube que era seu marido quem chegava.
Como le vá, minha prenda? — perguntou Índio Feio, com a voz grave e baixa, como se brotasse direto do peito e não da garganta.
Gorda, linda e sã de lombo. Sentes o cheiro?
Mas claro! Ainda não fiz meu banho... Arriá!
O riso alto e franco da esposa fazia com que a face sisuda do marido parecesse mais leve. Surgiu um risco de sorriso naquela cara sempre sóbria. O homem tirou a bandana da cabeça, revelando os cabelos negros e lisos, e a cara com poucos fios de barba, nada mais que uma penugem. Ninguém arriscaria adivinhar sua idade.
Não entendi a piada, mulher!
O riso é porque perguntei do cheiro do doce. Mas vai lá preparar teu banho, tem água na pipa, ali nos fundos.
O homem encheu a gamela, atirou as roupas no canto da sala e entrou no banho, sentindo, com prazer, o frescor da água salobra. Dona Quitéria admirava o marido enquanto seguia seu trabalho. Lembrava como se fosse ontem, quando o domador passara pela estância onde ela ajudava na cozinha. Diziam que ele andava por aquelas bandas fugido, teria matado uns dois ou três lá pelos campos das tais Missões. Nunca perguntou, não importava. Quando ele entregara a tropilha, ela se foi embora junto, na garupa de seu cavalo.
Escutou, ao longe, o assobio do filho que desencilhava o potro. Logo, Antônio estava por ali:
Buenas, mãe... Pai...
Que passou que vem pra casa assobiando? — indagou a mãe com olhos perscrutadores.
Nada. — respondeu Antônio.
Tira as botas, busca a vassoura no galpão e me limpa essa sujeirada que fizesse. Já limpei a casa hoje!
Está certo, mãe. Pai, o senhor viu que o colorado do velho Amâncio tá com sangue no mandrilho? Não tá com bicheira?
O homem abriu lentamente os olhos e perguntou, sério:
Se viu sangue, por que já não examinou se tinha bicheira?
Querendo, vejo agora, pai.
Não precisa. Já vi e já benzi. Amanhã a ferida tá seca e os bichos terão caído. Não tinha muitos — encarou o filho . — Dá próxima vez vai direto ver se tem bicho. Não pode facilitar, meu filho. E o bragado? Tá pronto?
Conversaram até a lua estar postada bem alta no céu. Antônio estava distraído. Não conseguia espantar da cabeça a menina do arroio.
Qual era o nome dela mesmo?
Esquecera de perguntar.

R. Tavares, in Andarilhos

03/01/2021

Luísa

          Licó, com seu chapéu de aba curta e o bigodão sobre os lábios, fez sua proposta para o velho pai e aguardava, pacientemente, a resposta.
Meu filho, — disse o Saraiva com aquela voz fina quase em falsete, que contrastava com sua cara sisuda — não criei filha minha pra andar de conversa com o filho daquele índio bandido. Tem certeza mesmo disto que tu está me dizendo?
É o que andam falando. Não custa nada se precaver, não é mesmo?
Hum... Mas e esse guri aí que tu queres juntar com tua irmã... Pode cuidar dela?
Mas pai, já te expliquei. O Laurinho é irmão da Mariana, tem praticamente a mesma idade da Luísa. E ele vem aqui morar com o senhor, vai te ajudar. Pra ele é bom também, parece que os Contreras não estão se dando muito bem em casa. Coisa de família.
E a Luísa? Que vai achar disso?
Ela não tem que achar nada, meu pai. Se o senhor decidir, está decidido.
Que seja, então, Licó. Que seja.
Resignado, o velho Saraiva concordou com o apelo do filho. Não gostava daquela gente com sangue índio, eram uns tipos muy ladinos. Gostava menos ainda que estivessem falando de sua filha por aquelas bandas.
O velho Saraiva coçou a testa, preocupado. Forçou a tosse, parecendo que queria cuspir os pulmões. Conhecendo a guria como ele conhecia, sabia que as coisas não seriam tão fáceis assim.
VII.
Meses antes da tal proposta que licó fez ao seu pai, em uma tarde de calor infernal – daquelas em que tudo parece estar parado – fazendo o mínimo de esforço para não suar ainda mais, Luísa cumpria com seu ritual doméstico diário. Após todas as lidas da casa, ainda debulhou os milhos que serviam de ração e atirou-os para as galinhas no terreiro. Sentia as mãos inchadas e dormentes.
A moça morava com o velho Saraiva, seu pai, em uma casinha simples, próxima ao povoado onde vendiam sua pequena produção. A mãe, que Deus a tivesse, falecera quando ela ainda era bem pequena. A menina cresceu sendo a mulher da casa, cuidando do pai e do irmão. Muito embora tivesse pouco mais de quinze anos, quem a visse pensaria já ser mulher feita.
Luísa espiou o pai pela porta escancarada, ele sesteava sentado na cadeira de balanço. O mormaço dava aquela moleza mesmo. A jovem correu, levantando poeira, estalando os dedos para chamar Amarelo, o seu filhote de cachorro. Desceu a pequena ladeira, logo após a horta, e foi em direção ao arroio que corria nos fundos da casa.
Naquele lugar, que chamavam simplesmente de “banho”, Luísa sempre recordava dos piqueniques nos domingos, quando a avó e a mãe ainda estavam com eles. Ali aprendera a nadar, a lavar... Ali naquele cantinho, protegido pelas copas das árvores, na água clara e fresca, era onde renovava as energias e sentia mais forte o olhar e o carinho da mãe, onde quer que ela estivesse.
Antônio saíra de casa mais cedo, mas sabia que não era o certo. Seu pai, que todos conhecem por Índio Feio, já havia lhe ensinado mais de mil vezes. A doma deve ser feita nas primeiras horas da manhã e, depois, somente pouco antes do cair do sol. Saber disso, Antônio sabia, mas guri novo era assim mesmo – ansioso por natureza. O pai ganhara aquele potro como pagamento por um lote de domas e havia-o entregado para que o menino mostrasse pra ele se já aprendera alguma coisa.
Era um animal novo, arisco, de pelo bragado. Diziam que não era um pelo bom e, talvez por isso, descartaram o animal da tropilha. “Menos mal”, pensou o rapaz, enquanto apertava o passo do cavalo, treinando-o para que tivesse um trote macio.
Distanciou-se de casa mais do que o normal. Apeou, revisou o bocal pra ver se não havia cortado a boca do cavalo — que atirava a cabeça pra trás, ainda desconfiado. De repente, as orelhas do bragado apontaram em uma única direção. O rapaz procurou o que chamara a atenção do animal e, assim, avistou a menina.
Ela estava com os olhos fechados, deitada nas areias, descansando calmamente sob a luz alaranjada que lhe beijava a fronte. Os cabelos queimados pelo sol descansavam no colo a secar naturalmente pelo vento que soprava. O tecido de chita não conseguia esconder os contornos de seu corpo de menina-moça.
Foi despertada de seus devaneios pelos latidos do cachorro, alguém estava chegando. Rapidamente, levantou-se e encarou o jovem que estava por ali.
Buenas, moça, desculpa se te assustei — disse ele, com o rosto corado, enquanto o cachorro não parava de latir.
Quieto, Amarelo! — mandou ela. — Não me assustou, não. O que tu faz aqui em casa? — reparou que não era nenhum conhecido de seu pai. Mas não ficou com medo, ele era apenas um pouco mais velho que ela.
Estava domando — apontou para o potro — e nos estendemos demais, foi isso. Me chamo Antônio Neto.
Bonito teu cavalo, Antônio Neto.
Antônio sorriu e fez um carinho na testa do animal, que mais uma vez atirou a cabeça para trás.
Pelo visto, ainda não está bem manso. — disse ela com aquele sorriso que revelou uma covinha em sua bochecha. — Vou me indo antes que meu pai me veja aqui de conversa com um estranho. Ele te mataria.
Sem esperar resposta, a menina virou-se e foi-se embora. Mais ao longe, ela deu uma última olhada para trás, apenas para confirmar se ele ainda estava lá, porque, no fundo, ela já sabia.

R. Tavares, in Andarilhos

26/12/2020

A entrega da pequena Isa

          A proposta da dona Amanda era tão absurda quanto irrecusável. Em troca da propriedade dos campos onde Lauro construíra seu rancho e vivia com sua família, a filha do seu querido padrinho pediu para que entregassem a pequena Isa, sempre tão adoentada, para que ela a cuidasse.
Lauro, eu peço que penses muito bem na proposta. Vocês têm outras crianças. Além disso, a pequena está doente e vocês não tem condições de criá-la. Deixem-na comigo, e ela terá somente do bom e do melhor. E vocês finalmente vão ser donos daquele posto onde meu pai deixava que vocês morassem — deixou que a ameaça velada fizesse seu efeito.
Algum tempo depois, Lauro e dona Amanda entraram na cozinha, onde estavam Ana e Pitanga.
Ana, arruma a Isa e traz a menina aqui. — pediu ele.
A esposa fez a vontade do marido e trouxe a criança, de uma limpidez mórbida e olhos escondidos em olheiras cinzentas e profundas. Ele disse à esposa então:
Mulher, peço que me perdoe pelo que eu fiz. Mas nossa filha está doente e, se não fizermos algo, ela acabará morrendo. Como chefe desta família, não posso permitir que isso aconteça.
Ana, com lágrimas riscando suas faces, ficou em silêncio à espera da explicação do esposo, e ele disse:
A partir de agora, a dona Amanda e o marido vão cuidar da Isa. A menina vai ter tudo que precisa: médicos, remédios e tudo o mais. E a vó dela vai estar sempre por perto.
Sem acreditar no que ouvia, a mãe explodiu em um choro convulsivo e, com as mãos tremendo, segurava firme sua pequena filha contra o peito. Fora de si, gritava:
Ninguém tira ela de mim, ninguém!
Já era tarde demais. A velha Pitanga aproximou-se da nora e retirou-lhe a criança dos braços. Pragmática, recolheu as poucas coisas da menina que estavam pela casa. Com a voz seca e sem rodeios, disse:
Foi Deus quem quis assim, minha filha. Vocês não têm condições de tratar desta menina. Não deixe que o egoísmo acabe com a vida da minha neta. Volte pra casa, cuide dos teus outros filhos e apoie teu marido, que mulher não deve discutir — disse isso e levou a pequena para sua nova família.
E foi mais ou menos assim que o Posto virou Chácara das Lebres. Porém, quando finalmente a prosperidade pediu pouso no rancho da família, veio com ela a tristeza e, sem pedir licença, foi como que se adonando do pouco que os Contreras tinham.
A vida deles nunca mais foi a mesma. Para desviar do assunto que parecia sempre rondá-lo, Lauro concentrou todas suas forças em trabalhar ainda com mais afinco do que antes. Continuava com um pouco de gado do Silêncio engordando em sua chácara, sobre o qual recebia um valor por cabeça. Comprou animais, plantou. Saía de seu rancho todos os dias antes do amanhecer e retornava apenas à noite.
A partir daí, os Contreras deixaram de ser uma família. Eram apenas um bando que dividia o mesmo rancho, a mesma lida e a mesma vida miserável que Deus lhes dera. Pouco tempo depois, foram embora também Miguelina, que decidiu ganhar a estrada no lombo do cavalo de um gaúcho qualquer; Álvaro, que foi trabalhar de peão em uma estância lindeira, e Mariana, que se juntou com um capataz e foi morar com ele. Ficaram no rancho apenas Lauro, a esposa, João e Laurinho.
Sentado nas sombras do ipê-amarelo, Lauro ruminava suas escolhas e não conseguia afastar o amargor que lhe subia à boca. Quando havia aceitado a oferta de dona Amanda, tinha certeza de que estava certo. No entanto, naquele momento, já nem sabia mais.

R. Tavares, in Andarilhos

20/12/2020

A morte do velho Aparício

          Anos mais tarde, o Posto das Lebres era um dos mais caprichados campos da família Bueno. Lauro e Ana fincaram raízes naquele fundão e não mediram esforços para compensar a confiança do padrinho. Nem bem o rancho estava pronto, veio ao mundo Miguelina, a primeira filha do casal. E logo seguiram, em escadinha, os outros: Álvaro, Mariana, João e Laurinho. Com a ajuda dos filhos, o casal fez com que o posto produzisse até mais do que o esperado.
Miguelina, a mais velha, foi criada como guri e trabalhava nas lides do campo tão bem quanto o pai e melhor do que os irmãos. Aos doze anos, nem precisava da ajuda de ninguém para revisar o gado e curar a terneirada. Ela era o orgulho do Lauro.
Independente da boa produção do posto, a vida para a família estava cada vez mais difícil. A produção era toda da família Bueno e o que tinham de seu mal dava para alimentar todos que moravam por ali.
Alguns invernos depois, em um agosto gelado como nunca se viu, nasceu o último rebento do casal. A pequena Isa veio ao mundo magra e desacreditada. Os poucos que visitaram a família já se iam pensando que voltariam em breve para dar os pêsames pela morte da criança. Entretanto, mesmo com dificuldades, a menina foi se criando e completou seu primeiro ano, ainda que pálida e adoentada.
Num dia de vento forte e agourento, Lauro Contreras perdeu o chão. Logo cedo recebeu um recado da estância pedindo que corresse até a sede, pois seu padrinho estava muito mal e solicitava a sua presença. Na carroça, guiada por Mariana, foram as mulheres, exceto Miguelina, que seguiu a cavalo, junto com o pai e os irmãos. A menina já devia ter seus dezesseis anos e despertava olhares por onde passava.
Na chegada, Lauro cumprimentou as gentes da Estância do Silêncio, cumprimentou a mãe na cozinha e subiu até o quarto do padrinho. Aproximou-se da cama. Enxergar o velho apequenado, moribundo, foi um choque. Segurou o pranto. O velho Aparício, com os olhos cerrados, respirava com dificuldade, as carnes frouxas da cara balançavam a cada expiração. Com as janelas fechadas e apenas algumas velas acesas, o quarto cheirava mal. Aparício da Silva Bueno abriu os olhos e reconheceu a si mesmo naquele filho bastardo. Uma pena que aquela vida de aparências fizera com que o menino nunca soubesse a verdade. Agora, pensou o velho, agora já era tarde demais...
O velho morreu ainda naquela tarde. Horas depois, Lauro caminhava tristemente do lado de fora das casas. Sentia o forte cheiro de café e o aroma adocicado dos sonhos feitos por sua mãe. Escutava o burburinho de lamentações, conversas fiadas e até risadas veladas de alguns convivas, que apareciam apenas por curiosidade. Definitivamente não se agradava daquele espetáculo.
Lauro escutou o passo arrastado e coxo do velho Euleutério, o antigo capataz do Silêncio. Olhou para trás e viu-o. Com os olhos vermelhos, escondido sob as golas do poncho de lã, o homem parou do lado de Lauro. Não falou nada. Acendeu um cigarro e ficou com os olhos perdidos no horizonte — sua farta cabeleira branca dançava suavemente ao compasso do minuano. Deu um tapinha nas costas de Lauro e seguiu seu rumo. Passaria uma vassoura de chirca no galpão pela milésima vez no dia, tentando espantar os pensamentos.
Após o enterro, Lauro e a família foram convidados a ficar mais um dia na estância para ajudar no que fosse preciso. Dona Amélia, com o rosto inchado do choro, estava cercada pelas filhas e genros. Amanda, a mais velha das filhas, distribuía ordens pela casa. Amélia pensou na filha que morava no Rio de Janeiro — até hoje não aceitava aquela mudança — e estava longe demais, alheia ao sofrimento da família. Quando a carta chegasse às mãos de Rose, como sofreria a menina, coitada...
Lauro estava num canto da cozinha, o rosto ainda úmido de lágrimas, quando sua mãe se aproximou:
Toma esse mate, meu filho, e vai limpar essa cara, que homem não chora. — disse Pitanga, alcançando a cuia, com água fumegante, para que o filho sentasse os pés no estribo da realidade novamente. Como uma criança, Lauro obedeceu sua mãe sem pestanejar, limpando as lágrimas que insistiam em brotar. A mulata, embora beirando os sessenta anos, ainda conservava a firmeza ao caminhar e as formas do corpo de outrora — a idade não lhe judiara como normalmente faz com os seres deste mundo.
Sentado na cadeira tosca, Lauro recompôs-se e ficou a imaginar que fim levaria o posto onde morava com sua família. Naquele momento, surgiu mais uma ruga em sua testa queimada pela geada e pelo sol.
Agora que já estás refeito, vai lá conversar com a dona Amanda — disse Pitanga. — Ela tem uma proposta pra ti. Aconselho que tu aceites, pelo bem da tua família. Não esquece que tua mãe vai estar sempre aqui.

R. Tavares, in Andarilhos

14/12/2020

O nascimento do Posto das Lebres

           — Reconhece este sujeito? — perguntou Aparício, enquanto se acomodava na cadeira de jacarandá que pertencera ao seu avô. Ele trazia nas costas o peso do tempo, mas ainda mantinha na face serena a imponência dos tempos da mocidade.
Buenas, seu Hermes — disse o jovem Lauro estendendo a mão para cumprimentar o homem. O velho Hermes, gaúcho retaco e barrigudo, respondeu ao cumprimento com má vontade, agarrando a mão de Lauro pela ponta dos dedos, e ficou em silêncio, apenas encarando o rapaz.
Lauro imediatamente entendeu o que estava acontecendo. Desde o verão passado, vinha se encontrando às escondidas com Ana, filha de Hermes. Mas, ainda naqueles dias, depois de um baile de ramada e uns tragos de vinho, conseguira arrastar a morena pras sombras de um galpão e lá mesmo fez o estrago. Teve que espantar da cabeça os pensamentos para conseguir conter o fino sorriso que insistia em lhe brotar dos lábios.
Não tens nada pra nos contar, Lauro? — indagou Aparício da Silva Bueno, com as mãos cruzadas sobre a barriga e os polegares dançando em volta do eixo.
Com todo respeito, meu padrinho, se estamos aqui é porque nem preciso contar nada — disse ele.
Hermes, que a tudo assistia calado, levantou-se da cadeira, apertou os olhos inquisidores e ficou estudando Lauro. Respirou forte, alisou a gola de seu casaco e disse:
Pois bem, se não tens nada para me contar, tampouco pede desculpas, imagino que tenhas alguma solução para o mal que fizeste?
Aparício acompanhava a cena em um silêncio respeitoso, afinal, também era pai e daria todo o apoio para o velho Hermes, decidisse o que decidisse.
Com perdão, seu Hermes. Errei e não nego. Mas quero que vosmecê saiba que gosto muito da sua filha Ana. — Lauro fez uma pequena pausa para tomar coragem. — Se o senhor consentir, eu tenho uma proposta. Mas meu padrinho teria que concordar também.
Lauro Contreras, como bom contador de histórias que era, deixou sua frase fazer o efeito desejado e ficou aguardando a reação dos interlocutores.
Pois fala duma vez, menino! Não temos a noite toda! — disse o padrinho.
Bem, com tudo que aprendi sobre a lida e os negócios com o senhor, tenho pensado muito na situação lá no campo das “lebre”. Como aquela ponta de campo é muito longe, está meio abandonada. É quase uma tropeada ir lá recorrer e, além do que, o gado que está lá engordando pode acabar se extraviando por aí, ou algo pior. Quem sabe, se o seu Hermes achar que é certo, levanto um rancho lá naquele fundão e cuido do que tiver por lá. Fico de posteiro da estância e ainda me junto com a Ana pra reparar o mal que fiz.
O velho Aparício, pensativo, batia os dedos compassadamente em sua escrivaninha. Hermes, por sua vez, acendeu um cigarro, deu uma tragada e, ao assoprar a fumaça na fronte do outro, não escondeu o sorriso.
O mal está feito e não tem como desfazer. Senhor Aparício, ficaria muito grato se vosmecê concedesse o posto pra este rapaz levar minha filha a morar com ele.
O posto está concedido — disse Aparício. — Parabéns pelo casório, então, seu Lauro!
Hermes ficou feliz em ter uma boca a menos no rancho e de ter a filha apadrinhada por um dos estancieiros mais ricos da região.
Parabéns, gaúcho! Assim, evitaste que Ana enviuvasse antes de casar e de colocar mais um guri sem pai pelo mundo.
Surpreso pelo comentário, Lauro abraçou o velho e ganhou o cumprimento de seu padrinho. Foram juntos dar a notícia para a peonada, que aguardava ansiosa no galpão.
Não é que o patrão preparou este assado todo pra colocar um freio no Lauro? Mas que barbaridade! — Euleutério troçava aos risos, já estava mais do que passado no trago.
Aparício da Silva Bueno foi quem deu a notícia para a mulata Pitanga. Já Lauro Contreras, resignado, comemorou noite adentro. Assim, nasceu o Posto das Lebres.

R. Tavares, in Andarilhos

08/12/2020

Lauro Contreras

          Lauro Contreras era o melhor peão da estância — disso ninguém duvidava, diziam os demais ao apresentar aquele homem de jeito sério, que hoje respondia por sota-capataz da Estância do Silêncio.
Afilhado do velho Aparício, aprendera com seu padrinho o ofício de administrar os campos, de realizar as compras e as vendas, de cuidar das plantações e dos negócios. Mas foi com o capataz da estância, o seu Euleutério, que viu o que era ser gaúcho de fato: o velho lhe ensinou a domar, a tropear, a esquilar, lidar com cordas, com remédios e benzeduras, aprendeu a barrear ranchos e trabalhar com palha de santa-fé. Não era orgulhoso — quando não sabia algo, pedia que lhe ensinassem.
Lauro Contreras era respeitador e divertido. Mas o homem, normalmente sereno e de sorriso fácil, virava um verdadeiro touro quando provocado. Ao completar vinte anos, foi nomeado sota-capataz, e seu padrinho oferecera uma festa apenas para a peonada. Até alguns de fora apareceram para comemorar. Mas onde tem trago ‘a lo largo’, sempre tem algum bochincho. Daquela feita, não foi diferente.
Anos depois, o padrinho ainda contava, orgulhoso, a famosa peleia do aniversário: tinha oferecido um churrasco para que os peões comemorassem o aniversário de seu afilhado. O aniversariante puxara a faca da cintura para tirar mais uma lasca do assado oferecido pelo padrinho. Sorria com o beiço engraxado da carne de ovelha e ria das bravatas e causos que a gauchada contava. Um dos de fora, que estava na estância apenas pra pernoitar, mirava a todos, assim como quem olha sem ver. Euleutério resolvera então contar alguma de suas famosas histórias com as chinas:
... e não é que levei a muchacha na garupa? — dissera aos risos. — O topetudo que queria briga ficou solito. Mas isso eram outros tempos... O pobre Euleutério não pode mais nem com a nêga velha!
Estouraram as risadas em volta do fogo.
Se bem que se me viesse uma nêga nova, talvez ainda saísse uma rapa do tacho, hein? — dissera isso e jogara-se no banco, recuperando o fôlego, enquanto tomava mais um trago de canha.
Nova por nova, me servia uma dessas guria da casa — respondera um forasteiro, soprando calmamente a fumaça de seu palheiro.
De repente, fez-se o silêncio na roda e somente se escutavam os estalares do fogo. Lauro encarou o outro, mais firme que palanque de segurar touro brabo.
Pois, as moças da casa têm cruz no lombo, não são pra montar — atirou as palavras como se fossem um soco.
Pra mim, só não se monta na mãe da gente — disse o outro, querendo briga.
Lauro Contreras explodiu em ira e, quando se atirava para a briga, foi segurado pela peonada.
Me larguem! Vou ensinar este atrevido a respeitar as gentes da casa!
Não vamos fazer esparramo por pouca coisa, homem — disse o capataz.
O gaúcho estava com as faces vermelhas e fazia toda a força do mundo para desvencilhar-se dos braços que o seguravam.
Deixa que venha, no más, que aqui tem parelha! — provocava o forasteiro, enquanto desembainhava um punhal.
Euleutério olhou pro bravateiro e disse:
Te enforquilha no teu pingo e toma teu rumo agora, paisano. Antes que eu mande soltar o homem.
Por mim — respondeu o outro com indiferença. Assim que guardou o punhal, foi surpreendido pelo soco do Lauro, que finalmente escapou dos que o seguravam. O golpe foi tão forte que o homem caiu desmaiado no chão. Lauro escarrou na sua cara e disse:
Levanta animal! Mas que inferno! Covarde! Quando a peleia vai se aprontar tu te achica! Covarde!
O que se passa? — perguntou Aparício Bueno, que vinha chegando para averiguar o rebuliço. Não costumava se intrometer nas festas da peonada, mas a gritaria era tanta que precisou intervir.
O capataz narrou toda a história para o patrão.
Coloquem este homem por sobre os arreios e façam com que o cavalo corra pra longe daqui. Aqui na minha casa não quero esta imundície nem mais um minuto. — ordenou — E vosmecê, seu Lauro, passe no escritório que temos que conversar. Tem um senhor esperando vosmecê por lá.
Lauro olhou para a gauchada, surpreendido com o repentino convite, e acompanhou seu padrinho. No galpão, os peões seguiram a comemoração.

R. Tavares, in Andarilhos

03/12/2020

Vida e morte de Antônio Neto - I

          Os Contreras sofreram na vida como poucos. Já não são mais tão pobres, mas o pouco que têm conquistaram à base de muito trabalho e suor. Erram, como todos, mas agem de acordo com suas convicções. Lauro Contreras acabou se precipitando nalgumas atitudes e pagou caro por isso.
Ninguém o conheceu tão bem quanto seu mentor e padrinho, o senhor Aparício da Silva Bueno. Talvez nem o próprio Lauro venha a entender a sua história tão bem quanto este homem, dono dos campos onde ele ergueu seu rancho.
Lauro Contreras apareceu na Estância do Silêncio quando sua mãe, Pitanga, uma mulata com pouco mais de vinte anos, foi contratada para ser cozinheira do lugar. Ela chegou somente com a roupa do corpo e o menino de cinco anos pelas mãos.
Dona Amélia, senhora da casa, achou a moça muito nova e bonita para trabalhar na estância. Mas já estava decidido. Restou à mulher apenas assentir ao desejo do marido.
O fato é que o guri era muito esperto e logo passou a ser chamado de afilhado pelos patrões, que lhe dedicavam especial atenção. Aparício Bueno tivera três filhas, mas jamais aceitara o fato de sua esposa não ter lhe dado um filho macho. Assim, Lauro virou um filho de estimação ou coisa parecida:
Guri, vai lá na cozinha e me trás um chimarrão. — ordenava Aparício, do alto de seus um metro e oitenta. O menino, de pernas finas, corria para agradar ao homem que, pensativo, analisava-o.
Anos antes, conhecera por acaso a mulata Pitanga, e a rapariga não tinha nem completado dezesseis anos. Passava por um rancho de beira de estrada e viu aquela morena, de corpo rijo e seios provocadores, que pareciam querer rasgar o tecido do vestido simples, a encará-lo, enquanto cuidava para ver se ninguém se aproximava.
Buenas, moça.
Ela não respondeu.
Posso apear?
Mais uma vez se fez o silêncio. Aparício apeou do cavalo e investiu contra a jovem, já não se aguentando de tanto desejo. O beijo foi correspondido, e os dois foram cegos para dentro da casa. No caminho, deixaram a porta aberta, as roupas no chão e foram logo se atirando à cama da jovem.
Aparício e Pitanga entregaram-se ao desejo inocente e avassalador que tomou conta dos dois naquela noite. Adormeceram abraçados. Quando ela acordou, o nariz do homem passeava pelo seu corpo, sentindo seus cheiros e acariciando sua carne.
Onde estão teus pais?
Meu pai é morto. Minha mãe está numa parente. Deve chegar logo — respondeu, com sua voz rouca e aveludada.
Encarou aqueles olhos pretos e passou as mãos pelos cabelos crespos da menina. Puxou-a ao seu encontro e fez amor com ela mais uma vez, com uma raiva que não sabia explicar de onde. Pitanga aceitava a tudo submissa, entregue às suas paixões e desejos íntimos.
Aparício da Silva Bueno vestiu suas roupas, atirou alguns trocados para a menina e montou no seu cavalo.
Daqui uns dias eu volto, morocha — disse isso e foi embora.
Sequer olhou para trás. Mal sabia ele que amaria aquela menina até o fim de seus dias.
Teu mate, padrinho. — escutou a voz do menino e parou com seus devaneios.
Lauro oferecia-lhe o mate. E não era fato que aquele guri era bem parecido com ele? Pensando nisso, acariciou a cabeleira da criança e voltou para seus afazeres.

R. Tavares, in Andarilhos

16/11/2020

Uma história muy triste e comprida

            Após comer, João Fôia pagou o que devia e foi atrás do tal de Pedro, conforme sugeriu o dono da venda. João não achou o gaúcho no umbu e deu uma volta pelo terreno. Não era um comércio comum. Da terra, brotava o cheiro de mato; e, das lareiras, sentia o picumã — cheiro de rancho, como dizia seu pai — as panelas fumegantes emanavam odores de casa, de lar, de lugar habitado. Há quanto tempo não sentia aqueles cheiros? Nem sabia. O bolicho do Geraldo tinha um quê de sua casa. Não sabia explicar o motivo.
Por fim, encontrou Pedro que encerrava as galinhas no galinheiro. Aproximou-se lentamente, cumprimentando o estranho:
Buenas! O dono do bolicho disse que vosmecê me ajudaria com o cavalo e com o lugar pra eu pernoitar. Me chamo João Fôia, e qual a sua graça? — disse ele, estendendo a mão.
Pedro Guarany — cumprimentou o outro com um pouco de desconfiança. — Pode sacar os arreios do cavalo e me passar o animal que o levo pra junto do meu.
João fez o que lhe foi pedido, mas acompanhou o outro enquanto indicava-lhe o caminho.
Que lindo lugar este, não é mesmo, Guarany?
É verdade. É um lugar que nos prende, este bolicho.
Chegaram perto da sanga, e o Penacho aproximou-se, farejando o dono. Soltaram o zaino. Os cavalos se cheiraram, relincharam e correram juntos. Pareciam velhos conhecidos.
Muy lindo teu bragado — disse João com a estranha sensação de já ter visto aquele animal.
Gracias, mas o zaino não perde em nada.
Foram para o galpão. Já sem a estranheza da apresentação, conversaram, trocando ideias e descobrindo os pontos em comum na história dos dois.
Cada um aprumou sua cama de arreios perto do fogo, onde chiava a cambona com água quente, e o picumã rescendia, escurecendo a quincha do telhado.
Aceita um amargo? — ofereceu Pedro.
Mas como não? — disse o outro. — Como vinha dizendo, amigo Guarany, que venda buenacha essa do seu Geraldo. Chego a imaginar, ali na cancha, uma carreira... aos gritos de “Sem reserva” e “Já se vieram!”. Qual é o povo mais próximo?
Penso que o povoado de São Sebastião... Mas é muy lejos daqui...
Pois então o ponto é dos bons mesmo — ficou uns instantes, pensativo, com o olhar parado, mas logo voltou ao normal. — Mudando de saco pra mala, me diga... Venho judiado de estrada, precisando me divertir um pouco. Onde tem chinas por essas bandas?
Pedro olhou meio de soslaio para o outro e, em voz baixa, respondeu:
Não hay muitas por acá. Pero, se te agrada, podes descer no costado da sanga, até o próximo passo... Dali já farejas as moças, perto de um mato de seibos... pode falar com a dona Maroca, que ela é uma boa negociante.
Vamos?
Não posso, estou sem nenhum fino, nem pros vícios!
Dá-se um jeito! — provocou Fôia.
Já sabes o caminho — respondeu Pedro, finalizando o assunto.
Mas homem! Não leva tudo muito a sério, que nem petiço em subida! — ponderou, enquanto Pedro apenas olhava e mateava.
João Fôia acomodou-se nos arreios, afrouxou a cinta, puxando a faca de prata para o lado e tirou, finalmente, o chapéu negro da cabeça. O vasto cabelo preto caiu sobre sua testa. Estralou o pescoço num baque. Olhou firmemente para o colega de quarto e, somente então, revelou o olho direito vazado e uma profunda cicatriz em forma de folha naquela parte do rosto.
Pedro Guarany fixou o olhar algum tempo na face castigada do outro. Sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Estendeu a mão, oferecendo mais um mate.
Foi numa peleia, muitos anos atrás — disse Fôia, como se devesse alguma explicação.
Perdão, não queria ser intrometido. — respondeu Pedro.
Não tem problema. Apenas enxergo muito pouco, o que me atrapalha às vezes. Mas me conta, Guarany, qual a tua história? Todos temos um motivo para andejar sem eira nem beira.
É uma história muy comprida e muy triste.
Todas são, não é mesmo? — disse o outro, rindo.
Pedro Guarany acomodou-se para dormir. Sentia a garganta fisgando. Pouco tempo depois, o silêncio tomou conta do galpão. Escutavam-se apenas os estalos do fogo e o canto dos grilos. Naquela noite, Pedro não pregou o olho pensando em outros tempos. A presença de João Fôia parecia-lhe um aviso, as coisas não mudavam, o passado sempre voltava para exigir seu tributo. Quando acordou, o outro não estava mais lá: João Fôia tinha partido antes do canto dos galos.

R. Tavares, in Andarilhos

06/11/2020

João Contreras, o Fôia

         O sol fervia e torrava até mesmo a pele acostumada de Pedro Guarany. Ele fez um movimento certeiro com o machado e aprontou outro toco de lenha. Passou o antebraço na testa para livrar-se do suor que escorria como cascata. Penacho bebia água e pastava no raso da sanga, cujas águas desfilavam calmamente em sua correnteza leve e arrastada. Pedro passara as duas últimas semanas cortando lenha desde o amanhecer até o cair da noite. Ao escurecer, colocava toda a madeira em uma pequena carroça de duas rodas e levava até a lenheira.
Cortou a última tora de lenha e percebeu que um arbusto sacudia próximo à beira da água. Sorriu satisfeito e correu até ali. Buscou a linha que estava amarrada no galho e, sentido que fisgara um peixe, deu um leve tirão em seu caniço improvisado e recolheu uma grande traíra.
Mas olha, Penacho! Que hoje dei sorte! — falava, enquanto o cavalo observava de longe com as orelhas apontadas em sua direção.
Depois do serviço, deixou o peixe na cozinha. Sabia que traíra assada era um dos pratos favoritos do seu Geraldo. Mesmo com pouco tempo de trabalho por ali, nutria certo carinho pelo bolicheiro. Aquele senhor, já idoso e sozinho, poderia ser ele mesmo no futuro e, quando pensava nisso, uma confusão de sentimentos e saudades de outros tempos invadiam sua cabeça.
Pedro seguiu para o galpão onde estavam suas coisas, preparou seu mate e deixou a cuia descansando um pouco para que a erva inchasse com a água morna, velho costume que aprendera com seu pai. Olhou para o gasto violão que estava recostado ao lado de seu catre. Desde que ganhara o instrumento, não conseguira tirar uma música sequer. Tentava pensar em alguma melodia bonita, mas suas mãos não obedeciam, e ele terminava por ficar irritado e desistia logo. Outro dia, chegara a imaginar a cena que seria se o turco mascate o enxergasse numa de suas tentativas.
Mas nem pra isso tu serve, andarilho burro! — diria o amigo aos risos, para provocar sua indignação.
Quando Pedro não desistia de tocar por conta própria, Geraldo ou os clientes do bolicho faziam com que ele desistisse. Na verdade, ninguém aguentava aquele barulho desconexo que saía do seu violão.
Pedro pegou seu mate e passou a mão no instrumento mais uma vez. Lá dentro, Geraldo soltou um suspiro de inconformidade ao enxergar, pela janela, que o outro estava se acomodando embaixo do umbu para mais uma apresentação artística.
O bolicheiro estava satisfeito com o movimento dos últimos dias. A lenha estava quase toda pronta para ser entregue ao seu Bonifácio Hernandes, que ofereceria uma grande festa de casamento para sua única filha, Maria Rita. O noivo era o Tibiriçá, dos Lopes da região do Paredão, um agrupamento de famílias que vivia em um local apartado e não se misturava muito com as gentes da região. Mas o Tibiriçá era diferente: homenzarrão de quase dois metros de altura, de voz forte e empostada, um trabalhador incansável, mas um festeiro como poucos. Era um bailarino requisitado nos bailes de fundo de campo e gostava muito de tocar uma cordeona encostada junto ao peito cabeludo. Geraldo lembrava do Tibiriçá e, por causa disso, tinha um pouco de pena da menina.
Coitada da Ritinha, filha do seu Bonifá! — disse certa vez.
Mas coitada por quê, homem? — perguntou Pedro.
Pedrinho, meu filho, tu já viste o Tibiriçá? — e olhou com olhos de quem insinua algo: — Isso mesmo! Olha o tamanho daquele gaúcho! Vai arrebentar com a coitada da guria! Tão pequeninha. A la maula! Riram juntos.
Pedro vira a jovem Maria Rita apenas uma vez quando ela veio à venda, junto de seu pai, fazer as encomendas para a festança. O Bonifácio pediu que reservassem bebidas, que ficavam guardadas em uma espécie de gaiola de ferro, pendurada dentro do poço de água para se conservarem fresquinhas. Compraram, ainda, alguns tecidos, enfeites, e o homem contara que a mãe da noiva já estava preparando os doces do casamento: bem casados, pessegadas, figadas, ambrosias e tudo mais que a filha tinha direito.
Vai ser uma festa daquelas! — contava orgulhoso, passando as mãos sobre o bigode farto que lhe escondia a boca.
Por tudo isso, Geraldo estava satisfeito — festa na região é lucro nos negócios. Os convidados dos noivos estavam indo ao seu estabelecimento para comprar prendas para os contraentes, comprar tecidos para algumas reformas nos vestidos das senhoras, ou apenas para bebericar um trago e contar as novas.
Geraldo foi arrancado de seus pensamentos com a chegada repentina de um cliente:
Boas noites — escutou-se o cumprimento de voz grave e seca.
Geraldo olhou para o gaúcho que adentrava a venda e respondeu à saudação com um leve aceno da cabeça. Notou que o homem se aproximava com passos lentos e firmes, aparentando cansaço. Vestia pilchas gastas e sujas de pó. Reparou nos detalhes do florão de ouro em sua rastra, na faca de prata atravessada na cintura e na arma presa à faixa. As vestimentas pobres de tropeiro pareciam não condizer com aqueles adornos finos. Pensou que devia ser outro capanga que viera lhe atazanar.
O homem aproximou-se do balcão, arrastando esporas nos tabuões de madeira do assoalho. Encarou o dono do estabelecimento e ficou à espera do atendimento.
Pois não, moço? — disse Geraldo, enquanto tentava desvendar nas sombras do chapéu o olhar daquele homem de rosto severo e nariz protuberante e desafiador.
Tem algo pra comer? Venho mais faminto que terneiro mamão.
Tenho espinhaço de ovelha e pirão. Está servido?
Está bom.
O homem examinava o bolicho. Pegou sua faca de prata e se pôs a picar fumo calmamente na palma da mão. Ajeitou o conteúdo na palha, rasgou metodicamente uma tira com o fim de atar seu cigarro. Riscou o fósforo e aspirou a fumaça do palheiro. Soprava tranquilamente, como se assim espantasse da cabeça os pensamentos.
Pouco depois, Geraldo veio da cozinha equilibrando um prato de barro com a comida, uma garrafa de canha e um copo de vidro embaçado.
Está servido de canha? — ofereceu.
Não tem vinho? Estava precisando de algo pra dar uma adoçada na vida, se o senhor me entende.
Pois não! — respondeu Geraldo e já foi buscar a bebida na sua despensa. Voltou trazendo um garrafão e serviu-lhe um copo. O forasteiro puxou uma das cadeiras livres e convidou o bolicheiro a sentar com ele.
Sente, no más.
Contrariado, Geraldo atendeu ao pedido. O homem falou:
Tresontonte me encontrei com um paisano que me disse que vosmecê estava precisando de um diarista. Me chamo João Contreras, mas me conhecem por Fôia. Vim pelo serviço — e deixou que as palavras fizessem seu efeito no silêncio que se seguiu.
Mas que lástima, seu Fôia. Acredito que tenha perdido a viagem! Já faz um lote de dias que estou com um peão contratado — respondeu e foi logo levantando, queria encerrar a conversa.
Espere um pouco — disse o outro, pegando do seu braço — Venho tresnoitado de estrada e tropa. Vosmecê permite que eu faça pouso aqui pelo rancho esta noite? — disse isso, enquanto coçava o canto do olho direito, escondido pelas sombras de seu chapéu.
Fique, homem. Jante e tome teu trago. Depois, procure pelo Pedro, que está lá fora no umbu, e entrega teu cavalo. Ele te mostra o galpão. Com permiso... — Geraldo fez um leve aceno com a cabeça e foi cuidar de seus afazeres, satisfeito de ter cumprido seu dever, pois é costume das gentes dar pouso para os viajantes.

R. Tavares, in Andarilhos

03/11/2020

A morte do capataz Herculano

         Já se ia mais de uma semana que eles viajavam pelo pampa, e o calor daquele meio dia se fazia insuportável. O capataz Herculano, de idade avançada, estava com o corpo corroído de dor – mal sentia os pés e ainda suspeitava estar com febre. Herculano forçou as vistas em busca de uma aguada e de uma sombra, temia não poder continuar. Já trazia as rédeas frouxas nas mãos. “Esta será minha última tropeada, não venho mais”, pensava.
O velho, de repente, sentiu uma dor no peito e uma forte vertigem.
Socor... — tentou chamar os que estavam próximos, mas a voz não saiu de sua boca.
A luz do sol cegou-o momentaneamente, e suas mãos cansadas da viagem permitiram que a rédea lhe escapasse. Parecia que seus miolos queriam partir-lhe a cabeça, que latejava compassadamente. Tentou levar a mão ao coração. A dor foi lancinante; e a pressão, insuportável. Ele perdeu os sentidos. Na mesma hora, o cavalo que montava pisou na rédea e, assustado, disparou. O gado, ouriçado, fez menção de se apartar.
João Fôia viu o cavalo do capataz disparar. Percebendo a gravidade da situação, esporeou seu zaino e, a todo galope, tentou conter o animal que corria assustado. O velho Herculano caiu do cavalo e foi arrastado por muitos metros, pois seus pés ficaram presos ao estribo. Quando João conseguiu parar o animal, já era tarde demais – o antigo capataz da Estância da Província estava estirado no chão, sem vida.
Enquanto alguns peões controlavam o gado para evitar a debandada, os mais próximos do morto rezaram como sabiam e, com duas estacas de madeira e couro, improvisaram uma maca. Armênio, sota-capataz, mesmo em choque, teve de assumir a situação, uma vez que havia se tornado o responsável pela tropa. Destacou um dos homens de sua confiança e recomendou que levasse o corpo do capataz de volta para as casas.
E vê se não te extravias no caminho, se não hás de entregar o corpo do homem “abichado” pra dona Joaquina. — disse, antes de soltar um longo e agudo assobio chamando a tropa — Olha o caminho, boi...
João acompanhou a cena de longe. Não estava triste, pois não tinha qualquer apreço pelo capataz, mas estava assustado com sua premonição. Não gostava dessas coisas.
Ao décimo nono dia de tropeada, reconheceram, ao longe, a grande mangueira de pedra da Charqueada Santa Rita. Escutaram os latidos dos cachorros e puderam ver que a peonada da estância já estava encilhada, aguardando a chegada. O cheiro que sentiram era de podre, e moscas varejeiras zuniam em seus ouvidos. Podiam enxergar carcaças de animais jogadas num grande amontoado ao lado o rio de suas águas escuras e fedorentas. Sangue e restos de dejetos eram lançados todos os dias, sem trégua, nas suas correntezas.
Cinco cavaleiros se aproximaram para ajudar a conduzir o gado. Com destreza, após poucos minutos, deixaram os animais pastando no pequeno potreiro nos fundos da propriedade.
Finalmente, os tropeiros puderam descansar. O seu Armênio, com o semblante cansado e triste, estava a bebericar uma guampa com canha quando foi chamado por um senhor na entrada do galpão.
Esse senhor encarava a todos com olhar de reprovação. Tinha os olhos profundos e sérios, largas sobrancelhas pretas e unidas a contrastar com sua barba branca. A calvície era escondida por um elegante chapéu de feltro. Armênio acompanhou-o numa caminhada e foi mostrando-lhe o gado, explicando os acontecidos do trajeto. O velho balançava a cabeça e parecia concordar com o que o peão dizia. Aos poucos, sumiram das vistas de João Fôia.
Quem é aquele senhor? — indagou João pra um peão da charqueada.
Aquele é o Cel. Mariano da Cunha Guerra. Dono aqui da Santa Rita, da Bela Vista e de muitas outras terras — respondeu o outro, orgulhoso.
Parece ser um homem poderoso...
Por estas bandas, moço, o que o Cel. Mariano diz... é lei!
Naquela noite, pernoitaram no galpão da charqueada e, antes do amanhecer, os tropeiros retornaram para a Estância da Província. Foram todos, exceto João Fôia, que recebeu seu soldo e deu por cumprido o seu contrato com aqueles homens. Ficaria pelos arredores, pois sabia que gente como o Cel. Mariano Guerra costumava precisar de homens como ele. Fazia questão de estar por perto quando isso acontecia.
Depois de se despedir dos peões da charqueada e oferecer seus préstimos ao coronel, apertou bem o barbicacho, desabou ainda mais o chapéu e seguiu no rumo que eles indicaram. Escutava, ao longe, os latidos dos cachorros e o barulho dos homens trabalhando.
Êra boi... Êra boi…

R. Tavares, in Andarilhos

29/10/2020

Finalmente, era um tropeiro

        Mesmo dentro do quarto dos empregados, João Fôia podia sentir a presença da coruja que descansava na corticeira ao lado do galpão. Escutava seus pios e ficava ainda mais inquieto. Era sempre assim em dia de tropeada. Deve ser bobagem da minha cabeça, pensou. Soltou um longo suspiro e levantou da sua cama no alojamento dos peões da Estância da Província.
João vestiu as bombachas e calçou as botas. Era pesado, mas não de todo gordo. Tinha cabelos volumosos e barba rebelde e falha. Coçou a cicatriz no rosto e afivelou sua rastra, tentando fazer pouco barulho para não acordar os que ainda conseguiam dormir. Colocou o chapéu sobre a cabeça.
Sentiu aquele cheiro nauseabundo e olhou para os homens espalhados pelo recinto. A maioria deles vivia há muitos anos por ali e nem conhecia outra forma de vida. Trabalhavam de sol a sol. Poucos eram os que subiam na hierarquia das estâncias, virando sota-capataz, capataz ou posteiro. A maioria continuava como peão a vida inteira. Dividiam os mesmos quartos, as mesmas angústias, e não tinham praticamente nada que pudessem chamar de seu. No inverno, aqueles que não tinham abrigo encarangavam de frio. Poucos reclamavam.
João Fôia tinha pena, achava-os um bando de coitados e miseráveis. Mas eles mesmos nem tinham noção disso. Eram, a seu modo, felizes e devotos aos patrões que lhe davam teto, comida e um pouco de dinheiro. Ontem mesmo, achara graça da alegria do mulato Anastácio quando o seu Herculano, capataz, entrou no galpão perto da hora da janta e lhe entregou um poncho, um pelego e um quarto de ovelha. O empregado não entendeu o que se passava, e o outro explicou a situação: o patrão mandava aqueles regalos quando o peão completava um ano de casa. Surpreso com o acontecido, Anastácio agradeceu e assou a carne pra peonada. Não pôde se estender na comemoração, pois cedo seguiriam viagem.
Não eram nem cinco horas da manhã quando João Fôia deixou o quarto cheio de gente. Desviou os olhos da árvore em que a coruja piava. Depois, entrou na cozinha dos homens, deu “buenos dias” e preparou seu mate. Alguns peões já aprontavam suas coisas, engraxavam seus arreamentos com sebo e se preparavam para a jornada.
Estavam todos inquietos, pensativos e com olhares soturnos. Herculano olhou de modo desconfiado para o João. Ninguém entendia aquela sua mania de andar, seja noite ou dia, com seu chapelão de feltro negro e aba larga, enfiado na cabeça melenuda.
Pegou sua cuia e foi yerbear ao ar livre. Logo mais fariam uma grande tropeada. Levariam trezentas cabeças de gado até uma charqueada distante umas quantas léguas. Não tinha bons pressentimentos.
Na noite anterior, bebeu mais do que devia na festa do Anastácio e, quando já ia se recolher, escutou a vaca do leite, que havia entrado sozinha na mangueira, a mugir tristemente. Curioso, João resolveu averiguar o que estava acontecendo e foi se aproximando, forçando os olhos embaçados para enxergar na escuridão. Naquele momento, ele viu uma muçurana mamando no ubre da vaca. Diós mio , fez um sinal da cruz, mais por costume do que por devoção, e saiu apressado, querendo esquecer do acontecido.
Sabia que ver cobra que toma leite na teta era um mau agouro. Não comentou com ninguém, mas ficou preocupado. Roncou a cuia do mate e puxou a faca presa na rastra de couro cru e se pôs a picar o fumo, taciturno.
O capataz Herculano saiu da cozinha dos homens e já foi convocando:
Quem tem poncho vai, quem não tem poncho vai também!
A tropeada teria início.
O gado, que passara a noite encerrado, mugia impaciente. De pouco em pouco, os peões começaram a conduzir os animais a passos lentos rumo à charqueada. Seria quase um mês de chão.
Quando o sol despontou no horizonte, a tropa já estava cruzando as fronteiras da Estância da Província. Os peões conduziam o gado de forma lenta e calma. Herculano ficava na culatra, a observar e zelar pelos animais. Não podiam apurar o passo, pois, se a tropa emagrecesse e chegasse suja de esterco, isso evidenciaria a falta de perícia dos tropeiros.
João Fôia estava montado em um cavalo zaino, com o pelo de um vermelho queimado, crinas negras e orelhas alertas. Nem mesmo o jeito corpulento, pesado, fazia com que ele tivesse menos destreza sobre o lombo do animal. Ele olhava atentamente o gado. Esperava pelo pior, mas não sabia exatamente o quê. Por cacoete, alisava o farto bigode negro e coçava o rosto de barba falhada.
A tropeada era sempre uma lida difícil. Passavam aproximadamente quinze horas por dia sobre o lombo dos cavalos. Dormiam pouco e descansavam menos ainda. Nesse primeiro dia, conduziram os animais até a hora do almoço, pois não prestava tropear no sol alto, judiando a tropa. Depois da breve parada, subiram nos cavalos e tocaram o lote calmamente.
Com o passar dos dias, os animais ficavam tensos. E a canseira começava a bater no lombo dos homens, que corriam o risco de ficarem desatentos. A grande ameaça sempre fora o estouro da tropa. Não podiam se distrair, pois isso resultaria em trabalho dobrado e perigoso, podendo até mesmo acontecer algum acidente fatal.
Os primeiros dias de viagem transcorreram dentro da normalidade. Mas, no quarto dia de tropeada, os menos acostumados já começavam a sofrer com as câimbras e o inchaço dos pés e das mãos.
João avistou, mais à sua esquerda, o jovem Anastácio, mulatinho novo, fazendo força para se manter concentrado. Com a cabeça pendendo do pescoço, bocejava e tentava se espichar, mudando a posição do corpo sobre os arreios, para aguentar a dor que sentia nos baixos. Era a primeira tropeada dele. João olhava-o e esboçava um sorriso. Lembrou de sua estreia como tropeiro, quando tinha pouco mais de treze anos.
Numa primavera, não muito diferente daquela, seu pai precisara levar o gado que estava no posto onde eles moravam para outro campo do patrão. Seriam no máximo oito dias de tropa. O pai dissera:
Vais comigo mais um peão da estância. Tens que ir pra aprender. Prepara tuas coisas que às três da manhã partimos.
João não pensou duas vezes e, em pouco tempo, já estava com o poncho emalado e a mala de garupa com algumas das precisões. Cedo da madrugada, partiram. Ele encilhava um petiço tobiano meio assustadiço e andava sempre ao lado do pai, ouvindo seus conselhos.
Guri, vamos levar esse gado pro melhor campo da estância. Dar uma última engordada nele, que logo mais o patrão já vende pra fazer os pilas. Quando eles já estão nesse estado, basta dá uma última forçada que ficam estourando de gordo.
João prestava atenção em tudo. Um dia, teria seu próprio posto. Ficava a imaginar o futuro: queria uma vida tranquila e simples como a do pai. A tropeada foi árdua. Quando finalmente abriram as porteiras do campo onde o gado ficaria, João não tinha mais forças: suas mãos tremiam, suas nádegas contraíam-se em câimbras violentas, e suas costas estavam duras. De tanta dor, mal conseguia mexer o pescoço. Os dedos das mãos, além de inchados, exibiam pequenos cortes, pois havia esquecido de engraxar as rédeas, e o couro cru endurecido estava afiado, fazendo de cada segundo uma pequena tortura.
Ao chegar de volta ao seu rancho, atirou-se do cavalo e saiu em direção à mãe, meio que se arrastando e bastante pálido.
O que é isso meu filho? — perguntou ela.
Não há de ser nada... — respondeu João.
O que se passou com ele? — perguntou a mulher ao marido.
Nada, mãe. Estou cansado, no más.
João olhou para o pai, que ainda estava sobre seu cavalo. O velho fez um aceno e sorriu para o filho. Ele foi para dentro de casa cheio de orgulho.
Agora, finalmente, era um tropeiro.

R. Tavares, in Andarilhos