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01/07/2024

Hollywood | 46


A festa pós-première era no Copperfield, na Avenida La Brea. Frank parou na frente, deixou-nos saltar e avançamos para a entrada debaixo de mais flashes. Ocorreu-me que eles não sabiam a quem fotografavam. Se a gente saltava de uma limusine, tinha direito.
Reconheceram-nos à entrada e deixaram-nos entrar para o meio de um monte de gente, todos espremidos e com copos de vinho tinto na mão. Formavam grupos de três, quatro ou mais pessoas, conversando ou caladas. Não havia ar-condicionado, e embora estivesse fresco lá fora, ali dentro fazia calor, muito calor. Tinha gente demais sugando o oxigênio.
Sarah e eu sacamos nosso vinho e ficamos ali, tentando bebê-lo. O vinho era muito abrasivo. Não há nada pior que vinho tinto barato, a não ser vinho branco que se deixou esquentar.
Quem são essas pessoas, Sarah? Que querem aqui?
Algumas são do ramo, outras são da periferia do ramo, e outras só estão aqui porque não podem pensar em outro lugar.
Que estão fazendo?
Algumas tentando fazer contatos, outras permanecer em contato. Algumas vão a todas as funções como esta que podem. Há também o pessoal da imprensa.
A sensação no ar não era boa. Faltava alegria. Aqueles eram os sobreviventes, os cavadores, os tubarões, os ninguéns. As almas penadas conversavam e conversavam, e fazia calor, calor, calor.
Então um cara num terno caro se aproximou.
Vocês não são o Sr. e a Sra. Chinaski?
Sim – eu disse.
O lugar de vocês não é aqui embaixo. É lá em cima. Sigam-me.
Nós o seguimos.
Seguimo-lo escada acima até o segundo andar. Não tinha tanta gente. O cara de terno caro voltou-se para nós.
Não bebam o vinho que estão servindo aqui. Eu pego outra garrafa pra vocês.
Obrigado. Digamos duas.
Claro. Volto já.
Hank, que significa isso tudo?
Aceite. Nunca mais vai acontecer de novo.
Olhei a multidão. Tive a mesma sensação que tivera da de lá de baixo.
Imagino quem será esse cara – eu disse.
Ele voltou com duas garrafas de bom vinho e um saca-rolhas, além de novos copos.
Muito obrigado – eu disse.
De nada – ele disse. – Eu lia sua coluna no L.A. Free Press.
Não parece tão velho assim.
Não sou. Meu pai era um hippie. Eu lia o jornal depois que ele acabava.
Posso perguntar o seu nome?
Carl Wilson. Sou o dono da casa.
Oh, entendo. Bem, obrigado de novo pelo vinho.
De nada. Me diga quando quiser mais.
E foi-se. Abri uma garrafa e servi dois copos. Experimentamos. Vinho realmente bom.
Agora – eu disse a Sarah –, quem são aquelas pessoas aqui em cima? Em que são diferentes das de lá de baixo?
São as mesmas. Apenas têm mais influência, mais sorte. Dinheiro, política, família. Os da indústria trazem a família e os amigos. Capacidade e talento são secundários. Eu sei que pareço estar fazendo discurso, mas é isso aí.
Bate. Mesmo os chamados melhores filmes me parecem muito ruins.
Prefere assistir a uma corrida de cavalos.
É claro...
Jon Pinchot aproximou-se.
Meu Deus! Essas pessoas! Eu me sinto como se estivesse coberto de merda!
Dei uma risada.
Aí surgiu Francine Bowers. Estava eufórica. Fizera seu grande retorno.
Você estava muito boa, Francine – eu disse.
É – disse Jon.
Soltou o cabelo – disse Sarah.
Soltei demais?
De modo algum – eu disse.
Escuta – disse Francine –, que vinho é esse que estão bebendo? Parece coisa boa.
Tome um pouco – virei a garrafa no copo dela.
Eu também – disse Jon.
Como é que vocês ganharam essa coisa boa? – perguntou Francine.
O pai do dono da casa era hippie. Os dois liam o L.A. Free Press. Eu escrevia uma coluna, “Notas de um Homem de Neanderthal”.
E ficamos ali calados. Não havia mais nada a dizer. O filme acabara.
Onde anda Jack Bledsoe? – perguntei.
Oh – disse Jon –, ele não vem a essas coisas.
Bem, eu venho – disse Francine.
Nós também – admitiu Sarah.
Alguém chamou de outro grupo.
Uma revista quer entrevistar você, Francine. Movie Mirror.
Claro – disse Francine. – Me desculpem – disse pra nós.
Claro.
Ela se afastou, majestosa e altiva. Eu me sentia bem por ela. Me sentia bem, por qualquer um que fizesse um retorno depois de ser relegado ao deserto.
Vá lá com ela, Jon – disse Sarah. – Ela se sentirá melhor...
Devo ir, Sarah?
Não, Hank, vai só tentar roubar a entrevista. E lembre-se, você cobra mil dólares agora.
Tem razão...
Tudo bem – disse Jon. – Vou lá.
Foi, lá.
Aproximou-se um jovem com um gravador.
Eu sou do Herald Examiner. Faço a coluna “Fale e Conte”. Que tal acha que saiu o filme?
Você tem mil dólares? – perguntou Sarah.
Sarah, isso é só papo-furado, tá tudo bem.
Bem, que tal acha que saiu o filme?
É um filme acima da média. Muito depois de os Oscars deste ano serem esquecidos, A Dança de Jim Beam estará sendo exibido de vez em quando nas salas de arte. E surgirá na TV de vez em quando, se o mundo durar.
Pensa mesmo isso?
Penso. E à medida que ele for sendo revisto várias vezes, as pessoas descobrirão novos sentidos nos diálogos e cenas, sentidos que ninguém pretendeu. Elogiar demais e de menos é a norma em nossa sociedade.
Os bebuns falam daquele jeito?
Alguns falam, até alguém os matar.
Você parece ter um alto conceito desse filme.
Não é que seja tão bom. É só que os outros são muito ruins.
Qual o filme que você considera o melhor que já viu?
Eraserhead.
Eraserhead?
É.
E o segundo em sua lista?
Quem tem Medo de Virginia Woolf?
Aí Carl Wilson voltou.
Chinaski, tem um cara lá embaixo que diz conhecer você. Quer subir. Um tal John Galt.
Deixa ele subir, por favor.
Bem, obrigado, Chinaski – disse o cara do Herald Examiner.
De nada.
Desarrolhei a segunda garrafa e servi mais duas para a gente. Sarah aguentava a bebida admiravelmente bem. Só se tornava faladora quando estávamos a sós. E então falava com sensatez, também.
Lá estava John Galt. Big John Galt. Ele se aproximou.
Hank e eu nunca apertamos as mãos – sorria. – Oi, Sarah – disse –, tem esse cara sob controle?
Tenho, John.
Porra, pensei, conheço tantos caras chamados John.
Os nomes bíblicos permanecem. John, Mark, Peter, Paul.
Big John Galt tinha boa aparência. Os olhos haviam ficado mais bondosos. A bondade chegava por fim aos melhores. Havia menos egoísmo. Menos medo. Menos competitividade.
Está com boa aparência, baby – eu disse a ele.
Você parece melhor do que há 25 anos – ele disse.
Melhor bebida, John.
São as vitaminas e comidas saudáveis – disse Sarah. – Nada de carne vermelha, sal, açúcar.
Se algum dia se publicar isso, as vendas de meus livros vão desabar, John.
Seu material vai vender sempre, Hank. Até uma criança pode ler.
Big John Galt. Porra, que salva-vida tinha sido. Quando eu trabalhava para os correios, ia para a casa dele, em vez de comer, dormir ou fazer tudo mais. Big John estava sempre lá. Sustentado por uma dona. As donas sempre sustentavam Big John.
Hank, quando eu trabalho, não sou feliz. Quero ser feliz – ele dizia.
Havia sempre aquela grande tigela de baratos na mesa de café, entre nós. Geralmente cheia até a borda de pílulas e cápsulas.
Pegue uma.
Eu metia a mão e comia-as como doce.
John, esta merda vai acabar destruindo seu cérebro.
Cada homem é diferente, Hank, o que destrói um não afeta outro.
Noites maravilhosas de bobagens. Eu trazia minha cerveja e engolia as pílulas. John fora o cara mais lido que eu já conhecera, mas sem ser pedante. No entanto, era esquisito. Talvez fosse o barato.
Às vezes, às três ou quatro horas da manhã, ele tinha um impulso de ir vasculhar latas de lixo e quintais. Eu ia com ele.
Merda, John, é só um resto velho que alguém jogou fora.
Eu quero.
A casa toda era cheia de lixo. Montes de lixo por toda parte. Quando se queria sentar num sofá, era preciso afastar para um lado um monte de lixo. E as paredes eram cobertas de dísticos e estranhas manchetes de jornais. Tudo meio fora de esquadro. Como as últimas palavras do último maníaco da terra. No porão da casa havia milhares de livros empilhados, inchados, molhados e apodrecidos pela umidade. Ele os lia todos e se saía bem. Precisava de um mínimo para viver e era melhor ninguém se meter num jogo de xadrez com ele, nem numa luta até a morte. Era uma maravilha. Creio que naquele tempo eu tinha muita pena de mim mesmo e ele me fez ver isso. Mas acima de tudo aquela época e aquelas horas eram divertidas. Eu me alimentava de Big John quando mais nada havia em volta. Ele também era escritor. E mais tarde eu dei sorte no mundo e ele não. John escrevia uns poemas de bastante força, mas entre um tempo e outro havia espaços em que parecia vazio. Ele me explicou:
Não quero ser famoso, só quero me sentir bem.
Foi um dos melhores leitores de poesia, dele mesmo ou de qualquer outro, que já ouvi. Era um belo homem. E depois, depois de minha sorte, quando eu citava John Galt aqui e ali, recebia o mesmo retorno: “Não vejo o que Chinaski vê nesse velho fanfarrão”. Os que me tinham aceito e à minha obra não aceitavam a ele e à sua obra, e eu me perguntava se talvez minha obra não era feita para idiotas. O que eu não podia evitar. Um pássaro voa, uma serpente se arrasta, eu mudo fitas de máquina de escrever.
De qualquer modo, era bom tornar a ver John Galt. Ele trazia uma nova dona consigo.
Esta é Lisa – disse. – Também escreve poesia.
Lisa saltou dentro e pôs-se a falar. Armou uma tempestade de palavras e John apenas ficou ali parado. Talvez fosse a noite dela, mas falava como uma feminista dos velhos tempos. O que está direito, para elas, só que elas tendem a consumir o oxigênio e já fazia calor demais ali dentro por falta de ar fresco. Ela falava e falava, contando-nos tudo. John e ela muitas vezes recitavam juntos. Eu já ouvira falar de Bab Danish?
Não – respondi.
Bem, Bab Danish era de cor negra e mulher, e quando recitava usava grandes argolas, e como era muito apaixonada as argolas saltavam para cima e para baixo, enquanto o irmão dela, Tip, fazia o fundo musical das suas leituras. Eu devia ouvi-la.
Hank não vai a recitais de poesia – disse Sarah –, mas eu ouvi Bab Danish e gosto muito dela.
John, eu e Bab vamos dar um recital no Beyond Baroque na próxima quarta à noite, vocês vêm?
Eu provavelmente irei – disse Sarah. E provavelmente iria.
Dei então uma boa olhada em John Galt. Ele parecia delicado e bom, mas eu via em seus olhos um profundo sofrimento que nunca vira antes. Para um homem que queria ser feliz, parecia alguém que perdera dois peões nas primeiras jogadas de uma partida de xadrez, sem ganhar vantagem alguma.
Aí o cara do Herald Examiner voltou.
Sr. Chinaski – disse –, eu queria lhe fazer outra pergunta.
Apresentei-lhe John Galt e Lisa.
John Galt – eu disse – é o maior poeta não descoberto dos Estados Unidos. Esse homem me ajudou a seguir em frente quando tudo mais me mandava parar.
Bem, Sr. John Galt.
Hank e eu nos conhecemos há uns vinte anos...
Sarah e eu nos afastamos.
Parece que, com Lisa, John está com tudo – eu disse.
Talvez seja bom pra ele.
Talvez.
Mais pessoas haviam subido. Parecia que ninguém se fora. O que havia ali? Contatos? Oportunidades? Valia a pena? Não seria melhor não estar no show business? Não, não. Quem quer ser jardineiro ou motorista de táxi? Quem quer ser consultor de impostos? Não éramos todos artistas? Não estavam nossas mentes acima disso? Mais dispostas a sofrer daquele jeito que de outro? Pelo menos aquele parecia melhor.
Nossa segunda garrafa estava quase vazia.
Aí Jon Pinchot voltou.
Jack Bledsoe está aqui. Quer falar com você.
Onde está ele?
Ali, junto da porta.
E sem dúvida lá estava Jack Bledsoe, encostado no umbral da porta com seu sorriso famoso e sensível.
Sarah e eu nos aproximamos dele. Estendi a mão e apertei a de Jack.
Pensei na frase de John Galt: “Eu e Hank nunca apertamos as mãos”.
Belo espetáculo, Jack, grande desempenho. Estou realmente feliz pela sua participação.
Enganei bem?
Acho que sim.
Eu não queria pôr muito da sua voz, nem do seu porre...
Conseguiu.
Só quis aparecer pra cumprimentar você.
Essa me pegou. Eu não sabia como reagir.
Bem, diabos, baby, a gente pode tomar um porre juntos qualquer dia desses.
Eu não bebo.
Oh, ééé... Bem, obrigado, Jack, foi um prazer você ter vindo. Que tal uma saideira, de qualquer modo?
Não, já vou indo...
Voltou-se e desceu a escada.
Estava sozinho. Sem guarda-costas nem motoqueiros. Garoto bacana, belo sorriso.
Adeus, Jack Bledsoe.

Arranquei outra garrafa de Carl Wilson e fiquei por ali com Sarah e as outras pessoas, mas na verdade nada acontecia. Só pessoas paradas por ali. Talvez esperassem que eu me embebedasse e ficasse insano e xingasse todo mundo, como às vezes fazia nas festas. Mas eu duvidava disso. Elas eram simplesmente embotadas por dentro. Não tinham nada a fazer senão permanecer dentro de seus eus, que na verdade não estavam exatamente ali. Isso não doía muito. Era um lugar suave para se estar.
Quanto a mim, minha visão principal da vida era evitar o máximo de pessoas possível. Quanto menos pessoas via, melhor me sentia. Conheci outro cara que partilhava de minha filosofia, Sam, o Cara dos Puteiros. Ele vivia no pátio atrás do meu em East Hollywood.
Hank – me disse –, quando eu cumpria pena, vivia em encrenca. O diretor vivia me jogando na solitária. Mas eu gostava da solitária. O diretor vinha, suspendia a tampa, olhava pra dentro, e uma vez me perguntou:
“– JÁ BASTA? ESTÁ PRONTO PRA SAIR DAÍ?
Eu peguei um pouco do meu cocô e joguei na cara dele. O cara fechou a tampa e me deixou lá embaixo. Eu simplesmente fiquei lá. Quando o diretor voltou, não suspendeu inteiramente a tampa.
“– BEM, JÁ BASTA?
“– DE JEITO NENHUM – berrei de volta.
Finalmente, ele me tirou de lá.
“– ELE GOSTA DEMAIS DAÍ – disse aos guardas. – TIREM ESSE PUTO DAÍ!”
Sam era um grande praça, depois se meteu no jogo. Não podia pagar o aluguel, vivia no Gardena, dormia nos banheiros de lá e recomeçava a jogar assim que acordava. Finalmente foi despejado do apartamento. Eu o localizei num minúsculo quartinho no bairro coreano. Ele se sentava num canto.
Hank, tudo que consigo beber é leite, mas volta imediatamente. Só que os médicos dizem que eu não tenho nada.
Duas semanas depois, estava morto. O cara que partilhava minha filosofia sobre as pessoas.
Escuta – eu disse a Sarah –, não está acontecendo nada aqui. Isto é a morte. Vamos dar o fora.
Temos todos os drinques grátis que precisamos...
Não vale a pena.
Mas a noite é uma criança, talvez aconteça alguma coisa.
Só se eu fizer acontecer, e não estou no estado de espírito.
Vamos esperar só um pouco mais...
Eu sabia o que ela queria dizer. Para nós, era o fim de Hollywood. No todo, ela gostava mais daquele mundo que eu. Não muito, mas um pouco. Começara a estudar para ser atriz.
Contudo, eram só pessoas paradas, só isso. As mulheres não eram bonitas, nem os homens interessantes. Chatíssimo. A chatice na verdade chegava a doer.
Eu vou explodir se não sair daqui – eu disse a Sarah.
Tudo bem – ela disse –, vamos embora.

O bom e velho Frank estava lá embaixo com a limusine.
Estão saindo cedo – ele disse.
Um-hum – eu disse.
Frank nos instalou atrás e encontramos uma nova garrafa de vinho na limusine. Abrimos enquanto nosso homem de confiança tomava a autoestrada do Porto em direção ao sul.
Ei, Frank, quer um gole?
Claro, cara!
Apertou um botão, e a pequena divisória de vidro baixou. Passei a garrafa.
Dirigindo em frente, ele tomou uma golada da garrafa de vinho. Eu não sei, mas de certa forma aquilo tudo parecia muito estranho e engraçado, e Sarah e eu começamos a rir.
Finalmente, a noite estava viva.

Charles Bukowski, em Hollywood

18/06/2024

Hollywood | 45


Eu disse a um dos homens quando passávamos:
Porra, esquecemos nosso vinho no carro! Vamos precisar algumas garrafas de vinho pro filme!
Vou buscar pro senhor, Sr. Chinaski – disse o homem. Eu não fazia ideia de quem era. Ele afastou-se do grupo.
E não esqueça o saca-rolhas! – berrei às costas dele.
Adiantamo-nos pelo centro adentro. Bem longe à nossa esquerda, eu via os flashes espocando. Aí vi Francine Bowers. Ela posava, olhando primeiro para um lado, depois para o outro. Estava régia. O melhor da última.
Seguimos os homens. Aí surgiu uma câmera de TV. Mais flashes. Reconheci a dona como uma das entrevistadoras de uma emissora.
Henry Chinaski! – ela me saudou.
Como vai? – fiz uma mesura.
E, antes que ela pudesse fazer qualquer pergunta, eu disse:
Estamos preocupados. Deixamos nosso vinho na limusine. Provavelmente o chofer está bebendo ele todo a esta altura. Precisamos de mais vinho.
Como argumentista, gostou do jeito como ficou o filme?
O diretor lidou com dois atores difíceis, os principais, sem qualquer problema. Usamos bêbados de bar autênticos, nenhum dos quais conseguiu chegar aqui esta noite. O trabalho de câmera é sensacional, e o argumento bem escrito.
É a história da sua vida?
Alguns dias de um período de dez anos...
Obrigada, Sr. Chinaski, pela entrevista...
Claro...
E aí chegou Jon Pinchot.
Oi, Sarah, oi, Hank... Sigam-me...
Lá estava um pequeno grupo com gravadores. Alguns flashes espocaram. Eu não sabia quem eram. Começaram a fazer perguntas.
Acha que se devia glorificar a bebida?
Não mais do que qualquer outra coisa...
Beber não é uma doença?
Respirar é uma doença.
Não acha os bêbados condenáveis?
Acho, a maioria. E também a maioria dos abstêmios.
Mas quem se interessaria pela vida de um bêbado?
Outro bêbado.
Acha beber muito um hábito socialmente aceitável?
Em Beverly Hills, sim. Na sarjeta, não.
Você se passou pra Hollywood?
Acho que não.
Por que escreveu este filme?
Quando escrevo alguma coisa, jamais penso no motivo.
Quem é seu ator preferido?
Não tenho nenhum.
Atriz.
Mesma resposta.
Jon Pinchot puxava-me pela manga.
É melhor a gente ir. Acho que o filme está pra começar...
Sarah e eu o acompanhamos. Fomos levados de roldão. E aí estávamos no cinema. Todo mundo parecia estar ali dentro.
Ouviu-se a voz atrás da gente:
ESPEREM!
Era o cara que tinha ido buscar o vinho. Trazia uma grande sacola de papel. Correu e jogou-a em meus braços.
Você é um dos maiores homens do mundo! – eu disse a ele.
O cara simplesmente deu meia-volta e se mandou.
Quem era aquele? – perguntei a Jon.
Não sei...
Vamos lá – disse Sarah –, é melhor a gente entrar.
Acompanhamos Jon ao saguão. As portas já se haviam fechado. Ele empurrou-as. Estava escuro e nós o seguimos pelo corredor abaixo. O filme já tinha começado.
Merda – eu disse –, não podiam ter esperado por nós? Somos os autores!
Sigam-me – disse Jon –, guardei dois lugares pra vocês.
Nós o seguimos por toda a primeira fila, na lateral. Havia duas cadeiras junto à parede.
Vejo vocês depois – disse Jon.
Duas garotas sentavam-se em nossa fila. Uma delas disse à outra:
Não sei o que estamos fazendo aqui. Eu realmente detesto Henry Chinaski. É um ser humano repugnante!
Busquei na escuridão uma das garrafas e um abridor. A tela passou da escuridão para a luz.
Henry Chinaski – continuou a garota – odeia mulheres, odeia crianças, é um velho amargo e nojento, não sei o que as pessoas veem nele!
A outra garota me viu à luz da tela e cutucou as costelas da outra com o cotovelo.
Chhh... Acho que esse aí é ele!
Abri uma garrafa para Sarah e uma para mim. Viramo-las. Aí Sarah disse:
Eu devia dar uma surra nessas putas!
Não faça isso – eu disse. – Meus inimigos são minha fonte de renda. Me odeiam tanto que se torna um caso de amor subliminar.
Estávamos numa péssima posição para ver o filme. De onde nos sentávamos, todos os corpos pareciam compridos, alongados e finos, e as cabeças eram o pior. Grandes e deformadas, testas grandes, e mesmo assim parecia quase não haver olhos, bocas ou queixos. O som também era alto demais e muito distorcido. O diálogo soava como roncos e uivos.
Era a première de meu primeiro e único filme, e eu não distinguia nada.
Ia descobrir depois que outro cinema bem ao lado exibia nosso filme exatamente à mesma hora, com apenas meia casa.
Jon não planejou bem isso – sugeriu Sarah.
Bem, a gente vê em videocassete um dia – eu disse.
Ééé – ela disse.
E batemos nossas garrafas em uníssono.
As garotas nos olhavam com total fascínio e repugnância.
As cabeças gigantescas com testas grandes continuavam a se mover pela tela.
E as cabeças berravam umas para as outras.
FLAM, FLAM, PUÓ DUÁ UÁ FUOL, PUÓ...
IÉ, VUÔ DUÁ, PUEG UESA PUÕR, TUÁ...
FUAVUÔ...
DUÁ UÔ FUÓ...
Foderam com meu diálogo, Sarah.
Uh... foi...
Mas era melhor quando as grandes testas emborcavam os drinques muito altos e finos, o drinque enchia meia tela, e depois desaparecia em alguma parte sob a testa e ficavam apenas copos vazios ondulando, mudando de forma, esticando-se e contraindo-se, copos vazios reluzentes do hades. Que ressacas aquelas cabeças iam ter.
Finalmente, Sarah e eu deixamos de olhar para a tela e apenas atacamos nossas garrafas de vinho.
E, com o tempo, o filme acabou.
Houve alguns aplausos, e esperamos que o público saísse. Esperamos um bom tempo. Depois nos levantamos e saímos.
Não havia mais flashes no saguão. Apertos de mão. Esquivamo-nos disso.
Precisávamos dos banheiros.
Vejo você junto do vaso de planta do outro lado do banheiro das senhoras – eu disse a Sarah.
Entrei no dos homens. No mictório junto a mim um bêbado oscilava. Olhou-me.
Ei, você é Henry Chinaski, não é?
Não, sou o irmão dele, Donny.
O bêbado oscilou mais um pouco, mijando à vontade.
Chinaski nunca escreveu sobre irmão nenhum.
Ele me odeia, é por isso.
Por quê?
Porque eu chutei o traseiro dele umas sessenta ou setenta vezes.
O bêbado não soube o que pensar disso. Continuou simplesmente mijando e oscilando. Eu me afastei, lavei as mãos, dei o fora dali.
Esperei junto ao vaso de planta. O chofer surgiu de detrás dele.
Recebi instruções pra levar vocês à festa de comemoração.
Ótimo – eu disse –, assim que Sarah...
E lá estava Sarah.
Sabe, baby, a maioria dos choferes espera do lado de fora, mas nosso homem, Frank, entrou e nos achou. Mas tirou o quepe pra não parecer chofer.
É uma noite estranha – ela disse.
Atravessamos o centro comercial atrás de Frank. Ele ia dois passos à frente.
Você não bebeu nosso vinho, bebeu Frank?
Não, senhor...
Frank, a primeira regra para um chofer não é jamais deixar sua limusine? E se alguém roubasse ela, por exemplo?
Senhor, ninguém jamais ia roubar aquele ferro velho.
Tem razão.
Assim que saímos do centro, Frank voltou a pôr o seu quepe. A limusine estava estacionada junto ao meio-fio.
Ele nos ajudou a entrar no banco de trás e partimos.

Charles Bukowski, em Hollywood

09/06/2024

Hollywood | 44


Depois de Cannes, ainda havia mais trabalho a fazer na sala de montagem. Pinchot dava duro nisso.
Eu tinha um pequeno papel no filme. Fazia um bebum numa cena. Era curta, mas podia ter sido mais longa. Cortaram quase toda. Eu explico. Estou sentado ali, com os dois camaradas, no balcão, não juntos, mas separados. É a cena em que Jack conhece Francine. Nós três, como bebuns, temos apenas de ficar ali como bebuns. Assim que a câmera nos pegou, porém, eu não pude me conter. Tomei uma grande golada de cerveja, rolei-a gostosamente na boca, depois a esguichei de volta ao gargalo da garrafa a uns bons vinte centímetros. Um truque excelente. Nem uma gota caiu no balcão. Não sei o que me fez fazer aquilo. Nunca tinha feito isso antes. Mas essa parte morreu na sala de montagem.
Escuta, Jon – eu disse. – Por que não põe aquela parte de volta?
Não posso. Todo mundo ia perguntar: “Quem diabos é aquele cara?”.
Quando a gente é extra, não improvisa.
De qualquer modo, chegou a hora em que nada mais se tinha a fazer no filme. Marcou-se a data da distribuição.
Numa certa noite, cerca de uma semana antes da estreia, Jon estava em nossa casa e nos sentávamos todos juntos.
Bem, vai escrever outro argumento pra gente? Eu estou pronto, quando você estiver.
Não, Jon. Eu tenho medo de Hollywood. Acho que isso é tudo. Ou espero, com certeza, que seja tudo.
Que vai fazer agora?
Um romance, imagino.
Sobre o quê?
A gente nunca fala sobre isso antes.
Por que não?
Esvazia os pneus.
Hank vive verificando a pressão dos pneus dele – disse Sarah. – Anda com um calibradorzinho. Pra testar os romances.
Ela tem razão... Escuta, Jon, vai ter première?
Première? Ora, não...
Não vai ter première? – perguntou Sarah. – Mas isso é ridículo!
Jon – eu disse – eu quero uma première!
Vocês querem uma première? Eu não acredito! Por quê?
Por quê? De farra. Por tolice. Eu quero uma longa limusine branca com chofer, um estoque do melhor vinho, TV a cores, telefone no carro, charutos...
É isso mesmo, porra – disse Sarah –, e Francine vai adorar!
Bem – disse Jon –, vou ver o que posso fazer.
Diga a Friedman que é publicidade – disse Sarah. – Diga que vai aumentar o faturamento.
Vou batalhar isso...
E, Jon – lembrei-lhe –, não esqueça a longa limusine branca.

De algum modo, ele conseguiu. Chegou a noite da première. Sarah estava lá em cima se aprontando quando chegou a longa limusine branca. Os garotinhos das vizinhanças a viram e já se juntavam no pátio da casa ao lado. Eu saí e orientei a limusine pela estradinha de acesso adentro.
Hank, você é famoso? – perguntou um dos garotos.
Famoso? Oh, sim, sim...
Hank, a gente também pode ir junto?
Não iam gostar.
Íamos, sim.
O motorista desligou o motor e saltou.
Eu sou Frank – ele disse.
Eu sou Hank – eu disse.
Você é o escritor?
Sou. Você leu meus livros?
Não.
Bem, também ainda não vi você dirigir.
Oh, sim, viu, sim, senhor. Acaba de me ver entrar na estradinha de acesso.
Tem razão, não tem? Escuta, minha mulher ainda está se vestindo. Não demora muito.
Que é que o senhor escreve?
Que quer dizer?
Quero dizer exatamente isso, senhor. Que é que o senhor escreve?
O cara começava a me deixar meio puto. Eu não estava acostumado com motoristas.
Bem, eu escrevo poemas, contos, romances...
E escreveu um argumento, senhor.
Oh. Esse. É.
Sobre o que escreve, senhor?
Sobre?
É, sobre...
Oh, ha-ha. Escrevo sobre a vida, você sabe. Só a vida, você sabe.
Minha mãe – disse um dos garotos, enfiando a cabeça por cima da cerca – diz que ele escreve coisas indecentes.
O chofer me olhou.
Por favor, diga à sua esposa que é um longo trajeto. Não devemos nos atrasar.
Quem que disse?
O Sr. Friedman.
Entrei em casa e berrei do pé da escada.
Sarah, a limusine está aqui. Se apresse...
Chegou adiantada...
Eu sei. Mas é noite de sexta-feira, e é um longo trajeto.
Desço num instante. Não se preocupe. A gente consegue.
Abri uma cerveja e liguei a TV. Havia uma luta na ESPN. Os dois batiam com força, na verdade. Agora os lutadores apresentavam melhor forma que em minha juventude. Eu me maravilhava com a energia que podiam gastar e ainda assim continuar e continuar. Os meses de trabalho na estrada e no ginásio que tinham de suportar pareciam quase insuportáveis. E depois, aqueles últimos dois ou três dias intensos antes de uma grande luta. A forma era a chave. Talento e raça eram necessários, mas sem forma física não existiam.
Eu gostava de ver lutas. De alguma forma me lembrava do ato de escrever. A gente precisava da mesma coisa, talento, raça e forma. Só que a forma era mental, espiritual. Jamais se era um escritor. A gente tinha de se tornar um escritor toda vez que se sentava à máquina. Não era tão difícil, assim que a gente se sentava diante da máquina. O que era difícil às vezes era pegar aquela cadeira e sentar. Às vezes não se podia. Como todo mundo no mundo, havia coisas que atrapalhavam: pequenos problemas, grandes problemas, portas e outras coisas batendo sem parar. Era preciso estar em forma para suportar o que tentava nos matar. Essa era a mensagem que eu extraía das lutas que via, ou das corridas de cavalo, ou da maneira como os jóqueis superavam o azar, as quedas e os pequenos horrores pessoais na pista. Eu escrevia sobre a vida, ha-ha. Mas o que realmente me pasmava era a imensa coragem de algumas das pessoas que viviam essa vida. Isso me fazia seguir em frente.
Sarah desceu a escada. Tinha uma aparência sensacional.
Vamos!
Desliguei a TV. Saímos.
Apresentei-a ao motorista.
Sarah! Sarah! Sarah! – gritaram os garotos. Gostavam dela.
A gente pode ir com você, Sarah?
Vão ter de pedir às suas mães – ela riu.
Mães? Alguém algum dia pediu aos pais?
O motorista ajudou-nos a entrar para o banco de trás. A limusine deslizou lentamente para trás, os garotos acompanhando ao longo da cerca. Diabos, em breve eu estaria morto e a metade deles se sentaria diante de processadores de textos escrevendo merdas inimaginavelmente ruins.
Descemos a ladeira íngreme e eu saquei a rolha da primeira garrafa de vinho. Servi duas taças altas.
À lama no seu olho – eu disse a Sarah, tocando os copos.
À lama nos seus dois olhos – ela disse.
Liguei a TV. Não pegava a ESPN. Desliguei.
Sabe como chegar lá? – perguntou Sarah ao chofer.
Oh, sim...
Ela me olhou.
Você algum dia pensou que estaria indo de limusine à première de um filme que você escreveu?
Nunca. Já estou muito feliz por ter largado aquele banco de jardim.
Eu gosto de limusines. Não gosta do jeito como elas deslizam?
Deslizam. Estamos num tobogã para o inferno. Aqui, olha, deixa eu servir outro drinque a você.
Grande vinho...
Oh, sim...
Subimos a autoestrada do Porto em direção ao norte, depois viramos para a de San Diego, no mesmo sentido. Eu detestava a autoestrada de San Diego. Vivia engarrafada. Aí notei que começava a cair um leve chuvisco.
É isso aí – eu disse. – Está começando a chover.
Todos os carros iam parar. Os motoristas da Califórnia não sabiam dirigir na chuva. Dirigiam rápido demais ou devagar demais. A maioria devagar demais.
Vamos nos atrasar – disse Sarah.
Eu acho, garota.
Aí a chuva começou realmente a despencar. Os outros motoristas da autoestrada encolheram-se de terror. Espiavam por detrás dos limpadores de para-brisa com seus olhinhos desalmados. Os putos deviam dar-se por satisfeitos por terem limpadores de para-brisa. Uma vez eu tive um carro velho sem eles. Querem saber o que é dirigir difícil? Experimentem essa. Em tempo de chuva, eu andava com uma fatia de batata. Parava o carro, limpava o para-brisa com a batata e prosseguia. Era preciso saber como fazer: só uma esfregadinha muito de leve.
Mas aqueles motoristas ali em seus carros agiam como se estivessem praticamente em seus leitos de morte. A gente sentia o pânico deles na tromba d’água. Pânico surdo. Pânico inútil. Pânico desperdiçado. Se algum dia quiserem usar o pânico, guardem-no para alguma coisa concreta.
Bem, baby, temos vinho à vontade.
Servi mais um pouco.
Mas tinha de dar um pouco de crédito ao chofer. Era um profissional. Parecia saber que a pista ia ficar lenta e que outra se moveria, e passava a enorme limusine de uma para outra, pegando o melhor do fluxo. Quase o perdoei por não ser um dos meus leitores. Adorava profissionais que sabiam fazer o que deviam. Esses eram raros. Havia tantos profissionais incompetentes: médicos, advogados, presidentes, bombeiros-mecânicos, zagueiros, dentistas, policiais, pilotos de voos comerciais e etc.
Acho que vamos conseguir – eu lhe disse.
Podemos – ele admitiu.
Quem é seu escritor predileto? – perguntei.
Shakespeare.
Se a gente conseguir, eu te perdoo.
Se a gente conseguir, eu me perdoo.
Eu não conseguia amarrar um papo com o cara. Ele me arrolhava toda vez.
Sarah e eu mamávamos nosso vinho.
E então chegamos. O chofer encostou e abriu a porta. Saltamos.
Era na frente de um grande centro comercial. O comércio ficava em algum lugar lá para dentro.
Obrigado, Frank – eu disse.
De nada. Agora vou estacionar. Encontro vocês quando saírem.
Como vai nos encontrar?
Eu encontro...
Meteu-se em seu assento de motorista, e a longa limusine branca enfiou-se no trânsito. A chuva ainda caía.
Olhei, e lá estavam quatro ou cinco caras de guarda-chuvas esperando por nós. Era a parte aberta do centro comercial e entrara um pouco de chuva. Os homens de guarda-chuvas correram para nós, parecendo muitíssimo preocupados com que nos molhássemos.
Eu ri.
Isso é ridículo!
Eu gosto! – Sarah riu.
Corremos uns para os outros. Depois entramos no centro. Câmeras espocavam. Grande momento. Eu deixara para trás o banco de jardim.

Charles Bukowski, em Hollywood