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14/12/2019

Da cólera

“Quando te sentes atingido pelo erro de alguém, muda logo de posição e calcula o erro análogo que cometes; por exemplo, quando julgas que o dinheiro é um bem, ou o prazer ou as gloríolas e coisas idênticas. Refletindo dessa maneira, esquecerás prontamente a cólera, considerando ainda que esse homem é compelido a isso. Que poderá ele fazer? Ou, se és capaz, afasta de ti essa compulsão.”
Marco Aurélio, in Meditações

15/01/2016

Refrear desejos, cobiça e cólera

Limitar os nossos desejos, refrear a nossa cobiça, domar a nossa cólera, tendo sempre em mente que só podemos alcançar uma parte infinitamente pequena das coisas desejáveis, enquanto males múltiplos nos vão ferindo; em suma: abster-se e suportar (Epiteto), é uma regra que, caso não seja observada, nem riqueza nem poder podem impedir que nos sintamos miseráveis. A esse propósito, diz Horácio, nas Epístolas:

Em todos os teus atos, lê e pergunta aos doutos
Procurando assim conduzir serenamente a tua vida;
Que não sejas atormentado pela cobiça sempre insaciável,
Nem pelo temor e pela esperança de bens de pouca utilidade.
Arthur Schopenhauer, in Aforismos para a sabedoria de vida

23/08/2012

As duas espécies de cóleras

Podemos distinguir duas espécies de cólera: uma que é muito súbita e se manifesta muito no exterior, mas mesmo assim tem pouco efeito e pode facilmente ser apaziguada; e outra que inicialmente não aparece tanto, porém corrói mais o coração e tem efeitos mais perigosos. Os que têm muita bondade e muito amor são mais sujeitos à primeira. Pois ela não provém de um ódio profundo, e sim de uma súbita aversão que os surpreende, porque, sendo levados a imaginar que as coisas devem desenrolar-se da forma como julgam ser a melhor, tão logo acontece de forma diferente; eles ficam admirados e frequentemente se ofendem com isso, mesmo que a coisa não os atinja pessoalmente, porque, tendo muita afeição, interessam-se por aqueles a quem amam, da mesma forma que por si mesmos. Assim, o que para outra pessoa seria apenas motivo de indignação é para eles um motivo de cólera. E como a inclinação que têm para amar faz que tenham muito calor e muito sangue no coração, a aversão que os surpreende não pode impelir para este tão pouca bile que isso não cause inicialmente uma grande emoção no sangue. Mas tal emoção pouco dura, porque a força da surpresa não se prolonga e porque, tão logo percebem que o motivo que os contrariou não devia emocioná-los tanto, arrependem-se disso.
A outra espécie de cólera, em que predominam o ódio e a tristeza, não é tão aparente no início, a não ser talvez fazendo o rosto empalidecer. Mas pouco a pouco a sua força é aumentada pela agitação que um ardente desejo de vingar-se excita no sangue, que, estando misturado com a bile que é impelida da parte inferior do fígado e do baço para o coração, excita nele um calor muito áspero e muito picante. E, assim como as almas mais generosas são as que sentem mais reconhecimento, assim as que têm mais orgulho, e que são mais baixas e mais fracas, são as que mais se deixam arrebatar por essa espécie de cólera; pois as injúrias parecem tanto maiores quanto mais o orgulho faz que nos estimemos; e também na medida em que mais estimamos os bens que elas arrebatam, os quais tanto mais estimamos quanto mais fraca e mais baixa tivermos a alma, porque eles dependem de outrem.
René Descartes, in As Paixões da Alma