Mostrando postagens com marcador Voltaire. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Voltaire. Mostrar todas as postagens

02/08/2026

Cândido ou o Otimismo – Capítulo 8




História de Cunegunda

Eu estava na cama e dormia profundamente, quando aprouve aos céus enviar os búlgaros a nosso belo castelo de Thunder-ten-tronckh; degolaram o meu pai e o meu irmão e cortaram a minha mãe em pedaços. Um búlgaro grande, com seis pés de altura, vendo que diante desse espetáculo eu havia perdido os sentidos, pôs-se a violar-me; isso fez-me voltar a mim, recobrar os sentidos, gritei, debati-me, mordi, arranhei, queria arrancar os olhos desse búlgaro grande, não sabendo que tudo que estava acontecendo no castelo de meu pai era algo de costumeiro: o bruto me deu uma facada no flanco esquerdo de que ainda carrego a marca.” “Ah! Tenho a esperança de vê-la”, disse o ingênuo Cândido. “Vós a vereis”, disse Cunegunda, “mas continuemos.” “Continuai”, disse Cândido.
Ela retomou, assim, o fio de sua história: “Um capitão búlgaro entrou, viu-me toda ensanguentada, e o soldado não se perturbava. O capitão encolerizou-se pelo pouco respeito que lhe testemunhava aquele bruto e o matou sobre o meu corpo. Em seguida, mandou fazer-me curativos e levou-me como prisioneira de guerra para o seu quartel. Eu lavava as poucas camisas que ele tinha, cozinhava para ele; ele achava-me muito bonita, há que confessar; e eu não vou negar que ele tinha um belo porte e a pele branca e suave; aliás, pouco espírito, pouca filosofia: bem se via que não fora educado pelo doutor Pangloss. Ao cabo de três meses, tendo perdido todo o dinheiro e estando enjoado de mim, vendeu-me a um judeu chamado Issacar, que traficava na Holanda e em Portugal, e que gostava apaixonadamente de mulheres. Esse judeu apegou-se muito à minha pessoa, mas não podia triunfar sobre ela; resisti melhor a ele do que ao soldado búlgaro. Uma pessoa de honra pode ser violada uma vez, mas a sua virtude fortifica-se com isso. O judeu, para me amansar, trouxe-me para esta casa de campo que estais vendo. Eu tinha acreditado até então que não havia na terra nada tão belo quanto o castelo de Thunder-ten-tronckh; fui desiludida.
O grande inquisidor viu-me um dia na missa, olhou-me demoradamente de soslaio e mandou dizer-me que precisava falar comigo sobre assuntos secretos. Fui conduzida ao seu palácio; informei-o sobre o meu nascimento; ele observou quanto estava abaixo da minha estirpe pertencer a um israelita. Foi proposto de sua parte a dom Issacar ceder-me a monsenhor. Dom Issacar, que é o banqueiro da corte e homem de crédito, nada quis fazer a respeito. O inquisidor ameaçou-o com um auto de fé. Finalmente o meu judeu, intimidado, fechou um negócio pelo qual a casa e eu pertenceríamos a ambos em comum;que o judeu teria para ele as segundas-feiras, as quartas e o dia do sabá. E que o inquisidor teria os outros dias da semana. Há seis meses que essa convenção se mantém. Não foi sem querelas; pois muitas vezes ficou indeciso se a noite do sábado para o domingo pertencia à antiga ou à nova lei.1 Quanto a mim, resisti até agora a ambas, e creio que é por essa razão que sempre fui amada.
Enfim, para afastar o flagelo dos terremotos, e para intimidar dom Issacar, aprouve ao senhor inquisidor celebrar um auto de fé. Ele fez-me a honra de convidar-me para assistir. Fiquei muito bem colocada; foram servidos refrescos às senhoras entre a missa e a execução. Fui, na verdade, tomada de horror ao ver queimar aqueles dois judeus e aquele honesto biscainho que havia desposado a sua comadre; mas qual não foi a minha surpresa, o meu espanto, minha perturbação, quando vi, dentro de um sambenito e debaixo de uma mitra, uma figura que parecia ser a de Pangloss! Esfreguei os olhos, olhei atentamente, vi enforcarem-no; caí desfalecida. Mal recuperei os sentidos, vi o senhor despojado, todo nu: foi o cúmulo do horror, da consternação, da dor, do desespero. Dir-lhe-ei com verdade que sua pele é ainda mais branca e de um encarnado mais perfeito que a do meu capitão dos búlgaros. Essa visão redobrou todos os sentimentos que me acabrunhavam, que me devoravam. Bradei, quis dizer: ‘Parem, bárbaros!’, mas faltou-me a voz, e os meus brados teriam sido inúteis. Quando o senhor foi bem surrado: ‘Como pode acontecer’, dizia eu, ‘que o amável Cândido e o sábio Pangloss se encontrem em Lisboa, um para receber cem chibatadas e o outro para ser enforcado por ordem do senhor inquisidor de quem sou a bem-amada? Pangloss então me enganou muito cruelmente quando me disse que tudo vai pelo melhor do mundo’.
Agitada, desorientada, ora fora de mim, ora prestes a morrer de fraqueza, eu estava com a cabeça plena do massacre de meu pai, de minha mãe, de meu irmão, da insolência do meu feio soldado búlgaro, da facada que ele me deu, da minha servidão, do meu serviço de cozinheira, do meu capitão búlgaro, do meu feio dom Issacar, do meu abominável inquisidor, do enforcamento do doutor Pangloss, daquele grande miserere2 em falso bordão durante o qual vos espancavam e principalmente do beijo que eu vos dera atrás de um biombo, no dia em que tinha visto o senhor pela última vez. Louvei a Deus, que o trazia de volta para mim por tantas provações. Recomendei à minha velha que cuidasse de vós e que trouxesse o senhor aqui logo que pudesse. Ela executou bem o meu pedido; experimentei o prazer inestimável de revê-lo, de ouvi-lo, de falar-lhe. Deveis estar com uma fome devoradora; eu estou com muito apetite; comecemos a jantar.”
Eis que se põem ambos à mesa; e depois do jantar, voltam para o belo sofá de que já se falou; estavam ali quando o senhor dom Issacar, um dos donos da casa, chegou. Era dia de sábado. Ele vinha desfrutar de seus direitos e explicar o seu terno amor.

Voltaire, em Cândido ou o Otimismo

30/10/2024

Acerca da guerra

Os maiores crimes que afligem a humanidade são cometidos sob pretexto de justiça. O maior dos crimes, pelo menos o mais destrutivo, e consequentemente o mais oposto à finalidade da natureza, é a guerra. E, no entanto, não há um agressor que não tinja essa malfeitoria com o pretexto de justiça.

Voltaire, em Tratado sobre a tolerância

23/01/2024

Cândido ou o Otimismo | Capítulos 6 e 7


Capítulo 6

Como se fez um belo auto de fé para impedir os terremotos, e como Cândido levou uma surra no traseiro

Depois do terremoto que havia destruído três quartos de Lisboa, os sábios do país não tinham encontrado um meio mais eficaz para prevenir uma ruína total senão dar ao povo um belo auto de fé; fora decidido pela universidade de Coimbra que o espetáculo de algumas pessoas queimadas em fogo brando, em grande cerimônia, é um segredo infalível para impedir a terra de tremer.
Tinha-se, em consequência, prendido um biscainho convencido de ter desposado a sua comadre, e dois portugueses que, comendo frango, tinham-lhe retirado o toucinho; vieram prender depois do jantar o dr. Pangloss e o seu discípulo Cândido, um por ter falado e o outro por ter escutado com ar de aprovação: ambos foram levados separadamente para cômodos de extremo frescor, nos quais nunca se era incomodado pelo sol; oito dias depois foram ambos vestidos com um sambenito, e ornaram-lhes a cabeça com mitras de papel: a mitra e o sambenito de Cândido eram cheios de chamas invertidas e diabos que não tinham nem rabos nem garras; mas os diabos de Pangloss tinham garras e rabos, e as chamas eram direitas; caminharam em procissão vestidos assim, e ouviram um sermão muito comovente, seguido de uma bela música em falso bordão. Cândido foi surrado em cadência, enquanto se cantava; o biscainho e os dois homens que não quiseram comer toucinho foram queimados, e Pangloss foi enforcado, embora não fosse o costume. No mesmo dia a terra tremeu com um estrépito espantoso.
Cândido, assustado, estupefato, perdido, sangrando todo, todo palpitante, dizia-se a si mesmo: “Se é aqui o melhor dos mundos possíveis, o que serão os outros então? Vá lá se eu fosse apenas surrado, já o fui entre os búlgaros. Mas, ó meu caro Pangloss!, o maior dos filósofos, era preciso ter visto vos enforcarem sem que eu saiba por quê?! Ó meu caro anabatista, o melhor dos homens, era preciso que tivésseis sido afogado no porto?! Ó senhorita Cunegunda!, a pérola das moças, era preciso que lhe rasgassem a barriga?!”.
Ele voltava, mal se mantendo, admoestado, surrado, absolvido e abençoado, quando uma velha o abordou e lhe disse:
Meu filho, tomai coragem, segui-me.”

Capítulo 7

Como uma velha cuidou de Cândido, e como ele reencontrou aquilo de que gostava

Cândido não tomou coragem, mas seguiu a velha em seu casebre; ela lhe deu um pote de pomada para se esfregar, deixou-lhe o que comer e beber; mostrou-lhe uma caminha bastante asseada; havia ao pé da cama um traje completo. “Comei, bebei e dormi”, disse-lhe ela, “e que Nossa Senhora de Atocha, monsenhor santo Antônio de Pádua e monsenhor são Tiago de Compostela cuidem de vós: voltarei amanhã.” Cândido, ainda atônito com tudo o que havia visto, com tudo o que havia sofrido, e ainda mais com a caridade da velha, quis beijar-lhe a mão. “Não é a minha mão que tendes de beijar”, disse a velha. “Eu voltarei amanhã. Esfregai a pomada, comei e dormi.”
Cândido, apesar de tantas desgraças, comeu e dormiu. No dia seguinte, a velha lhe traz o almoço, examina-lhe as costas, esfrega-as ela mesma com outra pomada; traz-lhe em seguida o jantar; volta ao anoitecer e traz a ceia. No outro dia, fez de novo as mesmas cerimônias. “Quem é a senhora?”, perguntava-lhe sempre Cândido. “Quem lhe inspirou tanta bondade? Que graças posso dar-lhe?” A boa senhora nunca respondia nada; voltou ao cair da noite e não lhe trouxe a ceia. “Vinde comigo”, disse ela, “e não dizei nada.” Ela o toma pelo braço e caminha com ele pelo campo por cerca de um quarto de milha; chegam a uma casa isolada, cercada de jardins e canais. A velha bate a uma portinha. Alguém abre; ela leva Cândido, por uma escada camuflada, a um gabinete dourado, deixa-o num sofá de brocado, fecha a porta e se vai. Cândido acreditava estar sonhando, e olhava toda a sua vida como um sonho funesto, e o momento presente como um sonho agradável.
A velha logo reapareceu: sustentava com dificuldade uma mulher trêmula, de porte majestoso, brilhante de pedrarias e coberta com um véu. “Tire esse véu”, disse a velha a Cândido. O rapaz aproxima-se; ergue o véu com mão tímida. Que momento! Que surpresa! Acredita estar vendo a srta. Cunegunda; via-a de fato, era ela mesma. Faltam-lhe as forças. Não pode proferir palavra, cai aos seus pés. Cunegunda cai no sofá. A velha cumula-os de aguardentes; eles retomam os sentidos, falam entre si: são de início palavras entrecortadas, perguntas e respostas que se cruzam, suspiros, lágrimas, gritos. A velha recomenda-lhes que façam menos barulho e deixa-os à vontade. “Quê?! Sois vós”, diz-lhe Cândido, “estais viva! Eu vos reencontro em Portugal! Então não vos violaram? Não vos romperam a barriga, como o filósofo Pangloss me havia garantido?” “Assim foi feito”, disse a bela Cunegunda; “mas nem sempre se morre desses dois acidentes.” “Mas vosso pai e vossa mãe foram mortos?” “É a pura verdade”, disse Cunegunda a chorar. “E vosso irmão?” “Meu irmão também foi morto.” “E por que estais em Portugal? E como soubestes que eu estava aqui? E por que estranha aventura me fizestes conduzir a esta casa?” “Eu vos direi tudo isso”, replicou a senhora; “mas antes é preciso que me conteis tudo o que vos aconteceu desde o beijo inocente que me destes e os pontapés que recebestes.”
Cândido obedeceu com profundo respeito; e, embora estivesse estupefato, embora a sua voz estivesse fraca e trêmula, embora ainda lhe doesse um pouco a espinha, contou-lhe da maneira mais espontânea tudo o que havia experimentado desde o momento da separação de ambos. Cunegunda erguia os olhos para o céu; verteu lágrimas pela morte do bom anabatista e de Pangloss; depois do que, falou nestes termos a Cândido, que não perdia uma palavra e a devorava com os olhos.

Voltaire, in Cândido ou o Otimismo

11/01/2024

Cândido ou o Otimismo | Capítulo 5


Tempestade, naufrágio, terremoto, e o que adveio
ao dr. Pangloss e a Cândido e ao anabatista Tiago

A metade dos passageiros, enfraquecidos, expirantes por aquelas angústias inconcebíveis que o balanço de um navio provoca nos nervos e em todos os humores do corpo agitados em sentido contrário, não tinha nem de se preocupar com o perigo. A outra metade soltava gritos e fazia orações; as velas estavam rasgadas, os mastros quebrados, o casco entreaberto. Trabalhava quem podia, ninguém se entendia, ninguém comandava. O anabatista ajudava um pouco na manobra; ele estava no tombadilho; um marujo furioso bate nele com rudeza e o estende no assoalho; mas, com o golpe que deu, sofreu ele próprio uma tão grande sacudidela que caiu para fora do barco de ponta-cabeça. Ficou suspenso e dependurado a uma parte do mastro rompido. O bom Tiago corre em socorro dele, ajuda-o a subir de volta e, com o esforço que fez, é precipitado no mar à vista do marujo, que o deixou perecer sem sequer olhar para ele. Cândido aproxima-se, vê o seu benfeitor, que reaparece um momento e é engolido para sempre. Quer lançar-se atrás dele no mar; o filósofo Pangloss o impede, provando-lhe que a baía de Lisboa tinha sido feita de propósito para que o anabatista nela se afogasse. Enquanto ele provava a priori, o navio se entreabre, tudo perece, com exceção de Pangloss, de Cândido e desse desalmado marinheiro que tinha afogado o virtuoso anabatista; o malandro nadou com sucesso até a praia aonde Pangloss e Cândido foram levados em uma tábua.
Quando voltaram um pouco a si, caminharam rumo a Lisboa; ainda tinham algum dinheiro, com o qual esperavam salvar-se da fome depois de terem escapado da tempestade.
Mal colocaram os pés na cidade, chorando a morte de seu benfeitor, sentem a terra tremer sob os seus passos; o mar se ergue a ferver no porto e destroça os navios que estão ancorados. Turbilhões de chamas e de cinzas cobrem as ruas e as praças públicas; as casas desmoronam, os telhados são derrubados sobre as fundações, e as fundações se dispersam; trinta mil habitantes de qualquer idade e sexo são esmagados debaixo das ruínas. O marinheiro dizia, vaiando e blasfemando: “Haverá alguma coisa para se ganhar aqui”. “Qual poderá ser a causa suficiente deste fenômeno?”, dizia Pangloss. “Eis o último dia do mundo!”, exclamava Cândido. O marujo corre incontinente para o meio dos escombros, enfrenta a morte para procurar dinheiro, encontra, apossa-se dele, embriaga-se, e, tendo curtido o seu vinho, compra os favores da primeira mulher de boa vontade que encontra sobre as ruínas das casas destruídas e em meio a moribundos e mortos. Pangloss, entretanto, puxava-o pela manga. “Meu amigo”, dizia-lhe, “isso não fica bem; estais faltando com a razão universal, estais usando mal o seu tempo.” “Cabeça e sangue!”, respondeu o outro. “Sou marinheiro e nascido na Batávia; pisei quatro vezes sobre o crucifixo em quatro viagens ao Japão; achaste mesmo teu homem com tua razão universal!”
Alguns fragmentos de pedra tinham ferido Cândido; ele estava estendido na rua e coberto de escombros. Dizia a Pangloss: “Ai! Arranja-me um pouco de vinho e óleo; estou morrendo!”. “Este terremoto não é algo novo”, respondeu Pangloss; “a cidade de Lima sofreu os mesmos abalos na América no ano passado; mesmas causas, mesmos efeitos: existe certamente uma corrente de enxofre por baixo da terra, desde Lima até Lisboa.” “Nada é mais provável”, diz Cândido, “mas, por Deus, um pouco de óleo e de vinho.” “Como, provável?”, replicou o filósofo. “Sustento que a coisa está demonstrada.” Cândido perdeu os sentidos, e Pangloss lhe trouxe um pouco de água de um chafariz próximo.
No dia seguinte, tendo encontrado algumas provisões esgueirando-se através dos escombros, eles recuperaram um pouco as forças. Em seguida, trabalharam como os demais para aliviar os habitantes que tinham escapado da morte. Alguns cidadãos socorridos por eles deram-lhes um jantar tão bom quanto se podia após tamanho desastre. É verdade que, na refeição, os convivas regavam o pão com suas lágrimas. Mas Pangloss os consolou garantindo-lhes que as coisas não podiam ser de outra maneira: “Porque”, disse ele, “tudo isto é o que há de melhor. Pois, se há um vulcão em Lisboa, ele não podia estar noutro lugar. Porque é impossível que as coisas não estejam onde estão. Pois tudo está bem.”
Um homenzinho de negro, familiar da Inquisição, que estava ao seu lado, tomou polidamente a palavra e disse: “Aparentemente o senhor não acredita no pecado original; pois, se tudo está o melhor, não há, então, nem queda nem punição”.
Peço muito humildemente perdão a Vossa Excelência”, respondeu Pangloss ainda mais polidamente, “pois a queda do homem e a maldição entravam necessariamente no melhor dos mundos possíveis.” “Então o senhor não crê na liberdade?”, disse o familiar. “Vossa Excelência irá me desculpar”, disse Pangloss; “a liberdade pode subsistir com a necessidade absoluta, pois era necessário que fôssemos livres; pois enfim a liberdade determinada…” Pangloss estava no meio da frase quando o familiar fez um sinal com a cabeça ao seu capanga que lhe servia vinho do Porto, ou d’Oporto.

Voltaire, in Cândido ou O Otimismo

02/01/2024

Cândido ou o Otimismo | Capítulos 3 e 4


Como Cândido fugiu de entre os búlgaros, e o que se tornou

Nada era tão belo, tão lesto, tão brilhante, tão bem-ordenado quanto os dois exércitos. Os clarins, os pífaros, os oboés, os tambores, os canhões, formavam uma harmonia tal como nunca houve no inferno. Os canhões derrubaram de início cerca de seis mil homens de cada lado; em seguida a rajada de mosquetes tirou do melhor dos mundos por volta de dez mil malandros que lhe infectavam a superfície. A baioneta também foi a razão suficiente da morte de alguns milhares de homens. O total bem podia chegar a umas trinta mil almas. Cândido, que tremia como um filósofo, escondeu-se o melhor que pôde durante aquela carnificina heroica.
Finalmente, enquanto ambos os reis faziam cantar o Te Deum cada um em seu campo, ele tomou o partido de ir arrazoar em outro lugar sobre efeitos e causas. Passou por cima de montes de mortos e de moribundos e chegou primeiro a uma aldeia vizinha; ela estava em cinzas: era uma aldeia abar que os búlgaros haviam queimado, segundo as leis do direito público. Aqui, anciãos crivados de tiros olhavam morrer as suas mulheres degoladas, que mantinham os filhos nas mamas ensanguentadas; ali, moças estripadas depois de terem saciado as necessidades naturais de alguns heróis exalavam o último suspiro; outras, meio queimadas, gritavam que terminassem de matá-las. Cérebros estavam espalhados pela terra, ao lado de braços e pernas amputados.
Cândido fugiu o mais depressa que pôde para outra aldeia; ela pertencia aos búlgaros, e heróis abares haviam-na tratado da mesma forma. Cândido, sempre caminhando sobre membros palpitantes ou através de ruínas, deixou enfim o teatro da guerra, carregando umas provisõezinhas em seu embornal e não esquecendo nunca a srta. Cunegunda. Faltaram-lhe provisões quando chegou à Holanda; mas tendo ouvido dizer que todo mundo era rico nesse país, e que o povo dali era cristão, não teve dúvidas de que o tratariam tão bem quanto o fora no castelo do senhor barão antes que de lá fosse expulso pelos belos olhos da srta. Cunegunda.
Pediu esmola a várias personagens sisudas, que lhe responderam todas que, se ele continuasse a exercer esse ofício, iriam trancafiá-lo numa casa de correção para que aprendesse a viver.
Dirigiu-se depois a um homem que acabara de falar uma hora seguida sobre a caridade numa grande assembleia. Esse orador, olhando-o de atravessado, disse-lhe: “O que é que o senhor veio fazer aqui? Está aqui pela boa causa?”. “Não existe efeito sem causa”, respondeu modestamente Cândido, “tudo está encadeado necessariamente e arranjado em função do melhor. Foi preciso que eu fosse expulso de junto da senhorita Cunegunda, que tivesse passado pelo açoite, e é preciso que eu peça o meu pão até que possa ganhá-lo; tudo isso não podia ser de outra maneira.” “Meu amigo”, disse o orador, “o senhor acredita que o papa seja o Anticristo?” “Eu ainda não tinha ouvido dizer isso”, respondeu Cândido; “mas quer ele o seja, quer não, está me faltando pão.” “Não mereces comê-lo”, disse o outro; “vá, malandrinho, vá, miserável, não chegues perto de mim pelo resto de tua vida.” A mulher do orador, tendo posto a cabeça na janela e avistando um homem que duvidava que o papa fosse o Anticristo, derramou-lhe na cabeça um… cheio. Ó céu! A que excesso chega o zelo da religião nas mulheres!
Um homem que não tinha sido batizado, um bom anabatista chamado Tiago, viu a maneira cruel e ignominiosa com que assim se tratava um de seus irmãos, um ser de dois pés sem penas, que tinha uma alma; ele o levou à sua casa, limpou-o, deu-lhe pão e cerveja, presenteou-o com dois florins, e até quis ensinar-lhe a trabalhar nas suas manufaturas de tecidos da Pérsia que se fabricam na Holanda. Cândido, quase se prosternando diante dele, exclamou: “Mestre Pangloss bem que me dissera que tudo está pelo melhor no mundo, pois estou infinitamente mais comovido com a vossa extrema generosidade do que com a severidade daquele senhor de sobretudo preto e da senhora sua esposa”.
No dia seguinte, enquanto passeava, encontrou um mendigo coberto de pústulas, de olhos mortiços, com a ponta do nariz roída, a boca torta, dentes pretos e falando com uma voz estrangulada, atormentado por uma tosse violenta e cuspindo um dente a cada esforço.

Capítulo 4

Como Cândido encontrou o seu antigo mestre de filosofia, o dr. Pangloss, e o que disso adveio

Cândido, mais movido pela compaixão do que pelo horror, deu a esse espantoso mendigo os dois florins que recebera de seu honesto anabatista Tiago. O fantasma olhou para ele fixamente, verteu lágrimas e saltou-lhe ao pescoço. Cândido, apavorado, recuou. “Ah!”, disse o miserável ao outro miserável, “não estais mais reconhecendo o vosso querido Pangloss?” “Que ouço eu? O senhor, meu querido mestre! O senhor, nesse estado horrível! Que desgraça vos aconteceu? Por que não estais mais no mais belo dos castelos? O que aconteceu com a senhorita Cunegunda, a pérola das mocinhas, a obra-prima da natureza?” “Não aguento mais”, disse Pangloss. Imediatamente Cândido levou-o ao estábulo do anabatista, onde o fez comer um pouco de pão; e quando Pangloss já estava refeito: “E então”, disse-lhe ele, “Cunegunda?” “Morreu”, retomou o outro. Cândido desmaiou; o amigo o fez recobrar os sentidos com um pouco de vinagre ruim que se encontrava por acaso no estábulo. Cândido reabre os olhos. “Cunegunda está morta! Ah! Melhor dos mundos, onde estás? Mas de que doença ela morreu? Não seria por me ver expulso do castelo do senhor seu pai a grandes pontapés?” “Não”, disse Pangloss. “Ela foi estripada por soldados búlgaros, depois de ter sido violada tanto quanto se pode sê-lo; eles quebraram a cabeça do senhor barão, que queria defendê-la; a senhora baronesa foi cortada em pedaços; meu pobre pupilo, tratado exatamente como a irmã; e quanto ao castelo, não ficou pedra sobre pedra, nem uma cocheira, nem um carneiro, nem um pato, nem uma árvore; mas fomos bem vingados, pois os abares fizeram o mesmo num baronato vizinho que pertencia a um senhor búlgaro.”
Ao ouvir isso, Cândido desmaiou de novo; mas, voltando a si e tendo dito o que devia dizer, indagou-se sobre a causa e o efeito, e sobre a causa suficiente que tinha colocado Pangloss num estado tão lamentável. “Ah!”, disse o outro, “foi o amor; o amor, o consolador do gênero humano, o conservador do universo, a alma de todos os seres sensíveis, o terno amor.” “Pena!”, disse Cândido, “eu o conheci, esse amor, esse soberano dos corações, essa alma de nossa alma; ele nunca me trouxe nada além de um beijo e vinte pontapés na bunda. Como essa bela causa pôde produzir em vós um efeito tão abominável?”
Pangloss respondeu nestes termos: “Ó meu caro Cândido! Conhecestes Paquette, aquela bela acompanhante de nossa augusta baronesa; degustei em seus braços as delícias do paraíso, que produziram estes tormentos infernais pelos quais me vedes devorado. Ela estava infectada. Talvez já tenha morrido disso. Paquette tinha recebido essa dádiva de um franciscano muito sábio, que fora buscar sua fonte; pois ele a pegara de uma velha condessa, que a recebera de um capitão de cavalaria, que a devia a uma marquesa, que a pegara de um pajem, que a recebera de um jesuíta, que, sendo noviço, a havia contraído em linha direta de um dos companheiros de Cristóvão Colombo. Quanto a mim, não a passarei a ninguém, pois estou morrendo”.
Ó Pangloss!”, exclamou Cândido, “aí está uma estranha genealogia! Não foi o diabo que esteve na origem disso?” “Não mesmo!”, replicou aquele grande homem. “Era uma coisa indispensável no melhor dos mundos, um ingrediente necessário; pois se Colombo não tivesse pegado, numa ilha da América, essa doença que envenena a fonte da geração, que muitas vezes até impede a geração, e que é evidentemente o oposto do grande escopo da natureza, não teríamos nem o chocolate nem a cochonilha. Há que se observar ainda que, até hoje, em nosso continente, essa doença nos é particular, como a controvérsia. Os turcos, os indianos, os persas, os chineses, os siameses, os japoneses não a conhecem ainda; mas há uma razão suficiente para que a conheçam, por sua vez, dentro de alguns séculos. Enquanto isso, ela fez um maravilhoso progresso entre nós, e principalmente nos grandes exércitos compostos de honestos estipendiários, bem-educados, que decidem do destino dos Estados; pode-se garantir que, quando trinta mil homens combatem em ordem de batalha enfileirados contra tropas de igual número, há cerca de vinte mil sifilíticos de cada lado.”
Eis aí algo admirável”, disse Cândido, “mas é preciso curá-lo.” “E como posso fazê-lo?”, disse Pangloss. “Eu não tenho um tostão, meu amigo; e em toda a extensão deste globo, não se pode nem fazer uma sangria, nem tomar uma lavagem sem pagar, ou sem que haja alguém que pague por nós.”
Este último discurso determinou Cândido; ele foi lançar-se aos pés de seu caridoso anabatista Tiago e fez-lhe uma pintura tão comovente do estado a que seu amigo estava reduzido, que o bom homem não hesitou em recolher o dr. Pangloss; fê-lo tratar-se às suas expensas. Pangloss, no tratamento, só perdeu um olho e uma orelha. Ele escrevia bem e sabia perfeitamente a aritmética. O anabatista Tiago fez dele o seu guarda-livros. Ao cabo de dois meses, sendo obrigado a ir a Lisboa para cuidar dos negócios de seu comércio, levou em seu navio os dois filósofos; Pangloss explicou-lhe como tudo era o melhor possível. Tiago não era de sua opinião. “É preciso”, dizia ele, “que os homens tenham corrompido um pouco a natureza, pois não nasceram lobos e tornaram-se lobos. Deus não lhes deu canhões de vinte e quatro polegadas nem baionetas, e eles fizeram baionetas e canhões para se destruir. Eu poderia listar as bancarrotas, e a justiça que se apossa dos bens dos falidos para frustrar os credores.” “Tudo isso era indispensável”, repetia o doutor caolho, “e as desgraças particulares fazem o bem geral, de modo que quanto mais houver desgraça particular, mais tudo ficará bem.” Enquanto ele arrazoava, o céu escureceu, os ventos sopraram dos quatro cantos do mundo e o navio foi assaltado pela mais horrível tempestade, à vista do porto de Lisboa.

Voltaire, in Cândido ou o Otimismo

18/08/2023

Capítulo 2 | O que se tornou Cândido entre os búlgaros

Cândido, expulso do paraíso terrestre, caminhou por muito tempo sem saber por onde, chorando, erguendo os olhos para o céu, voltando-os com frequência para o mais belo dos castelos que encerrava a mais bela das baronesinhas; dormiu sem jantar no meio dos campos, entre dois sulcos; a neve caía em grandes flocos. Cândido, transido de frio, arrastou-se no dia seguinte rumo à cidade vizinha, que se chama Valdberghoff-trarbk-dikdorff, sem dinheiro, morrendo de fome e de lassidão. Parou tristemente à porta de um cabaré. Dois homens vestidos de azul o notaram: “Camarada”, disse um deles, “aí está um jovem muito bem-apessoado e que tem o porte exigido”. Avançaram em direção a Cândido e lhe pediram que jantasse, com muita civilidade. “Meus senhores”, disse-lhes Cândido com uma modéstia encantadora, “fico muito honrado, mas não tenho com que pagar a minha parte.” “Ah! Meu senhor”, disse-lhe um dos azuis, “as pessoas de vosso porte e mérito nunca pagam nada: não tendes cinco pés e cinco polegadas de altura?” “Sim, senhores, é o meu porte”, disse ele, fazendo uma reverência. “Ah! Meu senhor, ponde-vos à mesa; não somente assumimos a despesa, mas nunca aceitaríamos que um homem como vós esteja sem dinheiro; os homens só são feitos para socorrer uns aos outros.” “Tendes razão”, disse Cândido, “é o que o senhor Pangloss sempre me disse, e bem vejo que tudo está pelo melhor.” Pedem-lhe que aceite alguns écus, ele aceita e quer fazer-lhes um comprovante da dívida; não querem nada disso, sentam-se à mesa: “Vós não amais com ternura?…”. “Oh! Sim”, respondeu ele, “amo com ternura a senhorita Cunegunda.” “Não”, disse um daqueles senhores, “estamos vos perguntando se não amais com ternura o rei dos búlgaros.” “Não, mesmo”, disse ele, “pois nunca o vi.” “Como! É o mais encantador de todos os reis, e temos de beber à sua saúde.” “Ah! Com muito gosto, meus senhores.” E ele bebe. “Basta”, dizem-lhe. “Eis que sois o apoio, o sustentáculo, o defensor, o herói dos búlgaros; vossa fortuna está feita e vossa glória está garantida.” Colocam-lhe imediatamente ferros nos pés e levam-no para o regimento. Fazem-no virar à direita, à esquerda, levantar a vareta, recolocar a vareta, mirar, atirar, dobrar o passo, e dão-lhe trinta bastonadas; no dia seguinte ele faz o exercício um pouco menos mal, e recebe apenas vinte pancadas; dois dias depois só lhe deram dez, e ele passa a ser visto por seus camaradas como um prodígio.
Cândido, completamente estupefato, não distinguia muito bem ainda como é que ele era um herói. Um belo dia de primavera ele teve a ideia de ir passear, caminhando direto para a frente, achando que era um privilégio da espécie humana, como da espécie animal, servir-se das pernas a seu bel-prazer. Mal andou duas léguas quando quatro outros heróis de seis pés o alcançam, amarram-no, levam-no para uma masmorra. Perguntaram-lhe juridicamente o que preferia: ser fustigado trinta e seis vezes por todo o regimento, ou receber ao mesmo tempo doze balas de chumbo no cérebro. Por mais que ele dissesse que as vontades são livres e que não queria nem uma coisa nem outra, foi preciso fazer uma escolha; ele decidiu-se, em virtude do dom de Deus a que se chama liberdade, a passar trinta e seis vezes pelas varas; aguentou dois passeios. O regimento era composto de dois mil homens: isso lhe valeu quatro mil varadas que, desde a nuca até o cu, puseram-lhe à mostra os músculos e os nervos. Como iam proceder à terceira rodada, Cândido, não aguentando mais, pediu como graça que aceitassem ter a bondade de quebrar-lhe a cabeça; ele obteve tal favor; vedam-lhe os olhos, fazem-no ajoelhar-se. O rei dos búlgaros passa nesse momento, informa-se sobre o crime do paciente; e, como esse rei tinha um grande gênio, compreendeu, por tudo o que ouviu de Cândido, que se tratava de um jovem metafísico, completamente ignorante das coisas deste mundo, e concedeu-lhe a sua graça com uma clemência que será louvada em todos os jornais e em todos os séculos. Um bom cirurgião curou Cândido em três semanas com os emolientes ensinados por Dioscórides. Já tinha um pouco de pele e podia andar quando o rei dos búlgaros travou batalha com o rei dos abares.

Voltaire, in Cândido ou o Otimismo

11/04/2022

Capítulo 1 | Como Cândido foi criado num lindo castelo, e como foi expulso dele

Havia na Westfália, no castelo do senhor barão de Thunder-ten-tronckh, um jovem a quem a natureza tinha dado os mais suaves costumes. Sua fisionomia anunciava a sua alma. Tinha o juízo bastante reto, com a mente mais simples; era, creio, por essa razão que o chamavam de Cândido. Os antigos criados da casa suspeitavam que ele fosse filho da irmã do senhor barão e de um bom e honesto fidalgo da vizinhança, a quem essa senhorita nunca quis desposar porque ele só conseguiu comprovar setenta e um quartos, e porque o resto de sua árvore genealógica tinha se perdido pela injúria do tempo.
O barão era um dos senhores mais poderosos da Westfália, pois o seu castelo tinha uma porta e janelas. Sua grande sala era até ornamentada com tapeçarias. Todos os cães de seu terreiro compunham uma matilha, se necessário; os seus palafreneiros eram os adestradores; o pároco da cidade era seu capelão-mor. Todos o chamavam de “meu senhor” e riam quando ele pilheriava.
A senhora baronesa, que pesava cerca de trezentas e cinquenta libras, angariava com isso uma grande consideração, e fazia as honras da casa com uma dignidade que a tornava ainda mais respeitável. Sua filha Cunegunda, de dezessete anos, era corada, fresca, gorda, apetitosa. O filho do barão parecia em tudo digno do pai. O preceptor Pangloss2 era o oráculo da casa, e o pequeno Cândido escutava as suas lições com toda a boa-fé de sua idade e de seu caráter.
Pangloss ensinava a metafísico-teológico-cosmolonigologia. Ele provava admiravelmente que não há efeito sem causa, e que, no melhor dos mundos possíveis, o castelo do senhor barão era o mais belo dos castelos e a senhora, a melhor das baronesas possíveis.
Está demonstrado”, dizia ele, “que as coisas não podem ser de outro jeito: pois tudo sendo feito para um fim, tudo é necessariamente para o melhor fim. Notem que os narizes foram feitos para carregar óculos. As pernas foram visivelmente instituídas para usar calças, e nós temos calças. As pedras foram formadas para ser talhadas e para fazer castelos; assim meu senhor tem um belíssimo castelo; o maior barão da província deve ser o mais bem alojado; e os porcos sendo feitos para serem comidos, comemos porcos durante o ano todo; por conseguinte, aqueles que afirmaram que tudo está bem disseram uma bobagem; era preciso dizer que tudo está o melhor.”
Cândido escutava atentamente, e acreditava inocentemente, pois ele achava a srta.
Cunegunda extremamente bela, embora nunca tivesse tido a ousadia de dizer isso a ela. Concluía que, depois da felicidade de ter nascido barão de Thunder-ten-tronckh, o segundo grau de felicidade era ser a srta. Cunegunda; o terceiro, vê-la todos os dias; e o quarto, ouvir mestre Pangloss, o maior filósofo da província e, consequentemente, de toda a Terra.
Um dia, Cunegunda, passeando perto do castelo, no bosquezinho a que chamavam parque, viu por entre o matagal o dr. Pangloss dando uma aula de física experimental à camareira de sua mãe, moreninha muito bonita e muito dócil. Como a srta. Cunegunda tivesse muita disposição para as ciências, observou, sem sofrer, as experiências reiteradas de que foi testemunha; ela viu claramente a razão suficiente6 do doutor, os efeitos e as causas, e voltou muito agitada, toda pensativa, toda cheia do desejo de ser sábia, imaginando que ela bem que podia ser a razão suficiente do jovem Cândido, que também ele podia ser a dela.
Ela encontrou Cândido ao voltar para o castelo, e corou; Cândido também corou; ela lhe disse bom-dia com voz entrecortada, e Cândido falou com ela sem saber o que dizia. No dia seguinte, depois do jantar, ao saírem da mesa, Cunegunda e Cândido encontraram-se atrás de um biombo; Cunegunda deixou cair o lenço; Cândido recolheu-o, ela tomou-lhe inocentemente a mão, o rapaz beijou inocentemente a mão da moça com uma vivacidade, uma sensibilidade, uma graça toda particular; as suas bocas se encontraram, os olhos se inflamaram, os joelhos tremeram, as mãos se apertaram. O senhor barão de Thunder-ten-tronckh passou perto do biombo e, vendo aquela causa e aquele efeito, expulsou Cândido do castelo com grandes pontapés no traseiro; Cunegunda desmaiou; foi esbofeteada pela senhora baronesa logo que voltou a si; e tudo ficou consternado no mais belo e mais agradável dos castelos possíveis.

Voltaire, in Cândido ou o Otimismo

06/06/2021

Céu dos antigos

Se um bicho da seda desse o nome de céu ao frouxel que lhe envolve o casulo, não raciocinaria pior que os antigos chamando céu à atmosfera, que é, como muito bem diz o Sr. de Fontenelle em seus Mondes, o cotão do nosso casulo.
Os vapores que se exalam dos mares e do solo e formam as nuvens, os meteoros e os trovões, foram a princípio tomados pela morada dos deuses. Em Homero os deuses sempre descem em nuvens de ouro. Vem daí ainda hoje representarem-nos os pintores sentados em uma nuvem. Mas como era justo estivesse o senhor dos deuses mais à vontade que os outros, deram-lhe uma águia por veículo, por ser a ave que mais alto voa.
Vendo os senhores das cidades morarem em cidadelas eretas nas assomadas das montanhas, julgaram os antigos gregos que os deuses também deviam ter uma cidadela, e colocaram-na na Tessália, no monte Olimpo, cujo vértice não raro se amortalha de nuvens De sorte que seu palácio se achava no mesmo nível do céu.
Estrelas e planetas, que parecem engastados na abóbada azul da atmosfera, foram transformados em outras tantas moradas de deuses. Sete dentre estes tiveram cada um seu planeta. Os outros alojaram-se onde melhor puderam. Em sala a que conduzia a via láctea reunia-se o conselho geral dos deuses: necessário era que tivessem seu congresso no ar, já que os homens tinham seus paços municipais na terra.
Quando os titãs, espécie de animais entre os deuses e os homens, declararam uma guerra justíssima aos deuses em vindicação de sua herança paterna – sendo como eram filhos do Céu e da Terra – não tiveram mais que empilhar duas ou três montanhas umas sobre outras para se tornarem senhores do céu e do castelo do Olimpo.

Neve foret terris securior arduus aether,
affectasse ferunt regnum coeleste gigantes,
altaque congestos struxisse ad sidera montes.

Essa física de crianças e de velhos era antiquíssima. Contudo é muito provável tivessem os caldeus ideias tão sãs quanto nós do que se chama o céu. Colocavam eles o Sol no centro do nosso mundo planetário, em distância da Terra aproximadamente a mesma reconhecida hoje. Em torno do Sol faziam girar a Terra e todos os planetas, ensina-nos Aristarco de Samos. É o verdadeiro sistema do universo, posteriormente reeditado por Copérnico. Os filósofos, porém, guardavam o segredo para si, a fim de serem mais respeitados pelos reis e pelo povo, ou antes, para não serem perseguidos.
É tão familiar aos homens a linguagem do erro que ainda chamamos céu aos vapores e ao espaço entre a Terra e a Lua. Dizemos subir ao céu, como dizemos que o Sol gira, conquanto saibamos que não é assim. Possivelmente, para habitantes da Lua, nós é que somos o céu. Cada planeta coloca o seu céu no planeta vizinho.
Se se perguntasse a Homero para que céu tinha ido a alma de Sarpédon, onde estava a de Hércules, pôr-se-ia o grande poeta em calças pardas. Certamente responderia com versos harmoniosos.
Como saber se a alma aérea de Hércules se acharia mais a vontade em Vênus ou Saturno que na Terra? Ou estaria no Sol? É de crer que não estivesse muito à vontade nessa fornalha. Finalmente, que entenderiam os antigos por o céu? Ignoravam o que fosse. Sempre disseram o céu e a terra. É como se dissessem o infinito e um átomo. Propriamente falando não existe céu. O que há é uma quantidade prodigiosa de globos girando no vazio do espaço, um dos quais é a Terra.
Criam os antigos que ir aos céus era subir. A verdade, porém, é que não se sobe de um astro a outro. Estão os corpos celestes tanto abaixo como acima do nosso horizonte. Assim, supondo que, tendo vindo a Pafos, Vênus regressasse a seu planeta quando este se houvesse posto, não subiria em relação ao nosso horizonte: pelo contrário, desceria, e nesse caso deveria dizer-se descer ao céu. Porém os antigos não alcançavam tais sutilezas. Tinham noções vagas, incertas, contraditórias sobre tudo que concernia à, física. Escreveram-se volumes de légua e meia a fim de saber o que pensavam acerca de um sem número de questões que tais. Bastariam duas palavras: não pensavam.
Sempre é bom excetuar alguns sábios Mas vieram mais tarde. Poucos manifestaram seus pensamentos, e foi o quanto bastou para que os charlatães os mandassem para o céu pelo caminho mais curto.
Pretendeu um escritor, chamado, creio, Pluche, promover Moisés a grande físico. Já antes outro o conciliara com Descartes e dera à estampa o Cartesius Mosaizans. A dar-lhe ouvidos foi Moisés quem primeiro concebeu os turbilhões e a matéria sutil. É no entanto por de mais sabido que Deus, fazendo Moisés um grande legislador, um grande profeta, nem sequer lhe passou pela veneta fazê-lo professor de física. Moisés ensinou aos judeus qual era seu dever, mas não lhes disse palavra de filosofia. Calmet, que compilou às pazadas e sem nunca raciocinar, fala de sistema dos hebreus. Porém esse povo grosseiro nunca teve sistema algum. Nem sequer possuíam escola de geometria. O termo era grego para eles. Sua ciência era o ofício de corretor e a usura.
Deparam-se em seus livros algumas ideias obscuras, incoerentes, dignas em tudo por tudo de um povo bárbaro, sobre a estrutura do céu. Seu primeiro céu era o ar. O firmamento, sólido e de gelo, sustinha as águas superiores, que ao tempo do dilúvio vazaram desse reservatório por portas, esclusas e cataratas.
Acima do firmamento ou das águas superiores estava o terceiro céu ou empíreo, para onde foi arrebatado S. Paulo. Formava o firmamento uma espécie de meia abóbada continente da Terra. O Sol não girava em torno da Terra porque sequer concebiam que a terra fosse redonda. Chegando ao ocidente, voltava ao oriente por caminho desconhecido. E se não se via era em virtude de que, como disse o barão de Foeneste, desandava de noite.
Todas essas fantasias, adotaram-nas os hebreus dos outros povos. Considerava o céu a maioria das nações, tirante a escola dos caldeus, como um sólido. A Terra, fixa e imóvel, era mais longa um grande terço de oriente a ocidente que de meio dia a norte. Daí as expressões longitude e latitude, por nós perfilhadas. Claro que, desta forma, era impossível haver antípodas. Sto. Agostinho trata a ideia de antípodas de absurdo, e diz expressamente Lactâncio: “Haverá indivíduos tão estúpidos a ponto de crerem que possa haver homens de cabeça para baixo?”
Pergunta S. Crisóstomo em sua décima quarta homilia: “Onde estão os que pretendem que os céus sejam imóveis e de forma circular?”
Diz ainda Lactâncio no livro terceiro das Instituições: “Poderia demonstrar-vos com uma enfiada de argumentos que é impossível que o céu circunde a Terra”
Que diga quanto quiser o autor do Espetáculo da Natureza terem sido Lactâncio e S. Crisóstomo grandes filósofos. Responder-lhe-eis terem sido grandes santos e que para tanto não é indispensável ser bom astrônomo. Acreditá-los-eis no céu: mas força é confessardes que ignorais em que ponto precisamente.

Voltaire, in Dicionário Filosófico

28/05/2021

Certo, certeza

Que idade tem vosso amigo Cristóvão?
Vinte e oito anos. Vi sua certidão de casamento e de batismo, conheço-o desde criança. Tem vinte e oito anos, tenho certeza, estou certo.
Mal acabo de ouvir a resposta desse homem tão seguro do que diz e de vinte outros que o corroboram, venho a saber que, por motivos secretos e singular engenho, se antedatou a certidão de batismo de Cristóvão. Aqueles com quem falei nada sabem ainda. No entanto, sempre tiveram certeza do que não é.
Se perguntásseis a todos os homens antes de Copérnico:
O sol levantou-se hoje? O sol se pôs?
Temos absoluta certeza — responder-vos-iam.
Tinham certeza, e no entanto estavam errados.
Sortilégios, adivinhações, obsessões foram durante longo tempo as coisas mais certas do mundo aos olhos de todos os povos. Quanta gente presa dessas ilusões não estava certa do que presumia ver! Hoje acha-se menos em voga essa certeza.
Vem visitar-me um jovem estudante de geometria. Principiante, ainda se acha às voltas com a definição dos triângulos.
Não é certo — pergunto-lhe — que os três ângulos de um triângulo são iguais a dois ângulos retos?
Não só não tenho certeza — responde-me — como nem sequer compreendo claramente essa proposição.
Demonstro-lha. Certifica-se, e para o resto da vida.
Eis aí uma certeza muito diferente das anteriores. Aquelas não eram mais que probabilidades que, examinadas, revelaram-se erros. A certeza matemática, porém, é imutável e eterna.
Existo. Penso. Sinto. Será isso tão certo quanto uma verdade geométrica? Sim. Por que? Porque as verdades se provam pelo princípio de que nada pode ser e não ser ao mesmo tempo. Não Posso existir e simultaneamente não existir, sentir e não sentir. Um triângulo não pode ter cento e oitenta graus — a soma de dois ângulos retos — e ao mesmo tempo não os ter.
De mesmo valor são pois a certeza física de que existo, de que sinto e a certeza matemática, embora de gêneros diversos.
O mesmo não acontece com a certeza que se funda em aparências ou testemunhos unânimes dos homens.
Ora essa! Então não estais certo de que Pequim existe? Não tendes em casa estofos de Pequim! Indivíduos dos mais diversos países e opiniões, que escreveram violentamente uns contra os outros pregando a verdade em Pequim, não vos asseveraram a existência dessa cidade?
Acho muitíssimo provável ter existido tal cidade. Mas não apostaria a vida em como exista, se bem não hesite em apostá-la em como os três ângulos de um triângulo perfazem dois retos.
Estampou-se no Dictionnaire Encyclopédique uma coisa jovialíssima. Sustenta-se lá que, se mo dissesse toda Paris, eu deveria estar tão seguro, tão certo de que o marechal de Saxe ressuscitou, como o estou de que ele venceu a batalha de Fontenoy, quando toda Paris mo assevera. O raciocínio é admirável: Creio em Paris quando toda ela me diz coisa moralmente possível; portanto não devo crê-la quando me diz coisa moral e fisicamente impossível.
Parece que o autor queria rir, e que o outro autor que se extasia ao fim desse artigo escrito contra si próprio também o queria.

Voltaire, in Dicionário Filosófico

22/05/2021

Catecismo do japonês

Hindu
É verdade que antigamente os japoneses não sabiam cozinhar, que haviam entregue seu reino ao grande lama, que o grande lama decidia soberanamente do que devíeis comer e beber e de tempos em tempos vos enviava um pequeno lama a fim de cobrar tributos, pagando-vos com um sinal de proteção feito com os dois primeiros dedos e o polegar?
Japonês
Ai! Nada mais verdadeiro. Todos os cargos de canusi – os grandes cozinheiros da nossa ilha – conferia-os o lama, e não certamente por amor de Deus. Além disso todas as famílias seculares pagavam uma onça de prata por ano a esse grande cozinheiro do Tibete. Em paga dava-nos minguados pratos de horrível paladar chamados sobejos. E quando lhe dava na veneta alguma nova fantasia, como declarar guerra aos povos do Tangate, escorchava-nos com subsídios suplementares. Muitas vezes nos queixamos, porém baldamente, quando não nos fazia pagar mais ainda. Por fim o amor, que tudo resolve maravilhosamente, libertou-nos dessa servidão. Um de nossos imperadores desaveio-se com o grande lama por causa. de uma mulher. Mas devo confessar que quem mais nos valeram nessa questão foram os nossos canusi, também chamados paiscospie. A eles devemos a libertação.
Eis o que se deu.
O grande lama tinha uma mania engraçada: julgava sempre ter razão. Uma vez ou outra, pelo menos, queriam os nossos canusi tê-la também. O grande lama achou absurda tamanha pretensão. Nossos canusi não arredaram pé e romperam definitivamente com ele.
Hindu
E de então em diante vivestes sem dúvida felizes e tranquilos?
Japonês
Não inteiramente. Fomos perseguidos, dilacerados, devorados durante perto de dois séculos. Em vão pleiteavam nossos canusi ter razão. Somente há cem anos são razoáveis. Também, desde então podemos orgulhosamente considerar-nos uma das nações mais felizes da terra.
Hindu
Como podeis ser felizes se – a crer no que me disseram – vosso império se acha dilacerado por doze facções de cozinha? No mínimo tereis doze guerras civis por ano.
Japonês
Por que? Será que por termos doze chefes de cozinha, cada qual com uma receita diferente, deveremos matar-nos em vez de jantar? Pelo contrário, comeremos todos às mil maravilhas, cada um do cozinheiro que mais lhe agradar.
Hindu
De fato gostos não se devem discutir. A história, porém, é que ninguém se compenetra disso. Discutem, e da discussão às do cabo é um passo.
Japonês
Depois de muito discutirmos, vendo que com isso só tínhamos que perder, acabamos optando tolerar-nos mutuamente. Era, não há dúvida, o melhor partido que nos restava tomar.
Hindu
Poderíeis dizer-me quais são os chefes de cozinha que partilham a vossa nação na arte de beber e comer?
Japonês
Primeiramente há os breuseh, que em caso algum vos dariam morcela ou lardo. Preconizam as fontes puras da cozinha do tempo do onça. Prefeririam morrer a mordiscar um frango. Quanto ao mais, exímios calculadores, e fosse o caso de dividir uma onça de prata entre eles e os onze outros cozinheiros, açambarcariam logo a metade, deixando o resto para os que melhor soubessem contar.
Hindu
Presumo não costumais cear com gente tão esdrúxula?
Japonês
Claro. Em seguida vêm os pispatas, que em determinados dias da semana e em boa parte do ano prefeririam cem vezes comer rodelas de rodovalhos, trutas, linguados, salmões, esturjões, a saborear uma fritada de vitela que lhes ficaria por um nada.
Quanto a nós outros canusi, somos devotos apreciadores de carne de vaca e de certa pastelaria que em japonês se diz pudim. Toda gente convém em que os nossos cozinheiros sejam muito mais hábeis que os dos pispatas. Ninguém melhor que nós sabe preparar o garum dos romanos, as cebolas do antigo Egito, a pasta de gafanhoto dos primeiros árabes, a carne de cavalo dos tártaros. Sempre há o que aprender nos livros dos canusi, comumente chamados paiscospie.
Escuso-me de falar dos que comem a Teluro, assim como dos adeptos do regime de Vicalno, dos batistandos e que tais. Os quekars, porém, merecem atenção particular. São os únicos convivas que nunca vi se emborracharem nem praguejarem. Dificílimos de enganar, também nunca enganam ninguém. Parece que a lei que manda amar o próximo como a si mesmo foi feita especialmente para eles. Porque, verdade se diga, como pode um japonês dizer amar o próximo como a si próprio se por uma bagatela mete-lhe uma bala de chumbo na cabeça ou decapita-o com um cris de quatro dedos de largo? Quando ele próprio vive em constante risco de ser degolado ou engolir balas de chumbo? Com mais propriedade se dirá que ele odeia o próximo como a si mesmo. Os quekars nunca tiveram desses furores. Dizem eles serem os homens efêmeros vasos de argila e que não vale a pena se despedaçarem deliberadamente uns contra os outros.
Confesso que se não fosse canusi não me desagradaria ser quekar. Força é reconhecer que não há meio de brigar com cozinheiros tão pacíficos. Há outros, em número incontável, a que chamamos diestas. Dão os diestas de comer a toda gente indiferentemente e em sua casa sois livre de comer o que vos der na língua - recheado, lardeado, sem recheio, sem lardo, com ovos, com óleo; perdiz, salmão, vinho palhete, vinho tinto, tudo lhes é indiferente. Contanto que façais alguma oração a Deus antes ou após o jantar, ou simplesmente antes do almoço, e sejais honrado, de bom grado rirão convosco à custa do grande lama, de Vicalno, de Memnão e o mais que segue. Felizmente reconhecem que nossos canusi são doutíssimos em matéria culinária, e sobretudo nunca falam em cercear nossas rendas. Assim, vivemos na mais edênica harmonia.
Hindu
Mas a final deve haver uma cozinha predominante, a cozinha do rei.
Japonês
Confesso-o. Mas naturalmente depois de seus gordos banquetes o rei está derretendo de bom humor e não põe embargos à digestão de ninguém.
Hindu
E se algum cabeça dura encasquetar de comer no nariz do rei salsichas que lhe repugnem? Se se reunirem armados de grelhas quatro ou cinco mil desses indivíduos para cozer suas salsichas? Se insultarem as pessoas avessas e salsichas?
Japonês
Nesse caso será preciso puni-los como bêbedos que perturbam o repouso dos cidadãos. Previmos o perigo. Só os que comem à real são contemplados com as dignidades do estado. Todos os outros podem comer como lhes ditar a fantasia, porém são excluídos dos cargos. Soberanamente interditos e punidos sem remissão são os tumultos à mesa. Atalha-se cuidadosamente toda discussão, consoante o preceito do grande cozinheiro japonês Sufi Raho Cus Flac, que escreveu na língua sagrada:
Natis in usum laetitae scyphis
pugnare Thracum est…
O que quer dizer: O jantar foi feito para gáudio recatado e mundo, e não se devem atirar copos à cabeça.
Com essas máximas vivemos felizmente em nossa terra. A liberdade individual roborou-se sob os nossos tecosema. Cresce nossa riqueza. Possuímos duzentos juncos de linha, e constituímos o terror dos nossos vizinhos.
Hindu
Por que motivo então o bom versificador Recina, filho do poeta indiano do mesmo nome, tão delicado, tão exato, tão harmonioso, tão eloquente, disse em uma obra didática rimada intitulada A Graça (não As Graças):
O Japão, onde brilharam tantas luzes,
hoje é um triste acervo de loucas visões – ?
Japonês
O próprio Recina de que me falais é um grande visionário. Ignorará esse mísero hindu que fomos nós quem lhe ensinamos o que é a luz? Que se na Índia conhecem a rota dos planetas, a nós o devem? Que fomos nós quem ensinamos aos homens as leis primordiais da natureza e o cálculo do infinito. Que, se é preciso descer a coisas mais triviais, conosco aprenderam os hindus a construir juncos segundo proporções matemáticas? Que nos devem até os borzeguins chamados meias do ofício com que cobrem as pernas? Seria possível que tendo inventado tantas coisas admiráveis ou úteis não fôssemos nós mais que loucos, e que um homem que escreveu em versos os desvairos de outrem fosse o único sábio? Deixe-nos com a nossa cozinha, e se quiser que faça versos sobre assuntos mais poéticos.
Hindu
Que quereis. Ele está intoxicado dos preconceitos de sua terra, de seu partido e dos seus próprios.
Japonês
Arre! Quanto preconceito!

Voltaire, in Dicionário filosófico

19/04/2021

Caráter

A palavra grega impressão, gravura. É o que em nós gravou a natureza. Podemos apagá-lo? Transcendental questão. Se tenho o nariz de esconso e olhos de gato, posso escondê-los sob uma máscara. Poderei encobrir melhor o caráter?
Apresenta-se perante Francisco I de França, a fim de queixar-se de uma preterição, um indivíduo de natural violento e impetuoso. O semblante do príncipe, a postura respeitosa dos cortesãos, o local mesmo impressionam-no fundamente. Maquinalmente baixa os olhos, a voz rude se abranda e faz o pedido humildemente. Crer-se-ia nascido tão manso quanto os cortesãos em meio dos quais parece quase desconsertado. Entretanto facilmente descobre Francisco I em seus olhos baixos, porém acesos de um fogo sombrio, nos músculos retesos do rosto, nos lábios contracerrados, que esse homem não é tão humilde como aparenta. Esse homem acompanha-o a Pávia, é aprisionado com ele e com ele levado para Madri. Já não lhe infunde a mesma impressão a majestade do rei. Familiariza-se com o objeto de seu respeito. Um dia, ao descalçar-lhe as botas, e fazendo-o desleixadamente, Francisco, azedado pelo infortúnio, ralha-lhe. Nosso homem manda o rei plantar batatas e atira as botas pela janela.
Nascera Sixto Quinto petulante, opiniático, soberbo, impetuoso, vingativo, arrogante. As provas do noviciado parecem ter-lhe adoçado o caráter. Mal começa a desfrutar de certo crédito em sua ordem, lança-se contra um guardião e alomba-o a punhadas. Inquisidor em Veneza, exerce o cargo com insolência. Cardeal, é possuído della rabbia papale. Embuça na obscuridade sua pessoa e seu caráter. Mascara-se de humilde e moribundo. Elegem-no papa: é quando dá à mola do natural toda a elasticidade longo tempo retesada pela política. É o mais arrogante e despótico dos soberanos.
Naturam expellas furca, tamen usque recurret.
Religião, moral, são freios retentores do caráter. Não podem, porém, matá-lo. Enclausurado, reduzido a dois dedos de sidra às refeições, pode o bêbedo deixar de embriagar-se, mas ansiará sempre pelo vinho.
A idade amolenta o caráter. Transforma-o em uma árvore que não dá senão um ou outro fruto abastardado, mas sempre da mesma natureza. Enodoa-se, cobre-se de musgo, caruncha. Jamais deixará de ser carvalho ou pereira, porém. Se fosse possível alterar o caráter, a gente mesmo o plasmaria a bel prazer, seria senhor da natureza. Podemos lá criar alguma coisa? Não recebemos tudo? Experimentai animar o indolente de contínua atividade, inspirar gosto à musica a quem careça de gosto e de ouvido. Não tereis melhor resultado do que se empreenderdes dar vista a cego de nascença. Nós aperfeiçoamos, esborcelamos, embuçamos o que nos estereogravou a natureza. Não há, porém, alterar-lhe a obra.
Direis a um criador: – O Sr. tem peixe demais nesse viveiro; assim eles não vingam. Seus campos estão sobrelotados de gado; o capim não dá, os animais emagrecerão. – Com isso deixa o nosso homem que as solhas lhe comam metade das carpas, e os lobos metade dos carneiros. Os restantes engordam. Gabar-se-á ele dessa economia? Este camponês és tu mesmo. Uma de tuas paixões devorou as outras, e tu julgas haver triunfado sobre ti próprio. Não parecemos quase todos nós com aquele velho general de noventa anos que, encontrando alguns jovens oficiais mexendo com umas moças, perguntou-lhes colérico: “Senhores, é esse o exemplo que lhes dou?”.

Voltaire, in Dicionário Filosófico

11/04/2021

Cadeia dos acontecimentos

Há muito que se creem os acontecimentos encadeados uns aos outros por invencível fatalidade – o Destino – que é em Homero superior ao próprio Júpiter. Sem refolhos confessava o soberano dos deuses e dos homens não poder impedir que seu filho Sarpédon morresse no prazo preestabelecido. No momento em que devia nascer Sarpédon nascera, nem poderia deixar de ser assim. Não podia morrer em outro lugar senão diante de Tróia. Não podia ser enterrado senão em Lícia. Seu corpo, no prazo preestabelecido, produziria legumes que se transmudariam em substância de alguns licienses. Seus herdeiros haveriam de estabelecer nova ordem em seus estados. Essa nova ordem influiria nos reinos vizinhos. Do que resultariam novas disposições de guerra e paz com os vizinhos dos vizinhos de Lícia. E assim sucessivamente o destino da terra dependeu da morte de Sarpédon, a qual dependeu de outro acontecimento, que por seu turno se ata por intermédio de outros à origem das coisas.
Tivesse um único desses fatos acontecido diferentemente, outro fora o mundo. Ora, impossível que o mundo atual existisse e não existisse ao mesmo tempo: portanto impossível fora a Júpiter salvar a vida do filho, por muito Júpiter que fosse.
Diz-se que este sistema da necessidade e fatalidade inventou-o Leibnitz em nossos dias, chamando-lhe razão suficiente. Entretanto é antiquíssimo. Não é de hoje que não há efeito sem causa e que muitas vezes a mais insignificante das causas produz os maiores efeitos.
Conta o sr. Bolingbroke que lhe proporcionaram ocasião de concertar o tratado particular da rainha Ana com Luís XIV as questiúnculas da sra. Marlborough e da sra. Masham. Esse tratado conduziu à paz de Utrecht. A paz de Utrecht firmou Filipe V no trono de Espanha. Filipe V conquistou Nápoles e Sicília à frente da casa da Áustria. Deve o príncipe que é atualmente rei de Nápoles seu trono à sra Masbam. Não o seria, talvez nem existisse, se a duquesa de Marlborough tivesse sido mais complacente para com a rainha de Inglaterra. Sua existência dependia em Nápoles de uma tolice a mais ou a menos na corte londrina. Examinai a situação de todos os povos do mundo: é o que é por força de uma série de acontecimentos aparentemente insulados, porém realmente baraçados em íntimo emaranhamento. São tudo rodagens, polés, cabos, molas dessa máquina colossal.
O mesmo sucede na ordem física. Um vento que sopre do fundo da África ou dos mares austrais acarreta parte da atmosfera africana que recai em chuva nos declívios dos Alpes. Essas chuvas fecundam nossas terras. Nosso vento do norte, por sua vez, leva nossos vapores daqui para o continente negro. Nós beneficiamos a Guiné e a Guiné nos beneficia. A cadeia se estende de cabo a cabo do mundo.
Parece-me contudo abusar-se demais desse princípio. Conclui-se não haver e mais ínfimo átomo que não tenha influído na disposição atual do mundo inteiro. Que não há o menor acidente, quer entre os homens, quer entre os animais, que não seja anel essencial da grande cadeia do destino.
Entendo eu: todo efeito tem evidentemente sua causa, remontante de causa em causa até o abismo da eternidade. Mas nem toda causa transmite seu efeito até o fim dos séculos. Todo acontecimento decorre um de outro, admito. O presente sai do passado. O futuro sairá do presente. Tudo tem pai. Mas nem tudo tem filhos. Precisamente como numa árvore genealógica: toda família remonta, como é sabido, a Adão, mas na família muitos indivíduos morrem sem deixar posteridade.
Existe uma árvore genealógica dos acontecimentos. Incontestavelmente os habitantes das Gálias e de Espanha descendem de Gomer e os russos de Magogue, seu irmão mais novo: encontra-se esta genealogia em tantos livros maçudos! Nesse pé, não há negar devermos a Magogue os sessenta mil russos em armas hoje às portas da Pomerânia e os sessenta mil franceses que combatem nas abas de Francfort. Mas que Magogue haja expectorado à direita ou à esquerda ao pé do Cáucaso, tenha dado duas ou três voltas em redor de um poço, haja dormido do lado esquerdo ou direito, não vejo como possa isso ter influído capitalmente na resolução tomada pela imperatriz da Rússia Elizabete de enviar um exército em socorro da imperatriz romana Maria Teresa. Que meu cão sonhe ou não quando dorme, não percebo que relação poderá ter tão importante fato com os negócios do grão mogol.
É necessário atentar em que nem tudo é cheio na natureza e que nem todo movimento se transmite consecutivamente até descrever a volta ao mundo. Lance-se n’água um corpo de mesma densidade. Facilmente se compreenderá que ao cabo de algum tempo assim o movimento do corpo como aquele que comunicou à água se extinguem. O movimento consome-se e repara-se. Por conseguinte o movimento que possa ter produzido Magogue escarrando num poço não pode ter influência no que hoje se passa. na Rússia e na Prússia. Nem todos os acontecimentos pretéritos são pais dos acontecimentos presentes. Todo acontecimento atual provém em linhas diretas do passado. Porém milhares de linhas colaterais há que em nada os interessam. Repitamos: tudo tem pai, mas nem tudo tem filhos. Retornaremos ao assunto ao falar do Destino.

Voltaire, in Dicionário Filosófico

05/04/2021

Bem (supremo)

Muito discutiu a antiguidade em torno do supremo bem. Que é o supremo bem? Seria o mesmo que perguntar que é o supremo azul, o supremo acepipe, o supremo andar, o ler supremo, etc.
Cada um põe a felicidade onde pode, e quanto pode ao seu gosto.

Quid dem? quid non dem? Renuis tu quod jubet alter…
Castor gaudet equis; ovo prognatus eodem pugnis…
(Horácio, Epigr., II, ii, Sat., II, i.).

Sumo bem é o bem que vos deleita a ponto de polarizar-nos toda a sensibilidade, assim como mal supremo é aquele que vos torna completamente insensível. Eis os dois pólos da natureza humana. Esses dois momentos são curtos.
Não existem deleites extremos nem extremos tormentos capazes de durar a vida inteira. Supremo bem e supremo mal são quimeras.
Conhecemos a bela fábula de Crântor, que fez comparecer aos jogos olímpicos a Fortuna, a Volúpia, a Saúde e a Virtude.
Fortuna: – O sumo bem sou eu, pois comigo tudo se obtém.
Volúpia: – Meu é o pomo, porquanto não se aspira à riqueza senão para ter-me a mim.
Saúde: – Sem mim não há volúpia e a riqueza seria inútil.
Virtude: – Acima da riqueza, da volúpia e da saúde estou eu, que embora com ouro, prazeres e saúde pode haver infelicidade, se não há virtude.
Teve o pomo a Virtude.
A fábula é engenhosa, mas não solve o problema absurdo do supremo bem. Virtude não é bem, senão dever. Pertence a plano superior. Nada tem que ver com as sensações dolorosas ou agradáveis. Com cálculos e gota, sem arrimo, sem amigos, privado do necessário, perseguido, agrilhoado por um tirano voluptuoso aboletado no fausto, o homem virtuoso é infelicíssimo, e o perseguidor insolente que acaricia uma nova amante em seu leito de púrpura, felicíssimo. Podeis dizer ser preferível o sábio perseguido ao perseguidor impertinente. Podeis dizer amar a um e detestar ao outro. Mas esquece-vos que le sage dans les fers enrage. Se não concordar o sábio, engana-vos: é um charlatão.

Voltaire, in Dicionário Filosófico