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08/03/2016

No Dia da Mulher, desejo uma sociedade menos idiota

Quando liguei a TV, nesta manhã de 8 de março, me deparei com colegas de profissão cumprindo suas pautas sobre o Dia Internacional da Mulher. Deu aquele desgosto ver uma importante data de reflexão e de luta novamente reduzida à distribuição de flores, promoções em salões de beleza, presentes na forma de jóias e vestidos e até equipamentos de limpeza do lar. Como se isso fosse o fundamental para garantir a dignidade das mulheres.
Por conta disso, elenquei, abaixo, algumas coisas que gostaria de ver noticiadas nesta data. Creio que, em algum momento, isso vai ser verdade. Depende de nós para mostrar quando. E a que custo:
1) A partir de agora, o sobrenome do marido não deverá ser imposto à sua companheira contra vontade dela, como uma marca de ferro em brasa delimitando a propriedade. (Atenção aos leitores desatentos: falo da imposição que continua existindo por parte de pais e maridos apesar da legislação garantir a escolha da mulher.)
2) O currículo escolar será aprimorado para que, nas aulas de língua portuguesa, os meninos e rapazes possam compreender o real, objetivo, profundo e simples significado da palavra “não''.
3) As frases “Onde você acha que vai vestida assim?'', “A culpa não é minha, olha como você tá vestida!'', “Se saiu de casa assim, é porque está pedindo'' a partir de agora serão banidas da boca de maridos, pais, irmãos, filhos, netos, namorados, amigos e outros barbados.
4) Está terminantemente proibido empregar apenas atrizes em comerciais de detergentes, desinfetantes, saches de privada, sabão em pó, rodos, vassouras, esponjas de aço, palhas de aço, aspiradores de pó, cera para chão e afins. A associação direta de mulheres e produtos de limpeza em comerciais de TV está extinta.
5) Empresas estão proibidas de distribuir flores no dia de hoje como prova de seu afeto às mulheres. Em vez disso, implantarão políticas para: 1) impedir que elas ganhem menos pela mesma função; 2) não sejam preteridas em promoções para cargos de chefia pelo fato de serem mulheres; 3) não precisem temer que a maternidade roube seu direito a ter uma carreira profissional; 4) seja punido com demissão o assédio de gênero como crime à dignidade de suas funcionárias.
6) Cuidar da casa e criar os filhos passa a ser visto também como coisa de homem. E prazer e orgasmo também como coisa de mulher.
7) Os editoriais dos veículos de comunicação não serão escritos por equipes eminentemente masculinas. Da mesma forma, as agências se comprometem a derrubar a hegemonia XY em suas equipes de criação, contribuindo para diminuir o machismo na publicidade.
8) O direito da mulher a ter autonomia sobre o próprio corpo e o direito de interromper uma gravidez indesejada não precisarão ser questionados. Nem devem requerer explicação.
9) Os partidos políticos não apenas garantirão cotas para a participação das mulheres nas eleições, mas investirão pesado em suas candidaturas a fim de contribuir para que os parlamentos representem, realmente, a sociedade brasileira. Da mesma forma, nomear mulheres como secretárias de governo, ministras e em cargos de confiança, na mesma proporção que homens, será ato corriqueiro.
10) Homens entenderão que “um tapinha não dói'' é uma idiotice sem tamanho.
11) Por fim, feminismo será considerado sim assunto de homem. E meninos e rapazes, mas também meninas e moças, deverão ser devidamente educados desde cedo para que não sejam os monstrinhos formados em ambientes que fomentam o machismo, como a família, colégios e universidades.
Em tempo: aproveito para agradecer novamente às mulheres que passaram pela minha vida e foram fundamentais para que fosse um homem menos idiota.
Leonardo Sakamoto, in blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br

14/08/2015

“Estudei. Não preciso limpar meu banheiro” e outras aberrações brasileiras

– Eu estudei. Não preciso limpar meu banheiro.
Demorei um tanto para encontrar a relação de causa e efeito e o que meu interlocutor quis dizer. E, quando entendi, preferi que não tivesse. Ignorância é benção.
Diante da minha resposta – de que meus anos de estudo não me davam salvo-conduto para ficar longe do Veja Multiuso e do glorioso Pinho Sol (considerado arma de destruição em massa no Rio de Janeiro), ele riu: “Você faz isso porque é otário''.
Muitos de nós somos mal acostumados por ter sempre alguém fazendo aquilo que não queremos fazer. Digo “queremos'' ao invés de “podemos'', porque, claro, há exceções de necessidade real. No que pese cada um enxergar seus problemas como uma novela mexicana, daquelas bem mal dubladas, quando essa questão é trazida à tona.
Em parte por conta de um passado mal resolvido, que vincula determinadas atividades a certas classes sociais e níveis educacionais formais. Afinal, uns nascem para governar, outros para limpar cocô.
– Ah, mas é você quem está dizendo que não é digno. É um trabalho como qualquer outro.
– Então, pague melhor. Ou faça você.
– Seu comunista!
Em outros lugares do mundo, é mais comum à classe média escolarizada limpar a sua própria sujeira – ou pagar bem por isso. E não estou falando da Coreia do Norte ou Cuba, mas sim dos Estados Unidos e da Europa.
Com direitos mínimos garantidos ao trabalho doméstico e outros futuros possíveis para os jovens mais pobres que entram no mercado de trabalho, a economia faz seu serviço: hora/trabalho mais cara significa acesso mais difícil pela classe média, que é obrigada a se virar nos 30 – e, em alguns casos onde há consciência de classe, pressionar patrões para a redução de sua própria jornada a fim de ter mais tempo para casa e a família.
O que acaba por tirar o peso das costas da tradição da senzala, sem a qual o Brasil não seria quem é.
Tem uma frase, prima daquela do início desse texto, que acho bastante pitoresca também: “Se não estudar, vai virar gari''.
Lembrando que, no ano passado, foram garis que resistiram a uma prefeitura insensível e a sindicatos que não os representavam, conseguindo um aumento expressivo em seus salários e benefícios sociais no Rio. Mostrando a outras profissões respeitadas socialmente e que amargam aumentos ridículos que é viável lutar por seus direitos. Talvez, quando crescermos, nós jornalistas, por exemplo, possamos ser como os garis.
Essas frases nos remetem à outra, essa historicamente poderosa:
– Você sabe com quem está falando?
Não tanto pela arrogância e prepotência, mas porque ela carrega séculos de nossa formação, lembrando quem fala e quem obedece. E que, na visão de muita gente, a igualdade de direitos é um discurso fofo para ser acariciado desde que não interfira em suas necessidades individuais. Não somos uma sociedade de castas. Mas cada um sabe qual o seu quadrado.
Acho que alguém que me pergunta isso precisa tomar urgente algo para a memória. Se é incapaz de lembrar quem é, o que dirá de como limpar uma privada? Ou a si mesmo?
“Quem você pensa que é?” é menos agressiva e útil frente a algum desmando de um representante do Estado, por exemplo. Mas acho que não faz tanto sucesso no Brasil como a outra. Porque há duas opções para reclamar de um abuso de um funcionário: a) dizer que ele não tem direito de agir com violência, por exemplo; b) dizer que ele vai se dar mal porque você é fodástico. Por aqui, desconfio que optamos pela letra “b''.
A frase vai se adaptando conforme o ambiente e pode, agregando valores, assumir outras formas:
– Teu salário paga a comida do meu cachorro.
– Eu conheço gente importante, sabia?
– Você vai perder seu emprego, meu irmão.
– Isso que dá vir a um lugar que tem essa gentinha.
No Brasil, de uma maneira geral, se você quiser viver em uma bolha a vida inteira, consegue. Tenho amigos que conhecem muito bem algumas cidades da Europa e os Estados Unidos, mas só foram à Itaquera pela primeira vez na Copa de 2014.
Essa ausência da cultura da alteridade leva ao medo e colabora com comportamentos e frases bizarras, revelando o lado mais sombrio da alma de cada um.
O que é extremamente complicado porque o Brasil é composto em grande parte por essa “gentinha pobre que não sabe com quem está falando''.
Não se espera que todos defendam igualdade (é o sistema, estúpido!), mas, pelo menos, que concordem com um relacionamento mínimo para viabilizar a convivência pacífica.
O ideal é que a resposta para:
– Você sabe com quem está falando?
Seja algo como:
– Quem você pensa que é?
A coisa ruim é que mesmo com muito trabalho de educação para a cidadania, concomitante a mudanças estruturais para garantir que a República realmente sirva ao interesse comum, coisa da qual ainda estamos longe, ainda assim levará um rosário de gerações até que frases forjadas pelo preconceito e a soberba tornem-se peça de museu.
Leonardo Sakamoto, in blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br

30/01/2015

O discurso da “meritocracia” esconde o nosso passado mal resolvido


A palavra “meritocracia” funciona em um debate como um coringa num jogo de buraco: quando falta carta para bater, ela aparece para salvar uma sequência incompleta. Não fica lá a coisa mais bonita do mundo, mas resolve sua vida porque todo mundo aceita que aquela carta pode preencher um vazio.
“Discordo de cotas étnicas, sociais ou por cor de pele no vestibular porque defendo a meritocracia.”
“A preferência para pessoas com deficiência em seleções de contratação é, a meu ver, um erro porque não segue a meritocracia.”
“Se vivêssemos em uma sociedade em que a meritocracia valesse algo, não haveria porcentagem mínima obrigatória de mulheres candidatas em cada partido nas eleições.”
Ela acaba passando um senso de lógica, racionalidade e Justiça que ergue o interlocutor a um patamar mais elevado dos mortais. Em suma, algo do tipo “venha, querido, não se misture com essa gentalha”.
Eu não sou contra que competência e experiência individuais sejam parâmetros de avaliação. Uma coisa é o mérito em si. Outra, um sistema de poder criado em torno dele como justificativa para manutenção do status quo.
O problema é que o uso dessa palavra como verdade suprema acaba servindo a quem ignora que as pessoas não tiveram acesso aos mesmos direitos para começarem suas caminhadas individuais e que, portanto, partem de lugares diferentes. Uns mais à frente, outros bem atrás.
Achar que um estudante que comia bolachas de lama, brincava com ossinhos de zebu, andava 167 quilômetros por dia para chegar à escola e ainda trabalhava no matadouro do município para ajudar na renda da família parte com igualdade de condições com outro que frequenta uma escola com laboratórios que simulam gravidade zero e possui professores com pós-doutorado em Oxford e são remunerados à altura, que viaja para um lugar diferente todos os anos a fim de conhecer o mundo e não precisará trabalhar até o final da pós-graduação é um tanto quanto irracional.
Os dois podem chegar lá. Mas se o segundo caso cruza a linha de chegada mais vezes, o primeiro é um a cada milhão. Por isso, essas histórias são contadas e recontadas à exaustão: primeiro, nós gostamos de falar de milagres e, segundo, são histórias úteis para convencer os outros que se um consegue, todos podem.
O que não é verdade. Pois, dessa forma, jogamos a responsabilidade de erros históricos não compensados e de uma desigualdade crônica de condições nas próprias pessoas que terão que vencê-las.
Há muita gente contrária a conceder benefícios para tentar equalizar as condições de quem a sorte sorriu menos. Acreditam que a única forma de garantir Justiça é tratar desiguais como iguais e aguardar que as forças do universo façam o resto.
E esse discurso é tão bem contado que, não raro, são apoiados por pessoas que, apesar de largarem em desvantagem, venceram. “Tive uma infância muito pobre e venci mesmo assim. Se pude, todos podem.” Parabéns para você! Mas ao invés de pensar que todos têm que comer o pão que o diabo amassou como você, não seria melhor pensar que um mundo melhor seria aquele em que isso não fosse preciso? De vez em quando penso que, quando nos esforçamos, podemos ser bem mesquinhos.
Como não boto muita fé que o lema “Pátria Educadora” vá resultar em melhoria do sistema educacional público, o que ajudaria a igualar um pouco as condições, e como não é possível acabar com o direito a qualquer herança (o que, hipoteticamente levaria cada geração a começar do zero, mas destruiria a sociedade como a conhecemos), o jeito é continuar apoiando medidas compensatórias e que tratam diferentes de forma diferente.
E demonstrando muito amor e paciência com quem acha que, quem não vence, é vagabundo.
Leonardo Sakamoto, in blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br