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09/07/2023

Adeus à infância

Aí o pai chegou de viagem e anunciou: “Vamos nos mudar para o Rio de Janeiro. Vamos nos mudar para a capital. A casa já está alugada...” . E pôs-se a descrever a casa.
A casa tem campainha...”
Nossa casa não tinha campainha. Quem quisesse teria de bater à porta com as juntas dos dedos da mão fechada. Campainha, só nas casas dos ricos.
E o assoalho é de tacos encerados...”
O nosso assoalho era de tábuas largas, lavadas. Piso de tacos encerados só nas casas dos ricos.
E tem um jardim na frente...”
À frente da nossa casa só havia um pastinho de capim. Jardim na frente, só em casa de ricos.
E os bondes passam na frente...
E tem um cinema na esquina...
E o mar está pertinho...”
Pegamos o trem numa madrugada fria de neblina. Eu, embalado pelo sacolejo do trem, ia construindo minha casa de menino rico com campainha, tacos encerados e jardim na frente, usando como tijolos as palavras que meu pai dizia... Eu acreditava nelas…

Rubem Alves, in O velho que Acordou Menino

25/03/2022

Adeus à infância

Aí o pai chegou de viagem e anunciou: “Vamos nos mudar para o Rio de Janeiro. Vamos nos mudar para a capital. A casa já está alugada...” . E pôs-se a descrever a casa.
A casa tem campainha...”
Nossa casa não tinha campainha. Quem quisesse teria de bater à porta com as juntas dos dedos da mão fechada. Campainha, só nas casas dos ricos.
E o assoalho é de tacos encerados...”
O nosso assoalho era de tábuas largas, lavadas. Piso de tacos encerados só nas casas dos ricos.
E tem um jardim na frente...”
À frente da nossa casa só havia um pastinho de capim. Jardim na frente, só em casa de ricos.
E os bondes passam na frente...
E tem um cinema na esquina...
E o mar está pertinho...”
Pegamos o trem numa madrugada fria de neblina. Eu, embalado pelo sacolejo do trem, ia construindo minha casa de menino rico com campainha, tacos encerados e jardim na frente, usando como tijolos as palavras que meu pai dizia... Eu acreditava nelas…

Rubem Alves, in O velho que acordou menino

09/07/2020

A criança infeliz


No colégio havia um aluno particularmente desgraçado. Diziam que não prestava, embora se recusassem de ordinário a especificar as suas faltas, cochichadas com gestos de repugnância. À tarde, na hora de recreio que enchia de algazarra a calçada e a rua, afastavam-se dele, ostensivos, e se alguém transgredia essa dura norma, arriscava-se a nivelar-se ao réprobo.
Acatávamos uma possível opinião da maioria, apesar de nunca havermos discutido o assunto: cada um supunha a condenação firmada e receava comprometer-se.
O rapaz avizinhava-se dos grupos, esboçava um sorriso cínico, ingeria-se nas conversas, debalde. Os mais taludos afrontavam-no, olhavam-no com desprezo, cuspiam, voltavam-lhe as costas. Esse procedimento nos fornecia um princípio de convicção; e como a vítima se resignava e baixava a cabeça, admitíamos sem esforço a culpabilidade.
Não era só isso: atiravam-lhe palavras ásperas, rosnavam insultos. Fingia não percebê-los, diligenciava abrandar as almas oferecendo-nos indicações úteis, em geral aceitas com indiferença ou repelidas.
No começo apenas as classes adiantadas se comportavam assim; as atrasadas seguiram-lhes o exemplo; afinal o garoto se achou entre inimigos.
O maior deles foi o diretor: isolou-o numa ponta de banco, transformou-o em bicho de circo, espécie de Joaquina ou Jacob, dois gorilas que nos tinham maravilhado. Injusto em demasia, sempre lhe considerou o trabalho mal feito, responsabilizou-o por erros alheios, em momentos de zanga não disfarçou o ódio.
Olhem aquele sem-vergonha.
Com o destampatório, avivava a separação, estimulava-nos os instintos maus. Julgava-o perdido, sem dúvida, e empenhava-se em distanciá-lo dos companheiros. Lembrava-nos a cada instante que a aproximação era nociva.
Longo tempo ficava a observá-lo, como se procurasse manchas na roupa, ausência de botões, e tinha uma horrível brandura felina, o bigode eriçava-se, a patinha curta erguia-se de manso, a voz era um suave ronrom. A distância, poderíamos supor algum discurso amável. De repente a maciez vagarosa miava:
Descarado.
O pobre rato fingia-se impassível, escondia-se por detrás de um livro; perturbava-se ao cabo de minutos, esmorecia, punha-se a tremer. Se estivéssemos analisando Camões ou catalogando os mares da Europa, qualquer omissão justificaria a ofensa. Mas provocar uma pessoa daquele jeito, sem esclarecimento, alvoroçava-nos. O ultraje não se relacionava com as tarefas escolares, devia ligar-se a fatos exteriores. Essa imprecisão tomava grande importância: tratava-se de coisa séria, feia.
O diretor se levantava, um ombro alto, outro baixo:
Sem-vergonha.
Os pêlos ameaçadores encrespavam-se, as maneiras brandas eram substituídas por sacudidelas, todo aquele veludo se esgarçava e as garras apareciam, desviavam a folha que ocultava um rosto cheio de pavor. Em seguida trompaços, baques fofos no tijolo, arrastar de membros contusos, queixas lamurientas, soluços.
Às vezes o homem se excedia: amarrava os braços do garoto com uma corda, espancava-o rijo, abria a porta, e a desesperada humilhação exibia-se aos transeuntes, fungava, tentava enxugar as lágrimas e assoar-se. O choro juntava-se ao catarro, pingava no paletó e na camisa — e o pano molhado tinha um cheiro nauseabundo, mistura de formiga e mofo.
A palmatória figurava em nosso código. Nas sabatinas, questões difíceis percorriam as filas — e o aluno que as adivinhava punia os ignorantes. Os amigos da justiça batiam com vigor, dispostos a quebrar munhecas; outros, como eu, surdos ao conselho do mestre, encostavam de leve o instrumento às palmas. Isto não nos trazia vexame: foi costume até que se usaram cartões relativos às notas boas. Desde então pagamos os nossos enganos com essa moeda, chegamos a emprestá-la a colegas necessitados.
Impossível dá-la em troca daquele sofrimento diverso dos sofrimentos ordinários. Ninguém se arriscaria a oferecer resgate. Assistíamos a uma pena estranha, infligida sem processo. A acusação se desenvolvera em segredo. No decurso da tortura, o diretor rosnava, e pelo mover dos beiços percebíamos a injúria murmurada no recreio. Não havia defesa. Nenhuma interferência.
Livre dos tormentos, o pequeno regressava à ponta do banco, anulava-se, enquanto não o exigiam para recados, viagens ao correio e à bodega. Afinal se despojaram de escrúpulos, mandaram-no auxiliar a família no serviço doméstico. Insensível, nem compreendia o aviltamento: bom que o privassem do estudo e lhe recebessem os préstimos na cozinha. Solícito, esperava talvez escapar ao trato ríspido. Nunca lhe manifestaram gratidão: empurravam-no, como se ele tivesse o dever de rachar lenha e ir buscar a correspondência.
Em casa, o pai martelava-o sem cessar, inventava suplícios: amordaçava-o, punha-lhe as costas das mãos sobre a mesa da sala de jantar, malhava nas palmas, quase lhe triturava as falanges; prendia-lhe os rejeitos, pendurava-o num caibro, deixava-o de cabeça para baixo, como carneiro em matadouro. Fatigando-se das inovações, recorria às sevícias habituais: murros e açoites. O irmão presenciava as cenas aterrado, expandia-se em descrições torvas. E durante semanas o pobre repuxava as mangas, abotoava-se, endireitava a gola, para encobrir equimoses, sinais vermelhos, cinzentos, negros.
Apesar de tudo, a escola era um refúgio. Canseiras, adulações à mulher e aos filhos do diretor, rendiam pelo menos alguma indiferença. E isto convinha.
Se o rapaz, findas as obrigações, se aquietasse, facilmente escaparia, anônimo e incolor. Não podia esconder-se. Precisava convívio, estava sempre ensaiando camaradagens que se malogravam.
Tipos de calças longas e buço tinham com ele um procedimento singular: enviavam-lhe bilhetes, acenavam-lhe, segredavam-lhe em gíria misteriosa. Esses escorregos não exprimiam dedicação. Evitavam-no em público, zangavam-se de chofre, perseguiam-no com ditos mordazes.
Ele suportava a ingratidão e os remoques, desvanecia-os depressa, ria mostrando os dentes amarelos, que me faziam pensar no gigante Adamastor. À minha entrada na escola, o sujeitinho me surgira, de cotovelos fincados nas pernas, gaguejando áspero e rouco:

Os olhos encovados e a postura
Medonha e má e a cor terrena e pálida.

A lembrança motivara a associação. Era realmente pálido e medonho. Os olhos tinham um brilho seco, fixavam-se na gente com impudência. Caretas deslocavam-lhe o queixo enorme, quadrado. A pele úmida e gordurosa roçava-nos — e isto era desagradável: usávamos cautela para fugir à umidade e à gordura, ao cheiro de formiga e mofo. Parecia não lavar-se, causava nojo.
Coitado. Que valiam, diante daquela desgraça, cocorotes e puxões de orelhas, logo esquecidos? A comparação revelou que me tratavam com benevolência. Infeliz.
Deixei-o no colégio, perdi-o de vista. E reencontrei-o modificado. Ao iniciar-se no crime, andaria talvez pelos quinze anos. Atirou num homem a traição, homiziou-se em casa do chefe político e foi absolvido pelo júri. Realizou depois numerosas façanhas; respeitaram-lhe a violência e a crueldade. Sapecou os preparatórios num liceu vagabundo. Na academia obteve aprovação ameaçando os examinadores.
Bacharelou-se, fundou um jornal. Como o velho diretor, seu carrasco, fechara o estabelecimento e curtia privações, deu-lhe um emprego mesquinho e vingou-se. Caprichou no vestuário: desapareceram as nódoas, a formiga, o mofo. E teve muitas mulheres. Foi em casa de uma que o assassinaram. Deitou-se na espreguiçadeira, adormeceu. Um inimigo, no escuro da noite, crivou-o de punhaladas.
Graciliano Ramos, in Infância

06/06/2020

Mário Venâncio

Organizou-se uma sociedade teatral e quiseram colocá-la sob o patrocínio de João Caetano; mas o Major Pedro Silva, senhor de engenho, ofereceu aos amadores uma casa que se arruinava no Juazeiro, defronte da cadeia, e a instituição recebeu em conseqüência o nome de Escola Dramática Pedro Silva. Ladrilharam, rebocaram e caiaram o prédio; ergueram o palco, os cenários da floresta, do palácio e da choupana; Joaquim Correntão esmerou-se no pano de boca, vistoso, com três deusas peitudas. E, depois de numerosos ensaios, levaram à cena O Plebeu, que arrancou lágrimas da plateia.
Entre os diletantes, um moço desconhecido, novo agente do correio, logo se notabilizou pela feiura e pelos modos esquisitos. Mário Venâncio era pobre demais: vestia brim fluminense, roupa grosseira de matuto, preparava ele mesmo a comida e vivia numa espécie de gaiola pendurada no morro do Pão-sem-Miolo. A peça da frente servia de repartição, gabinete e sala de visitas.
Logo correu que havia chegado à terra um literato. Vi-o de longe, rápido e miúdo, o rosto fino como focinho de rato, modos de rato — um guabiru ligeiro e cabisbaixo, a dar topadas no calçamento. E alguém afirmou na loja que estava ali um sujeito profundo, colaborador de jornais, autor de livros, o diabo. As maneiras esquivas e torcidas exprimiam vida interior, desprezo ao senso comum, inspiração de poeta. Em geral os poetas tinham aparência maluca e usavam cabelos assim compridos, escondendo as orelhas.
Aproximei-me desse curioso indivíduo no colégio, onde nos apareceu lecionando geografia. Não era a especialidade dele: ajustou-se à matéria como se ajustaria a qualquer outra, apenas para aliviar o trabalho de Jovino Xavier. Pouco a pouco abandonou os mapas, as listas de mares e de rios. Insinuou-nos a fundação de um periódico.
A ideia, aceita com entusiasmo, ao cabo de uma semana esfriou, teria morrido se eu e meu primo Cícero não a resguardássemos. Aferramo-nos a ela e, vencendo embaraços e canseiras, tornamo-nos diretores do Dilúculo, folha impressa em Maceió, com duzentos exemplares de tiragem quinzenal, trazidos pelo estafeta Buriti, que vendia revista e declamava pedaços do Moço Louro. O desgraçado título foi escolha do nosso mentor, fecundo em palavras raras.
Estabeleceu-se a redação na agência do correio, logo convertida em asilo de doidos. À tarde reuniam-se lá os membros da Escola Dramática Pedro Silva, os da Instrutora Viçosense, sociedade que dormia o ano inteiro, acordava na posse da diretoria e, concluídos os discursos, tornava ao sono. Essa gente fazia um barulho que assustava os transeuntes, afligia os vizinhos, atraía caixeiros tímidos, emaranhados nos cipoais da concordância e da métrica. Sem apanhar direito o sentido das conversas, apoderava-me de alguns vocábulos, estudava-os no dicionário, empregava-os com energia.
Representado O Plebeu, Mário Venâncio colhera no guarda-roupa do teatro uma farpeia que utilizava em noites de inverno e por fim misturava ao fato ordinário. De tamancos, calça de algodão esfiapada nas bainhas, camisa de meia, fraque e chapéu duro, atravessava a rua, dirigia-se à bodega; as mãos carregadas de embrulhos, lenha debaixo do braço, voltava, corcunda, tropeçando, ia à cozinha, atiçava o fogo, temperava a sentava-se à mesa coberta de jornais, cartas, almofadas e carimbos, perto da estante:
O naturalismo...
Perplexo, eu examinava as pessoas em redor, procurava distinguir nelas o efeito da arenga difícil. Estariam compreendendo? Às vezes me assustavam discussões embrulhadas: rapazes silenciosos animavam-se, discorriam com exagero e ódio, religiosamente. Isso me dava tontura e enjôo. Uma idéia clara me surgia: os romances agradáveis eram bugigangas. Em troca, exibiam-me insipidez e obscuridade. Ali é que estava a beleza, especialmente na prosa de Coelho Neto.
Não me importava a beleza: queria distrair-me com aventuras, duelos, viagens, questões em que os bons triunfavam e os malvados acabavam presos ou mortos. Incapaz de revelar a preferência, resignei-me e aguentei as Baladilhas, o Romanceiro, outros aparatos elogiados, que me revolveram o estômago. Cochilei em cima deles, devolvi-os receando que me forçassem a comentá-los. Para mim eram chinfrins, mas esta opinião contrariava a experiência alheia. Julguei-me insuficiente, calei-me, engoli bocejos. Enquanto o dono da casa explanava a literatura encrencada, esforcei-me por entendê-la.
Senti medo e preguiça. Não me arriscaria a controvérsia: acovardava-me a presença de uma autoridade.
O Pequeno Mendigo e várias artes minhas lançadas no Dilúculo saíram com tantos arrebiques e interpolações que do original pouco se salvou.
Envergonhava-me lendo esses excessos do nosso professor: toda a gente compreenderia o embuste.
Mário Venâncio fabricava artigos e notícias, reduzia os diretores a simples testas-de-ferro. Ornou de contos sérios as páginas mesquinhas. Assim principiava um deles, admirado na Instrutora Viçosense e na Escola Pedro Silva:
Jerusalém, a deicida, dormia sossegadamente à luz pálida das estrelas. Sobre as colinas pairava uma tênue neblina, o hálito da grande cidade adormecida. Nos casais dos cabreiros, cães de vigília ululavam lugubremente.” Os nossos ouvidos eram insensíveis a colisões. E a brisa do monte das Oliveiras, a torrente do Cédron, lugares bíblicos, valorizavam o trabalho.
Mas não ficávamos na torrente e na brisa. Descíamos o monte das Oliveiras, caíamos na planície nacional, visitávamos a Casa de Pensão e O Coruja. Da cópia saltávamos ao modelo, invadíamos torpezas dos Bougon-Macquart, publicadas em Lisboa.
Feria-me às vezes, porém, uma saudade viva das personagens de folhetins: abandonava a agência, chegava-me a biblioteca de Jerônimo Barreto, regressava às leituras fáceis, reviu condes e condessas, salteadores e mosqueteiros brigões, viajava com eles em diligência pelos caminhos da França.
Esquecia Zola e Victor Hugo, desanuviava-me. Havia sido ingrato com os meus pobres heróis de capa e espada. Não me atrevia a exibi-los agora. Disfarçava-os cuidadoso e, fortalecido por eles, submetia-me de novo ao pesadume, ia buscar o artifício v. a substância, em geral muito artifício e pouca substância.
O funcionário postal facilitou-me a correspondência com livrarias: obtive catálogos da Garnier e da Francisco Alves, escrevi cartas, recebi faturas e pacotes. Não possuindo recursos, habituei-me a furtar moedas na loja, guardá-las num frasco bojudo oculto sob fronhas e toalhas no compartimento superior da cômoda. Entre níqueis e pratas surgiram cédulas — e enchi as prateleiras da estante larga, presente de aniversário. Esses delitos não me causavam remorso.
Cheguei a convencer-me de que meu pai, encolhido e avaro por natureza, os aprovava tacitamente. Desculpava-me censurando-lhe a sovinice, tentando agarrar esperanças absurdas.
Mário Venâncio me pressagiava bom futuro, via em mim sinais de Coelho Neto, de Aluísio Azevedo — e isto me ensoberbecia e alarmava. Acanhado, as orelhas ardendo, repeli o vaticínio: os meus exercícios eram composições tolas, não prestavam. Sem dúvida, afirmava o adivinho. Ainda não prestavam. Mas eu faria romances. Gastei meses para certificar-me de que o palpite não encerrava zombaria. Depois a vaidade esmoreceu, foi substituída por uma vaga aflição.
Que teria o homem percebido nos meus escritos? Se me decidisse a confiar nele, amargaria a vida inteira o provável engano. Examinei-me por dentro e julguei-me vazio. Não me achava capaz de conceber um daqueles enredos ensanguentados, férteis em nobres valorosos e donzelas puras. E, desatento, andava na rua aos encontrões, meio cego, meio surdo. Nunca descreveria um candeeiro como o de metal amarelo que iluminava, com azeite e difíceis pavios, duas páginas das Cenas da Vida Amazônica. Os candeeiros me passavam despercebidos. E seriam necessários? Os debates na agência não tinham fim. Lembrava-me dos governistas e oposicionistas espalhados, rancorosos, nas esquinas da cidadezinha e nos jornais da capital. Assombrava-me o partidarismo exaltado, a minha colaboração no Dilúculo era terrivelmente eclética. Mário Venâncio continuava a animar-me, eu desviava pretensões arriscadas.
Esse amável profeta bebeu ácido fênico. Levantei-me da espreguiçadeira, onde me seguravam as novidades e os sofrimentos da artrite e de uma novela russa, fui encontrar o infeliz amigo estirado no sofá, junto à mesa coberta de papéis, brochuras, pedaços de lacre, almofadas e carimbos. Um emissário da administração, feita a sindicância, redigiu necrológio pomposo, enterrou o cadáver sob a folhagem de salgueiros, entre raízes de ciprestes, vegetais desconhecidos no lugar.
O Dilúculo também morreu logo. Distanciei-me da crítica. E não me entendi com o público, muito incerto. No colégio, na Escola Pedro Silva, na Instrutora Viçosence, toleravam-me. Em casa, sem exame, detestavam as minhas novas ocupações.
Graciliano Ramos, in Infância

28/05/2020

Venta-Romba

Mais um tipo que perambulava pelo interior do Nordeste: Bafo de Bode, interpretado por Bemvindo Sequeira na novela Tieta

Ofereceram a meu pai o emprego de juiz substituto e ele o aceitou sem nenhum escrúpulo. Nada percebia de lei, possuía conhecimentos gerais muito precários. Mas estava aparentado com senhores de engenho, votava na chapa do governo, merecia a confiança do chefe político — e achou-se capaz de julgar.
Naquele tempo, e depois, os cargos se davam a sequazes dóceis, perfeitamente cegos. Isto convinha à justiça. Necessário absolver amigos, condenar inimigos, sem o que a máquina eleitoral emperraria.
Os magistrados de anel e carta diligenciavam acomodar-se, encolher-se, faziam vista grossa a muita bandalheira. De repente acuavam, tinham melindres que o mandão local não entendia e lançava à conta de má vontade. E lá vinham rixas, viagens rápidas, afrontas, um libelo contestado a punhal ou cacete. Enfim os bacharéis se aguentavam mal. Dispensavam-lhes obséquios, salamaleques — e desviavam-nos. Subsistia o Juiz de Direito, que ordinariamente se ausentava da comarca.
Os funcionários matutos não vacilavam: ignorando a razão de intransigências, amoleciam imperturbáveis, assinavam despachos redigidos pelo escrivão.
Foi assim que meu pai recebeu um título e suportou a alegria ruidosa do preto José Luís, que, aos sábados, da sala à cozinha, ria, gritava, dançava, entusiasmado:
Cadê o nosso juiz substituto?
Não havia motivo para júbilo. Conservo dessa autoridade uma recordação lastimosa.
Venta-Romba pedia esmola, gemendo uma cantilena, indiferente às recusas: — Como vai, seu Major? E a mulher de seu Major? Os filhinhos de seu Major? A voz corria mansa; as rugas da cara morena se aprofundavam num sorriso constante; o nevoeiro dos olhos se iluminava com estranha doçura.
Nunca vi mendigo tão brando. A fome, a seca, noites frias passadas ao relento, a vagabundagem, a solidão, todas as misérias acumuladas num horrível fim de existência haviam produzido aquela paz. Não era resignação. Nem parecia ter consciência dos padecimentos: as dores escorregavam nele sem deixar mossa.
Como vai, seu Major? Os filhinhos de seu Major?
Humildade serena, insignificância, as mãos trêmulas e engelhadas, os pés disformes arrastando as alpercatas, procurando orientar-se nas esquinas, estacionando junto dos balcões. Restos de felicidade esvaíam-se nas feições tranquilas. O aió sujo pesava-lhe no ombro; o chapéu de palha esburacado não lhe protegia a cabeça curva; o ceroulão de pano cru, a camisa aberta, de fralda exposta, eram andrajos e remendos.
Aparecia uma vez por semana, às sextas-feiras, quando se realizava a caridade: um pires de farinha nas casas particulares, um vintém nas lojas e nas bodegas. Mas as famílias de lojistas e bodegueiros não exerciam a caridade, porque isto seria redundância.
Peça na venda.
Tínhamos ordem para afastar os peditórios.
Uma sexta-feira Venta-Romba nos bateu à porta. Deve ter batido: não ouvimos as pancadas. Achou o ferrolho e entrou, surgiu de supetão na sala de jantar, os dedos bambeando no cajado. As moças assustaram-se, os meninos caíram em grande latomia.
Vá-se embora, meu senhor, disse a patroa.
A distância, esse tratamento de meu senhor a uma criatura em farrapos soa mal. Era assim que minha mãe se expressava dirigindo-se a qualquer desconhecido. Trouxera o hábito da fazenda, e isto às vezes não revelava polidez. Em tons vários, meu senhor traduzia respeito, desdém ou enfado. Agora, com estridência e aspereza, indicava zanga, e a frase significava, pouco mais ou menos:
Vá-se embora, vagabundo.
Venta-Romba perturbou-se, engasgou-se, apagou o sorriso; o vexame e a perplexidade escureceram-lhe o rosto; os beiços contraíram-se, exibindo as gengivas nuas.
Sinha dona... murmurou.
Com certeza buscava explicar-se. Interjeições roucas e abafadas escapavam-lhe; os olhos baços percebiam o terror das crianças e arregalavam-se aflitos.
Minha mãe era animosa. Atirava, montava, calejara na vida agreste. Certo dia um Coronel lhe entrou subitamente na cozinha, lívido, rogando-lhe que o escondesse da polícia: trancou-o num quarto, guardou a chave, tomou as primeiras medidas necessárias à fuga. Não precisava que o marido, pessoa débil, viesse enxotar Venta-Romba. Mas expediu o moleque José com um recado e plantou-se junto à mesa, áspera, silenciosa, os cantos da boca repuxados, a mancha vermelha da testa muito larga.
Diante dela, o pobre intentava aliviar a impressão má, e cada vez mais se confundia; deixou passar o momento de retirar-se. Cocava a cabeça, gemia desculpas asmáticas, e ninguém o escutava. Num arranco de impaciência, bateu com o pau no tijolo, agravou a balbúrdia. A severidade vincou o rosto da mulher; as moças cochicharam rezando e fixaram a atenção na entrada do corredor.
Nesse ponto chegou meu pai. Chegou alvoroçado, branco, e logo se fortaleceu, pôs-se a interrogar Venta-Romba, que desabafou, estranhou a desordem: implicância dos meninos, gritos, choro, a dona sisuda, as doninhas arrepiadas. Fuzuê brabo à toa, falta de juízo. Graças a Deus, tudo se alumiava. Descobriu-se, despediu-se, caminhou de costas:
Adeus, seu Major.
Meu pai atalhou-o. Antes de qualquer sindicância, tinha-se resolvido. Enganara-se com os exageros do moleque, enviara um bilhete ao comandante do destacamento. A fraqueza o impelia a decisões extremas. Imaginara-se em perigo. Reconhecia o erro, mas obstinava-se. Misturava o sobressalto originado pela notícia ao enjoo que lhe causava a figura mofina — e desatinava. Propendia a elevar o intruso, imputar-lhe culpa e castigá-lo. De outro modo, o caso findaria no ridículo.
Está preso, gaguejou, nervoso, porque nunca se exercitara naquela espécie de violência.
Alguém tossiu na sala, um boné vermelho apareceu no fim do corredor.
Insensível, Venta-Romba tropicava como um papagaio, arrimava-se penosamente à ombreira da porta. Deteve-se, largou uma exclamação de surpresa e dúvida. E quando a frase se repetiu, balbuciou descorado:
Brincadeira de seu Major.
Espalhou a vista em roda: o barulho das crianças fora substituído por uma curiosidade perversa; as moças tremelicavam na costura; a face de minha mãe expunha indiferença imóvel; um sujeito passeava na sala de visitas, exibindo pedaços da farda vistosa. Claro que não era brincadeira, mas o velho, estonteado, não alcançava o desastre. Arredou-se da porta, encostou-se à parede, esboçou um movimento de defesa. Se não fosse banguelo, rangeria os dentes; se os músculos não estivessem lassos, endureceria as munhecas, levantaria o cajado. Impossível morder ou empinar-se; o gesto maquinal de bicho acuado esmoreceu; devagar, a significação da palavra rija furou, como pua, o espírito embotado. E emergia da trouxa de molambos uma pergunta flácida:
Por que, seu Major?
Era o que eu também desejava saber. À janela, distraindo-me com o voo das abelhas e o zunzum do cortiço pendente no beiral, vira o espalhafato nascer e engrossar em minutos. Não haviam colaborado nele — e a interrogação lamentosa me abalava. Por quê? Como se prendia um vivente incapaz de ação? Venta-Romba movia-se de leve. Não podendo fazer mal, tinha de ser bom. Difícil conduzir aquela bondade trôpega ao cárcere, onde curtiam pena os malfeitores.
Por que, seu Major?
O cochicho renovado ficou sem resposta. Seu Major não saberia manifestar-se. Assombrara-se, recorrera à força pública e receava contradizer-se.
Talvez sentisse compaixão e se reconhecesse injusto. Enraivecia, acusava-se, e despejava a cólera sobre o infeliz, causa do desarranjo. Em desespero, roncou injúrias. O polícia que pigarreava na sala se avizinhou, a blusa desabotoada, faca de ponta à cintura, as reiúnas de vaqueta ringindo.
Vinte e quatro horas de cadeia, uma noite na esteira de pipiri, remoques dos companheiros de prisão, gente desunida. Perdia-se a sexta-feira, esfumava-se a beneficência mesquinha. Como havia de ser? Como havia de ser o pagamento da carceragem?
Venta-Romba sucumbiu, molhou de lágrimas a barba sórdida, extinguiu num murmúrio a pergunta lastimosa. O soldado ergueu-lhe a camisa, segurou o cós do ceroulão, empunhou aquela ruína que tropeçava, queira aluir, atravessou o corredor, ganhou a rua.
Fui postar-me na calçada, sombrio, um aperto no coração. Venta-Romba descia a ladeira aos solavancos, trocando as pernas, desconchavando-se como um judas de sábado da Aleluia. Se não o agarrassem, cairia. O aió balançava; na cabeça desgovernada os vestígios de chapéu iam adiante e vinham atrás; as alpercatas escorregavam na grama.
Eu experimentava desgosto, repugnância, um vago remorso. Não arriscara uma palavra de misericórdia. Nada obteria com a intervenção certamente prejudicial, mas devia ter afrontado as consequências dela. Testemunhara uma iniquidade e achava-me cúmplice. Covardia.
Mais tarde, quando os castigos cessaram, tornei-me em casa insolente e grosseiro — e julgo que a prisão de Venta-Romba influiu nisto. Deve ter contribuído também para a desconfiança que a autoridade me inspira.
Graciliano Ramos, in Infância

17/05/2020

Jerônimo Barreto


Apareceu uma dificuldade, insolúvel durante meses. Como adquirir livros? No fim da história do lenhador, dos fugitivos e dos lobos havia um pequeno catálogo. Cinco, seis tostões o volume. Tencionei comprar alguns, mas José Batista me afirmou que aquilo era preço de Lisboa, em moeda forte. E Lisboa ficava longe.
Invoquei, num desespero, o socorro de Emília. Eu precisava ler, não os compêndios escolares, insossos, mas aventuras, justiça, amor, vinganças, coisas até então desconhecidas. Em falta disso, agarrava-me a jornais e almanaques, decifrava as efemérides e anedotas das folhinhas. Esses retalhos me excitavam o desejo, que se ia transformando em ideia fixa. Queria isolar-me, como fiz quando nos mudamos em razão de consertos na casa. Para bem dizer, os outros é que se mudaram. A pretexto de ver os trabalhos, escapulia-me com o romance debaixo do paletó, voltava, desviava-me dos pedreiros, serventes e pintores, ia esconder-me na sala. Mergulhava numa espreguiçadeira e, empoeirado, sujo de cal, sentindo o cheiro das tintas, passava horas adivinhando a narrativa, à luz que se coava pelos vidros baços. Privara-me desse refúgio. E onde conseguir livros?
Emília tentou auxiliar-me, contou pelos dedos os possuidores prováveis de bibliotecas, sisudos, inacessíveis: Dr. Mota Lima, Professor Rijo, Padre Loureiro. Não me arriscaria a chateá-los. Mais próximo, havia o tabelião Jerônimo Barreto. Diariamente, percorrendo a Ladeira da Matriz, demorava-me em frente do cartório dele, enfiava os olhos famintos pela janela, via numa estante, em fileiras densas, bonitas encadernações de cores vivas. À mesa larga, em mangas de camisa, o funcionário manejava instrumentos jurídicos. E um respeito cheio de inveja me detinha na calçada. Atribuí àquele rapaz moreno ciência poderosa, estranhei vê-lo, simples e calmo, juntar-se aos frequentadores da loja, onde metia na conversa Robespierre e Marat, dois tipos que venerei antes de me chegar qualquer notícia de revolução e da França.
Esperei que Emília falasse a Jerônimo. Recusou-se. Expus a situação a José Batista, o único empregado que não me inspirava rancor. José Batista fechou o diário, escutou-me, julgou dispensáveis os medianeiros, pois a minha pretensão era modesta. Eu a considerava exorbitante.
Saí do escritório num desânimo. Impossível entender-me com o homem sabido, conhecedor de Marat, Robespierre, outros que me fugiam da memória e da língua. Essas personagens me acovardavam. E o proprietário delas guardava-as com certeza ciumento, não deixaria mãos bisonhas manchá-las de suor. Afirmei, repeti mentalmente que não me avizinharia de Jerônimo Barreto.
Dirigi-me a casa, subi a calçada, retardei o passo, como de costume, diante das procurações e públicas-formas. E bati à porta. Um minuto depois estava na sala, explicando meu infortúnio, solicitando o empréstimo de uma daquelas maravilhas. Mais tarde me assombrou o arranco de energia, que em horas de tormento se reproduziu. Como veio semelhante desígnio? De fato não houve desígnio. Foi uma inexplicável desaparição da timidez, quase a desaparição de mim mesmo. Expressei-me claro, exibi os gadanhos limpos, assegurei que não dobraria as folhas, não as estragaria com saliva. Jerônimo abriu a estante, entregou-me sorrindo O Guarani, convidou-me a voltar, franqueou-me as coleções todas.
Retirei-me enlevado, vesti em papel de embrulho a percalina vermelha, entretive-me com D. Antônio de Mariz, Cecília, Peri, fidalgos, aventureiros, o Paquequer. Certas expressões me recordaram a seleta e a linguagem de meu pai em lances de entusiasmo. Vi o retrato de José de Alencar, barbado, semelhante ao Barão de Macaúbas, e achei notável usarem os dois uma prosa fofa. Vencidos o incêndio e a cheia, dois elementos de resistência na literatura nacional, examinei os volumes, desencapei-os, restituí-os ao dono.
Jerônimo Barreto me desviou para as obras de carregação. Viajei bastante, abeirei-me de condessas. Mas permaneci no desalinho, esgueirando-me pelos cantos, e o juízo severo da família se agravava. Apenas meu primo José, ouvindo-me descrever uma casa queimada, resmungou:
Falante como o diabo.
Talvez me houvessem ficado alguns adjetivos do Guarani. Isto não representou vantagem, pelo menos no princípio.
Surgiu na cidade uma espécie de colégio e introduziram-me nele. Quando cheguei, o diretor, insinuante, macio, ditou meia dúzia de linhas a diversos novatos. Emendou e classificou os ditados; pegou o meu, horrorizou-se, escreveu na margem larga do almaço: incorrigível. Esta dura sentença não me abalou. Até que me envaideci um pouco vendo a minha escrita diferente das outras.
Dias depois o sujeito me pediu a constituição do Brasil e uma gramática. Levei a gramática, mas embirrei com a constituição, mudei-a numa história do Brasil de perguntas e respostas. Assim, não analisei o estatuto do meu país e dei a Jovino Xavier uma impressão miserável. Recebendo as cartonagens, Jovino travou comigo um diálogo: espantou-se, franziu os beiços, machucou o bigode, cocou a cabeça, entalado. E deixou-me em paz, esteve semanas sem me dirigir palavra, certamente julgando-me imbecil, o que muito me serviu.
Nesse tempo eu andava nos fuzuês de Rocambole. Jerônimo Barreto me fazia percorrer diversos caminhos: revelara-me Joaquim Manuel de Macedo, Júlio Verne, afinal Ponson du Terrail, em folhetos devorados na escola, debaixo das laranjeiras do quintal, nas pedras do Paraíba, em cima do caixão de velas, junto ao dicionário que tinha bandeiras e figuras.
Os meus colegas se afastavam de mim, declamavam as capitais, os rios da Europa. E eu mascava os prolegômenos: vinte e quatro horas, trezentos e sessenta e cinco dias, raça branca, raça negra. Quando tomei pé na Europa, eles exploravam outras partes do mundo. Surdo às explicações do mestre, alheio aos remoques dos garotos, embrenhava-me na leitura do precioso fascículo, escondido entre as folhas de um atlas. Às vezes procurava na carta os lugares que o ladrão terrível percorrera. E o mapa crescia, povoava-se, riscava-se de estradas por onde rodavam caleças e diligências.
Conheci desse jeito várias cidades, vivi nelas, enquanto os pequenos em redor se esgoelavam, num barulho de feira. O rumor não me atingia. Em vão me falavam. Sacudido, sobressaltava-me, as ideias ausentes, como se me arrancassem do sono. Olhavam-me estupefatos, devagar me inteirava da realidade.
Governadores-gerais, holandeses e franceses começavam a importunar-me. Esquartejavam-se períodos, subdividiam-se e rotulavam-se as peças em medonha algazarra. Os meus novos amigos guardavam maquinalmente façanhas portuguesas, francesas e holandesas, regras de sintaxe — e brilhavam nas sabatinas. Segunda-feira estavam esquecidos, e no fim da semana precisavam repetir o exercício, decorar provisoriamente toda a matéria. À medida que avançavam, a tarefa se ia tornando mais penosa: ficavam apenas, algum tempo, as últimas lições. Eu achava estupidez pretenderem obrigar-me a papaguear de oitiva.
Desonestidade falar de semelhante maneira, fingindo sabedoria. Ainda que tivesse de cor um texto incompreensível, calava-me diante do professor — e a minha reputação era lastimosa.
Um dia, porém, houve exame imprevisto e os alunos encrencaram nos rios e nas capitais. Haviam-me chegado pedaços disso. Geografia velha, anterior à locomotiva, cheia de soluções de continuidade, mas foi exposta e produziu eleito regular. Mencionei o bosque de Bolonha, Versalhes, o Sena, a torre de Londres, as pontes de Veneza, o Reno e o Tibre, o porto de Marselha.
Não era exatamente o que desejavam. Em todo o caso fui ouvido. Certas interrupções me avivavam a eloquência. O Mediterrâneo? Perfeitamente, a Córsega, terra de Napoleão. Da poeira de Ajácio ao trono de S. Luís. Jerônimo Barreto me falara na poeira e no trono — e isto não apresentava dificuldade: Ajácio estava ali no mapa, S. Luís tinha sido rei da França, Napoleão se estrepara na campanha da Rússia, logo nas primeiras páginas do Rocambole.
Num desconchavo, referi-me à catedral de Notre-Dame e ao Vesúvio familiarmente, como se os tivesse visto. Além disso, arrolei plantas e animais exóticos: carvalhos e pinheiros, vinhedos e trigais, lobos e javalis, melros e rouxinóis.
Finda a novidade, os meus conhecimentos originaram desconfiança e algum desdém: Versalhes, Notre-Dame e os rouxinóis tinham aparência de contrabando. E eram inúteis, com certeza. Mas serviam para a composição de narrativas — e fora daí não me inspiravam interesse.
A existência comum se distanciava e deformava; conhecidos e transeuntes ganhavam caracteres das personagens do folhetim. Descurei as obrigações da escola e os deveres que me impunham na loja. Algumas disciplinas, porém, me ajudavam a compreensão do romance e tolerei-as — bocejei e cochilei buscando penetrá-las.
Em poucos meses li a biblioteca de Jerônimo Barreto. Mudei hábitos e linguagem. Minha mãe notou as modificações com impaciência. E Jovino Xavier também se impacientou, porque às vezes eu revelava progresso considerável, outras vezes manifestava ignorância de selvagem. Os caixeiros do estabelecimento deixaram de afligir-me e, pelos modos, entraram a considerar-me um indivíduo esquisito.
Minha mãe, Jovino Xavier e os caixeiros evaporavam-se. A única pessoa real e próxima era Jerônimo Barreto, que me fornecia a provisão de sonhos, me falava na poeira de Ajácio, no trono de S. Luís, em Robespierre, em Marat.
Graciliano Ramos, in Infância

07/04/2020

Um enterro

Naquele dia feriamos. Encontrei à porta da escola os meninos em alvoroço, e alguém nos guiou a uma casa distante, onde mulheres chorosas punham estrelinhas no manto que adornava um cadáver pequeno, transformado em anjo. Findo esses retoques, o choro aumentou e quatro alunos seguraram as alças do caixão azul. Saímos, andamos caminhos esburacados, lamacentos, subimos uma ladeira íngreme e, escorregando no barro vermelho, alcançamos paredes brancas, simples manchas vistas lá debaixo, agora altas e largas, zebradas de verde. Atravessei o portão.
Nunca havia entrado em cemitérios e habituara-me a receá-los, por causa dos espectros que me descreviam na cozinha. À noite essas narrações davam-me tremuras, arrepiavam-me os cabelos. A treva se enchia de mistérios, as labaredas fumacentas do fogão viviam, acompanhavam a dança das bruxas. Ali, porém, na claridade forte do sol, os terrores se dissipavam. O bando de crianças ria, espalhava-se nas ruas estreitas, galgava montículos fofos, alinhados. Largou-se à beira de uma cova o caixão azul, o velho Simeão escondeu-o, tomou a pá e cobriu-o de terra, fabricou uma espécie de canteiro. Ouvi as pancadas ocas, indiferente à cerimônia. Lembrava-me do que se dizia do coveiro, lento, de mãos trêmulas.
Perdera a família, despojara-se de todos os interesses que o prendiam à vida e, quase na decrepitude, só estimava a companhia dos mortos. Calejara no ofício.
Como as pernas trôpegas exigiam repouso, descia raro à cidade. Consumia o resto das forças à sombra dos túmulos, arrancando ervas nocivas, podando roseiras. E concluída a tarefa, sossegava em cima de uma catacumba e dormia.
Quando o achassem teso, não seria preciso transportá-lo em viagem difícil: deixá-lo-iam entre as suas plantas. Essa figura engelhada me tranquilizava.
Simeão vivia com defuntos — e nunca um deles o incomodara. Homem poderoso. Ou então os defuntos eram bem fracos.
Distanciei-me, fui examinar flores roxas de louça, cabeças de lagartixas nas rachaduras dos sepulcros. As narrativas noturnas — diabos com olhos de brasas, cachorros mastigando pedaços de carne podre — sumiam-se. E o medo também cessava, no trabalho de adivinhar nomes e datas que desbotavam nas lousas. O que eu sentia era nojo. Nojo das pedras, dos tijolos, dos garranchos, certamente impregnados de óleo. Receava tocar em objetos sujos de gordura fúnebre, indelével. Farrapos sem cor, folhas secas, pétalas murchas, fragmentos vagos, juntos em lixo, nauseavam-me: apesar de lavados pelo inverno, queimados pelo verão, deviam conter pus ou tutano.
Arredei-me para um canto, onde o muro se abria. Era um ossuário. Vi esqueletos em desordem, arcarias de costelas emaranhando-se umas às outras, rosários de vértebras. No monte lúgubre, uma caveira me espiava e parecia zombar de mim. Nunca me viera à idéia semelhante horror. Um acervo de porcarias. Difícil imaginá-las frações de pessoas, misturadas, decompondo-se num monturo. O crânio avultava, para bem dizer adquiria feições, tinha vontade de falar. As minhas mãos se umedeceram, a vista se turvou. Zangava-me por não conseguir afastar-me, correr na relva com os garotos, ver, de espírito leve, os pássaros, as roseiras do velho Simeão. Preso ao depósito sinistro, um nó a apertar-me as goelas, senti desejo de chorar. Sentimento diverso do que me assaltava quando ouvia histórias de casas mal-assombradas. O desespero me paralisava. Asco, a sensação de me achar caído numa estrumeira, sem poder limpar-me, e a certeza de haver em qualquer parte irremediável estrago. Aquilo era feio e triste. E a feiúra e a tristeza se animavam, arreganhavam dentes fortes e queriam morder-me. Engano: indiferença, imobilidade. A imobilidade e a indiferença me atraíam. Tentei invocar as almas penadas, os diabos que se agitam nas chamas eternas. Essas criaturas me inspiravam piedade ou terror.
Diante das carcaças nuas, era impossível comover-me. Loucura supor que mangassem de mim.
Longamente estive a contemplar as ruínas, ignoro como e quando me retirei. Decerto os colegas foram buscar-me. Não me recordo.
Entrei em casa mergulhado numa sombra espessa. À mesa, repeli a comida. Meus parentes não perceberam o fastio, deixaram-me só, os cotovelos sobre a tábua, reparando nas laranjeiras da vizinhança. Anoiteceu, um negrume tingiu a folhagem, não trouxeram luz, os pequenos se recolheram. Deitei-me num banco, as juntas estalaram. A escuridão cresceu. Fechei os olhos. Mexi os dedos, procurei as falanges, apalpei os braços, o tronco, o pescoço. Tateei o couro cabeludo, forcejando por descobrir lá embaixo as suturas e as saliências.
Toquei as maxilas e os zigomas. Contornei as órbitas, esfreguei as pálpebras: o globo se deslocava devagar. Imundície. As pálpebras e o globo iam apodrecer, estavam apodrecendo. Só o esqueleto resistiria. Ossos. Aquela miséria segurava-se a mim, e não havia jeito de eliminá-la. Uma caveira me acompanharia por toda a parte, estaria comigo na cama, nas horas de brinquedo, nos desalentos, curvar-se-ia sobre páginas enfadonhas e aguentaria cocorotes. Ia encher-se de noções e de sonhos, esvaziar-se, descansar num ossuário, ao sol, à chuva, mostrar os dentes às crianças. Acabar-me-ia assim. Não interrompia o exame das órbitas, e as cavidades horríveis se alargavam e aprofundavam, semelhantes aos dois buracos que me haviam observado no cemitério. Os moleques pairavam na cozinha, certamente sentados no pilão, aquecendo-se ao fogo, embebendo-se em maravilhas extraterrenas. Em momentos ordinários teria ido entender-me com eles, afrontar duendes e gigantes ferozes. Ali deitado no banco, não me vinha a necessidade de comunicar-me, fortalecer-me na companhia dos negrinhos. Os duendes e os gigantes eram só palavras, os inimigos indeterminados que vivem na treva se dispersaram. Intentei recordar-me deles, assustar-me. Debalde. Lá fora cantavam grilos, o vento zumbia nos ramos das laranjeiras e na cerca de pau-a-pique, vaga-lumes e baratas começavam a manifestar-se, os moleques cochichavam. Apenas. E cá dentro — um feixe de ossos. Apenas. A carne se eriçava, o sangue badalava na artéria.
Isso tudo seria gasto pelos vermes. A imagem horrorosa se obstinava. As imagens também seriam gastas pelos vermes. Então para que me fatigar, rezar, ir à loja e à escola, receber castigos da mestra, escaldar os miolos na soma e na diminuição? Para que, se os miolos iam derreter-se, abandonar a caixa inútil? O que mais me impressionava eram as órbitas: a pesquisa minuciosa prosseguia e achava-as desertas. Ocas e sombrias, como as outras. E o resto? Não havia resto. Ali não havia nada. Aqui não haveria nada. O velho Simeão habituara-se a dormir à luz dos fogos-fátuos, que já não eram amantes falecidos em incesto, perseguindo-se, repelindo-se, entre as sepulturas. Libertara-se de crenças, fugira ao sobrenatural. E resignava-se. Eu não podia resignar-me. As almas do outro mundo e os lobisomens adquiriam muito valor, faziam-me falta.
Estas letras me pareceriam naquele tempo confusas e pedantes. Mas o artifício da composição não exclui a substância do fato. Esforcei-me por destrinçar as coisas inomináveis existentes no meu espírito infantil, numa balbúrdia. É por terem sido inomináveis que agora se apresentam duvidosas.
Afinal não me surgiam dificuldades. Haviam-me exposto várias lendas. Vencida a resistência inicial, pusera-me a confirmá-las. Negava-as de repente em globo, sem análises. Não me embaraçava em dúvidas. Tinha dito sim; entrava a dizer não: uma caveira motivava o desmoronamento.
Não pretendo insinuar, porém, que me haja encerrado no ateísmo, diferençando-me dos meninos vulgares. Nem sequer pensei em Deus.
O que me inquietava eram as almas. E a minha não morreu de todo. Aquele enorme desengano passou. Os fantasmas voltaram, abrandaram-me a solidão.
Sumiram-se pouco a pouco e foram substituídos por outros fantasmas.
Graciliano Ramos, in Infância