No
colégio havia um aluno particularmente desgraçado. Diziam que não
prestava, embora se recusassem de ordinário a especificar as suas
faltas, cochichadas com gestos de repugnância. À tarde, na hora de
recreio que enchia de algazarra a calçada e a rua, afastavam-se
dele, ostensivos, e se alguém transgredia essa dura norma,
arriscava-se a nivelar-se ao réprobo.
Acatávamos
uma possível opinião da maioria, apesar de nunca havermos discutido
o assunto: cada um supunha a condenação firmada e receava
comprometer-se.
O
rapaz avizinhava-se dos grupos, esboçava um sorriso cínico,
ingeria-se nas conversas, debalde. Os mais taludos afrontavam-no,
olhavam-no com desprezo, cuspiam, voltavam-lhe as costas. Esse
procedimento nos fornecia um princípio de convicção; e como a
vítima se resignava e baixava a cabeça, admitíamos sem esforço a
culpabilidade.
Não
era só isso: atiravam-lhe palavras ásperas, rosnavam insultos.
Fingia não percebê-los, diligenciava abrandar as almas
oferecendo-nos indicações úteis, em geral aceitas com indiferença
ou repelidas.
No
começo apenas as classes adiantadas se comportavam assim; as
atrasadas seguiram-lhes o exemplo; afinal o garoto se achou entre
inimigos.
O
maior deles foi o diretor: isolou-o numa ponta de banco,
transformou-o em bicho de circo, espécie de Joaquina ou Jacob, dois
gorilas que nos tinham maravilhado. Injusto em demasia, sempre lhe
considerou o trabalho mal feito, responsabilizou-o por erros alheios,
em momentos de zanga não disfarçou o ódio.
— Olhem
aquele sem-vergonha.
Com
o destampatório, avivava a separação, estimulava-nos os instintos
maus. Julgava-o perdido, sem dúvida, e empenhava-se em distanciá-lo
dos companheiros. Lembrava-nos a cada instante que a aproximação
era nociva.
Longo
tempo ficava a observá-lo, como se procurasse manchas na roupa,
ausência de botões, e tinha uma horrível brandura felina, o bigode
eriçava-se, a patinha curta erguia-se de manso, a voz era um suave
ronrom. A distância, poderíamos supor algum discurso amável. De
repente a maciez vagarosa miava:
— Descarado.
O
pobre rato fingia-se impassível, escondia-se por detrás de um
livro; perturbava-se ao cabo de minutos, esmorecia, punha-se a
tremer. Se estivéssemos analisando Camões ou catalogando os mares
da Europa, qualquer omissão justificaria a ofensa. Mas provocar uma
pessoa daquele jeito, sem esclarecimento, alvoroçava-nos. O ultraje
não se relacionava com as tarefas escolares, devia ligar-se a fatos
exteriores. Essa imprecisão tomava grande importância: tratava-se
de coisa séria, feia.
O
diretor se levantava, um ombro alto, outro baixo:
— Sem-vergonha.
Os
pêlos ameaçadores encrespavam-se, as maneiras brandas eram
substituídas por sacudidelas, todo aquele veludo se esgarçava e as
garras apareciam, desviavam a folha que ocultava um rosto cheio de
pavor. Em seguida trompaços, baques fofos no tijolo, arrastar de
membros contusos, queixas lamurientas, soluços.
Às
vezes o homem se excedia: amarrava os braços do garoto com uma
corda, espancava-o rijo, abria a porta, e a desesperada humilhação
exibia-se aos transeuntes, fungava, tentava enxugar as lágrimas e
assoar-se. O choro juntava-se ao catarro, pingava no paletó e na
camisa — e o pano molhado tinha um cheiro nauseabundo, mistura de
formiga e mofo.
A
palmatória figurava em nosso código. Nas sabatinas, questões
difíceis percorriam as filas — e o aluno que as adivinhava punia
os ignorantes. Os amigos da justiça batiam com vigor, dispostos a
quebrar munhecas; outros, como eu, surdos ao conselho do mestre,
encostavam de leve o instrumento às palmas. Isto não nos trazia
vexame: foi costume até que se usaram cartões relativos às notas
boas. Desde então pagamos os nossos enganos com essa moeda, chegamos
a emprestá-la a colegas necessitados.
Impossível
dá-la em troca daquele sofrimento diverso dos sofrimentos
ordinários. Ninguém se arriscaria a oferecer resgate. Assistíamos
a uma pena estranha, infligida sem processo. A acusação se
desenvolvera em segredo. No decurso da tortura, o diretor rosnava, e
pelo mover dos beiços percebíamos a injúria murmurada no recreio.
Não havia defesa. Nenhuma interferência.
Livre
dos tormentos, o pequeno regressava à ponta do banco, anulava-se,
enquanto não o exigiam para recados, viagens ao correio e à bodega.
Afinal se despojaram de escrúpulos, mandaram-no auxiliar a família
no serviço doméstico. Insensível, nem compreendia o aviltamento:
bom que o privassem do estudo e lhe recebessem os préstimos na
cozinha. Solícito, esperava talvez escapar ao trato ríspido. Nunca
lhe manifestaram gratidão: empurravam-no, como se ele tivesse o
dever de rachar lenha e ir buscar a correspondência.
Em
casa, o pai martelava-o sem cessar, inventava suplícios:
amordaçava-o, punha-lhe as costas das mãos sobre a mesa da sala de
jantar, malhava nas palmas, quase lhe triturava as falanges;
prendia-lhe os rejeitos, pendurava-o num caibro, deixava-o de cabeça
para baixo, como carneiro em matadouro. Fatigando-se das inovações,
recorria às sevícias habituais: murros e açoites. O irmão
presenciava as cenas aterrado, expandia-se em descrições torvas. E
durante semanas o pobre repuxava as mangas, abotoava-se, endireitava
a gola, para encobrir equimoses, sinais vermelhos, cinzentos, negros.
Apesar
de tudo, a escola era um refúgio. Canseiras, adulações à mulher e
aos filhos do diretor, rendiam pelo menos alguma indiferença. E isto
convinha.
Se
o rapaz, findas as obrigações, se aquietasse, facilmente escaparia,
anônimo e incolor. Não podia esconder-se. Precisava convívio,
estava sempre ensaiando camaradagens que se malogravam.
Tipos
de calças longas e buço tinham com ele um procedimento singular:
enviavam-lhe bilhetes, acenavam-lhe, segredavam-lhe em gíria
misteriosa. Esses escorregos não exprimiam dedicação. Evitavam-no
em público, zangavam-se de chofre, perseguiam-no com ditos mordazes.
Ele
suportava a ingratidão e os remoques, desvanecia-os depressa, ria
mostrando os dentes amarelos, que me faziam pensar no gigante
Adamastor. À minha entrada na escola, o sujeitinho me surgira, de
cotovelos fincados nas pernas, gaguejando áspero e rouco:
Os
olhos encovados e a postura
Medonha
e má e a cor terrena e pálida.
A
lembrança motivara a associação. Era realmente pálido e medonho.
Os olhos tinham um brilho seco, fixavam-se na gente com impudência.
Caretas deslocavam-lhe o queixo enorme, quadrado. A pele úmida e
gordurosa roçava-nos — e isto era desagradável: usávamos cautela
para fugir à umidade e à gordura, ao cheiro de formiga e mofo.
Parecia não lavar-se, causava nojo.
Coitado.
Que valiam, diante daquela desgraça, cocorotes e puxões de orelhas,
logo esquecidos? A comparação revelou que me tratavam com
benevolência. Infeliz.
Deixei-o
no colégio, perdi-o de vista. E reencontrei-o modificado. Ao
iniciar-se no crime, andaria talvez pelos quinze anos. Atirou num
homem a traição, homiziou-se em casa do chefe político e foi
absolvido pelo júri. Realizou depois numerosas façanhas;
respeitaram-lhe a violência e a crueldade. Sapecou os preparatórios
num liceu vagabundo. Na academia obteve aprovação ameaçando os
examinadores.
Bacharelou-se,
fundou um jornal. Como o velho diretor, seu carrasco, fechara o
estabelecimento e curtia privações, deu-lhe um emprego mesquinho e
vingou-se. Caprichou no vestuário: desapareceram as nódoas, a
formiga, o mofo. E teve muitas mulheres. Foi em casa de uma que o
assassinaram. Deitou-se na espreguiçadeira, adormeceu. Um inimigo,
no escuro da noite, crivou-o de punhaladas.
Graciliano
Ramos, in Infância

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