quinta-feira, 9 de julho de 2020

A criança infeliz


No colégio havia um aluno particularmente desgraçado. Diziam que não prestava, embora se recusassem de ordinário a especificar as suas faltas, cochichadas com gestos de repugnância. À tarde, na hora de recreio que enchia de algazarra a calçada e a rua, afastavam-se dele, ostensivos, e se alguém transgredia essa dura norma, arriscava-se a nivelar-se ao réprobo.
Acatávamos uma possível opinião da maioria, apesar de nunca havermos discutido o assunto: cada um supunha a condenação firmada e receava comprometer-se.
O rapaz avizinhava-se dos grupos, esboçava um sorriso cínico, ingeria-se nas conversas, debalde. Os mais taludos afrontavam-no, olhavam-no com desprezo, cuspiam, voltavam-lhe as costas. Esse procedimento nos fornecia um princípio de convicção; e como a vítima se resignava e baixava a cabeça, admitíamos sem esforço a culpabilidade.
Não era só isso: atiravam-lhe palavras ásperas, rosnavam insultos. Fingia não percebê-los, diligenciava abrandar as almas oferecendo-nos indicações úteis, em geral aceitas com indiferença ou repelidas.
No começo apenas as classes adiantadas se comportavam assim; as atrasadas seguiram-lhes o exemplo; afinal o garoto se achou entre inimigos.
O maior deles foi o diretor: isolou-o numa ponta de banco, transformou-o em bicho de circo, espécie de Joaquina ou Jacob, dois gorilas que nos tinham maravilhado. Injusto em demasia, sempre lhe considerou o trabalho mal feito, responsabilizou-o por erros alheios, em momentos de zanga não disfarçou o ódio.
Olhem aquele sem-vergonha.
Com o destampatório, avivava a separação, estimulava-nos os instintos maus. Julgava-o perdido, sem dúvida, e empenhava-se em distanciá-lo dos companheiros. Lembrava-nos a cada instante que a aproximação era nociva.
Longo tempo ficava a observá-lo, como se procurasse manchas na roupa, ausência de botões, e tinha uma horrível brandura felina, o bigode eriçava-se, a patinha curta erguia-se de manso, a voz era um suave ronrom. A distância, poderíamos supor algum discurso amável. De repente a maciez vagarosa miava:
Descarado.
O pobre rato fingia-se impassível, escondia-se por detrás de um livro; perturbava-se ao cabo de minutos, esmorecia, punha-se a tremer. Se estivéssemos analisando Camões ou catalogando os mares da Europa, qualquer omissão justificaria a ofensa. Mas provocar uma pessoa daquele jeito, sem esclarecimento, alvoroçava-nos. O ultraje não se relacionava com as tarefas escolares, devia ligar-se a fatos exteriores. Essa imprecisão tomava grande importância: tratava-se de coisa séria, feia.
O diretor se levantava, um ombro alto, outro baixo:
Sem-vergonha.
Os pêlos ameaçadores encrespavam-se, as maneiras brandas eram substituídas por sacudidelas, todo aquele veludo se esgarçava e as garras apareciam, desviavam a folha que ocultava um rosto cheio de pavor. Em seguida trompaços, baques fofos no tijolo, arrastar de membros contusos, queixas lamurientas, soluços.
Às vezes o homem se excedia: amarrava os braços do garoto com uma corda, espancava-o rijo, abria a porta, e a desesperada humilhação exibia-se aos transeuntes, fungava, tentava enxugar as lágrimas e assoar-se. O choro juntava-se ao catarro, pingava no paletó e na camisa — e o pano molhado tinha um cheiro nauseabundo, mistura de formiga e mofo.
A palmatória figurava em nosso código. Nas sabatinas, questões difíceis percorriam as filas — e o aluno que as adivinhava punia os ignorantes. Os amigos da justiça batiam com vigor, dispostos a quebrar munhecas; outros, como eu, surdos ao conselho do mestre, encostavam de leve o instrumento às palmas. Isto não nos trazia vexame: foi costume até que se usaram cartões relativos às notas boas. Desde então pagamos os nossos enganos com essa moeda, chegamos a emprestá-la a colegas necessitados.
Impossível dá-la em troca daquele sofrimento diverso dos sofrimentos ordinários. Ninguém se arriscaria a oferecer resgate. Assistíamos a uma pena estranha, infligida sem processo. A acusação se desenvolvera em segredo. No decurso da tortura, o diretor rosnava, e pelo mover dos beiços percebíamos a injúria murmurada no recreio. Não havia defesa. Nenhuma interferência.
Livre dos tormentos, o pequeno regressava à ponta do banco, anulava-se, enquanto não o exigiam para recados, viagens ao correio e à bodega. Afinal se despojaram de escrúpulos, mandaram-no auxiliar a família no serviço doméstico. Insensível, nem compreendia o aviltamento: bom que o privassem do estudo e lhe recebessem os préstimos na cozinha. Solícito, esperava talvez escapar ao trato ríspido. Nunca lhe manifestaram gratidão: empurravam-no, como se ele tivesse o dever de rachar lenha e ir buscar a correspondência.
Em casa, o pai martelava-o sem cessar, inventava suplícios: amordaçava-o, punha-lhe as costas das mãos sobre a mesa da sala de jantar, malhava nas palmas, quase lhe triturava as falanges; prendia-lhe os rejeitos, pendurava-o num caibro, deixava-o de cabeça para baixo, como carneiro em matadouro. Fatigando-se das inovações, recorria às sevícias habituais: murros e açoites. O irmão presenciava as cenas aterrado, expandia-se em descrições torvas. E durante semanas o pobre repuxava as mangas, abotoava-se, endireitava a gola, para encobrir equimoses, sinais vermelhos, cinzentos, negros.
Apesar de tudo, a escola era um refúgio. Canseiras, adulações à mulher e aos filhos do diretor, rendiam pelo menos alguma indiferença. E isto convinha.
Se o rapaz, findas as obrigações, se aquietasse, facilmente escaparia, anônimo e incolor. Não podia esconder-se. Precisava convívio, estava sempre ensaiando camaradagens que se malogravam.
Tipos de calças longas e buço tinham com ele um procedimento singular: enviavam-lhe bilhetes, acenavam-lhe, segredavam-lhe em gíria misteriosa. Esses escorregos não exprimiam dedicação. Evitavam-no em público, zangavam-se de chofre, perseguiam-no com ditos mordazes.
Ele suportava a ingratidão e os remoques, desvanecia-os depressa, ria mostrando os dentes amarelos, que me faziam pensar no gigante Adamastor. À minha entrada na escola, o sujeitinho me surgira, de cotovelos fincados nas pernas, gaguejando áspero e rouco:

Os olhos encovados e a postura
Medonha e má e a cor terrena e pálida.

A lembrança motivara a associação. Era realmente pálido e medonho. Os olhos tinham um brilho seco, fixavam-se na gente com impudência. Caretas deslocavam-lhe o queixo enorme, quadrado. A pele úmida e gordurosa roçava-nos — e isto era desagradável: usávamos cautela para fugir à umidade e à gordura, ao cheiro de formiga e mofo. Parecia não lavar-se, causava nojo.
Coitado. Que valiam, diante daquela desgraça, cocorotes e puxões de orelhas, logo esquecidos? A comparação revelou que me tratavam com benevolência. Infeliz.
Deixei-o no colégio, perdi-o de vista. E reencontrei-o modificado. Ao iniciar-se no crime, andaria talvez pelos quinze anos. Atirou num homem a traição, homiziou-se em casa do chefe político e foi absolvido pelo júri. Realizou depois numerosas façanhas; respeitaram-lhe a violência e a crueldade. Sapecou os preparatórios num liceu vagabundo. Na academia obteve aprovação ameaçando os examinadores.
Bacharelou-se, fundou um jornal. Como o velho diretor, seu carrasco, fechara o estabelecimento e curtia privações, deu-lhe um emprego mesquinho e vingou-se. Caprichou no vestuário: desapareceram as nódoas, a formiga, o mofo. E teve muitas mulheres. Foi em casa de uma que o assassinaram. Deitou-se na espreguiçadeira, adormeceu. Um inimigo, no escuro da noite, crivou-o de punhaladas.
Graciliano Ramos, in Infância

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