Daniel Louzada, livreiro da Da Vinci - Foto: Mauro Pimentel
Na
tarde de 18 de março de 2020, percebi que não havia alternativa
senão fechar a Leonardo da Vinci. As perspectivas sobre o avanço da
epidemia e o clima irreal vivido no país impunham a decisão
imediata para preservar todos que a frequentavam. Às 17h escrevi o
comunicado nas redes sociais e chorei. Às 19h, a livraria fechou as
portas sem previsão de retorno. Não foi a primeira vez em sua longa
história.
No
dia seguinte eu estava de volta à Da Vinci. Não existia a opção
de deixar de vender porque isso significaria o fim da livraria. Ainda
que com todas as dificuldades e risco soube que tudo dependia de mim
naquela manhã de quinta-feira. Uma pequena livraria como a Da Vinci
é um empreendimento solitário, vive da persistência do seu
livreiro, é produto dos seus triunfos e também de suas fraquezas e
incompletudes.
Os
meses seguintes foram cheios de tarefas, a maior parte do tempo
executadas sozinho. Buscar atender bem os clientes que mantinham a Da
Vinci de pé, dar conta de dezenas de atividades, do financeiro à
limpeza, das redes sociais ao fornecimento; pedidos por whatsapp,
renegociações, cartas de aviso da proteção ao crédito, o afeto
das mensagens recebidas de todo país, noites insones, o metrô
fantasmagórico, pacotes por fazer, uma pilha de boletos vencidos, a
quentinha, a venda 60% menor. De novo e de novo. Dias de luta
silenciosa entre o homem prático e o homem que se desespera.
Nesse
período, o site entrou no ar, a venda pela internet aumentou e ainda
que com grandes perdas foi possível manter algum faturamento para
pagar as contas básicas e dívidas que surgiam. Dever: o verbo do
tempo da mercadoria acelerada. Trabalhando no limite, percebi que
devia ao mundo dinheiro, respostas, atenção.
Passei
a sentir saudades de tudo. Nos momentos duros, precisei lutar contra
a nostalgia. A guarda estava baixa, senti falta das pessoas que
conheço e não conheço, do cheiro do café, das conversas, das
interrupções, da casa cheia e dos debates, do homem que invadia a
loja esbaforido oferecendo um unguento para os clientes, de vigiar o
ladrão eventual. Uma livraria sem pessoas é um lugar triste.
Livrarias não foram concebidas como bibliotecas, a contribuição
não ordeira do fluxo dos corpos em diálogo é seu fundamento.
Sentado
na poltrona do meio da loja com a luz apagada, foram muitas as vezes
em que olhei as prateleiras, cada lombada na penumbra, talvez
esperando uma revelação. Os livros nunca se moveram, nenhum
mensageiro do além apareceu. Durante muito tempo esperei algo
extraordinário acontecer na minha vida. Lembrei que quando eu
cumpria mal os rituais em um lugar onde quase ninguém lia e tentava
fingir ser outro em troca de um salário, um amigo me disse,
contrariando seu hábito de poucas palavras: daqui a quarenta anos,
te vejo numa livraria subterrânea, corcunda, atrás do balcão.
Tento lembrar da expressão dele no momento do vaticínio, perco o
fio da memória. Livre de divisórias, e balcões, hoje ele trabalha
na Faria Lima, parece que “mudando a vida das pessoas”. Ganhamos
a vida, sabendo que a perdemos.
À
solidão da livraria perdida no subsolo de um prédio antigo se
somava a solidão das ruas desoladas do centro da cidade. Ver a Rio
Branco dia após dia, sem vendedores ambulantes, livre do burburinho
e das histórias intuídas de seus passantes, olhar as janelas dos
edifícios e saber que não havia ninguém naquelas salas era como já
estar em outro mundo. Quatro ou cinco vezes ao sair da loja à noite,
na esquina da Almirante Barroso vi um rato, um rato que passeava
sempre de um mesmo bueiro a outro. Não pude deixar de pensar que
éramos sobreviventes de um lugar esquecido.
Vinte
e dois anos trabalhando com livros não me ensinaram tanto quanto o
que vivi nos últimos meses. É a vida real que define o nosso lugar
no mundo e não o que queremos parecer nos falsos espelhos que se
multiplicam. A desgraça nacional e também o excesso de conexão
renovaram minha consciência sobre a necessidade dos livros. Nunca
foi tão necessário ler. “O ruído não me permite existir”,
disse o personagem de O
silencieiro:
precisamos de menos coisas e mais substância, mais sentido e menos
rumor.
A
Da Vinci reabre em modo reduzido nesta segunda, 6 de julho de 2020,
109 dias depois de fechar; vive porque nunca esteve só. A morte e a
indecência compõem a paisagem brasileira, a racionalizada crueldade
econômica e seu desastre sanitário se somam a um vírus poderoso, o
antiintelectualismo. Saímos piores disso, é verdade. Livrarias, as
verdadeiras, servem para lembrar que não estamos condenados à
derrota, contudo. Não será dessa vez o fim da nossa estirpe sobre a
terra.
Daniel
Louzada,
in
leonardodavinci.com.br/blog, acesso aqui.

Nenhum comentário:
Postar um comentário