Mostrando postagens com marcador Albert Einstein. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Albert Einstein. Mostrar todas as postagens

25/06/2025

Capítulo 1 | A coisa mais preciosa




Toda nossa ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil...é no entanto a coisa mais preciosa que temos.
Albert Einstein (1879-1955)

Quando desembarquei do avião, ele me esperava com um pedaço de cartão no que estava escrito meu nome. Eu ia a uma conferência de cientistas e comentaristas de televisão dedicada a aparentemente impossível tarefa de melhorar a apresentação da ciência na televisão comercial. Amavelmente, os organizadores me tinham enviado um motorista.
Incomoda-lhe que lhe faça uma pergunta? — disse-me enquanto esperávamos a mala.
Não, não me incomodava.
Não é uma confusão ter o mesmo nome que aquele cientista?
Demorei um momento em compreendê-lo. Estava-me tirando sarro? Finalmente o entendi.
Eu sou aquele cientista — respondi. Calou um momento e em seguida sorriu.
Perdoe. Como esse é meu problema, pensei que também seria o seu.
Tendeu-me a mão.
Meu nome é William F. Buckley.
(Bom, não era exatamente William F. Buckley, mas levava o nome de um conhecido e polêmico entrevistador de televisão, o que sem dúvida havia lhe valido grande número de inofensivas brincadeiras.)
Enquanto nos instalávamos no carro para empreender o comprido percorrido, com os limpador de para-brisas funcionando ritmicamente, disse-me que se alegrava de que eu fora “aquele cientista” porque tinha muitas perguntas sobre ciência. Incomodava-me?
Não, não me incomodava.
E nos pusemos a falar. Mas não de ciência. Ele queria falar dos extraterrestres congelados que adoeciam em uma base das Forças Aéreas perto do San Antonio, de “canalização” (uma maneira de ouvir o que há na mente dos mortos... que não é muito, pelo visto), de cristais, das profecias do Nostradamus, de astrologia, do sudário do Turim... Apresentava cada um destes prodigiosos temas com um entusiasmo cheio de otimismo. Eu me via obrigado a lhe decepcionar cada vez.
A prova é insustentável — lhe repetia uma e outra vez —. Há uma explicação muito mais simples.
Em certo modo era um homem bastante lido. Conhecia os distintos matizes especulativos, por exemplo, sobre os “continentes fundos” da Atlântida e Lemúria. Sabia-se muito bem quais eram as expedições submarinas previstas para encontrar as colunas quedas e os minaretes quebrados de uma civilização antigamente grande cujos restos agora só eram visitados por peixes luminescentes de alto mar e gigantescos monstros marinhos. Só que... Embora o oceano guarde muitos segredos, eu sabia que não há a mais mínima base oceanográfica ou geofísica para deduzir a existência da Atlântida e Lemúria. Por isso sabe a ciência até este momento, não existiram jamais. A estas alturas, o disse a contra gosto.
Enquanto viajávamos sob a chuva me dava conta de que o homem estava cada vez mais taciturno. Com o que eu lhe dizia não só descartava uma doutrina falsa, mas também eliminava uma faceta preciosa de sua vida interior.
E, entretanto, há tantas coisas na ciência real, igualmente excitantes e mais misteriosas, que apresentam um desafio intelectual maior... além de estar muito mais perto da verdade. Sabia algo das moléculas da vida que se encontram no frio e tênue gás entre as estrelas? Tinha ouvido falar dos rastros de nossos antepassados encontrados em cinza vulcânica de quatro milhões de anos de antiguidade? E da elevação do Himalaia quando a Índia se chocou com a Ásia? Ou de como os vírus, construídos como seringas hipodérmicas, deslizam seu DNA além das defesas do organismo do anfitrião e subvertem a maquinaria reprodutora das células; ou da busca por rádio de inteligência extraterrestre; ou da recém descoberta civilização da Ebla, que anunciava as virtudes da cerveja da Ebla? Não, não tinha ouvido nada de todo aquilo. Tampouco sabia nada, nem sequer vagamente, da indeterminação quântica, e só reconhecia o DNA como três letras maiúsculas que apareciam juntas com frequência.
O senhor “Buckley” —que sabia falar, era inteligente e curioso— não tinha ouvido virtualmente nada de ciência moderna. Tinha um interesse natural nas maravilhas do universo. Queria saber de ciência, mas toda a ciência tinha sido expurgada antes de chegar a ele. A este homem tinha falhado nossos recursos culturais, nosso sistema educativo, nossos meios de comunicação. O que a sociedade permitia que se filtrasse eram principalmente aparências e confusão. Nunca lhe tinham ensinado a distinguir a ciência real da áspera imitação. Não sabia nada do funcionamento da ciência.
Há centenas de livros sobre a Atlântida, o continente mítico que conforme dizem existiu faz uns dez mil anos no oceano Atlântico. (Ou em outra parte. Um livro recente o localiza na Antártida.). A história vem de Platão, que o citou como um rumor que lhe chegou de épocas remotas. Há livros recentes que descrevem com autoridade o alto nível tecnológico, moral e espiritual da Atlântida e a grande tragédia de um continente povoado que afundou inteiro sob as ondas. Há uma Atlântida da “Nova Era”, “a civilização legendária de ciências avançadas”, dedicada principalmente à “ciência” dos cristais. Em uma trilogia titulada A ilustração do cristal, da Katrina Raphaell — uns livros que tiveram um papel principal na loucura do cristal na América do Norte—, os cristais da Atlântida leem a mente, transmitem pensamentos, são depositários da história antiga e modelo e fonte das pirâmides do Egito. Não se oferece nada parecido a uma prova que fundamente essas afirmações. (Poderia ressurgir a mania do cristal depois do recente descobrimento da ciência sismológica de que o núcleo interno da Terra pode estar composto por um cristal único, imenso, quase perfeito... de ferro.).
Alguns livros — Lendas da Terra, do Dorothy Vitaliano, por exemplo — interpretam compreensivamente as lendas originais da Atlântida em términos de uma pequena ilha no Mediterrâneo que foi destruída por uma erupção vulcânica, ou uma antiga cidade que se deslizou dentro do golfo de Corinto depois de um terremoto. Por isso sabemos, essa pode ser a fonte da lenda, mas daí à destruição de um continente no que tinha surto uma civilização técnica e mística sobrenaturalmente avançada há uma grande distancia.
O que quase nunca encontramos — em bibliotecas públicas, bancas de revistas ou programas de televisão em horas ponta — é a prova da extensão do chão marinho e a tectônica de placas e do traçado do fundo do oceano, que amostra de modo inconfundível que não pôde haver nenhum continente entre a Europa e América em uma escala de tempo parecida com a proposta.
É muito fácil encontrar relatos espúrios que fazem cair ao crédulo na armadilha. Muito mais difícil é encontrar tratamentos céticos. O ceticismo não vende. É cem mil vezes mais provável que uma pessoa brilhante e curiosa que confie inteiramente na cultura popular para informar-se de algo como a Atlântida se encontre com uma fábula tratada sem sentido crítico que com uma valoração sóbria e equilibrada.
Possivelmente o senhor “Buckley” deveria aprender a ser mais cético com o que lhe oferece a cultura popular. Mas, além disso, é difícil lhe jogar a culpa. Ele se limitava a aceitar o que a maioria das fontes de informação disponíveis e acessíveis diziam que era a verdade. Por sua ingenuidade, via-se confundido e enganado sistematicamente.
A ciência origina uma grande sensação de prodígio. Mas a pseudociência também. As popularizações dispersas e deficientes da ciência deixam uns nichos ecológicos que a pseudociência se apressa a encher. Se chegasse a entender amplamente que qualquer afirmação de conhecimento exige provas pertinentes para ser aceita, não haveria lugar para a pseudociência. Mas, na cultura popular, prevalece uma espécie de lei de Gresham segundo a qual a má ciência produz bons resultados.
Em todo mundo há uma enorme quantidade de pessoas inteligentes, inclusive com um talento especial, que se apaixonam pela ciência. Mas não é uma paixão correspondida. Os estudos sugerem que noventa e cinco por cento dos americanos são “analfabetos cientistas”. É exatamente a mesma fração de afro-americano analfabetos, quase todos os escravos, justo antes da guerra civil, quando se aplicavam severos castigos a quem ensinasse a ler a um escravo. Certamente, nas cifras sobre analfabetismo há sempre certo grau de arbitrariedade, tanto se aplica à linguagem como à ciência. Mas um noventa e cinco por cento de analfabetismo é extremamente grave.
Todas as gerações se preocupam com a decadência dos níveis educativos. Um dos textos mais antigos da história humana, datado na Suméria faz uns quatro mil anos, lamenta o desastre de que os jovens sejam mais ignorantes que a geração imediatamente precedente. Faz dois mil e quatrocentos anos, o ancião e mal-humorado Platão, no livro VII das leis, deu sua definição de analfabetismo científico:
O homem que não pudesse discernir o um nem o dois nem o três nem em geral os pares e os ímpares, ou o que não soubesse nada de contar, ou quem não fora capaz de medir o dia e a noite ou carecesse de experiência a respeito das revoluções da Lua ou do Sol ou de outros astros... O que terá que dizer que é mister que aprendam os homens livres em cada matéria é todo aquilo que aprende no Egito junto com as letras a inumerável grei dos meninos. Em primeiro lugar, por isso touca ao cálculo, inventaram-se uns singelos procedimentos para que os meninos aprendam jogando e a gosto... Eu... quando em tempos me inteirei tardiamente do que nos ocorre em relação com isso, fiquei muito impressionado, e então me pareceu que aquilo não era coisa humana, a não ser própria, mas bem de bestas porcinas, e senti vergonha não só por mim mesmo, mas também em nome dos helenos todos.
Não sei até que ponto a ignorada da ciência e as matemáticas contribuiu ao declive da antiga Atenas, mas sei que as consequências do analfabetismo científico são muito mais perigosas em nossa época que em qualquer outra anterior. É perigoso e temerário que o cidadão médio mantenha sua ignorância sobre o aquecimento global, a redução do ozônio, a contaminação do ar, os resíduos tóxicos e radiativos, a chuva ácida, a erosão do chão, o desmatamento tropical, o crescimento exponencial da população. Os trabalhos e salários dependem da ciência e a tecnologia. Se nossa nação não pode fabricar, a sob preço e alta qualidade, os produtos que a gente quer comprar, as indústrias seguirão deslocando-se para transferir um pouco mais de prosperidade a outras partes do mundo. Considerem-nas ramificações sociais da energia gerada pela fissão e fusão nucleares, as supercomputadores, as “autoestradas” de dados, o aborto, o radônio, as reduções maciças de armas estratégicas, o vício, a intromissão do governo na vida de seus cidadãos, a televisão de alta resolução, a segurança em linhas aéreas e aeroportos, os transplantes de malha fetal, os custos da sanidade, os aditivos de mantimentos, os medicamentos para tratar as manias, a depressão ou esquizofrenia, os direitos dos animais, a supercondutividade, as pílulas do dia seguinte, as predisposições antissociais supostamente hereditárias, as estações espaciais, a viagem a Marte, o achado de remédios para a AIDS e o câncer...
Como podemos incidir na política nacional — ou inclusive tomar decisões inteligentes em nossas próprias vidas — se não podermos captar os temas subjacentes? No momento de escrever estas páginas, o Congresso está tratando a dissolução de seu departamento de valoração tecnológica, a única organização com a tarefa específica de assessorar à Casa Branca e ao Senado sobre ciência e tecnologia. Sua competência e integridade ao longo dos anos foram exemplares. Dos quinhentos e trinta e cinco membros do Congresso dos Estados Unidos, por estranho que pareça com finais do século XX, só um por cento tem uns antecedentes científicos significativos. O último presidente com preparação científica deveu ser Thomas Jefferson.
Como decidem esses assuntos os americanos? Como instruem a seus representantes? Quem toma em realidade estas decisões, e sobre que base?
[…]

Carl Sagan, em O mundo assombrado pelos demônios: A ciência vista como uma vela acesa no escuro

25/09/2022

A Sigmund Freud

Muito caro Senhor Freud,

Sempre admirei sua paixão para descobrir a verdade. Ela o arrebata acima de tudo. O senhor explica com irresistível clareza o quanto na alma humana os instintos de luta e de aniquilamento estão estreitamente relacionados com os instintos do amor e da afirmação da vida. Ao mesmo tempo, suas exposições rigorosas revelam o desejo profundo e o nobre ideal do homem que quer se libertar completamente da guerra. Por esta profunda paixão se reconhecem todos aqueles que, superando seu tempo e sua nação, foram julgados mestres, espirituais ou morais. Descobrimos o mesmo ideal em Jesus Cristo, em Goethe ou em Kant! Não é bastante significativo ver que estes homens foram reconhecidos universalmente como mestres apesar de terem fracassado em sua vontade de estruturar as relações humanas? Estou persuadido de que os homens excepcionais que ocupam a posição de mestres graças a seus trabalhos (mesmo em círculo bem restrito) participam deste mesmo nobre ideal. Não têm grande influência sobre o mundo político. Em compensação, a sorte das nações depende, ao que parece, inevitavelmente de homens políticos, sem nenhum escrúpulo e sem qualquer senso de responsabilidade.
Tais chefes e governos políticos obtêm seu cargo seja pela violência seja por eleições populares. Não podem se apresentar como representantes da parte intelectual e moralmente superior das nações. Quanto à elite intelectual, não exerce influência alguma sobre o destino dos povos. Dispersa demais, não pode nem trabalhar, nem colaborar quando se trata de resolver um problema urgente. Sendo assim, não pensa o senhor que uma associação livre de personalidades — garantindo suas capacidades e a sinceridade da vontade por suas ações e criações anteriores — não poderia propor realmente um programa novo? Uma comunidade de estrutura internacional, na qual os membros se obrigariam a ficar em contato por permanente intercâmbio de suas opiniões, poderia tomar posição na imprensa, mas sempre sob a responsabilidade estrita dos signatários, e exercer influência significativa e moralmente sadia na resolução de um problema político. Evidentemente, tal comunidade se veria a braços com os mesmos inconvenientes que, nas academias de ciência, provocam tantas vezes pesados malogros. São os riscos inerentes, indissoluvelmente ligados à fraqueza da natureza humana. Apesar do que, não seria preciso tentar uma associação deste gênero? Para mim, julgo-a um dever imperioso.
Se se chegasse a concretizar semelhante associação intelectual, ela teria de procurar educar sistematicamente as organizações religiosas no sentido de se baterem contra a guerra. Daria força moral a muitas personalidades cuja boa vontade se vê esterilizada por penosa resignação. Creio enfim que uma associação com tais membros, inspirando imenso respeito bem justificado por suas obras intelectuais, daria precioso apoio moral às forças da Sociedade das Nações que realmente consagram suas atividades ao nobre ideal dessa instituição. Submeto-lhe estas ideias, ao senhor mais do que a qualquer outro, porque o senhor é menos vulnerável do que qualquer um às quimeras e seu espírito crítico se baseia em um sentimento muito profundo da responsabilidade.

Albert Einstein, in Como Vejo o Mundo

10/09/2022

Métodos modernos de inquisição

O problema que os intelectuais desse país têm de enfrentar parece muito grave. Os políticos reacionários, agitando o espectro de um perigo externo, conseguiram sensibilizar a opinião pública contra todas as atividades dos intelectuais. Graças a este primeiro sucesso, tentam agora proibir a liberdade do ensino e expulsar de seu posto os recalcitrantes. Isto se chama aniquilar alguém pela fome.
Que deve fazer a minoria intelectual contra este mal? Só vejo uma única saída possível: a revolucionária, da desobediência, a da recusa a colaborar, a de Gandhi. Cada intelectual, citado diante de uma comissão, deveria negar-se a responder. O que equivaleria a estar pronto a deixar-se prender, a deixar-se arruinar financeiramente, em resumo, a sacrificar seus interesses pessoais pelos interesses culturais do país.
A recusa não deveria fundar-se sobre o artifício bem conhecido de objeção de consciência. Mas um cidadão irrepreensível não aceita submeter-se a uma tal inquisição, em total infração do espírito da constituição. E se alguns intelectuais se manifestarem, bastante corajosos para escolher este caminho heroico, eles triunfarão. A não ser assim, os intelectuais deste país não merecem coisa melhor do que a escravidão que lhes está prometida. EDUCAÇÃO EM VISTA DE UM PENSAMENTO LIVRE Não basta ensinar ao homem uma especialidade. Porque se tornará assim uma máquina utilizável, mas não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto. A não ser assim, ele se assemelhará, com seus conhecimentos profissionais, mais a um cão ensinado do que a uma criatura harmoniosamente desenvolvida. Deve aprender a compreender as motivações dos homens, suas quimeras e suas angústias para determinar com exatidão seu lugar exato em relação a seus próximos e à comunidade. Estas reflexões essenciais, comunicadas à jovem geração graças aos contatos vivos com os professores, de forma alguma se encontram escritas nos manuais. É assim que se expressa e se forma de início toda a cultura. Quando aconselho com ardor “As Humanidades”, quero recomendar esta cultura viva, e não um saber fossilizado, sobretudo em história e filosofia. Os excessos do sistema de competição e de especialização prematura, sob o falacioso pretexto de eficácia, assassinam o espírito, impossibilitam qualquer vida cultural e chegam a suprimir os progressos nas ciências do futuro. É preciso, enfim, tendo em vista a realização de uma educação perfeita, desenvolver o espírito crítico na inteligência do jovem. Ora, a sobrecarga do espírito pelo sistema de notas entrava e necessariamente transforma a pesquisa em superficialidade e falta de cultura. O ensino deveria ser assim: quem o receba o recolha como um dom inestimável, mas nunca como uma obrigação penosa.

Albert Einstein, in Como Vejo o Mundo

16/08/2022

Fascismo e Ciência

Carta ao ministro Rocco, em Roma

Senhor e mui digno colega,

Dois homens, dos mais notáveis e mais afamados dentre os cientistas italianos, dirigem-se a mim em sua angústia moral e rogam-me que vos escreva a fim de evitar a cruel iniquidade que ameaça os sábios da Itália. De fato, deveriam prestar um juramento em que se exalta a fidelidade ao sistema fascista. Eu vos peço, portanto, que aconselheis o Senhor Mussolini no sentido de que se evite esta humilhação para a nata da inteligência italiana. Apesar das diferenças de nossas convicções políticas, um ponto fundamental, eu sei, nos reúne: ambos conhecemos e amamos, nas obras-primas do desenvolvimento intelectual europeu, os valores supremos. Eles exigem liberdade de opinião e liberdade de ensino porque a luta pela verdade deve ter precedência sobre todas as outras lutas. Sobre este fundamento essencial, nossa civilização pôde nascer na Grécia e celebrar sua ressurreição no tempo da Renascença na Itália. É um Bem supremo, pago pelo sangue dos mártires, estes homens íntegros e generosos. A Itália hoje é amada e honrada, graças a eles.
Não é minha intenção discutir convosco os danos causados à liberdade humana e as possibilidades de justificação pela razão de Estado. Mas o combate pela verdade científica, afastado dos problemas concretos da vida cotidiana, deveria ser considerado intocável pelo poder político. Não será de bom aviso deixar que os servidores sinceros da verdade vivam em paz o tempo necessário? Não será também este o interesse do Estado italiano e de sua reputação no mundo?”

Albert Einstein, in Como Vejo o Mundo

20/07/2022

A religiosidade da pesquisa

O espírito científico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. Ela se distingue da crença das multidões ingênuas que consideram Deus um Ser de quem esperam benignidade e do qual temem o castigo — uma espécie de sentimento exaltado da mesma natureza que os laços do filho com o pai —, um ser com quem também estabelecem relações pessoais, por respeitosas que sejam. Mas o sábio, bem convencido da lei de causalidade de qualquer acontecimento, decifra o futuro e o passado submetidos às mesmas regras de necessidade e determinismo. A moral não lhe suscita problemas com os deuses, mas simplesmente com os homens. Sua religiosidade consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza, revelando uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu engenho não podem desvendar, diante dela, a não ser seu nada irrisório. Este sentimento desenvolve a regra dominante de sua vida, de sua coragem, na medida em que supera a servidão dos desejos egoístas. Indubitavelmente, este sentimento se compara àquele que animou os espíritos criadores religiosos em todos os tempos.

Albert Einstein, in Como Vejo o Mundo

16/07/2022

Religião e ciência

Todas as ações e todas as imaginações humanas têm em vista satisfazer as necessidades dos homens e trazer lenitivo a suas dores. Recusar esta evidência é não compreender a vida do espírito e seu progresso. Porque experimentar e desejar constituem os impulsos primários do ser, antes mesmo de considerar a majestosa criação desejada. Sendo assim, que sentimentos e condicionamentos levaram os homens a pensamentos religiosos e os incitaram a crer, no sentido mais forte da palavra? Descubro logo que as raízes da ideia e da experiência religiosa se revelam múltiplas. No primitivo, por exemplo, o temor suscita representações religiosas para atenuar a angústia da fome, o medo das feras, das doenças e da morte. Neste momento da história da vida, a compreensão das relações causais mostra-se limitada e o espírito humano tem de inventar seres mais ou menos à sua imagem. Transfere para a vontade e o poder deles as experiências dolorosas e trágicas de seu destino. Acredita mesmo poder obter sentimentos propícios desses seres pela realização de ritos ou de sacrifícios. Porque a memória das gerações passadas lhe faz crer no poder propiciatório do rito para alcançar as boas graças de seres que ele próprio criou. A religião é vivida antes de tudo como angústia. Não é inventada, mas essencialmente estruturada pela casta sacerdotal, que institui o papel de intermediário entre seres temíveis e o povo, fundando assim sua hegemonia. Com frequência o chefe, o monarca ou uma classe privilegiada, de acordo com os elementos de seu poder e para salvaguardar a soberania temporal, se arrogam as funções sacerdotais. Ou então, entre a casta política dominante e a casta sacerdotal se estabelece uma comunidade de interesses.
Os sentimentos sociais constituem a segunda causa dos. fantasmas religiosos. Porque o pai, a mãe ou o chefe de imensos grupos humanos, todos enfim, são falíveis e mortais. Então a paixão do poder, do amor e da forma impele a imaginar um conceito moral ou social de Deus. Deus-Providência, ele preside ao destino, socorre, recompensa e castiga. Segundo a imaginação humana, esse Deus-Providência ama e favorece a tribo, a humanidade, a vida, consola na adversidade e no malogro, protege a alma dos mortos. É este o sentido da religião vivida de acordo com o conceito social ou moral de Deus. Nas Sagradas Escrituras do povo judeu manifesta-se claramente a passagem de uma religião-angústia para uma religião-moral. As religiões de todos os povos civilizados, particularmente dos povos orientais, se manifestam basicamente morais. O progresso de um grau ao outro constitui a vida dos povos. Por isto desconfiamos do preconceito que define as religiões primitivas como religiões de angústia e as religiões dos povos civilizados como morais. Todas as simbioses existem mas a religião-moral predomina onde a vida social atinge um nível superior. Estes dois tipos de religião traduzem uma ideia de Deus pela imaginação do homem. Somente indivíduos particularmente ricos, comunidades particularmente sublimes se esforçam por ultrapassar esta experiência religiosa. Todos, no entanto, podem atingir a religião em um último grau, raramente acessível em sua pureza total. Dou a isto o nome de religiosidade cósmica e não posso falar dela com facilidade já que se trata de uma noção muito nova, à qual não corresponde conceito algum de um Deus antropomórfico. O ser experimenta o nada das aspirações e vontades humanas, descobre a ordem e a perfeição onde o mundo da natureza corresponde ao mundo do pensamento. A existência individual é vivida então como uma espécie de prisão e o ser deseja provar a totalidade do Ente como um todo perfeitamente inteligível. Notam-se exemplos desta religião cósmica nos primeiros momentos da evolução em alguns salmos de Davi ou em alguns profetas. Em grau infinitamente mais elevado, o budismo organiza os dados do cosmos, que os maravilhosos textos de Schopenhauer nos ensinaram a decifrar. Ora, os gênios-religiosos de todos os tempos se distinguiram por esta religiosidade ante o cosmos. Ela não tem dogmas nem Deus concebido à imagem do homem, portanto nenhuma Igreja ensina a religião cósmica. Temos também a impressão de que os hereges de todos os tempos da história humana se nutriam com esta forma superior de religião. Contudo, seus contemporâneos muitas vezes os tinham por suspeitos de ateísmo, e às vezes, também, de santidade. Considerados deste ponto de vista, homens como Demócrito, Francisco de Assis, Spinoza se assemelham profundamente.
Como poderá comunicar-se de homem a homem esta religiosidade, uma vez que não pode chegar a nenhum conceito determinado de Deus, a nenhuma teologia? Para mim, o papel mais importante da arte e da ciência consiste em despertar e manter desperto o sentimento dela naqueles que lhe estão abertos. Estamos começando a conceber a relação entre a ciência e a religião de um modo totalmente diferente da concepção clássica. A interpretação histórica considera adversários irreconciliáveis ciência e religião, por uma razão fácil de ser percebida. Aquele que está convencido de que a lei causal rege todo acontecimento não pode absolutamente encarar a ideia de um ser a intervir no processo cósmico, que lhe permita refletir seriamente sobre a hipótese da causalidade. Não pode encontrar um lugar para um Deus-angústia, nem mesmo para uma religião social ou moral: de modo algum pode conceber um Deus que recompensa e castiga, já que o homem age segundo leis rigorosas internas e externas, que lhe proíbem rejeitar a responsabilidade sobre a hipótese-Deus, do mesmo modo que um objeto inanimado é irresponsável por seus movimentos. Por este motivo, a ciência foi acusada de prejudicar a moral. Coisa absolutamente injustificável. E como o comportamento moral do homem se fundamenta eficazmente sobre a simpatia ou os compromissos sociais, de modo algum implica uma base religiosa. A condição dos homens seria lastimável se tivessem de ser domados pelo medo do castigo ou pela esperança de uma recompensa depois da morte.
É portanto compreensível que as Igrejas tenham, em todos os tempos, combatido a Ciência e perseguido seus adeptos. Mas eu afirmo com todo o vigor que a religião cósmica é o móvel mais poderoso e mais generoso da pesquisa científica. Somente aquele que pode avaliar os gigantescos esforços e, antes de tudo, a paixão sem os quais as criações intelectuais científicas inovadoras não existiriam, pode pesar a força do sentimento, único a criar um trabalho totalmente desligado da vida prática. Que confiança profunda na inteligibilidade da arquitetura do mundo e que vontade de compreender, nem que seja uma parcela minúscula da inteligência a se desvendar no mundo, devia animar Kepler e Newton para que tenham podido explicar os mecanismos da mecânica celeste, por um trabalho solitário de muitos anos. Aquele que só conhece a pesquisa científica por seus efeitos práticos vê depressa demais e incompletamente a mentalidade de homens que, rodeados de contemporâneos céticos, indicaram caminhos aos indivíduos que pensavam como eles. Ora, eles estão dispersos no tempo e no espaço. Aquele que devotou sua vida a idênticas finalidades é o único a possuir uma imaginação compreensiva destes homens, daquilo que os anima, lhes insufla a força de conservar seu ideal, apesar de inúmeros malogros. A religiosidade cósmica prodigaliza tais forças. Um contemporâneo declarava, não sem razão, que em nossa época, instalada no materialismo, reconhece-se nos sábios escrupulosamente honestos os únicos espíritos profundamente religiosos.

Albert Einstein, in Como Vejo o Mundo

12/07/2022

O bem e o mal

Em teoria, creio dever testemunhar o mais vivo interesse por alguns seres por terem melhorado o homem e a vida humana. Mas interrogo-me sobre a natureza exata de tais seres e vacilo. Quando analiso mais atentamente os mestres da política e da religião, começo a duvidar intensamente do sentido profundo de sua atividade. Será o bem? Será o mal? Em compensação, não sinto a menor hesitação diante de alguns espíritos que só procuram atos nobres e sublimes. Por isto apaixonam os homens e os exaltam, sem mesmo o perceberem. Descubro esta lei prática nos grandes artistas e depois nos grandes sábios. Os resultados da pesquisa não exaltam nem apaixonam. Mas o esforço tenaz para compreender e o trabalho intelectual para receber e para traduzir transformam o homem.
Quem ousaria avaliar o Talmude em termos de quociente intelectual?

Albert Einstein, in Como Vejo o Mundo

06/06/2022

Estado diante da causa individual

Faço a mim mesmo uma antiquíssima pergunta. Como proceder quando o Estado exige de mim um ato inadmissível e quando a sociedade espera que eu assuma atitudes que minha consciência rejeita? É clara minha resposta. Sou totalmente dependente da sociedade em que vivo. Portanto terei de submeter-me a suas prescrições. E nunca sou responsável por atos que executo sob uma imposição irreprimível. Bela resposta! Observo que este pensamento desmente com violência o sentimento inato de justiça. Evidentemente, o constrangimento pode atenuar em parte a responsabilidade. Mas não a suprime nunca. E por ocasião do processo de Nuremberg, esta moral era sentida sem precisar de provas.
Ora, nossas instituições, nossas leis, costumes, todos os nossos valores se baseiam em sentimentos inatos de justiça. Existem e se manifestam em todos os homens. Mas as organizações humanas, caso não se apoiem e se equilibrem sobre a responsabilidade das comunidades, são impotentes. Devo despertar e sustentar este sentimento de responsabilidade moral; é um dever em face da sociedade.
Hoje os cientistas e os técnicos estão investidos de uma responsabilidade moral particularmente pesada, porque o progresso das armas de extermínio maciço está entregue à sua competência. Por isto julgo indispensável a criação de uma “sociedade para a responsabilidade social na Ciência”. Esclareceria os problemas por discuti-los e o homem aprenderia a forjar para si um juízo independente sobre as opções que se lhe apresentarem. Ofereceria também um auxílio àqueles que têm uma necessidade imperiosa do mesmo. Porque os cientistas, uma vez que seguem a via de sua consciência, estão arriscados a conhecer cruéis momentos.

Albert Einstein, in Como Vejo o Mundo

01/06/2022

Tem um sentido a minha vida? A vida de um homem tem sentido? Posso responder a tais perguntas se tenho espírito religioso. Mas, “fazer tais perguntas tem sentido?” Respondo: “Aquele que considera sua vida e a dos outros sem qualquer sentido é fundamentalmente infeliz, pois não tem motivo algum para viver”.

Albert Einstein, in Como Vejo o Mundo

24/05/2022

Para quê as riquezas?

Todas as riquezas do mundo, ainda mesmo nas mãos de um homem inteiramente devotado à ideia do progresso, jamais trarão o menor desenvolvimento moral para a humanidade. Somente seres humanos excepcionais e irrepreensíveis suscitam ideias generosas e ações elevadas. Mas o dinheiro polui tudo e degrada sem piedade a pessoa humana. Não posso comparar a generosidade de um Moisés, de um Jesus ou de um Gandhi com a generosidade de uma Fundação Carnegie qualquer.

Albert Einstein, in Como Vejo o Mundo

15/05/2022

Comunidade e personalidade

Ao refletir sobre minha existência e minha vida social, vejo claramente minha estrita dependência intelectual e prática. Dependo integralmente da existência e da vida dos outros. E descubro ser minha natureza semelhante em todos os pontos à natureza do animal que vive em grupo. Como um alimento produzido pelo homem, visto uma roupa fabricada pelo homem, habito uma casa construída por ele. O que sei e o que penso, eu o devo ao homem. E para comunicá-los utilizo a linguagem criada pelo homem. Mas quem sou eu realmente, se minha faculdade de pensar ignora a linguagem? Sou, sem dúvida, um animal superior, mas sem a palavra a condição humana é digna de lástima.
Portanto reconheço minha vantagem sobre o animal nesta vida de comunidade humana. E se um indivíduo fosse abandonado desde o nascimento, seria irremediavelmente um animal em seu corpo e em seus reflexos. Posso concebê-lo, mas não posso imaginá-lo. Eu, enquanto homem, não existo somente como criatura individual, mas me descubro membro de uma grande comunidade humana. Ela me dirige, corpo e alma, desde o nascimento até a morte.
Meu valor consiste em reconhecê-lo. Sou realmente um homem quando meus sentimentos, pensamentos e atos têm uma única finalidade: a comunidade e seu progresso. Minha atitude social portanto determinará o juízo que têm sobre mim, bom ou mau. Contudo, esta afirmação primordial não basta. Tenho de reconhecer nos dons materiais, intelectuais e morais da sociedade o papel excepcional, perpetuado por inúmeras gerações, de alguns homens criadores de gênio. Sim, um dia, um homem utiliza o fogo pela primeira vez; sim, um dia ele cultiva plantas alimentícias; sim, ele inventa a máquina a vapor. O homem solitário pensa sozinho e cria novos valores para a comunidade. Inventa assim novas regras morais e modifica a vida social. A personalidade criadora deve pensar e julgar por si mesma, porque o progresso moral da sociedade depende exclusivamente de sua independência. A não ser assim, a sociedade estará inexoravelmente votada ao malogro, e o ser humano privado da possibilidade de comunicar.
Defino uma sociedade sadia por este laço duplo. Somente existe por seres independentes, mas profundamente unidos ao grupo. Assim, quando analisamos as civilizações antigas e descobrimos o desabrochar da cultura europeia no momento do Renascimento italiano, reconhecemos estar a Idade Média morta e ultrapassada, porque os escravos se libertam e os grandes espíritos conseguem existir.
Hoje, que direi da época, do estado, da sociedade e da pessoa humana? Nosso planeta chegou a uma população prodigiosamente aumentada se a comparamos às cifras do passado. Por exemplo, a Europa encerra três vezes mais habitantes do que há um século. Mas o número de personalidades criadoras diminuiu. E a comunidade não descobre mais esses seres de que tem necessidade essencial. A organização mecânica substituiu-se parcialmente ao homem inovador. Esta transformação se opera evidentemente no mundo tecnológico, mas já em proporção inquietadora também no mundo científico.
A falta de pessoas de gênio nota-se tragicamente no mundo estético. Pintura e música degeneram e os homens são menos sensíveis. Os chefes políticos não existem e os cidadãos fazem pouco caso de sua independência intelectual e da necessidade de um direito moral. As organizações comunitárias democráticas e parlamentares, privadas dos fundamentos de valor, estão decadentes em numerosos países. Então aparecem as ditaduras. São toleradas porque o respeito da pessoa e o senso social estão agonizantes ou já mortos. Pouco importa em que lugar, em quinze dias, uma campanha da imprensa pode instigar uma população incapaz de julgamento a um tal grau de loucura, que os homens se prontificam a vestir a farda de soldado para matar e se deixarem matar. E seres maus realizam assim suas intenções desprezíveis. A dignidade da pessoa humana está irremediavelmente aviltada pela obrigação do serviço militar e nossa humanidade civilizada sofre hoje deste câncer. Por isso, os profetas, comentando este flagelo, não cessam de anunciar a queda iminente de nossa civilização. Não faço parte daqueles futurólogos do Apocalipse, porque creio em um futuro melhor e vou justificar minha esperança.
A atual decadência, através dos fulminantes progressos da economia e da técnica, revela a amplidão do combate dos homens por sua existência. A humanidade aí perdeu o desenvolvimento livre da pessoa humana. Mas este preço do progresso corresponde também a uma diminuição do trabalho. O homem satisfaz mais depressa as necessidades da comunidade. E a partilha científica do trabalho, ao se tornar obrigatória, dará a segurança ao indivíduo. Portanto, a comunidade vai renascer. Imagino os historiadores de amanhã interpretando nossa época. Diagnosticarão os sintomas de doença social como a prova dolorosa de um nascimento acelerado pelas bruscas mutações do progresso. Mas reconhecerão uma humanidade a caminho.

Albert Einstein, in Como vejo o mundo

09/05/2022

Como vejo o mundo

Minha condição humana me fascina. Conheço o limite de minha existência e ignoro por que estou nesta terra, mas às vezes o pressinto. Pela experiência cotidiana, concreta e intuitiva, eu me descubro vivo para alguns homens, porque o sorriso e a felicidade deles me condicionam inteiramente, mas ainda para outros que, por acaso, descobri terem emoções semelhantes às minhas. E cada dia, milhares de vezes, sinto minha vida — corpo e alma — integralmente tributária do trabalho dos vivos e dos mortos. Gostaria de dar tanto quanto recebo e não paro de receber. Mas depois experimento o sentimento satisfeito de minha solidão e quase demonstro má consciência ao exigir ainda alguma coisa de outrem. Vejo os homens se diferenciarem pelas classes sociais e sei que nada as justifica a não ser pela violência. Sonho ser acessível e desejável para todos uma vida simples e natural, de corpo e de espírito. Recuso-me a crer na liberdade e neste conceito filosófico. Eu não sou livre, e sim às vezes constrangido por pressões estranhas a mim, outras vezes por convicções íntimas. Ainda jovem, fiquei impressionado pela máxima de Schopenhauer: “O homem pode, é certo, fazer o que quer, mas não pode querer o que quer”; e hoje, diante do espetáculo aterrador das injustiças humanas, esta moral me tranquiliza e me educa. Aprendo a tolerar aquilo que me faz sofrer. Suporto então melhor meu sentimento de responsabilidade. Ele já não me esmaga e deixo de me levar, a mim ou aos outros, a sério demais. Vejo então o mundo com bom humor. Não posso me preocupar com o sentido ou a finalidade de minha existência, nem da dos outros, porque, do ponto de vista estritamente objetivo, é absurdo. E no entanto, como homem, alguns ideais dirigem minhas ações e orientam meus juízos. Porque jamais considerei o prazer e a felicidade como um fim em si e deixo este tipo de satisfação aos indivíduos reduzidos a instintos de grupo. Em compensação, foram ideais que suscitaram meus esforços e me permitiram viver. Chamam-se o bem, a beleza, a verdade. Se não me identifico com outras sensibilidades semelhantes à minha e se não me obstino incansavelmente em perseguir este ideal eternamente inacessível na arte e na ciência, a vida perde todo o sentido para mim. Ora, a humanidade se apaixona por finalidades irrisórias que têm por nome a riqueza, a glória, o luxo. Desde moço já as desprezava. Tenho forte amor pela justiça, pelo compromisso social. Mas com muita dificuldade me integro com os homens e em suas comunidades. Não lhes sinto a falta porque sou profundamente um solitário. Sinto-me realmente ligado ao Estado, à pátria, a meus amigos, a minha família no sentido completo do termo. Mas meu coração experimenta, diante desses laços, curioso sentimento de estranheza, de afastamento e a idade vem acentuando ainda mais essa distância. Conheço com lucidez e sem prevenção as fronteiras da comunicação e da harmonia entre mim e os outros homens. Com isso perdi algo da ingenuidade ou da inocência, mas ganhei minha independência. Já não mais firmo uma opinião, um hábito ou um julgamento sobre outra pessoa. Testei o homem. É inconsistente.
A virtude republicana corresponde a meu ideal político. Cada vida encarna a dignidade da pessoa humana, e nenhum destino poderá justificar uma exaltação qualquer de quem quer que seja. Ora, o acaso brinca comigo. Porque os homens me testemunham uma incrível e excessiva admiração e veneração. Não quero e não mereço nada. Imagino qual seja a causa profunda, mas quimérica, de seu sentimento. Querem compreender as poucas ideias que descobri. Mas a elas consagrei minha vida, uma vida inteira de esforço ininterrupto. Fazer, criar, inventar exigem uma unidade de concepção, de direção e de responsabilidade. Reconheço esta evidência. Os cidadãos executantes, porém, não deverão nunca ser obrigados e poderão escolher sempre seu chefe.
Ora, bem depressa e inexoravelmente, um sistema autocrático de domínio se instala e o ideal republicano degenera. A violência fascina os seres moralmente mais fracos. Um tirano vence por seu gênio, mas seu sucessor será sempre um rematado canalha. Por esta razão, luto sem tréguas e apaixonadamente contra os sistemas dessa natureza, contra a Itália fascista de hoje e contra a Rússia soviética de hoje. A atual democracia na Europa naufraga e culpamos por esse naufrágio o desaparecimento da ideologia republicana. Aí vejo duas causas terrivelmente graves. Os chefes de governo não encarnam a estabilidade e o modo da votação se revela impessoal. Ora, creio que os Estados Unidos da América encontraram a solução desse problema. Escolhem um presidente responsável eleito por quatro anos. Governa efetivamente e afirma de verdade seu compromisso. Em compensação, o sistema político europeu se preocupa mais com o cidadão, com o enfermo e o indigente. Nos mecanismos universais, o mecanismo Estado não se impõe como o mais indispensável. Mas é a pessoa humana, livre, criadora e sensível que modela o belo e exalta o sublime, ao passo que as massas continuam arrastadas por uma dança infernal de imbecilidade e de embrutecimento.
A pior das instituições gregárias se intitula exército. Eu o odeio. Se um homem puder sentir qualquer prazer em desfilar aos sons de música, eu desprezo este homem... Não merece um cérebro humano, já que a medula espinhal o satisfaz. Deveríamos fazer desaparecer o mais depressa possível este câncer da civilização. Detesto com todas as forças o heroísmo obrigatório, a violência gratuita e o nacionalismo débil. A guerra é a coisa mais desprezível que existe. Preferiria deixar-me assassinar a participar desta ignomínia. No entanto, creio profundamente na humanidade. Sei que este câncer de há muito deveria ter sido extirpado. Mas o bom senso dos homens é sistematicamente corrompido. E os culpados são: escola, imprensa, mundo dos negócios, mundo político. O mistério da vida me causa a mais forte emoção. É o sentimento que suscita a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência. Se alguém não conhece esta sensação ou não pode mais experimentar espanto ou surpresa, já é um morto-vivo e seus olhos se cegaram. Aureolada de temor, é a realidade secreta do mistério que constitui também a religião. Homens reconhecem então algo de impenetrável a suas inteligências, conhecem porém as manifestações desta ordem suprema e da Beleza inalterável. Homens se confessam limitados e seu espírito não pode apreender esta perfeição. E este conhecimento e esta confissão tomam o nome de religião. Deste modo, mas somente deste modo, soa profundamente religioso, bem como esses homens. Não posso imaginar um Deus a recompensar e a castigar o objeto de sua criação. Não posso fazer ideia de um ser que sobreviva à morte do corpo. Se semelhantes ideias germinam em um espírito, para mim é ele um fraco, medroso e estupidamente egoísta. Não me canso de contemplar o mistério da eternidade da vida. Tenho uma intuição da extraordinária construção do ser. Mesmo que o esforço para compreendê-lo fique sempre desproporcionado, vejo a Razão se manifestar na vida.

Albert Einstein, in Como vejo o mundo

09/04/2022

O que um peixe sabe sobre a água onde nada por toda a sua vida?

Conhecer-se é uma história de amor e descoberta que exige muita dedicação. Ao tomar consciência de nossas emoções, avaliamos as situações com mais objetividade e podemos decidir de forma mais inteligente. Tal como afirma a escritora e documentarista científica italiana Susanna Tamaro: “Nosso coração é como a Terra, que tem uma parte formada por luz e outra por sombras. Conhecê-lo a fundo é muito difícil e doloroso.”
Todos nós, em algum momento, exteriorizamos os problemas, jogando a culpa no outro em vez de aceitar os erros que cometemos. Mas, como disse o poeta, filósofo e historiador alemão Friedrich Schiller: “Se você quiser se conhecer, observe a conduta dos demais; se quiser conhecer os demais, olhe para o próprio coração.”
Para conhecer os outros, que são o nosso espelho, podemos recorrer à biblioterapia ou à cineterapia. Por meio das histórias em que nos vemos refletidos, entendemos nossas experiências sem precisar sofrê-las pessoalmente.
Como aponta Bronnie Ware em Os cinco maiores arrependimentos de quem está à beira da morte, antes de morrer as pessoas sempre dizem: “Gostaria de ter tido coragem de fazer o que realmente queria, e não o que os outros esperavam que eu fizesse.” Por isso, vale a pena deixar o medo de lado e explorar nosso coração, aprendendo sobre a água onde nadamos por toda a nossa vida.

Allan Percy, in Einstein para distraídos: Soluções atômicas para problemas relativamente graves

08/10/2021

Frau Dukas


Do lado de fora do gabinete de Albert, sua secretária e governanta residente, Frau Helen Dukas, estava esperando o relógio terminar de bater a hora. Não gosta do que acabou de ouvir Albert dizer ao telefone: “Você vai me ligar de novo?”
Você = outra admiradora que é pura perda de tempo.
Ela entra no gabinete, trazendo consigo o aroma de cânfora. Faz tempo que Albert pensa em lhe dizer: “A substância química orgânica C10H16O é desagradável.” Mas nunca reuniu coragem para fazer isso.
Frau Dukas abre as venezianas verdes da janela principal do gabinete com um floreio, fazendo um barulho que pretendia ser uma reprimenda. A janela dá para os salgueiros-chorões, bordos e olmos da rua arborizada do subúrbio residencial.
A luz do Sol faz os olhos de Albert lacrimejarem mais. Ele os esfrega com o dorso da mão e pisca.
Frau Dukas, austera, alta e magra, é originária do sudoeste da Alemanha, filha de um comerciante judeu alemão. Sua mãe era de Hechingen, a mesma cidade da segunda esposa de Albert. Como secretária e vigia dos portões do cientista há cerca de 25 anos, ela se dedica a proporcionar a ele uma vida tranquila.
Seu quarto na casa da rua Mercer fica ao lado do de Albert, do qual é separado por um banheiro. Há também um pequeno gabinete e um quarto reservados para quando a enteada dele, Margot, o visita. E um outro foi da irmã de Albert, Maja. Faz quatro anos que Maja morreu.
Com quem o senhor estava falando? — pergunta Frau Dukas.
Uma moça chamada Mimi Beaufort. Gostei da voz dela. Da velha e querida Boston. Terra do feijão e do bacalhau, onde os Lowell só falam com os Cabot e, pelo que supomos, com os Beaufort. Famílias que só falam com Deus. Você acha que consegue descobrir quem ela é?
Ela lhe telefona por engano e o senhor quer que eu descubra quem é?
Quero. Quem nunca cometeu um erro nunca experimentou nada de novo.
Se me permite dizer, o senhor não deveria perder seu tempo.
Helen, Kreativität ist das Resultat Verschwendeter Zeit. Criatividade é resultado do tempo perdido. Descubra quem é essa Mimi Beaufort. Procure o nome na lista telefônica de Greenwich, em Connecticut. E me traga uma xícara de chocolate quente, por favor.
Albert usa chinelos surrados de couro, sem meias. Sua camisa puída, aberta no pescoço, revela uma velha camiseta azul.
Frau Dukas ajeita um cobertor em volta dos pés dele.
Nunca vi tantos cartões de aniversário — admira-se.
O que há para comemorar? Aniversários são coisas automáticas. Enfim, aniversários são para crianças. — Mais uma vez, ele secou os olhos lacrimejantes, cujo brilho contrastava com as linhas e rugas da testa. — Estou com 75 anos. Nenhum de nós está ficando mais jovem.
Ele enche o cachimbo com fumo da lata do Revelation e o acende. Uma nuvem de fumaça se eleva em ondas.
Por favor, Helen, traga meu chocolate quente.
Tudo a seu tempo.
O que está segurando, Helen?
Frau Dukas lhe entrega uma fotografia de jornal mostrando a nuvem em forma de cogumelo da bomba atômica que destruiu Hiroshima em 6 de agosto de 1945.
Umas crianças de uma escola de Lincoln, no Nebraska, lhe pediram que assine isto. Está disposto a assinar para elas?
Envolto na nuvem de fumaça do cachimbo, Albert observa a imagem, consternado.
Se for preciso.
Vou buscar sua xícara de chocolate — diz Frau Dukas, como se prometesse uma recompensa.
Deixou-o sozinho para assinar a foto. A. Einstein, 14 de março de 1954.
Em seguida, ele pega uma folha de papel e escreve:

Cento e quarenta mil almas pereceram em Hiroshima. Cem mil pessoas foram terrivelmente feridas. Setenta e quatro mil pereceram em Nagasaki. Outras 75 mil sofreram lesões fatais, por queimaduras, ferimentos e radiação gama. Em Pearl Harbor... quantos morreram? Disseram-me que foram 2.500. O poeta britânico Donne nos diz: “A morte de qualquer homem me diminui, porque faço parte da humanidade; por isso, nunca procures saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.” O mundo ocidental está satisfeito, satisfeito. Eu, não. As coisas maravilhosas que vocês aprendem na escola são obra de muitas gerações, produzidas pelo esforço entusiástico e pelo trabalho infinito de todos os países do mundo. Tudo isso é posto nas mãos de vocês como sua herança, para que possam recebê-la, honrá-la, ampliá-la e, um dia, entregá-la fielmente a seus filhos. É assim que nós, mortais, alcançamos a imortalidade, nas coisas permanentes que criamos em comum.

Frau Dukas volta com o chocolate quente. Albert coloca mais fumo no cachimbo, enquanto faz um sinal com a mão para que ela se sente.
Uma carta, por favor, Helen... para Bertrand Russell. — Dita: — Concordo com seu esboço de proposição de que a perspectiva da raça humana é sombria, em um grau sem precedentes. A humanidade se encontra diante de uma alternativa clara: ou pereceremos todos ou teremos de adquirir nem que seja um pequeno grau de bom senso.
O relógio de pêndulo badala um quarto de hora.
Eis, portanto, o problema que lhe apresentamos — continua Albert —, claro, pavoroso e inescapável: daremos fim à raça humana ou deverá a humanidade renunciar à guerra? As pessoas vão se recusar a enfrentar essa alternativa porque é muito difícil abolir a guerra. Com minhas cordiais saudações, Albert Einstein.
Ele tira um dos chinelos velhos, remove uma pedrinha de granito do espaço entre dois dedos do pé e a deposita sobre a carta de Born.
Gostei da voz da moça. Pense na relatividade. Quando um homem se senta com uma moça bonita por uma hora, parece que foi um minuto. Mas ele que vá se sentar em um fogão quente por um minuto; isso lhe parecerá mais longo do que qualquer hora. Isso é relatividade. Mimi Beaufort. Beaufort é um sobrenome notável.
Por quê? — indaga Frau Dukas, em um tom que sugere não haver nada de notável nele.
Virando-se para as janelas a fim de ponderar sobre a luz do Sol que brincava de espalhar pontos luminosos sobre as árvores, Albert diz:
Significa a bela fortaleza.
A visão de um grupo de crianças negras brincando ao sol o faz sorrir.
O líder do grupo canta:
Mamãe está morando...
E o grupo canta:
Está morando onde?
Fazendo uma dança para balançar os quadris, eles cantam em uníssono:

Ora, ela mora num lugar chamado Tennessee.
Dê um pulo, Tenna, Tennessee.
Bem, nunca fui à faculdade,
Nunca fui à escola.
Mas, em matéria de boogie,
Sei dançar feito um doido.
É só ir pra frente, pra trás, prum lado e pro outro.
Pra frente, pra trás, prum lado e pro outro.

Albert se levanta com esforço e faz seu próprio boogie-woogie. Ainda de costas para Frau Dukas, diz:
Anote isto, por favor: “Restam preconceitos dos quais eu, como judeu, tenho clara consciência; mas eles não importam, se comparados à atitude dos brancos para com seus concidadãos de tez mais escura. Quanto mais me sinto norte-americano, mais essa situação me entristece. Só consigo fugir da sensação de cumplicidade com ela ao falar disso livremente.”
Para quem devo mandar? — pergunta Frau Dukas.
Para mim. Para mim, Helen. Um lembrete para mim mesmo. Agora... quero que trate o seguinte como estritamente confidencial. — Ele suspira fundo e continua: — Todos os meus relacionamentos pessoais foram um fracasso. Que homem não visitaria a própria enteada morrendo de câncer? Minha primeira esposa morreu sozinha em Zurique. Minha filha desapareceu. Não faço ideia de onde está. Nem sei se continua viva.
Por favor... não deixe que seu passado o destrua.
Meu filho... meu filho, você sabe, Helen... meu filho Eduard está em clínicas para esquizofrênicos há quase 25 anos. A terapia, o tratamento eletroconvulsivo, destruiu a memória e as aptidões cognitivas dele.
Mas não sua relação afetiva com ele.
Minha única relação afetiva é com o povo judeu. Este é o meu vínculo humano mais forte. Eu disse à rainha Isabel da Bélgica: “A estima exagerada que dedicam ao trabalho da minha vida deixa-me muito constrangido. Sinto-me obrigado a pensar em mim como um trapaceiro involuntário. Ich bin ein Betrüger [Eu sou uma fraude].” Preciso de ar puro, meu fígado está doendo.
Frau Dukas abre as janelas.
Lá fora, do rádio de um caquético sedan Buick de quatro portas, vem o som de Doris Day cantando “Secret Love”.
Albert faz um gesto de impaciência.
Vá verificar a lista telefônica, Helen.
Frau Dukas assim faz, e descobre que a residência da família Beaufort é o Beaufort Park, em Greenwich, no condado de Fairfield, Connecticut. Albert imagina como Mimi Beaufort é. Sua voz certamente guarda o eterno encanto da juventude. Ela vai se tornar uma nova amiga? Uma confidente, talvez. Um amor secreto para lhe acalmar a alma perturbada pela idade, pelas dores e mal-estares e por seus maus pressentimentos. Os raios de sol caem sobre sua escrivaninha. Ele se deleita com os desenhos. Folheia as páginas gastas da “Sonata para violino e piano em mi menor, K. 304”, de Mozart.
É uma honra ver se desdobrar tamanha ternura, tanta pureza de beleza e verdade. Tais qualidades são indestrutíveis. Como Mozart, ele acredita ter desvendado as complexidades do universo, cuja essência do eterno está além da mão do destino e da humanidade iludida. A idade nos permite sentir essas coisas.
Ele observa as sombras bruxuleantes no chão. Imagina ver nos desenhos o rosto de seus familiares, amigos e pessoas queridas. Suas amizades íntimas e mais apreciadas lhe parecem ter sido cíclicas. Um número excessivo delas evaporou. Desde seu nascimento. Faz muito tempo. Em Ulm, às onze e meia da manhã, na Bahnhofstrasse, 135, a casa destruída por um dos mais violentos ataques aéreos dos Aliados, em dezembro de 1944. Ele se lembra de ter escrito a um correspondente de cujo nome se esqueceu: “O tempo afetou [a cidade] ainda mais do que a mim.”
Será que resta algo da antiga Ulm?, pensa. E de meus amigos e entes queridos, aqueles que compuseram minha vida e me formaram? A mim: O Rosto Mais Famoso do Mundo.
Como foram gentis comigo os residentes de Ulm que pretenderam dar meu nome a uma rua! Em vez disso, os nazistas a chamaram de Fichtestrasse, em homenagem a Fichte, cuja obra Hitler lera e que era lido por outros nazistas, como Dietrich Eckart e Arnold Fanck.
Depois da guerra, ela foi rebatizada de Einsteinstrasse. A reação dele a essa notícia, enviada pelo prefeito da cidade, sempre o faz sorrir. “Existe uma rua lá que leva o meu nome. Pelo menos, não sou responsável pelo que vier a acontecer nela. Acertei ao recusar os direitos de cidadão honorário de Ulm, considerando o destino dos judeus na Alemanha nazista.”

Pega a caneta e escreve:

Tal como vocês, não há nada que eu possa fazer para ajudar minha cidade natal. Mas posso fazer algo pela história da minha intimidade juvenil. O paraíso religioso da juventude foi minha primeira tentativa de me libertar dos grilhões do “meramente pessoal”, de uma vida dominada por desejos, esperanças e sentimentos primitivos. Lá adiante fica o mundo, em toda a sua vastidão, existindo independentemente de nós, seres humanos, erguendo-se à nossa frente como um imenso e eterno enigma, ao menos parcialmente acessível à nossa inspeção e ao nosso pensamento. A contemplação desse mundo acena como uma libertação. Na infância, notei que muitos dos homens que eu aprendera a estimar e admirar haviam encontrado a liberdade e a segurança íntimas ao buscá-la. A apreensão mental desse mundo extrapessoal, no arcabouço de nossas capacidades, apresentou-se a meu pensamento, de modo meio consciente, meio inconsciente, como uma meta suprema. Homens de motivação similar, do presente e do passado, bem como as percepções que eles haviam alcançado, eram os amigos que não podiam ser perdidos. O caminho para esse paraíso não era tão confortável e atraente quanto o caminho para o paraíso religioso, porém mostrou-se confiável, e nunca me arrependi de havê-lo escolhido. A não ser, talvez, pelo fato de eu duvidar que exista um único ser senciente, em qualquer parte do mundo, que não conheça meu rosto.

R. J. Gadney, in Aqui quem fala é Albert Einstein

02/10/2021

Aqui quem fala é Albert Einstein


Princeton, Nova Jersey,
14 de março de 1954

Aqui quem fala é Albert Einstein.
Quem? — pergunta a moça ao telefone.
É a manhã do 75o aniversário de Albert. O cientista está sentado diante da escrivaninha de seu gabinete, no segundo andar da pequena casa na rua Mercer, em Princeton, virando as páginas de seu álbum de recortes, que tem uma gravação em relevo prateado:

ALBERT EINSTEIN SAMMELALBUM

Ele aproxima mais do ouvido o fone do aparelho de plástico preto da Western Electric.
Desculpe — diz a moça. — Liguei para o número errado. — Seu sotaque é típico da elite de Boston.
Ligou para o número certo — retruca Albert.
Liguei? Posso lhe perguntar qual é seu número, por favor?
Eu não sei...
O senhor não sabe o número do seu telefone? O senhor é Albert Einstein. Como o cientista mais famoso do mundo não sabe o próprio telefone?
Nunca decore uma coisa que você possa consultar — responde ele. — Ou, melhor ainda, que outra pessoa possa consultar por você.
Fagulhas de fumo do seu cachimbo caem sobre uma carta do físico alemão Max Born. Albert as apaga com um tapa.
Está bem, senhor — diz a moça. — Desculpe o incômodo.
Pois não me incomodou em nada. Quantos anos você tem?
Dezessete.
Hoje estou fazendo 75.
Está? Setenta e cinco anos... um número e tanto. Feliz aniversário.
Obrigado. Você me deu um belo presente de aniversário.
Dei?
Levantou um problema filosófico interessante. Discou o número errado. Número errado para você. Número certo para mim. Um enigma extremamente intrigante. Como é seu nome?
Mimi Beaufort...
De onde está ligando?
Do meu alojamento, nos arredores de Princeton.
Seu alojamento, você disse... e onde é sua casa de verdade?
Em Greenwich, no condado de Fairfield, em Connecticut.
Belo lugar. Você vai me ligar de novo?
Se o senhor for mesmo Albert Einstein, vou ligar de novo. Com certeza.
Albert brinca com seu abundante bigode branco.
Procure-me na lista telefônica.
Sua perna direita está sacudindo e quicando. A ponta do pé sobe e desce rapidamente. Ele flexiona os músculos da panturrilha. Não tem nenhuma noção de que sua perna está fazendo movimentos tão acelerados.

*

Soltando baforadas com o cachimbo cheio de fumo Revelation — uma mescla de tabaco das marcas Philip Morris e House of Windsor —, Albert contempla os cartões e telegramas de aniversário empilhados na escrivaninha, nas mesas e até em sua estante de música de madeira. Não faz a menor ideia de quem os mandou.
Há telegramas de felicitações de pessoas que ele efetivamente conhece: Jawaharlal Nehru, Thomas Mann, Bertrand Russell e Linus Pauling.
Albert se remexe na cadeira, irrequieto, incomodado pela dor abdominal.
Abre o New York Times e constata que a página do editorial citou a opinião de George Bernard Shaw de que o mundo se lembraria do nome de Einstein como equiparável aos de Pitágoras, Aristóteles, Galileu e Newton.
Sobre as cadeiras, cômodas de mogno e uma ou outra mesa há artigos acadêmicos mimeografados do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Princeton, marcados para a atenção dele: artigos de matemáticos, físicos, arqueólogos, astrônomos e economistas. Um suporte de cachimbos fica ao lado de um porta-lápis, diante de um gramofone e de discos de vinil, quase todos de músicas de Bach e Mozart para violino e piano.
Há quatro retratos na parede. Um de Isaac Newton. Outro de James Maxwell, cujo trabalho Albert havia descrito como o mais profundo e produtivo que a física conhecera desde os tempos de Newton. O terceiro é de Michael Faraday. O quarto, de Mahatma Gandhi. Abaixo dos retratos fica o emblema emoldurado da religião jainista, símbolo da doutrina da não violência. Albert olha para a carta de Born.
Creio”, declara Born, “que ideias como a certeza absoluta, a exatidão absoluta, a verdade última etc. são fantasias da imaginação que não devem ser admissíveis em nenhum campo da ciência.”
Concordo — diz Albert para si mesmo.
Por outro lado”, continua Born, “toda afirmação de probabilidade é certa ou errada, do ponto de vista da teoria em que se baseia. Essa flexibilização do pensamento [Lockerung des Denkens] me parece ser a maior bênção que a ciência moderna nos deu.”
Muito bom — murmura Albert.
Pois a crença em uma verdade única e em ser alguém o possuidor dela é a causa principal de todos os males do mundo.”
Assim diz Born — fala Albert. — Com muito acerto.
Seu precioso relógio de pêndulo, no estilo Biedermeier, anuncia as dez horas. Terminados os repiques harmoniosos, Albert sorri para si mesmo. F = L + S. Frieden entspricht Liebe und Stille. Ou: P = A + S. Paz é igual a Amor mais Silêncio.

R. J. Gadney, in Aqui quem fala é Albert Einstein