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22/06/2012

Como não amar a única cidade no mundo onde um McDonald’s faliu?


Eu olindo, tu olindas, ele olinda. Nos domingos, nós olindamos.
Descobri que Olinda era verbo quando dei uma carona para o músico Erasto, irmão do percussionista Naná Vasconcelos. O irmão menos famoso do clã dos Vasconcelos escolheu a cidade alta para passar seus dias. Por lá escreveu o guia “das Olindas” que diz assim:
“Subi Mercado da Ribeira
Desci largo de São Bento
No largo do Varadouro
Na Praça do Jacaré
Afoxé, afoxé
Olinda mandou me chamar”

E, enquanto cantarolava no carro durante a carona, avisou: “pode me deixar nos Quatro Cantos mesmo, estou precisando Olindar”.
E como não amar a única cidade no mundo onde um McDonald’s faliu?
Olinda é mesmo uma cidade estranha. E isso me faz lembrar um causo, passado numa segunda-feira chuvosa num bar da cidade histórica. E esse conto, caro leitor, não se passou com a amiga da prima da minha sogra, não. Foi comigo mesmo que aconteceu, por isso posso atestar de pés juntos, a estranheza do acontecido.
Lá estávamos nós, amigos boêmios, numa festinha regada a jazz na sede da Pitombeira (bloco famoso nos dias de Carnaval). Entre uma música e outra, rolou um zum zum zum, à boca miúda, de que naquela mesma festinha estava Matt Dillon (ator famoso das bandas de Hollywood).
- Matt quem? É aquele que fez Supremacia Bourne?
- Não, é o do filme Crash, no Limite. Aquele do Oscar, pô.
Passada a confusão para diferenciar Matt Dillon de Matt Damon (americano é tudo igual) e Brad Pitt de Tom Cruise (que no calor na discussão, entraram na conversa sem ter nada a ver com o assunto), confirmamos a presença do famoso no local. Sim, era ele.
A notícia, que tinha potencial para se transformar em euforia, autógrafos e briga por fotos em qualquer lugar do mundo, parou por aí. É de Olinda que estamos falando, afinal de contas. Ninguém, repito, ninguém no recinto abordou o cara. Matt ficou lá; sozinho, carente.
O desprezo pelo moço chegou a tal ponto que ele teve que tirar fotos dele mesmo no balcão do bar. Deu até pena (dó, na linguagem do Sul, porque quem tem pena é galinha). Mas a atitude blasé dos olindenses dizia “Pra que Matt se a gente tem Erasto?”. Que mais além se transforma em “pra que McChicken, se aqui tem tapioca?” ou “pra que badalar, se a gente pode Olindar”?
O fato, meus amigos, é que Olinda não é uma cidade, é um estado de espírito. E ai dos turistas que passam rápido demais, tiram fotos demais, compram bugigangas demais e nem têm tempo de conjugar o verbo Olindar. Desses dá pena, de verdade. 
Téta Barbosa, in oglobo.globo.com (Blog do Noblat)

16/03/2012

A máquina do tempo

  

Não, a gente não se contenta.
Quando pode, não quer.
Quando quer, não pode.
E segue querendo sem poder. E podendo sem saber se quer.
Hoje descobri que posso querer e poder misturado. Isso graças a Maria (sobrinha de 6 anos) que ligou para perguntar:
- Tia, estou contruindo uma máquina do tempo. Tu quer vir me ajudar?
Como eu não pensei nisso antes? Tudo que eu preciso nesta breve e superficial existência é uma máquina do tempo! Que venha,  claro, com uma tecnologia by Steve Jobs com direito a tirar fotos com Instagram da semana de arte moderna de 1922.
Tudo indica que Maria (cujo sobrenome deveria ser Jobs) será a responsável por essa inovação tecnológica. Arrumou dois  amiguinhos e está juntando uma caixa de geladeira com clips e chicletes (Magaiver feelings) e jura, com a convicção dos que  mudaram o mundo, que ainda esta semana vai visitar os dinossauros.
- Quando tu voltar, posso dar uma passadinha na minha vida daqui há 10 anos? 2022 está ótimo pra mim! Não vou demorar,  prometo.
Hummm, pensando bem, melhor não. Vai que eu me decepciono com o eu do futuro e corto os pulsos por lá mesmo!
Não, não quero daqui há 10 anos. Muito menos minha vida de 10 anos atrás.
Quero o hoje e quero agora!
Não quero conjugar minha vida do pretérito (mesmo que ele seja o perfeito ou o mais-que-perfeito) nem no futuro do  indicativo. Quero uma vida conjugada toda no presente ou, no máximo, no gerúndio. Estou amando, beijando, abraçando é muito  mais legal do que amarei ou beijarei.
Então, vou deixar Maria planejar o futuro e visitar o passado, enquanto eu me resolvo no presente mesmo!
Téta Barbosa, in Besta Fubana 

11/03/2012

Deglutindo batráquios!

Hoje engoli dois atrasos, quatro metáforas e um subway de rosbife.
No fim do mês, meu médico não entende porque o meu estômago não tá lá uma Brastemp.
Engulo ironias sem sofrer. Pessoas irônicas são, em sua maioria, inteligentes. Então engulo com um fiapo de inveja entre os dentes e bebo um gole de “como eu não pensei nisso antes” para facilitar aquela descida incômoda pela garganta abaixo.
Engulo algumas desculpas esfarrapadas, ideias estranhas e filmes ruins (não engulo livros ruins).
Engulo arte, devoro poemas, lambo fotografias, trago músicas, mastigo silêncios.
Não engulo sapos.
Desculpem!
Téta Barbosa, no Besta Fubana

17/01/2012

O Grande Irmão

Era para ser uma ficção.
George Orwell não tinha vocação para mãe Diná nem a menor intenção que seu livro virasse realidade. Muito menos um reality show!
Em 1984, sua obra mais famosa, criou uma sociedade vigiada pelo grande irmão. Um irmão que vê tudo, controla tudo, decide tudo.
E, como num filme barato de terror de terceira, a invenção do escritor inglês se concretizou. Uma profecia, eu diria.
Hoje, o Big Brother Global sabe quem você é, o que você faz, o que veste e o que come. Sabe, não por ter poderes adivinhativos, mas porque foi ele mesmo quem te mandou comprar batom, ouvir Michel Teló, vestir o que a mocinha da novela das oito está vestindo, beber coca cola, rir com Faustão e acreditar que Ivete Sangalo e Caetano Veloso estão no mesmo patamar artístico.
Ele também te disse:
- Assistirás toda a programação que eu te obrigar! Terás como ídolos pessoas insignificantes, meros desconhecidos que eu, a partir de agora, nomeio como celebridades. E você, obedece.
Afinal, o grande irmão sabe o que você fez no verão passado.
Ele sabe, inclusive, que você sabe que ele sabe. E você vai ligar sua televisão no dia marcado, na hora certa e vai assistir a vida fútil de 16 estranhos. Vai torcer, vai votar, vai ficar amigo deles. Vai até chorar, em casos extremos.
Ele vai te fazer engolir a gostosona que passa o dia de biquíni, o gay que dá pinta, a barraqueira de plantão, o pobretão malhado, a piriguete que transa debaixo dos lençóis. Por pura falta de conhecimento, não posso citar nomes. Não assisto ao Big Brother. Já tentei, confesso. Não consegui.
E, mesmo que essa crônica exija mais informações sobre o assunto, me recuso a ir no Google pesquisar.
Quero continuar sem saber quem venceu o último reality show, quem posou para playboy ou quem traiu o marido/esposa em horário nobre.
Na minha vida, a big sister sou eu.
Eu decido quem são meus ídolos, eu não vou vestir o que a mocinha da novela das oito está vestindo, eu não vou assistir a novela das oito.
Eu NUNCA vou achar que Ivete Sangalo tem o mesmo valor artístico que Caetano ou Gil, não importa quantos especiais de fim de ano o Grande Irmão faça para tentar me provar isso. Eu não vou dançar a coreografia da nova macarena mundial. Eu não vou comprar batom.
Pode parecer falta de humildade, mas posso apostar que George Orwell ficaria orgulhoso de mim.
Já o grande irmão deve estar furioso e vai me deixar de castigo a qualquer momento.
Plim, plim.

Téta Barbosa, in A coluna de Teta Barbosa, no Besta Fubana

23/11/2011

O copo está meio cheio!

“Toda partícula que voa, sempre encontra um olho”.
Este é, basicamente, o slogan do pessimismo.
Frase essa bem difundida na minha família.
Mestre dos Magos (meu pai, para os íntimos) é o pessimista patriarca. Dele saem todas as certezas de que, no final, tudo vai dar errado.
Acho que ele usou essa técnica como uma maneira primitiva, porém eficaz, de educar os três filhos jornalistas. Acho, inclusive, que ele inventou a técnica justamente quando os três resolveram ser jornalistas.
Não lembro de ele ser assim tão “copo meio vazio” enquanto tentava nos convencer a seguir engenharia ou medicina.
Quando mostramos o diploma (que hoje não serve de nada) ele deve ter pensado:
-“Isso não vai dar certo”.
E assim, foi apurando sua teoria de que as coisas podem piorar, você é que não tem imaginação.
Outro dia, observando uma pintura bucólica, com o desenho de uma casinha na beira de um lago cercada de árvores, ele soltou:
- “Aí deve ter muriçoca (pernilongo em pernambuquês) que só a peste!”
- Pai, é um quadro. Não tem muriçoca em quadro.
Mas na prática é assim mesmo, “todo corpo mergulhado numa banheira, faz tocar o telefone”!
Agora, imagine o estado de surpresa que se encontra toda a família lei de murphy, vendo algumas coisas darem certo no, quase, final do ano!
A Rocinha foi ocupada sem nenhum morto/ferido
A violência em Pernambuco diminuiu (pouco, mas diminuiu).
O bebê sequestrado de uma maternidade pública do Recife foi encontrado.
Um tubarão tentou, sem sucesso, matar outro surfista no litoral pernambucano.
O ministro corrupto caiu.
Faz dois dias que meu carro não cai em nenhum buraco.
Será uma maré de sorte?
Estou sentindo uma vontadezinha (de nada) política?
Será a proximidade das eleições?
Desse jeito, vou terminar sem ter assunto para escrever essa crônica. Ficou todo mundo legal/honesto/trabalhador de uma hora para outra.
Sabe o que eu acho? Que todo ano deveria ser véspera de eleição.

A coluna de Téta Barbosa, in Besta Fubana