De
longe todo azul, de muito perto
terá outra cor, mas não a
esmo. Reações
de átomos, essas coisas pequenas.
É a
certa meia-distância (mas entre
o que e o quê?) que as
cores
multiplicam-se. O palco
que está dentro do teatro
sem o ser.
Quem me dera ver o mundo a partir
da Lua, ver o
planeta de dentro
da estação de metrô da Consolação.
Na
Muralha da China ver a Estação
Espacial Internacional e
desta,
a Muralha da China. É que já não sei
distinguir
entre as árvores
que morreram para doar a madeira
ao palco
dos atores e às cadeiras
da plateia. Todos corpos, as
árvores
dos assentos e as do tablado, das vigas
que
suportam o teto sobre a gente
da performance e do público.
Esses
corpos a esmo. Que escolhem
onde sentar-se para melhor
ver
o espetáculo ou para estar ao lado
de um corpo que foi eleito a
melhor festa
da cidade. Colisões. Coalizões.
Que não
seja uma guerra, é só
o que pedimos. Interagir sem
interferir.
A equidistância ideal e por ideal jamais
com
sua própria estação ferroviária.
Sinto falta é dos
lanterninhas dos cinemas.
Do sinal de ternura dos cães-guia.
De
ler uma história para que durma
o ainda-não-alfabetizado.
Avante, infante!
Façamos dinheiro então para hospitais
e
rodas-gigantes se há o necessário
e há o imprescindível,
ninguém
quer escolher entre o pão e o circo.
Nada é
causa e tudo é consequência,
e acontece o que acontece quando
acontece:
o pôr-do-sol na Praça do Pôr-Do-Sol
e os
cânceres no Instituto do Câncer.
Até as células enlouquecem
sozinhas,
decidem desviar-se de seu manual de instruções.
Por
que não eu que as chamo de minhas?
Não foi a erros de cópia
que devemos
esses pássaros de cores loucas,
esses
mamíferos d’água como se peixes,
esses primatas pelados que
amamos na cama
a cada cama, acarinhando seus pelos
restantes
e finos? Somos tão peludos
quanto chimpanzés e bonobos,
essa
primaiada toda, querido, são
apenas menores e mais frágeis as
fibras
dessa roupa nossa nascida e dada
à qual
acrescentamos o necessário, o imprescindível.
O mundo no
planeta e o planeta fora do mundo,
mas não acaba a peça
se
queima até o chão o teatro?
Não se ilumina por diligência as
saídas de emergência?
Quantas mortes não ocorrem em
cena.
Todas. Nenhuma. Esse mundo, que mundo,
que planeta
ocorrível e aconteçoso,
esse vulcão que não se extingue até
que se extinga,
esse mar que martela a praia constante,
mais
abaixo, mais acima, como quem apalpa
o que dói, para dizer:
‘Aqui dói. Dói aqui.’
Dizer ah! e oh!, como uma
criança
dizer a alguém que é protetor e progenitor:
‘óia
eu! óia eu!’, essas vogais da descoberta
de si e do outro, a
alegria
de que alguns de nós já nasçam
sem os dentes do
ciso, sem marfim
já nasçam elefantes. Tudo é causa
e
nada é consequência, e pede-se apenas
que se assista ao circo
e que se assista o pão.
Que se ilumine o corredor
para os
que chegam agora ao filme
que é trailer do trailer do
curta-metragem
sobre um pôr-do-sol e um câncer.
Agasalhe-se,
é por vezes inclemente o clima.
Acordou, querido? Acorde,
querido.
Está com sede o cão-guia.
Ricardo
Domeneck