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27/09/2026

Sétimo caderno de Kindzu



Um guia embriagado

Já me cansavam aqueles dias em casa de Assane. Que esperava? Nem Surendra nem Assane me podiam ajudar a procurar Gaspar, o perdido filho de Farida. Se lhes pedia conselho eles recolhiam os ombros, incapazes de responder. Para eles meu assunto era coisa estranha, de um outro mundo.
Nesse entrequando, eles me certificaram que a aldeia de Euzinha havia sido atacada e ninguém nela mais residia. Euzinha devia agora estar no campo de deslocados. Lá, com toda a certeza, residia agora a mulher que sabia do destino de Gaspar. Porém, como chegar até ela? Os matos eram demasiado mortais. Ninguém aceitaria me acompanhar. Antoninho, o ajudante da loja, ao cabo de muita saliva, disse conhecer alguém que poderia me conduzir pelos aforas. Deveríamos ir ao bar, lá se encontrava o desditoso cujo.
Essa noite eu e Antoninho fomos ao bar. Entrei e me deixei no balcão, escutando as vozes distantes dos presentes, quase todos embriagados. Muitos aproveitavam as duas horas de electricidade que o gerador da administração distribuía pelo povoado. E se agremiavam na cervejaria, a juntar conversa, amolecendo fraquezas em voz alta. Mais que os outros todos, dois homens se discutiam. Antoninho identificou os tais. Um gordo, enormão, balalaica carecendo de botões. Sendo chamado de Abacar Ruisonho. O outro, denominado Quintino Massua, homem nervoso, tão magro que uma ideia, só de ter peso, lhe fazia transpirar. Pois este Quintino levantava o copo e celebrava as boas graças:
— Vou ficar rico, cheio da mola.
Os presentes se riam, sem dar outro crédito que não fosse o de brincriação. E erguiam os copos, festejosos. Antoninho me segredou, em rápida pincelada, o retrato de Abacar Ruisonho. O homem era o chefe dos serviços de segurança, vacilando entre o ruim e o perdoável. Pois ele chegava onde quer que não fosse, abanava um cartão, nomeado que estava para intimar, intimidar e lavrar em acta. Seu permanente serviço era contar os viventes, conhecer quantos deslocados chegavam do campo. Passava o dia de esquina em esguelha, numerando: um, dois, por aí avinte... Empilhavam-se os números, baralhavam-se as pessoas. E recomeçava a contagem. Às vezes, rebentavam-lhe as fúrias: que esta gente nunca está quieta, grande porra! Uma coisa era certa: o gordo nem mau seria. Pelo menos, o magro Quintino não se amedrontava com o gordo Abacar. O magricelas se declarava, de juramentos para cima:
— Estou a dizer: amanhã sou eu que vou distribuir favores. É bom vocês ficarem em concordâncias comigo. Quem estiver contra mim não vai cheirar quinhenta.
Todos se descuidavam da verdade, migrados no fumo daquele bar, longe da vida real. E aclamavam no actual pobre o futuro falso rico. Se queria era engordar a fantasia. Fazia-se a festa sem nenhum ingrediente que não fosse a miséria de entrar num copo e afogar tristezas.
O único que não encontrava graça era o gordo Abacar. Sério como uma segunda-feira, reprovava as proclamações de Quintino Massua.
— São bebedeiras politicamente incorrectas.
Nesse momento, entrou no bar um homem estranho, pendurando uma pistola no vasto cinto. Ao sentir a presença do cujo, os presentes se entrelinharam, caladinhos, metidos com seus líquidos assuntos. Perguntei a Antoninho quem era o chegado.
— Esse é o Shetani. É melhor a gente se emborar.
O silêncio se instalou no bar. Contudo, naquele momento, Quintino Massua se desimportou, alheio aos perigos. Para comprovações, subiu numa cadeira e proclamou-se autor de feitos muito comentados em toda a vila:
— Aquelas notas de dinheiro que apareceram na praia: quem foi que rasgou-lhes? Eu mesmo, próprio Quintino.
O gordo Abacar ruminou cerveja, empapou argumento. Os presentes deixaram as graças e se abotoaram consigo mesmos. Antoninho me puxou pelo braço insistindo que deveríamos ir embora:
— Por favor de Deus, vamos para casa!
A brincadeira resvalava nos perigos, o assunto das notas era matéria de muito-o-quê. Shetani já comichava a mão sobre o cinto, deitando um nervo sobre a pistolenta. Mas o magrinho Quintino, discursador, prosseguia:
— Vejam motivo do sofrimento de hoje. É porquê?
Virando-se para mim me perguntou se eu sabia o real motivo dos cajueiros não florirem. Abacar me falou, ten-tando me tranquilizar:
— Não ligue. Isto é atraso, ignorância bravia. Vale a pena insistir? Vale a pena esclarecer esta gente? Eu sempre acho que sim. Do menos o mal: afinal, grão a grão o papa se enche de galinhas.
Hospitaleiro, o volumoso Abacar me ofereceu um espaço no balcão, a seu lado. Enquanto bebia, desembolsava mais ditados:
— No papar é que está o ganho!
O homem aproximou-me o bafo. Pensei que, postos os modos de confidência, fosse falar em sussurro. Mas usou o mesmo tom de xipalapala entupido:
— Vou-lhe confessar: me irrita esse Quintino é só por gosto que tenho nele. O gajo não compreende que eu lhe quero proteger. Quando lhe trato assim, faz conta um doentio, é para esses grandes pensarem ele é tonto, suas palavras são sempre de tira-e-põe. Você sabe: em terra de cego quem tem um olho fica sem ele.
Súbito, uma enorme explosão estrondeou. A luz sacudiu-se, por segundos, depois desfaleceu. No escuro, calados, aguardámos nova explosão. Apenas uma voz se fez ouvir:
— Cabrões, foi aqui mesmo!
Quem estaria disparando? O exército ou os bandos? Contra quem estariam disparando? Alguém riscou um fósforo, uma vela se acendeu no balcão. Depois, vários xipefos se iluminaram e foram distribuídos pelas mesas. Quintino foi o primeiro a voltar às falas, retomador da folia.
— Você, então? Nada se fala?
O homem se aproximou de mim, eu já estava sem remédio: metido na disputa. Mais queria ficar de fora, alheio à conversa perfurada, mais eu estava com o pescoço dentro dela. Nervoso, o homem me empastou com seu hálito:
— Você estrangeiro, escuta. Nesta terra se passam muitas merdas, todos tem medo de falar. Eu sei quem está a matar aqui. Não são só os bandos. Há outros, também.
Os bebedeiros se encolheram: as palavras de Quintino soaram como a explosão de há pouco. Quintino insistia: há coisas que todos sabem mas ninguém diz.
— Agora, em Moçambique, a guerra é como se fosse uma machamba.
E se explicou: a guerra gerava altos tacos, cada um semeava uma guerra particular. Cada um punha as vidas dos outros a render. Aquele silêncio estava agora demasiado mortal. Se escutou, então, a voz rosnante de Shetani:
— Esse gajo tem os dias descontados!
Quintino prosseguiu destemeroso, ignorando a presença do antigo combatente:
— É por isso essa guerra não acaba nunca mais. É assim, exactamesmo. Este Abacar também sabe, só não fala porque é um merda, filho de uma diarreia.
Aquilo era a gota transbordando. Abacar ficou calado, marsupial. Nem eu notara que estivesse tão bebido. O ex-cesso de álcool lhe dava uma aparência compenetrada. Bambavam-lhe as pernas, a barriga toda de fora, parêntesis curvo do peso. De repente, porém, arremessou a mão fechada contra a cara de Quintino que caiu, instantâneo, em ruidoso chapinhar. Ficou ali, todo inerte, esmãozinhado. Em volta, um círculo de vozes lhe chamava:
— Quintino, acorde!
Não respondia coisa nem coisa. Seria que ele, pessoalmente, tinha morrido? Perguntei, de inocente. Em redor, os outros se mancharam a rir. Eu não me afligisse, aquilo era muito costumeiro: o magrito acabava sempre assim as noites, no encosto do chão. Abacar se chegou até mim, amaciando os nós dos dedos.
— Tive que lhe arrear. Não tenho gosto de bater. É só para calar o gajo.
Foi então que, naquela penumbra ponteada de lamparinas, surgiu uma mulher acompanhada de um cão de dimensões. Antoninho me sussurrou: aquela era Juliana Bastiana, a prostituta cega. Olhei a dita enquanto o silêncio regressava àquele lugar fumarento. Shetani chamou Abacar e disse-lhe qualquer coisa ao ouvido. Os dois se riram, alto e mau som. A cega abria caminho entre as mesas. A mão dela, ao de leve, tocava o dorso do animal: assim se guiava.
— Estou ouvir o cheiro de um homem de fora. Quem sabe me trazem notícia do meu brigadeiro...
Suspirava saudades que nem convinham a uma mulher sabida e cursada em contrabandalheiras. Seu modo de ser cega fazia que não parecesse uma dessas trampalhonas, virabazucas. Ela se chegou, me cheirou. A saia dela se apertava no corpo, o rabo quase nem devia respirar.
— Não tenhas medo do cão. Ele é mais bondoso que muitos desses, disse apontando para a multidão.
Me pediu ser paga, juntou logo três copos. Mandou o cão para fora, o bicho que esperasse por ela. Obediente o cachorro meteu as pernas entre o rabo e saiu. Olhei em redor, a conversa embaretecera, risos rolando em risos. Nem parecia ter havido o tiroteiro, há segundos. Não parecia mesmo haver lá fora, tudo se resumindo àquele barzito. A cega pareceu adivinhar meus pensamentos.
— Graças a Deus sou cega. Lá fora, o mundo está pior. Por causa essa guerra, já ninguém se compaixona por ninguém.
Ela então contou sua razão de suspirar: aguardava o brigadeiro Silvério Damião, seu amante muito militar, exercendo patentes no exército colonial. Juliana historiava: que o brigadeiro tinha saído em missão recente contra os turras, na defesa da lusitana terra. A cega misturava os tempos, fazia do passado um tempo vigente. De um brusco gesto, meteu todo um braço dentro de sua saca e retirou um molho de envelopes.
— Tudo isso são cartas dele, não passa nenhuma semana que não escreva. Queres ler, estrangeiro?
Segurei as cartas, hesitante. Não li nenhuma. Aproveitei o momento para lhe explicar o motivo da minha presença naquele bar. Quem sabe ela me poderia apontar alguém capaz de me acompanhar em procuras no mato. Juliana Bastiana permaneceu sem resposta, parecia nem lhe chegara meu pedido. Pensei que deveria abrir um pouco dos motivos, lhe devia uma explicação. Mas ela me interrompeu:
— Há um motivo de amor?
— Sim, há.
— Então, não preciso saber mais.
Sorri, agradecido. Mantinha as cartas na mão, com delicado respeito, como se ela me pudesse ver. Devagar fui pousando os envelopes sobre a mesa. Os homens me olhavam, desdenhosos. Eu, um de fora, gozava a companhia de Bastiana. Baixei a voz e o gesto para não criar caso. As caras em volta eram de nenhuns amigos. Antoninho, só então reparei, já tinha saído do bar. Juliana me pareceu adivinhar o sentimento:
— Não tenha medo. Esses gajos é que tem razão para terem medo.
Só o brigadeiro Silvério, seu distante amante, era um homem muito inteiro, sem minhufas de ninguém. Era por isso que os outros sempre se irritavam quando ela anunciava o breve regresso do militar.
Voltei ao assunto da minha pergunta. Adiantei que se tratava de procurar uma criança há muito abandonada. Juliana lançou um terrível pressentimento: se fora há muito tempo, então esse miúdo devia andar com os bandos, patifaristando pelos matos, feito semeador de infernos.
— Mesmo assim lhe quero encontrar, respondi.
Eu queria ganhar tempo, entreter a prostituta a ver se ela se inclinava a deixar cair o nome de alguém que me servisse de guia.
— Tens arma, estrangeiro? Não tens? É muita pena: porque era bom que ensinasses a esse menino maneiras de matar, bons métodos de roubar.
Da bolsa retirou um cigarro e, sem acender, o ajeitou entre os lábios. É só para os outros verem, nem tu sabes quanta inveja vale uma coisa dessas, disse ela abanando o cigarro.
— Encontras o miúdo, mas ficas proibido de lhe dar caneta ou enxada. Isso não dá vida para ninguém. Vale a pena uma arma, estrangeiro. Nestes dias, uma arma é que faz a vida. Rápida e boa.
Do cigarro apagado ela arrancava invisíveis fumaças. Foi rodando a cabeça, espreitando as vozes. Sacudiu a cadeira, para me chamar a atenção. Apontou a mesa ao lado onde estava Shetani.
— Tu não sabes o meu perigo de sentar aqui, sozinha consigo.
Não demorei entender. No fundo do bar, Shetani chamou Bastiana. Usava os modos de espalhador de brasas.
— Anda-te aqui. Quero mostrar-lhe uma coisa.
Bastiana levantou-se com ar grave, apalpando as vozes, seus cinzentos. Ainda quis ajudar. Mas ela rejeitou o meu braço e ordenou que me afastasse. Avançou sem chocar em nada, postou-se diante de Shetani.
— O que é?
— Dá a tua mão, quero oferecer-lhe um presente.
— Vai para o mato, o seu lugar é lá.
— Estou-te a dizer, Bastiana. É um presente, uma encomenda que fui dado por um brigadeiro colonial.
A prostituta estremeceu, seus olhos sorriram, vagaluminosos. Deu um passo em frente, seu corpo se firmava como um credo. Shetani afastou a mesa, ergueu-se com vagares. Segurou a mão de Juliana Bastiana, abriu-lhe os dedos com força.
— Toma, Juliana Bastiana.
Colocou-lhe nas mãos uma qualquer coisa, ninguém percebeu o que era. Conforme apalpou a oferenda, o rosto dela foi abrandando o sorriso e, aos poucos, se fechou em mágoa. Até que gritou um arregalado lamento e chorou. Veio até à minha mesa, desta vez chocando-se nas demais cadeiras, cambaleoa.
— O que é, Juliana? Que te fizeram, conta-me.
Ajudei a se sentasse, seu corpo estava tenso, parecia ter tomado o freio nos nervos. Em seu rosto se desprendiam gotas de grossa tristeza, ensopando o pó-de-arroz. Voltei a pedir que me explicasse o que sucedera.
— Olha, vê o que fizeram com meu cão.
E abriu as mãos. Nelas estavam duas orelhas cortadas, ainda sangrando, inundando de vermelho a concha de seus dedos. Eu nem me pensei. Empurrei a cadeira, avancei sobre o milícia. Mas no caminho o braço da prostituta me travou, em aflição.
— Onde vais?
— Ele tem que aprender, Juliana. Alguém deve...
— Fica quieto, seu burro.
Juliana gritara aquelas palavras. Levantou os braços no ar, balburdiando gestos, palavras de arder. Me puxou para o assento com força, os desempregados olhos confirmavam sua cega decisão de me reter. Por fim, vendo-me vencido, soprou aliviada como se escapassem reticências de sua alma.
— Ele não fez por mal, estrangeiro.
— Como não fez por mal?
— Tu não entendes. Fui eu que pedi a Shetani para ele fazer isso. O bicho estava doente, eu que não tinha coragem...
Desandei, incapaz de ouvir. Saí até à porta para apanhar fresco. Passei por Shetani. Uma outra prostituta se nichara, entretanto, sobre as suas pernas dava ternuras merecidas pelos vencedores. Juliana permanecia sentada, bebendo em silêncio.
As horas se foram dissolvendo, a espuma desceu nos copos. A noite, às tantas, recebeu as despedidas, na cervejaria foram crescendo as cadeiras. Juliana Bastiana insistiu em pagar, retirou o dinheiro das roupas íntimas. Depois, os trocos voltaram ao sutiã. As moedinhas tilintintaram, pareciam rir com cócegas dos seios. Fui último a sair. Demorei a contar os pés, quantos os legítimos meus. Sem dar conta eu tinha ultrapassado os meus níveis.
Inspirei o ar da noite. Lá fora a multidão se desapinhava. Alguém puxava o Quintino pelos braços. Depositaram-lhe no passeio, ele estava destinado a dormir sob o lençol das estrelas. Um braço me repuxou, era Juliana Bastiana. Arrastou-me para ela, me cochichou:
— Esse que está aí, todo entornado no passeio.
— Esse o quê?
— É ele que entende do mato, pode andar lá mais à vontadinha que os bichos.
— Quintino?
— O próprio. Ele é que lhe pode conduzir onde você quer.
A cega afastou-se, mão dada com uma outra prostituta. Todos se haviam ido, me deixando só com o bêbado. Longe, um rádio ainda machucava o silêncio. Sentei para esperar uma pausa na inconsciência do homem. Estávamos só nós, eu e o embriagado Quintino, relentando-nos no cacimbo da noite. Uma saudade de Farida me inundou. Voltaria a ver aquela mulher? Ou jamais me poderia servir daquela formosura? Afinal, em meio da vida sempre se faz a inexistente conta: temos mais ontens ou mais amanhãs? O que eu desejava era que o tempo se adiasse, parado como o barco naufragado.
O bêbado, entretanto, não havia meio. O sono se descalçara na minha cabeça, tão convidançante que, para resistir, me subiu uma agonia. Me levantei, decidido a passear-me pelas redondezas. Nunca fui mancha-prazeres: tristeza sempre eu tratei no remédio de uma canção. Entoei uma melodia antiga, enquanto caminhava sob o perfume dos canhoeiros.
Decidi voltar, de madrugada, para procurar Quintino. Ansiava em saber a sua resposta sobre o serviço de me conduzir. Repente, um vulto saiu do escuro. Calafriorento, me defendi, atirando o desconhecido ao chão. No meio da luta, senti no corpo do suposto as palpitantes saliências: era uma mulher, seus seios estavam colocados à minha disposição.
— É você, afinal?
Carolinda, a esposa do administrador, se emancipou da penumbra, desfez-se da silhueta. Com a luta, a roupa se havia esfarrapado. Agora, no claro da luz, ela se enfeitava com seu próprio corpo, fosse era a abelha florindo. Atirava o pescoço para trás, no provoco de um riso. A língua, matreira, espreitava à soleira da boca. De passagem, Carolinda me fez lembrar Farida. Qualquer coisa as igualava, rosto em rosto. Ou será que o fogo do desejo faz semelhar toda a mulher? As nossas mãos se laçaram, como se temessem a separação. Estávamos perto da igreja, procurámos um lugar urgente.
— Na igreja não, os santos gostam de espreitar.
Demos a volta ao pátio, entrámos no curral da Missão. Dentro havia um xipefo de curta lumieira. Peguei no candeeiro com a mão desocupada e andámos por ali pisando palhas, tropeçando em pés do outro. Era uma dança para a qual ainda não havia sido inventada nenhuma música. Despimo-nos com ânsia. Pendurei o xipefo no chifre do boi e deitámo-nos sobre a palha.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

24/06/2026

Último caderno de Kindzu



As páginas da terra

Depois de Euzinha já nenhuma esperança me restava. Eu voltava a Matimati sem Quintino. Perdida estava a amizade. Voltava sem trazer Gaspar. Perdido estava o amor. Farida não aceitaria a minha falta de promessa. E ela se afastaria de mim, partiria para inalcançável longe.
Subi a escura rua da vila em direcção à casa de Assane. Antoninho me recebeu às arrecuas como se visse um fantasma fora do prazo. Tinha os braços envoltos em ligaduras. Assane chegou à porta se arrastando na cadeira e, virando-se para o ajudante, perguntou:
— Já lhe deu a novidade?
— Que se passa? Que aconteceu com Farida?
Assane se moveu em minha direcção. Subiu-se na cadeira, esforçado para me dar um conforto, seu braço me laçando o ombro.
— Não vale a pena você voltar lá.
— Não vale a pena?
— Farida já não te espera.
— Como: vieram-lhe buscar?
— De certa maneira...
— Como de certa maneira?
— Se acalma, Kindzu. Lhe vamos contar.
Se passara de maneira confusa. Por ordem de Assane, Antoninho se metera numa canoa e se dirigira ao barco naufragado. Quando encontrou Farida ele se exclamou. A mulher estava uma rodilha, só quase se lhe viam os olhos. O enviado se chegou com modos sossegados e se apresentou em sua função de amizade. Farida quis saber novidades de Kindzu. Disse que a demora já era demasiada. A procura do filho não iria resultar. A terra é imensa, a guerra é maior ainda.
— Nunca lhe hão-de encontrar!
Então, com determinação, ela disse: não posso adiar mais. Vês aquele farol, apontou ela por entre o poente. Tenho que fazer com que aquele farol funcione.
Antoninho se dispôs a ajudar. Ela anunciou: iria lá acender aquelas luzes, reparar a escuridão. Aquelas luzes haveriam de guiar navios que a viriam tirar dali. O outro ficaria no navio naufragado vigiando se alguém chegava. Farida partiu na embarcação de Antoninho. Ele ainda a viu chegar ao pequeno ilhéu e entrar no farol. Ficou lá um tempo, saiu, voltou a entrar, carregando uns velhos bidões. De repente, a torre se sacudiu em imensa explosão. Labaredas escaparam como sôfregas línguas do edifício. Toda a ilha ficou ardendo.
— Não é possível, Farida não morreu! Eu vou lá a esse farol, amanhã mesmo...
— Não vale a pena, Antoninho confirmou.
— Não confio neste sacana. Se calhar foi ele mesmo quem tramou a morte dela...
Virei costas e me retirei, brusco, corredor afora. Dentro do quarto de Surendra fiquei em espanto. Não chorava. Mas um tremendo cansaço me sufocava o peito. Assane entrou no quarto, suas rodas chiaram no escuro.
— Kindzu, você foi injusto com esse miúdo.
— Com Antoninho? Eu lhe conheço muito bem.
— Mas, desta vez, se enganou. Eu posso testemunhar quanto o moço sofreu.
Assane me garantia. Antoninho tinha ido, em outro pequeno bote, tentar ajudar a mulher que eu amava. Entrara no incêndio com desprezo de sua própria vida. Seus braços arderam como tochas, quase os perdera para sempre.
— Antoninho, agora, lhe respeita. Acredite, Kindzu.
A tristeza me enchia tanto que eu deitei de parte a desconfiança. Admiti ter errado. Sem convicção pedi a Assane que me desculpasse perante Antoninho.
— Assane, eu preciso sair daqui.
— Calha bem, meu amigo. Amanhã mesmo sai o primeiro machimbombo de nossa empresa.
Fingi nem reparar. Nossa empresa? Então, o negócio já se expandira? Afinal, em guerra se pode prosperar mais rápido que em normais tempos de paz. Levantei outra, mais leve, dúvida:
— Já se pode circular na estrada?
— Não temos certeza. Vamos tentar.
— Está certo. Amanhã eu embarco nesse machimbombo. Me deixe agora, estou de mais cansado.
Eu queria ficar absolutamente só. Sentia na versão de Assane um sabor de falso. O paralítico estava agora unido com o administrador, lhe prestaria serviço apenas para encomendar simpatias. A morte de Farida seria um desses serviços. Antoninho seria um perfeito servente.
Durante toda a noite dormi um sonho, com sabores de autêntico. Enquanto adormecia mil perguntas me continuavam a agitar. E se não tivessem assassinado Farida, através da mão suja de Antoninho? Se o moço se tivesse realmente arriscado para a salvar? Nunca mais eu saberia o certo. No dia seguinte eu estaria de retorno à minha aldeia. Há quanto tempo eu tinha saído? O que acontecera, entretanto, a minha mãe, grávida de um impossível filho? E Junhito: será que cocoricava ainda pelos prados?
Agora era como se esses fantasmas trabalhassem em minha cabeça para me transmitirem seus segredos, revelações de um outro mundo. Vou relatar o último sonho a ver se me livro do peso de terríveis lembranças. Não quero que tais pensamentos me regressem. Preciso dormir, totalmente dormir, me emigrar deste corpo cheio de esperas e sofrências. Preciso descansar de suspeitas, esfriar meu desejo de vingança. Amanhã apanho o autocarro para regressar a minha aldeia. Não quero lembrar nada, nem Farida, nem Carolinda, nem Quintino, nem ninguém. O que queria mesmo era ir mar adentro, como Assma, empurrado num barquinho sem destino. Ou fazer como minha mãe me ensinou: ser a mais delicada sombra. É isso que desejo: me apagar, perder voz, desexistir. Ainda bem que escrevi, passo por passo, esta minha viagem. Assim escritas estas lembranças ficam presas no papel, bem longe de mim. Este é o último caderno. Depois, arrumo tudo na mala que me deu Surendra. No final, Surendra é o único de quem eu aceito companhia. O indiano mais sua nação sonhada: o oceano sem nenhum fim.
Me falta, pois, trazer o que essa noite viajou em minha cabeça. Me falta soltar o último peso que me impede ser sombra. Ponho o sonho, em sua selvagem desordem: eu estava descendo um vale molhado de tanta de luz, cheio de manhã. Aquela parecia a primeira madrugada do mundo. A luz se espantava de sua própria estreia, experimentando sua grandeza ao iluminar as mais pequenas coisas. As cores, de tanto serem novas, se cambiavam incessantemente. Foi então que vi avançar um enorme grupo de pessoas, pobres, embrulhadas em cascas e fiapos. Eram centenas de centenas. Foram-me enchendo o sono. À frente seguia o feiticeiro da minha aldeia. Envergava uma sarapilheira encardida, cujos farrapos poeiravam pelo chão. O adivinho olhou a terra como se dele dependesse o destino do universo. Pesava nos seus olhos a gravíssima decisão de criar um outro dia.
— É aqui mesmo!, disse.
Escolhia o caminho parecendo procurar o centro de uma invisível paisagem. Atrás dele se arrastava a multidão, rastejando como se suas vidas se alimentassem das pegadas de seu guia. O feiticeiro subiu a um morro de muchém e contemplou a planície. Ajeitou o chapéu feito de penas e enroscou melhor a sarapilheira como se aquele calor lhe esfriasse os ossos. Então, levantando o seu cajado sentenciou:
— Que morram as estradas, se apaguem os caminhos e desabem as pontes!
Depois, começou o discurso, desfiando palavras lentas, rasgando a voz de encontro ao vento:
— Chorais pelos dias de hoje? Pois saibam que os dias que virão serão ainda piores. Foi por isso que fizeram esta guerra, para envenenar o ventre do tempo, para que o presente parisse monstros no lugar da esperança. Não mais procureis vossos familiares que saíram para outras terras em busca da paz. Mesmo que os reencontreis eles não vos reconhecerão. Vós vos convertêsteis em bichos, sem família, sem nação. Porque esta guerra não foi feita para vos tirar do país mas para tirar o país de dentro de vós. Agora, a arma é a vossa única alma. Roubaram-vos tanto que nem sequer os sonhos são vossos, nada de vossa terra vos pertence, e até o céu e o mar serão propriedade de estranhos. Será mil vezes pior que o passado pois não vereis o rosto dos novos donos e esses patrões se servirão de vossos irmãos para vos dar castigo. Ao invés de combaterem os inimigos, os melhores guerreiros afiarão as lanças nos ventres das suas próprias mulheres. E aqueles que vos deveriam comandar estarão entretidos a regatear migalhas no banquete da vossa própria destruição. E até os miseráveis serão donos do vosso medo pois vivereis no reino da brutalidade. Terão que esperar que os assassinos sejam mortos por suas próprias mãos pois em todos haverá medo da justiça. A terra se revolverá e os enterrados assomarão à superfície para virem buscar as orelhas que lhes foram decepadas. Outros procurarão seus narizes no vómito das hienas e escavarão nas lixeiras para resgatarem seus antigos órgãos. E há-de vir um vento que arrastará os astros pelos céus e a noite se tornará pequena para tantas luzes explodindo sobre as vossas cabeças. As areias se voltearão em remoinhos furiosos pelos ares e os pássaros tombarão extenuados e ocorrerão desastres que não têm nome, as machambas serão convertidas em cemitérios e das plantas, secas e mirradas, brotarão apenas pedras de sal. As mulheres mastigarão areia e serão tantas e tão esfaimadas que um buraco imenso tornará a terra oca e desventrada. No final, porém, restará uma manhã como esta, cheia de luz nova e se escutará uma voz longínqua como se fosse uma memória de antes de sermos gente. E surgirão os doces acordes de uma canção, o terno embalo da primeira mãe. Esse canto, sim, será nosso, a lembrança de uma raiz profunda que não foram capazes de nos arrancar. Essa voz nos dará a força de um novo princípio e, ao escutá-la, os cadáveres sossegarão nas covas e os sobreviventes abraçarão a vida com o ingénuo entusiasmo dos namorados. Tudo isso se fará se formos capazes de nos despirmos deste tempo que nos fez animais. Aceitemos morrer como gente que já não somos. Deixai que morra o animal em que esta guerra nos converteu.
O feiticeiro se calou, extenuado. A sarapilheira estava ensopada de suor. Voltando a levantar o cajado sobre a cabeça ele ainda voltou a falar. Mas se pronunciou em palavras de nenhuma língua. As gentes seguiam o restante discurso à cata de alguma compreensão. Então, o nganga se calou, ergueu uma cabaça e verteu um líquido sobre os ombros. Depois, desceu o morro e fez pingar a cabaça sobre cada um dos presentes. Então se deu o mais extraordinário dos fenómenos e todos os presentes tombaram no chão, agitando-se em espasmos e berros, e se seguiu uma orgia de convulsões, babas e espumas e, um por um, todos foram perdendo as humanas dimensões. Penugens e escamas, garras e bicos, caudas e cristas se espalharam pelos corpos e todo aquele plenário de gente se transfigurou em bicharada. A fala foi a última coisa a ser convertida e, durante um tempo, se escutaram espantos e gritos humanos proferidos pelas mais irracionais bestas. Aos poucos, porém, também o verbo se perdeu e a bicharada, em desordem, se espalhou pelos matos.
Tombado de joelhos perante tais visões, eu olhei as próprias mãos para me confirmar humano. Retirei as vestes e apalpei minhas velhas formas. Com cautela, tossiquei para me certificar da voz. A medo fui emitindo palavras simples, depois frases sem nexo. Não havia dúvida: eu me mantinha completamente gente, habitando o corpo que sempre fora o meu.
Então, por entre as brumas do sonhado, vi um galo se aproximando. Era Junhito, quase eu ia jurar. Porque no inverso dos outros, ele se humanizava, lhe caíam penas, cristas e esporões. Me olhou ainda semibicho. Seus olhos me pediam qualquer coisa, nem eu adivinhava. Que ajuda lhe podia dar, eu, simples sonhador? O que sucedeu, seguidamente, foi que surgiram o colono Romão Pinto junto com o administrador Estêvão, Shetani, Assane, Antoninho e milicianos. Vinham armados e se dirigiram para Junhito, com ganas de lhe depenar o pescoço. Cercaram o manito, dizendo:
— Teu pai tinha razão: sempre te viemos buscar.
Então, Junhito me chamou. Eu me olhei, sem confiança. Mas o que em mim vi foi de dar surpresa, mesmo em sonho: porque em meus braços se exibiam lenços e enfeites. Minhas mãos seguravam uma zagaia. Me certifiquei: eu era um naparama! Ao me verem, em minha nova figura, aqueles que maltratavam o meu irmão se extinguiram num fechar de olhos. Mas Junhito ainda lutava para se desbichar, desembaraçar-se da condenação. Me veio à ideia que ele precisava de um pouco de infância e cantei os embalos de nossa mãe, sua última ponte com a família. Enquanto eu cantava ele se foi vertendo todo gente, completamente Junhito. A seu lado, como se chamada por meu canto, minha mãe apareceu segurando uma criança em seu colo. Lhes chamei mas eles nem me pareciam ouvir. Junhito colocou a mão aberta sobre o peito e depois fechou as duas mãos em concha. Me agradecia. Acenei uma despedida e ele, segurando minha mãe pelo braço, desapareceu nas infinitas folhagens.
Eu sentia que a noite chegava ao fim. Qualquer coisa me dizia que me devia apressar antes que aquele sonho se extinguisse. Porque me surgiam agora alucinadas visões de uma estrada por onde eu seguia. Mas aquela era uma muito estranha picada: não estava imóvel, esperando a viagem dos homens. Ela se deslocava, seguindo de paisagem em paisagem. A estrada me descaminhou. O destino o que é senão um embriagado conduzido por um cego? Fui sendo levado sem conta nem tempo. Até que meu coração se apertou em sombrio sobressalto. Me surgiu um machimbombo queimado. Estava derreado numa berma, a dianteira espalmada de encontro a uma árvore. De repente, a cabeça me estala em surdo baque. Parecia que o mundo inteiro rebentava, fios de sangue se desalinhavam num fundo de luz muitíssimo branca. Vacilo, vencido por súbito desfalecimento. Me apetece deitar, me anichar na terra morna. Deixo cair ali a mala onde trago os cadernos. Uma voz interior me pede para que não pare. É a voz de meu pai que me dá força. Venço o torpor e prossigo ao longo da estrada. Mais adiante segue um miúdo com passo lento. Nas suas mãos estão papéis que me parecem familiares. Me aproximo e, com sobressalto, confirmo: são os meus cadernos. Então, com o peito sufocado, chamo: Gaspar! E o menino estremece como se nascesse por uma segunda vez. De sua mão tombam os cadernos. Movidas por um vento que nascia não do ar mas do próprio chão, as folhas se espalham pela estrada. Então, as letras, uma por uma, se vão convertendo em grãos de areia e, aos poucos, todos meus escritos se vão transformando em páginas de terra.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

13/06/2026

Terra Sonâmbula — Décimo capítulo



A Doença do Pântano

Tuahir mira e admira. Há dias que não se arredam do machimbombo. No entanto, a paisagem em volta vai negando a aparente imobilidade da estrada. Agora, por exemplo, se desenrola à sua frente um imenso pantanal. O mar se escutava vizinho, a mostrar que aquelas águas lhe pertenciam. O velho se dirige ao miúdo:
— Quer ver o mar, não é?
— Muito, tio.
— Então, vamos embora.
E se fazem por caminhos de matope onde crescem as árvores do mangal. Atrás vai ficando a residência de chapa e cinzas, posta na estrada como um monumento de guerra.
— Quer ver o mar por causa do quê?
O jovem nem sabe explicar. Mas era como se o mar, com seus infinitos, lhe desse um alívio de sair daquele mundo. Sem querer ele pensava em Farida, esperando naquele barco. E parecia entender a mulher: ao menos, no navio, ainda havia espera. Por isso, ele enfrenta aquela marcha pelo pântano. Chapinham numa imensidão: lodos, lamas e argilas fedorosas. A caminhada iria durar os seguintes dias.
Logo na primeira noite os sentem. Os mosquitos. São grandes, negros, zunzumbentes. Não mordem, apenas. Entram no sangue e ficam chiando lá dentro.
— Merda de mosquitos!
Muidinga vai reclamando. O velho Tuahir lhe admolesta: não se chateie, miúdo. E lhe lembra:
— Foi o mosquito que construiu o pântano. Também, dentro de nós, o mosquito pantaneja, podrecendo nossas águas.
São tão picados que, ao despertar no seguinte dia, Tuahir tem as orelhas feitas num dobro. Não tarda a que lhe apareçam as febres. Seu corpo se cinzenta, os dedos se tornam asmáticos. Ele teima:
— A febre não é derivada dos mosquitos. É o canto desses pássaros que me faz quenturas.
— Quais pássaros?
— Você não lhes viu, esvoando por aí?
Muidinga não lembra ter avistado nenhumas aves. Quer dar cuidados ao seu companheiro. Mas o velho não aceita. Tem tanta febre que, posto nos charcos, faz ferver a água. O pântano em volta, sempre igual, faz perder as direcções. Estão perdidos, cansados. Sentados num tronco, esperam nem se sabe o quê. Devíamos ter ficado no machimbombo, comenta Muidinga.
— Foi você que queria ver o mar, lembra o velho.
O velho treme tanto que suas palavras se desconexam. Depois, se calam ambos. À volta, se escuta apenas o silêncio pingando. Tuahir, porém, ainda guarda algumas forças. Sobe num ramo alto e se pendura de cabeça para baixo. Muidinga se admira ao lhe ver morcegando. Mas ele lhe sossega: era hábito da infância. Seu sangue era fraco e a mãe o deixava amarrado pelos pés no tecto da casa.
— Sabe o que você vai fazer agora? É. Você vai dar voltas por aí e deitar susto nas aves da má sorte, essas que me estão trazer febres.
Muidinga parte então pelo lamaçal. O mangal, afinal, não se cansa em repetida monotonia. A paisagem se vai desembrulhando em novidade, seus olhos se estreiam naquela água. As garças flutuam como lenços brancos em fundo de cinza. Suas plumas, sem outro serviço que a beleza, penteiam a alma de Muidinga, como se lhe trouxessem a carícia do sono. Por cima do voo as brancas aves parecem meditar, seu peito sério, quase petulante. Seus gestos são de ensaiado bailado. Nem a fome lhes dá pressa, a caça se cumpre sempre mediante vagares.
Na margem das águas mortas, Muidinga olha as aves se afastando. Para além se estende o rasteirinho capim, emergindo muito verde por entre o solo escuro. Por entre os arbustos lhe chega o lamento de uma xigovia, essa flautinha feita em fruto da ncuacueira. Era um pequeno pastor que se aproximava. Ao vê-lo o pastorzito se assusta. Deve pensar que Muidinga é um saltinhador do mato. Muidinga o chama e se apresenta. Timiudamente, despontam os primeiros fios de conversa e os dois se vão confiando. Muidinga pede que o pastor toque a xigovia. E fecha os olhos, pronto a ser encantado.
— O senhor está dormitoso?
O pastor lhe sacode, aflito. Muidinga sorri, pedindo que comece. Mas o outro continua receoso. Diz que já tinha visto muitos adormecerem definitivos, ao som da flauta. Não quer que seu visitante vá muito longe, embalado no esvoar da mente. Em vez de xigoviar diz preferir contar uma história, verdadeira, passada consigo, naqueles mesmos pastos.
— Conta lá, então.
— Semana passada faleceu um boi, cujo esse boi era o maior de todos.
Assim desfia o menino seu relato. Havia, entre sua manada, um muito triste boizarrão. De manhã até de noite o bicho boiava em rasteira solidão, esquecido de si, dos capinzais e das obrigatórias ruminações. Seus olhos felpudos seguiam todas distracções. Tudo lhe era pretexto, fosse o estremecer de uma sombra, fosse o farfalinar de uma borboleta tricotando seu voo. O pastorzinho se agastava: que doença estaria a consumir o animal? E se decidiu a segui-lo, de luz a lés. Foi então reparou que o bicho se prendia na visão de uma dada e considerada garça. A ave pernalteava-se, se juntava às nuvens, suas gémeas: sempre e sempre a atenção do boi nela se centrava. O ruminante se imobilizava, impedido. O pastor chambocava o bovino a ver se ele manadeava. O varapau, vuuum-ntáá, estalava nos costados. Nem valia a pena. Pois ele sacudia os lentos cornos e seguia, de impossível, impassível.
Sem nenhum comer, o bicho definhava-se. O pastor nem sabia como explicar a seu tio, dono da criação. Certa noite, ao juntar suas migalhas, o pastor viu aquilo que duvidava de contar. Pois que o boi esticava o pescoço para a lua e declamava mugidos que nunca foram ouvidos. De repente, se agitou todo seu corpo, o bicho parecia estar em parto de si mesmo. De sua garganta se afilaram os gemidos que se foram vertendo, creia-se, num cantarinhar de ave. Às duas por uma, ele começou a minguar, pequenando-se de taurino para bezerro, de bezerro para gato chifrudo. Em violentos arrepios se sacudiu e os pêlos, aos tufos, lhe foram caindo. No igual tempo lhe surgiam plumas brancas. Em instantes, o mamífero fazia nascer de si uma ave, profundamente garça.
O recente pássaro, então, percorreu o redor, procurando não se sabe qual quê com seu olhar em seta. Até que, de súbito, se vislumbrou uma outra garça, essa mesma que lhe fazia, enquanto boi, demorar o coração. E o transfigurado mamífero acorreu em volejos, se chegando à autêntica ave. Dançou em repentinos saltos, as pernas de nervosa altura, como se estivessem ainda a soletrar os primeiros passos. A terra parecia demasiado pesada para aquele habitante dos céus. Ali ficaram os recíprocos dois, em namoros despregados, soltando brancas fulgurações.
O pastor se garantiu que assim acontecia todas as noites de luar cheio. No roçar da aurora, o boi regressava à condição de tristonho quadripedestre. Sucedeu um ano, contudo, que por meses seguidos, a lua teimou em não sair. Por tempos consecutivos, as noites se velaram, escuras, viscosas. O boi percorria as nocturnas horas se mantendo boi, mugindo como as acabrunhadas xipalapalas. Morreu na trigésima noite. O pastor assistira a sua lenta agonia e jura ter visto lágrimas deflagrando nos redondíssimos olhos do bicho.
O menino suspende o relato, uma angústia lhe prende a voz. Muidinga não sabe como reparar aquela falta em seu companheiro de ocasião. Lhe faltam palavras, lhe fogem as entrelinhas. Então, tira de si o amuleto que o protegia dos maus espíritos, prenda de Tuahir. Afinal, trocam magias. Aquela suave estória, concedendo leveza a um apaixonado bovino, soava como uma dádiva de magia.
Se faz tarde, Muidinga se despede do pastorzito, regressando ao lugar onde deixara o companheiro doente. Tuahir se desprendera da árvore e treme. Ele tinha concebido um plano: juntariam uns paus de mangal, improvisariam uma jangada para fugir pântano abaixo. O miúdo tinha razão, admitia. Talvez na praia encontrassem gente, barcos, viagens.
— Mas você não tem força para nada, tio Tuahir.
Tuahir então apontou para a margem: ele já juntara os paus e os amarrara no jeito de barcaça. Nesse poente, os dois partem naquela jangada. Muidinga remava. Se recorda de Kindzu em suas aventurosas viagens. A tremeluzente voz de Tuahir se faz ouvir:
— Se eu falecer aqui não me enterre no matope.
— O tio não vai morrer.
— Você não sabe nada. Vou-lhe dizer: quem morre enterrado no lodo se transforma em peixe.
— Está bem, não lhe enterro. Se um dia o tio morrer faço como fizeram com Taímo. Lhe deitamos na água.
O velho sorri e se enrosca em si, como se procurasse um ventre. Depois adormece. À medida que a jangada avança no mangal o miúdo vai medindo o quanto afecto guarda por aquele homem. No fundo, o velho foi toda a sua família, toda a sua humanidade. A jangada escorrega pelas lisas águas até desembocar numa margem onde a areia branqueja. Nítido se escuta o rugido do mar.
— Escute: é o mar, o autêntico mar. Já estamos perto, tio.
— Oh, esse mar já escuto desde que chegámos lá no machimbombo.
Cada vez mais a voz de Tuahir se esfuma. Em auge de arrepios, o velho pede carinhos de mão e de peito. Não era requerer de doente mas de esposa. Muidinga lhe ajusta a manta na esperança que ele caia em sono. Porém, Tuahir lhe surpreende as mãos, juntando-as a seu rosto. Pede ao rapaz que se deite juntinho a si, para ganhar quentura. O velho levanta a sua manta, abrindo espaço para que Muidinga se ajuste. O rapaz se deita, constreito. Dois medos em si se juntam: o de tocar em Tuahir e o de se estar deitando com a morte. Maneirosa, a mão do outro lhe desvanece uma ruga que teima em seu rosto. Longe se escuta o assobio da xigovia.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

07/06/2026

Nono caderno de Kindzu | Apresentação de Virgínia



Minha discordância com Quintino começou antes sequer de partirmos. No dia combinado para sairmos para o mato ele não compareceu. Esperei em vão. Procurei aquele que me iria guiar e que agora parecia estar perdido. E realmente ele estava sem prestar acordo. Deitado num velho muro, ventre inchado, embriagordo. Atordoído, titupiante, Quintino se explicou:
— Hoje sou cobra com cócega na barriga: não saio do lugar.
— Porquê se embebou tanto, Quintino?
— Estive com Romão Pinto, é por isso bebi.
— Quem é esse Pinto?, perguntei.
— Não lembra? É o colono, meu patrão. Aliás, meu ex-antigo.
— E agora?
— Agora tenho de beber mais, respondeu.
Desisti. Minha saída da vila estava adiada por uns dias. Decidi espreitar a velha Virgínia, conhecer aquela que fora a segunda mãe de Farida. Quem sabe ela teria informação sobre Gaspar? Cheguei e fiz espera, semioculto, lembrando o conselho de Quintino:
— Se passar daqui não se mostre. A velha não gosta.
A manhã foi subindo até que Virgínia lá saiu e se encostou no muro do quintal. Fiquei ali horas perdidas, espreitando a uma distância, entre os verdes-escuros das mafurreiras. O que vi ali me encheu de fantasia, estórias de reaver este mundo onde não cabemos. Apresento a velha Virgínia. Como se ainda a estivesse vendo, no actual hoje. Acrescento o que dela me disseram, em pinceladas de retrato. Entre mim e a idosa senhora a estrada se espreguiça sem nenhum fazer. Na margem dessa estrada eu me sento, retiro meu caderno e escrevo ali mesmo como se receasse que seu desenho me fugisse.
Dona Virgínia Pinto. Ali estava ela, varandeando no exercício de sua última meninez. Em nenhuma data os carros por ali poeiram. As cidades agora são muito longe, a guerra rasgou os cantos da terra. A portuguesa se vai deixando em tristonhas vagações. Branca de nacionalidade, não de raça. O português é sua língua materna e o makwa, sua maternal linguagem. Ela, bidiomática. Os meninos negros lhe redondam a existência, se empoleirando, barulhosos, no muro. Ela nem zanga.
E me contam assim: que Dona Virgínia amealha fantasias, cada vez mais se infanciando. Suas únicas visitas são essas crianças que, desde a mais tenra manhã, enchem o som de muitas cores. Os pais dos meninos aplicam bondades na velha, trazem-lhe comida, bons-cumprimentos. A vida finge, a velha faz conta. No final, as duas se escapam, fugidias, ela e a vida.
Dentro do quintal, tudo é bravio, o mato em minifúndio. Silvestram-se as flores, mais espinhos que pétalas. Os capins já lhe chegam pelos ombros. Ela nem repara a urgência de aparar o capinzal.
— Não é a relva que cresceu. Fui eu que adimininuí.
Também a casa lhe parece maior. Agora, ela quase se perde no inaposento. A cama de casal é uma extensão muito enorme, acrescentando solidão na viuvice dela. Seu marido, Romão Pinto, se retirou da vida vai fazer dez anos. Do defunto esposo ela não guarda senão o inverso da saudade. Um pressentimento que ele haverá ainda de chegar, fosse o falecido não um ente do passado mas do porvir. Os vizinhos se admiram com essa falha em sua lembrança. No princípio, acreditavam ser desbotura da memória dela. Coitada, o hoje é para ela mais antigo que o anteontem, diziam. Mas, depois, se convenceram de que outro problema se tratava. Porque Virgínia seguia teimando na ideia de um noivado ainda por estrear. No lugar do suspiro saudoso ela punha a ânsia do há-de vir.
— Quando eu for da idade de casar esse homem me vai chegar.
Os vizinhos não variavam: a velha durava mais que a validade de seu corpo. Deixassem seu sonho enlouquecer. E perguntavam, entre risos: o grilo, quando nasce, já tem a toca feita? É assim a velhice. Virginha que trocasse passado por futuro, sonhasse não com o fim da vida mas com as nascenças que lhe faltavam. Tudo isso que importava?
— Sabem o motivo das orações dela? A gaja reza para não continuar a diminuir de tamanho.
E reproduziam as longas-lengas dela: Santíssimo Padre, se eu continuar a minguar, nem o cavaleiro Romão me notará quando passar por estas bandas. E repetia, de si para si, desencostadas frases: ontem, quando eu morrer. Virgínia, Virginha, Virginhinha: o povo lhe indistinguia variedades do nome. E todos se condoíam de sua velhice como de uma orfandade se tratasse.
Uma ocupação lhe dava fazer: criava sapos no quintal. De dia deixava as moscas patinharem os vidros das janelas. À tarde, juntava-as numa caixa e lhes tirava as asas, uma a uma. Chegada a noitinha ela saía de casa e espalhava as desasadas moscas pela relva. Chamava os batráquios por nomes, sortidos de sua autoria.
— Que vai ser deles quando eu morrer?
Fosse, quem sabe, essa a ideia dela: haver alguém neste mundo que lhe desse falta. O sol se vai devagarinhando, parece uma das moscas a quem a velha cortara as asas subindo pelas horas do dia. A velha se deixa ficar, misturando a sua sombra com a do velho muro, olhando a vida como um lugar que já foi seu. O certo é sabido: na seguinte manhã os meninos regressam, subitamente calados, e se envoltam nela.
— Cuidado, crianças. Não me pisem os sapos.
Uns lhe penteiam as névoas, outros lhe cortam as unhas, outros ainda lhe corrigem os cuspos no queixo. Ela se deixa, dissolvida, sonambulada num fecha-te sésamo. Os meninos lhe pedem: avó, conta estória. Virgínia sorri. Eles lhe chamam de avó. Como ela se embeleza com aquela palavrinha: avó!
— Qual querem, meus filhos?
— Conta aquela do pai de seu pai.
Virginha sorri, grata dos meninos se introduzirem em sua família como se eles fossem tão antigos como ela. Depois, vai soltando lembranças que escorrem como lento óleo. Saltita do português para o makwa, já não distingue sua original versão.
— Como chamava o mucunha, quem lembra?
— Mucunha Curucho, responde a miudagem numa só voz.
Ela acena, em festa: isso, o senhor Cruz, seu avô, homem frequente em terras do outro lado da montanha. Sua única obra havia sido um farol. Os meninos se disputam, todos querendo mexer na fábula da velhinha.
— Mas esse farol dele, afinal vavó? Se o mucunha vivia lá nos interiores, onde mar nem chega...
— Não acreditam?
Ela amuada, se desliga. As crianças lhe entregam mimos, rogam para que prossiga. Ela, nada. Por fim, eles aceitam a verdade dela. Sim, um farol. Um, próprio. Seja perto ou longe do mar, quem proíbe os faróis de nascerem onde bem entendem? Pois, esse farol: desempregado, nem de vista conhecendo nenhum barco.
— E para quê o mucunha precisava um farol dele?
Era promessa que ele jurara da vez que sobrevivera a um naufrágio. No enquanto da estória, o dito avô ia perdendo o nome, saltitando de morada e profissão. As falas de Virgínia não se acertavam. Os meninos, por vezes, corrigiam: o mucunha Curucho, não esqueça vavó. Mais Virgínia repete os contos mais a verdade se resvala: o avô Cruz de olhos louros, hoje; amanhã um negro de rosto carapinhoso. A criançada nem se importa. Verdade, em infância, é um jogo de brincar. Em redor da anciãzinha, os miúdos sempre folgam, sem desilusão. Com gesto largo, ela pede menos barulho. Deixassem chegar, audíveis, as ordens de Deus. Que Ele é quem mandava os viventes descansarem.
— Vocês com vosso barulho nem me deixam ouvir a ordem Dele. Se calhar, até já me mandou descansar, nem dei por isso...
Terminadas as estoriazinhas, a velha leva a criançada ao poço. Vão em excursão, passarinhando. Chegados ao pátio vizinho, Virginha repete o mesmo ritual: pede aos meninos que lancem uma pedra no poço.
— É para ver se ainda tem água, vavó Virginha?
Ela não responde. Pega numa pedra e atira na boca escura da terra. Lá, do fundo húmido, responde um lamento. Depois, sobe um canto, tche-tche-tchém. É um barulho, surdimudo, que vai crescendo.
— O que é isso, vavó?
— É a água chorando.
— E por que chora?
— A água chora com pena de uma viúva que perdeu seu marido, vítima de maldição.
— E essa viúva quem é, vavó?
— Não sei, meus filhos, essa mulher parece já morreu, faz conta foi há tantíssimo tempo.
Eram as palavras dela fechando o dia.
Pouso os cadernos e espreito a portuguesa. Vou refazendo a velha Virgínia enquanto ela, alheia e distante, está no outro lado da estrada, à mão de semelhar. Está tão perto que não resisto a me chegar mais, ouvir sua voz cheia de tempo. Atravesso a estrada, desobedeço das instruções de Quintino. A velha só quer ser visitada por infâncias? E se eu me mostrar criança, quem sabe ela me aceita? Estou quase junto a ela, chamo por seu nome. A velha levanta o rosto, fresteja os olhos para me enfrentar.
— Quem tu és?
— Sou Kindzu. Quero falar com a senhora...
— Falar?
— Quero saber de Gaspar. Se lembra dele, Dona Virginha?
A velha se alheia, passa os dedos pelo rosto em exame das minúcias. Toca os lábios e depois, tirando a língua de fora, pergunta:
— Vês a minha língua?
— Vejo. Porquê?
— É que a minha língua está a aumentar de tamanho.
Ri-me, inesperado. Séria, ela argumenta: a tua língua também há-de aumentar quando fores velho. Ou será que é o resto da cara que diminui com o tempo?
— Não lembra, Farida?
— Com a língua assim não posso lembrar nada.
A velha brincava-me. Então me excedi, em altos tons. Falei em desordem, com pronúncia que me vinha do peito. Disse tudo. Que vinha por causa de Farida, tinha sido ela que me pedira que procurasse seu filho dela.
— Não diga que não se lembra de Farida. Não posso acreditar que tenha esquecido.
Dona Virgínia bastante se admira com meus modos, me puxa pelos braços para dentro de casa. Está com nervos na flor da pele. Me ordena silêncio, enquanto segredeia:
— Não posso falar aqui.
— Porquê?
— Senão esta minha casinha se enche de fantasmas.
— Falamos onde, então?
— Vamos para minha antiga casa. Me faça uma coisa, entretanto: me chama de vovó. Para eu lhe ver como uma criança.
E fomos ao passo lento de Virgínia. No caminho ela me confessa seu medo: nunca tinha regressado ao velho casarão. Por isso, quando chegamos prefere não entrar. Ficamos os dois nas escadas da moradia colonial. Sentamos nos degraus. Virgínia recorda seu cruzamento com Gaspar, o menino de Farida. Lembra uma incerta manhã, alguém batendo em sua janela:
— Vavó: está um menino morto no seu quintal.
Virgínia acorreu às traseiras e viu um corpo estendido entre os capins. Não estava morto. Apenas dormia, exausto. Ela confirmou que o menino ainda estava vivo mas não o apanhou nem amparou. Foi buscar uma pá e atirou-lhe com terra, enquanto dizia:
— Morre, meu menino. É melhor morrer-se, enterradinho, que ficar aqui. É que esta vida não dá acesso aos meninos.
As outras crianças chegaram e lhe viram sepultando o vivo. Se intrometem, suspendendo a intenção da velha.
— Vavó, deixe ele viver! Só um bocadinho!
— Para o quê?
— Para ele nos contar a estória dele.
Virginha duvidou, mas concorda. E assentaram. O intruso que se mantivesse e repousasse até se recompor da palavra. Que eles andavam carecidos de novidades, dessas que vale a gente acreditar. Os meninos e a velha se conluiaram: nós lhe curamos e alimentamos e depois matamos, ninguém mais vai pôr ouvidos na narração dele. Fica estória só nossa. E se ajustaram:
— Lhe guardamos no poço, amarradinho para não fugir.
O poço estava seco, devido da ausência das chuvas. Levavam-lhe comidas, lhe trocavam os trapos já molhados e fedorentos. Outro qualquer teria esvanecido. Mas Gaspar era constituído, moço de suar e ressoar. Mesmo dentro do húmido poço ele foi ganhando forças, sua pele se rebrilhou. Quando, de noite, lhe tiravam das funduras ele se mantinha calado, dobrado e vincado. Os meninos, olhos cheios, punham nele toda a expectativa. Mas ele demorava a soltar a voz.
— Vão ver é mudo.
Desencadearam-se então grandes chuvadas, dessas de encher todos os mares. Virgínia pensou no poço, Gaspar-zito no fundo. Os meninos foram com ela ver se a água já cobrira o buraco do poço. Ainda não. A chuva torrenciava, quase nem se via um palmo mesmo em noite de lua plena. Espreitaram, nada viram. Escutaram: só o timbiliar das gotas no fundo. Já se retiravam quando uma voz lhes chamou. Era Gaspar que gritava. Tinha-se decidido a falar. Foi uma geral exclamação, um plenário de alegrias. A velha ordenou que juntassem forças e, no puxar-junto, retiraram o miúdo do poço. Estava encharcado, tremia dos pés aos cabelos.
— Tenho frio, foi a primeira coisa que disse.
Deram-lhe um agasalho e ordenaram: conta, conta uma estória. Fizeram uma roda à volta dele. Um dos meninos endurou um dedo e avisou:
— Ai de ti se não gostarmos da tua estória.
Gaspar começou a medo. Contou a sua vida, sem esconder detalhe. Desfiou prosa por tempo. Quando se calou a chuva tinha parado. Os miúdos se entreolharam. Não tinham gostado, era uma estória triste. Nos dias de hoje, quem quer fantasiar desgraças? Um coro de estridências se levantou clamando para que o contador fosse punido. E que fosse castigo de peso, para aprender no curto resto de sua vida. Relançado no poço e coberto de pedra, sugeriam uns. Outros simplificavam: seja enraizado na horta da avó, volte-se ao princípio da vontade dela. Enquanto os ânimos se enroscavam um silêncio se foi compondo. Todos esperavam a sentença de Virgínia. A velha, contudo, parecia desértica, abstasiada. Os olhos duravam mais que uma tristeza eterna, tanto que doíam de serem vistos. Com um gesto vasto mandou que a meninada se afastasse.
— Deixem-me ficar sozinha com ele.
As crianças, surpresas, obedeceram. Saíram pelo escuro, pés lentos de contrariedade. A velha enfrentou o jovem, sem nada pronunciar.
— Não posso ir, eu também?, perguntou Gaspar.
— Não.
— Porquê?
— Porque tu és meu filho. Teu pai foi o meu falecido homem, tu és quase-quase do meu sangue.
A velha se ergueu e sacudiu a capulana. Passou o pano pelos ombros do miúdo e lhe disse:
— Vem, vamos para nossa casa.
Sentada no degrau de sua antiga casa, Virgínia ajeita o agasalho, resguardando-se do cacimbo da noite. Parou de falar, deixa pelo meio a narrativa. Está preocupada com alguma coisa, não sei qual.
— E depois, vovó, o que aconteceu?
— Esse menino ficou só uns dias em minha casa. Depois, fugiu ninguém sabe para onde.
— Ele sabia de tia Euzinha?
— Sabia. Se calhar foi ter com essa tia.
A portuguesa aponta para uma grande mangueira. Era aquela a árvore em que ela e Farida se sentavam lendo as cartas. Seus olhos estão carregados de saudade. Súbito, Virgínia me manda calar.
— Shuut, vem aí alguém.
Não ouço nada. É um espírito, diz a velha. Não. Não é alma nenhuma. É o administrador da localidade, o próprio. É ele que vem vindo, escondido pelos atalhos. Virgínia se interroga, em sussurro. O que vinha ele ali fazer, a uma hora daquelas? Resposta que só tive mais tarde quando Quintino me contou a verdade dos acontecimentos. O que se passava sem que eu nem Virgínia soubéssemos eram atribulações que agora posso descrever.
Disfarçado na escuridão dos trilhos, o administrador Estêvão Jonas desconhecia o fim da sua pressa. A mensagem lhe chegara por vias atravessadas. Fora o tal Quintino que lhe trouxera o recado. Dizia que ele, o camarada-em-chefe, se deveria conduzir para casa do falecido Romão Pinto, residência igualmente falecida por nela só habitarem as vozes dos malquistos.
Chegara ao pátio da velha casa. As árvores se sujeitavam às mágoas da ventania, que o vento nunca se levanta contente. Os cães uivaram, o administrador estremeceu. Por que razão aqueles bichos se intransigem em noites que tais? Será que o cão escuta um outro uivo na lua? Estêvão Jonas tossiu alto, mais para se confirmar, esmaltado por fora mas alcatifado de medo por dentro. Naquele instante, ele tinha mais freios que dentes. Avançava colado nas paredes, forrado nelas como o deslizar de uma sombra. Num repente, saltou em danado susto. De dentro do casarão chegaram estrondos de madeira, caixas batendo em todos os sons. Havia alguém roubando as heranças do malvado colono?
Por momentos, pensou que o atinado seria chamar o seu miliciano. Não por motivo de medo mas derivado da conceituada importância da sua sobrevivência. Nesse vai-que-vai reconsiderou. Afinal, o mensageiro tinha sido claro: ele teria que se apresentar sozinho, mais ninguém deveria saber.
Estava na soleira de um adiado passo quando as portas se abriram de chofre e eis que, visão dos infernos, apareceu o falecido Romão Pinto carregando às costas o seu próprio caixão. O administrador disparou numa correria, trepando arbustos, galgando pedras, para além das humanas velocidades. Estrumando-se numa valeta próxima ele se extinguiu, escuro no escuro. O defunto se aproximou e não esteve com medidas:
— Levanta-te e ajuda-me a carregar esta merda deste caixão.
Estêvão não tinha boca para tanto espanto. Porém, ainda acumulou força para responder:
— Não sou um qualquer de carregar.
— Não és o quê? Deixa-te de calcinhices e agarra mas é desse lado. Vá!
Estêvão mediu as condições, aplicou as mais dialécticas análises, segundo os sábios ensinamentos do materialismo. Podia ele enfrentar um fantasma? O melhor seria aceitar o sem-remédio da circunstância. E oferecendo as costas, levantou a caixa. O colono, enquanto caminhava, lhe explicava: o caixão era para oferecer ao povo. Todos dão donativos aos pobres. Aquela era a sua solidariedade. Desperdício seria a coisa ficar ali, simples caixão-de-correio entre vida e morte.
Arrumaram o desocupado féretro na arrecadação. Com um empurrão o antigo colono fez sentar o administrador. E conversaram até madrugada. Que falaram? Ninguém sabe o certo. Mas parece que o Romão deitou muita dúvida sobre o futuro de Estêvão. Naquele regime que segurança tinha o futuro? Amanhã ele recebia o devido pontapé nas partes adequadas e ninguém mais se lembraria dele. O moçambicano ripostou, quisesse o estrangeiro ensinar o Padre-Nosso ao vigarista.
— Eu tenho os meus esquemas, Romão. Não pense que somos burros, como sempre vocês insistiram.
Esquemas, qual o quê. Uns negócios de tigela furada, coisa de pouco brilho. Umas cervejitas de lata amontoadas no passeio? O colono roubava o lustro da iniciativa do administrador. Naquele solene assento, o português lhe prometia coisa grossa, choruda. A ideia sendo a seguinte: que ele mesmo, óbito reconhecido, ainda por cima carregado de raça e nacionalidade, não mais podia reaver seus antigos negócios.
— Já bastava ser branco, ainda por cima portuga. Agora, tudo isso e falecido é que não vale a pena.
Necessário seria que Estêvão despachasse assinatura mais seu rosto devidamente originário à frente do empreendimento e os cordéis correriam que nem saliva em boca gulosa.
— Mas e o capital?, se entusiasmava o administrador.
Esse o problema. Havia dinheiro, fora e dentro. Bastante, mais até que bastante. Mas do falecimento em diante, tudo passara para o nome de Virgínia, a tonta viuvinha. Estêvão Jonas lançou a risada:
— Nós tendo-lhe pena e, afinal, a velha cheia da mola!
Romão bateu na parede: sim, a maldita estava podre de rica. A dúvida que permanecia era se ela estava mesmo esmiolada, na posse de suas plenas fraquezas? Porque havia que a convencer a assinar uns cheques, movimentar as massas de bons modos.
— Mas ela está doente, Romão.
— Ou faz-se?
— Não sei. Uma coisa é certa: temos que cuidar dela, a velha não pode pifar-se.
— Mas a gaja está assim tão velha?
— Na pele dela já há lugar para mais nenhuma ruga.
E os dois se acresciam do valor da idosa senhora branca. Ela não se podia apagar, havia que proteger a assinatura das papeladas bancárias. Entretanto, se arranjaria maneira de a convencer. Combinaram as necessárias políticas: Estêvão Jonas devia seguir uma política de ofensa e ofensiva. Deveria manter aceso o assunto da raça, proclamar os privilégios da maioria racial.
— Mas dessa maneira lhe prejudico, Romão.
— Ao contrário, meu caro sócio.
E justifica: assim ninguém desconfiaria do pacto feito com um branco. O português parece ter meditado no assunto em sua estada pela inexistência. E desenrola mais conselhos:
— Dás umas discursatas contra a brancalhada. Só para disfarçar.
Para não chocar nas vistas, até dava graça. Um regime ganha validade, caro Estêvão, é quando contra argumentos não há factos. Mas uma coisa devemos acertar: o povinho discursa lá nas banjas mas decidimos nós é aqui, neste mesmo lugar, compreendes, Estêvão Jonas? Não há mais nada para ninguém, o diabo seja bruto e cego. E falemos baixinho que as paredes têm mais orelhas que o elefante.
E o morto reentra na obscura casa. Estêvão Jonas fica a vê-lo a extinguir-se. Seu sorriso é o de um vencedor. Ainda há pouco ele se acobardava. Agora, o dirigente goza um sentimento de comando que há muito não experimentava. Lá na administração não passava nenhuma das rédeas que faz mudar o destino. E é assim, confiante que nem estátua de herói, que apanha o maior susto. Carolinda, sua bela esposa, lhe surge entre escuros arbustos.
— Que veio aqui fazer, Estêvão?
O administrador, tartamudo, se desculpa: que nada, se tratava de um passeio digestivo para temperar o estômago.
— Onde está a mulher com quem você se encontrou?
Estêvão Jonas ri, aliviado. Então é isso? A esposa, sempre alheia e abstraída, acredita que ele se veio encontrar com uma amante? O dignitário sente-se orgulhoso. Os inesperados ciúmes da esposa lhe levantam a crista, galo subitamente galante. E tranquiliza a esposa, lhe conta o sucedido, acordos e sociedades com o pseudofalecido. Pior foi a emenda:
— Agora te apanhei, Estêvão. Você está combinado com os antigos colonos.
— Combinado como?
— Sempre eu dei o nome certo à tua função: você é um administraidor!
Afinal que moral era a dele? O administrador contrargumenta: ninguém vive de moral. Será, cara esposa, que a coerência lhe vai alimentar no futuro?
— Você, Estêvão, é como a hiena: só tem esperteza para as coisas mortas.
— Essas suas palavras já são canto de sapo.
— O povo vai-te apanhar. Não voltas mais a esta casa, senão te denuncio.
— Como não volto? Agora eu e Romão Pinto temos negócios, somos sócios. Tenho que vir aqui. Ou não diga, mulher, que quer que ele vá até lá na administração?
Carolinda lhe avisa: ele estava a subir a árvore pelos ramos. A bronca quando viesse era para valer. Afinal um bruxo é apanhado por outro bruxo.
— Não sabe, Estêvão? Casas juntas, ardem juntas.
O administrador lhe pede que ferva baixinho, ainda vinham parar ali indevidas curiosidades. Paternal lhe aconselha bons-sensos: ela era esposa de um africano, devia beneficiar de estar calada, subordinadinha. Devia até ficar contente pois a riqueza que viesse seria para dividir pela família e os parentes dela se vantajariam também.
— Não quero esse dinheiro. Nem minha família aceita dinheiro sujo. Você há-de pagar essa traição.
— Mas Carolinda, se acalme. Isto são contradições no seio do povo...
— Vá-se embora, Estêvão. Eu não lhe quero ouvir.
— Tem que me ouvir.
— Vá-se, senão eu grito, grito até isto se encher de gente.
O administrador se retira com alguma pressa. Antes de desaparecer no escuro ainda olha para trás e se admira com o tamanho da sombra de Carolinda. É uma sombra enorme que se projecta no enorme casarão. Se o administrador, antes de retirar, tivesse posto menos medo e mais atenção teria visto Virgínia se erguendo nos degraus da escada. Chamei a sua atenção. Virgínia, com um gesto, me faz sentir que não há perigo, Estêvão já ali não está. Ela anuncia sua retirada:
— Já vou. É hora de dar comida aos meus sapos.
— Eu vou consigo, lhe faço a companhia.
— Não, eu não quero que você seja visto comigo.
— E porquê?
— Não esqueça eu sou uma velha tonta, não falo com gente crescida. Só mereço confiança das crianças. Sabe o que ando a adivinhar? Que o Romão quer que eu assine papéis autorizando dinheiros. Como é que posso assinar um papel? E dinheiro, eu sei o que é dinheiro? Não faço nenhuma ideia. Me entende, Kindzu?
Sim, agora eu entendia as extravagâncias da portuguesa. A dita loucura dela era seu refúgio mais seguro. E lhe fiquei a olhar enquanto ela se despedia pela estrada escura. Carolinda escutara nossas vozes. Se aproximou, desconfiada.
— Afinal, é você?
Me levantei e lhe acariciei os braços. Ela se anichou, com um estremecer de ave. Mas depois, se endireitou, rectificada:
— Não podemos ficar aqui. Meu marido me desconfia muito.
— Vamos para onde, então?
— Vamos para dentro de casa.
Me arrepiei. Neguei com tanta determinação que ela sorriu: será que eu acreditava em ressuscitação de falecidos? Eu queria justificar as presenciadas visões que tivera mas ela nem deixou que falasse. Que estava certo, disse. Ficássemos ali mesmo, em plena escadaria. Sentámos em degraus consecutivos, ela se encostou em mim. Um volume em meu bolso me chamou a atenção. Era o colar que Carolinda esquecera da primeira vez que fizéramos amor. Balancei o fio em frente de seus olhos e perguntei:
— Se lembra disto?
Ela riu. Se lembra dos momentos na cadeia quando ela me libertou. E lhe chegam as palavras de despedida total, o seu desejo de que eu me tornasse inatingível. Mas eu ali estava, mais possível que nunca. E ela se esfrega com doçura no meu peito. O seu perfume me recordava o odor da sura, uma antiga embriaguez que me vinha da infância. Quando a beijei, porém, me fugiu um outro nome: Farida! Carolinda, de um golpe, se afastou de mim.
— Você conhece Farida?
— Farida? Não.
— Mas me chamou de Farida.
— Impressão sua.
Carolinda pareceu acreditar. Suas costas, contudo, ainda estavam tensas. Aquele nome lhe fazia muito mal.
— De repente, você me fez lembrar meus dois maridos.
— Dois?
— Sim, eu já tive um outro que faleceu.
Então, ela falou de suas mágoas, arrastadas águas que encheram a noite. Estêvão vivia torturado pelos ciúmes. Juntava irrazoáveis razões para acusar Carolinda. Passavam as datas históricas, ele nem tinha tempo para lembrar a comemoração. Mas Carolinda lá ia, envergadinha de cerimónia, prestar homenagem aos heróis da luta pela Independência. O administrador interrogava: será que ela ainda lembrava o anterior, falecido marido? Ele morrera na guerra de libertação, Carolinda era ainda uma menina sem idade. Dizem foi emboscado não pelo inimigo português mas por próprios elementos da guerrilha. Deste então Carolinda ficara suspeitosa, ganhando mania de ver traições em todo lado. A mulher insistia: as palavras de um dirigente devem encostar com a sua prática, afinal onde estão os princípios, a razão que pediram aos mais jovens para dar suas vidas?
Mas aquela desconfiança, no final, tinha razão de ser. Não que houvesse um outro homem na vida dela. Não havia era nenhum. O administrador era uma simples ausência. Carolinda não lhe guardava nenhum afecto. Estêvão era hoje um homem de mando, amanhã seria um pau-mandado. Ela seria ainda sua servente, ele continuaria sem sequer a ver. Carolinda repetia: o casamento dela não fora prematuro. Fora pré-imaturo. Ela era criança, com muito medo e nenhum saber. Estêvão lhe dizia: não chora, Carolinda. Não sabes a adolescente que dorme com um homem cresce mais depressa?
— Eu, Carolinda, estou a fazer a tua idade, acrescentava.
Mas ela nem queria crescer. Antes de Estêvão chegar, seu único desejo era alguém que a tirasse dali. Matimati era um abafado lugar, uma prisão para seu desejo de sonhar. Carolinda não tivera meninice que se recordasse. Ela queria casar permanecendo menina. Como acontecera, afinal, no primeiro casamento. Se untava de óleos para que a sua pele brilhasse em olhos machos. Mas, ao mesmo tempo, guardava os brinquedos da adolescência. O que ela muito mais queria era ser escolhida, levada daquela miséria. Andava na estrada para ser vista. Mas não parava em nenhuma aldeia para não ser desejada por ninguém daquelas bandas. Estêvão Jonas passou por ali, fardado de guerrilheiro, sacudu às costas. Ela acreditava que aquele homem estivesse de passagem para muito longe, para um mundo invislumbrável. Se ofereceu, dispondo-se a seu agrado. Depois da Independência, ele foi nomeado para chefe da administração de Matimati. Disseram ser coisa transitória. Mas o tempo passava e não chegava nunca a sua transferência. Estêvão nem sequer era dali, não entendia a língua nem os costumes daquela gente. Ele também se frustrava embora nada dissesse. Aceitava porque aprendera a disciplina de obedecer sem questionar. Vendo o tempo passar Carolinda começou a deitar ódio nele. Essa raiva lhe chegava em ondas. Ela queria magoá-lo para que ele despertasse. Fazia-lhe mal porque era uma maneira de ele se mostrar novo, de provar que estava vivo. No mais ele era um mortiço, acanhado de sonhar, medroso de pensar. Estêvão estava cansado de sua militância, exausto por sempre ter que se apagar. Foi então que surgiu na administração uma mulher de nome Farida.
Não era apenas bonita. Sua beleza tocava profundamente Carolinda e lhe fazia um gosto quase de ser homem, poder tocar aquele corpo. Farida vinha ali colocar o caso de seu filho, dado improvável nos matos. Havia centenas de outros casos mas Estêvão pôs naquele uma atenção muito especial. Carolinda, pela primeira vez, sentiu a vertigem do ciúme. Quando tocou o assunto o marido lhe respondeu:
— Farida lhe irrita? Se calhar é porque é parecida com você.
O ciúme crescia com gosto em Carolinda. Tanto que a sua entrega na cama se passou a fazer com incendiada paixão. Estêvão se admirava: que se passa consigo, mulher? Mas a tal Farida inesperadamente se retirou de Matimati. Emigrara para um naufragado barco e ali ficara. Aquilo que era simples ciúme se converteu em ódio. O que lhe dava tanta raiva? Era perder o objecto do ciúme? Ou seria inveja da outra estar a caminho de sair daquele inferno? Sim, Farida fugia da pequeninez daquele lugar mesmo que o fizesse pela loucura de embarcar num barco encalhado. Mas sempre era uma viagem, uma saída daquele inferno. Era essa fuga que Carolinda não podia aceitar. Assim, ela se deu a conceber uma vingança contra Farida. Incitava Estêvão a tomar medidas contra o barco, inventando perigos na estada de tal mulher num tal barco. Os homens de Estêvão tinham ido ao navio recolher a melhor parte dos bens? Pois Farida assistira àquele desvio, se preparava para denunciar o caso. Estêvão fingia acreditar e dava desleixadas ordens para que a dita mulher fosse retirada do barco.
— Então essa é a tal Farida?
— Sim, essa é a razão por que fiquei chocada quando você me chamou com o nome dela.
— Mas eu não chamei.
— Acredito. É minha cabeça que está presa nessa mania.
Carolinda, de novo, amoleceu em meus braços. Ali nos incómodos degraus do fantasmado casarão, ela estendeu seu corpo com a paixão do fogo e a ternura da terra.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula